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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

3338) Pague o músico! (8.11.2013)




Circula pela web (recebi via Twitter do ilustrador Renato Alarcão) um email assinado pelo músico N. J. White, endereçado a uma tal “Zoe”, de um canal de TV britânico, que, aparentemente, escreveu para ele pedindo a liberação, sem pagamento, de alguma música ou trecho de música de autoria dele, para inclusão em algum tipo de trabalho. Esses detalhes não ficam muito claros, mas não importa. Importa a resposta do músico e seus argumentos. Faço pequenos cortes na mensagem original, que é bem mais extensa, mas o essencial vai aí abaixo.

“Prezada Zoe: (...) Estou de saco cheio desse papo furado, dessa inevitável frase: ‘Infelizmente não temos verba para a música’, como se alguma permanente Lei do Universo tivesse proferido um triste e imutável veredito impedindo você de destinar verba para a música. É a SUA empresa quem determina as verbas. Foram vocês que decidiram não destinar verba para a música. Vivo recebendo mensagens desse tipo, toda semana, enviadas por uma indústria de mídia rica, globalizada.

“Por que é assim? Vamos dar uma olhada em quem somos, eu e você. Eu sou um músico profissional, vivo da minha música. Levei metade da vida para aprender minha técnica, e anos para subir na estrutura da profissão até chegar a um ponto de receber mensagens de estranhos como você. Minha música é uma propriedade conquistada com muito esforço. Já licenciei música minha para alguns dos maiores programas, marcas, games e produções de TV, desde Breaking Bad até Os Sopranos, da Coca-Cola a Visa, da HBO até Rockstar Games. Você teria coragem de abordar um Diretor com um currículo assim, e, com uma simples frase cínica, pedir-lhe que trabalhasse de graça?

“É o menosprezo pela música, culturalmente impregnado na SUA profissão, que leva vocês a desdenhar o quesito ‘música’ sempre que possível. Vocês pagarão, sem questionar, a qualquer pessoa envolvida numa filmagem, (...). O músico? Ele que trabalhe de graça. (...) Você trabalha numa empresa financeiramente próspera, bem sucedida, reconhecida no mundo inteiro, com um portfólio cheio de sucessos. (...) Vocês têm dinheiro, sim, e fingir o contrário chega a ser um desaforo. E me manda esse pedido esfarrapado, “dê-me seu trabalho de graça”. (...) A resposta é um sonoro e definitivo NÃO”.

White termina a carta dizendo que está remetendo cópias para vários websaites e blogs voltados para a música, e encorajando os colegas a fazerem o mesmo. É o que estou fazendo. Dona TV (etc.), pague o músico! Pague o poeta, o escritor, o ilustrador, o fotógrafo, o ator... Nenhum email dizendo “Não temos verba para roteiro” já foi enviado por uma pessoa que estava trabalhando de graça.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

3317) Biografia ou fofoca (15.10.2013)



Fiquei sem saber se me metia na polêmica sobre biografias não-autorizadas. De um lado, querendo manter a lei que as proíbe, estão compositores como Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano, Gil e Djavan. Do outro, defendendo o direito de alguém escrever uma biografia sem pedir ao biografado, estão Ruy Castro, Fernando Morais, Lira Neto e outros autores de biografias famosas. Sinto-me próximo aos dois grupos, mas é mais provável eu escrever um dia a biografia de alguém do que alguém escrever a minha.

Sou contra a proibição prévia de biografias não-autorizadas. Minha regra é: deixa publicar, e depois avalia. Temos uma tradição de excelentes biógrafos, e o gênero é levado a sério em nosso país. Biografias mal-intencionadas ou incompetentes dificilmente emplacam. E trabalhos sérios como os dos que citei acima e outros, sempre dão um bom retorno de público e crítica. Sou contra censura prévia. Se uma biografia minha me ofender, ou disser mentiras ao meu respeito, chamarei meus advogados e cairei com-água-e-lenha em cima do pirangueiro, que vai arrenegar o dia em que nasceu. (Cuidado com os caras bonzinhos feito eu. Somos vingativos.)

Tenho, contudo, um esboço de teoria para explicar o inexplicável, para entender por que cantores e compositores tão inteligentes se unem para bloquear o trabalho dos biógrafos. É que nossa música popular, ou melhor nosso “show-business” (a cada década que passa temos mais “show business” e menos música popular) convive, de maneira um tanto promíscua, não com biógrafos acadêmicos ou sérios, mas com a indústria de fofocas, difamações e calúnias que se espalha por canais de TV, revistinhas de fãs e de frivolidades em torno da mídia, colunas de mexericos mal-intencionados, blogs de fofocas plantadas por vingança ou despeito...

É da maledicência, doença endêmica do “show-business”, que eles têm medo, não dos biógrafos da academia ou da imprensa séria. Acham que se a lei for revogada logo aparecerão Fulaninho, Sicraninha ou Beltraninho prontos para destilar venenos, exageros, insinuações dúbias, e tudo o mais que infelizmente é moeda corrente nesse camelódromo da informação que ajuda a sustentar gravadoras e tevês. A mentalidade de estrelismo do “show business” faz da música e da televisão uma feira de vaidades, um bazar de invejas, um forno de ressentimentos. “Biografia”, no dicionário que vigora ali, é a chance de ajustar contas em nome de confrontos passados ou de antipatias gratuitas. O problema é que, na ânsia de se livrar dos picaretas, nossos artistas estão querendo barrar os estudiosos sérios. E tanto eles quanto os biógrafos sairão deste equívoco como perdedores.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

2999) A canção ou o disco (10.10.2012)



Um aspecto interessante da criação artística é a importância das obras que são na verdade um conjunto, um feixe de obras menores.  Eu sempre digo aos jovens poetas que a obra de arte é o poema, e não o livro de poemas. Cada poema deve ser trabalhado para si mesmo, sem pensar em mais nada, a não ser o que está sendo dito e como está sendo dito. Quando vamos organizar um livro de poemas, no entanto, é preciso harmonizar essas obras, encontrar um conjunto com variedade, que seja interessante e produza uma impressão forte no leitor. O livro de poemas é uma obra associativa; a gente não o escreve, apenas o organiza em função de um material já existente.

O mesmo se dá com o livro de contos e com o álbum de canções.  A crítica de rock já debateu muito o fato de que quando os Beatles surgiram o veículo das canções de rock era o “compacto” ou “single”, e que um LP ou álbum era um mero empacotamento de 12 canções. Os Beatles foram os primeiros que viram o álbum como um conjunto a ser trabalhado, e criaram o “álbum conceitual”, onde o perfil e a idéia central eram concebidos em primeiro lugar, e depois eram escolhidas ou compostas as canções que iriam corresponder a esse conceito; o exemplo típico é Sgt. Pepper’s.

Na música tivemos momentos em que se alternaram a canção e o álbum como produtos comerciais e como obras de arte. Na literatura, no entanto, o conto raramente foi um produto comercial por si só. Como obra de arte, ele cedo estabeleceu sua importância; mas não como produto. Nenhum leitor comprava um conto: comprava uma revista de contos, ou um livro de contos. A transação comercial do conto existia entre, p. ex., o autor e o editor de uma revista; mas o público só tinha a opção de comprar um conto comprando uma obra coletiva que o incluía.

Agora, com a publicação digital, isto está mudando. No saite de muitas editoras e de livrarias virtuais como a Amazon, pode-se comprar um conto isolado por 0.99 ou 1.99 dólares, o que, dependendo do tamanho e da qualidade da obra, é um ótimo preço. Muitas vezes precisamos ler um conto específico de um autor mas ele só está disponível num volume de 400 páginas que custa 65 reais. Eu pagaria satisfeito 5 e até 10 reais para ler um conto que preciso ler urgentemente, até por motivos de trabalho (inclusão numa antologia, citação num ensaio, etc.). A existência de um mercado específico de contos nunca foi tão possível quanto agora. Seu único defeito é que pode afunilar o mercado aumentando a popularidade dos contos famosos e deixando na obscuridade os contos menos conhecidos, que antes se beneficiavam da inclusão em livros para serem descobertos pelo leitor. 


quinta-feira, 19 de julho de 2012

2927) Clone de heavy-metal (19.7.2012)






A briga entre o digital e o analógico não avança sem alguns golpes baixos.  Ou algumas boas malandragens, de acordo com o ponto de vista.  Boa malandragem parece ser o ponto de vista de banda de heavy metal Def Leppard, cujo trabalho conheço pouco mas me lembro de ter visto no Rock in Rio de 1985.  O Leppard parece estar vivendo uma profunda crise conjugal com sua gravadora, a Universal Music. (O relacionamento entre gravadoras e artistas contém alguns padrões que lembram muito o relacionamento entre maridos e esposas.)  Os dois não têm chegado a um acordo sobre a remuneração mais justa sobre vendas e downloads de faixas do catálogo da banda.  A discussão chegou a um ponto em que deixou de haver discussão.

“Nosso contrato”, diz o líder Joe Elliott, “estabelece que eles não podem fazer nada com as músicas sem a nossa permissão, absolutamente nada.  Então nós mandamos uma carta dizendo: Não importa o que vocês sugerirem, vão ter um ‘não’ como resposta, então é melhor não sugerirem nada”.  O problema é que a Universal também detém direitos sobre os fonogramas gravados pela banda, em seus 30 anos de carreira.  Como sair do impasse?

Simples: a banda está regravando em estúdio seus grandes sucessos, reproduzindo a gravação original com a mesmíssima sonoridade, mas gerando com isso um novo fonograma que pertencerá somente a ela.  Um auto-plágio ou auto-falsificação? Diz Elliott que é um trabalho duro: “Tivemos que estudar essas canções nos mínimos detalhes, e fazer imitações perfeitas. Deve ter levado o mesmo tempo de gravação que as faixas originais, mas por causa das novas técnicas o processo final foi mais rápido. Mas, como recapturar aquelas sonoridades?  E onde eu vou achar aquela voz com 22 anos de idade?”.

Por causa da briga, o Def Leppard é uma das poucas super-bandas cujo catálogo ainda não é disponível para downloads; duas destas regravações estão iniciando este processo. A nova “Pour Some Sugar On Me” já vendeu 21 mil downloads nos EUA e “Rock of Ages” mais de 5 mil. Qualquer músico profissional sabe que reproduzir com perfeição uma faixa já gravada é geralmente muito mais difícil do que simplesmente regravá-la “de um jeito parecido”, sem se preocupar em obter semelhança total.  A auto-regravação parece uma “solução de português”, mas ela revela pelo menos o grau de irreversibilidade nas relações da banda com a gravadora.  Os músicos acham que esse trabalho insano, e aparentemente desnecessário, é melhor do que voltar a discutir a utilização dos fonogramas antigos.  Não é por nada não, mas bem que João Gilberto poderia fazer a mesma coisa, com muito mais facilidade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

2764) A Mega Cena (12.1.2012)



(Rolling Stones, "O Banquete dos Mendigos")

A cena musical brasileira foi durante muitos anos uma espécie de Castelo de Caras, recebendo em seus esfuziantes salões aquelas poucas dezenas de felizardos que conseguiam o objetivo das gravadoras de discos: vender alguma coisa em torno de um milhão de discos. Isso bastava para que o artista mudasse de vida, mudasse de classe social, comprasse uma cobertura de frente pro mar, uma fazenda, meia dúzia de carros importados e assim por diante. Quantas vezes estive numa mesa de restaurante ouvindo alguém dizer: “Semana que vem embarco para Aruba com minha banda, minha equipe e minha família, por conta da gravadora. Vou passar uma semana lá, gravando o clipe do meu próximo disco”. Gravadoras sempre rasgaram montanhas de dinheiro com farras nababescas, lançamentos de discos com boca-livre e uísque importado dando no meio da canela, brindes e “kits” de divulgação cheios de riquetriques que enriqueciam os fabricantes sem somar nada ao disco divulgado. O objetivo dessa cena era espalhar pelo Brasil a idéia de que, fazendo o disco certo, cada um de nós podia virar milionário, comprar um avião, tornar-se príncipe sertanejo ou imperador do rock.

Isso ainda não acabou, claro. Olhem a programação das casas noturnas patrocinadas por telefônicas, ou os shows pagos por prefeituras pelo Brasil afora. Mas a atual cena da música está estrangulando esse degrau mais alto do pódio, que daqui a algum tempo talvez até desapareça. Ninguém mais vai vender um milhão de discos, ninguém mais vai comprar mansão com dinheiro de música, ninguém vai gravar clipe nas Bahamas nem marcar entrevista coletiva em Acapulco. O mercado se expande, mas sua tendência é se expandir mais horizontalmente do que verticalmente, em termos de cifrões – e não pode existir notícia melhor do que esta.

A cena musical megalomaníaca vai minguar e se extinguir. Em vez de um cara vendendo um milhão, teremos cem artistas vendendo dez mil cada um. Talvez isso não dê para eles construírem uma casa ou comprarem uma BMW, mas ora, quem tiver esses objetivos que se candidate a deputado! A música ficará para os que querem fazer música, não para os que querem ficar ricos. O objetivo de uma carreira musical será tirar um som, espalhar uma idéia, produzir uma emoção, alegrar uma galera, embalar um romance, atacar um sistema, captar um momento. Se a música é essa loteria imprevisível, onde o sucesso nunca está garantido, ela vai deixar de conceder o prêmio da Sena, e o máximo a que os artistas podem ambicionar é a Quina ou a Quadra. E teremos uma cena musical com milhões de músicos não-ricos, mas vivendo de música, em cada esquina e em cada quadra do Brasil.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

2179) Alugue um superstar (3.3.2010)



(desenho de Pojucan)

Uma matéria de Geoff Boucher no Los Angeles Times aborda uma forma curiosa de privatização do show business. Alguém objetará que o show business já é privatizado, mas uso o termo noutro sentido. Em geral, um show é feito para uma platéia, que paga ingressos para assisti-lo. Shows em grande escala ao ar livre, com acesso gratuito, são pagos em geral por uma Prefeitura, que dá o show de graça para a população. Mas o que acontece quando um grupo reduzido de pessoas tem grana suficiente para contratar um show só para si? Empresas fazem isso o tempo todo, e casas como Canecão, Vivo Rio, Claro Hall e congêneres volta e meia estão sendo “fechadas” para a realização de um show só para convidados de uma empresa, que desembolsa uma nota preta por este privilégio.

Conta-se que num reveillon recente o cantor George Michael voou até a Rússia para cantar para os convidados do magnata Vladimir Potanin, recebendo o cachê nada desprezível de três milhões de dólares por hora. Qual é o advogado de Manhattan que ganha isso? Os milionários russos parecem propensos a esse tipo de dispêndio, porque Christina Aguilera recebeu 5 milhões de dólares para cantar no casamento de Andrei Melnichenko. Claro, não são só eles. Em 2002, a festa de aniversário de David Bonderman (co-fundador do Texas Pacific Group), em Las Vegas, teve o acompanhamento musical de Robin Williams, John Mellencamp e os Rolling Stones, a um custo total de dez milhões.

Não se escandalize vendo os míticos Stones envolvidos nisso. Muito mais mítico do que eles é Bob Dylan, e há cerca de dez anos ele fez um show (juntamente com o Wallflowers, a banda de seu filho Jakob) para a Applied Materials, uma companhia que produz semicondutores no Vale de Silício. Para muita gente, a concessão feita por Dylan foi uma espécie de sinal verde, pois “se o Bardo não se envergonha de faturar nestes termos, quem sou eu para ficar de fora?” Há pouco, a Genentech, uma empresa de biotecnologia, comemorou seu 30o. aniversário com um mega-show incluindo Dylan, The Eagles, os Foo Fighters e os Black Eyed Peas. A revista Rolling Stone ironizou os artistas dizendo que eles agora cantavam “no piquenique de uma empresa”.

Contratos assim seriam impensáveis anos atrás, mas estão se tornando cada vez mais numerosos. Em geral têm cláusulas estabelecendo que o show não pode ser divulgado, fotografado nem gravado. O produtor Robert Norman afirma que é cada vez maior o número de multimilionários capazes de trazer para sua festinha pessoal seu artista preferido, não importa o quanto custe. Que magnata resistiria a um pedido da noivinha para que seu casamento fosse musicado ao vivo por, sei lá, Celine Dion, ou Norah Jones, ou Diana Krall? Há artistas (diz Norman) que até agora não se dobraram a este mercado, e ele cita como exemplos Bruce Springsteen ou o U-2. Mas sempre existirão bilionários capazes de dizer: “Basta me dar o sim. O preço, diga à minha secretária”.

sábado, 12 de junho de 2010

2138) Expressões digitais (14.1.2010)



Cada vez menos discos têm vindo brilhar na noite, no céu de uma cidade do interior. A venda de faixas musicais isoladas, pela Internet, superou em 2009 a casa do um bilhão, e já ultrapassou em muito a quantidade de faixas vendidas como parte de CDs (cerca de 700 milhões de faixas nesse ano). A mera possibilidade disso já torna o momento atual melhor que o de 10 ou 20 anos atrás. Quantas e quantas vezes peguei um CD ou LP na loja, doido por uma faixa que eu sabia que era boa, mas desinteressado pelo restante. Isso é mais comum do que se imagina. Comprar um álbum funciona quando você se interessa por um artista, e por tudo que ele grava. Mas às vezes o que queremos ter em casa é aquele cover de uma música conhecida, ou a faixa com a participação de um cantor favorito, ou uma música que fala de um assunto que nos interessa. Não poder comprar apenas algumas faixas sempre foi uma limitação do formato álbum, e talvez somente agora a gente esteja percebendo isso com nitidez.

O momento de hoje marca uma reviravolta com relação ao momento da música popular no começo dos anos 1960. Naquele tempo, canções novas, com possibilidade de sucesso, eram lançadas em forma de compacto simples (1 faixa por lado) ou duplo (duas por lado). Quando um desses compactos estourava, as gravadoras montavam meio às pressas um álbum em que se misturavam os sucessos e músicas “menores”. Um álbum não era mais do que a compilação aleatória de algumas faixas de sucesso e outras obscuras. Os Beatles explodiram esse formato. Uma coisa que desconcertava os disc-jóqueis da época era a quantidade de música boas num LP dos Beatles. Eles se queixavam: “É um desperdício lançar todas essas músicas num álbum, cada uma delas podia ser Lado A dum compacto e ser sucesso!”. E foram os Beatles os primeiros a tratar o álbum como um todo interligado, em que as canções não apenas são todas boas, mas dialogam entre si. Rubber Soul (1965) e Revolver (1966) já têm esse espírito, mas foi em Sgt. Pepper’s (1967) que eles inventaram o “álbum conceitual”, chegando ao requinte de imprimir todas as letras das músicas e fazer delas um todo interligado, sem espaço silencioso entre uma faixa e outra, e retomando uma canção (a faixa título) em duas faixas diferentes, com finalidade dramatúrgica.

Discos conceituais se expandiram do rock em todas as direções, e um dia ainda comentarei aqui alguns dos discos conceituais mais interessantes da MPB. O disco conceitual é uma unidade artística, composta de unidades menores que têm relativa autonomia. É possível fruir essas canções isoladamente, mas o ideal é experimentá-las em conjunto. Hoje, a Internet e a cópia digital explodiram esse formato. A unidade básica da música deixou de ser o álbum (o que, aliás, só tinha sido na mão de artistas mais intelectualmente ambiciosos) e voltou a ser a canção. É como num livro de contos ou de poemas, onde, em geral, a obra de arte é o conto ou o poema, e não o livro.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

1942) Os dependentes e os independentes (30.5.2009)



Dizia-se muito nas conversas entre artistas que lançavam CDs. “Deixei de assinar com uma gravadora para ser independente, e agora descobri que dependo dos amigos, dependo da família, dependo dos músicos, dependo de lojistas, dependo de todo mundo que ajuda a vender meu disco”. Este discurso, aliás, está se diluindo à medida que as gravadoras minguam de importância, e o “independentismo” se amplia mundo afora com aura de fato consumado.

Meu argumento contra essa visão é muito simples. Quando você depende de um, você é dependente. Quando depende de dez, é independente. Porque se algum desses dez “correr com a sela”, restam-lhe nove para, bem ou mal, continuar tocando o barco. E se o Um (a gravadora, no caso) cair fora, babau tia-chica. O conceito de dependência e independência, para mim, está ligado aos conceitos de concentração e diluição de poder.

Recebi um convite para um evento cuja justificativa dizia: “O objetivo precípuo deste conclave é questionar o fazer literário, dissecar seus processos, balizar seu desenvolvimento e estabelecer metas para a construção de um discurso literário brasileiro nesta época de diluição globalizada e de hegemonia dos discursos popularescos e dos gêneros comerciais”. Pensei: “O cara escreve assim para mostrar que domina a linguagem”. Depois pensei: “O cara capaz de escrever assim a sério provavelmente só consegue escrever assim. Ele não domina a linguagem. Ele aprendeu a duras penas uma linguagem – chamemo-la burocratês ou academês – e no final deixou-se dominar por ela, a ponto de ser-lhe impossível utilizar outra”. Dependência.

É como dizer: “Se você copia de um, é plágio; se copia de muitos, é pesquisa”. Verdade cristalina. Se eu faço um ensaio sobre Augusto dos Anjos citando Orris Soares o tempo todo, e só ele, estou dando motivo para alguém dizer que sem Orris e suas opiniões o meu texto não existiria. Mas se eu cito, além dele, Horácio de Almeida, Ferreira Gullar, R. Magalhães Jr. e Alexei Bueno, então nem Orris nem nenhum dos demais pode julgar-se essencial ao meu artigo. O pior que pode me acontecer é alguém perceber que citei idéias de muita gente e não emiti idéias próprias; mas ninguém pode me acusar de dependência em relação a um Fulano específico. (Eu seria, talvez, um daqueles casos que em transfusão de sangue se chama de “recebedor universal”).

Cara leitora, sugiro que passe agora à seção “Vida e Arte”. Fiquemos aqui só nós, os homens. Para que eu diga que talvez seja isto na vida amorosa nos induz a viver num “tico-tico no fubá” permanente: para não depender afetivamente, sexualmente, vitalmente, de uma mulher só. Temos medo de apoiar todo nosso edifício numa única pilastra. E se ela ceder? Por isso os homens gostam de ter sempre um Plano B, etc. As mulheres são mais corajosas porque são mais dependentes: apostam todas as suas fichas num sapo na esperança de que ele vire príncipe. Tiremos o chapéu para sua coragem.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

1934) As gravadoras e as editoras (21.5.2009)



(a Livraria Editora José Olympio)

Há 30 anos, as principais gravadoras de discos no Brasil eram ligadas a multinacionais. Havia muito dinheiro circulando. Executivos disputavam artistas em leilões milionários, acompanhados pela imprensa: “Fulano vai assinar com a RCA por um milhão de cruzeiros!” No outro dia: “Ariola oferece um milhão e meio – e leva Fulano!”. Artistas embolsavam uma grana vertiginosa ao assinar um contrato que os vinculava por cinco anos àquela gravadora, e com exclusividade, com a obrigação de lançar um disco por ano. A gravadora ditava as regras. Às vezes o artista queria fazer uma “participação especial” no disco de um amigo que pertencia a outra gravadora; e o patrão dele dizia “na-na-ni-na-não”. O termo era esse: pertencer. O artista pertencia à gravadora,como um jogador de futebol pertence ao clube. Só pode jogar naquele.

Há 30 anos, as editoras de livros no Brasil eram empresas nacionais, muitas vezes criadas e administradas pelos membros de uma mesma família (os Machado na Record, os Lacerda na Nova Fronteira, os Prado na Brasiliense, etc.). Seus contratos com autores só raramente eram contratos de exclusividade. Contratavam-se livros específicos, não os autores. Já me ocorreu de ter três contratos simultâneos com três editoras para produzir três livros diferentes, e nenhuma delas podia dar palpite no fato de eu ter outros contratos ou não. (Os cantores, coitados, não tinham direito a isto). Os adiantamentos oferecidos pelas editoras eram modestos. Ou melhor, eram realistas. Se o seu livro anterior vendeu 5 mil, você tinha direito a reivindicar um adiantamento nessa faixa, partindo do princípio, já demonstrado, de que era capaz de vender essa quantidade. (Claro que tudo isso era sujeito a negociações e pechinchas, não era um direito automaticamente garantido).

Bem, não vou comentar aqui a situação das nossas gravadoras de discos. Quem quiser detalhes, folheie todos os dias as páginas dos obituários. Gastaram a rodo, fizeram orgias (“Fretemos um jatinho com 30 pessoas para gravar um videoclip em Aruba!!!”), aí surgiu o queimador-de-CD e reduziu Roma a cinzas. O interessante é que o mundo imperial das gravadoras está chegando, nos últimos 10, 12 anos, ao setor de editoras de livros. Editoras se engalfinham na Feira de Frankfurt, em leilões milionários, para publicar o livro ainda não terminado de um escritor croata ou islandês. Nossas editoras nacionais, de-família, estão sendo compradas pelas editoras ligadas a grupos multinacionais, que estão investindo pesado em nosso mercado: Alfaguara, Planeta, SM, uma porção. Essas editoras têm aplicado em muitos escritores incautos o golpe do contrato de exclusividade: “Enquanto você publicar conosco, não pode publicar com mais ninguém”. Proposta que, no meu entender, deve ser sempre respondida com uma vigorosa banana. A menos que a editora ofereça um milhão de reais por ano, mais os direitos autorais relativos à venda dos livros.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

1647) Quanto custa uma canção (22.6.2008)



Dias atrás, no VII Forum do Forró, realizado anualmente em Aracaju, participei de uma mesa de debates com o compositor Zé da Flauta, discutindo as mudanças que a cultura digital está introduzindo no mercado da música. Parece que a principal delas é que o mercado está deixando de ser mercado. São cada vez mais restritas as possibilidades de se ganhar dinheiro com música. A indústria, que durante quase um século gerou fortunas gigantescas, derrames de milhões de dólares, paxás e marajás em profusão, está minguando a olhos vistos. Em breve, a música digital será uma atividade acessível a qualquer um e servirá apenas – para horror dos mercadólogos – para divulgar idéias. Lucro pecuniário, zero.

Um aspecto curioso é o que observei numa recente viagem a Brasília, na chamada Feira do Paraguai. São quatro pavilhões gigantescos, repletos de boxes onde se vendem quinquilharias de todo tipo. Achei boxes com a placa ”5 DVDs por 20 reais”. A quantidade de DVDs (filmes e shows) era imensa, mas a quantidade de CDs de música era irrisória. Por que? Ora, porque hoje em dia baixa-se um CD de música em 15 minutos ou menos, dependendo da velocidade da conexão. A pirataria musical está esboroando os alicerces da indústria fonográfica, mas ela mesma está vendo seu terreno se reduzir. Compra CD pirata quem não pode baixar no computador. E o número dos que podem baixar está aumentando a cada ano.

Com DVD é diferente. Dependendo da conexão, leva-se um dia inteiro para baixar um filme. Mas esse tempo também está diminuindo. Daqui a alguns anos, poderei baixar um CD completo de Tom Waits em 2 minutos, e um longa-metragem de Tarkovsky em dez. Que necessidade vou ter de ir para a calçada, comprar cópias pirateadas?

E vem a questão: como cobrar por uma música que alguém baixa pelo computador? Eu tive uma idéia. Uma canção pode vir acoplada a uma pequena propaganda. Quando a gente abre uma página do Google, o lado direito está cheio de pequenos anúncios. Que tal embutir em cada canção dez segundos (digamos) de propaganda, antes da música? Eu baixo uma canção de Neil Young que me interessa, e quando clico para tocar ouço um breve comercial de fertilizante-sem-agrotóxico ou de palheta-de-guitarra; logo em seguida a música começa. Ouvir a propaganda todas as vezes que a música é executada seria irritante. Talvez houvesse uma maneira (socorram-me os técnicos do Silicon Valley nordestino) de embutir no arquivo MP3 um pequeno programa estabelecendo que depois de, digamos, dez execuções o comercialzinho se auto-deletaria.

Claro que alguém pode fazer isto e depois espalhar cópias da música sem comercial. Mas o fato é que um número substancial de ouvintes seria exposto a ele, assim como somos expostos a um monte de “pop-ups” toda vez que entramos num saite. Não é impossível descobrir uma fórmula para que alguém (não o consumidor) nos pague por cada música que soltamos na Rede.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0832) A canção sertaneja (16.11.2005)



Não tenho preconceito contra a chamada canção sertaneja (paulista, mineira, goiana, etc.) que hoje é um dos grandes sucessos fonográficos e televisivos no país. Eu simplesmente não gosto. E não gosto porque, curiosamente, o que mais falta nessas músicas é sertão. A música que vejo sendo feita por Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Bruno & Marrone e tantos outros, nada tem de música rural, de sertão, de interior. É uma canção romântica urbana, cujos antecedentes na MPB são os boleros que nos anos 1960, quando comecei a dedilhar meu violãozinho, eram gravados por cantores como Anísio Silva, Orlando Dias, Agnaldo Timóteo, Alcides Gerardi, Agnaldo Rayol. Essa canção romântica, que nós adolescentes considerávamos “coisa de gente velha e careta” fez, por obra e graça da mentalidade estratégica dos produtores, uma aliança tática com a Jovem Guarda e daí surgiram “os românticos jovens” como Wanderley Cardoso, Paulo Sérgio e Sérgio Reis, que acabou como um dos responsáveis por essa ponte romântico/sertanejo.

E não devemos esquecer Roberto Carlos, grande camaleão musical que começou imitando João Gilberto, depois aderiu ao rock, foi flertado pelo Tropicalismo, e a partir dos anos 1970 tornou-se o incontestado Rei da Canção Romântico-Popular. Musicalmente, os “sertanejos” de hoje são crias de Sérgio Reis, dos Agnaldos (Rayol e Timóteo), e do Rei. Sua música – pelo menos daqui de onde os escuto – nada tem a ver com os sertanejos como Tonico & Tinoco ou Jararaca & Ratinho.

Reconheço que no chamado universo sertanejo existe toda uma faixa de artistas que fazem a música “segura peão”, a música que celebra o universo dos rodeios e das acrobacias eqüestres que a novela América não foi a primeira nem será a última a celebrar. Neste caso, sim, admito que o elemento sertanejo está presente. É um sertanejo urbano e de classe média, contudo, se me perdoam esta descrição aparentemente contraditória. O interior de São Paulo e Minas Gerais urbanizou-se, enriqueceu, é hoje uma colcha-de-retalhos de grandes fazendas e numerosas indústrias. Os “sertanejos” que produzem e ouvem esse tipo de música andam de jipe, usam chapéus e botas comprados em shopping centers, bebem uísque. Não são os sertanejos que nasceram “naquela serra, num ranchinho beira-chão”, não são mais os que viajavam “pela estrada de Ouro Fino”.

Dizem alguns teóricos que a Arte mais visceral brota das situações-limite, e que a pobreza é uma destas. Quando o sujeito ganha dinheiro, adquire conforto e se estabiliza na vida, passa a produzir uma arte meramente consumista, de entretenimento banal. Não digo que seja uma lei universal – mas que acontece, acontece. O insuportável excesso de músicas “sertanejas” que falam apenas bobagens amorosas é, para mim, um sinal de vitória do comercialismo sobre a expressão artística. O sertão entra como pretexto, mas é um sertão que não existe mais, um sertão-espetáculo, um sertão-souvenir, uma griffe chamada sertão.

sábado, 24 de janeiro de 2009

0777) A armadilha do jabá (14.9.2005)



Como trabalho em casa, passo a tarde com a TV ligada, acompanhando as CPIs. Para um sujeito avoado como eu, que vive pesquisando a Idade Média ou a vida em outros planetas, é um saudável antídoto, uma overdose de vida real. O mundo é isto que estamos vendo: indivíduos engravatados, de fisionomias sórdidas e discursos monotonamente patrióticos, praticando uma absurda promiscuidade financeira numa busca incansável por dinheiro, dinheiro, dinheiro. Eu ando com tanta raiva de dinheiro que toda vez que pego numa nota a vontade que eu tenho é tocar fogo, e só um restinho de bom-senso me dissuade.

Existe uma curiosa semelhança entre as falcatruas que estão sendo expostas na República e uma outra indústria-do-golpe que nós, músicos e compositores, conhecemos há muitos anos. Trata-se da indústria do “jabá”, o suborno pago aos donos de programas ou de emissoras de rádio para que determinadas músicas sejam executadas. É a mesma relação que ocorre entre burocratas do Governo e empresários que buscam ganhar concorrências e contratos.

Tudo começou aos poucos. Num “antigamente” remoto, os discos eram enviados para as emissoras, e no meio das centenas de discos recebidos os titulares dos programas escolhiam aqueles de quem gostavam, e passavam a tocá-los. Era um processo aleatório, baseado no gosto individual de cada radialista. As gravadoras enviavam os discos, e cruzavam os dedos, esperando que alguém gostasse e tocasse, para que a música “pegasse” junto ao público e o disco fosse comprado.

Ora, cruzar os dedos e esperar não é uma atitude muito pragmática. As gravadoras começaram a telefonar, oferecer mimos e vantagens, dar ingressos de graça, viagens de graça, e assim por diante. Daí a coisa passou para a gorjeta, a propina, o numerário, o mensalão. As gravadoras ficaram inebriadas de poder: “Até que enfim, podemos obrigá-los a tocar o que queremos! Basta comprá-los!” Só que o tempo passou e a coisa foi mudando. Os radialistas descobriram que estavam aceitando regras alheias num jogo que era, afinal de contas, no campo deles e com a bola deles. Eram as gravadoras que precisavam das rádios, e não o contrário. E a situação se inverteu. Os radialistas passaram a ditar as regras do jogo: em vez de aceitar suborno, passaram a exigir suborno, dentro de condições ditadas por eles.

As duas situações coexistem hoje; há lugares onde as gravadoras são mais fortes, e lugares onde as rádios mandam. Porque trata-se, na verdade da boa e velha Lei do Mais Forte. É difícil convencer essas pessoas de que um processo tão crucial deve ser deixado ao deus-dará, às venetas pessoais de quem escolhe a programação. A situação hoje em dia está tão envenenada que tornar-se disco-jóquei é objetivo de indivíduos que nem sequer gostam de música, mas querem estar diante de um microfone para poder cobrar propina. O capitalismo é um Rei Midas: tudo que toca transforma em ouro. E tudo que é vivo, e que vira ouro, morre.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

0698) O gangsterismo musical (14.6.2005)



A palavra “gangster” nos evoca, por associação fílmica de idéias, a imagem de um sujeito de sobretudo empunhando uma metralhadora e executando desafetos à luz do dia. “Gang”, no entanto, significa quadrilha, e um gangster é qualquer sujeito que forma uma quadrilha, ou seja, reúne um grupo de pessoas para a prática de atos contra a lei. Em alguns casos, são bandidos que executam rivais à luz do dia (embora com um AR-15 em vez de metralhadora, e T-Shirt em vez de sobretudo). Em outros casos, os gangsters são sujeitos normais como eu e você, não usam armas, são incapazes de fazer mal a uma mosca, são bons maridos e bons pais, excelentes companheiros numa mesa de bar ou restaurante – mas fazem parte de um grupo que pratica atos contra a lei e contra o interesse público.

No mundo da música as opções para se tornar um gangster são muitas e variadas, como em qualquer atividade que produza rios de dinheiro, mordomias, notoriedade, capa de revista, rosto na TV. Não é segredo para ninguém que as multinacionais do disco investiram rios de dinheiro no país, e para cada amazonas investido receberam de volta um oceano-atlântico. Como a fórmula-um das multinacionais é uma disputa ferrenha pela pole-position, pela liderança da corrida, pelo podium no domingo e pelo título no fim do ano, as empresas recorrem a todos os artifícios, legais ou ilegais, para se manterem no topo. Ou, no jargão delas, “otimizar custos e maximizar resultados”.

Todo mundo sabe que no Brasil existe o “jabá”, a propina ou suborno que é paga às emissoras de rádio e aos titulares de programas, para que as músicas A e B sejam executadas e as músicas X e Y não toquem de jeito nenhum. É uma queda-de-braço entre empresas, onde o subornado faz leilão entre os subornadores para ver quem lhe paga melhor, em dinheiro ou favores. Num ambiente onde esta situação predomina, a disputa mais importante não é entre música estrangeira e música nacional, e sim entre música economicamente imposta e música livremente escolhida. Promulgar leis obrigando a tocar música brasileira nas rádios significa apenas que os gangsters, em vez de pagarem para que se toque um cantor americano de seu catálogo, vão pagar para que se toque um cantor brasileiro do mesmo catálogo.

O grande problema disto é que ter uma programa de música numa rádio tornou-se uma atividade muito lucrativa, devido ao jabá, e vai ser difícil convencer essas pessoas a abrirem mão do “depósito em conta”, da “verba de divulgação”, do contracheque por “serviços prestados”, dos convites para congressos com-tudo-pago, das mordomias, dos camarotes por conta da produção, dos presentes de fim de ano, e outros desfrutes de que já ouvi falar mas recuso-me a crer. O grande problemas das leis é que elas só existem para os que concordam em cumpri-las. Os que não concordam passam na frente deles, fazem o que querem, enchem os bolsos de dinheiro, e são quem manda de fato na história da música popular brasileira.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

0460) Burocracia (9.9.2004)



A vida da gente é cheia de enfurecimentos periódicos; é algo como as secas do Nordeste ou as inundações da Índia. De tempos em tempos, lá vem de novo aquele flagelo, tão familiar, estragar nosso humor e nosso dia de trabalho. Um dos que me perseguem com mais insistência é a burocracia. A toda hora estou me deparando com algum bloqueio mental humano relacionado a documentos. Vou dar um exemplo. Ligou para mim um moça de uma gravadora de São Paulo, dizendo que precisava da autorização para uma música minha ser gravada. Anotei os dados (a música, o artista, o disco, a gravadora, o endereço) e mandei a autorização. Dias depois ela volta a ligar: “O senhor esqueceu de reconhecer a firma da autorização.” Expliquei que não tinha esquecido, tinha achado desnecessário. Mas ela fez finca-pé. É necessário, sim, tem que reconhecer, senão como nós vamos provar que a assinatura é sua?

Expliquei que o cartório onde tenho firma reconhecida fica no centro do Rio, e “reconhecer uma firma” para mim significa pegar um ônibus, pegar o metrô, andar dois quarteirões, esperar na fila, fazer o reconhecimento, caminhar dois quarteirões, pegar o metrô, pegar o ônibus. Não dá menos de duas horas. Se eu estivesse sem nada urgente, até faria. Mas naqueles dias eu estava “por aqui” de trabalho atrasado, e não dispunha de duas horas para fazer uma coisa que aos meus olhos era desnecessária. Mas eu ia dar um jeito.

O jeito que eu arranjei foi o seguinte. Eu tenho (virginiano que sou) uma porção de cópias de uma folha onde mandei xerocar frente-e-verso, e autenticar, minha carteira de identidade e meu CPF. Nessa folha estão, portanto, meus principais documentos, onde minha assinatura é claramente legível. Peguei uma dessas cópias, e escrevi a mão, embaixo: “Autorizo a gravação da música tal, pela gravadora tal...” Assinei, e mandei. Dias depois me liga a moça de novo. “O senhor desculpe, mas não é esse documento que nós precisamos. Precisamos é da autorização com firma reconhecida, e a firma não foi reconhecida.”

Para encurtar a novela: eu me recusei a reconhecer a firma, e disse que por mim a música não seria gravada. Pois sabem o que a moça fez? Ela pegou duas fichas de um cartório de São Paulo, mandou para mim pelo Correio, eu assinei as fichas, devolvi pelo Correio, e ela mandou reconhecer nesse tal Cartório a primeira autorização que eu tinha enviado. E essa desespero todo por quê? Era a escritura de uma mansão em Paris, de um prédio na Quinta Avenida? Era o recibo de uma herança de 100 milhões de dólares? Era um desses documentos que, fazem a independência financeira de um falsificador? Não. Era eu autorizando um artista (que é amigo meu) a gravar uma música minha. Olhe... eu não simpatizo com as pessoas que pirateiam discos, que sonegam direitos autorais. Mas é por estas e outras que as gravadoras, como os dinossauros, estão afundadas num pântano, de onde só sairão para os Museus do futuro.