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quarta-feira, 29 de abril de 2026

5232) Histórias de cantador (29.4.2026)




(ilustração: J. Borges)     

 
Esta foi nos velhos tempos em que eu morava em Campina e vivia assessorando informalmente os cantadores de viola, em seu relacionamento com a imprensa (porque eu era crítico de cinema no “Diário da Borborema”) e com o meio acadêmico (porque eu estudava Ciências Sociais na atual UFCG). 
 
Marcaram uma cantoria para Bandeira Sobrinho às nove da manhã. Não era uma cantoria, na verdade, era uma simples apresentação, no auditório da universidade, em Bodocongó. Havia uns professores de fora visitando o campus, e entre a programação cultural resolveram botar: “Apresentação de cantadores”. 
 
-- É meia horinha apenas – explicou a moça que telefonou para ele. – O senhor canta meia hora e pronto.  Tem um cachê de xis reais. 
 
Não faço mais idéia de quanto era um cachê naquele tempo. Bandeira retrucou: 
 
-- Tudo bem. Com quem eu vou cantar? 
 
-- É só o senhor – disse ela, toda satisfeita. 
 
A maioria dos brasileiros pensa que um cantador de viola canta sozinho. É um pouco como pensar que um jogador de tênis joga sozinho. 
 
-- Tem que ser uma dupla – explicou Bandeira. – Porque a técnica da cantoria consiste em fazer versos alternados. E todos dois têm que receber. 
 
Não sei se a moça entendeu a questão técnica, mas criou-se um impasse, porque de um lado ela se via pressionada a duplicar o cachê, e do outro lado ele se via pressionado a dividi-lo. Sem falar que universidade demora meses pra fazer um depósito. 
 
Acabaram combinando que ele cantaria sozinho, até porque, reiterou ela, “não era uma cantoria, era uma apresentação informal”. Bandeira concordou aos resmungos. 
 
Somente na véspera ele soube que a apresentação seria às nove da manhã. 
 
-- Ninguém merece – me disse ele, tempos depois, quando me narrou este episódio. – As pessoas pensam que toda hora é igual, e que verso é como água da torneira, a qualquer hora que abrir a água é a mesma. 
 
-- Não dava para transferir o horário? – sugeri, só para alternar a conversa. 
 
-- Meio difícil, porque era sexta à noite e eu recebi o folheto impresso a cores, com foto minha e tudo. E lá estava eu, escalado para cantar sozinho, e às nove da manhã. 
 
-- Público leigo – disse eu. – Meia hora!  Leva um balaio de sextilhas e num instante passa. 
 
-- Me deram duas laudas de pessoas, com currículo e tudo, que eu devia saudar – disse ele. – Eu já estava me arrependendo de ter nascido. Mas compromisso é compromisso, e eu amarro o burro onde o dono do burro manda. 
 
Às oito e meia ele estacionou o fusca e desceu com a viola encasacada. Foi bem recebido, havia uma mesa comprida com água, cafezinho e biscoitos. Depois, houve uma abertura formal e ele foi chamado ao microfone. 
 
-- Cantei em pé, o que acabou sendo bom, porque me ajudou a ficar acordado. Fiz uma introdução, fiz o elogio regulamentar. 
 
O elogio era um verso para cada visitante. 
 
-- Cantei um verso que não esqueço até hoje – disse Bandeira. – Cantei no piloto automático, como você gosta de dizer. “Saúdo neste auditório / professor Manuel Simão / tem doutorado em São Paulo / tem prêmios em profusão / e é grande autoridade / nas pesquisas do algodão.”  Vieram os aplausos e nisso o camarada se levanta entusiasmado, puxando palmas, e sobe no palco, vem até o microfone. Educadamente me empurra para o lado, se apossa do microfone e começa um discurso. 
 
-- Eita. 
 
-- Falou da importância dos poetas populares para a educação do povo brasileiro, falou do Nordeste como ponta-de-lança da cultura neste país sem memória, e por aí foi. E eu do lado, querendo cabecear de sono. 
 
-- Foi elogiar, deu nisso. 
 
-- Aí ele falou que era do interior de Pernambuco, que o avô tinha sido vaqueiro. E disse: “Poeta Batista”, e você sabe como eu fico quando alguém erra meu nome, “vou lhe dar um mote para você glosar”. 
 
-- Aí deu um mote de três linhas, desmetrificado. 
 
-- Pior. Ele disse com toda solenidade, como se fosse um locutor de congresso; “Quem é vaqueiro não pode / ser cantador de viola!”  E foi se sentar, todo confiante. 
 
-- Esse mote é do tempo em que Adão era cadete. 
 
-- Calma, que o melhor vem aí. Eu já estava invocado porque o camarada subiu no palco e cortou minha apresentação sem nem pedir licença. “Ah, mas ele era um professor...” Ora, professor tem que ser mais educado do que quem não tem diploma!...  
 
-- Você glosou o mote? 
 
-- Aí é que está. Eu estava com tanto sono que pratiquei uma desonestidade. Pior do que uma desonestidade: uma imprudência. Eu cantei o verso de Pinto do Monteiro, fazendo de conta que era improviso meu. 




(Pinto do Monteiro)


-- O famoso verso de Pinto! 
 
-- Está em todos os livros, não é mesmo? Eu devia ter me lembrado disso na hora, mas estava com a cabeça a meia-pressão. E aí cantei o verso de Pinto, não sei se você sabe ele de cor. É assim: 
 
Vaqueiro é pra pegar touro, 
amansar bezerro e vaca, 
cortar pau, fazer estaca, 
e consertar bebedouro. 
Fazer queijo, beber soro, 
curtir couro e raspar sola, 
fazer freio e rabichola, 
tanger cabra e capar bode... 
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- É um grande verso – disse eu, protocolarmente. 
 
-- Com as impressões digitais de Pinto do Monteiro – disse Bandeira. – Mas o perigo está aí. O público aplaudiu, aí o “misera” do professor ficou em pé de novo e falou alto, lá do auditório: “Poeta, esse verso é de Pinto! Eu pedi foi uma glosa sua.” Até aí tudo bem. Mas ele complementou: “Caso seja possível”.  
 
-- Alguma razão ele tinha, né, poeta?...  
 
-- Eu pedi a Deus que um raio fulminasse aquele corno, mas Deus tem juízo e não me escutou. O jeito foi voltar ao microfone, e a raiva foi tanta que acabou me ajudando a produzir o resultado. E eu cantei:  
 
Vaqueiro não tem desgosto
não passa noite acordado
não compra vinho fiado
não acorda com sol-pôsto;
não vive de tiragosto
nem de rum com Coca-Cola
não canta por uma esmola
não bebe cana, e não fode...
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- Eita. 
 
-- A platéia veio abaixo, a apresentação foi um sucesso, e o infitete me agarrou na maior euforia, quase me bota no braço. E na segunda-feira o cachê bateu na conta. 
 



 
 
 
 
 




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

5217) O pescador com um braço só (16.1.2026)






Numa praia muito distante vivia um velho pescador que tinha somente um braço. Perdera o outro para um tubarão, quando tinha dez anos e morava muito longe dali. 
 
Ele vivia sozinho numa cabana no alto de uma falésia de frente para o mar. Tinha construído para si, na praia, um curralzinho de estacas onde prendia sua rede. 
 
A rede passava a noite dobrada, junto da porta. De manhã ele a apanhava, ia até a borda da falésia e jogava a rede lá para baixo. Depois descia os degraus estreitos escavados na pedra, pegava a rede e ia prendê-la no curral. 
 
No fim do dia, descia para a praia, recolhia a rede, colocava os peixes num cesto e levava para a cabana. Cozinhava alguma coisa para comer, e o resto guardava num tonel com gelo. A carroça do gelo passava ali duas vezes por semana, e ele vendia uma parte dos peixes. 
 
Um dia, ele achou que o mar estava mais agitado do que de costume, mas colocou a rede mesmo assim. 
 
No fim da tarde, quando puxou a rede, viu no meio da agitação dos peixes um objeto brilhando. 
 
Era uma lamparina antiga de metal, parecia de prata, trabalhada com desenhos geométricas, e estava parcialmente coberta com uma crosta. Ele a segurou e a esfregou com o polegar. O dia foi ficando mais claro, como se o sol tivesse aumentado de tamanho, mas não de calor. Depois a luz voltou ao normal e havia um homem diante dele, um homem com o dobro de sua altura. 
 
-- Tens direito a três desejos – disse o homem alto, que trajava roupas estranhas. 
 
O pescador pegou os peixes da rede, passou todos para o cesto, em silêncio, enquanto o outro esperava. Depois disse: 
 
-- Tem que ser agora? 
 
-- Sim. 
 
-- Primeiro, quero que o fogo já esteja aceso quando eu chegar lá em cima com estes peixes, e o caldeirão com água para ferver. 
 
-- Assim será – disse o homem alto. 
 
-- Depois, quero um colchão igual ao que já tenho, mas novo, e mais macio. 
 
-- Assim será – disse o homem. O pescador ficou em silêncio, pensativo. – E o último? 
 
O pescador ergueu o rosto para olhar o outro de frente. 
 
-- Quero que vás embora e que fiques livre do encantamento que te prendeu a esta lâmpada. Não preciso de mais nada. Vai! 
 
E o homem alto desapareceu. 
 
 
 
 
 






quinta-feira, 23 de outubro de 2025

5204) A vida na trincheira (23.10.2025)



(foto: Robert Capa)


A vida na trincheira é feita de horas de ouro, segundos de diamante. 
 
A fuzilaria não descansa, e quando menos se espera (por mais que se espere) desaba um bombardeio. 
 
Não é proibido dormir, mas se adormecer é proibido acordar. 
 
Eu me arrasto naquele sulco lamacento, buscando um barranco mais firme. A deslocação de ar arremessa aos ares meus amigos mais próximos. Ufa.  Achei.  Escapei.  Por enquanto.  Para sempre. 
 
De noite, as balas traçantes costuram o ar com riscos luminosos. A escuridão é traiçoeira, mentirosa, finge que nos protege, mas bem-ou-mal nos agasalha, parece apagar em parte aquela matilha de assassinos. 
 
Aqui na trincheira é preciso cuidado. Tem granadas que enguiçaram. Tem cacos de óculos. Tem formigueiros de escorpiões. Tem documentos alheios, amarrotados, cheios de manchas coaguladas, que a gente olha, dobra e bota no bolso, com aquela fé infantil de estar salvando alguma coisa. 
 
Trégua. Pausa. Cilada?... Compartilhamos as latinhas de carne em conserva, abertas com baioneta, comidas com os dedos. Comparamos as de hoje com as de ontem: é uma forma de contar o tempo. Precisamos sentir que alguma coisa avançou. Achar um cantil de água virgem nos emociona. Para adormecer, conto as emoções mais recentes, sinto nelas um avanço, sinto que a esfera de que sou centro se torna mais real. 
 
E de repente tudo desanda, é metralha, é shrapnel, é ricochete, é bala retinindo, é borrifo de sangue pra todo lado, eu me arrasto em joelhos e cotovelos, a capa empapada de lama, o fuzil inútil servindo para afastar os corpos que impedem a passagem. Passagem para onde? Tanto faz. Tudo é importante. Tudo é verdadeiro. Tudo tem a beleza-bruta de estar acontecendo. 
 
Outra pausa. Colo o corpo ao chão. Contraio os dedos dos pés dentro das botas ensopadas, para me certificar de que continuam ali. 
 
Todo dia é isso. Esse dia infernal que não avança, que apenas circula sobre si mesmo. 
 
Um obus de última geração explode numa tenda. Cubro a cabeça com os braços enquanto chovem pedregulhos, canos de metal, pedaços de carne vestida. Um colega a meu lado soergue o corpo para avaliar. O instinto me faz agarrar seus cabelos e puxá-lo para baixo. A bala do sniper se espatifa no barranco a meio metro. Uma fagulha de luz cega meu olho. 
 
Vejo tudo pela metade. Esse meio-inimigo invisível que me vê, esse inimigo que me toca e que não posso tocar. 
 
É a vida na trincheira, e eu não a trocaria por nenhuma outra. Que fiquem os outros com suas salas e suas visitas, seus bares e seus lares, seus reveions e seus Natais, suas adegas e seus domingos. Eu não quero o véu de Maya, não quero as tranças de Circe, eu quero estar positivo-operante, eu quero estar acordado, eu quero a trincheira. 
 
Na trincheira tudo é pão-pão queijo-queijo, quem tem o bem dá o bem, quem tem o mal dá o mal, quem nada tem recebe tudo e mata o seu tipo de fome. 
 
Luz de trincheira, mesmo em noite de chuva, é um meio-dia que nunca passa, uma revelação-de-relâmpago sacudindo a gente e mandando: Morde esse fio elétrico, morde com toda força, pra tu ver o que é a vida. 
 
Eu não quero o paraíso terrestre, eu quero a trincheira. 
 
Me cubram na porrada, me descubram no inverno, me isolem, me exilem no inferno das quengas. Batam, que eu rebato.  Cobrem, que eu me recobro, me recomponho, me revenho, me reponho em pé a cada baque, quebro a cara mas depois lavo o rosto, pago o mico, pego a reta, armo meu circo tomara-que-não-chova em qualquer comarca desprotegida capaz de comprar o bonde do meu currículo. 
 
Eu poderia estar amando, estar ganhando, estar gastando, estar flanando, estar causando, estar plantando flores de retórica para a colheita dos biógrafos; mas estou na trincheira, estou na luta, estou no trampo, estou no tranco, estou no sacolejo do busão, estou no passe-sênior do metrô. Eu poderia ter buscado a cobertura avarandada e me esqueci. Eu poderia ter contratado uma percentagem vitalícia e não contratei. Não importa; tinha outra porta que já estava entreaberta e eu passei. A paz é pra quem merece a paz. O descanso é para quem honestamente cansou. Eu não quero o calor do cachimbo, eu quero o frio da navalha. Eu não quero o fogo da lareira, eu quero a luz da batalha. 
 
Dois mil e vinte e cinco?!  Quem diria. BANG. Zuiiinnn... Caramba, essa passou raspando. Vida que segue. And so it goes.  





sábado, 3 de maio de 2025

5175) Cinco enganos (3.5.2025)



 
(Ilustrações: BING, inteligência artificial)
Prompt: 
Desenho hiperrealista em preto-e-branco. Uma família esperando o almoço e comendo "couvert" num restaurante. Pai, mãe, dois meninos e duas meninas com idades entre 8 e 12 anos. 

 
1
Lurdinha Pereira, 9 anos, estudante, foi convidada pelos tios e primos para ir ao jantar de aniversário do primo-rico Luquinha, e nesse dia lavou o cabelo, botou roupa quase nova, ouviu as mil recomendações dos pais, e foi apanhada de carro pelos parentes, que tinham carinho especial por ela, por seu temperamento espevitado e esperto, e pelos olhos azuis que ela arregalou muito ao entrar no restaurante, muito maior e mais cinematográfico do que ela imaginara, cheio de luzes e roupas bonitas, cheio de música e cores piscantes, e sentaram-se a uma mesa de toalha branquíssima, e o tio Adalberto, esportivo e tarimbado, pediu filé para todos, e ela ficou ali deslumbrada, faltavam-lhe olhos para tanto espetáculo, e o garçom trouxe travessas com torradinhas, manteiga em bolas, e vários talos verdes de coisas que ela mastigou pela primeira vez, e ao sentir os olhos de todos voltados para si obrigou-se a estar à altura da situação e comentou, despreocupada: “Puxa vida, tio Adalberto, esse filé está uma delícia!...”. 
 
 



Desenho hiperrealista em preto-e-branco. Um homem de 60 anos e uma mulher de 48 tomando vinho de mãos dadas numa mesa de calçada num restaurante em Bucareste (Romênia).

2
Hermínio Campos de Melo, 61 anos, bancário aposentado, solteiro, viu-se, num momento meio depressivo da existência, com mais dinheiro no Banco do que idéias do que fazer com ele, decidiu saiu um pouco de Jundiaí, onde vivera e trabalhara a vida inteira, folheou revistas de turismo, leu uma matéria elogiosa sobre Budapeste, cheia de fotos deslumbrantes, desistiu de conhecer o Rio de Janeiro, encontrou uma agência de viagens, explicou vagamente o que queria, mas Hermínio era tímido e tartamudo, não entendia tudo que lhe explicavam e tinha vergonha de pedir que repetissem, mas tirou passaporte, fez os voos, as conexões, padeceu de insônia e sede durante as horas intermináveis atado à poltrona da aeronave, desembarcou noutro país sem saber sequer dar bom-dia aos locais; mas Deus é grande e seus propósitos são insondáveis, porque Hermínio na verdade foi parar em Bucareste, e percorrendo aquelas romenas avenidas, aquelas praças, e descobrindo aqueles bares, aqueles cafés, Hermínio entendeu, ao descobrir o vinho tinto e ao entrelaçar os dedos com os de Milena Kovakovic, 58 anos, cantora de boate, que Deus escreve certo por linhas tortas e só não lê quem é muito burro.   
 
 



Desenho hiperrealista em preto-e-branco. Homem num escritório com escrivaninha e máquina de escrever, segurando um maço com 600 folhas de papel datilografado.


3
Andrzej Onderecki, 59 anos, funcionário público aposentado em Cracóvia, tradutor profissional em plena década de vigência da máquina Olivetti, da lauda A-4 e do papel-carbono, foi contactado por seu amigo Viktor Oblat, 72 anos, editor-assistente na casa editorial Ars Magna, daquela cidade, com uma oferta para uma nova tradução polonesa de Sense and Sensibility de Jane Austen, oferta que ele aceitou de imediato, afirmando ser um dos seus romances preferidos daquela autora, e dispensando inclusive o envio do original, pois tinha um exemplar em casa, e não foi com pouco entusiasmo que Andrzej se entregou à paciente, dedicada e nem sempre fácil tarefa de verter a prosa espirituosa e perceptiva da autora inglesa; mas, alguns meses depois, quando enviou para o amigo Viktor as centenas de laudas do original traduzido e várias vezes revisado, deparou-se com a estarrecedora informação de que tinha havido um engano na encomenda, e que o livro contratado era na verdade Pride and Prejudice; a obra trazida por Andrzej tinha sido já traduzida por outra pessoa e estava para chegar da gráfica a qualquer momento.
 
 



Desenho hiperrealista em preto-e-branco. Na sala de uma residência de classe média baixa, um homem de 60 anos e um garoto de 13 jogam xadrez, à noite.
 
4
Cuco Giménez, 61 anos, tipógrafo na cidade do México, cansado de um dia exaustivo no trabalho, às dez da noite ainda tinha afeição paterna bastante para jogar xadrez com Arturito, seu filho de 13 anos, em cuja inteligência apostava todas as suas fichas, com a paciência dos exaustos e sonolentos, com a obstinação dos fumantes, que após adiantar um bispo-da-casa-branca e anunciar: “Xeque!...” pegava o maço ao lado, acendia um Camel, e retornava a atenção ao tabuleiro e aos olhos expectantes de Arturito, e assim ficavam por cinco minutos, por dez longuíssimos minutos, por quinze insuportáveis minutos, até que Cuco, exasperado com tamanha hesitação filial, explodia: “Não vai jogar essa merda?! Já falei que é xeque, abestado!...” E Arturito, magoado e altivo, limitava-se a indicar com o indicador o peão que havia interposto três segundos após o avanço do bispo e que o pai não avistara, pois foi no momento justo em que, de olhos fechados, dava aquela baforada de cigarro que já salvou muita sanidade mental pelo mundo afora. 
 



Desenho hiperrealista em preto-e-branco. Sala de família de classe média, pai e mãe conversam com adolescente de 18 anos, cabeludo, vestindo roupas de roqueiro de heavy-metal. 
 
5
Jorginho Schmidt, 17 anos, desempregado, de Bragança Paulista, chegou em casa eufórico na hora do jantar, ansioso para dar aos sofridos pais a melhor notícia do ano e talvez de sua vida, que ele guardou até o momento sagrado pós o dar-graças e início da refeição, quando anunciou com voz trêmula de orgulho que havia sido convidado para integrar a banda Scorpions In The Soul, considerada por muitos (enfatizou ele) a melhor banda de psycho metal da cidade, ao que o pai travou sem encontrar resposta, mas a mãe, como sempre conciliadora e afável, respondeu: “Que bom, filho, finalmente! E quanto é o salário?...” 
 
 
 
 
 



 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

5134) Dicionário Aldebarã XXVII (18.12.2024)

 


(ilustração: Moebius)


O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 
Laupinn – Estilo arquitetônico de colunas para edifícios públicos, com colunas redondas, triangulares, quadradas, pentagonais e assim por diante, de acordo com a função do edifício. 
 
Atskont – Sistema de plantar roçados que em geral envolve umas três pessoas em fila indiana: a primeira cava um buraco, a segunda despeja sementes ali, e a terceira cobre sementes com terra, enquanto cantam baixinho uma música qualquer cuja cadência os ajuda a trabalhar em sincronia. Usa-se geralmente com um adulto acompanhado de duas crianças, para acostumá-las à rotina do trabalho. 
 
Cartunth – A sucessão de soluções improvisadas (ou “gambiarras”) que alguém providencia enquanto não resolve um problema qualquer. Soluções que acabam produzindo outros problemas colaterais, e requerendo novos improvisos, os quais se acumulam numa cadeia de situações difíceis de explicar a quem chegou agora. 
 
Akank – Terrina larga que se costuma colocar em cima da mesa durante o dia, entre as refeições, recolhendo pedaços de comida que não merecem ir para o lixo: frutas pela metade, biscoitos partidos, sanduíches incompletos, fatias de queijo da semana passada, tudo que pode ser comido sem problemas mas que em geral se perde porque fica misturado a comidas mais novas e mais atraentes. 
 
Willykunks – Um conjunto de técnicas usadas pelos estudantes para “colar” ou “filar” nos exames, e que envolvem uma infinidade de recursos: papeluchos dobrados e escondidos na roupa ou no cabelo, fórmulas copiadas na pele por baixo das roupas, etc. 
 
Vollcrep – A sensação de recordar um fato relativo a uma pessoa e ser capaz de recuperar na memória várias emoções e opiniões diferentes sobre essa pessoa, antes mesmo de lembrar quem é. Provoca descrições como: “Me disseram para entrar em contato com alguém, que não lembro agora: só sei que é uma pessoa que conheço desde a infância, de quem já me afastei por discussões tolas, voltei a ter amizade mas não consigo confiar totalmente nela, ou nele.” 
 
Guiombs – Uma espécie de lesma coriácea capaz de se alimentar de praticamente qualquer coisa digerível. Os aldebaranes as usam para ajudar na limpeza de pratos, tigelas, copos e outros utensílios após uma refeição, bem como das mesas e pia da cozinha. Elas engolem e digerem tudo que seja orgânico (cascas de frutas, migalhas, de pão, etc.), facilitando o trabalho posterior de limpeza. Algumas famílias  se afeiçoam a elas e costumam deixá-las sobre a mesa durante a refeição, alimentando-as  com ossos, farofa, etc. 
 
Hagazz-hagizz – A consciência de ter um compromisso social importante para cumprir, e  hesitação entre o interesse de comparecer, pelos prováveis resultados positivos para a vida profissional e pessoal, e o desejo de ficar em casa entregue a alguma tarefa banal que exija muito pouca energia íntima. 
 
Anspruch – A curiosa sensação de esperar por alguma coisa longamente, até por muitos anos, e no momento de satisfazer esse desejo perceber que essa expectativa tinha se tornado uma parte essencial de sua vida, e não vale a pena trocá-la por uma satisfação que, a esta altura, não passa de um anticlímax. 
 
Azunkerd – O estado de tensão psicológica de uma pessoa introvertida que precisa estar presente a um evento cheio de gente (uma festa de família, uma confraternização de trabalho, etc.) e fica dividida entre sensações opostas: a angústia da rejeição, quando percebe que ninguém dá importância à sua presença, e a angústia do julgamento, quando alguém se aproxima e tenta estabelecer contato. 
 
Egugs – Pequenos pratos comestíveis, feitos de farinha-doce torrada e prensada, servidos à sobremesa, com doces, mel, etc., que molhando o prato o tornam mais fácil de mastigar. 
 
 




terça-feira, 3 de dezembro de 2024

5129) Sete pontes (3.12.2024)




1
As Três Pontes de Teholualc, no sul do México, sobre o rio Colondras, surgiram de uma em uma. Séculos atrás os montanheses criaram uma ponte de cordas para possibilitar a passagem de um lado para o outro. Nem todos, contudo, eram fisicamente capazes de fazer a travessia, e um potentado local financiou a construção de uma ponte de madeira, firme, segura, a poucos metros da primeira.  Acontece que os mais jovens preferiam a ponte antiga e sua insegurança, e deixavam a de madeira para as pessoas idosas. Ora, alguns trechos da ponte mais nova, construída com árvores de má qualidade, começaram a apodrecer. Surgiu então o desejo de uma ponte de pedra, até porque o comércio da região aumentava, e com ele o tráfego de carroças para o outro lado do rio. A terceira ponte foi feita; agora, era a ponte de madeira que começava a receber o interesse aventureiro dos mais jovens. As três pontes estão hoje abertas e acessíveis a qualquer pessoa. Quando uma família viaja em grupo, ao chegar ali todos se desejam boa sorte e se separam, cada qual atravessando a ponte que mais lhe convém. 
 
2
Na cidade do Sêrro (MG) chama a atenção dos visitantes um casarão erguido quase à beira de um precipício, tendo num dos andares superiores uma comprida ponte de madeira que se alonga no vazio e de repente se interrompe, como se deixada inconclusa. Ali morou a família do capitão-mor Anteu Covilhã de Burgos, dono de minas e de cativos, senhor-de-terras temido na região, e que um dia foi emboscado e morto a foiçadas. Algum tempo depois, seu fantasma passou a assombrar a família, surgindo várias noites por ano, caminhando pelo corredor com pesadas botas e batendo na porta dos quartos com o rebenque, sem deixar ninguém dormir. Missas, novenas, aspersões com água benta, nada impediu seu retorno periódico, a abalar o sono dos parentes; até que D. Ermengarda, a jovem viúva, tomou a decisão de arregimentar pedreiros, demolir a parede do final do corredor e construir ali a ponte de madeira, prolongando o corredor até o abismo. Ponte por onde o fantasma, na vez seguinte, seguiu caminhando até o final, deu o derradeiro passo, e se esfumou no vazio. A ponte está ali até hoje, e o fantasma nunca mais apareceu. 
 
3
Alímbria, fortaleza medieval situada num platô nos montes Apeninos, só pode ser acessada com a travessia de uma ponte. Para dar tempo aos guardas de examinarem bem os que se aproximam, foi erguida uma torre de observação, e a ponte, depois de alargada, foi coberta com as paredes de um labirinto, onde todo recém-chegado precisa avançar lentamente enquanto é vigiado do alto pelos guardas. Com o tempo, o trânsito foi aumentando, a ponte foi sendo alargada, o labirinto ficou mais complexo; hoje há gente que mora nele, e desistiu de chegar à fortaleza. 
 
4
A ponte que conduz ao mosteiro de Kanerlin, na Romênia, tem cerca de quarenta metros de extensão, por sobre uma fenda rochosa com mais de cem de profundidade. A ponte consta, na verdade, de duas plataformas que se projetam uma ao encontro da outra, de ambos os lados do abismo – mas não se tocam. Existe entre elas um espaço vazio que deve ser transposto, com certo risco de vida, por qualquer pessoa que pretenda chegar ao mosteiro ou retirar-se dele. É neste ponto que os relatos variam e tornam-se contraditórios, porque, segundo se tem apurado ao longo dos anos, um homem (o mosteiro é vedado a mulheres e crianças) que se dirige ao mosteiro vê diante de si uma abertura de cerca de um metro até a continuação da ponte, espaço que pode ser transposto com apenas um pequeno pulo, ou uma passada mais larga. Por outro lado, um visitante ou um ex-noviço que pretenda regressar ao mundo profano atravessa a primeira metade da ponte mas então (todos os relatos concordam nesse ponto) veem a continuação dela situada a distâncias que vão de cinco a dez metros, espaço que só pode ser transposto com um grande salto, com o risco de cair no despenhadeiro – o que faz muitas pessoas, surpreendidas por essa discrepância inesperada, repensarem seu projeto de vida, e questionarem-se intimamente se de fato vale a pena o risco de perder a vida para voltar ao mundo. 
 
5
Em Baixaverde/Reunión, duas cidades gêmeas na fronteira Brasil/Argentina, a linha demarcatória passa pelo centro comercial, mas ao se afastar dali é coberta pela Ponte Suspensa, construída pela família Sá-Pereyra, na forma de um arco suave com uma extremidade em cada país. A ponte é coberta de mosaicos criados pelos irmãos gêmeos León e Lucas Sá-Pereyra, o primeiro nascido numa ambulância na Argentina e o segundo numa maternidade brasileira. Tendo estudado vários anos na Europa (Roma, Amsterdam, Barcelona), os irmãos se especializaram na criação de murais e painéis de mosaicos, que utilizaram em numerosas obras na Europa e nas Américas, e principalmente nesta ponte, no lugar de origem de sua família. A ponte utiliza como painéis laterais mosaicos em 3-D (“como os retângulos de uma barra de chocolate”, explica León, o mais bem-humorado dos dois) cujo aspecto e colorido mudam de acordo com o ângulo de visão do observador. Assim, quem cruza a ponte na direção da Argentina  acompanha ao longo desses trinta metros o desfile de rostos de argentinos ilustres – rostos que se transformam em brasileiros, para o pedestre que caminha no sentido contrário, rumo ao nosso país. Assim, tem-se a impressão de ver o rosto de Diego Maradona transformar-se no de Caetano Veloso (ou vice-versa), o de Erico Verissimo virar o de Adolfo Bioy Casares, as feições de Astor Piazzolla tornarem-se as de Moacyr Scliar, a imagem de Angelica Gorodischer fundir-se à de Fayga Ostrower, e outras surpresas. 
 
6
Cambises II, em sua campanha de conquista da Líbia, recorreu a um grupo de engenheiros espartanos que lhe forneceram o conceito de ponte articulada, capaz de ser desmontada e conduzida em carroças durante a campanha, e ser rapidamente construída quando necessário. Diante de um rio ou de uma falha no terreno, os soldados persas rapidamente encaixavam as tábuas, mediante um engenhoso sistema de protuberâncias, cavidades e cavilhas que firmavam as peças no devido lugar. O ponto de partida da ponte era fixado no chão com postes profundamente fincados, e à medida que as tábuas eram encaixadas umas às outras a ponte avançava sobre o abismo, até chegar ao lado oposto e ali também ser fincada. Após a passagem da tropa, a ponte era desmontada e conduzida em carroças até o obstáculo seguinte. 
 
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No município de Jandirópolis, sul da Bahia, o governo federal iniciou em 1975 a construção de uma ponte que ligaria dois planaltos contíguos, encurtando em mais de 50 km a distância entre a sede do município e o trevo que conduzia a Salvador. A construção foi iniciada com fanfarras e celebrações, mas crises políticas e reformas ministeriais deixaram o projeto em banho-maria. Da ponte projetada, ficou pronta apenas a parte inferior da estrutura, dezoito pilares verticais, paralelos, dois a dois, de ponta a ponta. Quando ficou claro que dificilmente o governo retomaria uma obra tão dispendiosa, a população local mobilizou-se e, escalando as pilastras, improvisou gambiarras arquitetônicas de toda sorte, construindo passagens horizontais em que os pilares são unidos por tábuas, troncos de árvore, postes de cimento descartados, tubulações metálicas furtadas a uma represa próxima, placas de acrílico amarradas umas sobre as outras. E a população atravessa por ali.  


sábado, 21 de setembro de 2024

5104) Sete segredos (21.9.2024)



(ilustrações ad hoc produzidas por Inteligência Artificial)


Isabelle Astaing, 27 anos, moradora de Bas-Béthune, na França. Cresceu sem mãe e sem irmãos, criada pela avó materna. Quando tinha apenas um ano, seu pai, Jacques Astaing, num acesso de insanidade, invadiu uma igreja, fuzilou fatalmente seis pessoas, deixou mais onze feridas, e foi morto pela polícia. Sua esposa Marie-Frances morreu (“de desgosto e de vergonha”, dizia-se) meses depois, deixando a bebê para ser cuidada pela avó. A menina, quando ficou grandinha, ficou sabendo de tudo a respeito de seu pai, mas a avó a aconselhava a não tocar no assunto com ninguém da cidade, porque poderia ser alvo de preconceitos. Todos na cidade sabiam da história dos Astaing, mas viam a menina com simpatia. Ela cresceu tendo poucos amigos, e imaginando que ninguém sabe quem foi seu pai, porque ninguém lhe faz perguntas sobre a família. E assim ficam, ela e os outros, cada qual por motivos diferentes, evitando tocar no assunto, e se fazendo de desentendidos sempre que alguém inadvertidamente menciona o episódio da “Chacina da Église du Bon-Dieu”.

 

(I.A. -- Bing)


Chuck Hollinger, 38 anos, advogado em Manhattan, passou pelo andar térreo do World Trade Center naquele dia fatal, duas horas antes do atentado, para tomar o café da manhã numa lanchonete antes de ir para uma reunião a alguns quarteirões dali. Na lanchonete, viu de longe um casal aos beijos que reconheceu como sendo Steve Canby, 35 anos, e Sue Lavery, 29 anos, que trabalhavam num escritório de advocacia no 81º. andar. Hollinger viu os dois saírem de mãos dadas rumo ao estacionamento, ao invés de subirem ao WTC. Nos dias subsequentes ao atentado, sem comentar nada com ninguém, ficou na expectativa de notícias a respeito dos dois e de como talvez tivessem escapado por pouco à destruição das torres. Semanas passaram, e através de cuidadosas e discretas inquirições Hollinger soube que os dois eram dados como desaparecidos pelas respectivas famílias. Ele nunca comentou o fato com ninguém.

 

(I.A. -- Firefly)


Rivalda Barbosa, 44 anos, diarista de profissão, estava há alguns meses fazendo faxina semanal na residência do casal Almério, 38 anos, e Ludmila, 30 anos, que a tratavam de maneira formal e educada, e no curso desse trabalho, que em si não era nem mais nem menos desgastante do que o de outras residências, pôde perceber a tensão entre o casal, fruto principalmente do temperamento agressivo e até cruel de Almério, o qual chegava a agredir a esposa, embora nunca diante de Rivalda, que mesmo assim já tinha passado por isto e conhecia os sinais. Uma tarde, limpando o banheiro da suite, ouviu através da porta fechada Ludmila queixando-se a alguma amiga, e dizendo: “Mas não tem nada não, estou preparando meu esquema, qualquer dia eu desapareço.” Nada disse, nada comentou, mas algum tempo depois, ao arrumar a despensa, lugar onde Almério raramente entrava, fez por mero acaso uma descoberta, um nicho secreto, num tipo de esconderijo que só poderia ter ocorrido a uma mulher, “um esconderijo à prova de homem”, pensou Rivalda, enquanto apalpava e corria com o polegar o maço de notas amassadinhas de cem e duzentos reais; e nas faxinas seguintes, a curiosidade sendo tão grande, percebeu que o pecúlio secreto aumentava, como também as violências verbais de Almério, cada vez mais ciumento, mais desaforado, e Rivalda quando tinha um tempinho ia lá conferir e aquela poupança crescia, enchendo-lhe os olhos, ela Rivalda com a mãe doente, ela Rivalda com o aluguel em atraso, ela Rivalda precisando fazer um canal no pré-molar, e aquela pequena fortuna ali dando sopa, até o dia em que ela chegou para o trabalho e deu com a cara na porta fechada, e uma vizinha lhe explicou, excitadíssima, que Ludmila tinha sumido sem dar explicações, Almério estava furioso e desconcertado, mas, concluiu a vizinha, “ela não é nenhuma boba e a essas horas deve estar muito longe”. E Rivalda comentou: “Tomara”.




(I.A. -- Bing)


Padre Simeão, 58 anos, da paróquia de Bom Retiro (MG), recebeu com certo sobressalto, numa terça-feira à tarde, a presença em sua modesta igreja de D. Emerenciana Catunda, 76 anos. A matriarca da família Catunda-Matoso, dona da maioria das terras daquela ribeira, mulher feita de ferro e baraúna, vinha à missa todos os domingos há décadas, mas jamais se confessava ou comungava. O padre fez os rapapés de sempre e conduziu a anciã até o confessionário, de onde ela se retirou meia hora depois, carrancuda como viera ao mundo e como certamente haveria de deixá-lo. O Padre Florival, 32 anos, observou tudo à distância, num pé e noutro, e, depois de transcorrido um conveniente intervalo, abordou o colega mais velho para saber do que se tratava, uma vez que entre ambos havia uma confiança total, com o beneplácito (esperavam eles) da Justiça Divina. Padre Simeão, no entanto, enxugou o suor da calva, esquivou-se, mudou de assunto, resistiu o quanto pôde, mas finalmente teve que dizer: “Padre Florival, pelo menos desta vez – respeite o segredo da confissão!...”  E nunca revelou nada. 



(I.A. -- Bing)


Marilinha Muniz, 23 anos, roqueira, vocalista simultânea de várias bandas emergentes, como Canabidiol, Coração da Índia, As Barbitúricas e outras, casada com o tecladista Otávio Rabelo, 28 anos, apaixonadíssima pelo seu marido, e fiel, independentemente das numerosas cantadas que recebe no palco e fora dele, das quais sempre se esquiva com um sorriso de desentendida, mantém um pacto com Otávio, pacto de abertura total, franqueza total, de nada-esconder-um-do-outro, e agarra-se a ele com a inocência dos que amam de verdade, mas numa noite de julho, depois de um show numa boate de Mossoró, ela deixou-se levar por um fã para um dogão e uma Coca, uma hora de papo sobre a vida, a música, a juventude, e no fim de tudo estava tão animada com esses três aspectos que deixou-se beijar demoradamente pelo patrocinador do lanche, Luís Paulo Aléssio, 41 anos, nerd, virgem, que lhe confessou balbuciante ser aquele o seu primeiro beijo, e a fez prometer silêncio absoluto sobre o episódio, principalmente sobre este último aspecto, e Marilinha voltou intacta para o hotel e para casa e para os braços confiáveis de Otávio Rabelo, e há anos sua invulnerável felicidade vive não-obstante toldada por uma sombra, de saber que pelo menos naquele detalhezinho comprometedor, ela achou mais cristão e mais fofo ser menos fiel à palavra dada ao marido e mais fiel à promessa feita ao rapaz do dogão, coitado.

 

(I.A. -- Firefly)


Valerii Nikolaiévitch Raspov, 43 anos, co-piloto de um voo comercial Irkutsk-Moscou, com 243 passageiros a bordo, viu como alarme a palidez tomar conta do rosto de seu colega, o piloto Dmitri Ivanovich Tchernáiev, 46 anos, quando o avião foi colhido por uma tempestade súbita e começou a chacoalhar, “era como se alguém estivesse tentando usar a aeronave para preparar um martini”, declarou depois Raspov. Por algum motivo Tchernáiev, piloto experiente, foi tomado por um acesso de pânico, talvez consequência do ser tão afeito à vodka e aos remédios tarja-preta; começou a suar abundantemente, com mãos trêmulas e olhos vidrados, e daí a pouco estava encolhido em seu assento, todo urinado, incapaz de tomar providências. Raspov isolou a cabine, ordenou aos comissários que acalmassem os passageiros, assumiu o comando, enfrentou aquele Maelstrom atmosférico e meia hora depois pousou a aeronave em segurança. A equipe de terra prestou socorro imediato ao piloto, cuja coragem Raspov elogiou em seu relatório. À esposa de Tchernáiev ele declarou: “Dmitri foi um herói, faça por onde ele seja um herói vivo.” Curiosamente, o piloto Tchernáiev, depois de recuperado, cortou relações pessoais com Raspov, a quem passou a acusar de ambicioso, carreirista e difamador. 




(I.A. -- Bing)


Alex Ramos, 25 anos, volante da equipe do Itumbiara, perseguido e esnobado pelo técnico Wilson Maciel, 48 anos, guardando calado o ressentimento pelas reclamações, críticas, comparações desestimulantes, viu chegada sua hora quando durante um treino coletivo o técnico apitou mandando parar e anunciou que tinha perdido a aliança, o que levou todo o plantel a agachar-se no gramado à procura, cabendo a Alex, ao passar os dedos numa grama alta junto à lateral do campo, ver o brilho do pequeno círculo dourado, e ter a estranha reação de pegá-lo disfarçadamente e enfiá-lo entre a chuteira e o pé, talvez com a intenção de fazer uma brincadeira mais tarde, talvez com intenção de pedir algo em troca, talvez para esticar um pouco mais aquela pausa num treinamento entediante, enfim, o próprio Alex ficou sem saber por que motivo escondeu a aliança, que levou para casa após o treino e guardou embaixo de um taco solto no quarto-de-empregada do apartamento em que morava e de onde se mudou no ano seguinte, e onde a aliança continua até hoje, catorze anos depois. 
 



domingo, 21 de julho de 2024

5084) "Entrevistas Transcendentais": Federico Fellini (21.7.2024)




O Estúdio 5 de Cinecittà é um enorme caixote de cimento pintado de bege. Uma caixa de sapatos com um pé direito altíssimo e paredes totalmente lisas. O motoqueiro pára junto à calçada, eu desço, devolvo o capacete que usei.
 
Caminho na direção da entrada, pensando que daqui a dez mil anos este estúdio estará sendo desenterrado. Arqueólogos da humanidade futura tentarão encontrar algum sentido na profusão de artefatos primitivos que encontrará lá dentro: dragões, sofás, cavalos de madeira, bebedouros, barcos, câmeras, holofotes, espadas, animais mecânicos, camarins, esqueletos, castelos inacabados.




Uma assistente me faz entrar. Eu a acompanho na escuridão por entre tapadeiras enormes, e sinto que do outro lado delas há uma equipe; ouço gritos, ordens, barulho de equipamento sendo transportado. Chegamos a uma parede de compensado, ela abre a porta. Lá dentro, num recinto espaçoso e bem iluminado, há duas poltronas tendo entre si uma mesinha com água mineral e copos. Numa das poltronas, Federico está sentado, folheando um documento de muitas páginas. O ar condicionado é forte; ele traja camisa escura, calças de flanela, um casaco, um cachecol. Larga os papéis, ergue-se apoiando-se nos braços da poltrona, e me aperta as mãos com simpatia. Sentamos, e a assistente sai, fechando a porta atrás de si. 
 
 
-oOo-
 
 
BT – Muito grato por me receber, ainda mais quando está em pleno trabalho, iniciando a filmagem de um novo projeto. 
 
FF – Não se preocupe. Nesta fase inicial quem menos trabalha sou eu. Os marceneiros estão pondo de pé uma estação de trem, que não sei ainda como vou usar. Ou melhor: tenho uma cena pronta na cabeça, a chegada de um personagem, de madrugada, a uma cidade desconhecida. Não sei ao certo o que vai lhe ocorrer, mas ele desce para tomar um café ou comprar um jornal, distrai-se, e o trem parte sem ele. 
 
BT – E depois?
 
FF – Depois... não sei. Enquanto estiver filmando isto, mandarei construir um hospício. Talvez ele se lembre de que seu pai está internado ali e resolva fazer-lhe uma visita. Alguns dos meus filmes nascem assim, de pequenos episódios que vão se juntando. O importante é ter as idéias com um mínimo de antecipação, para que os técnicos possam trabalhar: marceneiros, figurinistas... 
 
BT – Ao longo de sua carreira, seus enredos foram se tornando mais episódicos, menos articulados, e talvez menos previsíveis. 
 
FF – Sim. Penso que fui mais literário na primeira metade de minha carreira, preocupava-me muito com a história, a verossimilhança dos pequenos acontecimentos, a verdade emocional dos personagens... Isto vinha na frente. Depois creio que fui me afastando da literatura e me aproximando da pintura, ou das histórias em quadrinhos, e descobri o prazer de contar muitos episódios curtos, sucessivos, mas sem a obrigação de obedecer a um arco mais amplo. Não faço isto por deliberação, é espontâneo. São duas maneiras legítimas de narrar. Existem outras. 



(Casanova de Fellini
 

BT – O que mantém fiel seu público pode ser também o seu gosto pelo barroco, o extravagante... Pelos tipos humanos bizarros, as situações caricaturais, os fenômenos inexplicáveis... 
 
FF – Sim, isto acabou se tornando o principal clichê a meu respeito, para muitos produtores, críticos, etc.  Aparece um anão soprando bolhas de sabão, e eles gritam: “Felliniano!...”  Aparece uma mulher gorda na janela, escovando os dentes, com os seios enormes de fora, e gritam: “Felliniano!...”  Não nego que tudo isto me fascinava quando garoto. Sou fiel a este fascínio, ainda filmo para recapturar o maravilhamento dos meus dez anos diante de coisas assim. 
 
BT – Uma imagem recorrente em seus filmes é a imagem de pessoas caminhando por ruas desertas, de madrugada... Faz um certo contraste com a exuberância geral de suas imagens. 
 
FF – E talvez seja uma imagem que me é muito cara, que me lembra inclusive tempos da juventude, quando não tinha dinheiro, não tinha trabalho, andava de madrugada meio sem destino, outras vezes saindo de um trabalho que entrava pela noite... O que quer? O mundo é feito disto, multidões ruidosas e coloridas durante o dia, e durante a madrugada pessoas sozinhas caminhando devagar, sem pressa de chegar a lugar algum... Quando vejo uma rua com todas as portas e janelas fechadas, à luz dos lampiões, ela me parece uma mente adormecida, e tudo que acontece ali é como um sonho... A madrugada é o espaço do sonho, porque todos dormem. A rua deserta é uma rua que só existe em nós, e para nós. Por isso também me seduz a névoa, a neblina de Rimini, que envolvia as casas, as torres, os edifícios... tudo ficava suspenso no interior dessa nuvem branca, que a luz dos postes elétricos mal conseguia atravessar. 



(Mulheres e Luzes)
 

BT – Eu percebo no seu cinema, como no de Luís Buñuel (que em outros aspectos não se assemelha ao seu) um interesse humano pelos tipos que parecem fisicamente ou moralmente repulsivos, mas que, examinados de perto, não o são tanto assim. 
 
FF – Sim, embora o cinema de Don Luís seja, de certo modo, mais ácido e menos sentimental do que o meu; tenho consciência disso. O que nos aproxima talvez seja o horror ao moralismo, à hipocrisia. O moralismo, no fundo, não passa de uma tentativa de humilhar alguém para afirmar a nossa própria superioridade. Talvez isso tenha origem no fato de que tanto eu quanto Buñuel somos latinos, emotivos, passamos parte da juventude sob o peso de regimes totalitários, e da lavagem cerebral promovida pela Igreja. Com isto, adquiri um grande desprezo pelo moralismo, porque os que se dizem moralistas não se preocupam com nenhum valor moral elevado, e sim com a possibilidade de acumular poder para si mesmos quando humilham e condenam os demais. Só pensam em si, como o homem que só dá uma esmola se houver alguém olhando. E no fundo têm todos essa visão tribunalesca do mundo, uma corte onde eles investigam, interrogam, julgam, condenam ou perdoam... Não é assim que vejo a vida. 
 
BT – Os moralistas sempre o perseguiram, não é verdade? Alguns dos seus filmes foram considerados indecentes, a Igreja se manifestou... 
 
FF - Meus filmes são castos. Raramente mostro uma cópula, ou nudez exagerada. Há exceções motivadas pelo tema, como em Casanova, mas o sexo ali é coreográfico, performático, não se destina a excitar alguém. Nos meus filmes há sexo, mas como um aspecto da vida. É isto que os moralistas não me perdoam. O escândalo da La Dolce Vita não tinha a ver com nudez ou intercursos sexuais. Minhas orgias são desajeitadas, amadorísticas... A sensualidade, por outro lado, aparece na cena da Fontana di Trevi, uma cena de pessoas vestidas dos pés à cabeça, e que mal se tocam. É a água que fornece o erotismo. Os moralistas entenderam (sabe-se lá como) o quanto a água é erótica. 



(A Doce Vida)


BT – Mesmo os seus personagens negativos são mostrados com certa ressalva – o ladrão, o brutamontes, o sedutor, o vigarista... Isto aparece em Mulheres e Luzes, Abismo de um Sonho, A Trapaça, Cabíria, La Strada... 
 
FF – Quero mostrar quem eles são, mas todos nós estamos mais próximos uns dos outros do que imaginamos. Existem pessoas essencialmente malignas, no mundo, mas são raras nos meus filmes. O que mostro, geralmente, são pessoas movidas por impulsos contraditórios, ou por desejos mais fortes que seu bom senso, ou pelo medo que nos amesquinha, ou por situações em que se metem e não conseguem voltar atrás... Roubam, enganam, trapaceiam, porque é o que lhes parece mais fácil no momento, o atalho mais curto para obter o que pretendem, e são um pouco como crianças, sempre acreditam que ninguém está vendo, e que no fim escaparão impunes. 
 
BT – Em geral são castigados. Lembro do sedutor Franco em Os Boas Vidas, quando é desmascarado ao tentar seduzir a esposa do dono da loja. Ou as derrotas sucessivas do personagem de Broderick Crawford em A Trapaça
 
FF – São castigos que na verdade não procuram ter efeito moral, “vejam como o vício será punido!”... Não, é apenas para mostrar de que modo eles se metem nas enrascadas, porque têm uma percepção defeituosa da vida, são egoístas como crianças mimadas, nunca acham que podem estar errados, e geralmente estão. E qualquer um de nós passa de vez em quando por vexames desse tipo. Com menor gravidade, espero. Eu próprio já meti os pés pelas mãos tantas vezes! Não, eu não seria capaz de roubar a bolsa de Cabíria, com todas as suas economias dentro, mas sou capaz de imaginar o que se passa no espírito sombrio daquele indivíduo. Daí aquela longa cena, antes do roubo final... Estão à beira do barranco, ao entardecer... ele já sabe o que fará... está em plena tragédia... por isso nada diz, não faz um gesto, enquanto ela ainda está vivendo a própria fantasia. 



(Noites de Cabiria) 
 

BT – Sim, e nesta cena estamos todos no ponto de vista do ladrão. A única que ainda acredita na fantasia de Cabíria é ela mesma. São personagens patéticos, como é patético o adúltero compulsivo de Mulheres e Luzes. 
 
FF – O adultério tem a ver com a vaidade do homem que, com ingenuidade semelhante, nunca acredita que pode estar errado. Ele sempre acredita que a mulher jovem com quem conversa está tremendo de desejo por ele mas é obrigada a manter uma aparência virtuosa. Não é diferente da mocinha ingênua de Abismo de um Sonho, que larga o marido numa situação bem constrangedora, para perseguir o galã das fotonovelas; tanto ela quanto o sedutor vivem uma fantasia tão intensa que não conseguem perceber a realidade. 
 
BT – O senhor sempre se interessa, num certo sentido, pelas emoções fortes, sem deixar de lado as sutilezas.
 
FF – Se as emoções fortes são verdadeiras, as sutilezas irão aparecer, principalmente no cinema, porque estamos no domínio da câmera, da iluminação e do ator, e nenhum diretor tem domínio total sobre todos estes elementos, ao mesmo tempo.  E nenhum diretor necessita desse domínio. Temos que buscar a verdade emocional da história antes de tudo, e o resto virá por si só. E não me refiro simplesmente ao lado mais externo das emoções, o riso, o choro, a raiva, a paixão... Mas às emoções profundas, que nos movem, que nos impelem a agir deste ou daquele modo... Isto é um trabalho fascinante para quem escreve, quem dirige, quem interpreta... No momento de uma cena forte, de um close-up, há mil sutilezas que é preciso permitir que brotem, sem que o roteirista ou o diretor as tenham que prever, necessariamente. O momento principal do cinema é quando o diretor diz: “Ação!...  Tudo que acontece antes é mera preparação, e o que acontece depois é acabamento. 
 
Dito isto, respondo: sim, gosto de situações exageradas, até meio absurdas, gosto de emoções grandes demais. Não sou um retratista, sou um caricaturista.   



BT – Gosta mais das máscaras do que dos rostos... 
 
FF – Gosto de rostos que parecem máscaras, porque sinto neles uma verdade maior do que naqueles rostos pálidos, plácidos, organizados, que se parecem todos uns aos outros... Estes são os rostos da nossa era, a era das máquinas, em que tudo parece feito de acordo com a mesma fôrma. Gosto do que é único, e o que é único geralmente nos parece extravagante ou bizarro. Em todo caso, gosto de compor com os rostos. Nos meus primeiros filmes tive que aceitar às vezes os atores que as circunstâncias me impunham, mas meu desejo era sempre compor um personagem: um rosto, uma roupa, um ambiente, uma voz... Muitas vezes o ator tinha o rosto que eu queria mas a voz não tinha nada a ver, eu era forçado a encontrar alguém que tivesse a voz adequada e fazer a dublagem. 
 
BT – Lembro-me de ter lido, quando adolescente, que nos seus filmes o senhor dizia aos atores que conversassem qualquer coisa durante a filmagem, ou dissessem números, porque o diálogo só iria ser escrito depois. 
 
FF – Mas sim! É uma técnica como qualquer outra. Em algumas cenas só me veio à mente o que os personagens estariam falando quando vi a cena na moviola, sem som, e pela expressão do rosto deles uma certa troca de palavras me veio à mente. Não funciona em toda cena, é claro, pois existem aquelas onde os atores precisam estar dizendo coisas específicas, ou a história não faria sentido. Mas em outras... 
 
BT – Já vi queixas de que essa técnica da pós-sincronização prejudica as cenas, porque as palavras não coincidem com os lábios. 
 
FF – Tenho impaciência com quem fica tentando provar que o que passa na tela é uma mentira. Mas claro que é uma mentira! A arte é uma mentira, uma invenção, um sonho...  Fiquem eles com a verdade deles, podem ficar de pé na sala e gritar que as ruas são feitas de papelão, e que as balas são de festim. Há gente que vai para o cinema com um cronômetro ou um binóculo para encontrar o que eles chamam de “erros” – para ver se os movimentos das mãos de um instrumentista correspondem aos sons que se ouve na banda sonora. 
 
Eu não filmo para gente assim. Filmo para gente capaz de olhar um ator e não se perguntar de quem é aquela voz. É uma composição, é como usar uma tela transparente, com projeção ao fundo mostrando o Monte Olimpo ou o fundo do mar. É claro que é um truque! 


(Oito e Meio) 


BT -- O senhor tem este fascínio pelo extraordinário, pelo fora do comum, e sempre me perguntei por que motivo nunca dirigiu um filme de ficção científica, porque sei que gostava de ler esse gênero. 
 
FF – Mas, quem não gosta? Amadureci como artista escrevendo roteiros de quadrinhos à imitação de Alex Raymond e de Lee Falk, quando o governo fascista proibiu a importação das tirinhas. Eu escrevia, e um colega imitava o traços daqueles artistas, de quem ainda espero receber o perdão. Sim, escrevi Flash Gordon, escrevi Mandrake, mas colocar isto numa tela de cinema envolve outras questões. Tudo nasce da minha admiração pelo insólito, o grandioso, o despropositado... Sou um homem de Rimini, e Nova York para mim é uma metrópole interplanetária, uma construção cenográfica suspensa no tempo e no espaço, como aquelas cidades envoltas em cúpulas transparentes que viajavam pelo Sistema Solar. Sempre fui fascinado pelo mundo impossível criado pelos americanos. Ali, já assisti, numa tela gigantesca, uma projeção de “Satyricon” num daqueles “Square Gardens”, depois de um concerto de rock, com dez mil jovens fumando haxixe e fazendo o amor, e acho que nesse momento a Roma Antiga e a Roma Futurista dialogaram e se fundiram uma à outra, com uma pequena ajuda de minha parte. 
 
BT – Tem prazer ao assistir seus próprios filmes, com um olho na platéia, para ver como ela reage? 
 
FF – Às vezes, mas em geral tenho um certo incômodo, como se estivesse mostrando algo muito íntimo para uma multidão de desconhecidos, que facilmente podem me achar ridículo ou patético. O verdadeiro prazer está no ato de filmar. O grande momento do cinema é o dia de filmagem, à frente desse exército quixotesco que é toda equipe de cinema, com sua confusão, suas brigas, sua cumplicidade, seus mexericos, seus erros, seu perfeccionismo... Seja no estúdio ou na rua, um dia de filmagem é sempre um mergulho num mar desconhecido, para trazer de volta alguma coisa que nem sempre é o que buscávamos. Descobri isto através de Rossellini, nos meus primeiros trabalhos de cinema, pórque até então eu era um homem de gabinete, da escrita, do desenho, da produção de revistas ou de programas. E ao acompanhar as primeiras filmagens, principalmente em Paisà, percebi que o momento da filmagem era como um happening, como uma obra de arte efêmera que valia por si só, embora tivesse como propósito a realização de um produto que iria ser exibido meses depois. 



(Fellini ator) 

 
BT – O senhor chegou a trabalhar como ator num filme de Rossellini, um pequeno papel sem falas...
 
FF – E quanto menos se falar sobre isto, melhor.
 
BT – Mesmo assim, continuou aparecendo, mesmo que no papel de si próprio: Os Palhaços, Entrevista, Roma...
 
FF – Sim, mas é o que lhe falei, para mim não existe fronteira entre o que aparece na tela e o que está por trás da câmera. A fronteira existe apenas como uma abstração, uma convenção, tal como as fronteiras da vida real – se excetuarmos esses horríveis muros de pedra ou de arame farpado separando os países. A câmera pode apontar apenas numa direção, mas o cinema existe em 360 graus, é um círculo em que tudo se confunde. 



(Entrevista 


BT – Ou um circo...
 
FF – A palavra vem daí, círculo, circo, um espaço que inclui artistas, personagens e público: os que fazem, os que aparecem na tela e os que assistem. São espaços diferenciados mas contínuos, e vivem em função uns dos outros. Quando apareço filmando nos meus próprios filmes não estou posando de vanguardista, nem “quebrando a quarta parede”, estou sendo até meio saudosista, lembrando de um passado longínquo em que a arte era feita nas ruas, nas praças, no meio do povo, sem essa distinção artificial imposta pela indústria e pelo comércio artístico. Não sou contra o comércio, inclusive porque vivo dele, mas não podemos manter viva uma parte desse espírito? 
 
BT – Eu tenho um apreço especial por Entrevista, inclusive aquele final em que acontece o ataque dos índios e logo em seguida um temporal, e todos saem correndo, para se proteger da chuva... 
 
FF – Filmar em equipe exige uma capacidade de sonhar coletivamente. Sempre me surpreendo quando digo, por exemplo, “preciso de um balão colorido que se eleva no ar levando consigo dez pessoas”, e dias depois tenho nas mãos não só o balão como as pessoas, dispostas a subir nele somente porque essa idéia maluca me ocorreu! É diferente da relação que temos com certos financiadores incapazes de entender a imaginação. Querem explicação para tudo, exigem cortes no orçamento... A cena tem que mostrar uma mulher que chega ao consultório médico, e quando entra vê dois médicos gêmeos, vestidos iguais, por trás da mesa. O produtor lê isso, faz uma marca na página e pergunta: “Mas, por que dois gêmeos?... Não bastaria um?...”  É com esse tipo de questão que a gente tem que lidar o tempo inteiro, é de enlouquecer. 



(Oito e Meio


A assistente entrou já faz algum tempo, espera junto à porta, muito compenetrada, em seus óculos, seu cabelinho curto, sua minissaia. Séria como o mármore, que raramente sorri; tem idade para ser neta de Federico, e olha para ele com um olhar de mãe. Ele percebe, faz-lhe um sinal de positivo, ergue-se, eu também me levanto, abraçamo-nos, ele me agradece: “Grazie, trouxe-me belas lembranças, não deixe de ver o filme!..”  O filme é A Viagem de Mastorna, um percurso calvinesco de um homem que perde o trem e se perde na estação, no mundo, e se maravilha com o mundo, e não quer mais voltar para o que havia antes. 




 (A série "Entrevistas Transcendentais" é formada por textos que são imaginários mas pretendem ser fiéis ao espírito dos supostos entrevistados. Eu não entrevistei estas pessoas.)

Agatha Christie:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/05/4583-entrevistas-transcendentais-agatha.html

Philip K. Dick:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/08/4608-entrevistas-transcendentais-philip.html 

Julio Cortázar:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/12/4651-entrevistas-transcendentais-julio.html 

Augusto dos Anjos:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/01/4660-entrevistas-transcendentais.html 

Alfred Hitchcock:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/12/4894-entrevistas-transcendentais-alfred.html 

Edgar Allan Poe:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/06/4957-entrevistas-transcendentais-edgar.html