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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

4434) O Romance da Besta Fubana (14.2.2019)




Fiquei sabendo recentemente que está para sair uma reedição deste livro mitológico (em todos os sentidos) da lavra de Luiz Berto, prosador de mão cheia que de certa forma justifica a reflexão ouvida de um amigo meu, carioca, bastante idoso, anos atrás: “Eu acho que o Nordeste só presta porque todo nordestino é doido”.

Não, não somos doidos, mas vivemos num mundo que nos demanda outras prioridades perceptivas. Vemos coisas que os outros não veem – não por algum defeito do aparelho vedor, mas porque o mundo aqui se organiza por outros critérios de urgência e de aderência afetiva.

O Romance da Besta Fubana (Belo Horizonte: Itatiaia, 1984) é um romance na linha que alguns já quiseram chamar de “realismo mágico” por equiparação à obra de alguns autores latino-americanos, mas que tem outra substância.

O livro conta os eventos que tiveram lugar na cidade de Palmares em 1953, com a convergência de uma série de fatos espantosos: uma romaria messiânica em torno da mulher do mendigo Zé da Ferida, sujeita a fenômenos de levitação e falas estranhas; uma revolta de raparigas que depois de provocadas baixaram o cacete na polícia local; o apedrejamento do Forum e da Prefeitura por uma multidão que não sabia ao certo por que estava fazendo aquilo; a insurreição de esquerda chefiada verbalmente pelo sapateiro Joaquim, comunista calejado de pisas na delegacia.

Esses tumultos todos acabam sendo encampados pelo inevitável “homem certo no lugar certo”: o paraibano Natanael, violeiro repentista, camelô, intrujão, conversador-mor, estrategista de ambições alheias e manipulador de expectativas.

Ele se torna o Líder da Revolução, com o auxílio do cego Chico Folote, que mantém um harém de ex-donzelas a seu serviço; do horoscopista Telles Júnior, raizeiro, filósofo particular, pesquisador da História Secreta da Humanidade; da ex-rapariga Amara Brotinho, que ao ser anexada por Natanel se revela uma liderança nata, santa dos descamisados; e do citado sapateiro Joaquim, cujo faro bolchevista radical o leva a pegar carona na primeira insurreição popular que apareça, e calhou de ser aquela.

O clímax acontece na Parte IV do romance, quando a Besta Fubana desce dos céus e pousa no teto do Mercado, a única estrutura física capaz de suportá-la.

A Besta Fubana largou um bocejo longo e exauriu um hálito quente, soltando labaredas com extensões só possíveis de serem medidas em anos-luz. Línguas astronômicas de fogo e de gases quentes que percorriam o universo numa velocidade descomunal. Um dos respingos de labareda, após longa viagem pelo infinito, alcançou o Nordeste Brasileiro e provocou a grande seca de 1932. Uma das secas mais terríveis de que já se teve notícia naquela terra sofrida. Recém-acordada do sono secular, a Besta Fubana revirou os olhos numa preguiça de mulher acabada de ser comida. E, nesse revirar de olhos, perscrutou o escuro recanto do universo que tinha escolhido para dormir. (p. 232-233)

A prosa de Luiz Berto é de uma segurança absoluta ao narrar os fatos mais escandalosos ou inverossímeis; seus personagens, como o Quaderna do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, mantêm o tempo inteiro um olho no destino supremo da Humanidade e outro nos varejo das próprias vantagens. Quando a Revolução triunfa e Natanel distribui ministérios aos ajudantes citados acima, começa uma segunda luta pelo Poder, desta vez uma luta interna e mortal.

Chico Folote era o encarregado do Ministério das Coisas, dos Santos e das Coisas Santas, responsável, entre outras atribuições, pela organização das festas populares e pela arrecadação dos impostos da feira. Os demais impostos eram administrados pelo Ministério do Povo e das Águas, entregue a Joaquim. O Ministério das Mulheres e dos Bichos, chefiado por Amara Brotinho, se encarregava dos assuntos femininos, da administração da zona boêmia e da pecuária da República. O Ministério dos Fenômenos e dos Estudos, responsável pela cultura, pela educação e pela saúde do povo, ficou nas mãos de Telles Júnior. (p. 148)

Ou seja:

O Ministério estava entregue a um sapateiro, um cego esmoler, uma prostituta e um astrólogo, capitaneados pela competência e pela sabedoria de um cantador de viola. (p. 226)

O livro se conecta por um lado com a obra de Ariano Suassuna e de seu mestre, também palmarense, Hermilo Borba Filho.  Por outro lado, lança uma corrente alternada na direção de livros como As Pelejas de Ojuara (1986) de Nei Leandro de Castro, que compartilha seu frenesi escatológico e fescenino, além da hospitalidade com que recebe criaturas mitológicas.

Esse clima alucinatório-coletivo está presente também no visionário A Cachoeira das Eras (1979) de Carlos Emílio Corrêa Lima e, com maior aderência ao lado histórico e factual, nos romances do ciclo de Princesa, de Aldo Lopes (O Dia dos Cachorros, 2005, e A Dançarina e o Coronel, 2014), com a reconstituição de revoltas populares que começam no confronto político e terminam nas lendas passadas de boca em boca.

Há referências à clef a pessoas reais; não apenas o presidente Getúlio Vargas e o governador pernambucano Etelvino Lins, mas os poetas Juharez Correia (sob seu próprio nome) e Orlando Tejo, este sob a transparente alcunha de Ornaldo Timbu.

O livro de Berto é mais um elo numa corrente de romances nordestinos meio fantásticos, mas costurados com minúcia realista e extrema fidelidade na recriação de tipos populares, ambientes, costumes. É um regionalismo endoidecido, por assim dizer; uma recomposição da realidade num nível meio delirante de entendimento. Para poder comportar a distância abissal entre seus próprios pontos extremos.

Ariano Suassuna, através de Quaderna, dizia não praticar o estilo regionalista, mas o estilo régio. Com isso, aludia à mania de grandeza do personagem. Todo mendigo tem algo de monarca, quando mais não seja porque no seu mundo mental, onde ninguém mais tem interesse de conviver, ele é déspota absolutista, mesmo que não tenha uma bolacha seca pra jantar.

A Grande Líder partiu majestosa, ganhando os insondáveis abismos do infinito. Voltava para a eternidade. Seu vasto terreiro de onde era natural. Novamente, Sua trajetória deixou no céu um rastro de fogo, que foi visto de Oriente a Ocidente. Coriscos e extensas labaredas clareavam o escuro da noite. As tropas do governo olharam assustadas a grande massa esfumaçada e luminosa que levantava voo de dentro da cidade sitiada. Imensa nave partindo para uma viagem interplanetária. Uma visão encantada e fantástica, que haveria de ficar na memória das pessoas por todo o sempre. (p. 287)






quarta-feira, 7 de novembro de 2018

4402) Lembranças de Zé Limeira (7.11.2018)




De vez em quando eu digo a alguém que sou de Campina Grande e a pessoa diz: “Ah, então me fala alguma coisa sobre Zé Limeira... Ele era como?!”

Eu sou velho, mas pegue leve. Zé Limeira, de acordo com o indispensável Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, dos meus mestres e amigos Átila Almeida e José Alves Sobrinho, faleceu no já longínquo ano de 1955.

Quem sabe maiores detalhes sobre a vida real dele é o poeta Astier Basílio, que está preparando uma biografia de Orlando Tejo. Tejo foi “O Homem Que Viu Zé Limeira”, conforme o título do excelente documentário de Maurício Melo Júnior, que pode ser assistido aqui:

Limeira ficou conhecido como “o Poeta do Absurdo” por versos cheios de disparates impecavelmente rimados e metrificados como estes:

Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa...
Valha-me Nossa Senhora,
tão bombardeando a França!

Eu já cantei no Recife
perto do Pronto Socorro:
ganhei duzentos mil-réis
comprei duzentos cachorro;
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro.

Eu só gosto dessa moça
porque tem vegetação,
porteira de pau-a-pique,
três pneus de caminhão,
peido de jumenta ruça...
e haja chuva no Sertão!

Eram versos que, nos meus 10, 11 anos, meu pai recitava para gargalhada geral nas noitadas boêmias do terraço da nossa casa no Alto Branco.

Orlando Tejo transformou Limeira em mito com seu livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo (1973). É um livro irregular e brilhante, talvez o mais criativo já escrito sobre a poética dos cantadores. O “livro sobre cantadores” geralmente se desenvolve na chave do relato jornalístico e documental (registro de versos), com uma ou outra incursão descritiva do ambiente, ou rememoração lírica.

Tejo projetou nesse gênero tão severo uma dose inesperada de humor, doidice e inverossimilhança. E ao mesmo tempo uma dose de prosa de ficção, porque quando começa a contar um fato o homem se entusiasma, e a prosa se apossa dele e leva a história pra onde bem entende.

O capítulo 11 registra muitos versos e os encaixa num leve romancear que dá mais vida ao relato. Em muitos trechos de Tejo, a gente chega a se esquecer e a ler aquilo como um romance. Isso não ocorre nos relatos de cantoria. Nem mesmo dos que mais caprichavam na parte narrativa, como F. Coutinho Filho ou Leonardo Mota. Já Orlando Tejo, nesses trechos, se emparelha com Oliveira Paiva e sua descrição de festejos de fazenda, em Dona Guidinha do Poço.

O capítulo 13, “Pela última vez em Campina”, reconstitui uma longa cantoria entre Limeira e José Gonçalves, num cabaré da feira, num belo momento da prosa urbana. De fato, um leitor preguiçoso dos folcloristas tradicionais se espantaria com este parágrafo de Tejo, descrevendo o amanhecer do dia, quando os cantadores começam a se despedir:

A cidade despertava ao berro metálico das sirenes, o operariado – termostato da máquina do desenvolvimento – deslocando-se dos subúrbios para a faina do dia-a-dia, lotando os coletivos, apinhando as calçadas, chegando para as fábricas. Era o atendimento à voz das chaminés que na sua multiplicidade saturavam os céus da metrópole dos sertões nordestinos, turvando de progresso o alto da paisagem serrana.

Tejo retrata e recompõe a cantoria urbana com a mesma fluência com que resgata e reafirma o perfil da cantoria de sítio, a cantoria de vilarejo. Não sei se esse parque industrial todo já fazia parte da Campina Grande pré-1955, ou se isso já era o Tejo dos anos 1970 finalizando o livro e se entusiasmando ao teclado; pouco importa. A cantoria hoje é assim.

A parte com que eu implico no livro de Tejo é o capítulo 5, “O Poeta do Absurdo e o Absurdo dos Poetas”, quando ele começa a implicar com a poesia modernista em geral. Como poeta, Tejo era um híbrido de parnasiano e cordelista. Para improvisar um soneto bastava que lhe botassem lápis e papel na frente. Se fosse soneto de patifaria, melhor ainda.

Nessa parte do livro ele adota a tática de, para elogiar as doidices de Limeira, mostrar que os poetas ditos eruditos eram autores de disparates maiores do que os do cantador do Teixeira. E nessa varrida não escapam os surrealistas franceses nem os concretistas paulistanos. Tejo, com os bigodes eriçados de um polemista profissional, desce o chanfalho numa enorme lista de exemplos modernistas.

Zé Limeira não precisa ser comparado a nada disso. Tem sua receita personalíssima e ao mesmo tempo universal. Para imitá-lo basta ir um pouco nessa direção: a fluência na criação instantânea de neologismos, da colagem de elementos díspares, da justaposição do ilustre ao plebeu. A presteza e a articulação melódica do verso se sobrepondo a qualquer longínqua intenção de fazer sentido.

Limeira lembra alguma coisa de Marc Chagall, de Bispo do Rosário, de Gordurinha.

Me lembro de versos recitados por Dona Joana, uma mulher que ajudava minha mãe no trabalho doméstico e sabia muitos versos como este, que decorei:

Peguei na cobra jibóia
com dez dias de viagem;
pisei na ponta da vagem
tirei vinte e cinco jóia;
aonde chove e não móia
lá na várzea da agurita
onde os pombo canta e grita
dá volta no cotovelo:
quero um cacho de cabelo
da morena mais bonita.

Não sei o autor do verso, mas Limeira está todo aí. Tem a imagem visual marcante: o cara pisando a ponta do rabo de uma cobra de encontro ao chão, enquanto estica o corpo dela, abre-o (com uma faca?) e dali retira jóias como caroços de uma vagem. Tem a palavra absurda que pode ser corruptela e pode ser invenção (agurita). Tem uma Natureza surpreendente como a de um mundo de desenho animado (essa chuva, esses pombos). E tudo isso para glosar um mote bem lugar-comum, daqueles que geralmente só inspiram versos pedestres e sem imaginação.












terça-feira, 3 de julho de 2018

4363) Orlando Tejo 1935-2018 (3.7.2018)



Conheci Tejo em 1965, quando comecei a trabalhar na redação do “Diário da Borborema”, onde ele e Josusmá Viana se revezavam na secretaria. Era uma redação alegre pela presença dele, e onde pontificavam nomes como Fernando Lorenzo Maia na página de esportes, Paulo de Tarso na administração, William Tejo e Manoel Alexandrino Leite na página de política, Fernando Wallach na reportagem policial, Valdi Lira na fotografia, e tantos outros.

A veracidade aos fatos históricos me obriga a registrar que apesar desse panteão de nomes consagrados, o melhor momento do dia de trabalho era logo cedinho, sete da manhã, quando o jornal já estava na rua e o pessoal da oficina (Romão, Boní, etc.) começava a desmontar as páginas de ferro com as linhas de chumbo.

A redação (que ficava em cima, no primeiro andar) ainda estava vazia, e uma bola de papel-jornal fortemente amarrada com barbante servia para que eu, Mauro Ronaldo e Severino Brasil realizássemos ferozes campeonatos de barra-a-barra entre as mesas vazias e os arquivos de jornais que iam do piso ao teto.

Foi em meados dessa década que Orlando inventou de se candidatar a vereador, arranjou um jipe, e era visto chispando o dia inteiro ao volante, pelas ruas de Campina. a cabeleira ao vento. Não foi eleito, e continuou assinando ponto no Café São Braz, onde todo mundo até hoje passa o dia falando de três assuntos cruciais: política, futebol e a vida alheia.

Dessas conversas intermináveis surgiu o projeto do livro Zé Limeira, Poeta do Absurdo, que lhe deu fama nacional e alçou o repentista da Serra do Teixeira ao panteão mitológico do Nordeste, ao lado de Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga.

Durante os próximos séculos nossos netos e bisnetos continuarão discutindo se a maioria dos versos que aparecem naquele livro foram mesmo criados por Zé Limeira, ou se o foram por uma plêiade de poetas e boêmios que circulavam entre os poucos metros que separavam a Rádio Borborema, o Café São Braz e a Sorveteria Flórida.

Segundo meu pai (grande amigo de Orlando) o passatempo ali era inventar versos “zelimeirianos” para provocar gargalhadas, e muitas dessas inocentes contrafações foram se agregando à lenda e acabaram entrando no livro, como imigrantes ilegais. Não importa. Às vezes, mais que a verdade histórica, o que vale é o pulsar do espírito da lenda. Publique-se a lenda.

Já tive copiados à mão sonetos fesceninos de Orlando, que não reproduzo aqui porque não sei onde estão, e talvez para não chocar o espírito politicamente correto que governa com mão de ferro os costumes de hoje.

Mas a lenda de Orlando é mais polpuda de versos do que a de Zé Limeira. Há anos digo que algumas de suas improvisações poéticas deveriam ser reunidas em livro. Estão espalhadas por aí, pela internet e pela memória alheia. Um livro não garante a imortalidade, mas um Poemas Reunidos de Orlando Tejo seria pretexto para muitas noitadas de coquetéis e lembranças boas.

Como a dos versos que ele, apologista das cantorias de viola, dedicou a Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992), e a seu parceiro Severino Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990).

Os dois repentistas foram amigos de coração e antagonistas da viola por mais de meio século de embates memoráveis. No Nordeste inteiro, em bares, feiras, residências, fazendas, terraços, as pessoas se juntavam para vê-los disputando quem fazia o verso mais inspirado e quem dava alfinetadas mais agudas no outro.

No Instituto Lourival Batista, em São José do Egito (PE), há uma parede onde está imortalizado o poema de Orlando Tejo sobre essa dupla de gênio:

Grande saudade hoje sinto
das cantorias-tesouro
do gigante que foi Pinto,
do uirapuru que foi Louro.

Era uma graça, um estouro
ouvir em qualquer recinto
os trocadilhos de Louro
os desconcertos de Pinto.

Tal qual no Bar do Faminto,
do Pátio do Matadouro,
quando Louro aceitou Pinto
e Pinto abençoou Louro.

Mas no Bar Rosa de Ouro
houve um encontro distinto
Pinto elogiando Louro,
Louro chaleirando Pinto.

Jamais ficará extinto
o meu prazer de ouvir Louro
querendo derrubar Pinto,
Pinto brincando com Louro.

No Bar Casaca-de-Couro
vi o maior labirinto:
Pinto depenando Louro
e Louro esganando Pinto. (...)

O poema inteiro, que é muito longo, pode ser lido aqui, no blog Cantigas e Cantos, de Gilberto Lopes:


Outra história orlandiana impagável é contada pelos seus amigos de Brasília, onde ele foi funcionário da Câmara Federal. Apertado de grana, precisou com urgência urgentíssima de um dinheiro emprestado. Alguém lhe disse que procurasse um tal de Canindé, que poderia adiantar-lhe os trinta mil cruzeiros de que precisava para cobrir alguns cheques.

Orlando passou o dia esperando uma resposta de Canindé, que na verdade era apenas o contato com os agiotas. Em desespero, sentou-se à mesa do seu amigo, o escritor Luiz Berto (autor do igualmente lendário Romance da Besta Fubana) e produziu oito décimas implacáveis de ofensas e doestos contra o indefeso ausente:

(...) O cabra fuma e não traga
faz do crime o seu idílio!
Onde está Flávio Marcílio
que não demite esta praga?
Ao menos dava-se a vaga
pra um sujeito de fé,
já que esse indivíduo é
um tratante e delinqüente!
Haja chumbo grosso e quente
no rabo de Canindé!

Por capricho do destino
de Satanás ou Deus Brama,
o bicho também se chama
coisa e tal e Tolentino;
doido, avarento e mofino,
não conhece a Santa Sé,
faz da cola o seu rapé,
vive da desgraça alheia,
devia estar na cadeia
esse tal de Canindé! (...)

Eis senão quando toca o telefone. É Canindé, com o dinheiro liberado, pronto para ser entregue! Comemorações, abraços efusivos, e Orlando senta-se de novo à mesa, pega pena e papel, e produz mais oito estrofes neste novo teor:

Um sujeito despeitado,
desses de baixa maré,
inventou que Canindé
é um canalha safado.
Eu fiquei preocupado
com a informação até,
porém não perdi a fé
em quem merece louvores…
E haja palmas e haja flores
na fronte de Canindé.

Tenho dito e sustentado
(todo mundo sabe disso)
que na Câmara, esse cortiço,
há um cidadão honrado,
pai de família extremado,
homem de bem e de fé!
O Papa já disse até
que há no torrão brasileiro
Padre Cícero em Juazeiro
e em Brasília, Canindé.

Sei que o Papa tem razão,
mas ninguém quer saber disto.
Se já falaram de Cristo,
que se dirá de um cristão?
Porém a fofoca não
atinge um homem de fé.
e se eu descobrir quem é,
meto a mão no pé do ouvido
do sem-vergonha enxerido
que falar de Canindé! (...)

A crônica de Luiz Berto, e o texto completo das duas séries de estrofes, estão aqui, no blog da União Brasileira de Escritores / RN:

É a poesia. Muita gente lê um poema e se pergunta: Isto é verdade? Isto é mentira? O poeta é um fingidor? O leitor é um hipócrita? Que valor pode ter um texto assim cru, direto, concreto, vazado em meras palavras?

Os dois poemas de Orlando sobre Canindé mostram a verdade do poeta, qualquer poeta, que só tem a obrigação de ser fiel àquilo que no momento da escrita lhe arrebata o espírito. O poeta olha para dentro de si ou para o mundo à sua volta e relata o que vê, o que sente, o que o encandeia com sua força. O que ele escreve não é verdadeiro nem mentiroso: é apenas real.

Era assim Orlando, boêmio que largou a bebida mas não as noitadas, poeta que nunca largou a poesia, e que dias atrás decolou para o Outro Mundo e não nos largou, não nos largará em tempo algum. Concretizou agora os versos de seu alter ego Zé Limeira:

Se um dia eu fosse chamado
pra cantar no Céu, eu ia.










segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

3369) Tejo e Zé Limeira (14.12.2013)





(Orlando Tejo, por Rodrigo)



Está disponível no YouTube (http://bit.ly/IFR927) o documentário da TV Senado, dirigido por Maurício Melo Jr., O Homem Que Viu Zé Limeira, sobre o poeta Orlando Tejo e o seu famoso personagem. 

Zé Limeira é um personagem épico, no sentido de ser alguém que provavelmente teve existência física mas acabou recebendo uma estatura mitológica. Virou um agregador de lendas, um atrator da imaginação alheia. 

O cantador de Tauá tornou-se assim por obra e graça de Orlando Tejo e seu livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, um dos livros clássicos sobre a Cantoria de Viola, além de sobre Campina Grande e a Paraíba inteira.

Em princípios dos anos 1970, mais ou menos, Orlando Tejo decidiu-se a colocar no papel as histórias que sabia sobre Zé Limeira, que era um negro alto, de voz poderosa, e tinha um carisma peculiar onde se misturavam a simpatia, uma certa ingenuidade ou primitivismo (consta que ele tinha medo de trem de ferro) e uma capacidade inesgotável para fazer versos sem pé nem cabeça.

Toda cultura tem seu capítulo de nonsense, e muita gente já registrou, aqui mesmo no Nordeste, a presença de poetas que dão 100% de atenção ao som e zero ao sentido. Poetas que vivem para a métrica e a rima, sem dar a menor bola para o que estão dizendo. 

Zé Limeira tornou-se tão famoso, devido ao livro de Tejo, que hoje certamente muitos versos absurdos de outros poetas são transferidos para ele. Isso sem falar nos versos (esta questão é debatida no filme) que teriam sido escritos por Otacílio Batista e outros amigos de Tejo, depois que este se preocupou com a pequena quantidade de versos autênticos que teria recolhido.

Poeta contando história, os versos que achou são poucos? Não tem problema, qualquer um faz mais. Não é tão difícil, havendo um tal precedente. 

Quando eu fazia parte da Comissão de Seleção do Congresso Nacional de Violeiros, em Campina, incluí o mote “Se eu quiser eu também faço / igualzinho a Zé Limeira”, que é glosado até hoje, e aparece também no filme. 

Zé Limeira virou um estilo, pouco importa a pessoa.

O filme entrevista inúmeros poetas e fãs da cantoria (eu inclusive), mas devemos tirar um chapéu especial para Vladimir Carvalho. Deve-se a ele, e a sua mania de filmar tudo, a presença viva de Orlando Tejo neste documentário: falando, rindo, recitando, descrevendo Zé Limeira em detalhes, cantando sambas. (Eu conheço Tejo há quase 50 anos e nunca o tinha visto tocando violão.) 

Boêmio, gozador, improvisador fino, gente boa até a medula, Orlando Tejo deveria ter sua obra poética esparsa reunida em livro, e se isto acontecer um dia talvez ele acabe se tornando mais famoso do que sua mais famosa criação.







sábado, 15 de março de 2008

0253) Tonheta: vivo ou morto (11.1.2004)




Nada mais parecido com o Brasil do general Médici do que os Estados Unidos do presidente Bush. Talvez nas prisões americanas não se esteja torturando e assassinando indivíduos por terem lido “O Capital” (ou, no caso, o Corão); mas por outro lado Médici, ao que eu saiba, nunca construiu campos de concentração como o que nossos coleguinhas americanos estão mantendo em Guntánamo. A mais recente novidade, contudo, foi divulgada agora no finzinho do ano pela Associated Press. O FBI distribuiu um boletim para 18 mil centrais de polícia no país inteiro instruindo os policiais para prestar atenção, ao revistar suspeitos durante batidas, blitzes, etc., se eles conduzem almanaques.

Segundo o FBI, almanaques trazem informações sobre cidades e Estados, sobre rios, barragens, reservatórios, túneis, edifícios, etc., além de fotografias e mapas. No boletim, escrito em inimitável jargão burocratês, o FBI avisa: “A prática de pesquisar alvos potenciais é consistente com métodos sabidamente utilizados pela Al-Qaeda e outras organizações terroristas que buscam maximizar a probabilidade de sucesso operacional através de cuidadoso planejamento.” Beleza, né? Isso, amigos, chama-se reação freudiana à própria impotência. E me lembra o que um alto oficial da CIA confidenciou a um repórter, logo após o atentado do 11 de setembro: “O mais humilhante de tudo é sabermos que nós jamais teríamos tido a competência para organizar algo assim, e muito menos a coragem de fazê-lo.”

Essas limitações estão sendo compensadas agora (ou pelo menos é isso que eles acham) através da conhecida tática de matar barata com fuzil, ou curar virose com cirurgia. Um sujeito em atitude suspeita e com um almanaque no porta-luvas do carro tem tudo para ser terrorista. Fui consultar meu exemplar de 1999 do “Old Farmer´s Almanac” (meu pai colecionava almanaques, e eu herdei uma beirinha desse gene), em circulação desde 1792. Não vi nada que ameace a segurança nacional da brava América. Tabelas astronômicas de lunações e marés, previsões do tempo, piadas, curiosidades... Nada que não tenha no “Almanaque do Porto”, no “Almanaque Biotônico”, no “Almanaque Mundial”, no “Almanaque do Pensamento” e noutros. Vai ver que foi por isto que a Al-Qaeda nunca conseguiu explodir nada em nosso país.

Eita, Estados Unidos! É dura a vida, hem? 1984, quem diria, aconteceu em 2001. O perigo agora é Antonio Nóbrega inventar de levar para lá seu show “Lunário Perpétuo”. Quando o FBI descobrir que o show se inspira num almanaque sertanejo, vai logo pensar que por trás de Nóbrega está D. Pedro Quaderna, e por trás de Quaderna está Antonio Conselheiro, e por trás de Antonio Conselheiro está Osama bin Laden. E aí danou-se: lá vai o pobre do Tonheta ficar pendurado numa gaiola de ferro em Guantánamo, e pra soltar ele vai ser preciso uma força-tarefa de peixeira em punho formada por Ariano Suassuna, Orlando Tejo e Zé Nêumanne. Aí é que eu quero ver, Donald Rumsfeld!

segunda-feira, 10 de março de 2008

0181) A lenda de Zé Limeira (19.10.2003)

Metade do mundo ouviu falar em Zé Limeira, o poeta do absurdo. Até nos círculos extra-cantoria, de pessoas completamente leigas sobre o assunto, o nome dele é o mais conhecido. Mesmo aquele pessoal distante, que ouviu o galo cantar mas não sabe onde, lembra vagamente, quando se fala no assunto “cantadores do Nordeste”, da figura desse poeta maluco que dizia coisas sem pé nem cabeça. Talvez ele e o Cego Aderaldo sejam os personagens mais conhecidos do público em geral, dessa turma para quem os nomes de Pinto do Monteiro ou Romano do Teixeira nada dizem.

Que Zé Limeira existiu, é fora de qualquer dúvida. Como personagem, no entanto, ele brotou no livro de Orlando Tejo, Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, que já circula pelo Brasil há uns bom 30 anos. O livro de Tejo, que tem capítulos brilhantes descrevendo cantoria-de-feira, cantoria-de-cabaré, traz uma quantidade imensa de versos improvisados por Limeira e seus parceiros. A quantidade é muito grande, para uma época em que era mais difícil conseguir um gravador do que um gerador-de-luz. Surgiu então a lenda de que muitos daqueles versos atribuídos a Limeira seriam invenção do próprio Tejo e de seus comparsas do Café São Braz em Campina e do Ponto de Cem Réis em João Pessoa. Contra esta versão, pesava o fato inconteste de que Limeira existiu de fato, são dezenas as testemunhas de suas cantorias e da maioria dos seus versos.

Fonte histórica à parte, a peça de José Bezerra O mundo louco do poeta Zé Limeira ajudou a encorpar o mito do poeta junto a um público jovem, de classe média, sem muita aproximação com a cantoria. Artigos publicados em jornais e revistas culturais do Rio e de São Paulo foram cristalizando a imagem do negão de lenço vermelho no pescoço, que só andava a pé, inventava palavras sem pé nem cabeça, misturava sem a menor cerimônia personagens da política brasileira e da Bíblia, e morreu durante uma cantoria porque ousou cantar a balada da “Pavoa Devoradora”.

Ocorreu com Zé Limeira uma coisa que vemos ocorrer o tempo inteiro diante dos nossos olhos. Um indivíduo encarna durante sua vida um tipo, um personagem. Quando ele morre, toda história que possa ser atribuída a esse personagem passa a ser atribuída a ele. É de conhecimento geral que grande parte dos crimes atribuídos a Lampião não foram cometidos por ele. No mundo pouco nítido da tradição oral, onde se superpõem versões conflitantes, incompletas, fantasiosas, equivocadas, um personagem acaba agregando a si próprio numerosos episódios alheios. Depois da morte, então, nem se fala. “Só pode ter sido coisa de Fulano!” afirma alguém. E como num passe de mágica o crime anônimo é atribuído a um bandido famoso, o milagre é creditado a Frei Damião, a frase espirituosa a Oto Lara Resende, o verso maluco a Zé Limeira. Os personagens que encarnam viram ímãs, atraindo para si tudo que corresponde àquele perfil. “Só pode ser coisa de Zé Limeira!”. E a obra póstuma do nego vai crescendo.