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segunda-feira, 1 de abril de 2019

4452) A palavra cachéte (1.4.2019)



(ilustração: comprimidos)

Tem alguns termos que eu não acho que sejam necessariamente paraibanos, mas penso neles desse modo porque estão ligados à minha família, meu tempo de garoto, então pra mim são a cara da “Paraíba réa”. Têm uma carga afetiva, e acho que isso tem uma certa consequência filológica, etimológica.

As palavras que têm mais chance de se propagar (e se metamorfosear) etimologicamente ao longo dos anos são aquelas a que as pessoas recorrem com mais frequência, por motivos afetivos, inclusive.

Um exemplo: ninguém hoje em dia deve saber o que é “cachéte”.

(O acento agudo vai aqui para firmar a pronúncia. A gente deve sempre acentuar palavras pouco conhecidas, e que correm o risco de ser pronunciadas erroneamente pelos muitos que nunca as viram. Pelo menos nas primeiras vezes em que as usamos num texto. Danem-se os acordos ortográficos. Ortografia, inclusive de acentos, também pode, e deve, ser vista pragmaticamente.)

Cachéte significa pílula, comprimido, qualquer medicamento nesse formato. Meus pais diziam isso o tempo todo. “Tá com dor de cabeça? Tome esse cachéte.”

Uma vez, quando eu estudava em Belo Horizonte, meu pai teve que ir de Campina Grande pra Brasília com o reitor da FURNe, resolver alguma pendenga burocrática, e combinamos que eu ia passar dois dias lá com ele. Peguei o busão da Cometa e fui conhecer a Novacap. Seu Nilo tinha reuniões durante o dia, e de noite tomava umas e outras. Um dia amanheceu de ressaca, e chamou o bellboy do hotel. Ao abrir a porta, perguntou ao rapaz:

– Vocês têm cachéte pra ressaca?

A cara desacorçoada do rapaz está comigo ainda hoje. Ele disse:

– Ih, senhor... Eu estou por fora de cachéte.

– Cachete, rapaz. Tu sabe o que é. Cachete pra dor de cabeça.

Ele se apegou a essa frágil tábua de salvação e disse:

– Cachete nós não temos, mas eu posso trazer um comprimido pro senhor.

Entra aqui uma questão de ordem filológica. Existe uma diferença (me parece) entre comprimido e cápsula. Uma cápsula é um cilindro miudinho, oco, de extremidades rombudas, dentro do qual há um pozinho medicinal. Sua finalidade é ser engolida e garantir que o pozinho só seja absorvido pelo organismo daí a alguns minutos, depois que a “cápsula” propriamente dita se dissolva. Por quê, não sei, mas minha curiosidade científica só vai até aí, daí por diante é fé mesmo.

Já um comprimido é exatamente isso: um pozinho que foi compactado por alguma pressão enorme até se transformar num circulozinho espesso, duro. A gente engole inteiro e deixa desmanchar.

Voltando à raiz linguística, me ocorre imaginar que o “cachéte” de Seu Nilo vem do francês “cachet” (pronuncia-se “cachê”, como cachê de músico). A palavra vem do verbo “cacher”, que significa “apertar, pressionar, comprimir”, e então vualá! – em português torna-se “comprimido”.

Por algum tempo eu pensei que era o contrário. Pensei que quem deveria com mais justiça se chamar “cachéte” era a “cápsula”. Por que? Porque “cacher” em francês também significa “esconder, recobrir uma coisa com outra para que não fique visível”, etc. E na cápsula o pozinho vem exatamente assim – escondido.


(ilustração: cápsulas)

Vejam o que é o poder etimológico-afetivo de um termo (na composição do idioma a longuíssimo prazo), porque se Seu Nilo e Dona Cleuza não falassem o tempo todo em “cachéte” eu não estaria aqui agora, sessenta anos depois, lembrando desse termo só por tê-lo visto num livro de Raymond Queneau. Não ficaria cavucando um larusse onlaine em busca desse símbolo froidiano.

Quando eu era pequeno, era chato, luxento, exigente. Me recusava a tentar engolir um cachete inteiro, alegando que podia me sufocar. Minha Tia Adiza dava-se então o trabalho de esmagar o cachete com uma colher, reduzi-lo a pó, misturá-lo com uma pitada de açúcar, e me dar na colher, acompanhado de um gole dágua.

Essa infância espoilada teve uma consequência interessante: hoje eu detesto tomar qualquer tipo de remédio, e para mostrar que não sou mais cheio de fricote, sou capaz de aguentar dor por muito tempo. Já aos quinze anos eu cheguei a passar semanas inteiras com um dente doendo e sem dizer a ninguém.

Como é possível? – perguntará a platéia. E eu me lembro daquela piada sobre os dois hippies. Dois hippies estão, alta madrugada, dando uma bola no mato, olhando a lua cheia, junto de uma lagoa infestada de crocodilos. A certa altura da viagem, um deles diz: “Ih, meu irmão... Tou sentindo uma coisa aqui... Um jacaré tá comendo minha perna.” O outro diz, calmo; “É mesmo, rapaz? Qual?”  E o primeiro: “Sei lá, véio... jacaré é tudo parecido...”





sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















domingo, 12 de agosto de 2018

4375) Dia dos Pais (12.8.2018)




Eu não sou muito acompanhador dessas efemérides, Dia disso, Dia daquilo. Nem meu aniversário eu comemoro. (Não, não há problemas, nem teorias justificatórias. Questão de hábito, apenas.)

Como hoje está todo mundo nas redes sociais botando fotos e contando episódios (alguns muito bonitos) sobre seus progenitores, lembrei de postar algo sobre Seu Nilo. O pobrema é que todo ano tem essa cerimoniazinha e não quero ficar repetindo as postagens dos anos passados.

Vai daí, reproduzo abaixo um trecho do Capítulo 4 (“Deixa a vida me levar”) do meu romance recém-lançado Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017). É um retrato 3x4 daquela figura indescritível. (O capítulo prossegue falando da minha mãe, mas quem quiser ler vai ter que encomendar o livro no link abaixo.)



-oOo-

(...)

Algum tempo depois dessa cantoria eu passei uns dez dias em Campina (eu já morava em Salvador, na época). Estava surgindo a possibilidade de ir morar no Rio, porque Elba Ramalho tinha gravado algumas músicas minhas que estavam rendendo direitos autorais. Ir morar no Rio! Eu estava morrendo de medo, se bem que hoje percebo que aquilo não era medo coisa nenhuma, era vontade.

Uma noite minha mãe (quando eu vinha passar uns dias em Campina eu ficava na casa dos meus pais, no bairro do Alto Branco) me disse que ia fazer um bolo porque era aniversário de alguém da família, algum parente que vivia longe; mas tudo na vida dela era pretexto para bolo, etc. E ia fazer um jantar mais caprichado.

Às oito da noite, eu liguei de um orelhão, perto do Bar de Seu Manu.

– Bença, mãe.

– Deus lhe abençoe. Tá aonde?

– Tou aqui perto do Edifício Rique. Tem bolo mesmo?

– Oxente, eu não disse que tinha? Tá pronto. Vem jantar?

– Acho que vou. Seu Nilo tá acordado?

– Tá por aqui, doido que você chegue pra conversar.

– Eu vou levar um amigo meu, Bandeira Sobrinho, aquele cantador da Rádio Borborema.

– Traga, traga mesmo. Tem bolo, tem café, mas se quiserem cerveja vão ter que trazer.

– Deus me livre, eu de segunda-feira pra cá tô arripunando cerveja.

Ela deu aquela risada longa dela – “ra-rraaaai!...” – e eu desliguei.

Foi muito bom ter levado Bandeira, porque ele e meu pai sentaram no terraço e daí a pouco se envolveram numa discussão sobre formas de soneto, onde cada qual procurava lembrar mais variantes do que o outro.

Para os que não conheceram meu pai, o jornalista e poeta Nilo Tavares, basta fazer uma lista breve:

1)      Era baixinho. Não sei a medida da altura dele. Era charadista e enigmista, membro da TerNor (Tertúlia Nordestina), colaborador de incontáveis revistas Brasil afora, com o pseudônimo de Pequeno Polegar. Uma vez, já morando no Rio, fui ao Círculo Enigmístico Carioca, perto da Av. Rio Branco, pesquisar uma matéria pra TV, e quando falei que meu pai tinha escrito um Dicionário do Que (locuções começadas com a expressão “Que...”), o cara foi lá dentro e trouxe um exemplar encadernado.
2)      Gabava-se de ser capaz de passar 24 horas ininterruptas recitando sonetos de autores brasileiros, inclusive dele mesmo, mas mesmo na Paraíba nunca apareceu homem nenhum que ousasse pegá-lo na palavra.
3)      Era do Recife e minha mãe era de Coxixola-PB (“A Cidade Que Precisa Dizer Que Existe”). Conheceram-se em Angelim (PE), casaram e vieram morar em Campina Grande, onde nascemos os quatro filhos: Clotilde, eu, Pedro e Inês.
4)      Nunca foi apologista, mas como trabalhou na Rádio Borborema conhecia os violeiros que passaram pelo Retalhos do Sertão, um dos mais tradicionais programas de cantoria no rádio. Para os cantadores mais antigos, como Zé Gonçalves, eu era “o filho de Nilo”.
5)      Torcia por três times: o Sport Club do Recife, na cidade onde se criou; o Treze Futebol Clube, na cidade onde iniciou sua vida de chefe de família; e o Flamengo, no seu país, que era feito em grande parte de jornais impressos e de emissoras de rádio.
6)      É simbólico da nossa relação que em 1975, quando o Flamengo foi a Campina jogar com o Treze, eu perguntei: “O senhor acha que a gente ganha?”, e ele respondeu: “E tu acha que a gente vai perder para um time fraco como o do Treze?”, e eu disse, “Peraí, Seu Nilo, a gente é quem, no seu vocabulário?” Foi um momento judaico-cristão em nosso relacionamento.
7)      Mas isso prova apenas que ele era mais romântico do que eu.

Em 1980 meu pai teve o que chamamos na época de uma “trombose”, ficou com um lado do corpo meio avariado, precisou fazer fisioterapia. Tinha que ficar apertando uma bolinha que de vez em quando escapava, e todo mundo corria a devolvê-la. Fisioterapia fica mais interessante quando vira uma diversão para todos os envolvidos, não é mesmo? Uráy, o antigo zagueiro do Treze, ia lá em casa para ajudá-lo nos exercícios, ia para dar uma força, só pela lembrança da convivência.

Foi se recuperando aos poucos, mas como deixou de trabalhar, sua diversão principal, além de ler, de decifrar e de compor charadas, e de ver TV, era esperar visitas que sentassem com ele no terraço da nossa casa na colina do Alto Branco. Ficava ali e via Campina Grande estendida horizontalmente à frente, como num filme de 70mm. Gostava de receber gente e conversar sobre as coisas boas da vida.











quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

3433) Quando eu era criança (27.2.2014)


(Eu e Tide no carnaval)

Tem um blog impagável (http://coisasqueeuachavaqdoeracrianca.tumblr.com/) onde as pessoas contribuem com suas lembranças de infância, aqueles pequenos equívocos meio absurdos que toda criança comete por não entender direito o mundo dos adultos. Exemplos do blog: “Eu pensava que em hotéis só entravam homens, e em motéis, mulheres”; “Eu pensava que uísque 12 anos era para crianças de 12 anos tomarem”; “Eu achava que sexo oral era de hora em hora e sexo anal de ano em ano”, etc.

Bem... Eu me lembro que eu achava que a Terra boiava solta no espaço, junto com planetas e estrelas, e que por baixo de tudo havia o Oceano Atlântico, que se expandia até o infinito em todas as direções.  Outra: meus pais mandavam ter cuidado com giletes, dizendo que havia perigo de alguém se cortar, etc., de modo que sempre que eu via uma gilete de bobeira eu a pegava, me trancava no banheiro, quebrava-a em pedacinhos, jogava na privada e dava descarga. Quando pequeno, eu ouvira dizer que o Inferno era embaixo do chão, então quando eu via um buraco qualquer na terra eu me agachava para espiar, para ver como era o inferno.

Uma vez perguntei a minha mãe o que tinha dentro do corpo da gente, eu ficava apontando: “E aqui?”, e ela dizia: “O fígado”, etc., até que a outra pergunta ela respondeu distraída “o ovário”, e dias depois eu disse: “Não posso ir pra aula, estou com dor no ovário”. Ainda nos mistérios sexuais, eu lia nos contos da época coisas como “e daquele beijo apaixonado nasceu um dia nosso filhinho...” e imaginava que as mulheres engravidavam com um beijo, o que trouxe um suspense adicional a qualquer filme, pois bastava haver um beijo e eu ficava imaginando que a mocinha ia ser botada de-casa-pra-fora.

Uma vez, ouvindo uma novela de rádio, eu lamentei que não fosse TV para a gente ver as aventuras dos heróis na selva, e minha irmã Clotilde disse: “Não, se fosse TV a gente ia ver uma sala cheia de microfones e as pessoas lendo o texto em folhas de papel”, e eu achei a TV uma decepção. Minha Tia Adiza, que era solteira, morou conosco muitos anos, e como ela todo dia trocava de roupa e ia para o trabalho, tal como meu pai, eu perguntei a minha mãe se Tia Adiza era mulher ou homem.

Durante algum tempo acreditei que quando alguém era condenado a prisão perpétua ele ia para a cadeia e nunca mais morria. Uma vez discuti com Tide sobre a pronúncia do nome Washington, que eu dizia que era Uachínton e ela dizia que era Vasguitón.  Vendo filmes de guerra, eu cheguei à conclusão de que quando dois países entravam em guerra eles mandavam os respectivos exércitos brigar na África, que era uma espécie de continente baldio.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

3325) Seu Nilo (24.10.2013)






Meu pai se gabava de ser capaz de passar 24 horas recitando de memória sonetos dele e de seus poetas preferidos (Olavo Bilac, Emilio de Menezes, Augusto dos Anjos) e inúmeros outros. 

Quando eu tinha 8 ou 10 anos, nas paredes da nossa casa havia, emoldurados, um retrato a carvão de Castro Alves, a reprodução de uma foto de Lampião, uma página de revista com uma foto de Bilac e o soneto “Dualismo” (que ainda sei de cor), uma foto de meu avô Braulio, que não cheguei a conhecer.

Tinha somente o curso secundário, foi tipógrafo, encadernador (ainda tenho livros encadernados por ele), funcionário público (foi chefe de gabinete de três reitores da URNe, atual UEPB), jornalista e radialista (na Rádio Borborema e Diário da Borborema, principalmente). 

Era organizadíssimo, “caxias”, muito severo com os funcionários, mas muito justo. Nos fins de semana, era um grande boêmio, bebia bastante, gostava de se cercar de gente alegre. 

Era desafinado e não cantava, mas o terraço da nossa casa vivia cheio de gente tocando violão e cantando; ele se limitava a acompanhar, batendo com uma faca numa garrafa. Gostava de fazer paródias de músicas conhecidas e em casa improvisava um soneto sobre qualquer bobagem que acontecia, o que divertia todo mundo.

Torcia pelo Sport do Recife (a cidade em que cresceu), pelo Flamengo, e pelo Treze; eu herdei essas três paixões. Temos fotos dele ao lado de Dida (do Flamengo) e de Telê (do Fluminense) quando esses times jogaram em Campina Grande. 

Colecionava revistas de futebol (Manchete Esportiva, Revista do Esporte, Gazeta Esportiva Ilustrada), encadernadas;  encadernou também tudo que conseguiu juntar sobre as Copas de 58 e 62. Esse material acabou se perdendo devido ao mofo, pois nossa casa no Alto Branco era muito úmida. 

Também colecionava dicionários, porque era charadista e enigmista, colaborador de muitas revistas Brasil afora sob o pseudônimo de Pequeno Polegar (era baixinho).

Não ligava muito para cinema. O único filme que o vi elogiar foi Ziegfield, o Criador de Estrelas, e seu ator preferido era Edward G. Robinson. 

Gostava de ler Coelho Neto, Humberto de Campos, Guerra Junqueiro, bem como folhetins (Ponson du Terrail, Michel Zevaco, Xavier de Montepin) e romances policiais tipo Shell Scott. 

Gostava de trabalhos manuais, de mexer com serrote, martelo, etc. Durante muitos anos teve um mimeógrafo no quarto dos fundos, com o qual ganhava a vida imprimindo boletins, quando estava desempregado. 

Eu me habituei a chamá-lo de “Seu Nilo” desde pequeno, e esse tratamento ficou para o resto da vida. Meu pai completaria hoje, 24 de outubro de 2013,  cem anos de idade. Agora, tomarei uma em sua memória. Tin-tin!







terça-feira, 25 de outubro de 2011

2696) Severino Marinho (25.10.2011)




(Marinho e D. Lurdinha)

Recebi a notícia do falecimento de Severino Marinho Leite, e me vejo mais uma vez, nas últimas semanas, diante dessa missão impossível: dizer o que uma pessoa representou em algum momento da nossa vida. Uma morte é um desses momentos que nos deixam sem saber o que dizer. Não porque não haja coisa alguma a ser dita, pelo contrário. De repente há uma vida inteira, milhões de coisas para serem ditas. Pode-se começar por qualquer ponto e prosseguir indefinidamente; esse excesso de caminhos acaba por nos condenar à imobilidade.

Marinho foi um dos grandes amigos do meu pai, e em muitos momentos foi uma espécie de anjo da guarda que orientava nossa família em situações difíceis. Uma vez, quando Seu Nilo estava meio enfarruscado com a vida, por causa de projetos que não andavam pra frente, alguém lhe perguntou se ele não tinha amigos, e ele disse: “Tenho, sim: Severinos Marinhos Leites”. Não o disse certamente para menosprezar os outros; mas sem dúvida porque naquele momento era Marinho o único capaz de ajeitar os óculos dourados de lentes verdes, passar a mão pelo cabelo e dizer: “Calma, Nilo, isso vai se arranjar, vamos analisar o problema”.

Não vou insistir apenas na minha perda pessoal. Melhor dizer logo que a perda de Campina Grande foi muito maior do que a minha. Não apenas pelo cidadão, mas porque Marinho foi o torcedor-símbolo do Treze, o homem que manteve ao longo de seus mais de 80 anos de vida o registro permanente dos jogos do Galo (jogo, data, local, placar, autores dos gols, escalação do Treze). Quantos times brasileiros podem se gabar de um torcedor assim? Em 1975 quando fizemos, sob a orquestração de Hélio Soares e do presidente Zé Agra, a revista do cinquentenário do Galo, foi dos arquivos de Marinho que extraímos as estatísticas de todos os resultados do Galo naqueles cinquenta anos. O mesmo com Mário Vinícius ao compor seu livro monumental sobre a história do alvinegro.

Uma bela lembrança que guardo, do meu tempo de garoto, é de uma viagem noturna ao Recife, quando ele e meu pai me levaram de carro para ver um torneio na Ilha do Retiro, que teve na preliminar Náutico x Palmeiras (a única vez em que vi Djalma Santos jogar) e na principal Sport x Corinthians. Estudei no Alfredo Dantas com seus filhos Marcos e Fernando. Depois tornei-me amigo de sua filha Cida Lobo, que foi há pouco tempo sub-secretária de Cultura do Estado. Marinho era para mim uma figura paterna, um pai mais jovem e mais comedido, levemente brincalhão e sempre sereno. O Treze que ele tanto amou deu-lhe alegrias nos últimos tempos. A cidade que ele defendia cresceu tanto que hoje nem percebe o quanto sente sua falta.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

2056) 50 anos de FC (10.10.2009)



Em setembro comemorei um cinquentenário especial. Foi em setembro de 1959 que meu pai me deu, em meu aniversário, um livrinho de bolso intitulado Planeta Maldito, de Vargo Statten. Foi meu primeiro livro de ficção científica, anterior a Julio Verne, a H. G. Wells e a todos os que se seguiram. Era o volume 3 da Coleção Futurâmica, das antigas Edições de Ouro, e li em seguida todos os títulos da coleção. (Que ainda tenho hoje, quase completa: recomprei tudo em sebos cariocas.)

Planeta Maldito (o título original é “The Catalyst”), livro de 1951, tem todas as virtudes e defeitos da FC escrita nos anos 1920-30-40. Descobri depois que “Vargo Statten” era um dos pseudônimos do enormemente prolífico John Russell Fearn (1908-1960), que escreveu centenas de livros e chegou a ter uma revista lançada em seu nome (Vargo Statten Science Fiction Magazine).

O livro é pulp fiction da mais delirante. O enredo: um casal de astronautas, Scott e Nancy, em sua espaçonave particular (!), está extraindo rochas em Mercúrio e descobre por acaso um gigantesco veio de diamantes. Arranca o mais que pode, e traz aquilo para sua mansão em Londres. De quebra, vem no meio das pedras um pedaço de rocha mercuriana. Certa noite, um ladrão entra na mansão do astronauta, rouba os diamantes (junto com o pedaço de rocha) e foge. De manhã cedo, o leiteiro encontra uma estátua de ouro no meio da rua, a estátua de um homem em tamanho natural, nu, em atitude de quem está correndo.

Descobre-se então que a rocha mercuriana (“o catalisador”) é capaz de transformar a água em ouro, e como o corpo humano tem não-sei-quantos por cento de água, o ladrão, ao tocá-lo, foi transformado numa estátua de ouro (!). (Ah, Breton, Dali, Buñuel... Vocês não passavam de principiantes...) Começa uma busca frenética pelo catalisador, que, varrido sem atenção pelos lixeiros, começa a transformar em ouro toda a água dos esgotos de Londres e acaba atingindo o Oceano Atlântico. E novas estátuas de ouro, nuas, aparecem aos montes: as roupas são incendiadas pela reação química (!).

Descobre-se por fim que os oceanos de Vênus são capazes de derreter não só o catalisador quanto o ouro criado por ele, e toma-se a decisão de banhar o planeta Mercúrio com essa água, para destruí-lo e evitar nova ameaças à Terra. Uma frota de naves faz um trajeto de ida e volta entre os dois planetas, jogando água venusiana na superfície de Mercúrio, até que este se fragmenta e os pedaços são atraídos para dentro do Sol. O clímax do livro é quando a espaçonave de Scott e Nancy começa a ser atraída pelo Sol e o resto da frota consegue trazê-la de volta usando “barras de atração” que contrabalançam a gravidade solar (!).

“The Catalyst” tem imagens memoráveis: estátuas de ouro, oceano solidificado, planeta se esfarelando... Aos nove anos de idade, habituê de matinais, cinematografei tudo em meu écran mental. Se tivesse deixado para ter essa experiência aos 20 anos, babau Tia Chica.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

1944) Charadas infames (2.6.2009)



Pelo que vejo nas bancas de revistas, a arte das palavras cruzadas continua viva, mas não sei se o mesmo acontece com a arte da charada. Meu pai era charadista, e eu cresci cercado de dicionários especializados, ajudando-o, com minha irmã Clotilde, a procurar sinônimos obscuros ou palavras que correspondessem a definições do tipo “planta da família das Euforbiáceas” ou coisa desse tipo. Existem dezenas de tipos de charadas. A mais comum é a adicionada (outrora chamada de “novíssima”): uma frase tem algumas palavras em destaque. Estas são as “pedras”, pedindo sinônimos que, montados juntos, dão um sinônimo do “conceito”, que é a última palavra. O número de sílabas de cada “pedra” é indicado. Uma bem rudimentar: “EM CIMA do MÓVEL está o DOCE. 2,2” Em cima, com 2 sílabas: sobre. Móvel, com 2 sílabas: mesa. Doce, 4 sílabas: sobremesa.

Os sinônimos não precisam ser exatos. “A MULHER com a LATA na CABEÇA anda DEVAGAR. 2,2,2.” A resposta é: paulatinamente. A charada ideal, no entanto, é uma frase fluente, que faz sentido e não parece forçada, e na qual a substituição das “pedras” pelas respostas, com a necessária adaptação de gêneros, continua produzindo uma frase igualmente fluida. Ocorre no primeiro caso: “Sobre a mesa está a sobremesa”. Não acontece com o segundo exemplo: “Paula com a tina na mente anda paulatinamente”. A frase fica forçada e meio sem sentido.

Alguns charadistas defendem o uso de sinônimos um tanto oblíquos. Lembro que uma vez me propuseram esta charada: “UM OLHAR MORTO. 2,1” Quebrei a cabeça e nada. O cara me explicou: “Um: cada. Olhar: ver. Morto: cadáver”. Gostei tanto que criei algumas variações, como a que proponho ao leitor: “UM ERRÔNEO CASTIGO. 2,2”. Percebi que várias palavras poderiam servir como sinônimo oblíquo para “um”, e produzi outras: “UM GRITO ELEVADO. 1,2”; “UM RÁPIDO SOLILÓQUIO. 2,2”. Outra dessas oblíquas é “FOI PRETO e ACABOU-SE. 1,2” Também não decifrei, e me explicaram: “Foi: ex. Preto: tinto. Acabou-se: extinto”.

Mas o melhor são as charadas infames, em que as palavras são voluntariamente deformadas, de modo que a solução é algo que soa parecido, mas que ninguém seria capaz de adivinhar. Uma das minhas preferidas é: O ANIMAL NA TORRE DA IGREJA ENCONTRA-SE DOENTE. 2,2” Não adianta quebrar a cabeça como o fiz durante dias inteiros, porque quando desisti me disseram que a resposta era: “O animal: tatu. Na torre da igreja: sino. Encontra-se doente: tá tussino”.

Uma pequena obra-prima do nonsense e do trocadilho infame é esta outra, que necessita de uma certa introdução. Em 1922, os aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, saindo de Portugal e chegando ao Brasil. Tornaram-se figuras famosas nos dois países. A charada dizia: “SOFRE DE GAGUEIRA o FILHO DO COUTO, mas NÃO É ELE, É O OUTRO. 2,3”. A resposta da charada, evidentemente, é: “Sacadura Cabral”.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

1654) A Copa de 1958 (1.7.2008)




Num domingo igual a qualquer outro, eu e minha irmã Clotilde fomos à matinal das 10 horas no Cine Babilônia. As matinais daquele tempo incluíam um desenho animado curto, um episódio de série (com 30 ou 40 minutos) e depois um filme de longa-metragem. Não lembro qual era o filme desse dia, mas a série era com Superman, e o cartaz mostrava Superman amarrado a um poste, cercado por zulus que dançavam erguendo as lanças.

Voltamos para casa por volta do meio-dia (morávamos ali pertinho, na Miguel Couto) e estava havendo uma festa. Meu pai e uma meia-dúzia de amigos bebiam em voz alta. No rádio ligado a todo volume, por entre um chiado permanente, a voz metálica do locutor não parava um instante sequer. Havia uma eletricidade no ar, os homens estavam afogueados e nervosos, embora exultantes. Minha tia nos levou para o quarto, e explicou: “O Brasil está ganhando a Copa...” Depois fui dar uma espiada na sala, e foi justo quando o locutor no rádio expandiu e alongou uma nota musical, fazendo com que aqueles homenzarrões gigantescos (eu tinha 7 anos) explodissem todos ao mesmo tempo, pulando, abraçando-se como meninos, derrubando garrafas, entornando baldes de gelo.

Daí em diante a festa não parou mais. O rádio foi esquecido, a gritaria continuou. Guardei (talvez por não tê-la entendido) uma frase eufórica dita por um amigo de meu pai: “E ainda dizem que galo no terreiro dos outros não canta!” Daí a pouco parou um carro em frente de casa, e desceram pessoas dançando, com os braços para o ar. Meu pai foi recebê-las no meio da rua e só então percebi que por alguma razão os vizinhos sabiam do que estava se passando, porque nos terraços e nas janelas também eles gritavam, agitando bandeiras verde-amarelas.

Lembro que na calçada houve um momento de contradição e perplexidade. Meu pai erguia os dedos e gritava para os recém-chegados: “4x2!” E eles retrucavam o gesto: “Cinco! Foi cinco!” Vim a entender depois que a gritaria lá em casa era tão grande que perdemos a irradiação do último gol de Pelé, marcado aos 44 minutos.

Saímos dali em carreata. Era um dia tão excepcional que nós crianças fomos também. Fomos para o SESI, onde estava havendo uma festa muito alegre, com música tocando, e as pessoas se abraçando como se fosse o aniversário de cada uma delas. A certa altura, meu pai, já triscado pelo rumontila, subiu ao palco, pegou o microfone e gritou: “Minha gente! Viva o Brasiiiiil!” Fiquei meio constrangido (“Ele pensa que todo mundo escutou o tal do jogo!”), mas todos gritaram vivas e agitaram bandeirolas.

A Copa mesmo eu só entendi nos anos seguintes, lendo, pela ordem, todos os números da “Manchete Esportiva”, que meu pai colecionou e encadernou. Sofri, de jogo em jogo. Mesmo sabendo o resultado, ler os relatos me arrastava de volta no Tempo, alternadamente temendo a catástrofe e acreditando na vitória final. Na vida é assim, primeiro a gente vive, depois entende, e quando entende, vive de novo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

1639) Eu sou o Leão do Norte! (13.6.2008)




A vitória do Sport sobre o Corinthians por 2x0, na quarta-feira passada, não foi apenas de lavar a alma. Foi de lavar, enxaguar, secar ao vento e ao sol. Não faço conta das besteiras e das arrogâncias que vi na imprensa, pela Web afora, desde que na semana anterior o Corinthians tinha ganho o primeiro jogo das finais por 3x1. Para uma parte (sempre faço a ressalva: uma parte, e não calculo que seja a maior parte) da imprensa e da torcida de São Paulo, a decisão já estava ganha, e o único contratempo era ter que ir ao campo do adversário para receber a Copa do Brasil e dar a volta olímpica.

É impressionante como os times de futebol se comportam de maneira suicida, mesmo carecas de saber o que vai lhes acontecer. São como aqueles personagens dos filmes de terror, que ouvem um barulho no porão e levantam a tampa para ver o que tem lá embaixo. Os times de futebol geralmente ganham quando jogam para ganhar, e perdem quando jogam para se defender. No Morumbi, o Corinthians encurralou o Sport no primeiro tempo, botou 2x0. Contou com a sorte no segundo, porque quando o Sport dominou por completo a partida e perdeu várias chances, o time alvinegro fez o terceiro num contra-ataque implacável. Os 3x0 em São Paulo obrigavam o Sport a uma vitória de 4x0 em Recife, o que, convenhamos, seria dificílimo. Mas no fim do jogo Enílton fez um gol cuja pedra eu cantei na hora: “Vamos ganhar o título por causa desse gol”.

No Recife, aconteceu o que eu rezava para que acontecesse: o Corinthians entrou para se defender, chamando o Sport sobre si. Tire-se o chapéu à marcação corinthiana, que, à parte algumas violências, foi incansável e prendeu o Sport, até que num lançamento rápido Carlinhos Bala (uma espécie de Chico César atlético) desferiu um tijolo no canto direito, e cinco minutos depois o bom goleiro Felipe acabou aceitando um chute que ele pensava que ia desviar no atacante.

Vi na imprensa que o time do Sport tem média de idade de 30 anos. Deve ser. Tem até Leandro Machado, que jogou aqui no Flamengo quando meus cabelos eram todos pretos. Não vejo jogos do Sport, que só passam na TV daqui quando ele enfrenta um time carioca. Vi os dois jogos com o Vasco e os dois com o Corinthians. O Sport atual é um time rápido, habilidoso, firme, com a cabeça equilibrada. Jogou no Morumbi e em São Januário com desenvoltura, com cabeça erguida, como se estivesse em sua própria casa. Vi-o jogar mal em vários momentos das partidas, mas não o vi nunca jogando como time pequeno.

Quando eu era garoto, meu pai me levou de Campina ao Recife para assistir um Sport x Corinthians na Ilha do Retiro, que o Corinthians ganhou de 5x2. Vi Alemão, zagueiro rubronegro que tinha o chute mais forte do Brasil, ir cobrar uma falta dentro do grande círculo, e o goleiro Cabeção pedir barreira. Jornadas épicas que não esqueço, como meu filho talvez não esqueça o jogo que vimos esta noite, a noite em que o Leão rugiu mais alto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

1425) Hitler e minha mãe (7.10.2007)




Herdei de meu pai a poesia e de minha mãe a prosa. Esta é uma simplificação excessiva de uma situação mais complexa, pois o fato é que era Dona Cleuza quem me cantava folhetos de cordel e romances orais, e Seu Nilo quando estava na veia era um contador de histórias que não devia a nenhum outro. 

Mas não há dúvida de que foi ele quem me aplicou Bilac, Augusto, Castro Alves, até poetas hoje obscuros como Guerra Junqueiro ou Luís Dantas Quesado.

Já minha mãe costumava contar histórias sobre a época da II Guerra Mundial e seus reflexos no Brasil e em Campina. O monte de ferro-velho acumulado pelas autoridades para ajudar no esforço de guerra, ali na confluência entre as ruas João Pessoa e João Suassuna, em frente ao antigo Banco Industrial. Os blecautes que havia em Olinda (onde ela e meu pai moraram depois de casar), as luzes todas apagadas para não atrair a aviação inimiga (nunca entendi por que diabos Hitler iria querer bombardear Olinda). 

E havia uma historieta, provavelmente apócrifa, mas que para mim faz parte das lendas urbanas que um tempo de guerra é mais propício a criar do que um tempo de paz.

Hitler costumava aprisionar num país invadido, a Polônia por exemplo, centenas de crianças, e as trancafiava num imenso galpão. Ali os meninos e meninas eram deixados durante dias e noites sem comer, sem nada. 

Quando o desespero estava grande, entrava um oficial nazista de megafone em punho e gritava: “Vocês estão com fome?!” Havia uma gritaria que sim. E ele tornava: “Pois peçam comida a Deus! Vamos, gritem! Gritem bem alto para que ele ouça!” E saía. Os garotos começavam o maior berreiro: “Deus, me dê comida! Deus, me dê um copo dágua!”

Por motivos teológicos que não tenho espaço para analisar aqui, Deus não se manifestava, e um dia depois a fome tinha recrudescido ainda mais, devido à reversão da expectativa. Era o momento em que o oficial voltava. Perguntava se ainda tinham fome, recebia a resposta ululante que era de se esperar, e aconselhava: “Pois peçam comida a Hitler”. E ia embora. 

Os meninos, que a esta altura não tinham mais nada a perder, começavam o coro: “Hitler, me dê comida! Hitler, me dê água!”

E aí (ela gesticulava, encorpava a voz, abria os braços para sugerir uma encenação digna de Spielberg) abriam-se enormes clarabóias no teto e de lá desciam, mediante correntes e engrenagens, vastas plataformas de madeira cobertas com terrinas fumegantes, bandejas de pastéis e sanduíches, receptáculos cheios de macarrão com molho, carnes suculentas, jarras de água, de leite e de suco, frutas em abundância, e doces, doces, muitos doces. Os garotos atiravam-se sobre aquilo, balbuciando orações e agradecimentos ao Fuhrer.

Minha mãe não era nazista, caro leitor. Ela usava isto como um conto caucionário, uma parábola acauteladora. No fim da história ela aproximava o rosto, encatitava o olho, erguia no ar o indicador e sussurrava, com intensidade: “Des-con-fie!”






quinta-feira, 18 de junho de 2009

1094) Vote Nilo (17.9.2006)





Em 1964, ano do Centenário de Campina, meu pai se candidatou a vereador. Não lembro por que partido. Se eu hoje acho os nossos partidos todos iguaizinhos, imagine naquele tempo. Partidos não passam daquela “sopa de letrinhas” mencionada por Leo G. Carroll em Intriga Internacional de Hitchcock. 

Mesmo sem um vintém no bolso, Seu Nilo alugou um jipe velho durante alguns meses, o qual se transformou em Diretório, QG e jatinho de campanha. O motorista era Zé de Iva, e Iva era filha de Dona Joana, que morava por trás da nossa casa, ajudava minha mãe nas tarefas domésticas, e vivia recitando obscuras décimas de repentistas que sei de cor até hoje e cuja procedência nunca consegui estabelecer.

A campanha era, portanto, uma iniciativa artesanal, familiar. Não foi a primeira candidatura dele; quando li o livro de Josué Silvestre, Lutas de Vida e Morte – Fatos e Personagens da História de Campina Grande 1945-1953, descobri que ele tinha se candidatado pelo PSB na eleição de 1951, e teve apenas 45 votos (o único vereador eleito pelo partido foi o Dr. Bonald Filho).

Na campanha de 64 eu tinha 13 para 14 anos, estudava de manhã no Alfredo Dantas, e passava a tarde montado na parte traseira do jipe, ajudando meu pai e Zé a distribuírem papéis impressos, dos quais só me recordo de uma crônica do Prof. Stênio Lopes onde ele contava alguns episódios malazartianos protagonizados por Seu Nilo. 

Consumimos um Iraque de gasolina, durante meses. Ele não foi eleito, e acho que levou um certo tempo até tapar o rombo financeiro.

Em 1968, resolveu se candidatar de novo, mas, já escolado, não gastou um ceitil. Era na época da explosão do movimento da esquerda estudantil, do qual eu participava intensamente como espectador. Havia em todo o Brasil uma campanha pela anulação do voto, repudiando as candidaturas falsas, “permitidas” pela ditadura. Todos os dias, as paredes do centro de Campina amanheciam misteriosamente pichadas: “VOTE NULO!” 

A única despesa que meu pai teve, durante meses, foi pagar um moleque para percorrer a cidade com um balde de tinta e um pincel, cobrindo o “U” com um traço vertical. Campina ficou coberta, durante meses, de conclamações entusiásticas: ‘VOTE NILO!” Ele teve o triplo dos votos da vez passada, e felizmente não foi eleito.

De quatro em quatro anos eu me sento numa comprida mesa de bar, com amigos que se interessam por política, e consumimos uma Áustria de cerveja discutindo a validade ou não do voto nulo. 

Há quem pregue não apenas a anulação do voto, mas a queima pública dos títulos eleitorais, diante das câmaras de TV, como as feministas de outrora faziam com seus sutiãs. No extremo oposto, há os que se cobrem de urticária à simples menção do fato, como se votar nulo fosse pior do que escolher um entre dois mafiosos. 

Quando eu voltar pra casa hoje, na hora da janta, vou perguntar a Seu Nilo, quem sabe ele tem alguma das suas soluções malazartianas para me oferecer.








segunda-feira, 20 de outubro de 2008

0611) É Carnaval! (4.3.2005)




(BT e Tide)

Lá vem de novo essa história de carnaval fora de época, micarande, micaroa, carnatal, recifolia. Não vejo graça nessas festas, e me desculpem os amigos que não sabem passar sem elas. Para certas coisas na vida, sou um conservador incorrigível. Não por simples saudade do passado, mas porque o que era festa amadorística virou indústria, e em alguns casos virou gangsterismo econômico, que ao que parece é o destino final de toda indústria na casa-de-mãe-joana que é este país. Criou-se um conceito de Carnaval onde você se diverte, mas paga caro por isto.

Carnaval pra mim é bagunça, é surrealismo do cotidiano, é happening dadaísta. Respeito mas dispenso aquele show-da-churrascaria-Plataforma que virou o desfile das Escolas de Samba. Não gosto de festinha fechada a céu aberto, com cachê, crachá e cordão de isolamento. Carnaval de trio é o velho carnaval dos Clubes aristocráticos invadindo a coitada da rua, já que os clubes vivem às moscas. O pessoal endinheirado fecha a rua e sai brincando, e se pobre chegar perto tem os seguranças para afugentar. Isso não é carnaval fora de época, é uma festa fora de si.

Quando meus pais já estavam velhos, com os filhos todos criados e morando fora, o carnaval deles se resumia a uma tocaia solerte. Meu pai ficava lendo no terraço, minha mãe na cozinha administrando as coisas. De vez em quando parava um carro e um amigo deles subia a escada até o terraço, para um dedo de prosa. Minha mãe vinha, havia aquela troca de cumprimentos, ficavam por ali, jogando conversa fora. Meu pai perguntava: “E tu, Fulano, tás brincando?” Quando o incauto respondia que sim, sua sorte estava selada. Meu pai fazia um sinal imperceptível, minha mãe pedia licença e ia lá dentro. O papo prosseguia, sobre assuntos variados, até que Mãe vinha lá da cozinha, às vezes ajudada pela empregada, trazendo um enorme caldeirão-de-fazer-buchada cheio dágua, que era despejado sobre a cabeça do visitante. O sujeito quase enfartava do susto, ficava tirando água dos olhos, apalpando o cigarro, a carteira e as roupas empapadas, enquanto Dona Cleuza e Seu Nilo se abraçavam com ele, pulando, às gargalhadas: “É Carnaval! É Carnaval!”

Carnaval é bagunça. Um dos melhores carnavais que já brinquei foi o de Olinda entre 1978-1983, quando a cidade ainda não tinha virado um imenso mictório com orquestra. Era o tempo em que a gente fazia um bloco com dez violões e duzentas latas vazias, e brincava três dias sem parar. O cara podia se fantasiar de índio peruano e passar o carnaval inteiro batendo num tambor inaudível pendurado ao pescoço. Ou então se vestir de mulher, sair pra tomar cachaça, e dois dias depois perceber que ainda estava com a mesma roupa. Ou então pegar um coco-verde, começar a jogar bola com outros bêbos, e vir driblando a multidão da Rua do Amparo até a Praça do Jacaré, ida e volta, a noite toda, sem que ninguém me tomasse a bola. Não me perguntem como, nem por quê. É Carnaval.




segunda-feira, 10 de março de 2008

174) A Livraria Pedrosa (11.10.2003)


(José Pedrosa e Nilo Tavares, em frente à Livraria Pedrosa)

A literatura fantástica e de ficção científica usa de modo recorrente o conceito de Portal (em inglês, “gateway”): uma fenda ou atalho no espaço-tempo, um limite que, uma vez cruzado, transporta o indivíduo a outro ponto do Universo, por mais remoto que seja. Uma espécie de cabine telefônica: o sujeito entra nela em Londres, aperta um botão, e ao sair está na Lua ou em outro sistema solar. Havia um desses portais na Campina Grande onde cresci. Algumas horas passadas lá dentro equivaliam a meses ou anos passados não apenas em outros pontos do espaço, mas em outros períodos do tempo, fosse o Brasil colonial, a Inglaterra vitoriana ou o antigo Egito.

Agachado junto às estantes e aos balcões da Livraria, sob o olhar sempre vigilante e sempre condescendente de Seu Pedrosa, desenvolvi desde menino a nobre arte de ler um livro por fora, quando não podemos comprá-lo: ler a contracapa, a orelha, o índice, o prefácio, as legendas das ilustrações. Não aconselho esse método aos intelectuais sérios, mas recomendo-o vivamente aos meninos de dez anos cuja curiosidade pelo mundo está na proporção inversa da mesada que recebem. Foi ali que desenvolvi o hábito de, indo a uma livraria, passar o pente fino. Parede por parede, estante por estante, lombada por lombada. Em meia hora leio o equivalente a um livro inteiro; e então pego um volume previamente escolhido e levo-o ao caixa, para dar ao livreiro um mínimo de compensação.

Não era a única boa livraria daquela Campina Grande. A Livraria Nova, em frente ao Alfredo Dantas, me proporcionou muitas descobertas e revelações; na Livraria Universal, na frente da galeria do Palomo, comprei meus primeiros livros de cinema; a lojinha das Edições de Ouro, ao lado do Capitólio, era uma pequena gruta de Aladim; e foi no sebo de Câmara, perto da Varig, que descobri o “Kaos” de Jorge Mautner e minha primeira antologia de Drummond. Mas a Pedrosa era a soma disto elevada ao quadrado. Quando fui a Lisboa receber um prêmio de ficção científica, tive que explicar aos amigos portugueses que não era carioca, apesar de morar no Rio, e que conhecera a ficção científica comprando, numa livraria do interior da Paraíba, os livros portugueses da “Colecção Argonauta”.

O tempo passa, tão devagar quanto os cabelos pretos. Quando cruzo aquela esquina já não vejo a Livraria, mas ainda escuto a voz de meu pai: “Me pega na Pedrosa às duas, pra gente descer de táxi.” Descobri que as livrarias passam, mas já tinha descoberto antes que os livros ficam; e não será por saber disto que alguns homens se animam a criar livrarias? O correr da vida faz com que se fechem alguns dos Portais que nos transportavam a outros mundos, mas é da natureza destes portais fazer com que a gente aprenda a passar sozinho para o outro lado. Ainda tenho livros onde continua pregado aquele selinho amarelo dizendo: “Faça do Livro o seu melhor Amigo”. O que teria sido de mim sem esta frase?

0151) O xadrez e o repente (14.9.2003)



Entre as fotos antigas de meu pai havia uma em que ele estava sentado diante de um tabuleiro de xadrez; um sujeito de terno, em pé, estava pegando numa peça para fazer a jogada. 

Eu perguntei porque o outro cara não jogava sentado, e Seu Nilo explicou que esse cara era um campeão espanhol ou mexicano que veio a Campina Grande e jogou as chamadas “partidas simultâneas” contra 20 ou 30 pessoas, lá no extinto e saudoso Campinense Clube. 

Se o leitor não é enxadrista, precisa saber que as simultâneas são uma tradição no mundo do xadrez. Um Mestre do xadrez é capaz de enfrentar “x” pessoas em “x” tabuleiros, e vencer a maioria das partidas. Ele faz a primeira jogada no primeiro tabuleiro, e deixa o adversário pensando. Aí joga no segundo, e passa adiante. Quando completa a rodada, volta ao primeiro tabuleiro para ver qual foi a resposta do adversário; e recomeça tudo.

Esse estilo vapt-vupt parece em desacordo com o espírito do xadrez, jogo de profundos raciocínios, imensa concentração, e demoras intermináveis. Todo cartunista já desenhou um tabuleiro de xadrez com duas múmias, ou dois esqueletos, ou dois sujeitos envoltos em teias de aranha, pensando, pensando... Então, que história é essa de jogar contra 20 ou 30 caras, e jogar na base do pêi-bufo?

O número de combinações possíveis depois da 10ª jogada é de trilhões, quatrilhões, sei lá. É impossível um jogador avaliar todas as possibilidades. Depois que ensinaram xadrez aos computadores, as máquinas começaram a experimentar todas as soluções possíveis na base da “força bruta” (ver coluna “A solução Herodes”, de 5 de julho), e de fato têm derrotado muitos campeões. 

A essência do xadrez, contudo, não é a força bruta: é a intuição estratégica e estética do grande jogador, um talento que faz com que ele rapidamente descarte 99% das jogadas possíveis e se concentre naquelas, mais improváveis, que podem iludir a vigilância do outro e lhe render um xeque-mate. 

A criatividade no xadrez se assemelha à criatividade na matemática. Os grandes matemáticos, ao conceberem uma nova fórmula, muitas vezes não sabem sequer que utilidade ela pode ter, mas sabem que ela possui “elegância” (termo muito frequente no raciocínio matemático), e portanto deve ser útil. Elegância matemática (e enxadrística) é quando se consegue reunir numa fórmula um mínimo de elementos e um máximo de possibilidades criativas.

O Mestre que joga 20 simultâneas se beneficia, ironicamente, do fato de que ele tem menos tempo para pensar do que os seus adversários. Ele não poderia enfrentar, dessa maneira, 20 Grandes Mestres. Ele joga, passa adiante, e deixa o outro sujeito ali, se aperreando. Ao chegar diante de cada tabuleiro, ele “fotografa” a posição das peças e intuitivamente percebe que deve explorar este ou aquele lado, bloquear este ou aquele setor... 

Como um legítimo repentista, ele pega a deixa e responde na hora. O verso já estava pronto, há mais de mil anos.







sexta-feira, 7 de março de 2008

0075) As quatro etapas da vida (18.6.2003)



(minha mãe)

Na primeira etapa da nossa vida, do nascimento até os vinte e poucos anos, somos Filhos dos Nossos Pais. São eles que nos sustentam, nos formatam, nos ensinam o básico do básico, nos preparam para as batalhas do mundo. Ao longo disso, também nos massacram, nos reprimem, entulham nossa mente com advertências terríveis, sufocam nossa iniciativa com ordens, regras, proibições. Chega uma idade em que tudo que a gente quer é cair fora dali, ir morar fora, cometer os próprios erros, sem ninguém nos explicando o tempo todo como evitar uma topada. Aí a gente vai embora, topa até não poder mais, e acaba casando.

Aí começa a segunda etapa: crianças aparecem, e nos tornamos os Pais dos Nossos Filhos. Começamos a ver o mesmo filme, só que agora estamos do outro lado. Somos nós que começamos a dar duro para alimentar, cuidar, prover. Chega a nossa vez de negar o brinquedo, de mandar pentear o cabelo, de obrigar a tomar sopa, de ralhar, de proibir. E também é a nossa vez de pôr no colo, acarinhar, ensinar a ler (tem coisa mais bonita do que um filho lendo, uma filha escrevendo?). Mas a lei do mundo é de ferro. Eles crescem. Sentem-se sufocados. O dedão começa a coçar-lhes, pedindo-lhes a chance de sair de mundo afora, dando as próprias topadas. Adeus!

Pensamos que o filme acabou, mas quando nos viramos de lado, avistamos quem? Eles, nossos pais, que agora estão velhinhos e meio escangalhados pelo catabis da vida. As crianças sumiram, não precisam mais de nós, mas aqui estão estas crianças enrugadas, de cabelos brancos, já batendo biela e precisando de uma supervisão técnica. E nessa terceira fase, por volta dos quarenta, viramos Pais dos Nossos Pais. É nossa vez de proibir coisas (“Papai, largue esse cigarro agora mesmo, onde já se viu”), de dar ordens (“Pois pode ir trocar de roupa que a senhora vai pro médico é agora”). Velamos as suas febres, aturamos seus achaques, pagamos agora em paciência a paciência que velou tantas noites (só agora reconhecemos a cena) à nossa cabeceira.

E eles se vão. Tantos outros estão a ir-se que começamos a pensar se um dia não nos iremos nós também. E na curva vagarosa dos setenta percebemos que nos cansamos um pouco: criamos os filhos, cuidamos dos pais, será que a vida é só trabalho? Será que ninguém vê que a gente não é de ferro, que a gente se cansa, que a pessoa se estressa? E aí, por uma dessas simetrias que parecem desenhadas por mão divina, os papéis mais uma vez se invertem. E viramos os Filhos dos Nossos Filhos. Tudo que demos voltamos a receber. “Vivendo e aprendendo”, diz a sabedoria popular. E ensinando também. Se a vida se limitasse só a aprender, ou só a ensinar, seria de um egoísmo insuportável. Recebemos, e passamos adiante. A melhor maneira de pagar um favor, às vezes, não é devolvê-lo, é passá-lo adiante. Pagar, mas não a quem nos deu, e sim a quem esteja precisando. Se a vida não ensinar isso, não ensinou nada.

0001) Palavras que ficam (23.3.2003)



(Nilo Tavares)

Quando publiquei pela primeira vez uma matéria assinada em jornal cheguei em casa meio triunfante, com o exemplar do Diário da Borborema, mas meu pai, depois de elogiar, fêz a ressalva: “Publique livros. O jornal passa, o livro fica.” Dei-lhe razão, mas isto nunca me impediu de, por exemplo, recortar e guardar minhas colunas preferidas assinadas por João Saldanha ou por Paulo Francis.

O jornal passa, não porque seja superficial, mas porque seu tempo de vida é igual ao seu tempo de gestação: 24 horas, não mais. Nesse aspecto, ele lembra um pouco a Cantoria de Viola, onde ninguém espera ver brotar do cantador uma obra-prima atrás da outra. A Cantoria é feita de versos que passam, versos inventados na hora e que em geral são esquecidos para sempre. A Cantoria é feita de tentativas incessantes de fazer um grande verso – um verso que diga a coisa certa, do jeito certo, no momento certo. E isto de vez em quando acontece, tanto é assim que no Nordeste muita gente continua a percorrer quilômetros, até mesmo a pé, para ver uma cantoria e, talvez, testemunhar um desses gols de placa.

O verso bom fica. O artigo bom fica, não arquivado em pastas, mas clonado nas conversas de escritório ou de botequim, glosado ou parafraseado nos artigos alheios. As idéias vão ficando, vão se encorpando. O jornal tem alguma coisa de livro, mas também tem alguma coisa de literatura oral, de conversa, de histórias cuja credibilidade depende apenas de quem as conta. A expressão popular “jogar conversa fora” parece uma expressão desdenhosa: é como se estivéssemos jogando lixo na correnteza do riacho que passa nos fundos de casa. Ela pode, contudo, ser vista de outra forma: jogar a conversa “para fora”, exibir em público nossas idéias, expô-las ao risco do ridículo, da descrença ou da refutação. Algumas de nossas idéias mais geniais são abatidas em pleno vôo por uma ironia, por uma crítica, por um desmentido impiedoso de quem entende daquele assunto mais do que nós. Sem falar nas idéias que não despertam o interesse de ninguém, e passam em branco.

Se até nós mesmos passamos, seria pretensioso exigir que tudo que escrevemos fique. Melhor fazer como os cantadores de viola, que tanto produzem pedregulhos quanto diamantes, e quem tiver sorte que os recolha, porque eles estão ocupados em produzir mais. É possível que alguns dos melhores improvisos de jazz que já foram feitos tenham se perdido no ar, porque não havia nenhum gravador ligado para registrar a noite em que aconteceram. Mas se havia alguém tocando, havia alguém escutando, e aquilo não se perdeu de todo. A memória humana é imprevisível. Tudo que consegue ser lido já se imortaliza de alguma forma. Como dizia o poeta Dimas Batista: “Tudo passa, na vida tudo passa, mas nem tudo que passa a gente esquece.”