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quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

5145) "Little, Big" e a Fantasia Urbana (22.1.2025)




Nas discussões literárias, quando se invoca o nome “Fantasia”, todo mundo pensa imediatamente em histórias envolvendo guerreiros medievais com espada e armadura, cercados de magos, dragões, castelos. Ou seja, para a maioria dos leitores, “fantasia” é a Fantasia Heróica, também chamada de “High Fantasy”, aquilo que vemos em obras como O Senhor dos Anéis, Game of Thrones ou Conan o Bárbaro. 
 
Nada contra esta fantasia, que eu, pelo menos, aprecio muito. Só que aprecio mais ainda, por outros motivos, o que a gente chama de “Fantasia Urbana” ou “Fantasia Contemporânea”: as histórias fantásticas (que podem inclusive envolver magos, elfos, encantamentos, etc.) transcorridas na época atual, por entre automóveis, televisões, celulares, etc. 
 
A Fantasia Urbana pode até ser ambientada num momento de cem ou duzentos anos atrás. Alguns dos meus livros preferidos neste gênero fazem isso. 




The Prestige (1995), romance de Christopher Priest (filmado por Christopher Nolan como O Grande Truque) transcorre na Inglaterra vitoriana, e mostra dois mágicos-de-palco rivais, criando truques cada vez mais extraordinários, recorrendo inclusive à ciência da época (Nikolas Tesla aparece na história). 
 
The Anúbis Gates (1983), de Tim Powers, acontece a partir de 1810 em Londres, quando um viajante-no-tempo fica acidentalmente preso nessa época e tem que se virar como pode, baseado nos seus conhecimentos literários. (No Brasil, Os Portais de Anúbis, Ed. 34, trad. Heliana Sabino.) 



 

São histórias fantásticas, com tinturas de ficção científica, mas que são basicamente fantasia, porque a maioria dos efeitos fantásticos a que recorrem não têm nada a ver com ciência. 
 
E são histórias tipicamente urbanas, que extraem dramaticidade das condições de vida numa metrópole – Londres, em ambos os casos. 
 


Um relançamento recente nos EUA tem motivado novas discussões sobre o tema: o do romance Little, Big (1981) de John Crowley, um clássico moderno, que na época em que saiu ganhou o World Fantasy Award, e recebeu elogios entusiasmados do crítico Harold Bloom, que o incluiu no seu livro O Cânone Ocidental. 
 
Diz Bloom, comentando a obra de Crowley:
 
“Little, Big” me parece tão miraculoso quanto Shakespeare ou Lewis Carroll: é como se o livro sempre tivesse estado aqui, tal como se Falstaff ou Humpty Dumpty estivessem aqui desde o princípio das coisas, e Shakespeare e Carroll os tivessem simplesmente encontrado. Sempre tive a impressão de que “Little, Big” já estava aqui e John Crowley apenas o encontrou e o trouxe para casa, a dele e a nossa.
(prefácio a Snake’s Hands: The Fiction of John Crowley, trad. BT) 
 
O romance tem o subtítulo “O Parlamento das Fadas” e trata-se na verdade de uma história sobre fadas, mas contada de um ponto de vista quase contemporâneo, pois a história se passa no século 20, entre a cidade de Nova York e uma região não muito perto nem muito distante, chamada Edgewood, uma espécie de zona de fronteira entre o nosso mundo e o mundo que em inglês é chamado de “Faerie”, o país das fadas. 
 
Uma das teses centrais do livro é clássica: o desenvolvimento industrial, técnico e científico, com suas intensas fontes de energia (vapor, eletricidade, eletrônica, etc.) e o crescimento urbano, empurrou para longe o mundo das fadas e das criaturas fantásticas, que se refugiaram de volta à Natureza. 




 
Little, Big é a história de uma família, a família Drinkwater, ao longo de praticamente um século de gerações sucessivas Isto fez alguns comentaristas, como Ted Gioia, compararem o livro com Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez: aquela complicada árvore genealógica cheia de pessoas excêntricas, nomes repetidos, desaparecimentos misteriosos, paixões clandestinas, e um microcosmo de gente interiorana com um pé no mundo real e o outro no umbral de outra realidade. 
 
Um personagem que atravessa a história de ponta a ponta é Evan “Smoky” Barnable, um rapaz tímido, livresco, distraído. Ele casa com Daily Alice, uma das moças da família Drinkwater, descendente de um arquiteto misterioso que construiu a casa também chamada “Edgewood”. John Drinkwater construiu essa mansão enorme em forma de estrela de cinco pontas, cada uma dessas pontas num estilo-de-época diferente, talvez para servir de mostruário aos futuros clientes. 
 
Acontece que o formato da casa possibilita a passagem para planos diferentes da realidade, de modo que chegando ao fim de um corredor e virando a esquina a pessoa não está somente noutro “estilo de época”, está em outro mundo.  Morando com a recém-esposa nessa casa desconcertante, Smoky passa a conviver com a mitologia particular da família Drinkwater – a de que estamos no limiar entre nosso mundo e o mundo das Fadas, e que existe uma História que está sendo contada e todos eles precisam encaixar-se nela para que a História (“the Tale”) aconteça. 
 
Como a melancólica observação de uma personagem menor, mera figurante da História, após seu encontro com uma das protagonistas: 
 
Marge ficou parada na porta observando-a, repleta da estranha sensação de que  tinha sido apenas para essa visita tão rápida que ela tinha vivido toda sua longa vida. Que esse chalé à beira da estrada e essa lanterna em sua mão e toda a série de acontecimentos que a fizeram existir tinha como único objetivo fazer com que aquela visita acontecesse.  (p. 532, trad. BT) 
 
E em outro momento vemos a reflexão de outro personagem, Auberon, que em Nova York ganha a vida escrevendo novelas de televisão: 
 
E no entanto ele precisava apenas sentar diante da maltratada máquina  de escrever (e como ela sofria!...) para que os capítulos começassem a se desdobrar tão habilmente e tão impossivelmente quanto uma fila interminável de lenços-de-seda coloridos que um mágico extrai da própria mão vazia. Como fazer uma história terminar com a promessa de que não terminará nunca? (p. 572) 
 

 
O livro tem uma porção de sub-plots, impossível resumir todos aqui. Há um pacote de cartas de algo como Tarô passando de geração em geração, uma mulher que pratica a magia e a Arte da Memória (projetando suas lembranças nos sucessivos aposentos de um palácio), um bloco de apartamentos em Manhattan que mantém as quatro fachadas mas no interior abriga uma fazenda de animais leiteiros, um rapaz que consegue das Fadas o poder de apaixonar qualquer mulher por que se interesse... 
 
Há um aspecto sinistro também, no surgimento de um líder populista e violento que acaba se elegendo presidente dos Estados Unidos, e é chamado O Tirano: 
 
Porque o Tirano, Russell Eigenblick, não seria esquecido. Um longo período de tempo se estendia diante do seu povo, um tempo amargo em que aqueles que se opuseram a ele iriam, na aus ausência, se voltar uns contra os outros, e a frágil República seria partida e recomposta de vários modos diferentes. Naquele longa disputa, uma nova geração viria a esquecer os sofrimentos e as dificuldades que seus pais haviam sofrido no tempo da Besta, iria olhar oara o passado com nostalgia crescente, com a dor profunda de uma perda, para aqueles anos já além do horizonte da memória viva, para aqueles anos em que, parecia-lhes, o sol sempre estava brilhando. (pág. 694) 
 
Little, Big é uma história de fadas mas é ao mesmo tempo uma história da substituição de gerações em que os mais novos herdam dos mais velhos os sonhos, as dúvidas, os mistérios, as lacunas. A prosa de John Crowley é tradicional, clássica, muito elegante, a mesma que eu já tinha experimentado em livros como The Translator (2002), Antiquities: Seven Stories (1993), Novelty (1989), Great Work of Time (1989)              ...
 
Aqui, escrevi sobre o ótimo The Translator:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
 
Esses livros de Fantasia Urbana são para mim uma demonstração de que é possível pegar mesmo o mais clichê dos temas e dar-lhe uma perspectiva nova. Basta apenas fazê-lo chocar-se com temas afastados dele, e ver que tipo de fagulha esse choque produz. 
 
 





quarta-feira, 18 de outubro de 2023

4993) A pior sensação da vida (18.10.2023)



(Manuel Bandeira)
 

“A vida inteira que poderia ter sido e não foi”, pensou um dia Manuel Bandeira, durante um poema.
 
Frágil, ameaçado pela tuberculose desde a adolescência, o poeta  não tinha como não fantasiar outras vidas, o que aliás fez lindamente em “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tanta coisa para viver, tantas aventuras, tantos prazeres! E a vida se resume ao esforço fatigante de preservar uma existência sem atrativos. Por isso, talvez, gente como Janis Joplin dizia preferir viver dez anos a mil-por-hora do que mil anos a dez.
 
Janis conseguiu o que queria. A maioria das pessoas prefere viver pianinho, prefere pegar leve, poupar-se, mesmo que resignando-se a uma certa pasmaceira. E abrindo mão daquilo que a cultura-de-massas chama “a realização do seu sonho”.


 
Paulo Coelho popularizou (não foi ele quem criou) a expressão “quando você vai atrás do seu sonho, o universo inteiro conspira a seu favor”. É uma frase eficaz no sentido motivacional, porque todos nós precisamos de uma aplicação de otimismo quando temos que encarar uma tarefa, mesmo algo simples como arrumar a escrivaninha ou lavar o banheiro de casa.
 
É preciso acreditar que o objetivo vai ser atingido. Times de futebol, equipes de vendedores, grupos de militantes políticos, soldados no campo de batalha – todos eles precisam acreditar no sucesso, precisam da hipnose benéfica do otimismo.
 
Esse tipo de auto-ajuda funciona de forma paradoxal, porque as pessoas conseguem acreditar ao mesmo tempo no livre-arbítrio (“eu tomei esta decisão e tenho certeza de que alcançarei meu objetivo”) e no destino (“está escrito que serei vencedor”). O que é compreensível: sempre que os fatos parecem desmentir um desses aspectos, basta-nos trocar de chave, e acreditar no outro.



(Hugh Mac Leod)
 
Hugh MacLeod, autor de livros de auto-ajuda, afirma (em Ignore Everybody):
 
Toda pessoa foi trazida para a Terra com um Monte Everest privado para escalar. Talvez você nunca chegue ao pico, e isto é compreensível. Mas se você não fizer pelo menos um esforço sério para chegar ao cume nevado, anos depois você vai se ver deitado em seu leito de morte, e tudo que vai sentir é um enorme vazio. (trad. BT)
 
A auto-ajuda consiste muitas vezes em reafirmar, com suas próprias palavras, algo que você leu e lhe pareceu fazer sentido.


(Franz Kafka)

 
Franz Kafka tem uma parábola famosa chamada “Diante da Lei”. Um homem chega diante de uma porta que dá acesso à Lei. Diante dela há um guarda enorme, ameaçador, que o dissuade de tentar entrar ali. “Depois desta porta há outra,” explica ele ao homem, “com um guarda ainda maior que eu, e depois outra ainda maior, e assim por diante; eu próprio não consigo olhar para eles sem ficar tomado de terror.”
 
O homem hesita, acha que não vai ser capaz, e passa o resto da vida ali, ao pé da porta. Perto de morrer, ele chama o guarda e pergunta por que motivo, durante todos aqueles anos, não apareceram outras pessoas ali à procura da Lei. O guarda responde: “Porque esta porta existia somente para ti, e como agora vais morrer, terei que fechá-la”.
 
A porta da Lei e o Everest privado são o mesmo conceito – existe algo que somente você será capaz de tentar, e não adianta tentar se beneficiar da experiência alheia ou do efeito manada, invadindo o recinto junto com uma multidão. As conquistas pessoais são solitárias, por definição. Dependem só de você.



(Henry James)

Henry James glosou este mote em sua misteriosa noveleta “A Fera na Selva” (1903). Seu protagonista, John Marcher, é um homem inteligente, pacato, metódico, que confessa viver à espera de um evento extraordinário que (por uma intuição qualquer) ele pressente estar à sua espera no futuro. Preparando-se para esse evento (que tanto pode ser uma epifania quanto um desastre), ele  se poupa, se protege, evita embarcar em outros compromissos. E no final, nada acontece. O evento extraordinário talvez estivesse no seu caminho se ele tivesse se lançado à vida, ao invés de se proteger dela.


(John Crowley)
 

Ter medo da vida é doloroso. O que dizer de quem tem medo da literatura? John Crowley tem um conto, “Novelty”, na coletânea do mesmo nome (Foundation / Doubleday, 1989), cujo protagonista, um indivíduo cheio de ambições literárias, um dia se depara, dentro de si mesmo, com uma revelação acabrunhante.
 
Muitos anos depois, ele percebeu que a diferença entre ele e Shakespeare não era propriamente de talento, mas de fibra. A capacidade de não se intimidar diante das idéias mais vastas ou mais poderosas e de simplesmente (simplesmente!) sentar-se à mesa e pôr mãos à obra. A terrível languidez que se apossava dele quando algo imenso e complexo tornava-se subitamente claro aos seus olhos, algo com as dimensões de um “Rei Lear” e a minúcia de um soneto. Se ao menos não desabasse sobre ele assim, de uma vez, tudo tão monumental e tão perfeito, deixando-o amedrontado e frouxo diante da perspectiva de articular tudo aquilo, cena por cena, página por página!... (...) Gemendo como um fantasma desprezado, a idéia grandiosa ruflava as asas e sumia no vazio.  (trad. BT)
 
Alguns autores são assim, capazes de se maravilhar (e se aterrorizar) com as dimensões de uma empreitada. Outros são mais pragmáticos.



(Thomas Carlyle)
 

Conta-se que Thomas Carlyle recebeu de seu colega John Stuart Mill, em 1834, a encomenda da redação de uma história da Revolução Francesa. Mill recebera essa proposta mas não tinha condições de executá-la. Carlyle aceitou, e pôs mãos à obra. Depois que concluiu o livro (cuja edição atual tem cerca de 800 páginas), enviou o manuscrito para Stuart Mill. Na casa deste, por engano, uma criada pegou o pacote com o manuscrito e o queimou, achando que era destinado ao lixo. Quando recebeu a notícia, Carlyle sentou-se à mesa, pegou pena e tinteiro, escreveu “Capítulo 1”, e refez o livro por completo.
 
 
 




sexta-feira, 18 de junho de 2010

2170) Os restaveks do Haiti (20.2.2010)




Eles são onipresentes e invisíveis. Esquecemo-nos de sua existência no mesmo instante em que fazemos um gesto com a mão indicando “cai fora, não enche”. Surgem e desaparecem como pombos numa praça.  

São os meninos comedores de luz, que voam pelos céus do Brasil, na canção de Chico Buarque. São os meninos-sem: sem teto, sem pai, sem mãe, sem escola, sem vergonha, sem escrúpulos, sem dó nem piedade.

No romance The Translator de John Crowley (2002), um poeta russo, Innokenti Falin, migra para os EUA, torna-se professor numa Universidade e ali começa uma amizade com Kit Malone, sua aluna e futura tradutora de sua obra. 

Falin explica a ela que não sabe quem é, ou melhor, não lembra dos seus pais, ou do que lhe aconteceu até os 6 ou 7 anos, quando foi encontrado por outros garotos de rua numa estação de trem. “Era muito comum durante a II Guerra”, diz ele; “famílias eram separadas, os pais eram mortos, ou então estavam viajando com os filhos, desciam do trem para procurar comida, e o trem ia embora sem eles”. 

A infância é um buraco negro na história desse protagonista misterioso (o final do livro, durante a crise dos mísseis de Cuba, aponta de leve para um desfecho fantástico).

Falin explica que há um nome em russo para isso: “besprizornye”, que significa mais ou menos “sem alguém que cuide deles, sem ter onde ficar, sem ter quem ligue para eles” (“without guardian, unsheltered, not cared for”). 

Outro poeta russo, conversando anos depois com Kit Malone, conta de uma viagem de trem que fez na infância com seus pais. Desceram numa estação para esticar as pernas e, olhando embaixo do trem ele viu que “embaixo do vagão onde viajávamos estavam penduradas outras crianças, vultos escuros, que mal pareciam humanos, cinco, dez, uma dúzia ou mais. Fugimos gritando: ‘Besprizornye! Besprizornye!’”.

Crowley lembra dois termos em inglês (que são a cara dos romances de Dickens) para essas criaturas: “urchins” e “ragamuffins”. 

Em português o termo mais vigoroso é “pivete”, mais específico do que descrições frouxas como “menino de rua” ou “menor abandonado”. 

O cinema já os mostrou em filmes como Tire dié de Fernando Birri (Argentina, 1960), em que os garotos correm ao lado do trem pedindo que “atire dez!” (centavos), ou em Sciuscià de Rossellini (Itália, 1946), garotos engraxates que se oferecem para engraxar sapatos (“shoe shine”), ou Los olvidados de Buñuel (México, 1950).

O terremoto do Haiti trouxe mais um nome para essa galeria de anônimos. O Haiti é país de colonização francesa, e no interior é comum mandar um filho pequeno para a cidade, para ficar na casa de alguém conhecido, porque os pais não podem sustentá-lo. 

São chamados “os restaveks”, que vem de “rester avec”, “ficar com (Fulano)”. 

Imagino às vezes um mundo do futuro, um mundo pós-socialismo, pós-capitalismo, pós-riqueza, pós-pobreza, pós-civilização, onde só existirão restaveks, besprizornye, urchins, ragamuffins, sciusciàs, tire diés, pivetes.  





terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

1602) Eyeball kicks (1.5.2008)



(John Crowley)

Nos manuais de redação criativa em inglês usa-se a expressão “eyeball kick”: “Aquele detalhe perfeito e eloqüente que produz uma imagem visual instantânea na mente do leitor”. (Eu achava que “eyeball kick” significava “chute no olho”, e só depois me toquei que “kick” tem também o significado de “sensação inebriante e eufórica produzida por um estímulo agradável” – mas ou menos o que a gente sente quando toma o primeiro gole de cerveja gelada num sábado de sol.) “Estímulo visual” seria uma maneira sóbria de descrever esse efeito.

John Crowley é um autor dotado da graça da descrição breve, sem enfeites, sem esforço. Em The Translator ele descreve a visita da protagonista, Kit, à casa dos pais, no começo dos anos 1960, quando os pais acabaram de comprar sua primeira vitrola e seus primeiros long-plays: “George fazia os discos deslizarem para fora de seus invólucros de papel, como se fosse raridades, revirando-os habilmente pelas bordas, com seus longos dedos brancos”. Ele não descreve apenas o gesto físico, mas, ao mesmo tempo, comunica algo do fascínio e do cuidado com que aqueles objetos novos e caros são tratados.

Mais tarde, Kit recorda a mãe trabalhando na horta, “com um olho entrecerrado pela fumaça ascendente do seu Pall Mall”. Está tudo descrito aí: não apenas o vislumbre visual que temos tantas vezes de alguém fumando com as mãos ocupadas, mas também a sutileza psicológica de mostrar alguém que cuida dos legumes mas não cuida de si, e o detalhe (que para o leitor americano tem mais peso do que para mim) de citar a marca, em vez de apenas “um cigarro”, como detalhe de época e de faixa social.

Quando Kit sai passeando ao volante do automóvel, cantando junto com o rádio, ele diz: “Ela acelerou, deixando o braço pender junto à lateral do carro, como se estivesse deslizando numa canoa e o mergulhasse na água”. É um típico gesto de despreocupação, transposto inesperadamente de um veículo para outro, e enriquecendo seu significado. Funciona muito mais do que se dissesse: “Ela acelerou, deixando o braço pender junto à lateral do carro. Estava feliz”.

Kit tem uma tensa reunião com um agente da CIA, e percebe “seu pequeno sorriso em forma de cimitarra”. Uma TV desligada a um canto da sala se assemelha a “uma fera entediada”. (Em inglês é muito melhor: “a bored beast”, dois monossílabos quase que cuspidos com desdém.) Imagens assim, a intervalos, enriquecem o texto sem atravancá-lo. Se alguém usa isto o tempo inteiro, desvia a atenção do livro para o autor; a leitura se transforma numa espécie de gincana em que o leitor, em vez de ler a história, fica anotando mentalmente: “Gostei mais desta frase... Esta aqui foi mais fraquinha... Esta outra está ótima...” Crowley é basicamente um contador de histórias com grande percepção psicológica, e quando aparece um desses “flashes visuais” ele traz sempre uma pequena revelação sobre os personagens, algo que é transmitido sem precisar ser dito.

sábado, 30 de janeiro de 2010

1590) O Transleitor (17.4.2008)




O romance The Translator(Nova York, Morrow, 2002), de John Crowley, é a história da convivência de Innokenti Falin, um poeta russo, com sua tradutora norte-americana, em 1962, antes, durante e depois da crise dos mísseis cubanos. Como tudo que Crowley escreve, é várias coisas ao mesmo tempo: uma delicada história de amor, discussão sobre a natureza da poesia e da literatura, estudo da dificuldade de comunicação entre as pessoas, retrato de época. Crowley escreveu ficção científica (Engine Summer, The Deep, Great Work of Time), e o livro tem algo do gênero, ao sugerir a existência de universos paralelos nos quais certos fatos históricos cruciais acontecem de maneira diferente. Crowley também é mestre da fantasia: Little, Big (ganhador do World Fantasy Award) lida com elfos, e o presente livro lida (de maneira indireta, simbólica) com anjos.

Nas últimas décadas Crowley dedicou-se a uma tetralogia de romances explorando a magia renascentista, livros ambientados na época atual e também no tempo do Dr. John Dee, o mago e alquimista que assessorava a Rainha da Inglaterra. Esses romances (Aegypt, 1987; Love & Sleep, 1994; Daemonomania, 2000; Endless Things, 2007) contam uma espécie de história secreta da História, fatos que talvez tenham acontecido sem que ficássemos sabendo. E The Translator tem algo disto.

À primeira vista o livro se intitularia “O Tradutor”, mas a protagonista é Kit Malone, então a tradução correta é “A Tradutora”. Em inglês, “translator” pronuncia-se “trans-LÊI-tor”, e não posso resistir a um trocadilho dado pronto, de bandeja. Um tradutor é um trans-leitor, um leitor que lê transversalmente um texto, procurando não uma correspondência mecânica entre palavras que só se assemelham na superfície, mas a reconstituição do maior número possível das muitas camadas de significação do poema. No livro, cabe a Kit, que mal começou a estudar russo, acompanhar o poeta estrangeiro em sua busca pela palavra inglesa adequada para transmitir nuances de significado que talvez só existam no original.

Quando Kit lhe mostra uma tradução e se refere ao “seu poema”, Falin lhe diz: “Não. Esse é o seu poema. O meu foi escrito em russo”. O que um tradutor faz é escrever – no seu próprio idioma, com seus próprios recursos, seu talento – um texto que seja isomórfico com um texto pré-existente, criado por outra pessoa em outra língua. Não é o mesmo texto. Nunca vai ser. Eu, por exemplo, sou fã de Brecht e de Maiakóvski sem nunca ter lido um só poema deles, porque não sei uma palavra nem de alemão nem de russo. Li traduções em português, inglês, espanhol. Comparando umas às outras, comparando o sentido das frases, o vocabulário, o “tom de voz”, o modo com os versos se quebram e se organizam, fico com uma idéia aproximada do que devem ser os poemas desses autores. Nunca os conhecerei – a menos, claro, que aprenda as duas línguas. Um poema estrangeiro é a foto de um relâmpago – em Braille.