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sexta-feira, 19 de abril de 2019

4458) A terceira torre (19.4.2019)




Também fiquei apreensivo quando ouvi as notícias sobre o incêndio da Catedral de Notre-Dame. Poucas semanas atrás eu tinha lido O Corcunda de Notre Dame (Nossa Senhora de Paris, 1831) de Victor Hugo, e comentei aqui no blog. A leitura me fez pensar não somente na catedral distante, mas em todas essas edificações em pedra que se pretendem para sempre.

Eu até entendo o raciocínio, porque o mundo é cheio de construções monumentais em pedra que estão resistindo bem há milhares de anos. Mas a pedra também se esfarela, e vira areia.

Como na história do poderoso Ozimândias, no soneto homônimo de Percy Bysshe Shelley (trad. minha):

Encontrei um viajante de uma terra antiga
que disse: “Duas pernas gigantes de pedra
jazem sem tronco no deserto... Perto, na areia,
um rosto semi-enterrado franze o cenho

e torce o lábio, num esgar de comando,
a mostrar que o escultor era bom leitor
dessas paixões que eternizam as coisas sem vida,
a mão que arremeda, o coração que inspira.

E no pedestal leem-se as palavras:
Meu nome é Ozimândias, Rei dos Reis;
contemplai minha obra, ó poderosos, e desesperai!

E não resta nada em volta. Entre as ruínas
daquele desastre colossal, deslimitado e nu,
estende-se apenas a areia lisa e deserta.”

O poema original é rimado. Ele é citado na ficção científica de Robert Silverberg e na série Breaking Bad de Vince Gilligan. Ozimândias é outro nome de um personagem histórico (Ramsés II), citado por Alan Moore na série Watchmen e por Anne Rice em A Múmia.

O poema ecoa a derrocada de um poder que se achava indestrutível, mas quando chega sua hora cumpre seu destino e vira pó.

É uma alegoria fácil, ao alcance da mão de qualquer mente, de modo que não custa nada ir um pouco além e ver no poema uma certa vindicação do pobre do Ozimândias.  Ficaram destroços bastantes dele para inspirar um soneto que acabou lhe sendo superior e mais duradouro, mas em todo caso não se perderam a sobrevivência (simbólica) do rosto semi-enterrado na areia e da arrogante inscrição.

Sem elas, não haveria poema.

E quando até a pedra passa, a palavra fica. Isso era mais ou menos a imagem que Victor Hugo propunha em 1831 no capítulo “Isto acabará com aquilo” do Livro Quinto do seu romance sobre Notre Dame.

É o que diz o arcediago Frollo, erguendo um livro e apontando para o edifício da catedral visto pela janela. “Um dente triunfa duma massa; o rato do Nilo mata o crocodilo; o espadarte mata a baleia; o livro matará o edifício”. Hugo glosa este tema ao longo de dez robustas páginas, sob a forma “a imprensa acabará com a igreja” e em seguida “a imprensa acabará com a arquitetura”.

Quando se refere à imprensa, não é propriamente o jornalismo, mas o livro impresso, o papel com letras. Notre Dame já foi chamada “o Livro dos Pobres”, porque diante de suas paredes, altares e nichos passaram sucessivas gerações de pessoas, ao longo dos séculos, que ali encontravam os símbolos remotos de uma sabedoria vedada aos sábios e acessível aos analfabetos.

As paredes de inúmeras catedrais estão cobertas de memes cifrados, para quem sabe o que significa cada um daqueles detalhes. É outra forma de saber ler, que prescinde da alfabetização das massas.


(ilustração: Edgar Moura)

O livro impresso, contudo, é ubíquo, está por toda parte, cabe em qualquer mão, deixa-se devassar por qualquer olho que lhe conheça as letras. Diz Hugo: “Toda civilização começa pela teocracia e acaba pela democracia”. E nesse trecho ele vê uma ruptura tecnológica proporcionando essa mudança. A catedral podia ser interpretada por analfabetos, mas era preciso ir até ela. O livro requer um certo treino; mas ele se multiplica e se amplia, até cobrir o mundo com um tapete de mensagens escritas.

No dia do incêndio, compartilhei um texto de Sara L. Uckelman, no Facebook, onde ela (estudiosa da Idade Média) diz:

Eu sei como é a vida das catedrais. Elas não são monumentos estáticos ao passado. Elas são construídas, depois são incendiadas, são reconstruídas, são ampliadas, são vítimas de pilhagem, são erguidas novamente, desabam porque a construção não foi bem feita, e são erguidas mais uma vez, recebem novas ampliações, são remodeladas, são alvo de bombardeios, são construídas novamente. É a presença constante, e não a estrutura original, que tem verdadeira importância. 

Ela vê a catedral como algo mais dinâmico do que o que Victor Hugo enxergava quando diz que “até surgir Gutenberg, é a arquitetura a escrita principal, a escrita universal”. Hugo vê os monumentos de pedra como algo majestoso que está virando um dinossauro pesadão, em luta contra os velociraptores que são os livros.

Curiosamente, é uma encruzilhada semelhante à de hoje, quando o próprio livro, o papel impresso, se depara com a leveza e a velocidade e a maleabilidade da linguagem digital. “Isto acabará com aquilo”. Chegou a vez do livro ser substituído por outra espécie dominante?

Quando Hugo diz que “a invenção da imprensa é o maior acontecimento da história” abre caminho para que o William Gibson possa dizer o mesmo do ciberespaço ou Philip K. Dick dizê-lo da simulação artificial do pensamento.

“Um livro faz-se tão depressa, custa tão pouco e pode ir tão longe!”, admira-se Hugo. Parece que há um sonho antigo na humanidade de fazer com que o registro do pensamento seja tão rápido, tão leve e impalpável quanto o pensamento propriamente dito; e parece que o mundo digital tenta realizar esse sonho.

Hugo descreve o “edifício” gigantesco, de “mil andares”, formado pelo conjunto de livros disponíveis ao ser humano. É quase o que um escritor de hoje poderia dizer da World Wide Web, das redes sociais, da Internet em si:

Incontestavelmente é esta uma construção que cresce e se levanta em espirais sem fim; lá há também uma confusão de línguas, atividade incessante, labor infatigável, concurso incansável da humanidade inteira, refúgio prometido à inteligência contra um novo dilúvio, contra uma submersão de bárbaros. É a segunda torre de Babel do gênero humano.

Hugo fala da torre feita de papel; nós de hoje podemos dizer o mesmo da torre digital que estamos guardando entre as nuvens. Isto acaba sempre com aquilo. Ao que parece, continuamos marchando numa direção em que o mais leve deixa para trás o mais pesado, o numeroso prevalece sobre o único, o imaterial se prova mais duradouro do que o físico. A catedral é substituída pelo livro que é substituído pela tela eletrônica conectada, que seria no caso a terceira torre de Babel do gênero humano.








sábado, 23 de fevereiro de 2019

4437) "O Corcunda de Notre Dame" (23.2.2019)




Terminei de ler, ou reler, O Corcunda de Notre Dame (Nossa Senhora de Paris), de Victor Hugo. É um dos livros da minha infância, e um dos poucos dos quais ainda conservo o mesmo exemplar que tinha lá em casa, seis décadas atrás. (Edigraf, São Paulo, 1958, sem indicação do tradutor).

Eu sempre pensei que tinha lido o livro todo, porque a vida inteira eu sabia trechos quase de cor – trechos que reconheci agora, no momento em que os relia. Diálogos, frases engraçadas, frases retumbantes, descrições específicas. Mas agora percebo que dificilmente eu teria atravessado aquilo tudo, mesmo tendo sido um leitor razoavelmente precoce.

Resumo: uma mulher humilde, do interior, tem uma filhinha pequena a quem adora. Um dia a filha é roubada por um grupo de ciganos, que deixa no lugar dela, meio por crueldade, um bebê-aleijão, com o corpo todo deformado, e poucas chances de sobreviver. Quem salva o bebê é um padre muito devoto e erudito que o adota e o cria como filho. Esse menino deformado é Quasímodo; ele se tornará sineiro e guardião de Notre Dame, sob a proteção de Cláudio Frollo, o arcediago. A menina raptada pelos ciganos passa a ser chamada de Esmeralda; vai se transformar numa mulher involuntariamente sedutora, e causar a desgraça deles dois.

Qual o gênero do livro? Realismo, romantismo, gótico, histórico, folhetim, barroco?  Dizem que um livro bom é um livro que explode essas rotulações, um livro que nenhum rótulo abarca por inteiro, e não vejo melhor exemplo do que este.


Me lembro de viver agarrado com o livro e também de assistir o filme de Jean Delannoy, com Anthony Quinn (Quasímodo) e Gina Lollobrigida (Esmeralda). Lembro cenas inteiras até hoje; e fiz um poema intitulado “O Homem Elefante passeia pela praia de Ipanema” (em O Homem Artificial, 1999), que é um “poema sonhado” (e escrito ao acordar) com imagens do filme.

Victor Hugo tinha 29 anos quando escreveu este romance, e só acredito nisso porque li em mais de um lugar.


É um romance engajado, um romance militante, um romance que defende uma ideologia. Hugo estava escandalizado com o “bota-abaixo” da sua Paris dos anos 1820 (o livro saiu em 1831). Escreveu sua história para defender a arquitetura tradicional, que estava, como a do Rio de Janeiro de hoje, sendo demolida pelo falso progresso ou deixada apodrecer pela corrupção.

Alguns dos capítulos mais brilhantes (como “Paris a vol d’oiseau”) talvez sejam ilegíveis para o leitor de hoje, criado numa dieta de frases curtas como grãos de alpiste, e de narrativa onde têm que acontecer ações físicas o tempo todo. O capítulo é um voo de drone sobre a Paris daquele tempo – ou melhor, a Paris de 1480 vista pela imaginação de um escritor na Paris de 1830.

O lado folhetinesco pode fazer torcer o nariz de algum leitor cansado de histórias sobre bebês raptados que reencontram (sem saber) os pais na vida adulta. Idem com as mortes trágicas, espantosas, com extensas perorações dos personagens.

Era um tempo em que você dava a um personagens uma fala de duas ou três páginas e não aparecia nenhum Manual de Redação e Estilo para dizer que estava errado. Ainda bem.

Hugo tem um talento exuberante, transbordante, chega quase a ser descontrolado. Um terço do livro, ou mais, parece ser composto de digressões longuíssimas, até reconhecermos que o tema do livro não é o pentágono amoroso entre Esmeralda, Quasímodo, o arcediago Cláudio Frollo, o capitão Phebo e o poeta Gringoire.


O tema do livro é a cidade de Paris, com foco na catedral de Notre Dame, e a vida desse elenco de personagens é o pretexto para fazer essa cidade do século XV erguer-se inteira do fundo do mar da História, como uma Atlântida resgatada.

Hugo pavimentou o caminho para todo o romance parisiense que se seguiu, desde os peculiares realismos de Balzac e Proust até a Paris folhetinesca de Ponson du Terrail, Michel Zevaco, Maurice Leblanc. O livro é um mapa histórico e um GPS da cidade inteira.

Pouco importa que Balzac tenha considerado o romance “um dilúvio de mau gosto”: me parece que Balzac, como Machado de Assis, fazia o possível para fugir ao que havia de gótico e de melodramático dentro dele mesmo.  Hugo vai neste livro desde a sala-de-visitas bem machadiana (o namoro de Phebo com Flor-de-Lis) até o submundo infra-humano do Pátio dos Milagres, e do laboratório de um alquimista a uma sessão de tortura em praça pública.

Não é uma dessas obras que a gente elogia dizendo ser “uma jóia de fino lavor”. É um livro enorme, desproporcional, heterogêneo, acidentado. Parece menos com a beleza austera e simétrica da catedral que o inspirou e mais com a Catedral de Sevilha, um conjunto de edificações incongruentes e fascinantes, que cresceu por justaposição ao longo dos séculos.

Não deixo de ver ecos de Quasímodo-raptando-Esmeralda nas cenas de King Kong (1933) onde o gorila rapta Fay Wray.



(manuscrito de Victor Hugo)

No início do livro, Victor Hugo diz ter avistado uma inscrição na parede interna de uma das torres da catedral, com a palavra grega ANANKE, “fatalidade”, inscrição que anos depois foi raspada. Essa palavra, gravada naquele cenário, foi, segundo ele, o impulso inicial para a concepção da história.

Ananke, fatum, fatalidade, maktub, estava escrito. Tudo isto faz parte da concepção de vida do melodrama e do folhetim, onde todas as coisas parecem convergir, como num acelerador de partículas, para produzir colisões e descargas de energia que sacodem vicariamente o leitor. O Universo e o mundo humano vistos como um Livro escrito por alguém, onde podemos apenas cumprir as ações, dizer as falas.

Este volume que li tem muitos erros de revisão, transposição de linhas, etc.  Em todo caso a Edigraf lançou na época, além deste livro, uma edição em dois volumes de Os Miseráveis que também tinha lá em casa. Havia um filme baseado neste também, com cenas impressionantes nos subterrâneos de Paris, que lembravam o Rocambole. Acho que é a adaptação francesa (1958), de Jean-Paul Le Chanois, cuja publicidade pode ter ajudado a fazer publicar aqui o romance.


O Corcunda de Notre Dame não é um romance fantástico, mas intersecciona gêneros que estão sempre contaminados de um certo sobrenatural, como o Gótico e o Barroco. Pode-se dizer que o filme tem um clima insólito, porque nele não se manifesta propriamente uma força espiritual ou além-matéria, mas porque depende de circunstâncias excepcionais de convergência, e da coincidência de elementos improváveis.

Esse tipo de história não questiona o universo físico, e sim o universo lógico. São coisas diferentes. A dualidade conflituosa entre Ciência e Religião durante milênios deu origem a essa noção de que a dualidade mais polêmica do Universo é matéria versus alma. E se fosse (como parece ser com idêntico peso) uma luta entre Ordem e Entropia?

Com todo o seu exagero, o seu dramalhão, seu sentimentalismo exacerbado, o livro de Victor Hugo é a transição entre duas literaturas. Com a mão esquerda estendida ao passado ele toca Rabelais, toca os romances góticos ingleses e franceses, toca o visionarismo alemão de Hoffmann e de Meyrink. Com a direita, ele derrama uma versão destilada dessa literatura em todo o romance popular que veio depois, de Rocambole a Vidocq, de Arsène Lupin a Fantomas.

É curioso notar a pouca influência de Hugo no romance francês do último meio século, mas isso certamente é desinformação minha. Tudo que leio dos franceses não lembra Hugo: lembra o vivisseccionismo visual do nouveau roman. Prosa descritiva, sem dúvida, mas prosa sem loucura, a não ser de vez em quando um certo molho freudiano.

Talvez ainda haja algum eco de sua exuberância verbal e fabulatória na aventura pseudo-medieval de Raymond Queneau (Les fleurs bleues, 1965).









sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

4013) Livros do ano 3 (2.1.2016)



Uma das histórias mais antigas é a do jovem intelectual de província, cheios de sonhos literários (ou musicais, cinematográficos, etc.) que parte para a cidade grande e mergulha na vida boêmia, nas discussões estéticas e existenciais, e passa por experiências que, a depender de cada caso, o levarão à fama, ou às drogas, ou à fortuna, ou ao suicídio. Às vezes tudo isto junto.

Que melhor exemplo do que o Dylan Thomas de Portrait of the Artist as a Young Dog (1940, http://tinyurl.com/oqml4hj), que começa garoto, fotografando em contos curtos a vidinha interiorana do País de Gales, e no final já está jornalista e poeta, frequentando puteiros, e se preparando para seus voos internacionais futuros? Existe nele algo do Vivaldo de Numa terra estranha (1962, http://tinyurl.com/nrtkpar) em sua vida boêmia e meio sem rumo, e do (ator) Eric que foge para a França à procura de um ambiente menos asfixiante.

Paris foi um símbolo para uma geração inteira de norte-americanos, como James Campbell descreve em Paris Interzone (1994, http://tinyurl.com/o6ux4mb). O maior contingente era de escritores negros (como Baldwin), mais respeitados e mais bem tratados na Europa do que em casa. Paris recebia com civilidade tanto negros como homossexuais, e Baldwin sentiu-se duplamente em casa. E existia lá, ao mesmo tempo, um ambiente receptivo para uma certa literatura de vanguarda como a dos Textos para nada (1950-52, http://tinyurl.com/pbd2to9) de Samuel Beckett. O livro de Campbell dedica longos e proveitosos capítulos a editoras semiclandestinas como a Olympia Press, de Maurice Girodias, que publicava romances pornográficos e no meio deles lançou, além de Beckett, a primeira edição de Lolita de Nabokov.

Era uma França pós-Guerra, invadida e conquistada pela cultura pop norte-americana, o jazz, o romance policial, a ficção científica. Tudo isso convergiu para a obra de sujeitos fascinantes como Boris Vian, que ganhou de Françoise Renaudot a fotobiografia Il était une fois Boris Vian (1973, lido em julho). Vian escreveu romances policiais fingindo-se de autor negro dos EUA (Vou cuspir no seu túmulo, sob o nome de Vernon Sullivan), escreveu FC, foi membro do Collège de Pataphysique, foi trumpetista de jazz, grande compositor de cançonetas românticas ou satíricas. Sua vida e sua obra sintetizam essa época que, mais do que qualquer outra, gravou na memória do tempo a imagem de uma Paris libertária, igualitária, fraterna – mas somente nos cafés e nos bares onde cineastas, existencialistas, negros americanos, romancistas argelinos e músicos de jazz criaram uma república invisível das letras e das artes. (Continua)






sexta-feira, 31 de julho de 2015

3881) "Paris Interzone" (1.8.2015)






A “capital literária do mundo”, Paris, recebeu uma leva de escritores dos EUA no entre-guerras (Hemingway, Miller, Gertrude Stein, etc.) e outra após a II Guerra Mundial. Esta última é o foco do livro Paris Interzone – Richard Wright, Lolita, Boris Vian and others on the Left Bank 1946-1960 (1994) de James Campbell, jornalista escocês autor de uma biografia de James Baldwin, um dos personagens do livro. Campbell acompanha os escritores negros expatriados em Paris, onde encontravam ambiente para a discussão política e literária, além de serem tratados com um respeito que não tinham nos EUA. Richard Wright (Native Son), Chester Himes (Cast the First Stone), William Gardner Smith (South Street), o cartunista Ollie Harrington e James Baldwin, que na época trabalhava em seu primeiro romance Go Tell It on the Mountain.

Vários eram investigados pelo FBI por atividades políticas (Wright tinha sido membro do Partido Comunista dos EUA), mas Campbell se detém nas discussões literárias e raciais. Esses autores brigavam entre si por divergências literárias, paranóia de estarem sendo espionados ou inveja do sucesso ou das amizades uns dos outros. E todos tentando publicar em inglês na França.

Surge aí o outro eixo do livro: as revistas vanguardistas da época, em língua inglesa. Periódicos como Merlin, que entre 1952-54 publicou Beckett, Sartre, Miller e outros, Zero, Points e a Paris Review, que se tornou a mais famosa. No meio delas surge Maurice Girodias, divertida mistura de espertalhão e bon-vivant, dono da Olympia Press, que publicou inúmeras obras pornográficas e livros “malditos” como Os 120 Dias de Sodoma (Sade), além de lançar as edições originais de clássicos como Lolita (Nabokov), Naked Lunch (William Burroughs), A História de O (Pauline Rèage), Plexus (Henry Miller) e outros.

Em torno disto tudo, Campbell evoca as presenças de franceses como Boris Vian (entusiasta do jazz, da FC e do romance policial dos EUA), Sartre (que Vian chamava “Jean-Sol Partre, autor de La Lettre et le Néon") e Albert Camus, além do eterno expatriado Nabokov. Um momento crucial da literatura francesa, como sempre questionada, estimulada, sacudida e enriquecida pela literatura dos estrangeiros que vão para Paris em busca dos cafés, da bibliotecas, do liberalismo nas idéias. Alguém já disse que Paris é o melhor lugar do mundo para ser um escritor pobre, porque os prazeres mais refinados e mais exclusivos que ela oferece são gratuitos. Paris Interzone, no recorte que faz do tempo e do espaço, mostra a importância dessa segunda explosão norte-americana na literatura parisiense.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

3655) Paris, Argentina (11.11.2014)



(Cortázar, por Petros V.)

A literatura de Julio Cortázar é uma literatura da grande metrópole, dos labirintos da grande cidade, que no seu caso é geralmente Paris, com uma ou outra incursão por Buenos Aires.  Em O Jogo da Amarelinha, o protagonista Horácio Oliveira percorre as ruas de Paris como uma agulha de vitrola percorre os sulcos de um disco, e do atrito entre os dois brota uma sinfonia de paixões, desencontros, crises existenciais, mortes, bebedeiras, cigarros, mates, esbarrões com o absurdo e o surreal.  

Cortázar era leitor profundo e concentrado dos surrealistas. Uma das epígrafes do livro é uma carta de Jacques Vaché a André Breton: “Nada acaba tanto com um homem como a obrigação de representar um país”.  Coisas que passam pela cabeça de todo migrante em metrópole alheia, vendo o olhar dos donos da cidade voltados para ele e aquele enorme balloon de pensamento por cima de suas cabeças: “Ah... então é assim que os paraibanos são.”

Oliveira percorre Paris à procura da Maga, a mulher que o fascina, mesmo que ele negue estar apaixonado, mas, fiel ao impulso anárquico dela, ele não marca encontros.  Sai vagando pelas ruas, indo visitar um sebo, ouvir música num clube de jazz, tomar um café num “arrondissement” mais distante, e sabendo que ao chegar lá pode encontrá-la sorrindo, como se estivesse à sua espera.  Os dois habitam (diz ele) “um mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo”.  “Encontraria a Maga?” é a frase de abertura do livro, e que cristaliza essa atitude.  Acontecerá um milagre, somente pelo fato de eu ter saído andando ao acaso pelas ruas da cidade?

O encontro casual dos amantes, deliberadamente não-combinado, faz brotar a fagulha surrealista (o amor louco e o acaso criativo) nessa Paris minuciosamente inventariada. (A edição da Cátedra, Madrid, 1992, é bem anotada por Andrés Amorós, e cheia de fotos das esquinas e cafés citados pelo autor).  A andarilhagem do intelectual argentino sem-tostão, à procura da estudante uruguaia que tem “um passarinho na cabeça”  e um filho pequeno, mostra o quanto essa cidade era para ele um tesouro de surpresas e de fatalidades:

“Em plena satisfação precária, em plena falsa trégua, estendi a mão e toquei no novelo de Paris, com a sua infinita matéria enrolando-se sobre si mesma, toquei no magma do ar e de tudo o que se desenhava na janela, nuvens e águas-furtadas; nesse então, não havia desordens; nesse então, o mundo continuava sendo algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos girando nos seus gonzos, uma madeixa de ruas e árvores e nomes e meses.”



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

1432) “Paris te amo” (16.10.2007)


Está em cartaz este filme-antologia em que vários diretores contribuem cada qual com um filme de curta-metragem. A principal vantagem deste formato é que aproveitamos cada história quando ela nos interessa, e quando não é o caso basta esperar que passe logo e venha a próxima. Em Paris, te amo a idéia original era de dedicar um episódio a cada um dos vinte “arrondissements” da cidade. O perigo, neste caso, é que o filme seja feito em torno dos “cartões postais”: um casal que marca encontro no Arco do Triunfo, um suicida que vai pular da Torre Eiffel, um grupo de turistas fotografando os quadros do Louvre...

Não é o que ocorre, felizmente, e a rigor o único local famoso que aparece com certo destaque é o Cemitério do “Père Lachaise”, onde Wes Craven faz uma pequena homenagem a Oscar Wilde, e que reaparece nos passeios de uma desajeitada turista americana em “14ème Arrondissement” (Alexander Payne). O metrô surge no episódio “Tulherias”, onde os irmãos Coen colocam Steve Buscemi em mais uma roubada, e os inferninhos do “Pigalle” (Richard La Gravenese) servem de cenário para o “rendez-vous” de um casal maduro em busca de sensações novas. No mais, os episódios se prendem aos personagens, e a cidade surge como cenário e testemunha, e não pretexto.

Algumas histórias são meio absurdistas, como “Tour Eiffel” de Sylvain Chomet, onde um garoto conta como se conheceram seus pais, um casal de mímicos; e “Porte de Choisy” de Christopher Doyle, onde um vendedor vai parar num estranho salão de beleza oriental. Encontros e desencontros sentimentais aparecem em “Bastille” de Isabel Coixet, em que um homem desiste de se separar da esposa ao descobrir que ela tem leucemia; “Le Marais” de Gus van Sant, em que um rapaz faz uma declaração a outro que não sabe falar francês; “Quais de Seine” de Gurinder Chadha, onde um jovem francês descobre que o mundo não vai se acabar se ele paquerar uma moça árabe; “Montmartre” de Bruno Podalydès em que um desmaio na rua acaba aproximando um casal; “Place des Fêtes” de Oliver Schmitz em que ocorre o doloroso reencontro de dois jovens africanos; “Faubourg Saint Denis” de Tom Tykwer, sobre o namoro entre um cego e uma atriz; “Quartier Latin” de Frédéric Auburtin, em que um casal norte-americano troca farpas e confissões ao tratar do divórcio; “Quartier des Enfants Rouges” em que uma atriz paquera com o traficante que lhe vende haxixe.

O episódio de Alfonso Cuarón, “Parc Monceau”, em que Nick Nolte conversa com a filha, é feito num único plano, com a câmara em movimento seguindo os personagens. Uma história de vampiros com final feliz é o tema de “Quartier de la Madeleine” de Vincenzo Natali, e em “Place des Victoires” um cowboy fantasmagórico ajuda uma mulher a ter um breve reencontro com o filho morto. E os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas contam, em “Loin du 16ème”, a história de uma babá que cuida do filho alheio como se fosse o seu.

sábado, 26 de julho de 2008

0462) O Cinema Subterrâneo (11.9.2004)




O que é um cinéfilo? A resposta mais instintiva é dizer que é um sujeito que aprecia filmes-de-arte. Concordo, mas não é bem isto. Cinéfilo é um sujeito que ama o cinema, o fenômeno cinematográfico em toda sua extensão. 

Se ele é da minha geração pra cima, por exemplo, o amor que tem pelos filmes estende-se à sua lembrança dos cinemas como eram antigamente. 

Os tubos de ferro chumbados ao chão, à frente da janelinha da bilheteria, para ajudar a organizar a fila. 

Os displays de cartazes e fotos, embutidos na parede, protegidos por vidro, iluminados por fluorescentes. 

O som profundo do gongo, anunciando o apagar gradual das luzes e a abertura das cortinas para início da sessão (ritual que hoje, no Rio, se mantém no Cine Odeon-BR). 

O vendedor de balas e chicletes caminhando por entre as filas com sua caixa semicircular pendurada ao pescoço. 

O “pshhh...” coletivo ao aparecer na tela o “urubu” da Condor Films. A lua cheia, redonda, que se transformava no logotipo retangular da PelMex.

O cinéfilo não ama apenas as elucubrações de Bergman ou a grotesqueria de David Lynch: ele ama com fervor fetichista toda a parafernália de objetos, rituais e emoções que cercam o ato de ver um filme. 

Daí, não é de admirar que a polícia parisiense tenha descoberto dias atrás o que a imprensa chamou com bom humor de “o verdadeiro cinema underground”. Num dos incontáveis subterrâneos de Paris, no 16ème “arrondissement”, policiais descobriram uma vasta caverna que aparentemente era usada como sala de exibição de filmes, na área por baixo do Palais de Chaillot (perto da Torre Eiffel).

Os subterrâneos de Paris são vastos. Há um passeio turístico que percorre um trecho bem limitado, onde ficam algumas catacumbas históricas. Alguns saites fornecem visões interessantíssimas sobre este mundo de galerias, esgotos, verdadeiros labirintos de cuja existência a maioria das pessoas nem suspeita. 

Os policiais fizeram a descoberta enquanto patrulhavam um trecho dos mais de 200 km de galerias subterrâneas da capital. Na caverna, dezoito metros abaixo do chão, havia luz elétrica, três linhas telefônicas, circuito fechado de TV, e uma sala de exibição com 400 m2, equipamento completo de projeção, e uma boa quantidade de filmes, que iam de clássicos do “film noir” até títulos recentes. A um canto, uma espécie de bar, com bebidas. 

Ao retornarem três dias depois, com técnicos que iriam descobrir a origem do “gato” elétrico que iluminava o local, descobriram que a luz e os telefones tinham sido cortados, e havia um bilhete no chão: “Não tentem nos encontrar”. 

Nada contra o DVD, o “home theater”, os filmes baixados pela Internet. Mas é tão poético a gente descobrir que na cidade que nos deu Godard e Truffaut existe um grupo de inconformistas que, como os cristãos primitivos, recolhe-se ao fundo das catacumbas para apreciar sua ração diária de fotogramas.