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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

4640) Eu me lembro 20 (11.11.2020)


1

Eu me lembro de quando a gente foi morar na Vila dos Motoristas, atrás do campo do Treze (também conhecido como “Estádio Presidente Vargas”). Tudo era novidade, depois de termos morado uns 3 ou 4 anos seguidos na rua Miguel Couto, o que, para quem tinha 10 anos, como eu, era tempo pra caramba. Meu pai fez uma viagem ao Rio. (Ainda hoje, a expressão “Hotel Serrador” tem um eco mítico em minha lembrança, e anos depois, quando o vi pela primeira vez ali perto da Cinelândia, pareceu-me um pedaço de Campina.) Na volta da viagem, Seu Nilo mostrou uns livros que tinha comprado no aeroporto. “É uma editora nova que está começando,” explicou ele. A editora era a Editora do Autor, e os livros eram a Antologia Poética de Vinicius de Moraes, O Homem Nu de Fernando Sabino, O Cego de Ipanema de Paulo Mendes Campos e Ai de Ti, Copacabana! de Rubem Braga. Que eu passei a devorar com olhos arregalados, porque até nas capas, no projeto gráfico, eu sentia uma novidade, uma modernidade no ar. Menino que eu era, fiquei “arriado dos quatro pneus” por Vinicius e Sabino, mas Paulo Mendes Campos e o velho Braga eu só aprendi a saborear bem mais tarde, depois dos vinte. 


2
A gente se mudou em 1961 para o Alto Branco, momento triunfal da primeira casa própria – e última, porque de lá para cá foi “a casa dos meus pais”, e hoje é onde meu sobrinho Nilo Neto mora com a família. Meu pai nunca soube dirigir e nunca teve carro. O Alto Branco era uma espécie de “zona rural” naquele tempo, nem linha de ônibus tinha, tinha umas kombis que faziam a circular, e só elas dão um livro. Imagine 15 pessoas e suas respectivas feiras, num sábado, amontoadas ali dentro, e um cobrador em pé, encurvado, catando os trocados de cada um. Meu pai começou a armar um esquema de pegar caronas, porque a descida-e-subida era longa (descida até o Ponto Cem Réis e o Canal, e subida dali em diante). Um amigo dele tinha um carro e morava perto. A gente saía do Colégio Alfredo Dantas meio-dia (eu com 11 anos, Pedro com 7), Seu Nilo pegava a gente e ficávamos assim-como-quem-não-quer-nada perto do carro do sujeito, até que ele aparecesse e ofertasse uma carona. Na época eu era fascinado pelo fusca, o famoso Volkswagen, e aprendi que o carro do nosso benfeitor era parecido, era um Volksroll. Anos se passaram até eu perceber, por vias transversas, que a marca era de fato um Vauxhall.




3
Esse tempo em que eu estudei no Alfredo Dantas (foram cinco anos ao todo) teve altos e baixos. Por isso eu ainda hoje tenho fascinação por livros de garotos-sofrendo-na-escola. Não necessariamente bullying, embora naquele tempo fosse prática normal. Livros como O Ateneu (Raul Pompéia), Doidinho (José Lins do Rêgo), Anos de Ternura (A. J. Cronin), Books vs. Cigarettes (George Orwell), A Colônia de Férias (Emmanuel Carrère) e outros. Guri abestalhado como eu sofria muito. Um dia eu fui ao quadro-negro, e na volta à carteira... cadê minha bolsa com os livros e cadernos? Comecei a procurar, quase chorando (“se eu chegar em casa sem meus livros eu levo uma surra”), a professora interrompeu a aula e me mandou olhar em todas as carteiras da classe, pra ver quem tinha tirado. Silêncio, expectativa, risadas sorrateiras. Olhei em todas, e nada. No fundo da sala, que era espaçosa, tinha um painel de madeira encostado à parede, com fotos de formandos da turma tal. Tive então o paradoxal momento mais feliz da minha vida. A bolsa estava lá (tenho uma polaróide mental). Peguei e me sentei de novo, sem dizer nada.



4
Falei que meu pai não dirigia; me lembro de muitas corridas hilárias com taxistas. Uma vez ia a família toda num táxi grande. O motorista “se amostrava” bastante e Seu Nilo começou a elogiar: “Mas o cara dirige muito! É um Pintacuda!” E aí é que o motorista se amostrava mesmo. (Carlo Pintacuda era o Lewis Hamilton do tempo dele.) Ele tinha seus taxistas preferidos no ponto de táxis que ficava em frente ao Café São Braz, no tempo em que a rua Cardoso Vieira era aberta e não existia ainda o famoso Calçadão. O motorista mais constante dele era Luizinho, um cara meio louro, rosto vermelho, cabelo meio arrepiado, muito piadista. Meu pai almoçava, botava o paletó, pegava o telefone, ligava para o ponto de táxi e dizia apenas: “Vem me buscar”. Eu dava tratos à bola para entender como o motorista adivinhava que era ele. (Isso foi no tempo em que eu conheci a expressão “dar tratos à bola”.) Outra mania que ele tinha era atender o telefone dizendo: “Alô Zanfan Delapatrí.” E às vezes quando a pessoa do outro lado dizia: “Quem está falando, por favor?”, ele dizia: “O Conde de Monte Cristo”, e as pessoas invariavelmente desligavam.




5
Um ritual que tinha lá em casa de tantos em tantos meses era a limpeza da máquina de escrever, uma Olivetti Lexicon 80 cinza onde aprendi a batucar com dois dedos até evoluir para os três de atualmente. Quando os tipos da máquina estavam cheios de microfibras da fita embebida em tinta, e quando a película oleosa e graxenta que lubrificava as engrenagens estava toda aderida por grãos de poeira, fuligem e outros micro-detritos, havia o Domingo de Irapuã. Era o técnico (trabalhava na UFPB) que vinha limpar a máquina, mediante um cachê razoável. Era um cara tranquilo, metódico. Chegava lá em casa sempre numa manhã de domingo, fazia estender uma lona no centro da sala, sentava-se ali com sua maleta de instrumentos e desmontava a máquina inteira, pecinha por pecinha, limpava com álcool, etc., depois a recompunha, conversando com Seu Nilo o tempo todo. Quando terminava, reunia tudo, a máquina voltava reluzente e fragrante à sua mesinha, ele lavava as mãos e sentávamos todos à mesa, onde era de praxe haver um gigantesco cozido com pirão à nossa espera.




6
Por volta de 1965 comecei a trabalhar no Diário da Borborema no horário da tarde, convidado pelo meu mestre Josusmá Viana. Eu fazia pequenos mandados e, como era fluente na redação, copidescava os textos às vezes meio truncados de repórteres que tinham três vezes a minha idade, eram feras na investigação mas claudicantes na retórica. Retórica sempre foi comigo mesmo. Meu salário era 15 cruzeiros, pago em duas prestações quinzenais de 7,50. Quando recebi essa primeira fortuna fiquei zonzo. Como diria um amigo meu, muitos anos mais tarde: “Rapaz, eu ganhei tanto dinheiro que abri conta em dois Bancos, porque um só não ia dar vencimento”. O que fiz? Fui direto para a banca de revistas de Henrique (que a essa altura não era mais uma banca na calçada, era uma lojinha a três portas de distância do Café São Braz) e perguntei o preço de uma montanha de revistas amarradas que ocupava uma parede inteira, até quase o teto. Era uma coleção completa de Seleções do Reader’s Digest de 1940 a 1965. Acertamos o pagamento parcelado, e todo dia quando eu saía do jornal levava um dos pacotes para casa. Serviu muitíssimo ao meu repertório de piadas de caserna, de flagrantes da vida real, de enriquecimento de vocabulário, de definições definitivas e de muitas frases de efeito que 55 anos depois jogo nas redes sociais e as pessoas dizem: “Mas que inteligência!...”
 
 
 
 
 


quarta-feira, 6 de maio de 2020

4577) Ser professor (6.5.2020)




(BT aluno)

Teve um professor meu de Geografia que sempre trazia um mapa-múndi enorme, enrolado. Pendurava num prego grande que tinha por cima do quadro-negro (era aquele quadro de pedra verde, embutido na parede) e usava uma varinha para indicar as coisas que explicava.

Eu sentava na primeira fila, porque a distribuição dos alunos nas “carteiras” (era o nome das bancadas individuais onde a gente sentava e escrevia) era por ordem alfabética. E vi que ele sabia tudo, ou já tinha acostumado, porque ele dizia, por exemplo, “Liverpool é um grande centro portuário”, e tocava com a varinha num ponto, quase sem olhar. Depois eu levantava e ia ver de perto, e era exatamente ali.

Uma vez ele estava falando das alterações do Homem sobre o meio ambiente, falou dos canais, explicou a diferença entre o Canal da Mancha, que é uma passagem natural, e o Canal de Suez, que foi construído por Ferdinand de Lesseps. Falou do Canal do Panamá.  Aí disse:

– Para que serve o Canal do Panamá? – Olhou em redor, olhou para mim, e tocou na minha carteira com a varinha. – Você.

Eu fazia a linha tímido-metido, não dava uma palavra nunca, mas me sentia na obrigação de, em falando, botar pra quebrar.

– Serve para ligar o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, que são os dois principais – respondi.

– Correto – disse ele. – Do ponto de vista geográfico. Mas por cima do ponto de vista geográfico, o ser humano impõe o ponto de vista geo-político, ou geo-econômico. As necessidades reais das populações humanas. – Ergueu a varinha, e demonstrou. – O Canal do Panamá acabou servindo como a via marítima mais curta entre a Costa Leste dos Estados Unidos – indicou com a varinha – e a Costa Oeste dos Estados Unidos. – Fez a varinha descrever um arco de círculo.

– É o imperialismo norte-americano – falou um esperto, da turma lá do fundo.

– Sim e não – disse ele, imperturbável. – Se fosse a União Soviética, fazia a mesma coisa. É a necessidade de manter uma máquina imensa funcionando, porque eles têm 250 milhões de bocas querendo comer três vezes por dia. Por que foi que Vasco da Gama descobriu o caminho para as Índias, arrodeando a África? – A varinha foi até a Península Ibérica, e desceu o trajeto beirando a África inteira e subindo até a Índia. – Porque antes existia um caminho mais curto por Terra, que era esse aqui. – Aí mostrou mais ou menos o tal caminho que passava por Istambul ou Constantinopla, que a maioria dos meus colegas pensava que eram duas cidades diferentes. – Mas a guerra fechou esse caminho terrestre.  Eles tiveram que descobrir outro, que acabou sendo mais comprido, mas quebrou o galho. O Panamá foi o contrário. Ele pegaram a peixeira e abriram uma passagem.

– Por que logo com o pobre do Panamá? – perguntou alguém.

– O Panamá era o trecho mais estreito do continente – disse ele. – Eles podiam tentar abrir através do Amazonas, mas só iam terminar no ano 3.000.

Tive outra professora de Geografia, essa eu lembro o nome, era Dona Elaine, que eu já conhecia porque trabalhava com meu pai, foi uma época em que ele era funcionário da Federação das Indústrias. Ela não usava mapa, não usava varinhas, nada de efeitos especiais. Era uma coroa de cabelo colorido, toda enfeitada, cheia dos anéis, dos colares. Sentava, olhava a turma, cruzava os dedos das mãos e começava a contar uma história. Usava muitos conceitos de economia que na época (eu teria uns 15 ou 16 anos) eu achava chatos. (Aliás, acho até hoje.)

Foi ela que deu uma prova, certa vez, que nunca esqueci. Chegou no dia marcado para a prova, organizou a turma, “você vai sentar aqui, vocês três aí vão ficar espalhados, essa menina fica aqui na fileira da frente, você vai pra ali...”  E todo mundo caladinho, obedecendo. Livros guardados. Caneta e papel na carteira, prontos.

Ela sentou-se, cruzou os dedos, olhou para a turma por cima dos óculos, e disse:

– Quesito Único: “Fale sobre agricultura”. Podem começar. Têm quarenta e cinco minutos.

Eu me virei como pude; preferia que ela tivesse dito “fale sobre as possibilidades de colonização da Lua”, mas enfim.


(BT professor)

Dez anos depois, o professor era eu. Barbudo, cabeludo, de óculos, dava aula de Inglês e de Educação Artística, no Colégio Alfredo Dantas (onde também estudei, dos 9 aos 12 anos). Era um tempo cheio de matérias abstrusas. Tinha Estudos de Problemas Brasileiros, tinha OSPB (Organização Social e Política do Brasil)...

Enfim – eu dava aula de Educação Artística, o que era ótimo, porque o pessoal do Colégio dava carta branca e eu falava de cinema, de poesia... Os alunos (turma mista) tinham 17, 18 anos, por aí.

Me lembro de ter passado uma aula inteira dissecando aquele poema dos galos, de João Cabral, que eu dizia: “Hoje vamos ver um poema de João Cabral de Melo Neto dedicado à torcida do Treze”, e eles vibravam.

Uma vez eu terminei de dar a matéria daquele dia. Parei ali, de pé. Olhei em torno.

– Quantos minutos faltam? – perguntei.

– Cinco – disse alguém.

– Faltou assunto, professor?... – perguntou uma bonitinha, jogando uma ironia.

– Como assim, faltou assunto?! – disse eu. – Vou dar cinco minutos de aula extra, e o assunto são vocês que escolhem. Bora, escolham aí. Astronomia, Poesia Concreta, História do Império Bizantino, Cirurgia Cardíaca, Mineralogia...

Eles riam com as minhas tiradas. Aí alguém gritou: “Mineralogia!”.

– Mineralogia – anunciei.

Fiz um fictício, fechei os olhos, pus as pontas dos dedos na testa, concentrei, e eles fizeram um silêncio que nem eu esperava.

Abri os olhos, estendi um braço, teatral.

– Os minerais!... – falei, em tom meditativo. – O que sabemos nós dos minerais?!  Nada. Eles nada nos dizem, eles não se manifestam, eles nos ignoram... Não são como os animais, que interagem conosco, tem necessidades iguais às nossas. Não são como os vegetais, que como nós têm o ciclo da vida. Os minerais vivem noutra escala do tempo. O que para nós são 100 mil anos, para eles é um segundo. O que são eles, então?! Talvez sejam deuses adormecidos, esperando o momento em que evoluirão para estátuas, caminharão por fim nesse planeta que será só seu...

Eu tinha lembrado um livrinho de bolso, “O Falso Planeta”, de Peter Randa.  Saí por ali enrolando, citei Augusto dos Anjos, que mesmo fora do tema sempre impressiona, e fiz um fecho qualquer, bem dramático. Eles vibraram, alguns bateram uma palmazinha.

Aí o eterno e infalível Engraçadinho da Turma dos Fundos perguntou com voz desdenhosa:

– Cai na prova?...

Eu parei, estendi o braço na direção dele como se fosse um rifle, dedo esticado, e disse:

– A prova é a vida, rapaz!  A prova é a vida!

E nesse instante o Roteirista do Mundo me deu uma colher de chá, e a sineta ressoou.