Em
certos momentos tenho a impressão de que fui a única pessoa a gostar do fime Tár, estreado por Cate Blanchett e
dirigido (com brilhantismo) por Todd Field, aquele rapaz que faz o pianista
amigo de Tom Cruise no filme kubrickiano Eyes
Wide Shut (“De Olhos Fechados”, 1999).
Sei
que não sou o único, claro, e nas redes sociais vi inúmeros elogios. Mas vi
também rejeições bruscas, irritadas: ao filme, ao enredo, à personagem
principal, à narrativa, à verossimilhança da história contada.
Tar se passa num mundo
que eu só aceito como real porque sei que o é. É o mundo das pessoas
riquíssimas, sofisticadas, cosmopolitas, poderosas. Não é um mundo de
executivos bilionários, de banqueiros, de políticos. Curiosamente, é o mundo da
Cultura e da Arte, ou seja, em princípio este mesmo mundinho de fundilhos
rasgados e mão-em-concha onde vivo e bulo há mais de meio século.
Só
que, no caso dela, é o mundo da alta cultura, da música orquestral, das grandes
temporadas líricas... Alguém já afirmou que a música sinfônica e a física
teórica são as maiores contribuições da Europa ao pensamento humano. Uma constatação
que pode ser ampliada, é claro (eu incluiria o romance dos séculos 18-19), mas
nunca reduzida. Estes dois monumentos ninguém discute.
Lydia
Tár é uma maestra talentosa, culta, articulada, articuladora, ambiciosa, sagaz,
olimpicamente certa do próprio poder no mundo da música. Não é um papel difícil para Cate Blanchett. Ela já
interpretou Bob Dylan, o Dylan elétrico do Royal Albert Hall Concert, o Dylan
de 1966. E tira Lydia Tár de letra.
A
maestra é do tipo capaz de passar o trator por cima de tudo, quando precisa alcançar
um objetivo: namorar uma musicista jovem, demitir um funcionário, proteger a
filhinha que sofre bullying na escola, acabar um namoro que perdeu o encanto.
Tudo isto a ajudou na subida à Fama – e, como nos romances-para-costureirinhas,
tudo isto vai provocar seu desmoronamento final. (Que, ao contrário da maioria
dos espectadores, achei adequado, dramaturgicamente plausível, e narrado com
desconcertante simplicidade.)
Gosto
de fazer aproximações inesperadas, meio randômicas, entre coisas
não-relacionadas. O nome da personagem de Cate Blanchett me foi trazido à
memória quando assisti agora há pouco tempo o documentário Béla Tarr: I Used to be a Filmmaker (2013) de Jean-Marc Lamoure,
sobre o cineasta húngaro conhecido por seus filmes austeros, enigmáticos,
arrastados, filosóficos, tarkovskyanos.
O
documentário acompanha as filmagens de O
Cavalo de Turim (2011) o último filme dirigido por Tarr, nascido em 1955,
autor de Satantango, O Homem de Londres e outros.
É
um filme feito na borda do fim dos tempos, por assim dizer: uma campina
semi-desértica, açoitada por uma ventania que parece obstinar-se em varrer dali
a presença humana para que o mundo se acabe sem que haja testemunhas.
Numa
casa de pedra vivem um homem de um braço só e uma mulher jovem, aparentemente
sua filha. Ele tem uma carroça e um cavalo, e de vez em quando vai vender
coisas num vilarejo. E só.
O
filme é preto-e-branco, e tem uma música que parece uma ventania repetida em loop misturada a uivos de banshees carpindo a morte do sol.
No
doc, vemos Béla Tarr dirigindo cenas deste filme impressionante, e conversando
com membros da equipe, que dão breves entrevistas comentando seu trabalho. São
artistas que criam juntos com o diretor há muitos anos: a montadora (e esposa)
Agnes Hranitzky, o escritor Lazslo Krasznahorkai, o fotógrafo Fred Kelemen, o
compositor Mihaly Vig, a atriz Erika Bok.
É
o mundo da Arte e da Cultura, também. E ao ver as filmagens de O Cavalo de Turim tenho a sensação de
que o diretor e sua equipe estão mais próximos, social e historicamente,
daqueles personagens miseráveis cuja vida estão filmando do que do mundo glitzy, o mundo blasé, o mundo highbrow
da maestra Lydia Tár.
Tudo
isso é cultura, por certo, e não estou aqui contrapondo maestras que vestem (o
quê, Deus do céu? Eu só estudei até Dior e Givenchy) a cineastas intelectuais
que trajam capote e botas. É um mundo só, e Béla Tarr não é propriamente um
tresmundista rodando filme vencido e largando papagaios no comércio do vilarejo
onde filmou. Seus filmes são produções internacionais, e aparecem nos grandes
festivais de cinema. Ele não é um pobretão.
Mesmo
assim, há um contraste tão desconcertante entre o mundo de Lydia Tár e o mundo
de Béla Tarr que o primeiro impulso é achar que são polos opostos, e que os
dois nada têm em comum. Eu vejo, contudo, no olhar de Cate Blanchett (quando
“recebe” a maestra) e no olhar do diretor húngaro a mesma concentração, a mesma
fixidez, a mesma imperturbabilidade das pessoas capazes de criar com grande
intensidade e em alto nível. O olhar impiedoso do artista nos momentos em que deixa de ser
gente como a gente e passa a ser o que é.
A
maestra deixa que a vida pessoal lhe arruíne a carreira; o cineasta pára de filmar
em 2011 e vai fazer outra coisa. Rica ou modesta, fashion ou ascética, a Arte de verdade cobra um preço alto. Feliz
de quem tem uma vida com que pagá-lo.