Numa discussão sobre ficção científica brasileira, com dois ou três amigos, me queixei do pouco que o Brasil é retratado em histórias de FC nacionais. Todo mundo ambienta suas histórias em outro país ou outro planeta, e histórias ambientadas no Brasil são proporcionalmente poucas. Por que? Alguém questionou: “Peraí, que dirigismo é esse? Então o escritor é um funcionário, tem que obedecer um Plano Quinquenal de Romances Futuristas? O autor não é livre pra criar? Tem que produzir dentro de uma fórmula fornecida pelos críticos, ou pelo governo?”
A
crítica é procedente, e concordei. Cada sujeito, quando se senta para escrever,
é livre para ambientar suas histórias onde bem quiser. Dei como exemplo eu
mesmo: nos 19 contos de meus dois livros de FC, há dois que só poderiam ser
ambientados (como são) no Rio de Janeiro. São dois contos sobre um Rio do
futuro (“Príncipe das Sombras” e “Jogo Rápido”). O resto, ou é em outros
planetas, ou numa cidade que poderia ser qualquer uma. (Há um conto, “Oh Lord,
won’t you buy me”, ambientado em São Paulo, mas sua primeira versão, que
escrevi nos EUA, era ambientada em Chicago, e o conto era exatamente o mesmo.)
O
que acontece é que o questionamento sobre ambientação não deve ser feito aos
indivíduos, e sim à uma geração inteira dos autores, depois dos livros
escritos. Cada um de nós, autores, é
livre para ambientar suas histórias onde quiser, mas nós, críticos, temos o
direito de estranhar se somente uma fatiazinha desses livros brasileiros diz
respeito ao Brasil. Não se pode cobrar nada de cada escritor (cada um é livre,
repito) mas se o país está conspicuamente ausente dessa produção literária isto
é um sintoma cultural que não pode ser ignorado. O crítico tem a obrigação moral e intelectual
de perguntar por que é assim.
(Por distração, este artigo, que é do "Jornal da Paraíba" do sábado 19 de abril, foi postado aqui neste blog no dia 18, sexta. A postagem correta referente à a sexta 18 é "3476) Roubado não é bom".)


