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domingo, 17 de julho de 2011

2611) Escritores e marketing (17.7.2011)




Fala-se muito que os escritores hoje em dia estão mais preocupados em fazer marketing do que em escrever. Que injustiça com o século. Quem foi que teve pela primeira vez a bela idéia de fazer lançamento de um livro com noite de autógrafos? Um marqueteiro “avant la lettre”. Fico imaginando um autor sisudo como Tolstoi recebendo uma carta de seu agente literário:

“Prezado Leo Nikolayevitch: Tive uma excelente idéia para o lançamento de Guerra e Paz. Ao invés de mandar os exemplares para as livrarias e cruzar os dedos, podemos fazer da aparição deste romance um acontecimento de que toda a Rússia tomará conhecimento, o grande acontecimento de 1869. Primeiro, reservaremos um espaço público, bem conhecido, bem frequentado. Pode ser uma livraria, um restaurante. Divulgaremos através da imprensa que nessa noite você estará presente, em pessoa, e que cada leitor que comprar um livro terá direito a dirigir-se a você e pedir não apenas seu autógrafo, mas uma dedicatória personalizada! Como deve aparecer muita gente, deixaremos uma mesa reservada só para você fazer isto, e se houver muita gente pediremos que se organizem numa fila.

“Pensei em tudo: como você vive se queixando de má memória, a pessoa que vender os livros e passar o troco escreverá o nome do comprador num papel e o colocará dentro do livro, para que você possa fazer aquela encenaçãozinha: “Mas que beleza, que honra tê-lo aqui... esta noite... me prestigiando... meu caro Fiódor Mikhailovitch!!!...’ Sacou? Aproveitaremos para servir um coquetel, provavelmente vinho branco servido naquelas tacinhas de plástico que quando cheias ficam mais pesadas na parte de cima do que na de baixo e se desequilibram com a maior facilidade, principalmente quando colocadas na beira das prateleiras de uma livraria. Creio (um romancista como você me dará razão!) que pequenos imprevistos assim conferem uma sensação de espontaneidade e verdade psicológica ao evento.

“Leo, meu caro... Conheço meu gado! Sei que a esta altura você estará franzindo o sobrolho e erguendo objeções mudas a esta minha estratégia. Mas pense na concorrência, rapaz! A Rússia tá pegando fogo de escritores bons, está cheia de jovens pitbulls das letras rosnando em seus calcanhares, para não falar em futuristas como Maiakóvski, que ainda nem nasceram mas que herdarão a Terra. Você não pode dormir sobre seus triunfos. Temos que usar os poucos recursos de que dispomos, tendo em mente inclusive que Hollywood ainda não filmou o romance e isto inviabiliza meu plano de botar a foto de Audrey Hepburn na capa da edição em pocket. Você diz que seu compromisso é com os leitores? E então? Dê aos seus leitores aquela ilusãozinha de que são amigos seus, de que você, durante os poucos segundos que dura um autógrafo, tomou conhecimento da existência deles. O século 20, meu caro Leo, vai ser de quem convencer a platéia de que ela é mais importante do que o palco. Grave isto. No mármore.”



terça-feira, 31 de maio de 2011

2570) O romance de adultério (31.5.2011)



A crítica chama de “literatura mainstream” a corrente principal da literatura, ou seja, o romance realista em geral, que descreve a vida como ela é, os costumes das classes sociais, a existência cotidiana, etc. Em geral, esse conceito é contraposto à literatura dita “de gênero”: o romance policial, de terror, de ficção científica, de faroeste, de humor, etc. Estes seriam gêneros especializadíssimos e que, talvez por isto mesmo, são incapazes de reproduzir toda a complexidade do mundo de hoje.

Mas podemos considerar também que um gênero literário é uma espécie de repetição ritual de temas e situações que por variados motivos nunca deixam de encontrar leitores. O que é o romance de detetive? A história de um crime violento que ninguém sabe como e por quem foi cometido; e de um homem (o Detetive) que consegue interpretar da única maneira correta uma porção de indícios que os outros viram e não compreenderam e prender o criminoso. É a Razão servindo de instrumento para punir a Transgressão. Por motivos variados esse tipo de história nunca deixa de ter leitores. Uns são atraídos pela fascinação da Violência, outros pela conquista do reequilíbrio pela Sociedade, e outros (eu, p. ex.) pelas inesgotáveis manifestações da Inteligência.

Dentro do romance social e psicológico há um subgênero importantíssimo, mas que a crítica não costuma identificar como tal. Eu o chamo o Romance de Adultério: aquele em que uma instituição crucial da sociedade, o casamento patriarcal e monogâmico, é ameaçado pelo comportamento individualista e transgressor de uma ou mais pessoas. Dentro desta rubrica caberiam clássicos como Anna Karenina de Tolstoi, Madame Bovary de Flaubert, O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, Dom Casmurro de Machado de Assis, O Amor Conjugal de Alberto Moravia e milhares de outros. Estes livros são considerados “mainstream” porque ninguém até hoje se mobilizou para defender a criação de um gênero que os abarcasse e que se certa forma “chamasse” a criação de novas obras baseadas neles. Essa criação se dá invisivelmente, dentro do mercado literário que já existe.

É curioso que este tema não tenha sido cristalizado em gênero, como foi o assassinato (através do romance policial). A dualidade casamento/adultério, segurança/aventura, respeitabilidade/transgressão tem sido uma inspiração constante da literatura nos últimos séculos, e gerou obras magníficas como estas que citei acima e muitíssimas outras. Alguns autores retornaram de maneira quase obsessiva ao tema. Machado de Assis, talvez pelo fato de publicar muitos dos seus contos em jornais e revistas voltadas para o público feminino, falou do assunto sob todos os ângulos possíveis. E no entanto a crítica planta firmemente esses romances dentro do território indiferenciado do “romance realista psicológico urbano” ou coisa parecida, quando, para transformá-lo em gênero, bastaria criar uma coleção e formalizar uma teoria.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

1883) Cegueira cultural (22.3.2009)



A incapacidade de ver algo não tem nada a ver com nossos olhos, e sim com a nossa educação. Jorge Luís Borges observava que um índio vê uma cadeira de um modo diferente de nós, porque elas não existem na sua cultura. Quando vemos uma cadeira, sabemos que aquela plataforma horizontal serve para apoiarmos nossas nádegas enquanto descansamos nossas pernas, e que o restante (encosto, braços, pernas) é de importância secundária. Um índio talvez veja uma cadeira e fique intrigado com aquela árvore estranha que tem quatro troncos em vez de um só.

Num artigo sobre Leon Tolstoi em The New Yorker, James Woods comenta “…uma técnica pela qual Tolstoi viria a ser elogiado pelos críticos formalistas russos das décadas de 1920 e depois: o distanciamento, a arte de tornar estranho o que é familiar. Às vezes, isto envolve a visão do mundo com os olhos de uma criança. Quando Natacha vai à ópera, ela se recusa a ver qualquer outra coisa além de telões pintados e homens e mulheres com roupas esquisitas, e acha tudo aquilo falso e pretensioso”.

Todo espetáculo precisa da suspensão voluntária de descrença. Senão, nada acontece. No romance de fantasia Swordspoint (1987), Ellen Kushner mostra personagens indo ao teatro pela primeira vez:

“Em seguida, aconteceu uma cena num hospício, com todo mundo cantando e dançando. O que a cena fazia ali Richard nunca descobriu; mas quando ela acabou, foi erguida uma cortina por trás dela, revelando uma enorme escadaria que dividia o palco de alto a baixo. O espadachim apareceu, e anunciou que era meia-noite, e que isto o libertava da missão imposta pelo duque”.

Um espectador com um mínimo de experiência entende que a cena musical está ali justamente para dar tempo a que seja preparada a escadaria para a cena seguinte; e que as horas anunciadas pelos personagens não correspondem à hora marcada pelo relógio do público.

Em seu conto “A Busca de Averróis” (em O Aleph), Borges comenta a crise intelectual de um muçulmano que, vindo de uma cultura onde não existia o teatro, era incapaz de compreender o sentido de uma peça:

“Uma tarde, os mercadores muçulmanos de Sin Kalan me conduziram a uma casa de madeira pintada, na qual viviam algumas pessoas. Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um só quarto, com filas de armários ou balcões, uns sobre os outros. Nessas cavidades havia gente comendo e bebendo, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, menos umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam, e logo estavam de pé”.

Estes três exemplos teatrais bastam para ilustrar que toda representação do real é absurda, quando ignoramos (ou quando nos recusamos a conhecer) o código em que foi concebida. Vale para qualquer tipo de espetáculo, para o cinema, a literatura.









domingo, 10 de janeiro de 2010

1501) Onde começar a história (4.1.2008)


(Leon Tolstoi)

Um aspirante a escritor perguntou a um autor famoso como deveria escrever um romance, e ouviu como resposta: “Comece pelo princípio, e quando chegar ao fim, pare”. Típica resposta de quem está num coquetel, querendo conversar amenidades, e sem disposição para teorizar questões técnicas. Uma das principais dificuldades em contar histórias (seja na ficção, no jornalismo, onde quer que seja) é o fato de que começo e fim não são pontos claros e indiscutíveis. Qualquer evento pode ser começo de uma história e final de outra. Fazemos uma escolha arbitrária, dependendo de que história queremos contar.

Um texto de James Wood sobre Tolstoi no The New Yorker (em: http://www.newyorker.com/arts/critics/atlarge/2007/11/26/071126crat_atlarge_wood?currentPage=all) revela um detalhe curioso da concepção de Guerra e Paz. Diz ele: “Tolstoi queria, a princípio, escrever sobre 1856, narrando o retorno de um nobre com idéias revolucionárias, após seu exílio na Sibéria. Mas para escrever bem sobre 1856, no entanto, ele achou que precisaria retroceder até 1825, quando os rebeldes aristocratas chamados “dezembristas” foram executados ou exilados. Mas 1825 não poderia ser evocado, conforme Tolstoi explicou numa anotação, sem se falar no ano histórico de 1812, quando Napoleão invadiu a Rússia e ocupou Moscou por quatro semanas. Mas 1812 também precisaria de uma preparação, e é por isso que o romance se inicia em 1805”.

Este processo lembra o paradoxo de Zenão de Eléia, que diverte muito os estudiosos de filosofia. Diz ele que para ir do ponto A ao ponto B precisamos passar primeiro por um ponto C, que fica na metade da distância entre os dois. Muito bem. Mas para passar pelo ponto C é preciso passar pelo ponto D, que fica no meio do caminho entre A e C. Só que para chegar nesse ponto D precisamos passar primeiro pelo ponto E, que fica a meio caminho entre A e D. E assim por diante. Nunca podemos chegar no ponto que desejamos, porque antes dele temos que atingir outro, e outro, e outro.

Do ponto de vista filosófico, é uma falácia. Para atingir infinitos ponto, não precisamos de infinitos movimentos, mas de um movimento contínuo que cubra esses pontos num mesmo impulso. Qualquer pessoa que já foi até a geladeira pegar uma cerveja corta esse nó górdio. No caso da literatura, contudo, entram outros fatores. Imagino que Tolstoi queria criar um romance histórico gigantesco (como de fato criou) contando a história da Rússia, assim como Érico Veríssimo quis contar a história do Rio Grande do Sul em O Tempo e o Vento e Ariano Suassuna a da Paraíba no Romance da Pedra do Reino. O problema com o romance histórico é que a História não tem começo nem fim. Antes de cada fato histórico ocorreu outro que o influenciou. Definir onde se começa a narrativa é uma decisão literária que mais cedo ou mais tarde o autor tem que tomar, se pretende começar o livro pra valer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1487) O Número da Besta (19.12.2007)




Escândalos científicos sacolejam de vez em quando a comunidade acadêmica, quando se descobre que a pesquisa do Professor Tal foi falsificada para corresponder aos resultados de sua hipótese. O sujeito mexe uma vírgula pra cá, adiciona um zero onde ele estava faltando, valoriza resultados próximos ao que ele esperava, descarta resultados incômodos... 

Se isto se faz no vigiadíssimo e desconfiado ambiente científico, o que dizer do ambiente místico-esotérico, onde os mecanismos de vigilância são meramente espirituais?

Não sou um grande leitor, mas sou um bom folheador de livros. Quando eu tinha dez anos estava tentando ler Guerra e Paz de Tolstoi, porque eu gostava de qualquer história que contivesse batalhas, espaldeiradas e tiroteios. 

Não li o livro até hoje, mas lembro que a edição brasileira daquela época era em dois volumes – eu imaginava que o primeiro descrevia a guerra, o segundo a paz. 

A certa altura, havia algumas páginas cheias de cálculos numéricos que me chamaram a atenção. O personagem Pierre Bezukhov (ou “Bésuhoff”, na grafia francesa) está se divertindo com cálculos numerológicos para descobrir quem será, naquela época belicosa de princípios do século 19, a Besta do Apocalipse.

Pierre pega uma tabela de correspondências alfanuméricas (A=1, B=2, etc., e em seguida K=20, L=30, M=40 – algo assim). E começa a escrever nomes próprios e somar seus valores numéricos, para ver se acha 666, que, como sabe até quem não leu a Bíblia, é o número da Besta. 

Pierre é um cara culto e usa o idioma culto da época, que é francês. E a certa altura ele escreve: “L’Empereur Napoléon”, soma os números... e obtém 666. Aquilo lhe dá um calafrio de descoberta e de premonição, porque a Rússia está justamente em guerra contra o imperador francês.

Ele imagina (se bem me lembro) que o povo ou a pessoa destinada a derrotar Napoleão deverá ter uma soma numérica equivalente. Repete o cálculo com seu próprio nome, mas a soma é muito grande ou muito pequena. 

Depois de tentar algumas combinações, ele tenta: “Le russe Bésuhoff”, e o resultado é 671. Uma diferença de 5 pontos a mais sobre o resultado pretendido. Ora, 5 é o valor da letra “E”, que havia sofrido elisão na expressão “l’empereur”. Quando ele refaz o processo, mesmo violando as regras da gramática, a expressão “L’russe Bésuhoff” soma 666. E ele considera isto uma prova de que seu destino é derrotar a Besta.

Esta é uma típica experiência em que o experimentador vai tentando incontáveis coisas e descartando todos os resultados que não lhe interessam. 

E quando obtém um resultado parcialmente interessante, ele faz pequenas adaptações pouco ortodoxas até que “a conta feche sem deixar resto”. 

(Este artigo não tem como tema a Bíblia, o Apocalipse, as Guerras Napoleônicas ou a obra de Tolstoi; o tema deste artigo é: “Quando alguém, mesmo um cientista, precisa muito encontrar um resultado, acaba convencendo a si próprio de que encontrou”.)






sábado, 27 de setembro de 2008

0563) Um Tsunami de números (7.1.2005)



O saite “Cockeyed.com” preparou uma curiosa comparação gráfica entre o atentado ao World Trade Center e o tsunami que devastou os países da Ásia. Segundo os caras, a Indonésia perdeu 53 Torres, o Sri Lanka 16, a Índia cinco, e assim por diante. Estes números, claro, já estão defasados. A quantidade de vítimas aumenta a cada dia que passa. E eu discordo um pouco da base de cálculo, que toma uma média de 1.500 vítimas por Torre. Pelo que me consta o número final (oficial) de vítimas do 11 de setembro foi de 2.749, mais os 19 terroristas (bem abaixo dos 6.300 que eram a estimativa feita nos dias seguintes).

Alguns artigos na imprensa têm comparado o número de vítimas e a população de seu país de origem, e ao que parece um dos países mais atingidos foi a Suécia. As praias atingidas pelo tsunami (Indonésia, Tailândia, etc.) eram um dos lugares preferidos pelos turistas dos países nórdicos. Havia cerca de 20 mil turistas suecos na região. No momento, 3.500 deles estão desaparecidos, provavelmente mortos. É mais gente do que morreu em Nova York no 11 de setembro. A última tragédia a que o país pode comparar esta foi o naufrágio de um “ferryboat” em 1994, quando morreram mais de 800 pessoas, entre as quais 551 suecos.

Em todo caso, esta algaravia numérica é para mostrar que eu também, como grande parte da imprensa e da humanidade alfabetizada, estou me entregando a uma reação nervosa típica de nossa civilização. Chama-se a isto “Quantificar o Impensável”. Toda vez que uma coisa é traumatizante demais, a gente a transforma numa coluna de números, e começa a compará-la com colunas parecidas.

Na primeira página de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera comenta que 350 mil africanos morreram numa guerra tribal qualquer, e que isto não deixou marca nenhuma na História do Mundo. Na primeira página de Buffo e Spallanzani, Rubem Fonseca sonha com Leon Tolstoi molhando a pena num tinteiro e lhe dizendo: “Para escrever Guerra e Paz, repeti este gesto 1 milhão e 800 mil vezes.” Os números talvez não sejam estes, porque estou citando de memória, mas é o que menos importa. É o ato de contar coisas que nos sossega o espírito. Dustin Hoffman, em Rain Man, vê uma caixa de fósforos se derramar no chão e diz: “37”.

Saber quantos (não importa o quê) tem essa curiosa função pacificadora. Não é apenas o prazer do Tio Patinhas contando suas moedas e se orgulhando da sua fortuna. Contamos os infortúnios também, pelo poder mágico do número e da possibilidade de confrontação de séries numéricas (“Morreu um Maracanã de gente!”). Em colunas anteriores (“O império do número”, 17.7.2003, “O delírio quantitativo”, 9.11.2003, e outras) comentei essa perversão benigna de nossa mente. Sofremos muitos males sob a Ditadura da Quantidade, mas ela também nos ajuda a suportar as brabeiras da vida. É como contar os carneirinhos que entram pela porta do Matadouro, e adormecer em paz.