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terça-feira, 4 de março de 2025

5158) Dylan: um completo desconhecido (4.3.2025)

 


Bob Dylan chegou ao Greenwich Village em 1961 como “um completo desconhecido”. Para ser mais preciso, chegou lá em dezembro de 1960, mas 1961 foi o ano em que ele, dormindo numa longa fileira de sofás numa longa fileira de apartamentos de novos amigos, começou a preparar o começo de sua carreira musical. 
 
Não poderia haver momento melhor. Em 1952, tinha sido publicada a Anthology of American Folk Music, editada por Harry Smith, um cineasta underground excêntrico, obsessivo, que, entre outras preciosidades, tinha uma coleção de 10 mil discos em 78 rotações. Desse acervo Smith selecionou 84 faixas para a Antologia: canções rurais, blues, números instrumentais, velhas baladas irlandesas e escocesas, música gravadas obscuramente por artistas que àquela altura já haviam sumido do mapa por completo. 

 
Em Nova York já havia, e muito forte, no pós-guerra, um movimento de jovens cantores e compositores resgatando a canção popular norte-americana, fugindo aos lugares comuns da música fonográfica da época, às músicas de sucesso das big bands e dos crooners, bem como das cançonetas pop que tocavam no rádio. A “Antologia” trouxe uma material colhido na fonte e ajudou a municiar esses aristas, que por um lado se engajavam nos protestos pelos Direitos Civis, e por outro reproduziam à sua maneira, no Village, o estilo de vida dos boêmios existencialistas franceses em Saint Germain des Près ou Montmartre. 




Dylan chegou nesse ambiente já com algumas canções prontas, entre elas a “Canção para Woody”, uma homenagem aos artistas obscuros da América profunda, agora tornados os novos ídolos dos jovens cantores novaiorquinos: 
 
Esta canção é para você, para Sonny, para Leadbelly,
e todo o pessoal que viajou ao seu lado.
Um brinde aos corações e às mãos desses homens
que chegam com a poeira e vão embora com o vento. 
 
Esta é a primeira canção que Timothée Chalamet canta no filme A Complete Unknown quando chega a um hospital para visitar seu ídolo Woody Guthrie. Já em seus últimos anos de vida, Guthrie era o grande nome dessa canção voz-e-violão que fazia a ponte entre a população rural, um planeta tão remoto, e essa Nova York com fumaças de locomotiva do mundo. 
 
Um pouco da juventude e das canções de Guthrie está no filme de Hal Ashby Esta Terra é Minha Terra (“Bound for Glory”, 1976), onde o poeta andarilho é interpretado por David Carradine. 



O filme de James Mangold passa a acompanhar o jovem Dylan na trajetória que ele cumpriu dali até 1965: três discos de canções folk em que (como disse um crítico na época) ouvia-se um rapaz de pouco mais de 20 anos cantando com a voz roufenha e os versos apocalípticos de um velho de 60. Depois, um álbum mais intimista, Another Side of Bob Dylan (1964), com 11 faixas gravadas todas no dia 9 de junho de 1964: voz, violão e gaita. 
 
Começa nesse período a transição que enfureceu os puristas da época, quando Dylan, recém-coroado como o novo Príncipe da Música Folk ou coisa parecida, exaltado pelos jovens militantes de esquerda, autor de canções já clássicas como “Blowin’ in the Wind”, “The Times They Are a-Changing” e “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, fez-se acompanhar de uma banda de rock, aderiu à guitarra elétrica, e mergulhou de cabeça numa produção espantosa de letras satíricas, surreais, sem nenhuma mensagem social explícita. E isto provocou um verdadeiro terremoto na música folk que o acolhera quando ele chegou lá como “um completo desconhecido”. 
 
Este é um resumo do filme, que sofre com a superficialidade e a compressão de toda cine-biografia (e até de biografias em livros de 700 páginas) quando é preciso descrever e reproduzir um complexo ambiente cultural e as discussões que fervilham dentro dele – e fazer isso em poucos minutos, sem muita teorização ou discursos explicativos, e tendo em mente que a grande maioria do público conhece aqueles fatos por alto (quando muito) e está mais interessada no toma-lá-dá-cá das relações humanas (“com qual das duas namoradas ele vai ficar”, “a qual dos amigos ele vai ceder?”) do que nos retratos de época. 
 
De minha parte, gostei bastante das cenas do Festival de Newport (onde Dylan, em anos sucessivos, tinha se tornado a grande surpresa e a grande atração), inclusive a explosiva apresentação final, quando ele foi vaiado ao se apresentar com guitarras elétricas. 
 
Tudo um resumo apressado, é claro. Para reproduzir a complexidade de conflitos emotivos, políticos, sentimentais, mercadológicos e simbólicos envolvidos num Festival como aquele, era preciso que o filme inteiro fosse dedicado a ele. 


 (Bob Dylan e Pete Seeger, em Newport)


(Edward Norton e Timothée Chalamet)

 
Pete Seeger, numa ótima interpretação de Edward Norton, era um sofrido árbitro nesse conflito, pela amizade paternal com Dylan e pela fidelidade para com a folk music tradicional. Falou-se muito, depois do episódio, que Seeger teria ficado tão furioso com a presença das guitarras elétricas que foi buscar um machado para cortar os cabos da aparelhagem de som. 
 
Mais recentemente, divulgou-se na Internet uma carta que ele teria escrito a Dylan depois, esclarecendo o incidente e desculpando-se. 
 
Bob! Alguém me disse que você também acha que eu não gostei do fato de você usar guitarra elétrica em 1965. Já desmenti isto muitas vezes. Eu estava furioso era com o som distorcido – ninguém conseguia escutar os versos de “Maggie’s Farm” – e corri para a mesa de som que controlava o PA. Eles disseram: “Está do jeito que eles pediram”. Eu gritei: “Pois se eu tivesse um machado, eu cortava esse cabo!”, e acho que foi essa frase que ficaram citando. Meu maior erro foi não ter subido ao palco para confrontar os que vaiavam você. Eu devia ter dito: “Howlin’ Wolf usa guitarra elétrica, por que Bob não pode usar?” Em todo caso, vida que segue. Abração. Pete. 
(trad. BT)
 
A versão “se eu tivesse um machado” é bem plausível – afinal, Seeger é o autor de “If I Had a Hammer”, que minha geração conheceu na voz de Rita Pavone como “Datemi un Martello”.
 
O filme A Complete Unknown tem limitações inevitáveis, mas serve, principalmente para o público jovem, como um flash de um tempo pré-digital, pré-internet, pré-celular, pré-tudo, um tempo em que sucesso artístico e sucesso comercial criavam seus caminhos de uma maneira que a cada década vai ficando menos óbvia e menos eficaz.
 
A reconstituição visual de época é uma das melhores coisas do filme, juntamente com a performance de Timothée Chalamet, que ensaiou (dizem) cinco anos para fazer esse papel. É um ator jovem, energético, que merece atenção; mas é principalmente como cantor que ele se destaca. Não é fácil cantar o repertório de Dylan, em que o fraseado é único, os cortes para respiração são imprevisíveis, e o canto vale menos pela afinação musical das notas do que na ênfase poderosa que Dylan impõe nos seus versos.


 

Chalamet consegue a proeza de cantar parecido com Dylan sem imitar a voz rouca e nasal de Dylan. Não é pouco. Nas cenas de palco e de canto, o ator cresce, perde o ar de menino mimado, chama para si um pouco do magnetismo que tinha a presença física de Dylan nesse período.
 
Nesta segunda-feira, 3 de março, fiz uma “live” para o Encontro da Nova Consciência, de Campina Grande, com o título “A Verdadeira História de Bob Dylan”. Um papo ao vivo em que desenvolvi mais longamente os temas acima, e que pode ser acessado no YouTube por aqui:
 
https://www.youtube.com/watch?v=500oHQNzRi4&t=2040s
 






sábado, 30 de novembro de 2013

3357) Manly Wade Wellman (30.11.2013)




Mesmo nos EUA a obra deste autor não recebe a atenção que merece. Ele fez sua carreira nos pulp magazines dos anos 1930-40. Escreveu ficção científica, terror, fantasia, história de boxe, histórias de aventuras. Fez roteiros para histórias em quadrinhos, e foi um dos primeiros roteiristas do Capitão Marvel. No número 1 da revista assinou seu nome de uma maneira engenhosa (e cordelista): colocou cada letra como a inicial de cada um dos balões de diálogo. Anos depois, numa briga judicial envolvendo Superman e Capitão Marvel (o primeiro acusou o segundo de plágio) Manly pôde, com isto, provar no tribunal que tinha sido um dos roteiristas.

Foi um grande conhecedor do folclore norte-americano, da tradição dos índios e dos primeiros povoadores da América. Sua série de histórias ambientadas nos Montes Apalaches, tendo como protagonista John the Balladeer, ou “Silver John”, é uma excelente exploração desse material. John é um cantador andarilho ao estilo Woody Guthrie, que, levando às costas seu violão de cordas de prata, por onde passa vai se metendo em confrontos com o sobrenatural e resolvendo-os, muitas vezes, com a ajuda de seu conhecimento da literatura oral e de livros básicos (cujo conhecimento é perfeitamente plausível no ambiente social descrito) de alquimia, ocultismo, etc.

A excelente coletânea Who Fears the Devil? (1963) e os romances The Old Gods Waken (1979) e After Dark (1980) são os livros que li, e existe neles uma originalidade de ambiente e de voz narrativa que não tenho encontrado em outros autores de fantasia norte-americana (se alguém souber, favor me indicar). Na literatura fantástica dos EUA parece haver uma certa resistência a histórias inspiradas no folclore local. O leitor norte-americano parece achar mais nobre (ou mais escapista) uma fantasia baseada em elementos europeus: célticos, nórdicos, arturianos, etc.

Seu websaite (http://www.manlywadewellman.com/) traz um rico material biográfico, falando inclusive no episódio em que ele ganhou um concurso de contos policiais no Mistério Magazine de Ellery Queen, deixando William Faulkner em segundo lugar. Manly nasceu em Angola, onde seu pai era médico numa missão, e as histórias que ouviu na infância (só foi morar nos EUA aos seis anos) influenciaram seu interesse posterior pela literatura oral. Ele foi, na fantasia norte-americana, um representante daquela “Invisible Republic” que Greil Marcus estudou em seu livro homônimo sobre as raízes da música de Bob Dylan e The Band no álbum The Basement Tapes e sobre a Antologia da Música Folk compilada por Harry Smith. Uma conexão que, mesmo nos EUA, continua pouco estudada.


sábado, 8 de março de 2008

0102) Quem foi Harry Smith? (19.7.2003)




Numa entrevista aos 53 anos, ele afirmava nunca ter pago impostos, nunca ter votado, nunca ter tirado carteira de motorista, nunca ter servido ao exército. Vestia apenas roupas jogadas fora, e estava com o aluguel sempre atrasado. Dizia que sua vida sexual limitava-se à masturbação. 

Durante uma época de sua vida, inventou uma dieta à base de apenas manteiga e açúcar, e quase morreu de fome. Perdeu todos os dentes porque se recusava a ir ao dentista. Pedia dinheiro emprestado a todo mundo, e nunca pagava.

Parece o retrato perfeito de um doido ou de um vagabundo, mas o nome de Harry Smith (1923-1991) aparece nos lugares mais imprevistos, e sempre cercado de admiração. 

Tendo se interessado por antropologia na adolescência, estudou na Universidade de Washington, e dedicou-se desde cedo a gravar em fita magnética canções e rituais indígenas, além de compilar vocabulários e reunir objetos de artesanato. Colecionou colchas de retalhos dos índios Seminole, ovos de Páscoa ucranianos, e gabava-se de ter a maior coleção de aviões de papel do mundo (que depois doou ao Museu Aéreo e Espacial do Instituto Smithsonian). 

Era um especialista em “figuras de cordel”, uma arte de fazer complexas figuras esticando uma peça de barbante entre os dedos. Dizia ele ser esta a única arte presente no mundo inteiro, além da música.

Por falar em música, também foi colecionador de discos em 78 rpm, que comprava pelo país afora, a preço de banana, quando a Grande Depressão quebrou milhares de lojas e gravadoras. 

Usando sua coleção, compilou e lançou em 1953 a impressionante Anthology of American Folk Music, seis LPs reunindo um total de 84 canções praticamente esquecidas, que ajudaram a decolar o movimento da música “folk” norte-americana dos anos 60, com Bob Dylan, Joan Baez, Pete Seeger e outros. Era a memória musical e cultural de uma América que a América urbana ignorava. Em 1991, Smith recebeu um Prêmio Grammy por sua contribuição à música americana.

Como sobrevivia? Não se sabe, mas por muitos anos viveu de descolar verbas para fazer cinema. Não o cinema de Hollywood, mas complexos curta-metragens de animação com técnicas desenvolvidas por ele mesmo. Seus filmes eram objeto de culto, provocavam espanto nos festivais, e são citados em qualquer estudo sobre o cinema “underground” ou de animação nos EUA. 

Era estudioso da Cabala e do Ocultismo, e um tremendo inventor de histórias; dizia às vezes ser filho de Aleister Crowley com a Princesa Anastasia da Rússia.

Seu livro de entrevistas Think of the Self Speaking mostra a maneira impressionante como sua mente percorria sem parar os caminhos mais tortuosos. No espaço de dois parágrafos ele passa por jazz, poesia beatnik, literatura clássica, drogas, rituais indígenas, episódios autobiográficos inacreditáveis, gozações com o repórter. 

Era um sujeito que pensava o tempo todo. Dizia ser mentalmente insano, e dizia também que sempre tinha razão. É bem capaz.