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sábado, 10 de setembro de 2016

4157) O mistério do 11 de setembro (10.9.2016)




(foto: Richard Drew / Associated Press)

Quando aconteceu o atentado às Torres Gêmeas, eu fiquei pregado à TV durante um dia inteiro, porque justamente na véspera um pequeno problema de hardware me deixara sem acesso à Internet. (Fiquei irritado porque 11 de setembro era a data marcada para o lançamento do álbum Love and Theft de Bob Dylan, e eu queria ver os clips de lançamento.)

Na época eu fazia freelancer para a Editora Guanabara, que estava para lançar um Atlas Histórico ligado à Enciclopédia Delta; e minha editora Liana Pérola Schipper me encomendou uma matéria longa, especial, sobre o assunto. Nos dias seguintes, resolvido o problema de conexão, eu praticamente não fiz outra coisa senão ler e capturar textos e imagens a respeito da catástrofe do WTC.

(Digressão: acho que isto é uma resposta neurótica comum, em mim pelo menos, diante de um fato esmagador e terrível. O processo de juntar e organizar informações sobre o fato de certa forma nos protege do perigo de pensar sobre ele. É uma fase intensa mas passageira.)

Quando o indivíduo é leitor de romance policial e de ficção científica, não há como não ser um cultor, em certa medida, das Teorias da Conspiração.

A literatura policial nos ensina que não há um limite visível para a cobiça humana por dinheiro, nem para as maldades que seres humanos são capazes de fazer para ter mais Poder. A ficção científica expande esse conceito para o Universo como um todo.

Li na época uma entrevista com um dirigente da CIA em que, depois de explicar mais ou menos (ainda se estava em plena investigação) como os terroristas tinham sido treinados para usar os aviões e tudo o mais, ele disse:

“O que me deixa mais acabrunhado é pensar que nós (a CIA) não teríamos ousado pensar num plano como este, e, se pensássemos, não teríamos acreditado que era possível.”

Modéstia do rapaz. Eu atribuo à CIA (e se não foi a CIA foi alguma outra agência da “sopa de letrinhas” de que falava John Michael Hayes, o roteirista de Intriga Internacional) um plano ainda mais mirabolante do que o de meia dúzia de jihadistas sequestrando o cockpit de três ou quatro aviões.  (Digo 3 ou 4 porque até hoje não vi o famigerado “avião” que teria sido jogado no Pentágono.)

Este link (http://www.europhysicsnews.org/articles/epn/pdf/2016/04/epn2016474p21.pdf) conduz a uma matéria do saite Europhysics News sobre o atentado, intitulada: “15 Years Later: On The Physics Of High-Rise Buildings Collapses”, de Steven Jones, Robert Korol, Anthony Szamboti e Ted Walter.

O cerne da questão é: como se explica que as duas Torres, que tinham estrutura de metal, tenham desmoronado daquela forma, se todos os testes provam que a temperatura daquele fogo seria insuficiente para fazer ceder o metal? E mais ainda: como se explica que o WC7, o terceiro prédio a desmoronar naquele dia, tenha aluído praticamente todo ao mesmo tempo, horas depois do choque dos aviões?

Já escrevi a respeito, aqui:



Em matéria de história mal contada, o World Trade Center nunca vai deixar de assombrar nossas noites mal dormidas. Mal contada – não por escassez de explicações, mas pelo excesso. A melhor maneira de esconder uma informação não é proibindo que seja divulgada, é disfarçando-a no meio de uma selva de informações irrelevantes e parecidas. (Aprendi isto com Agatha Christie.)

Poucos acontecimentos do novo século podem se comparar ao impacto da queda das Torres. Mesmo a Guerra do Iraque e a do Afeganistão, que se seguiram, foram guerras convencionais, iguais a qualquer outra guerra.  O atentado do 11 de setembro teve acima de tudo o impacto do ineditismo, do nunca-acontecido, do fato que estourou-a-costura da nossa imaginação.

Talvez um dia seja confirmado que a queda das Torres não se deveu à ação de terroristas islâmicos, e foi na verdade uma gigantesca queima-de-arquivo de empresas privadas e do Governo que estavam metidas em enrascadas mil, além de uma excelente oportunidade de sofrer um ataque estrangeiro que obriga a um revide imediato, como em Pearl Harbor.

Há muitas teorias de que na II Guerra os EUA precisavam de um pretexto para entrar numa guerra que a população via com distanciamento, e adotaram uma atitude passiva-agressiva, pedindo ao Japão: “Me dê motivo”.  Os japoneses, em sua euforia expansionista, caíram na armadilha e bombardearam o porto.

Se confirmarem um dia que os próprios EUA derrubaram as Torres, este fato será tão relevante e tão impactante quanto a queda das Torres, quinze anos atrás.

E será uma revelação crucial sobre a natureza de nossa civilização: uma civilização em que qualquer história gigantescamente absurda pode ser impingida como verdade à população, durante uma quantidade de tempo finita (mas suficiente para os objetivos estratégicos imediatos).






terça-feira, 29 de setembro de 2015

3931) O enigma nas letras (29.9.2015)




Em Arsène Lupin, Ladrão de Casaca, a primeira coletânea de contos do gentleman-assaltante-detetive criado por Maurice Leblanc, grande sucesso do romance policial entre 1905-1935, há um conto em que o mistério repousa numa fórmula antiga, preservada através das gerações.

Convidados importantes estão no castelo de Georges Devanne, admirando “as incomparáveis riquezas acumuladas através dos séculos pelos senhores de Thibermesnil.” Numa das torres, Devanne mostra a todos o frontão da estante, onde o nome do castelo está soletrado com sólidas letras de ouro.

Vou omitir a aventura, subsequente, porque me interessa a frase da fórmula antiga. Ela diz, no original francês: “La hache tournoie dans l’air qui frémit, mais l’aile s’ouvre, et l’on va jusqu’à Dieu.”  Mais ou menos: “O machado gira no ar que treme, mas a asa se abre e vai-se até Deus.”  Durante séculos essa indicação do tesouro da família passou de geração em geração, transmitida com fervor por pessoas que já as receberam de quem não as compreendia. Eram as coordenadas do tesouro. Esperava-se que um dia algum descendente da família descobrisse o seu sentido.

Arsène Lupin percebe que os objetos citados na frase estão ali mascarando três letras, porque em francês é muito parecida a pronúncia de “hache” e H, “air” e R, “aile” e L.  Ele descobre que entre as sólidas letras de ouro por cima do frontão da estante monumental, dizendo THIBERMESNIL, existem três que são móveis: o H gira e o R treme e o L se abre. “E vai-se até Deus.”  Executando esses movimentos nas respectivas letras, abre-se a porta ancestral da passagem secreta, e vai-se até a capela do castelo por um subterrâneo. (Que Lupin utiliza para saquear as riquezas do castelo, no primeiro movimento dessa trama.)

O mistério vinha pelo menos desde o reinado de Henri IV (morto em 1610). A pessoa que cifrou a senha de abertura do mecanismo usou premeditadamente letras cujos nomes, ditos em voz alta, evocavam substantivos variados: machado, ar, asa. Era fácil construir uma estrutura memorizável em torno desses três substantivos, sem dar a entender que eles estavam ali apenas para representar três letras.

É um enigma engenhoso, porque se vale da superposição entre linguagem oral e linguagem escrita, usando uma para preservar pistas em outra. Neste conto, Lupin mede forças com Sherlock Holmes (no livro chamado Herlock Sholmes, por querelas autorais). O conto de Leblanc (1906) lembra “O Ritual Musgrave” (1893) de Conan Doyle, também sobre uma fórmula preservada mas não compreendida. Mas Leblanc vai um passo além de Doyle, como bom discípulo, e introduz uma criptografia de natureza mais original.



terça-feira, 14 de maio de 2013

3186) 16 mistérios (15.5.2013)




De quem era o número de telefone que o detetive Kingsley levava anotado num papel quando foi abatido a tiros na esquina de Oitava Avenida com rua 43? 

O que pretendiam os ladrões que arrombaram o Rijksmuseum em abril de 1976, sem nem sequer tocar em inúmeras telas valiosíssimas, e roubando apenas a obscura Telêmaco brinca na praia (1825) de Jacobo Mirotsky, que nunca foi recuperada? 

Por que motivo os mergulhadores do litoral paulista examinam todos os galeões naufragados naquela região, mas por uma espécie de consenso silencioso não se aproximam jamais dos restos da nau de Afonso Quartim, afundada por uma tormenta em 1647?

Quem deixou aberta naquela noite a janela do lado do motorista do carro do Dr. Sérgio, facilitando o posterior arrombamento e o roubo do aparelho de som onde ele, na volta para casa, deixou plugado o pendraive onde estava gravada a reunião dos acionistas, encerrada há pouco? 

Em que base militar sub-orbital estão vivendo e sendo analisados pela ciência a tripulação e os passageiros do “Mary Celeste”? 

Quem foi o homem preso num buraco e executado às pressas em nome de Saddam Hussein? 

O que disse Heloísa Binelli na longa mensagem de 11 minutos que deixou gravada na secretária eletrônica de seu noivo Rafael, antes de se suicidar, e que ele, sem perceber, apagou sem ouvir?

Quanto custou, afinal, a fazenda que Alípio Monteiro vendeu ao próprio sogro, e com o dinheiro recebido comprou a própria fazenda de volta e mais duas? 

Quem construiu as enormes plataformas submarinas com degraus por onde poderiam subir milhares de pessoas, e que hoje jazem submersas no Mar do Japão? 

Por que a palavra “adumptarelli” desapareceu do italiano moderno mercê de um simples decreto de um Papa no século 18? 

Onde está escondida a correspondência entre Lee Oswald e Jack Ruby nos seis meses que precederam o Caso Kennedy?

Quem estrangulou, no trajeto entre o 33o. andar e o térreo, o ascensorista encontrado morto no elevador do prédio da Sears na praia de Botafogo?  

Por que Nilcéia disse a Raimundo que não era prima de Rute, sem saber que ele conhecia a família dela e achou que mentindo ela revelava ter preconceito racial? 

Em poder de quem estão atualmente as máscaras de chumbo usadas por Manoel Pereira e Miguel Viana quando morreram em 20 de agosto de 1966, em Niterói? 

Quando será descoberto o cofre de mogno enterrado pelo coronel Pamplona embaixo da soleira de sua fazenda em Mirassol, contendo cartas e diários escritos por ele durante a fracassada Revolução da Foice? 

Como foi decidida a demarcação de fronteiras que cedeu ao Brasil o Pico da Neblina, com todas as consequências geopolíticas que isso terá no século 22?










quarta-feira, 7 de março de 2012

2811) O Poço do Dinheiro (7.3.2012)




Existem dois tipos de mistério, o mistério sobrenatural (que envolve espíritos, almas, etc.) e o mistério natural (que se reduz ao mundo da matéria). Este segundo tipo se divide em mistérios fantásticos e mistérios realistas. Os fantásticos incluem coisas que, se confirmada sua existência, mudariam nossa visão do mundo (sem envolver nada espiritual): o monstro do Lago Ness, a Atlântida, por exemplo. Os mistérios realistas envolvem apenas segredos, enigmas, etc., nada que mude nossa visão das ciências; são os mistérios históricos. Quem foi Kaspar Hauser? Quem era o Prisioneiro da Máscara de Ferro? Quem foi o Embuçado que avisou os inconfidentes mineiros que seu plano fôra descoberto? São fatos isolados, específicos, cuja solução em nada alteraria os paradigmas da Ciência humana.

Um dos mais interessantes é o que Rupert Furneaux chamou, em seu livro Grandes Mistérios da Humanidade, o Poço do Dinheiro. Em 1795, alguns rapazes descobriram em Oak Island (uma ilhota em Nova Escócia, na costa do Canadá) o que parecia ser uma escavação circular, como um poço soterrado. Iniciaram então uma “busca ao tesouro” que durou o resto das suas vidas, atravessou os séculos 19 e 20, e continua até hoje (veja o saite: http://www.oakislandtreasure.co.uk/). Toda a engenharia contemporânea não foi capaz de chegar ao fundo desse poço onde já foram encontrados vários tipos de artefatos (o que é de se esperar) e numerosas camadas protetoras de madeira ou de pedra indicando que quem enterrou algo ali cercou-se de enormes precauções para que aquilo não fosse descoberto. Talvez já se tenham gasto milhões de dólares na escavação desse poço, mas cada vez que se vai mais fundo ele é inundado pela água do mar (que fica próximo) por um “sofisticado sistema de túneis protetores”.

O que diabo pode haver ali? Talvez dinheiro dos piratas ou dos revolucionários do século 18. As teorias mais delirantes falam no Santo Graal, na Arca Perdida da Aliança, nos segredos dos Templários, e até (não estou brincando) na prova de que as peças de Shakespeare foram escritas por Sir Francis Bacon. A teoria mais cética diz que aquilo é apenas um sumidouro, uma terra alagadiça que desmorona sobre si mesma sempre que é escavada, e que engoliu artefatos dos antigos pioneiros ou de marujos que fizeram ali algum ponto de apoio provisório. O Poço do Dinheiro é um mistério natural (ninguém sugeriu explicações espirituais) e realista, porque o que quer venha a ser encontrado dificilmente mudará nossa visão do mundo. A menos que seja uma antecâmara para a cripta submarina em R’lyeh, onde Cthulhu prepara, sonhando, o seu retorno à Terra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2471) O mistério Krapotkin (4.2.2011)



“A semelhança eufônica com o nome do famoso anarquista poderia explicar, em parte, o relativo ostracismo a que o escritor russo-brasileiro Krapotkin foi estranhamente relegado", comentou o crítico J. Silveira sobre o fato de que até o Google localiza com dificuldade as (poucas) páginas dedicadas ao excêntrico romancista. Criador de uma Oulipo “avant la lettre”, e várias vezes comparado a Borges (cuja obra aparentava desconhecer ou desdenhar), ele não tem relação com Piotr Kropotkin (1842-1921), reverenciado por anarquistas e libertários do mundo inteiro, principalmente entre os jovens (ainda hoje, em manifestações contra o G-8, em Davos ou em qualquer parte, veem-se jovens “punk” com cabelo moicano azul empunhando posters do barbudo e atarracado pensador russo). Já o escritor, Nikolai Krapotkin (1916-1995), teve a possível má sorte de emigrar em 1945 para o Brasil, onde produziu sua obra e onde se enterrou para sempre no âmbar translúcido da nossa língua, que se tornou para ele, como para tantos outros, “esplendor e sepultura”.

“Há um poço subterrâneo, de trajeto caligráfico, ligando Rússia e Brasil”, escreveu Krapotkin num artigo publicado em 1961 na Revista do Livro, “uma corrente de energia psíquica entre territórios tão apartados e distintos; ela produz a mesma crispação cósmica arrebatando o intelecto, a mesma fascinação com a clareza da álgebra e com as sombras do incognoscível”. Krapotkin publicou aqui Ouroboros (1965), Mardi Gras (1972), O Livro dos Jogos (1978) e o póstumo (inacabado) O Livro das Superstições (2011). Seu roteiro de ficção científica O Livro Invisível (não filmado, publicado em 1990) só pode ser chamado de FC, segundo um crítico, “no sentido em que Alice in Wonderland pode ser chamado de literatura infantil”.

Krapotkin era um escritor fora-de-esquadro (a seu respeito, ver: http://tinyurl.com/4nf5f28). Com notória facilidade para idiomas (escrevia nas principais línguas européias), utilizava de modo surpreendente o português, desconcertando e divertindo o leitor. Contudo, sua principal força não é no nível estilístico, mas no estrutural. Assim como Italo Calvino, Harry Stephen Keeler ou Milorad Pavich, sua originalidade estava principalmente na estrutura interna da narrativa e no modo como organizava a sucessão de peripécias. Seu uso de cartões perfurados, como os dos antigos programas de computador, foi visto por alguns críticos como uma influência de Nabokov; mas essa semelhança superficial foi desmentida por Antonio Biely num artigo da saudosa revista Nicolau, de Curitiba.

Um grupo de abnegados está exumando a obra de Krapotkin, grande parte da qual (como sua volumosa correspondência literária, meticulosamente preservada em cópias carbono) continua inédita. Especula-se também sobre sua utilização de pseudônimos, pois mais de uma vez queixou-se de que seu verdadeiro nome era visto com desconfiança pelo leitor brasileiro.

domingo, 16 de maio de 2010

2046) David Lynch (29.9.2009)



Tempos atrás, juntei-me a uma fila de mais de cem pessoas, numa livraria do Rio de Janeiro, para pegar um autógrafo do cineasta David Lynch, que esteve no Brasil lançando seu livro mais recente. Comprei o livro, e meu filho pegou seu autógrafo no DVD de Eraserhead, o primeiro filme (e certamente o mais bizarro) da obra do diretor de O Homem Elefante, Twin Peaks, Veludo Azul e Cidade dos Sonhos. Lynch veio aqui para lançar um livro de anotações e reflexões sobre meditação transcendental, que ele pratica há décadas. O livro é dedicado ao Maharishi Mayeshi Yogi, acho que o mesmo que passou um tempo levitando com os Beatles no auge do sucesso.

David Lynch é o Luís Buñuel dos EUA. Por mais diferentes que sejam um do outro (e nem sei se o americano gosta dos filmes do espanhol) os dois têm em comum o gosto pelo imprevisível, pelo inexplicável. Não há nem pode haver nenhuma explicação racional que “feche a conta” de um filme de Lynch ou de Don Luís. Eles sempre deixam resto. Sempre deixam uma margem de obscuridade que nenhuma razão ilumina. E nessa margem de obscuridade estão ocultos conceitos centrais sobre a história narrada; o fato de que não podemos explicá-los faz com que qualquer explicação sobre a história esteja eternamente dependendo dessas variáveis que não conseguimos definir.

Os filmes de Lynch são mórbidos e doentios. E no entanto eles me parecem menos mórbidos e doentios do que os filmes estrelados por Chuck Norris e Steven Seagal. Por que? Os filmes destes últimos se baseiam numa equação muito simples: o mundo é um lugar selvagem, violento, cheio de gente má, e a única maneira de sobreviver nele é ser mais selvagem, mais violento e mais mau do que os que nos ameaçam. (Preciso citar Augusto dos Anjos, mais uma vez?) Já os filmes de Lynch nos dizem que o mundo é um lugar estranho, desagradável, inexplicável; e que o ser humano é uma espécie de trapo pensante flutuando na correnteza de um esgoto e fazendo gestos incompreensíveis para os ratos que o observam das margens.

Lynch é uma espécie de Samuel Beckett “pop”. Existe nos dois a mesma repulsa instintiva pelo corpo humano, pelo sexo, pelas funções fisiológicas, pelo mero fato de sermos feitos de carne e termos as necessidades da carne. Beckett explora essa visão-do-mundo num contexto de vanguarda e de máxima rarefação da linguagem, desbastando-a até o minimalismo. Lynch explora esses temas no contexto tecno-barroco do cinema comercial americano; em vez de limar a linguagem até não deixar quase nada, ele a destrói de dentro ao multiplicá-la, porque multiplica os curto-circuitos narrativos, deixando desnorteado o espectador de filmes como “A estrada perdida”. Beckett acha a vida humana absurda e isto o faz sofrer, o reduz ao silêncio. Lynch também acha, mas isto de certa forma o diverte. Em vez de reduzir-se ao silêncio, ele dinamita o discurso pelo lado de dentro, e faz um cinema americano que é a negação do cinema americano.

sábado, 1 de maio de 2010

1982) Moiré, o infotografável (16.7.2009)



(Moiré, à esquerda)

Existem pessoas não-fotografáveis, pessoas cuja imagem, por alguma razão, é impossível captar através das câmaras? Um artigo de Lytle Shaw, publicado no Cabinet Magazine (http://www.cabinetmagazine.org/issues/7/ernstmoire.php) diz que era justamente isto que acontecia com o fotógrafo suíço Ernst Moiré (1857-1929). As fotos de Moiré que sobrevivem (e que Shaw reproduz em seu artigo) mostram imagens distorcidas. Uma interferência visual impede que seus traços sejam corretamente captados pelas lentes ou reproduzidos depois no papel fotográfico. Segundo ele, Moiré deu seu nome ao efeito muito conhecido nas artes visuais, em que duas séries justapostas de linhas paralelas produzem um efeito de ondas ou de curvas distorcendo as linhas que as compõem.

Ou teria sido o contrário? O efeito já existia, e Shaw, numa jogada borgiana que hoje já virou lugar comum (eu mesmo a emprego a três por dois) inventou um autor fictício para justificar o nome? Diz ele que Moiré existiu, sim, e que, segundo o governo suíço, um fotógrafo chamado Moiré era considerado, na Suíça dos anos 1920, como impérvio à fotografia, e que esses seus desaparecimentos bizarros tornaram-se uma fonte de orgulho nacionalista. Moiré era louvado, por ser um Ludita anti-tecnológico, pelos membros anti-modernistas da cultura popular suíça, por essa sua “neutralidade visual” que driblava o rigor tecnológico. Diz-se (continua Shaw) que os arquivos municipais de Zurique abrigam uma coleção de fotografias em que aparece uma figura borrada, “ilegível”, que seria em todos os casos o próprio Moiré.

O artigo de Shaw prossegue relatando sua ida a Suíça, financiada pelo “Cabinet Magazine”, sua exumação do passado da família Moiré, e sua descoberta de outros detalhes enigmáticos da vida do fotógrafo, como o fato de que costumava não assinar os próprios documentos, e de que fez várias descobertas técnicas no campo da reprodução fotográfica mas foi incapaz de patenteá-las, sendo sistematicamente ultrapassado por outros pesquisadores que, hoje, figuram nos livros de História. A criação do termo “efeito Moiré” deveu-se a um erro de impressão (placas fotográficas mal alinhadas, produzindo um borrão) num trabalho para o governo; o sócio de Moiré, Willi Ostler, tentou esquivar-se à fúria do contratante dizendo que o defeito de impressão tinha sido culpa de Moiré.

Bem, não posso resumir aqui todo o longo artigo de Shaw. Seja ele verdadeiro ou seja uma “pegadinha” borgiana, o fato é que o tema do indivíduo infotografável foi retomado por Bruce Sterling em sua série de histórias sobre o personagem Leggy Starlitz, uma espécie de herói picaresco do século 21, eternamente envolvido com contrabando, negociatas, espionagem industrial e política. Toda vez que alguém tenta fotografá-lo ou filmá-lo, a máquina enguiça. Por que? O próprio Starlitz não sabe. Pode ser o efeito Moiré: o fato de que o Mito só é visível para a mente.

segunda-feira, 22 de março de 2010

1815) Os subterrâneos dos maias (2.1.2009)



(subterrâneo em Chavín de Huántar)

As civilizações pré-colombianas são um livro semi-destruído do qual só foram lidas umas poucas páginas. Quando os primeiros exploradores chegaram a Macchu Picchu em 1911, o mundo se espantou diante das fotos daquela cidade em ruínas mas intacta, perdida entre a selva e as nuvens. Foi a última descoberta de grande impacto, mas desde então inúmeros outros mistérios vêm sendo encontrados e (às vezes) esclarecidos pelos arqueólogos.

Uma característica importante dessas culturas, que a cada década fica mais clara, é o uso que faziam de cavernas e subterrâneos, aproveitando a região montanhosa e cheia de cavidades. Arqueólogos descobriram este ano um complexo de cavernas submersas interligadas com túneis acima do nível da água, incluindo uma estrada subterrânea com cerca de 100 metros de comprimento, tida como o caminho para um reino mítico subterrâneo chamado Xibalba. De acordo com o Popol Vuh, livro sagrado dos maias, esse caminho vivia cheio de obstáculos, inclusive rios cheios de escorpiões, de sangue e de pus, além de habitações escuras cheias de morcegos. Penetrar ali equivaleria mais ou menos (penso eu) a descer fisicamente ao reino dos infernos.

Essas descobertas coincidem com pesquisas nas ruínas de Chavín de Huántar, nos Andes peruanos. O povo Chavín é anterior aos maias e aos incas. Seus templos cujas ruínas são agora exploradas foram construídos entre 1300 e 600 a.C., e foram terminados mais ou menos na mesma época em que Nabucodonosor estava construindo os Jardins Suspensos de Babilônia. Os pesquisadores descobriram um intrincado labirinto subterrâneo, com planos superpostos e numerosos túneis. As paredes internas têm imagens talhadas na pedra, e os efeitos acústicos do local são impressionantes. Os pesquisadores imaginam que uma cerimônia de iniciação da época consistia em fazer o indivíduo tomar um chá alucinógeno (cacto de São Pedro) e conduzi-lo no escuro através do labirinto de túneis, enquanto trombetas aproveitavam a reverberação das galerias para produzir um efeito aterrorizante.

William Burroughs, que estudou drogas “in loco” e tinha uma curiosidade específica pela cultura maia, confirma isto indiretamente. Para ele, a sociedade maia se baseava numa dominação completa da população por parte dos sacerdotes, que exerciam sobre o povo um poder quase hipnótico. A julgar pelo que diz Burroughs, o calendário e as drogas eram dois instrumentos cruciais da manutenção do poder. Os sacerdotes maias mantinham a população praticamente hipnotizadas pelo uso experiente desses recursos. A realização de festivais periódicos – que possivelmente incluíam experiências como as descritas acima – lhes dava um controle antecipado sobre a população. Os sacerdotes controlavam o calendário, forneciam drogas, aterrorizavam indivíduos-chave com experiência incompreensíveis, sugeriam estar de posse de super-poderes e em diálogo direto com deuses sanguinários. Precisa mais?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1579) Grillet e o cine romance (4.4.2008)




Depois do sucesso de O Ano Passado em Marienbad, Alain Robbe-Grillet passou a ser disputado como roteirista por vários cineastas. Ele conta seu encontro com Michelangelo Antonioni. “Nós nos entendemos muito bem no começo,” diz ele. “Mas então eu comecei a descrever-lhe o roteiro que tinha em mente: Quando o filme começa, vê-se na tela...” Antonioni o interrompeu: “Conte-me a história. Eu resolvo o que se vê na tela”. Grillet conclui: “Mas isto era impossível para mim. Eu não sei pensar em termos de história. Só sei pensar no que alguém vê ou ouve”.

Antonioni era um cineasta da velha escola, sem muita capacidade fabulatória (para inventar histórias interessantes), mas dotado da capacidade de contar histórias alheias em imagens inesquecíveis. Quando Grillet se oferecia para fornecer as próprias imagens, surgia o impasse. Era como numa parceria em que Antonioni se dispunha a colocar música numa letra do outro, e o outro já lhe trouxesse a letra com melodia pronta.

A maioria dos obituários escritos a respeito de Grillet quando da sua morte semanas atrás referia-se a ele como alguém famoso nos anos 1960 mas hoje esquecido. Pode até ser que seus livros não venham sendo reeditados ou traduzidos; mas a sua linguagem infiltrou-se de forma pervasiva em toda a literatura de hoje. Onde quer que nos deparemos com a tal literatura “câmera + gravador”, ali está a marca do criador do Nouveau Roman francês. É cada vez maior na literatura de hoje a presença de autores com intensa memória ou imaginação visual, autores que com esse talento formatam todo um estilo de expressão.

Georges Perec, em As Coisas ou em A Vida Modo de Usar elevou ao quadrado essa veia descritiva de Robbe-Grillet. Perec tem uma riqueza verbal espantosa, e uma mistura de imaginação e memória visual que fazem dos seus livros uma das literaturas mais visuais do nosso tempo, em que ambientes, pessoas e objetos são descritos com uma excepcional eficácia. Para contrabalançar esse voyeurismo compulsivo, Perec é também um excelente inventor de enredos, de peripécias, de complicadas interferências da história do personagem A na história do personagem B, que por causa disto interfere em C, que interfere em D, e assim por diante.

O que salva a literatura de Grillet de uma monotonia insuportável é sua propensão ao mistério, que faz com que possa aplicar-se a boa parte dela o que ele diz da literatura de Raymond Roussel: “O mistério é um dos temas formais mais prazeirosamente utilizados por Roussel: procura de um tesouro oculto, origem problemática deste ou daquele personagem, ou de tal objeto, enigmas de toda espécie apresentados a todo instante tanto ao leitor quanto ao herói sob a forma de adivinhações, de charadas, de colagens aparentemente absurdas, alusões, caixas de fundo falso, etc.” Num mundo como o dele, em que tudo é intoleravelmente nítido, o mistério está nas conexões entre o que é visto, na razão de ser do que se fez presente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

1444) O ponto enigmático (30.10.2007)


Existem dois tipos de narrativas de mistério. O primeiro obedece ao que eu chamo de Protocolo da Resposta. Nestas histórias, um mistério é proposto no início, e esclarecido no final. O prazer estético resulta da comparação entre a complexidade do mistério e a engenhosidade da solução. O segundo tipo obedece ao Protocolo da Pergunta. Nele, o mistério é exposto mas não é resolvido no final; a narrativa se encerra com a pergunta ainda no ar. Nestas histórias, o prazer estético resulta da tensão não-resolvida e da possibilidade de inesgotáveis leituras posteriores. Um dos maiores equívocos dos leitores e dos críticos é julgar os méritos de uma obra que obedece ao protocolo A pelos critérios do protocolo B, e vice-versa.

Eu aprecio por igual os dois tipos. Me formei como cinéfilo numa época em que o Protocolo da Pergunta reinava soberano. A gente não ia ao cinema para buscar respostas, mas para compartilhar indagações. E, curiosamente, esses mistérios sem solução não nos deixavam nervosos, impacientes, irritados. Pelo contrário, eram fonte de fascinação intensa e faziam com que esses filmes virassem companheiros de viagem. De vez em quando voltávamos a eles, para ver se tinham algo novo a nos dizer, e sempre, tinham – mesmo que nunca fosse A Resposta.

Em A Aventura de Antonioni nunca ficamos sabendo se a moça desaparecida na ilha deserta morreu, fugiu, ou o quê. Em O Ano Passado em Marienbad de Resnais nunca ficamos sabendo se aquele casal realmente tinha tido um caso amoroso no ano anterior (como insistia em afirmar o homem) ou se os dois não se conheciam (como insistia a mulher). Em Blow Up de Antonioni nunca ficamos sabendo quem era o homem cujo cadáver o fotógrafo registrou sem querer num parque, quem o matou, por quê, e até mesmo se de fato houve crime. Em O Anjo Exterminador de Buñuel nunca sabemos que força fez aquele grupo de milionários ficarem impedidos de sair da sala onde acabaram de se reunir.

Isto tem a ver, claro, com a literatura da mesma época. Em Os Prêmios de Cortázar nunca sabemos por que motivo os passageiros do navio são proibidos de acessar certas áreas do mesmo. Nos livros de Kafka, nunca ficamos sabendo por que motivo Joseph K foi preso, por que motivo o Conde de West-West não recebe o agrimensor em seu Castelo.

Cada história destas tem no centro um Ponto Enigmático, um vazio que não pode ser preenchido por explicações. As explicações são criadas, ajustam-se provisoriamente a ele, mas não o anulam. A fascinação do mistério, a possibilidade de lidar com coisas incompreensíveis, é um dos impulsos que nos aproximam das obras de arte e das grandes narrativas. Daí, talvez, o sucesso de séries como Arquivo X (que acompanhei por muitos anos) e Lost (que infelizmente nunca assisti). Nunca temos acesso a uma visão geral do que está acontecendo, e essa tensão entre a necessidade e a impossibilidade de “saber tudo” gera nos espectadores algo que é parecido com o amor.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

1437) Chão de giz (21.10.2007)


(o gigante de Cerne Abbas)

O título desta canção de Zé Ramalho sempre me lembrou as figuras misteriosas cujas fotografias vi pela primeira vez num livro intitulado O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke, em que o escritor inglês comenta fatos misteriosos e extraordinários como as aparições de OVNIs, do Monstro do Lago Ness, do Abominável Homem das Neves e assim por diante. Misturados a estas lendas estão alguns fatos curiosos mas sem mistério algum, a não ser o mistério histórico de quem os fez, como, e por quê. São aquelas inscrições vastas feitas no chão, às vezes com centenas de metros de comprimento, e que só podem ser vistas por inteiro por alguém que sobrevoe a região. Este detalhe levou especuladores como Erich von Daniken e outros a sugerir que tais figuras na paisagem seriam uma tentativa de comunicação com extraterrestres. Acho mais simples supor que os caras que fizeram as inscrições acreditavam que seu Deus ou seus deuses estavam no céu, e era a eles que os desenhos se dirigiam. Para imaginar que as divindades habitam o céu não é preciso ter feito contato com alienígenas, basta ter visto um céu estrelado à noite.

Algumas dessas imagens podem ser vistas em: http://www.youtube.com/watch?v=-7pJeHY-fLI. É um passeio virtual por imagens de satélite que mostram desde as Linhas de Nazca, no Peru, até um logotipo da Coca-Cola gravado no chão de um deserto chileno. No meio delas, aparecem as imagens do “chão de giz”, todas na Inglaterra. Dou-lhes este nome porque elas foram feitas em regiões onde o solo, a certa profundidade, é feito de material calcáreo e muito branco. Basta escavar e deixar à mostra uma certa extensão daquela camada, e é possível fazer desenhos de grande extensão em que as linhas brancas se destacam vividamente de encontro ao verde da vegetação rasteira. Por outro lado, requerem manutenção. Depois de prontas, é preciso que todo ano alguém fique limpando o local e evitando que o mato recubra a área exposta. Muitas figuras semelhantes já devem ter se perdido porque ninguém cuidou delas.

As figuras mais famosas são o Cavalo Branco de Uffington, o Homem Grande de Wilmington, e o Gigante de Cerne Abbas, o qual deve ter causado certo desconforto aos extraterrestres mais puritanos, por ser a imagem de um guerreiro nu com, digamos, a arma em riste. Há um saite com fotos de figuras assim, preservadas ou parcialmente desaparecidas, em: http://www.hows.org.uk/personal/hillfigs/. Obras assim nos comovem por terem sido feitas por indivíduos que nunca as viram por inteiro. Como os pedreiros das igrejas medievais, que nunca as viram prontas, eles trabalhavam tendo em mente uma imagem ideal, que era sua única inspiração e sua única fruição. Por incrível que pareça, o ser humano gosta disto. Gosta de trabalhar por algo que não desfrutará no futuro, seja porque a execução da obra ultrapassa seu tempo de vida, seja porque o formato final dela será inacessível à sua visão.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

1353) Mistérios e quebra-cabeças (15.7.2007)



Um artigo de Gregory Treverton na revista Smithsonian estabelece uma distinção útil – ainda que problemática – entre o que é um mistério e o que é um quebra-cabeças (“puzzle”). Diz ele: “Um mistério não pode ser resolvido; pode apenas ser enquadrado, quando identificamos os fatores cruciais e tentamos descobrir como eles interagiram no passado e podem interagir no futuro. Um mistério é uma tentativa de definir ambigüidades. Já os quebra-cabeças podem ser mais satisfatórios, mas o mundo de hoje nos oferece cada vez mais mistérios, e tratá-los como quebra-cabeças é tentar resolver o irresolvível, um desafio impossível. Se, contudo, nós os abordarmos encarando-os como mistérios, talvez possamos nos sentir mais à vontade com as incertezas de nossa época”.

Tudo parece girar em torno de uma questão principal. Um quebra-cabeças tem uma solução real e oculta, que não depende do observador. Já um mistério, em princípio, não tem “a resposta certa”, mas respostas aceitáveis em maior ou menor grau, e que sempre dependem da interpretação subjetiva do observador. Uma adivinhação ou uma charada, por exemplo, são quebra-cabeças. Têm uma resposta prevista pelo seu criador, e cabe à gente descobrir qual é. Uma adivinhação: “O-que-é o-que-é, que cai em pé e corre deitado?” Resposta: A chuva. Uma charada: “Água na ponta do osso – uma e uma (sílabas)”. Resposta: Água, com uma sílaba, mar; ponta, com uma sílaba, fim; osso, com duas sílabas, marfim. Isto são quebra-cabeças. Já um mistério seria, por exemplo, o significado do sorriso da Mona Lisa, ou a explicação da origem dos Objetos Voadores Não-Identificados. Não “há” uma resposta. Qualquer resposta é possível, e umas poderão ser mais adequadas do que outras, sendo que o veredito sobre o que é “adequado” é, também, subjetivo.

Transpondo esta questão para a política, Malcolm Gladwell, no The New Yorker faz uma comparação. O paradeiro de Osama bin Laden, por exemplo, é um quebra-cabeça: existe uma resposta concreta, pois ele está em algum lugar, mesmo que mude de esconderijo com freqüência. Os investigadores podem se queixar de escassez de dados, ou de dados contraditórios, mas podem ter a certeza de que existe uma resposta única, real, que pode vir a ser descoberta. Já um mistério seria, por exemplo, o que iria acontecer no Iraque após uma invasão norte-americana. Não há uma resposta concreta, única, para isto: há teorias, cenários, hipóteses, cada qual baseada em elementos diferentes e opiniões contraditórias. À medida que o tempo passa, algumas dessas respostas vão perdendo probabilidade e outras vão se tornando mais viáveis. Mas para uma questão dessa natureza não existe “a resposta”. A resposta está se formando no correr dos dias, dos meses, dos anos, e não existia no momento em que o problema foi proposto. Portanto, não é um quebra-cabeça: é um mistério.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

1287) Álgebra Mágica (28.4.2007)




(desenhos de Guimarães Rosa para o Grande Sertão: Veredas)

“Páramo” é um conto de Guimarães Rosa publicado postumamente na coletânea Estas Estórias

Alguns críticos o consideraram um conto místico, um dos mais misteriosos do autor, e ele o é, de certa forma, embora seja um conto realista, sem elementos fantásticos. Decorre, provavelmente, de experiências do próprio Rosa quando foi secretário de Embaixada em Bogotá, em 1942 e 1944. 

O narrador é transferido para uma cidade latino-americana, situada a certa altitude, e chega lá cheio de presságios funestos; passa a ter a visão recorrente de um “homem com jeito de cadáver”. Preso em profunda depressão, busca auxílio médico, e o doutor explica que são efeitos da altitude. Aconselha que faça caminhadas, e avisa de que ele estará sujeito a ataques de choro repentinos.

O narrador sai para caminhar, e leva consigo um Livro (assim, com maiúscula) que ele não diz qual, e que havia comprado na viagem. Um dia, o ataque de choro o surpreende no meio da rua, e para não chamar a atenção ele passa a acompanhar um enterro que está passando a pé. 

Segue o enterro até o cemitério, sempre chorando, e chegando lá se afasta. Passeia pelas alamedas desertas até se acalmar, e ao vir embora deixa o Livro, de propósito, em cima de um túmulo qualquer. Quando cruza o portão do cemitério, ele se depara com um homem que lhe diz: “Cavalheiro, o senhor esqueceu isto aqui...” – e lhe estende o Livro. Os dois trocam algumas palavras, desajeitados, e o narrador se afasta.

Aí vem a parte mais interessante, nos parágrafos finais. Ele diz: 

“Voltava, a tardos passos. Agora, a despeito de tudo, eu tinha o livro. Abri-o, li ao acaso: ... Eu voltava, para tudo. A cidade hostil, em sua pauta glacial. O mundo. Voltava, para o que nem sabia se era a vida ou se era a morte. Ao sofrimento, sempre. Até ao momento derradeiro, que não além dele, quem sabe?” 

E assim termina o conto. O mais interessante é que há um espaço em branco onde o narrador diz “li ao acaso...” Deveria haver aí o trecho lido por ele, mas o que há é uma nota de pé de página dos editores: “Há no original um espaço, para citação, que o Autor não chegou a preencher”.

Estas estórias foi publicado a partir dos originais deixados por Rosa em seu arquivo: um ou dois índices provisórios, e os textos dos contos, datilografados, com poucas correções feita a mão. E, pelo menos neste caso, espaços deixados para preencher depois – quando a morte o surpreendeu em novembro de 1967. 

E esta derradeira citação ficou em branco. Na famosa entrevista a Gunter Lorenz, Rosa classificou sua literatura como “álgebra mágica” (por contraposição a “realismo mágico”, o termo em voga na época). Em nenhum outro lugar esta expressão se aplica tanto quanto em “Páramo”. Qualquer texto utilizado para preencher esta citação final modificaria, decerto, toda a leitura do conto. Aquele espaço em branco é o “x” do problema, a incógnita final, e qualquer valor que a substitua modifica todo o conjunto.





1286) O mistério do Mary Celeste (27.4.2007)



Sou um “gourmet” de mistérios, ou seja, sou capaz não apenas de saboreá-los como também de comparar receitas, detectar influências e sugerir aperfeiçoamentos. Um mistério recente foi referido pela imprensa como um “novo Mary Celeste”, um dos mistérios insolúveis do século 19. Descreverei o básico; quem quiser mais detalhes veja aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Mary_Celeste. O Mary Celeste é um navio que em 1872 foi encontrado vagando à deriva na costa de Portugal. Ninguém estava a bordo: nem o capitão (que levava consigo a esposa e a filha) nem os sete tripulantes, Tudo estava aparentemente intacto; havia comida e água, não havia sinais de luta ou de abordagem por piratas ou algo parecido. Apenas um barco salva-vidas estava faltando. Há numerosas teorias para explicar o sumiço das dez pessoas, algumas bastante práticas e plausíveis, outras envolvendo (como é inevitável) a abdução por alienígenas. Uma bem interessante (talvez a primeira que li) é o conto de Conan Doyle, “A História de J. Habakuk Jephson”.

Dias atrás, um catamarã de 12 metros de comprimento foi encontrado na costa da Austrália. Seus três tripulantes estavam desaparecidos. Tudo no interior do barco parecia normal: coletes salva-vidas e equipamento de emergência estavam no lugar, o motor estava funcionando, havia comida servida sobre a mesa, e até um laptop estava ligado. Mas, cadê o pessoal? Em geral, as explicações mais simples são as que se revelam verdadeiras. Um dos tripulantes (que tinham 59, 63 e 69 anos) pode ter caído no mar e os outros dois pularam no bote para resgatá-lo; como o mar estava agitado, nenhum se salvou. Mas situações assim mexem com o nosso inconsciente, com a nossa fascinação angustiada diante de situações em que tudo parece normal mas existe um vazio aterrador no centro, uma falta, uma ausência.

A ausência inexplicável do Humano num contexto que deveria estar totalmente povoado de humanos (um navio abandonado, um prédio evacuado, uma cidade fantasma) é uma das imagens mais poderosas da Morte. Quando morre alguém que nos é muito próximo, temos que nos acostumar não com uma ausência, mas com milhares. Temos que olhar para o sofá onde aquele indivíduo sentava e vê-lo vazio pela primeira vez, e para sempre. Em vez de sentir a ausência de uma vez só, passamos a senti-la como uma sucessão de ausências específicas, personalizadas. Não está mais dormindo no quarto. Não está mais à janela. Não está mais lendo jornal no terraço. Não está mais tomando café à mesa. Não está mais chegando do trabalho e entrando pela porta. Serão dezenas, centenas de “pessoas” ausentes de um ambiente que, afora essa “multidão de desaparecidos”, parece normal, parece estar funcionando, com tudo aceso e ligado, ainda que vagando um pouco à deriva. O mistério do Mary Celeste é o mistério de como é possível que o mundo inteiro continue existindo e funcionando depois que morre alguém.

sábado, 29 de agosto de 2009

1228) Búzios, I-Ching e repente (18.2.2007)




(ilustração: www.thebluething.com)

Alguns sistemas divinatórios acreditam que cada momento que vivemos faz parte de uma harmonia cósmica que obedece a um certo “tom” ou diapasão. Cada instante do Tempo tem um fator que lhe é característico, algo como uma cor ou uma nota musical. 

Cabe ao adivinho captar esse fator e interpretar as ações passadas e futuras do consulente de acordo com esse vislumbre. Alguns jogam búzios, e interpretam o momento de acordo com as posições em que os búzios caem, as configurações que eles formam quando se imobilizam. 

Outros, que praticam o I-Ching, fazem o mesmo ao escolher varetas de diferentes extensões, ou ao atirar moedas, e com isto compor hexagramas de linhas inteiras ou partidas.

O que é a posição dos búzios, ou o hexagrama assim obtido? É uma polaróide daquele instante, e revela, para o olho treinado do adivinho, qual é o “clima” daquele momento, sugerindo assim de que maneira o cliente pode se comportar para estar em harmonia com o ritmo das coisas. 

O I-Ching pronuncia aquelas sentenças meio misteriosas, tipo “é conveniente atravessar a grande água” ou “o governante sábio pensa duas vezes antes de agir”. Isto não é, para quem acredita no sistema, um simples conselho – e conselho, afinal, qualquer um pode dar a qualquer um. É uma revelação sobre a dinâmica das forças do Universo naquele momento. Quem tem juízo marcha de acordo com ele.

O Repente tem algo em comum com estes processos. Feito na hora, no calor do momento, ele brota da mente de um poeta que está totalmente concentrado naquilo que faz, e compõe versos onde estão misturadas as suas emoções e as emoções da platéia, os assuntos que foram abordados até então, os acontecimentos da cidade e do mundo naquele dia, as pessoas presentes, os pequenos detalhes fortuitos que a todo instante se intrometem na cantoria. 

Tudo isto são búzios e mais búzios que o poeta sacoleja no juízo e joga para o ar, ou, mais precisamente, são palavras que é preciso agrupar sempre em forma de sextilha, cuja semelhança gráfica com um hexagrama chinês nunca deixou de me maravilhar.

Certa vez, numa cantoria entre Otacílio Batista e Oliveira de Panelas, no Bar Canarinho, anotei esta sextilha de Oliveira: 

Me rebolo como bola
me viro igual a bozó
de um lado sou como dado
do outro sou dominó
que se não tivesse os furos
seria uma coisa só.

É um ótimo verso, em que o poeta usa uma sucessão de formas geométricas. 

Primeiro a bola, que caia como cair sempre cai do mesmo jeito. 

Depois, o bozó ou dado, que é o contrário da bola, e a cada vez que é jogado cai revelando uma face diferente, servindo aqui como metáfora do próprio repente. 

E por fim o dominó, que não é jogado ao acaso, mas deve ser conectado às peças que já saíram antes, e que, como a sextilha, tem a obrigação de “pegar na deixa”, rimando (no caso, numericamente) com a peça da ponta. 

Será que o poeta pensou nisso tudo, ao compor o verso? Não importa. O Universo pensou por ele.





domingo, 21 de junho de 2009

1106) Os Nove Desconhecidos (1.10.2006)


(Gilbert Garcin: "L'Inconnu")

Entre as Teorias da Conspiração que circulam por aí, uma das mais curiosas é a dos Nove Desconhecidos. As fontes a respeito são contraditórias, ou melhor, caóticas e desencontradas, mas concordam num aspecto básico. Dizem que há muitos séculos existem no mundo nove indivíduos espiritualmente íntegros, detentores de um saber extraordinário e secreto, cuidadosamente guardado e transmitido através dos tempos. Algumas versões falam que cada um desses indivíduos é guardião de um Livro, o qual nunca pára de ser atualizado com novas descobertas.

Seriam nove livros contendo os segredos essenciais de nove ramos do conhecimento: 1) lingüística; 2) fisiologia; 3) microbiologia; 4) transmutação dos metais; 5) telecomunicações; 6) gravitação; 7) cosmogonia; 8) luz; 9) sociologia. Esta é uma das diferentes listas que são reproduzidas em livros e saites por aí. Me parece uma lista meio caótica, até porque os itens 6, 7 e 8 lidam com assuntos muito próximos e pela lógica científica deveriam constituir um único campo. Em todo caso, dizem que às vezes acontecem “vazamentos” de informações em alguma destas áreas. O Judô, por exemplo, teria tido origem num vazamento do Livro 2, onde se fala de técnicas que possibilitam matar ou imobilizar um indivíduo apenas tocando em seu corpo, sem o emprego de armas. A Alquimia Medieval teria sido outro vazamento, desta vez de processos contidos no Livro 4. E assim por diante.

Segundo outras interpretações, no entanto, a coisa é menos conspiratorial e mais filosófica. Os Nove Desconhecidos são um número meramente simbólico. Não existem “Livros” secretamente mantidos e atualizados – fico imaginando, aliás, quantos milhares de páginas teriam estes livros, a esta altura do campeonato.

A lenda dos Nove Desconhecidos assevera que deve-se a eles a sobrevivência moral da Humanidade, e o fato de que a nossa espécie ainda não tenha sido consumida pelas guerras, pelas pestes ou pelo caos social. Incógnitos, anônimos, humildes, eles trabalham em surdina, enquanto os governos, os exércitos e as corporações depredam o mundo. Mas não são apenas nove. São muitos mais.

Há uma narrativa sobre um sujeito que dedica sua vida a investigar esta lenda. Procurando aproximar-se dos detentores dos nove livros mágicos, ele estuda a fundo todas estas matérias, deduzindo que cedo ou tarde, se se aprofundar o bastante, seu caminho acabará cruzando com pelo menos um desses mestres. Torna-se muito respeitado entre os outros sábios, embora ninguém o conheça nos meios intelectuais, nas cortes, no meio da nobreza. Já bem velho, perto de morrer, alguém lhe traz, para traduzir, um documento escrito num idioma obscuro, garantindo-lhe ser a prova concreta da existência de um dos Nove Desconhecidos; é a biografia completa de um deles. Quando começa a ler, ele descobre ali a história de sua própria vida. Ele era um dos sujeitos que mantinham viva a sabedoria e a honestidade.

domingo, 7 de junho de 2009

1079) Dirac e Forster (31.8.2006)




(Paul Dirac, E. M. Forster)

O físico Paul Dirac foi um sujeito meio caladão, o tipo do cientista distraído e ensimesmado. Uma vez foi à União Soviética para dar uma palestra sobre “A Filosofia da Física”. Ele foi ao quadro-negro e escreveu: “As leis físicas devem ter beleza matemática e simplicidade”. E nada mais disse nem lhe foi perguntado. Não precisava, né? 

Dizem que é dele também uma definição famosa sobre a diferença entre Ciência e Poesia: “Ciência consiste em dizer às pessoas, de modo a ser entendido por todas elas, alguma coisa que ninguém tinha pensado antes. Poesia consiste em fazer o contrário disto”. E por mim está uma definição de bom tamanho.

A Ciência procura a beleza, a simplicidade, a clareza. As definições científicas parecem difíceis para leigos como nós porque são uma linguagem, e qualquer linguagem precisa ser aprendida para que se consiga perceber o que tem de novo ou de belo. Expor leis científicas é dizer algo que ninguém tinha sabido ainda, e dizê-lo de uma maneira clara, simples, inteligível. 

Já a Poesia consiste em revelar sentimentos e idéias que fazem parte do enorme tumulto semi-consciente em que qualquer ser humano medianamente lúcido vive mergulhado, e fazer essa revelação de uma maneira simultaneamente clara e obscura, cheia de revelações mas ao mesmo tempo cheia de mistérios, dizendo alguma coisa que nos parece inestimavelmente valiosa mas ao mesmo tempo mostrando que nem tudo ainda foi dito, e que a cada vez que retornarmos àquele texto talvez haja uma revelação nova à nossa espera.

Diz-se que certa vez amigos da Universidade de Cambridge viram no escritório de Dirac um exemplar do romance de E. M. Forster Passagem Para a Índia, e patrocinaram o encontro entre o físico e o escritor, que era 23 anos mais velho. 

Os dois puseram-se a tomar chá, sem dizer nada, até que a certa altura Dirac perguntou; “Afinal o que aconteceu na caverna?”, ao que Forster respondeu: “Não sei”. E a conversa terminou aí. 

Dito assim, a seco, o episódio parece um desencontro, mas eu não acho. Todos dois sabiam que estavam lidando com categorias semelhantes de fenômenos. A pergunta de Dirac se refere ao episódio central do romance, quando uma jovem inglesa, em passeio pela Índia, é acompanhada por um guia local até o interior de uma caverna. Algum tempo depois ela foge dali, meio histérica, dizendo que ele tentou violentá-la. O indiano se defende, dizendo que não tentou nada, e acaba indo a julgamento.

Para Forster, mais importante do que dizer se a tentativa de estupro acontecera ou não era deixar o episódio envolto numa zona de mistério, para que o livro admitisse sempre duas leituras contraditórias, mutuamente excludentes. 

É mais ou menos o que faz a Física Quântica, de que Dirac foi um dos criadores. Existem aspectos da Natureza que nunca sabemos se são assim ou assado, e o modo que escolhemos para examiná-los determina a resposta que vamos obter. O que há dentro da caverna? Aquilo que fomos procurar.






terça-feira, 2 de junho de 2009

1065) Casas mal assombradas (15.8.2006)





Tudo pode ser explicado cientificamente. Ruídos estranhos à noite, então, nem se fala. O vento ao entrar por frestas estreitas produz silvos, produz chiados. Quando ele passa por algum trecho onde há pedaços de madeira meio soltos, eles vibram, tatalam, criam um som parecido com o do bater de asas de uma mariposa das grandes ou um morcego dos pequenos. 

Correntes de ar costumam derrubar pequenos objetos num aposento vazio: uma revista, um chapéu, um porta-retratos com a foto de alguém que já faleceu. Também são responsáveis por aquelas quedas momentâneas de temperatura que provocam um calafrio – aparentemente inexplicável, porque segundos depois a temperatura volta ao normal, e a pessoa sente-se arrepiada da cabeça aos pés.

Casas antigas, com assoalho ou paredes de madeira, têm sua respiração própria, composta de dilatações e contrações. 

A madeira se expande e se contrai o tempo inteiro, algo que não é percebido durante o dia, com pessoas em movimento, rádio ligado, ruídos constantes. Mas à noite, quando todo o resto silencia, conseguimos escutar aqueles estalos, aqueles rangidos, aqueles barulhos repentinos que nos dão a idéia de pés invisíveis mas pesados premindo as tábuas do andar superior.

Isto para não falar nas criaturas que as grandes casas, e até os apartamentos modernos, costumam abrigar. 

Baratas parecem silenciosas, mas só quando as vemos cruzando os ladrilhos de cerâmica das paredes ou do assoalho. Elas produzem ruído quando correm por dentro dos armários, desequilibrando os talheres empilhados uns sobre os outros, fazendo roçagar as folhas de jornal que forram as prateleiras embaixo da pia, roçando de encontro aos ruidosos sacos plásticos que nas casas modernas se amontoam em todos os recantos. 

Baratas são responsáveis por muito daquele burburinho inquietante que percorre a madrugada; para não falar nos ratos.

Luzes estranhas? Reflexos dos faróis dos carros que passam na estrada, lá longe. Portas que se abrem sozinhas? O vento, mais uma vez. Uma pilha de panelas e pratos que desmorona com estardalhaço, numa cozinha deserta? Mais uma vez a mudança de temperatura, que contrai minimamente a louça ou o metal, até fazer colapsar o amontoado inteiro. Objetos colocados num lugar, que aparecem em outro? Distrações, quebras de memória.

Silhuetas ectoplásmicas, fosforescentes, que brotam sob o dossel da cama? Efeito da brancura dos lençóis sobre uma retina fatigada e sensível. Rostos cadavéricos e mãos descarnadas que surgem na vidraça, querendo entrar? Mera ilusão de ótica, alterando a imagem das árvores e das cercas lá fora. 

Criaturas de pesadelo que agarram nossos cabelos, rasgam nossas roupas, cravam em nós seus caninos aguçados e suas unhas recurvas? Meras alucinações, estados alterados da consciência, mistura imprudente de uísque, cachimbo e romances góticos após a meia-noite, horário em que, vamos e venhamos, certos portais da Mente deveriam permanecer fechados.







quinta-feira, 21 de maio de 2009

1039) O mistério da arte (15.7.2006)



O saite Metaphilm” (http://metaphilm.com/index.php) é uma mistura de portal e blog onde sempre estão aparecendo boas discussões teóricas sobre cinema. Recentemente, colhi por lá algumas reflexões que vêm ao encontro de uma antiga tese minha, que pode ser resumida assim: “Não espere de uma obra (um filme, um livro, um quadro) uma solução completa, uma sensação de que não há mais perguntas a serem respondidas”. Uma obra de arte deve nos dar algumas respostas, mas deve continuar sempre a dar uma impressão de incompletude, de que ficou faltando alguma coisa, de que ainda não sabemos a história toda, de que há um processo ali que não se estabilizou, não se concluiu. Quando acaba o mistério da obra, acaba o interesse a obra.

Isto pode não se aplicar a toda obra, mas se aplica a muitas. E acho que entra aqui a observação de Barbara Nicolosi citada no Metaphilm. Diz ela (criticando alguns filmes de Ron Howard): “Histórias devem nos acostumar à onipresença do mistério como parte irrecusável de nossa vida. Elas têm a função de nos fazer aceitar com tranquilidade o fato de que a maior parte das coisas do mundo é vasta demais para nossa compreensão, e que não há nada de mau nisto. Como disse C. S. Lewis, lemos para saber que não estamos sós. Lemos para saber que alguém se deparou com um mistério qualquer, e portanto estamos todos no mesmo barco, e não há motivos para pular do telhado”.

Aceitar o mistério não significa desistir de buscar respostas, mas compreender que o número de perguntas é infinito. O saite cita também o diretor de animação Hayao Miyazaki (autor do belíssimo A Viagem de Chihiro), ao comentar seu filme O Castelo Andante: “Pedi ao pessoal que faz meus efeitos de computação gráfica para que não fossem excessivamente precisos, ou realistas. Estamos contando uma história de mistério, então, sejamos misteriosos”. É preconceito meu, ou isto é exatamente o contrário da estética de Walt Disney, da Miramax, da Pixar e do Cartoon Network? O que vemos nestes desenhos (muitos deles excelentes sob outros aspectos) é ausência de mistério, de poesia, do inconsciente. Ali, cada movimento de uma barbatana foi discutido, racionalizado e aprovado por uma dúzia de roteiristas.

Por fim, o Metaphilm cita um artigo de Lee Siegel sobre Greta Garbo em “The New Republic”. Siegel diz: “Os americanos esperam que os filmes possam iluminar as suas salas escuras, como se estar a sós com a própria imaginação fosse uma empreitada de êxito duvidoso. Já os europeus gostam (ou chegaram a gostar em certa época) de filmes de cores sombrias, que permitam à sua imaginação brilhar no escuro”. Deixando de lado esta simplificação (americanos/europeus), esta me parece uma excelente distinção entre dois públicos. Os que querem lançar a luz implacável da racionalidade e das respostas sobre o mundo do mistério, e os que aceitam o mistério, mergulham nele e deixam que sua vista se acostume gradualmente à penumbra daquele universo.

domingo, 1 de março de 2009

0858) Superstições da informática (16.12.2005)



Dizem os sociólogos que o advento da tecnologia extingue o misticismo, o animismo, a superstição. Pois eu acho o contrário. O misticismo e seus correlatos funcionam como uma enorme jângal amazônica, e cada tecnologia nova que é deixada no meio dela acaba sendo absorvida sem muitos problemas digestivos. O exemplo clássico disto é a pegada que o astronauta Neil Armstrong deixou na areia da Lua ao pisar nela pela primeira vez. Armstrong desceu a escada do módulo lunar de forma a pisar na Lua com o pé direito. Seguro morreu de velho.

A convivência com os computadores tem me sugerido algumas superstições novas, que nada têm a ver com gato preto ou espelho quebrado. Comecei a acreditar em aura, por exemplo. Não se trata de uma aura espiritual (embora, na minha idade, a prudência me aconselhe a não descartar hipótese alguma), mas de uma aura eletromagnética emitida por meu corpo e essencial ao funcionamento do PC. A prova disto está em que, todas as vezes que clico ou digito um comando e me afasto para ir buscar café ou atender o telefone, na volta encontro na tela uma mensagem de erro. Percebi que, abandonado aos seus próprios recursos, computador cai mais do que teco-teco. Por quê? Porque os seus circuitos acostumaram-se a trabalhar com uma determinada intensidade de campo energético, que é a soma do dele próprio com o meu. Quando me afasto... queda de voltagem, e ele não consegue arremeter sozinho.

Comecei a acreditar também numa coisa que antes me parecia pertencer apenas ao domínio da ficção científica: a memória individual das máquinas. Creio firmemente que os computadores, como os gatos e os cachorros, acabam se amoldando aos seus donos, aprendendo seus hábitos, adaptando-se a eles. Toda vez que uma pessoa estranha vem à minha casa e precisa usar meu PC, alguma coisa errada acontece. Ele trava, ou fica inexplicavelmente lento, ou manda tela-azul a cada tentativa. É sabido que cada pessoa tem seus próprios caminhos para abrir e usar os programas, e os computadores se acostumam com o estilo de cada qual. Eu, por exemplo, assim que ligo o PC abro o Windows Explorer, cuja árvore de pastas e arquivos é meu guia indispensável. Me formei na época do DOS e do X-Tree Gold, e só sei caminhar por entre meus milhares de arquivos (texto, som, imagem) usando estes utilíssimos índices. Quando alguém chega e quer abrir um arquivo usando outro sistema, a máquina pula, corcoveia, refuga, sacode-se toda até expelir o peão intruso que ousou acessar-lhe a sela.

As máquinas estão vivas. O escritor de FC Fábio Fernandes ganhou dos amigos o apelido de “Cybergeist” (Poltergeist Cibernético), porque bastava-lhe botar a mão num PC para que alguma catástrofe lhe sucedesse. Já lhe ocorreu perder um arquivo de forma tão radical que até o disquete de backup que guardava noutro cômodo da casa foi reformatado. Supersticioso, eu? Não, amigos. Preparem-se para o mundo do futuro, a Era dos Ciber-Simbiontes.