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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

3313) 19 medos (10.10.2013)





Antonio Lédio Martins, 39 anos, Salvador: medo de ter os tornozelos amarrados a um cavalo que em seguida será chicoteado, para que o arraste pelo solo pedregoso do sertão. 

Olaf Sigursson, 61 anos, Estocolmo: medo de que no encanamento de sua casa haja insetos mortos, incrustados no interior do cano, que liberam micróbios fatais. 

Amanda Stross, 40 anos, Perth: medo de que o chão afunde sob seu peso (ela pesa apenas 53kg), em qualquer circunstância: em casa, no escritório, na calçada, na praia.

Paulo Marcílio Guimarães, 23 anos, São Paulo: medo de perder o aviso de embarque no voo por estar com earphones escutando Metallica. 

Carmen Gomez de la Murta, 7 anos, Salamanca: medo de que os pais tenham colocado microcâmeras no banheiro para depois postar fotos dela na Web. 

Zhin Wan Yung, 56 anos, Beijing: medo de descer do trem para ir ao banheiro e o trem partir sem ele. 

Roberto Lísio Gonçalves, 23 anos, Fortaleza: medo de debruçar na amurada de uma cobertura e a amurada ceder ao peso de seu corpo.

Fernanda Câmara, 21 anos, São Paulo: medo de ficar bêbada e sair dando para todo mundo da festa. 

Raymond Ambreville, 39 anos, Bruxelas: medo de que um inseto entre pelo seu ouvido, rompa o tímpano e fique passeando dentro do seu crânio. 

Lucy Harrigan, 47 anos, Hong Kong: medo de beber uma lata de refrigerante e no final perceber algo sólido lá dentro. 

Alcino Guimarães Tortuga, 48 anos, Santarém: medo de estar mexendo nas gavetas da esposa e encontrar algo que irá estragar sua vida para sempre.

Bernardo Cardoso Almeida, 18 anos, Londrina: medo de perder a carteira, juntamente com o restante do dinheiro que costuma distribuir pelos outros bolsos. 

Raquel Ondina de Andrade, 30 anos, Aracaju: medo de ser eletrocutada no chuveiro quando toma banho sozinha. 

Almeyr Hongallon, 41 anos, Istambul: medo de ser atingido na calçada por um martelo que pode escapulir casualmente da mão do operário vinte andares acima. 

Merlânia Cordeiro Cardoso, 11 anos, Bayeux: medo que os povo comece a tomar craque e que o mundo se acabe numa invasão de zumbi.

Harrison Luna dos Sabros, 33 anos, Belém: medo de que alguém se suicide pulando de um prédio e caia em cima dele. 

Jerôme Farfan, 55 anos, Le Havre: medo de descobrir entre seus antepassados um carrasco, um traidor da pátria, um violador de donzelas. 

Louis Dickson, 51 anos, Seattle: medo de que tudo que escreve no computador esteja sendo copiado por um programa espião e isto leve sua firma à ruína. 

Joacildo Cardoso de Melo, 44 anos, Natal: medo de reconhecer num assaltante um ex-colega da escola pública, tentar usar isso em seu favor e ver que só fez piorar as coisas.









quarta-feira, 5 de junho de 2013

3204) Medo (5.6.2013)





Há quem diga que eu sou medroso, mas não sou medroso, sou precavido. Se eu fosse medroso eu não teria coragem – para dar um exemplo – de abrir gavetas. Mas eu abro gavetas: apenas costumo abri-las muito devagar, para não correr o risco de puxá-las além da conta, fazer com que escapulam de dentro do móvel e derramem todo seu conteúdo (talheres, documentos, o que for) no chão. Todo mundo já deve ter passado por isso – puxar demais uma gaveta e fazê-la tombar no chão, derramando tudo. Eu, não. Nunca me aconteceu. Porque sou medroso? Não: porque sou precavido. Por isso quando preciso abrir uma gaveta, eu abro muito lentamente. Não é problema meu se isso exaspera as pessoas que estão esperando e olhando o relógio de minuto em minuto.

Medo de centopéias, por exemplo: tenho, mas quem não tem? Vou lhe dizer quem não tem: quem nunca viu uma centopéia de verdade subindo ao longo da pele do braço, deixando marquinhas nele com aquelas perninhas ósseas, enquanto o ferrão vai sendo preparado. Isso nunca me aconteceu, mas só por isso eu sou medroso? Conte-me outra. Medo de guerra, de guerrilha, de revolução, de ditadura, de pau-de-arara? Não preciso ter. Medo de vampiro? Eu rio de vampiro. Vampiro que tenha medo de mim. Medo de tempestade, de tornados, de que a minha casa afunde como se fosse um navio, nada disso eu tenho. Medroso, eu? Hah.

Medo de quebrar um incisivo da frente se um dia eu estiver bêbado e cismar de abrir uma garrafa de cerveja com o dente? Não tenho. Medo de descobrir que sou filho adotivo, e que meu verdadeiro pai é aquele mendigo cheio de feridas que me faz atravessar para a calçada oposta à dele? Não tenho. Medo de ET, medo de abominável homem das neves? Não tenho. Medo da polícia? Tenho, mas, volta a mesma questão, quem não tem medo da polícia? O crime organizado, talvez, mas eu não sou o crime organizado. Medo de barata, de tubarão, de vírus Ebola? Não tenho. Medo de ficar pobre? Não tenho. Tenho medo de ficar rico. Não saberia administrar esse problema.

Não tenho medo de régua, de alicate, de pé de alface, de ar condicionado, de preposição, de guaxinim, de açúcar, de chapéu panamá, de paliteiro, de caldo de cana, de videotape. A maioria das coisas não me causa medo. A maioria dos medos alheios me faz rir, ou na verdade me dá vontade de rir mas me faz balançar a cabeça, compreensivo, e murmurar uma solidariedade vã.  Guardo meu medo para uma meia dúzia de coisas que me espreitam à distância, que começam a se mover somente quando adormeço, que esperam uma oportunidade, quando estou bem descontraído e arrogante, para encostar seu alfinete em meu balão e sussurrar: “Não tenha medo, eu estou aqui”.



quinta-feira, 24 de junho de 2010

2182) “Os Estranhos” (6.3.2010)



Neste filme de terror, escrito e dirigido por Bryan Bertino em 2008, um casal jovem, James (Scott Speedman) e Kristen (Liv Tyler) resolve passar a noite na casa de campo dos pais dele. O casal está ligeiramente em crise, porque James acabou de pedir Kristen em casamento e ser recusado. Ela dá mostras de gostar dele, mas casamento não está nos seus planos. Os dois chegam à casa, tomam champanhe, meio sem assunto, pois nada está acontecendo de acordo com o que ele planejava. E de repente, às 4 da manhã, pessoas estranhas começam a bater na porta, a tentar entrar à força na casa, e o terror começa.

O filme não tem a pornografia-de-violência com que se delicia tanto o cinema de hoje: membros decepados, mutilações explícitas, etc. Não se trata de Jogos Mortais ou O Massacre da Serra Elétrica. Toda a narrativa é baseada na desinformação do casal sobre o que está acontecendo. Quem são aquelas pessoas? O que querem elas? Por que vieram justamente para ali? Do que são capazes? Encurralados na casa, eles tentam se proteger e se defender à espera de que o dia amanheça e a normalidade das coisas retorne. O filme, a partir dos primeiros ataques, parece acontecer quase em tempo real. As violências se sucedem, cada vez mais próximas, e a gente tem a sensação de que o dia não vai amanhecer nunca – que é justamente o que as vítimas sentem em situações assim.

O melhor terror (dizem) sugere em vez de mostrar. O ser humano é um animal que foge de predadores há um milhão de anos. É cheio de antenas ligadas em todas as direções para captar o mais leve sopro de perigo. Essas antenas são retráteis, como as unhas dos gatos, e no dia-a-dia elas se recolhem a uma hibernação provisória. Para reaparecerem, basta estarmos num lugar remoto, altas horas da noite, olhando pela vidraça e vendo três pessoas mascaradas marchando na direção da casa. Desse momento em diante, qualquer sopro de vento, qualquer estalido da madeira, qualquer flutuar de cortina nos faz dar um pinote de dois metros de altura. (E a platéia do cinema pinota junto.)

Se me perdoam a comparação bárbara, eu diria que acontece com o medo algo semelhante ao que acontece com a excitação sexual. Os manuais conjugais dos anos 1950 nos advertiam que era contraproducente passar logo aos “finalmentes” sem uma preparação prévia, pois o corpo humano tem as chamadas zonas erógenas, que precisam ser estimuladas para que os finalmentes atinjam um máximo de intensidade. Ocorre o mesmo com o medo numa narrativa de terror. De nada adianta o filme ficar fazendo um cerca-lourenço inócuo e de repente o monstro saltar pela vidraça adentro. Qualquer pequeno susto ganha em intensidade se previamente trabalhado mediante ruídos estranhos, ângulos tortos ou movimentos inexplicáveis de câmara, inquietações que só se dissipam em parte, farfalhar de folhas, tiquetaques de relógio... Maior a tensão, maior a descarga. E as possibilidades, como sempre, são infinitas.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1724) O terror e o susto (20.9.2008)







Quando eu era garoto, havia uma história de terror que requeria um certo ritual para ser contada. A pessoa pedia que fossem reduzidas as luzes do quarto ou da sala onde a gente estivesse. Começava a contar a história, com rosto muito sério, voz pausada, num tom baixo, quase como uma confidência que não podia ser ouvida na sala vizinha. Era a história de um caminhoneiro que vinha viajando à noite. Ele estava ansioso, cansado, dirigindo há quase 24 horas sem parar. Passava diante de um muro branco e via que era o cemitério do vilarejo próximo. Mais adiante, um vulto acenava pedindo carona. Ele parava, pensando que conversar com alguém o ajudaria a manter-se acordado.

Abria a porta da boléia e subia uma mulher vestida de preto, com um véu escuro sobre o rosto. Ela agradecia, e o caminhão partia de novo. O motorista ficava curioso em saber o que a mulher fazia ali àquela hora, mas como ela ficava em silêncio ele não conseguia encaixar uma pergunta. A mulher pousava as mãos sobre a saia, e, olhando com um rabo de olho, ele via, horrorizado, que as mãos dela estavam cheias de cortes profundos, feitos com faca, cheios de sangue coagulado. Ele se assustava e dizia: “Meu Deus! Dona, quem foi que fez isso com as suas mãos?!” E a mulher se virava para ele, afastava o véu e dizia: “Foi você!!!”

O detalhe é que nesse ponto a pessoa que narrava a história gritava a plenos pulmões. Rapaz, era um susto que eu vou te contar. Depois de criar o clima com meia-luz e voz baixa, esse grito, vindo de repente, era um teste cardíaco pra qualquer um. Vi variantes dessa história, e a que contei é a primeira de todas, que ouvi quando tinha uns dez anos.

Muito bem. Folheando aqui o meu Oxford Companion to Children’s Literature (editado por Humphrey Carpenter & Mari Prichard, 1984) achei uma observação interessante no verbete “Little Red Riding-Hood”, que outra não é senão nossa conhecida Chapeuzinho Vermelho. A versão mais antiga dessa história foi recolhida por Charles Perrault em seus Contes de ma mère l’Oye, de 1697. No manuscrito de Perrault para essa coletânea (escrito em 1695), junto à história de Chapeuzinho há uma nota à margem do trecho em que a menina pergunta ao Lobo para que servem aqueles olhos, orelhas, etc., até a boca, que ele responde: “Pra te comer!”.

Dizem os autores: “Na margem do manuscrito há uma anotação para o contador da história, instruindo-o a dizer essa palavras (do Lobo) numa voz muito alta, para amedrontar a criança, como se o Lobo fosse devorá-la. A história, em outras palavras, é um jogo, que termina com o contador fingindo avançar sobre o ouvinte.” O mais interessante é que a história e o jogo (ou o susto) acabaram se despregando um do outro, porque ao que eu saiba ninguém conta a história de Chapeuzinho com essa finalidade, nem a história termina mais aí. Mas o recurso do susto deve estar presente em muitas outras tradições da narrativa oral.









1722) O massacre do apontador de lápis (18.9.2008)



Entre as muitas coisas que coleciono estão as notícias sobre a paranóia anti-terrorista nos EUA. O anti-terrorismo norte-americano trabalha em duas frentes simultâneas. A Frente Externa procura e combate os terroristas de fora, como os islâmicos da Al-Qaeda, responsáveis por atentados como o do World Trade Center. A Frente Interna combate o terrorismo apolítico dos próprios norte-americanos, cuja melhor expressão são os massacres inexplicáveis – um veterano do Vietnam que entra numa lanchonete e fuzila vinte pessoas, ou, mais tipicamente, um estudante que invade um prédio escolar e sai matando quem encontra pela frente. Até hoje não sei qual dos dois é mais absurdo, qual é mais perigoso, qual é mais invencível (pelo menos com as técnicas adotadas até agora).

O mais recente episódio na Frente Interna ocorreu em Hilton Head Island, na Carolina do Sul. Um estudante de dez anos foi visto pela professora segurando uma lâmina de metal. A professora chamou a supervisora. A supervisora chamou a polícia e avisou a mãe do suspeito. Todos se reuniram para investigar o incidente. O suspeito afirmou que, na véspera, a lâmina do seu apontador de lápis tinha quebrado, e ele resolveu trazer o pedaço, com cerca de 2 centímetros, para fazer a ponta do lápis durante a aula. A supervisora admitiu para o policial que o suspeito era um bom aluno e nunca havia se envolvido em qualquer incidente. Revistando a mochila do suspeito, o policial encontrou um pedaço de lápis com aproximadamente 2 centímetros e meio de comprimento, cuja ponta parecia ter sido feita recentemente. O policial registrou em seu relatório que a reação do suspeito (choro) deixava claro que ele compreendia a gravidade de trazer para o ambiente escolar qualquer objeto que pudesse se assemelhar a uma arma.

Pelo relatório do policial (que pode ser lido aqui: http://www.boingboing.net/2008/09/12/fourth-grader-suspen.html) julgo perceber o quanto ele procura levar o caso a sério para tranqüilizar a professora e a supervisora. Quanto a estas duas, espero não ser chamado de machista se achar que são apenas duas mulheres à beira de um ataque de nervos. Não é machismo. O mundo está cheio também de machões à beira de um ataque de nervos, por motivos ainda mais insignificantes do que este. E o mais patético é que nem mesmo esse clima kafkeano criado por pessoas super-zelosas e sem o menor bom-senso consegue evitar massacres como o da Virginia Tech.

É muito mais fácil pegar um inocente inofensivo do que um psicopata mal-intencionado. O excesso de vigilância acaba infernizando e enlouquecendo os 90% de inocentes, pegando em sua malha fina uns 9% de indivíduos problemáticos (e evitando os problemas que causariam) mas raramente consegue captar o 1% de sujeitos que saem de casa armados dos pés a cabeça, executando uma estratégia longamente planejada. Cabe às autoridades e à população decidir se essa relação custo-benefício interessa ou não.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

1655) Nas garras do terror (2.7.2008)



Quando estou batendo papo com o pessoal na faixa dos 20-30 anos de idade, gosto de recordar “pérolas de nostalgia” dos tempos da ditadura. Quem viveu naquela época passou por situações kafkeanas, absurdas, que hoje são motivo de gargalhadas, mas que naquele tempo, quando a gente sabia que podia ser preso e talvez torturado por motivos absolutamente banais, eram de tirar o sono. Os jovens riem e dizem: “Mas não é possível! Como é que vocês agüentavam viver num tempo assim?” E eu respondo: “Não era muito diferente dos tempos de hoje, pelo menos na Europa e nos EUA. Leiam os jornais, leiam os blogs”.

As ameaças do terrorismo estão gerando pelo mundo afora fatos e situações tão risíveis e aterrorizantes quanto os que nós, estudantes, esquerdistas e cabeludos em geral, vivíamos durante os anos Médici e Geisel. De vez em quando registro esses fatos aqui nesta coluna. Primeiro, porque isto me diverte imensamente. Segundo, porque chamando a atenção para o absurdo disso pode evitar que a gente acabe enveredando pelo mesmo caminho. Terceiro, para reafirmar uma das minhas percepções literárias favoritas, a de qualquer comportamento humano parece absurdo e ridículo, se não compartilhamos todas as mediações e motivações que lhe deram origem.

Numa simples edição do blog de Cory Doctorow (www.boingboing.net) dois desses fatos são relatados. Diz uma manchete no blog: “Empresas aéreas européias testam câmeras-espiãs em cada poltrona para detectar terrorismo em sua expressão facial”. Um projeto muito high-tech: câmara estarão focando o tempo inteiro o rosto de cada passageiro, enviando imagens que serão examinadas por um software capaz de detectar intenções terroristas. Sinais suspeitos seriam, por exemplo, passar a mão no rosto repetidas vezes, ou suar excessivamente. Câmeras colocadas no teto se encarregariam de monitorar outras atitudes suspeitas, como alguém correr dentro do avião, passar um tempo excessivo nas proximidades da cabine, etc.

Outra matéria do blog é fornecida por um correspondente. No aeroporto de Heathrow, em Londres, ele foi obrigado pelos guardas de segurança a trocar sua T-shirt. Por quê? Porque o desenho da camisa mostrava um robô dos “Transformers” empunhando uma metralhadora. Ao que parece, os guardas acharam que isto punha em risco a segurança do vôo. Civilmente, europeiamente, os guardas explicam ao rapaz que ele precisa trocar de camisa. Ele tenta apelar para o bom senso: “Olha aqui, pessoal, isto é apenas um desenho. É um robô de uma série de filmes de animação.” “Claro,” diz um guarda, “é o Megatron”. Na verdade não é o Megatron (informa o correspondente), é Optimus Prime, mas convenhamos que a identidade do robô é o que menos importa num momento como este. O que faz o passageiro? Por sorte ele está viajando apenas com bagagem de mão. Antes os olhos compenetrados da segurança, ele tira a camisa perigosa, guarda-a na mochila, veste outra, e viaja em paz.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

1537) Congresso Internacional do Medo (15.2.2008)



Dias atrás o Sheridan College, no Canadá, passou por uma crise cada vez mais freqüente na América do Norte. Um professor estava dando aula quando pela janela viu passar um indivíduo vestindo um casaco de camuflagem do Exército e carregando ao ombro algo que se assemelhava a um rifle. Oito estudantes o viram também, e o grupo deu o alarme. Sirenes soaram, salas de aula foram trancadas, avisos de emergência brotaram dos alto-falantes. A polícia foi acionada, e até as 4 horas da tarde todo mundo na universidade ficou trancado no lugar em que se encontrava, cruzando os dedos. Por fim, a polícia chegou a um veredito: não era um homem armado. Era apenas um sujeito carregando um tripé de câmara ao ombro.

Segundo consta, o Sheridan College é famoso pelos cursos de cinema de animação que oferece, de modo que não é nada estranho alguém cruzar o campus conduzindo um tripé. Mas o fato dá uma medida realista do clima de terror que vivem as universidades e colégios norte-americanos. O Canadá parece ser um lugar mais pacífico do que os EUA, mas ainda assim têm havido nos últimos anos os chamados “assassinatos de campus”, em que um maluco qualquer sai alvejando colegas.

Outro fato recente: numa plataforma de petróleo no Mar do Norte foi dado o alarme da existência de uma bomba no dormitório dos operários. Eram 9 e meia da manhã. Quinhentos trabalhadores e técnicos foram rapidamente evacuados através da passarela que liga o dormitório à parte principal da plataforma. Cinco helicópteros e um avião da RAF foram enviados para o local, e 161 de um total de 539 trabalhadores foram levados para plataformas vizinhas. Por volta do meio-dia, como as buscas não localizaram nada suspeito, os operários foram liberados para retornar ao local.

E aí veio a melhor parte, quando os investigadores finalmente deram ouvidos a alguns trabalhadores que desde o início das manobras tentavam explicar que era tudo um engano. Ao que parece, uma das operárias estava comentando com amigos o sonho que tivera durante a noite – sonhou que havia uma bomba no dormitório. Alguém deve ter ouvido de passagem o que ela dizia e entendeu que a coisa era pra valer. Depois de dado o alarme, ninguém se entendeu mais. Jake Molloy, secretário do sindicato dos trabalhadores, comentou: “Isto é uma loucura. A garota sonhou que havia uma bomba a bordo e estava um pouco abalada. Quando menos se esperava, estávamos sendo evacuados. Esta foi uma das maiores operações de segurança já ocorridas no Mar do Norte. O custo financeiro foi astronômico, e em momento algum houve necessidade disto tudo”.

Não foi Nostradamus, foi Carlos Drummond de Andrade que disse: “Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços / não cantaremos o ódio porque esse não existe, / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro. (...) Cantaremos a morte e o medo de depois da morte, / depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

sábado, 28 de março de 2009

0924) Cinco razões para ter medo (3.3.2006)


(detalhe de foto de Gustavo Moura)

A primeira razão é que o medo é inevitável. É possível que alguém passe a vida inteira sem experimentar o amor, a saudade, o ódio. Mas – o medo? Duvido. Pense num bebê de um ou dois anos, no rosto assustado com que ele encara um desenho, uma imagem na TV. Amor e ódio precisam de um mínimo de justificativa; o medo não. É um sistema-de-alarma embutido em nossos neurônios há milhões de anos. Devemos em grande parte a esse sistema a nossa sobrevivência como espécie. Se não há como fugir dele, temos que experimentá-lo, saboreá-lo, medi-lo, conhecê-lo a fundo.

Em segundo lugar: o medo é uma revelação. Ele vem de um lugar oculto, e só vem quando quer, não quando nós queremos. Não sei de que modo alguém possa sentir medo voluntariamente. Isso não existe. O medo é algo que nos sobrevém, que nos envolve, queiramos ou não. Podemos gerá-lo artificialmente (e aqui entram os livros e filmes de terror, etc.), mas será sempre isto: um medo artificial, um medo de mentirinha. Não é o terror pânico, aquele que nos amolece as pernas e nos esvazia os intestinos. Quando experimentar este, caro leitor, agradeça, por mais que a experiência tenha sido humilhante ou constrangedora. Agora você está mais perto de saber quem realmente é.

Terceiro: o medo nos faz manter os pés no chão. E neste caso em particular estou me referindo não ao medroso contumaz, mas ao sujeito metido a valente, ao ousado, ao aventureiro, ao que gosta de enfrentar desafios. Se ele tem a cabeça no lugar, ele sabe que o medo é um bom conselheiro. O conselho que o medo nos dá não é “Bora correr!” Quando sentimos medo, algo está nos dizendo que finalmente estamos diante de uma coisa que pode nos servir de peso e de medida. Já disse algum filósofo que sujeito corajoso não é o que não sente o Medo, mas o que sabe mantê-lo sob controle e continuar fazendo o que tem pra fazer.

O quarto motivo é que o medo é um ativador aleatório de sistemas. Não sabemos quais são os sistemas de reflexos físicos e mentais que ele vai ativar em nós, mas só saberemos se o experimentarmos. O campo de batalha já mostrou valentões que se encolhem apavorados e sujeitos lesos que se transformam em heróis. A experiência-limite que desencadeia o medo desencadeia também outras reações correlatas que variam de caso para caso.

Em quinto lugar (e esta é uma razão para convencer os mais cínicos) o medo dá dinheiro. Vejam a imensa indústria atual do filme de terror, do romance de terror. (Curiosamente, não se cultiva mais hoje em dia um teatro de terror, a não ser como sátira ou paródia; foram-se os dias do Grand Guignol francês) É um medo de mentirinha, como afirmei acima, mas pessoas sensatas argumentarão que se é pra sentir medo é melhor divertir-se sentindo um medo inofensivo e sob controle (aí estão os parques de diversão com suas montanhas-russas e o escambau) do que o medo de alguma coisa hostil que nos ameaça pra valer.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0829) O Saci e o Halloween (12.11.2005)


(o Saci Pererê, de Ziraldo)

O mês de outubro espalha pelos muros do Rio as pichações: “Halloween é o cacete!”. São os nacionalistas inconformados com mais esta moda norte-americana que invade nossas escolas, nossos shopping centers, nossas TVs. De fato, o Halloween, ou Dia das Bruxas, é uma coisa típica da cultura de língua inglesa, e só recentemente está botando as unhinhas de fora, doido para penetrar no belo mercado que a classe média brasileira representa. Depois dele, meu Deus, vamos importar o que mais? O Dia de Ação de Graças? O 4 de Julho?

Parece que o deputado Aldo Rebelo, comunista histórico e defensor do idioma, deu entrada num projeto de lei instituindo o Dia do Saci. Eis aí uma contra-ofensiva folclórica que teria divertido Monteiro Lobato! Se bem que este não tinha preconceito algum contra os EUA, pelo contrário: achava que tínhamos mesmo era que imitar o pragmatismo e a seriedade dos americanos, e não hesitou em fazer de Tom Mix, o Gato Félix e Shirley Temple personagens das histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Quem é mesmo contra os monstrinhos anglo-saxônicos é o presidente Hugo Chávez, que recentemente andou criticando a importação de hábitos norte-americanos na Venezuela, e o Halloween em particular, argumentando que isto faz parte da cultura americana: “uma cultura do terror, de instilar o medo nos outros países e em seu próprio povo”.

Devagar com o andor, Presidente Chávez. O culto ao medo, o culto aos monstros, aos seres sobrenaturais, não é uma invenção do Governo Bush. Está em todas as culturas, e está muitíssimo na nossa. Se quiséssemos produzir um Halloween tipicamente local, não precisaríamos fazer mais do que consultar a Geografia dos Mitos Brasileiros de Câmara Cascudo, obra tão fascinante e degustável quanto o Livro dos Seres Imaginários de Jorge Luís Borges.

O Halloween americano é uma festa onde se presta culto a esses seres. Nós, aqui no Brasil, não temos uma festa semelhante. Acreditamos em boitatá, mula-sem-cabeça, iara, boto, saci pererê, cramondongue e pé-de-garrafa, mas nunca organizamos essas crenças em torno de uma festa com data e rituais. E por um lado isto é bom, porque mantém essas crenças afastadas das manipulações de publicitários desocupados e comerciantes sem imaginação. Eu mesmo não gostaria de entrar num shopping no “Dia do Saci” e ver a imagem do Saci (ou de outro monstrinho merecedor de respeito) servindo de chamariz para vender tênis (“Compre um pé de Nike para seu saci, e leve o outro de graça!”), cachimbos, bonés ou sei lá o que. O Halloween é uma festa de celebração de rituais pagãos e de medos ancestrais, mas transformou-se numa evento comercial, movido pelo mais terrível medo do mundo capitalista: a Queda nas Vendas. O seu problema não é falar inglês, é falar em cifrões. O perigo que corremos não é perdermos a suposta pureza de nosso folclore, mas reafirmarmos nossa subserviência diante da máxima de que Tudo Pode Ser Vendido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0480) Agatha Christie e o medo (2.10.2004)


(Agatha e seu marido Max no Iraque)

Em sua autobiografia (que é um dos seus melhores livros, se não o melhor de todos) Agatha Christie discute de vez em quando alguns temas ligados à literatura policial, entre eles o do medo. Embora seja mais famosa por seus romances detetivescos (como os que têm como protagonistas Hercule Poirot e Miss Marple), ela escreveu também romances de crime e suspense, impecáveis, dos quais o mais conhecido deve ser O Caso dos Dez Negrinhos. O que há de mais interessante na saudosa Mrs. Christie é que era uma mulher inteligente, intuitiva, perspicaz, mas sem muita sofisticação conceitual. Vendo-a discutir literatura, história da Inglaterra ou a vida de uma dona-de-casa, estamos diante de alguém que pensa com sutileza e originalidade, mas em momento algum transforma isto em linguajar pseudo-filosofante.

Ela relata que, na infância, uma das coisas que mais lhe causavam medo era a brincadeira da “irmã mais velha”, uma irmã fictícia, que ela imaginava ser louca, morar numa gruta, e ser sósia de sua irmã mais velha, Madge. A brincadeira consistia em Madge mudar de voz no meio de uma conversa e dizer: “Agatha, você sabe quem eu sou, não é? Sou Madge. Você não está pensando que eu sou outra pessoa, não é?” A mudança na voz... a mudança no olhar... alguns pequenos gestos... e isto bastava para que Agatha, com cinco anos, tivesse certeza de que não era Madge que estava ali, mas A Irmã Mais Velha. E saía correndo, aos gritos. Depois, comentava ela: “Por que gostava tanto da sensação do medo? Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? Será que é necessária à vida humana a sensação de perigo? Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? Se tirássemos o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história?”

O medo pode vir dessa capacidade de estranhamento, de distanciamento, de olhar algo que nos é familiar e ver naquilo uma presença ameaçadora. Este processo mental é o reverso de outro que busca nos apaziguar, transformar o estranho ou ameaçador no familiar, no que está sob o controle da consciência. Agatha relata também a história divertida de um de seus netos, Matthew, que certa vez ela viu, aos dois anos de idade, descendo uma escada sozinho. Com medo de rolar pelos degraus, ele se agarrava à balaustrada, descia um degrau de cada vez, murmurando baixinho: “Este é Matthew... ele está descendo a escada...” É uma ilustração nota-dez do nosso processo de racionalização, de olhar-de-fora algo arriscado para assumir um mínimo de controle sobre o que ocorre. E ela diz que todas as vezes que precisava participar de eventos públicos, apesar de sua timidez, murmurava para si mesma: “Esta é Agatha... ela é uma escritora famosa... vai dar uma palestra...” E isto a tranquilizava. Um dos nossos maiores medos é o medo daquilo que nossa mente não consegue dominar.

sábado, 5 de julho de 2008

0437) O hipocondríaco (13.8.2004)




(cartum de Doug Savage)

Dizem que um louco é um sujeito que perdeu tudo, exceto a razão. Pelo mesmo raciocínio, um hipocondríaco é um sujeito cuja única parte saudável é o corpo. Não se iludam com aquela testa eternamente franzida, com aquele olhar de bicho acuado, aquelas costas curvas de quem carrega o mundo as ombros. Está sadio, tão sadio quanto eu e você, e é para assegurar-se disto que se envenena de remédios de manhã à noite.

Há muitos tipos. Uns são hipocondríacos por insegurança, baixa auto-estima: pensam que são mais frágeis do que as outras pessoas, que são cheios de defeitos fisiológicos ou genéticos, e que é preciso tomar medidas diárias para atenuar esse déficit. Outros são o contrário: acham-se superiores, acham que são exemplares únicos e preciosos da espécie humana, e que por isto mesmo necessitam de cuidados especiais e contínuos. Assim, cuidam do corpo como um colecionador de automóveis antigos trata do seu raríssimo exemplar de Oldsmobile 1954 (ou coisa parecida – não entendo nada de carro velho).

O hipocondríaco toma remédio por aquilo que George W. Bush e seus estrategistas chamam de “defesa preemptiva”: atacar antes, em vez de esperar o ataque do adversário. Sua mentalidade é a mesma da ditaduras militares. Temendo a própria incapacidade de enfrentar uma eleição, elas dissolvem os partidos políticos. Para se certificar de que o regime não tem opositores, faz os membros da Polícia Secreta fundarem partidos clandestinos, que atraem e doutrinam os jovens, e finalmente os prendem. (Não estou exagerando – leiam 1984). O corpo do hipocondríaco é uma ditadura farmacêutica, saturada de substâncias químicas cuja finalidade é exorcizar a ameaça de uma palavra ouvida na televisão.

William Burroughs dizia que um viciado em drogas não é mais um ser, é a metade de um ser, que só existe quando a droga está presente. O hipocondríaco geralmente minimiza a importância da droga em sua vida: não a idolatra (como muitos usuários da maconha ou da cocaína) nem recorre a ela com horror (como muita gente que fuma cigarro: “Ai, que saco, preciso parar de fumar essa porcaria!”). Sua idéia fixa não é o remédio, é a doença. Basta ler num jornal sobre um tipo raro de câncer ósseo descoberto na Malásia, que só atinge a terceira costela do lado direito, para ser justamente essa costela que começa a formigar, a latejar e a dar sinais de vida.

O hipocondríaco lê bula de remédio, manual de primeiros socorros, livro de Patologia, catálogo de laboratório farmacêutico. Tudo que lê ele interpreta como um sinal do Céu que lhe caiu sob os olhos no momento exato para salvar sua vida: estava sofrendo de um mal perigosíssimo, e jamais saberia, se não tivesse tido a sorte de ler este aviso. Sartre criou um personagem chamado O Autodidata, que lia todos os livros da biblioteca por ordem alfabética. O Hipocondríaco ideal é o que gostaria de tomar todos os remédios, para curar-se de todas as doenças.



terça-feira, 20 de maio de 2008

0401) Sob o domínio do medo (2.7.2004)





Quando eu tinha dez anos, lia muitas revistas de terror em quadrinhos. Houve uma história que me impressionou muito: um explorador voltava da África meio adoentado, por ter sido picado por uma aranha venenosa. Tempos depois, suas unhas das mãos começaram a inchar e a doer muito. Manchas negras apareceram embaixo delas; as unhas incharam até despregar-se parcialmente dos dedos, e dali de baixo emergiram aranhas negras, vivas, iguais à que tinha picado o explorador. Esse ciclo monstruoso de reprodução durou até que ele suicidou-se. Tempos depois, levei uma pancada num dedo que criou o famoso calo-de-sangue. Não descreverei aqui as noites de horror que passei em claro, olhando para aquilo, esperando a primeira aranha brotar.

Cresci. Leituras imoderadas dos folhetins franceses de Ponson du Terrail e Michel Zevaco me conscientizaram dos perigos de ser enterrado vivo devido a um ataque cataléptico. Como o personagem de “O enterramento prematuro”, de Edgar Allan Poe, passei anos tentando planejar táticas para entrar em contato com a superfície, caso um belo dia despertasse no interior escuro e abafado de um ataúde. Num dos dicionários do meu pai descobri nome desse meu medo: tafofobia. Não melhorei nada após ler um conto (“Crime no túmulo”, de Edmond Hamilton) em que um cara trabalha num parque de diversões como enterrado vivo (num ataúde metros abaixo do solo, com janela de vidro e respiradouro) e um inimigo acha um jeito de fazer uma cascavel descer lá pra baixo.

Aos 15 anos, lendo um daqueles livrinhos policiais da coleção “FBI” (eu sonhava em ser agente do FBI quando crescesse), fiquei sabendo de um golpe mortal, que é quando se atinge a vítima no “apêndice xifóide”, aquela pequena protuberância óssea na parte inferior do esterno, onde as costelas de juntam no meio do tórax. Dizia-se no livro que bastava quebrar aquela ossinho para o sujeito morrer instantaneamente, pois a ponta penetrava no coração. Perdi a conta dos gols que deixei de marcar nas minhas peladas subseqüentes: eu tinha dificuldade em matar a bola no peito, com medo que ela quebrasse meu apêndice xifóide.

Hoje, com mais de cinquenta anos, enfrento a velhice com destemor. Faço meu checape anual. Tenho pequenos problemas: o colesterol-bom está baixo (falta de exercício). Tenho uma calcificação na coluna, que às vezes incomoda pra caramba. Devido a fatores genéticos e alimentares, estou no grupo dos que correm o risco de morrer de câncer ou de enfarte. Se tenho medo de morrer? Morro de medo. Mas creiam-me, já superei problemas maiores. Qualquer indivíduo que já leu quantidades industriais de textos de Lovecraft, Kafka, Benoit Becker, Stephen King ou Bram Stoker fica – como direi? – meio realista para com os males da vida real. Existem, e são temíveis. Mas nada é mais temível do que o mal que só existe na nossa imaginação.