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sexta-feira, 29 de julho de 2011

2621) Santos 4x5 Flamengo (29.7.2011)



Um jogo para ficar na História, e uma vitória espetacular do time por que a gente torce. Essas duas felicidades do futebol nem sempre coincidem; quando isso acontece, é coisa pra gente acender uma vela para cada Deus do Panteão romano. Aconteceu 4ª.feira passada. Santos e Flamengo fizeram na Vila Belmiro um jogo épico, com reviravoltas sensacionais, raros lances de violência, gols extraordinários e dezenas de jogadas brilhantes. Escrevo uma hora após o jogo, com a TV desligada e a cidade agora silenciosa. Por ironia do destino, não estou no Rio de Janeiro. Mas senti o chão tremer.

Em jogo de muitos gols e de muitas viradas, costumo fazer um esquema mental da ordem em que os gols foram marcados, e que contam a história do jogo. Santos, Santos, Santos, Flamengo, Flamengo, Flamengo, Santos, Flamengo, Flamengo. O Santos teve um começo arrasador com três gols que pareciam ter definido o resultado; o Flamengo sabe suprir a ausência de atacantes (Deivid é um caso patológico de incompatibilidade com a bola) com um meio de campo bem treinado na arte de costurar a bola e entrar na área. Fez três gols e se beneficiou da ousadia fora-de-hora de Elano que quis bater um pênalti com cavadinha; foi após a defesa de Felipe que o Fla empatou o jogo. (Uma bela cabeçada de Deivid, para ser justo; mas não é impossível que ele estivesse tentando fazer outra coisa). No 2º. tempo o Santos fez mais um e parecia que tudo ia recomeçar, mas Ronaldinho Gaúcho repetiu uma cobrança rasteira de falta que o vi fazer pelo Barcelona, e depois sacramentou a virada num contra-ataque mortal.

Note-se que ainda houve o pênalti perdido, e pelo menos um pênalti não marcado e um gol erradamente anulado para cada time. Não era uma pelada no Aterro, era um jogo de dois times de ponta, um recente campeão brasileiro e o atual campeão das Américas, e poderia perfeitamente ter terminado com um placar de 7x7 ou de 8x6 para qualquer um dos dois. O terceiro gol do Santos, de Neymar, foi uma gostosura de ver e rever. E vamos aplaudir os zagueiros, que tentaram o que foi possível, na bola, e não apelaram.

Jogos assim nos dão gás para continuar acreditando no futebol durante pelo menos mais um ano, assistindo peladas insuportáveis, pancadarias vergonhosas, partidas que são um verdadeiro concerto de trapalhadas de comédia pastelão. Deixamos de trabalhar, de namorar, de dar atenção à família ou aos amigos, de ler um bom livro, e nos plantamos feito idiotas na frente da TV na quarta-feira à noite ou no domingo de tarde. Por que? Porque vimos um jogo que redefiniu nossos parâmetros, e sabemos que tudo que acontece pode acontecer de novo. Isto não é uma verdade científica, mas é uma regrazinha que se repetiu tantas vezes em nossa vida que não custa nada levá-la a sério mais uma vez. Nada nos reconcilia tanto com o futebol quanto um jogo para ficar na História, um jogo que mesmo que a gente perdesse ficaria grato por ter vivido.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

2583) A badalação das celebridades (15.6.2011)



Semana passada a Seleção Brasileira se reuniu para dois amistosos, e o Globo do dia 3 anunciou no caderno de esportes: “Histeria por Neymar inaugura nova era na seleção brasileira”, comentando no corpo da matéria: “Natalle, Julliana, Noamy e Loyse, todas entre 15 e 17 anos, chegaram cedo, por volta das 9h, ao Hotel Castro, onde a seleção está hospedada em Goiânia. Barradas pelos seguranças, ficaram na porta, máquina fotográfica em punho, esperando Neymar”. É gozado como a imprensa adora a badalação juvenil. E pensando bem, também para um time de futebol é menos arriscado ser cercado por uma multidão de peruazinhas saltitantes do que por brutamontes de soco-inglês nos dedos reclamando que o time fez corpo mole.

A “nova era da Seleção” me lembra os tempos saudosos da Beatlemania, os quatro cabeludos correndo pela estação do trem, perseguidos por dez milhões de inglesinhas histéricas emitindo juntas um som equivalente ao de um milhão de turbinas de jatos da BOAC. Tudo muito divertido quando se tem vinte e poucos anos. Mas acabou cansando. George Harrison disse: “Me recuso a continuar subindo num palco para tocar música e não conseguir escutar o que estou tocando. I Feel Fine no show de ontem ficou horrível”. E Paul: “Oi, e tocamos I Feel Fine ontem?”. Em 1965 eles acabaram sua “nova era” do rock, trancaram-se num estúdio e se tornaram Os Beatles, pra valer.

É engraçado. No dia 7 de junho o mesmo Globo fez uma matéria sobre os 80 anos de Cauby Peixoto, “famoso no passado pelas estratégias de marketing de seu empresário Di Veras, que arranjava moças para desmaiarem diante do cantor (‘Só uma desmaiou de fato’, diz Cauby hoje) e rasgarem roupas já preparadas para este fim”. Não tenho dúvida de que as “macacas de auditório” de Cauby também inauguraram uma nova era na música brasileira.

E assim, meio serendipiciamente, esbarrei nesta página (http://tinyurl.com/3tu8q95) que comenta a histeria coreografada das fãs de Frank Sinatra após 1943, quando ele contratou o publicitário George Evans para planejar o tumulto das fãs. Evans dava 5 dólares a cada garota e as instruía cuidadosamente sobre o tipo de grito que deveriam emitir, e em que momento (sempre quando a canção subia de volume, nunca nos trechos mais intimistas). Treinava algumas garotas para gemerem em uníssono, e outras para desmaiarem nos corredores do teatro ou onde quer que houvessem fotógrafos por perto. .

Como se vê, a era Neymar não é tão nova assim. É velha a arte de manipular a libido de mocinhas saturadas de hormônios eufóricos. No mundo pop, sucesso é sinônimo de fotos autografadas e mocinhas gritando. O modelo do mundo pop é a herança maldita do século 20. Aguardem o noticiário da Flip ou das demais festas literárias. A imprensa mostrará escritores autografando a blusa de jovenzinhas incapazes de ler mais de 140 caracteres, e anunciará que isto inaugura “uma nova era para a literatura brasileira”.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

2480) O Brasil Sub-20 (15.2.2011)



Assisti os cinco jogos da fase final (e alguns da classificatória) do campeonato sul-americano sub-20, em que a Seleção do técnico Ney Franco acabou campeã. Geralmente não dou muita atenção a essas categorias. Já vejo futebol em excesso, e se é para perder tempo prefiro perdê-lo com a Seleção principal. Mas essa nova Seleção tinha Neymar (um jogador polêmico), tinha pelo menos dois do Flamengo, e os jogos eram depois da meia-noite, um horário em que eu já podia desligar o computador e ligar a TV com a consciência do dever já cumprido.

O time do Brasil é bom. Ney Franco é um técnico que me faz ter fé no futuro, juntamente com Mano Menezes na Seleção principal. São bons treinadores, sem a truculência de Dunga (que tomava atitudes certas, como a de proibir TV dentro do ônibus da Seleção, mas da maneira errada); sabem montar uma equipe e sabem jogar para a frente. Os resultados estão aí. O Brasil jogou algumas partidas medíocres (a penúltima, 1x0 no Equador, foi um pesadelo de incompetência e gols perdidos), mas isso se devia à insegurança e à tensão dos jogadores, todos muito jovens e muito cobrados. Como os adversários também o eram, os defeitos se equilibravam, mas o jogo virava um horror.

Na única derrota do Brasil, contra a Argentina, tivemos um pênalti contra e um jogador expulso com dois minutos do jogo. Remamos contra a maré até empatarmos, e depois sofremos um gol de bobeira. Numa partida normal, teríamos ganho. Numa partida normal contra o Uruguai também ganharíamos, mas sem a goleada escandalosa de 6x0. Esse jogo mostrou o quanto o futebol pode se inclinar para um lado ou para o outro. O Brasil fez 2x0 no fim do 1o. tempo, e um uruguaio foi expulso. O jogo parecia ganho. Começa o 2o. tempo; pênalti contra o Brasil e um brasileiro expulso. Ficam 10 contra 10 e o Uruguai tinha a chance de fazer 2x1. O jogo iria pegar fogo. Vai o garoto e chuta o pênalti pra fora; dois minutos depois o Brasil faz 3x0. O jogo acabou aí, e o resto, a goleada, foi mera consequência.

Triste sorte do uruguaio que perdeu o pênalti: foi o mesmo que tinha feito o gol da vitória contra a Argentina, levando o país de volta às Olimípiadas depois de não-sei-quantos anos. No espaço de poucos dias, esse garoto com menos de 20 anos já provou o melhor e o pior que o futebol pode oferecer.

Só não sei como vai ser o caso de Neymar. Está marchando aceleradamente para se converter num naufrágio. Futebol ele tem, e muito; mas está naquele período crítico em que a marra é maior que o futebol. Joga-se ao chão ao menor contato, provoca os adversários e depois se queixa de estar sendo perseguido, já fala de si na terceira pessoa (“tudo é contra o Neymar!...”). Sou fã do seu talento, mas receio que desça pelo ralo, como já desceu o de muitos outros tão talentosos quanto ele. Mas depois virá outro. É impressionante a capacidade do Brasil de produzir, e de destruir, craques de futebol.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2221) Neymar (21.4.2010)



Dias atrás fiz nesta coluna uma porção de rapapés diante das chuteiras de Lionel Messi, o craque argentino que joga no Barcelona. Meu senso de equilíbrio me obriga a fazer o mesmo, agora, diante das chuteiras coloridas (e cheias de chinfra) de Neymar, o craque adolescente do Santos. Não só por equilíbrio, mas por patriotismo, porque eu, curiosamente, só concebo a Pátria como algo que calça chuteiras. Não existe melhor expressão do Brasil do que os nossos defeitos e virtudes na prática do futebol. Mais do que a literatura, o cinema ou a música, é ele quem nos descreve e nos revela de maneira mais imediata e não negociada pela Razão.

A Razão, que nunca dá o braço a torcer, me traz pela mão até este teclado, dizendo-me: “Está na hora de escrever sobre Neymar, você é o único cronista do Brasil que ainda não falou dele”. Neymar e o Santos são hoje, por uma espécie de consenso, o melhor jogador e o melhor time do Brasil. Domingo passado o Santos eliminou o poderoso São Paulo numa das semifinais do Campeonato Paulista: aplicou-lhe 3x2 no Morumbi e 3x0 na Vila Belmiro. Só uma catástrofe lhe tirará o título, a ser disputado contra o Santo André.

O Santos é um time que dá alegria ver jogar. Como o Barcelona de Messi e a Holanda da Copa de 1974, é um time de jogadores rápidos, leves, habilidosos, que raciocinam em frações de segundo e quase invariavelmente escolhem a melhor jogada a fazer sem precisar ficar pensando. O futebol de hoje é cheio de jogadores que, quando recebem um passe perto da área, iniciam uma sessão de Meditação Transcendental. Concentram-se, começam a rodar como dervixes, fecham os olhos, avaliam as mil possibilidades do que fazer. Nisto, algum jogador do Santos já lhes roubou a bola com asas de beija-flor, e Neymar já a empurrou para o fundo das redes.

Neymar vai ser convocado para a Seleção? É o que a imprensa pergunta, e eu ouso responder que não. Por mim, iria, mas Dunga é um prussiano da velha guarda. Não direi que tem raiva do talento, mas ele segue a filosofia de que talento é como ar, só tem poder de empuxo se for comprimido. Neymar é enjoado, encardido, usa um cabelo moicano horroroso, faz dancinhas bestas a cada gol que marca, é catimbeiro, arengueiro, gosta de fingir pênaltis, de provocar o adversário. Ou seja, na alfândega de Dunga ele teria todo o seu repertório confiscado.

Dunga deveria convocá-lo, levá-lo à Copa e mantê-lo sob vigilância e custódia, para aparar as arestas do garoto, fazê-lo sentir o peso de uma disputa internacional. Dar-lhe o que Ronaldo Fenômeno teve em 1994, e Kaká teve em 2002: a chance de assistir uma Copa do banco de reservas, pensando: “Daqui a quatro anos estarei em campo”. Dunga dificilmente fará isso, o que é uma pena. O melhor jogador brasileiro de hoje só deverá estrear numa Copa do Mundo em 2014. Até lá pode explodir na Europa; pode também se perder, como tantos talentos iguais já se perderam, neste país carente de heróis e perdulário de talentos.