Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

4510) A destruição de Jean-Claude Bernardet (7.10.2019)




(foto: Carlos Alberto Mattos)

No sábado passado, compareci a uma sessão do Cineclube Ruy Guerra, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio), para uma sessão especial em homenagem a Jean-Claude Bernardet.

“Homenagem” é sempre uma palavra arriscada com relação ao crítico franco-brasileiro, que tanto tem de brasileiro quanto de franco. Jean-Claude é especialista em usar a ironia como um canivete afiado para desinflar a pompa e o ego de quem se acha muito importante, desde os cineastas aos teóricos do cinema.

O cineclube projetou o filme A Destruição de Bernardet, de Pedro Marques e Cláudia Priscilla, produzido e co-roteirizado por Kiko Goifman. É aquilo que eu, para encurtar a conversa, gosto de chamar de pseudo-documentário ou de meta-documentário – uma narrativa feita com elementos mistos, desde o registro distanciado e sem interferência até as cenas cuidadosamente inventadas, escritas e ensaiadas.

No debate que se seguiu ao filme, Jean-Claude comentou que os ex-alunos propuseram fazer um filme sobre ele, e sua única exigência foi que não aparecesse ninguém fazendo elogios.

O documentário sobre “pessoas importantes” limita-se muitas vezes a uma colagem de elogios. Quando às vezes pretende fugir a esse modelo, afunda-se nele ainda mais, e vira uma colagem de ferozes interpretações revisionistas.

Aos 83 anos, Jean-Claude está praticamente cego, tem Aids e tem câncer (ele tem escrito e dado numerosas entrevistas a respeito). Se não tem o passo rápido e leve de outros tempos, porta-se com uma apreciável autonomia, e em termos de teorizar em voz alta e dar respostas de improviso é o mesmo de 45 anos atrás.

Ele lembrou uma frase famosa de seu mestre Paulo Emílio Salles Gomes, que de certo modo o transformou em crítico e cineasta, quando se conheceram na USP de tempos atrás: “Não existe o cinema, só existem os filmes”.

Esse foco no concreto, deixando para trás as generalizações, retornou em outro comentário, em que ele afirmou ser pouco afeito a palavras abstratas como o Erro, a Liberdade, o Mal, a Traição... Palavras que acabam enfeixando num mesmo saco situações concretas muito distintas umas das outras, e no esforço para acomodá-las à definição abstrata perdemos a chance de olhar o que de fato são.

Este último comentário é meu, que nos meus idos tempos de crítico de cinema desperdicei muito tempo, meu e dos outros, tentando explicar de que maneira o filme X do diretor Y correspondia (ou não) à definição do gênero Z, e com isso perdi boas chances de enxergar o filme em si e discutir o que ele de fato mostrava.

O filme de Pedro, Cláudia e Kiko tem trechos dos muitos curta-metragens em que Jean-Claude tem aparecido como ator nos últimos anos. Ele afirma de cara: “Sei que não sou ator, não me imagino interpretando um personagem. Sou um performer.”  Sua aparição na tela é mais uma presença visual do que a criação ficcional de uma individualidade. Um homem sendo torturado e gritando sem parar. Um mendigo andando devagar na rua e recolhendo coisa no lixo. Um homem andando no mato, molhado de chuva, pondo insetos na boca.

“Decidi que essas minhas aparições nos filmes seriam uma espécie de teste,” disse ele, “uma experiência-limite onde eu poderia ver até onde o meu corpo suportava ir.”

Muitos diálogos deste filme, inclusive nas “entrevistas” (diz ele) “foram escritos e decorados”. Há inclusive uma sequência inteira onde ele, de frente para a câmera, em plano bem aproximado, faz perguntas como se fosse um entrevistador, e em seguida, sem corte, as responde, como se fosse ele mesmo.

Respondendo a uma pergunta da platéia sobre a possibilidade da velhice influenciar a linguagem, Jean-Claude citou dois exemplos. O primeiro foi do ator Nelson Xavier no filme Comeback (co-dirigido por NX e Érico Rassi, 2017). “Há uma cena em que o personagem idoso calça as meias com dificuldade, e não conseguimos saber até que ponto é a dificuldade real do ator, ou se é uma dificuldade conscientemente construída”. De minha parte, eu garanto que calçar as meias e os sapatos se torna, depois dos 60 anos, uma tarefa da qual a gente sai achando que merece uma medalha.

O outro exemplo foi um balé europeu composto por dançarinos de 75 anos ou mais, cuja coreografia incorporava gestos comuns como vestir e despir uma camisa, e mais uma vez isso acontecia, no palco, numa região limítrofe entre a dificuldade física real e a representação cênica de uma dificuldade física.

Num trecho de A Destruição de Bernardet é lido um documento onde JCB estabelece que não deseja que sua vida biológica seja prolongada artificialmente se não houver qualidade de vida apreciável ou possibilidade real de recuperação; e em seguida conversa com um dos entrevistadores sobre a possibilidade do suicídio.

Comparando diversas alternativas (sempre ressalvando que podem falhar, e deixar sequelas), ele afirma que o mais seguro seria saltar de um lugar elevado (“um oitavo andar já seria suficiente”, diz), ou então um suicídio assistido, com acompanhamento de outras pessoas. E o entrevistador observa que são opções que envolvem algum tipo de performance pública: o suicídio como um pequeno espetáculo.

Aqui, um trailer do filme: https://vimeo.com/286186491

Em outra entrevista recente, desta vez para a revista Piauí (julho de 2019), ele fala por que motivo decidiu interromper o tratamento de câncer e, ao invés de suportar o desgaste das quimioterapias, aproveitar da melhor maneira possível a autonomia física que lhe resta. Aqui, link para a entrevista inteira: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-corpo-critico/

No final do debate da Escola Darcy Ribeiro, perguntaram-lhe sobre o ensino do cinema nas escolas, e ele disse que deveria ser dada uma atenção maior ao estudo dos meios de produção cinematográfica. Discute-se muito a expressão, e pouco a produção. Os estudantes embarcam na realização dos filmes cheios de expectativas para com a linguagem e o tema, mas as condições de produção acabam destruindo essas expectativas. Os filmes acabam se tornando “a degradação de uma utopia”. Seria mais útil, talvez, partir da definição clara dos meios de produção disponíveis, e criar o filme a partir dessa situação.











sexta-feira, 31 de agosto de 2018

4381) Variações em torno do pós-vida (31.8.2018)




Eu imagino às vezes que existe uma seita no norte da Mongólia para quem o inferno consiste em não se ter consciência dele.

Explicando melhor: o inferno não é um lugar diferente da Terra. É a ilusão de estar vivendo ainda, no mesmo mundo onde existia antes de morrer. Uma ilusão sádica, que Swedenborg anteviu ao seu modo, num texto recolhido na Antologia da Literatura Fantástica, de Borges, Casares & Ocampo:

Os anjos me comunicaram que quando Melanchton faleceu foi-lhe destinada no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na terra. (Ocorre o mesmo com todos os recém-chegados na eternidade, e por isso acreditam que não morreram.)
(Swedenborg, “Um teólogo na morte”)

A pessoa morre durante o sono, mas em espírito acorda na manhã seguinte e tudo lhe parece ser a continuidade daquela vida anterior.

Só que a pessoa agora está (para usar a linguagem cibernética) rodando numa simulação do tempo que viveu na Terra. Um simulacro no qual ele não percebe nenhum erro de continuidade.

Seria de fato interessante que não existisse o Inferno convencional (fogo, tridentes, demônios sádicos, etc.). O morto teria que prosseguir vivendo.

Ou, melhor ainda: voltaria ao instante do nascimento.  Teria que repetir tudo, passar por todas as mesmas circunstâncias de bebê, criança, jovem, etc.  E poderia haver dois modos de replay: modo amnésico e modo aprendizado.

Não estou delirando – tem um conto de Machado de Assis que consiste exatamente nisso: “A Segunda Vida” (em Histórias Sem Data, 1884). Um tal de José Maria afirma ter morrido e nascido de novo, com memória da vida passada; isto o levou a, da segunda vez, ter uma vida muito pior do que a primeira, porque a memória o deixava receoso de cometer erros. Com isso acabou privando-se de uma infinidade de coisas e cometendo a mesma quantidade de erros, só que de outra espécie.

Este seria o “modo aprendizado”, a chance de fazer alguém consertar, no pós-vida, as mancadas que deu.

O “modo amnésico” (o cara nasce de novo, mas não lembra de nada) coloca um problema filosófico: a gente não lembra do que aconteceu e pensa que esta vida aqui é a primeira e única. O que pode ser o presente caso.  Quantos milhares de vezes não já terei tentado escrever o presente artigo?

Podemos imaginar uma seita para quem o Paraíso não precisasse ser o Paraíso convencional (nuvens, asas, harpas). Seria um Paraíso bem parecido com a vida que a pessoa desfrutou na Terra. Como a pessoa fez por merecer algum tipo de recompensa, essa pós-vida se assemelharia à vida física, seria quase um prolongamento benigno dela.

A pessoa fica vivendo numa casa parecida com a sua, e acontecem-lhe coisas parecidas com o que na vida em carne e osso lhe provocaram boas reações; e la nave va. Esse Paraíso seria uma mistura de “volta sentimental” e “amnésia protetora”. Uma dona de casa viverá uma rotina de refeições que dão certo e faxinas leves; um Hell’s Angel terá aventuras ruidosas e inconsequentes.

O Inferno desse mundo seria, simetricamente, uma vida onde tudo acontecia da maneira errada. Doenças, dívidas, contratempos, desemprego... O sujeito não entende (ele pensa que ainda está na vida terrena) por que seu time sofre derrotas tão acachapantes para equipes menores, ou porque a mulher o trai, ou por que o patrão no escritório sabota seus projetos e retém seu contracheque.

O cidadão afrouxa a gravata, pára pra tomar um cafezinho no bar da esquina (o café é frio, com gosto de rato) e pensa: “Porra, que inferno, o que foi que eu fiz pra ter que passar por isso tudo?”. E não saberá o quanto está perto da Verdade.













segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

4039) 27 lápides funerárias (2.2.2016)




* “Torci pelo time certo. Apostei no time errado.”

* “Querida, minha senha bancária é r6vf4jy8do9.”

* “Meu último desejo é uma ordem: se o mundo recomeçar, não me acordem.”

* “Digam o que disserem os invejosos e os detratores, ele conseguiu, sim, montar o maior depósito de fogos de artifício do vale do Curimataú. Pense num empresário bem sucedido. Só que tem gente que não se conforma.”

* “Senhor, nós te louvamos graças, Senhor. Estamos à vossa espera, Senhor. És nosso arrimo de paciência, Senhor”.

* “Gordão da Perua, galera, aqui, sempre aos pés de vocês. Vivam a vida! Gordão da Perua viveu a dele. I did it my way. Beijo no coração!”

* “Eu sempre tentei falar a verdade. Eu sempre acreditei estar falando a verdade.”

* “Quando a Lua estiver na sétima casa, e Júpiter se alinhar com Marte, você verá meu rosto em cada imagem, e ouvirá minha voz em toda parte”.

* “Fiz. Fim. Fui.”

* “Quem seria capaz de calcular os escafandros necessários para trazer de volta uma interjeição de êxtase perdida entre as dobras de um lençol freático?”

* “Tudo lá, no testamento. Me deixem em paz.”

* “A morte sempre chega de surpresa.”

* “Aqui jaz, modestamente, o filho de Alexandre Climério Villaverde I, e o pai de Alexandre Climério Villaverde III.”

* “Foi ruim enquanto durou.”

* “Minha alma se dissolverá na memória alheia tal como meu corpo irá se dissolver sob estes ciprestes.”

* “Quem lhe garante que eu de fato determinei esta frase para ser gravada aqui?”

* “Conheça o passado. Aproveite o presente. Abra mão do futuro.”

* “A mente que pensou esta frase não pensa mais.”

* “Aqui, embaixo da terra, tem alguém que se encantou. Nem foi preciso uma guerra. Foi a paz que o carregou.”

* “Eu devia ter prestado mais atenção a certas coisas.”

* “Gostaria muito de poder acreditar que estou indo para um lugar onde existe filé com fritas.”

* “Ele desafiou a morte quase diariamente dos vinte aos 62 anos. Ia ter que perder um dia.”

* “Na lápide: transcrever aquela frase do Salmo 23.”

* “Se eu não tivesse atrasado o pagamento do plano de saúde você não estaria lendo isto aqui.”

*  “Ponha os jornais de hoje em cima desta pedra, e veja quem dura mais.”

* “Nem que eu fosse feito de titânio.” 

* “Espero que cada um de vocês, que se dê o trabalho nada minimizável de vir em carne e osso até aqui, possa pelo menos se preparar, e trazer, digamos, algum aparelho tocador de música, para escutar, durante o tempo que lhe convier, algumas músicas que dizem respeito a nossa convivência, aos nossos momentos bons passados juntos. Tragam música, fiquem em silêncio, equilibrem o espírito. Será nossa forma de conviver de agora em diante.”






segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

3745) Oliver Sacks (24.2.2015)



Oliver Sacks, neurologista e escritor, ficou famoso ao ser interpretado por Robin Williams no filme Tempo de Despertar, onde ele faz o médico que trata de um paciente (Robert de Niro) que está há anos em estado vegetativo.  O médico inventa uma complicada terapia para trazê-lo de volta à consciência, e consegue.  Depois, médico e paciente percebem que o tratamento funciona, mas não por muito tempo, e este se vê condenado a mergulhar de novo nas trevas. Lembra muito a situação do clássico de FC “Flowers for Algernon”, de Daniel Keyes (1959).

Sacks, de 81 anos, publicou recentemente no New York Times uma carta anunciando que está com câncer de fígado, em fase terminal, e tem apenas algumas semanas de vida. (Aqui, a carta, traduzida: http://tinyurl.com/k9xvcex). Os leitores brasileiros hão de lembrar livros como O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, Um Antropólogo em Marte e muitos outros em que ele descreve casos clínicos recolhidos de sua longa carreira médica. Sacks dedicou sua vida ao estudo do cérebro humano e da mente humana, e ler um dos seus livros abre os nossos olhos para a fragilidade de conceitos como consciência, percepção, personalidade, etc. 

Diz ele, em sua carta: “É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. (...) Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global. Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro.”

Diante de situações assim a gente percebe que o mundo se divide em O Mundo e o Meu Mundo. Há uma área imensa do mundo que ignora a nossa existência, que vai ficar para sempre invulnerável às nossas ações. Como se fosse outro planeta, e não o planeta onde vivemos. Mas há outro, o Meu Mundo, onde a nossa vida conta, nossas ações produzem resultados, nossa presença chama a atenção, nossa ausência deixará um vazio. Quando somos jovens cheios de sonhos, de atrevimento, de esperança, achamos que um dia o Meu Mundo se confundirá totalmente com o outro. Quando estamos na porta, nos preparando para ir embora, é hora de esquecer o que está fora do nosso alcance, e de reconhecer que o Meu Mundo é pequeno, mas é tudo que a gente tem.




quarta-feira, 2 de julho de 2014

3540) O passeio dos mortos (2.7.2014)



Conta-se que no ano de 1647 os habitantes de uma cidade na Itália (Venzone, na província de Udine) tiveram um dia uma surpresa macabra.  Escavações no cemitério local revelaram o corpo de um homem que resistira à decomposição, mesmo morto há muitos anos. Era (diz-se) um dos membros da família Scala, a mesma que estava patrocinando aquelas escavações e obras de reforma no cemitério. Deram-lhe o nome de O Corcunda, porque tinha a espinha fortemente curvada.  Logo alguém começou a dizer que o defunto era mágico, fazia milagres, etc.  Esse culto durou até 1797, quando a invasão das tropas de Napoleão atingiu aquelas bandas. Soldados arrancaram com faca pedaços do corpo e das partes do Corcunda, por terem ouvido dizer que eram afrodisíacas.

A explicação científica é que a rocha calcária, atravessada por centenas de correntes subterrâneas muito alcalinas, deixa o terreno propício à conservação dos tecidos, dependendo de outros fatores. Depois disso tudo, os habitantes começaram a praticar um ritual.  Num dia festivo e de homenagem, o morto é retirado do esquife, vestido com roupas e enfeites da moda do momento, e é trazido à luz do sol, até a viúva. Ela o conduz, passeia e conversa com ele, conta-lhe novidades, fala da saudade que sente; no fim, ele é levado de novo para a cripta. Em dias festivos, veem-se numerosas famílias passeando ao sol, entrecruzando-se nas alamedas ao lado dos seus mortos queridos.

As fotos no saite mostram (em preto e branco) uma espécie de pátio externo, e uma fila dupla de pessoas, o vivo mantendo de pé o morto, diante de si, às vezes tendo que usar as duas mãos para mantê-lo erguido. O sol é forte, faz com que os vivos contraiam o rosto, mas eles sorriem para a câmera, não demonstram estar horrorizados ou incomodados. Os mortos têm a cara devastada e arenosa de todas as múmias. Numa foto mais próxima, um homem de meia idade segura um corpo cujo rosto parece dizer “eu sou você amanhã”.

“Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.  É uma antiga inscrição nos cemitérios; serviu de título a um belo poema-documentário brasileiro.  Os mortos só não contavam com o imperialismo da vida, a ditadura da vida, essa força expansionista e dominadora que quer tudo manter dentro de si. É preciso trazer o morto à vida, dedicar-lhe um sábado de sol cheio de cerimônias e rezas, cachorros-quentes e bandeirolas, orações contritas, reencontro, ritual.  De nada adianta os mortos esperarem por nós, porque nós é que estamos invadindo seu reino, descobrindo e inventando a pedra-filosofal que um dia nos permitirá trazê-los de volta, intactos, saudáveis, conscientes, todos eles, ao mesmo tempo ou de um em um.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

3429) O que não vou ver (22.2.2014)


Peguei um táxi em João Pessoa e fui conversando com o motorista. O celular tocou, ele cortou a ligação, e começamos a falar sobre a utilidade dos celulares. Daí a pouco estávamos imaginando como seriam os celulares do futuro. E nesse momento Zé Antonio, ou Zeca (como ele é mais conhecido) falou: “Quer saber de uma coisa?  Todo mundo tem saudade do tempo antigo, do que já passou.  Pois eu não.  Eu tenho saudade do que eu não vou ver.”  E eu entendi na hora, porque é exatamente isso que eu sinto às vezes: a nostalgia de saber que depois da minha morte o avanço da ciência vai continuar, novas descobertas e invenções vão surgir, coisas interessantes vão pipocar por todos os lados, diariamente, e eu não vou estar aqui para arregalar os olhos feito um menino e dizer: “Eita!”

A saudade é uma sensação de perda (como dizia Pinto do Monteiro – “saudade só é saudade quando morre a esperança”), e não é só o passado irrecuperável que a gente perde, é também o futuro inatingível. E ninguém pode nos proibir de chamar “saudade” a essa angústia pela perda de um futuro que, por definição, vai nos sobreviver. É uma saudade antecipada que brota em quem gosta da vida, quem acompanha as coisas do mundo – seja os campeonatos de futebol, os filmes que ganham o Oscar, as eleições, as conquistas espaciais, os novos livros, as novas músicas... Que infinidade de coisas boas eu não vou perder, somente porque não estarei mais aqui?

Numa coluna de anos atrás (aqui: http://bit.ly/1gAye5F) sobre o Tempo, propus uma definição pessoal: “O Passado é tudo aquilo que ocorreu antes do meu nascimento. O Presente é tudo que começou a ocorrer desde então. E o Futuro é tudo que irá ocorrer após o instante da minha morte.”  Nosso Tempo de vida é um presente contínuo (pois a única realidade que de fato experimentamos é o presente, o aqui-e-agora), inundado de referências do passado e de expectativas pelo futuro.  Quando temos saudade da infância temos saudade de um “passado presente”, pois somos capazes de lembrar dele agora. E quando pensamos no que vamos fazer no ano que vem, é um “futuro presente”, que já nos alegra com suas coisas boas ou já nos influencia com seus problemas.

Futuro mesmo é o que virá depois. Luís Buñuel, em seu livro de memórias Meu Último Suspiro, dizia que gostaria de, depois da morte, poder se levantar do túmulo de 10 em 10 anos, ir à banca, comprar o jornal, e voltar para o cemitério lendo e dando risadas das novas formas da estupidez humana.  O autor de O Fantasma da Liberdade também sentia essa saudade do que nunca chegaremos a ver, dos séculos infinitos cuja porta está para sempre trancada diante da nossa cara.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

3348) Crimes da ciência (20.11.2013)





(Ming)



A Ciência é admirável e terrível. Algo como um espetáculo que nos atrai, do qual não conseguimos afastar os olhos, mas se chegarmos muito perto corremos o risco de ser destruídos. 

Ela se baseia na busca de fatos e de constantes (as chamadas “leis da natureza”) objetivas, que existem no mundo. “Objetivos” quer dizer coisas que existem fora da nossa consciência, algo que não depende de nossa consciência para existir. 

Como dizia Philip K. Dick, "realidade" são todas as coisas que não desaparecem quando a gente deixa de acreditar na existência delas.

Nessa busca do que é objetivo, do que é coletivo, geral, universal, as ciências precisam muitas vezes considerar secundário todo indivíduo, todo caso isolado, toda pessoa. 

O que buscam, em princípio (tenhamos sempre cuidado com as generalizações – cada ciência tem métodos e objetivos diferentes), é o que há em comum entre todos os indivíduos. Nessa busca de constantes universais, os indivíduos às vezes saem perdendo.

Foi o caso que a imprensa noticiou assim: “Cientistas Matam Acidentalmente o Animal Mais Velho do Mundo”

Era um molusco oceânico descoberto perto da Islândia em 2006. Os cientistas calculam a idade deles contando os anéis em sua concha, por dentro e por fora. A avaliação era de que o molusco tinha 507 anos quando foi descoberto, mas a contagem era imprecisa. Para chegar ao número certo, seria preciso abrir a concha e olhar dentro. 

Foi o que eles fizeram, certamente tomando o máximo de cuidado. Nem sempre o máximo é o bastante, e durante o processo o bicho morreu. 

O que lembra aquela piada, em que o doente diz: “Doutor, o que é que eu tenho?”, e o médico: “Fique tranquilo, saberemos na autópsia”.

Temos o direito de sacrificar um ser vivo só para saber com “certeza científica” a idade que ele tem? Os cientistas provavelmente não teriam feito o que fizeram se tivessem certeza de que isso mataria Ming (até nome o molusco recebeu!). 

Não é o mesmo caso daquele lenhador norte-americano que meteu a motosserra numa árvore (há poucos anos) para ver que idade tinha, e descobriu que era A Árvore Mais Velha do Mundo. Neste caso, os anéis internos do tronco não poderiam ser cortados sem matar a árvore; no do molusco, acho que os cientistas tinham alguma chance de poupar o espécime.

É, amigos, a vida é frágil. Como disse G. K. Chesterton em Orthodoxy

“Dê uma pancada num vidro, e ele não durará um instante; deixe-o em paz, e ele vai durar mil anos. (...) A felicidade depende de não fazermos algo que podemos fazer a qualquer instante, e que, muitas vezes, não é muito claro para nós que não devemos fazê-lo.” 

Quando sabemos, é tarde demais.










sexta-feira, 20 de julho de 2012

2929) Mostrar a morte (21.7.2012)



(Jean Simmons e Richard Burton, O Manto Sagrado)



Do ponto de vista da dramaturgia do cinema, não existe cena mais importante do que a morte do personagem principal, desde, é claro, que ela seja exigida pela história. Mostrar a morte de um personagem importante sempre foi um motivo para que o fragor da batalha amainassse e se transformasse num mero marulhar ao fundo, enquanto o moribundo tinha direito a um monólogo final, e a um comentário rude mas sincero dos companheiros, logo após a cabeça tombar-lhe para sempre.  A morte era o grande momento, não só do personagem como do ator/atriz.

Como mostrar de outra forma? Quando o casal de cristãos condenados por Calígula às feras se encaminha para os portais que os conduzirão à arena, aparecia na tela o "The End" que ninguém aceitou (eu, pelo menos, não). O filme era O Manto Sagrado de Henry Koster (1953), que vi quando teria menos de dez anos, e aquela foi uma maneira de interessante de mostrar a morte, porque não vendo meus heróis morrerem eu seria condenado de certa forma a ficar imaginando a morte deles pelo resto da vida.  E de certo modo o filme se interromper antes daquela cena nos lembrou que com a vida acontecerá o mesmo.  Vai se interromper simplesmente, sem se completar.

Não sei se é coincidência, mas o filme de Koster se intitula The Robe; em 1948 Hitchcock tinha feito Rope (“Festim Diabólico”), sobre um assassinato que era o contrário: acontecia na primeira cena do filme. O filme começa com dois rapazes enforcando um terceiro, escondendo-o num baú, e servindo em cima desse baú um jantar para um grupo de amigos: o filme tem a duração desse jantar.  Hitchcock aperfeiçoou esse recurso ao fazer em 1960 Psicose, que teve como uma das principais heresias (para a bolsa de valores estéticos da época) o fato de que a atriz principal, Janet Leigh, morria a cerca de um terço da duração total do filme. 

Outro filme que abre com uma morte é (pelo que me disseram) Irreversível, o filme francês sobre dois amigos que se vingam do estupro da namorada de um deles.  É sempre uma maneira forte de começar uma história.  Rachel de Queiroz tem um romance em cuja primeira frase uma peixeira é enterrada na barriga de um personagem.  Mas é um personagem secundário.  Sua morte não é tão tragicamente banalizada quanto a do protagonista de Onde os Fracos Não Têm Vez dos irmãos Coen, onde a câmara, depois de acompanhá-lo durante o filme inteiro, chega atrasada ao local do crime, ainda a tempo de ver a fuga dos assassinos; mas quando entra no quarto o herói do filme já está morto. Talvez seja mais cruel (para o personagem) do que a morte offstage dos cristãos no começo do Cinemascope.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

2799) Quando meu tempo (22.2.2012)




Quando meu tempo se esgotar, sentirei minhas veias se esvaziando da banda-larga biológica que as percorre; sentirei as cores do mundo sumindo, a granulação da vista aumentando, até que todas as imagens à minha frente se pulverizarão como um redemoinho de pixels negros numa página branca, e acontecerá com minha memória o quer acontece quando uma carta escrita com pequenos montes de pó de café é levada de camelo através de Saaras e simuns.

Surgirá na ponte levadiça do meu Castelo uma carroça de fibra-de-vidro puxada por quatro pares de robôs andrajosos, enferrujados, resfolegantes, e o cocheiro será um orangotango com implantes cibernéticos no lobo frontal. Ao lado deste, estará um produtor executivo vestindo terno preto, camisa chumbo e gravata preta, com um contrato na mão, uma folha de papel onde os termos finais foram redigidos com pó de café e trazidos à minha porta através da guerra da tomada do meu Castelo.

Eu estarei sozinho para me defender, mas de arma em punho, e ironicamente a última arma que escolhi para me defender é o multicontrole remoto de onde consigo acessar quatro palácios de governo, seis divisões motorizadas, noventa e duas bibliotecas digitais, o celular privado de dezoito chefes de Estado e os de suas dezoito primeiras damas, as 500 webcams dispostos em 360 graus em torno do Castelo. Penso com ironia que esta super-arma só mereceria este nome se trouxesse embutida uma minibomba atômica que pudesse pelo menos volatilizar toda a matéria em cem metros de raio, dispersando seus átomos como se fossem grãos de café.

Sem desfraldar bandeiras, sem partir grilhões, sem botar muralhas abaixo com trombetas e rajadas, meu tempo se esgotará. Sem frases altissonantes, sem webcams mundo afora, sem incensos e mantras, sem dó nem piedade, meu tempo se esgotará. Se esgotará espremendo-se a si mesmo para que haja significado em cada átomo, em cada átimo, em cada gotinha de suor e em cada gotinha de tinta que minha caneta pingar no papel ou meu dedo gravar em pixel na tela eletrônica.

Quando meu tempo se esgotar estarei ainda com meu corpo neste mundo real, onde ele poderá ser submetido às humilhações messiânicas da Medicina que prolonga agonias; mas a minha mente, envolvida no vórtice-turbilhão com que desaparecerá em si mesma, será capaz de saber e de distinguir, será capaz de entender e de imaginar. Meu tempo terá se esgotado, minha matéria estará se desagregando aos vendavais furiosos da entropia, mas a mente é mais do que a matéria que lhe deu vida. A mente sobreviverá ao corpo, orgulhosa e brilhante; por um milionésimo de segundo, mas sobreviverá ao corpo, quando meu tempo se esgotar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

2687) Canto Fúnebre sem Música (14.10.2011)




(Der müde Tod, de Fritz Lang)

Quando perdemos um amigo, ou alguém que mesmo não conhecendo pessoalmente admirávamos à distância, temos aquela angústia de querer dizer um monte de coisas e saber que não temos palavras. As palavras existem. Estão à nossa espera. Nós é que não conseguimos achá-las. (Como se sabe, todas as palavras de Vidas Secas ou do Claro Enigma estão no dicionário. O segredo é colocá-las na ordem certa). A poesia lírica, que fala dos sentimentos, é uma revelação de nós mesmos quando nos justapomos ao sentimento do poeta. Dizemos, ao ler o poema lírico: “Eu também sinto assim”; e às vezes: “Sei que de agora em diante vou sentir assim”.

Todos nós sentimos, na morte de alguém, não apenas a dor da nossa perda pessoal, mas a perda coletiva de todos, o desperdício de que uma pessoa como aquela deixe de existir. A minha perda pessoal (nunca mais vou ver Fulana, nunca mais vou conversar com Fulano) é multiplicada pelas perdas de todos; porque aquela pessoa foi única para cada um. Multiplicou-se em muitas ao logo da vida, tendo com cada um de nós uma relação única e irrepetível. Ao morrer, multiplicou a perda.

Em momentos assim, um dos primeiros textos que me vêm à mente é o poema abaixo, “Dirge Without Music”, da americana Edna St. Vincent Millay (1892-1950). (Quem quiser conferir o original, está aqui: http://bit.ly/aCLrnY). Entre tantos poemas de resignação que há por aí, o dela é de uma serena recusa. Exprime o amor à vida desta poetisa que um dia disse ser capaz de “tocar uma centena de flores, e não colher nenhuma”. Aqui vai, tentando manter mais o sentido do que a rima.

“Não me conformo em ver os corações apaixonados sendo trancafiados no chão duro. 
É assim, e vai ser assim, porque assim tem sido desde tempos imemoriais. 
Para dentro da escuridão eles deslizam, os sábios e os adoráveis. Coroados 
de lírios e de louros eles vão; mas eu não me conformo.

“Amantes e pensadores, todos, todos para dentro da terra! 
Misturem-se com o pó indiscriminado e mudo! 
Um fragmento do que vocês sentiram, do que souberam, 
uma fórmula, uma frase vai ficar – mas o melhor se perdeu.

“As respostas rápidas e espertas, o olhar honesto, o riso, o amor, 
tudo isto foi embora. Foi alimentar as rosas. Tão elegantes e sinuosas 
são as flores. Tão perfumadas quando brotam. Eu sei. Mas não concordo. 
 A luz em teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas do mundo.

“Descendo, descendo... rumo à escuridão do túmulo. 
Suavemente eles se vão, os belos, os ternos, os afetuosos. 
Discretamente eles vão, os inteligentes, os espirituosos, os valentes. 
Eu sei. Mas eu não concordo. E não vou me conformar.”




quarta-feira, 16 de março de 2011

2505) Medo de alma (16.3.2011)



Por que temos medo de alma do outro mundo? Pergunta que todo psicanalista deveria fazer aos clientes. Pouparia tempo e esforço aos dois. Uma réplica muito frequente seria: “E quem lhe disse que eu sequer acredito na existência delas?”. Diante do que, caberia ao doutor perguntar: “Por que não acredita?”. Encurralado por essa pergunta, eu, no divã, diria algo como: “Porque acredito que nós não temos alma. Somos apenas um corpo.” E ele: “Quer falar sobre o seu corpo?” E aí começaria a desenrolar o fio freudiano que conduz ao minotauro.

São várias as razões para ter medo. 1) Que a alma nos leve para o outro mundo. 2) Que ela nos demonstre (desmoralizando-nos) que o outro mundo existe, sim. 3) Que pelo fato de estar no mundo transcendental ela tenha tido acesso a uma versão resumida da Onisciência Divina e saiba uma porção de coisas que fizemos e pensamos. 4) Que ela prove, ao provar a existência da alma, que o corpo, “este excelente, completo e confortável corpo” (Drummond), não passa de ilusão; 5) Que o contato com algo que não existe prove simplesmente que você ficou doido. (Vide o argumento do cara que não viajava de avião: “Não tenho medo de que o avião caia. Tenho medo de morrer de medo.”).

Não: as “almas do outro mundo” pertencem a uma categoria, os corpos deste mundo a outra. As almas são projeções feitas por nós mesmos, e é o cacoete religioso que nos faz dar-lhes uma origem sobrenatural. Pergunte, a qualquer sujeito que já viu uma alma do outro mundo, como era a aparência dela. Ele dirá algo como: “Era meu avô, juro! Reconheci a barba branca dele, o rosto quadrado, o chapéu que usava... Estava com um casaco escuro, de bengala, parado perto da escada do porão”. Ou então: “Vi a alma da antiga dona da minha casa! Estava segurando uma vela acesa na mão, com um vestido do século 18, um xale branco...”

Quem melhor equacionou essa charada metafísica foi Rudyard Kipling no seu conto “O Riquixá Fantasma” (1888). Nele, o protagonista vive assediado amorosamente por uma mulher que não larga do seu pé, e vive no seu riquixá (uma espécie de carroça indiana) a assediá-lo. A mulher morre. Tempos depois, ele vai andando na rua e vê a morta, no mesmo riquixá, ainda a persegui-lo. E ele se pergunta: “Peraí... eu estou vendo a alma dela... mas o riquixá também tinha uma alma?!”.

É curioso que, quando vemos a “alma” de nossa bisavó ou de um escravo que morreu no engenho, essas almas estejam sempre vestidas, e nunca nuas. Se o que vemos fosse de fato a projeção visível de sua alma imortal, essa projeção deveria se deter nos limites do corpo biológico do falecido, porque a alma corresponde ao corpo. Não existem a alma do paletó, a alma do chapéu, a alma do colete, a alma do vestido, a alma dos sapatos... Não, minha gente. Se o fantasma aparecer vestido, é mera projeção alucinatória do nosso inconsciente. Agora, se a alma de Marilyn Monroe aparecer nua em pelo na minha frente... eu ajoelho e rezo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

2395) O Táxi de Caronte (7.11.2010)



Chegada a hora, peguei o elevador, desci, dei boa-noite ao porteiro que cochilava. O enorme carro negro estava em frente ao prédio, com o pisca-alerta ligado. As únicas pessoas visíveis eram uns meninos sem-teto enrodilhados sob a marquise da farmácia. Caronte desceu, entreguei-lhe a valise. Os quiosques da praia estavam fechados e silenciosos. Se não fosse pelo marulho distante dir-se-ia que o próprio mar estava imóvel; mas soprava uma brisa vigorosa, que arrastava um copo de plástico pelo asfalto, com um ruído seco, fragmentado. Caronte bateu com força a tampa da mala. Abri a porta traseira, acomodei-me, e partimos.

“Onde quer passar primeiro?”, perguntou. Eu não tinha pensado ainda, mas de improviso falei que queria ver a fazenda onde passei a infância. O carro avançou ao longo da praia. Em questão de segundos o céu clareou, azulou, e um sol atenuado mas veraz iluminou a campina, a caatinga no lugar do oceano, o casarão de cumeeira baixa. Circulamos em torno dele. Era um meio-de-tarde, e lá estavam todos, nos seus afazeres de sempre. Abaixei o vidro, escutei-lhes a voz e o cheiro do curral me envolveu. Nenhum deles viu o carro, com exceção do menino branco e pensativo, cujos olhos se ergueram do livro, e cruzaram com os meus.

Seguimos, e pedi para rever um carnaval. A trilha poeirenta da caatinga começou a elevar-se, o carro passou primeira, os pneus deslizaram nas pedras do calçamento, os casarões do Pelourinho começaram a passar de ambos os lados, e já era noite novamente. Cruzamos ladeiras estreitas, atravessamos o alarido de um bloco sem tocar em ninguém; avistei a calçada na esquina da praça, o casal abraçado. Curiosamente, não lhe dei muita atenção; foi a música (que eu não ouvia desde então) que me produziu o efeito esperado. Achei melhor afastar-me dali, e pedi Londres. Cruzamos a ponte, percorremos o Tâmisa, diminuímos o ritmo em Baker Street, depois em Abbey Road. Perdemo-nos no labirinto até chegar ao pub. Pelo vidro pude ver a turma de jovens cabeludos; bebiam erguendo os canecos. Não se ouvia nenhum som, mas pelo movimento dos corpos, pelo erguer dos braços, lembrei a canção que cantáramos a plenos pulmões, pela eternidade e mais um dia.

A escala seguinte foi Marrocos, novamente naquela tarde poeirenta, de sol escaldante, em que dois hóspedes da pousada se compadeceram de mim e me levaram para um hospital próximo, desidratado pela disenteria, quase em estado de choque. Parei diante do prédio de tijolos, enfeitado de azulejos, por entre o tráfego de camelos e bicicletas. A certa altura vi sair dali, fatigado mas impassível, o médico de longos bigodes tristes que me deu alta sorrindo, num francês claudicante: “Vous ne mourirais jamais non plus, monsieur!...” Voltamos. Desci diante do prédio, onde o copo de plástico ainda quicava no asfalto, levado pela brisa. Apertei a mão de Caronte. “É uma longa viagem”, disse ele, “mas estamos perto”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2167) 1001 livros antes de morrer (17.2.2010)




Sou eu que estou mesmo ficando velho, ou é o mundo que está se tornando mórbido por conta própria? Não entro mais numa livraria sem que o assunto da minha morte seja abordado em letras corpo 48 na capa de algum livro. Eles todos me aconselham os 500 discos que eu preciso escutar antes de morrer, as 150 praias em que preciso me banhar antes de morrer, os 1001 livros que preciso ler antes de morrer, e por aí vai. 

Fico me visualizando, de sunga, com o mar de Aruba pela cintura, um I-Pod no ouvido tocando Pet Sounds dos Beach Boys (que não ouvi até hoje) enquanto folheio circunspecto Os Buddenbrooks de Thomas Mann. 

Será que vai dar tempo? Porque creio já ter visto algo sobre os 200 pratos que preciso experimentar antes de morrer e aí recomeça tudo. Parece que a notícia da mera possibilidade de minha morte tomou de assalto o mercado editorial.

Pra vocês sentirem o drama: eu nem sequer preciso de um catálogo como esse. Os 1001 livros que preciso ler antes de bater as botas já estão aqui, vergando minhas estantes. Isto corresponde mais ou menos a um terço da minha biblioteca. Há um outro terço que já li, e outro que não preciso ler: são livros de ensaios, de referência, de não-ficção, livros que tenho para consulta e eventual pesquisa, mas que não me sinto compelido a ler. Agora, aqueles outros...

É a esperança de ler um livro que nos faz comprá-lo, mesmo quando é um calhamaço de mil páginas. Como já devo ter lido uma dúzia de livros desse tamanho, acredito que posso voltar a fazê-lo; e os tijolos vão se acumulando, esperando a hepatite. 

Uso esse termo porque volta e meia ouço história de alguém dizendo que teve uma hepatite, precisou ficar um mês de cama, sem levantar para nada, e em função disso leu os vinte volumes das Memórias de um Médico de Alexandre Dumas. Como meu fígado continua saudável, apesar dos testes a que o submeto, livro não-lidos acumulam-se por todos os cantos.

A pior coisa da idade é quando a gente começa a perceber que já passou da metade do trajeto, e o que resta a cumprir é menor do que o que já ficou para trás. 

Mesmo que eu parasse de comprar e de ganhar novos livros a partir de hoje, deveria me dar por satisfeito se encontrasse tempo para ler os que continuam virginalmente intocados nas minhas prateleiras. Não sei se são 1.001, mas mesmo colocando uma média de dois por semana iriam me requerer algumas décadas de dedicação exclusiva.

Conceito cruel, o desses manuais que pipocam por todo lado. Ficam nos ameaçando com uma morte inglória, a morte humilhante de quem nunca escutou a Amazônia de Villa-Lobos, de quem nunca escalou os Apeninos, de quem nunca assistiu Berlin Alexanderplatz, de quem nunca leu Chapadão do Bugre, de quem nunca provou um carneiro assado com castanhas e hidromel num restaurante obscuro de uma ilha grega. 

Ameaçam-nos com algo pior do que a morte, que afinal contempla a todos: ameaçam-nos com uma vida sem ter consumido as coisas certas.




sexta-feira, 26 de março de 2010

1826) Os Roteiristas do Destino (15.1.2009)




De vez em quando eu escapo de morrer. Às vezes o táxi em que volto para casa tira um fino num poste. Ou então eu consigo perceber a tempo que está faltando uma lasca na boca da garrafa de cerveja. Ou levo meus exames ao médico, ele lê de cima a baixo, boceja e diz que eu estou melhor do que ele. 

Sempre que isso acontece, penso à noite, no escuro, com a cabeça no travesseiro, que o meu destino (e o de todos) é decidido no Céu, num daqueles Céus de filme de Hollywood ou novela da Globo, com nuvens de algodão e divisórias de isopor. Anjos de terno preto e asas brancas, os Roteiristas, determinam as ações de cada ser humano, nesta superprodução com seis bilhões de figurantes.

Vou adormecendo, embalado por essa hipótese tranquilizadora. Não preciso me preocupar. Os roteiristas mudaram de idéia. Estava previsto que o táxi se amarfanhasse comigo dentro, ou que o caco de vidro me perfurasse os órgãos, ou que o doutor empalidecesse e dissesse: “Meu Deus! Você devia ter me procurado quando isso começou a lhe incomodar!” 

Mas vocês sabem como é reunião de roteiristas. Toda hora surge um problema. Quando chegamos ao capítulo 15.638, e o público já perdeu qualquer senso de orientação, um deles se levanta e aponta com o dedo um nome no mural e diz: “Esse cara aqui. Na verdade, ele não morre. Vamos precisar dele para algo muito importante, no capítulo...” 

Nesse momento acordo, banhado em suor frio. Que capítulo? E qual a coisa importante que preciso fazer? Não sei. A informação se dissipou quando acordei.

Seguem-se dias de angústia, porque começo a achar que só sou útil aos Roteiristas (e que eles só me manterão no enredo) na medida em que eu me dispuser a fazer o que eles planejam. Mas o que é?! 

Este é o mal dos roteiros cósmicos em 30-D. Numa novela comum, tudo é fácil. A gente escreve para o personagem pular no precipício e o ator pula, porque sabe que há colchões de espuma disfarçados, fora do enquadramento. Não há livre-arbítrio. 

Mas se estamos postulando um Game Multiplex como este aqui do planeta Terra, os Atores têm a liberdade de improvisar, só não podem é se afastar muito do roteiro, porque nesse caso os anjos de terno preto se impacientam (é personagem demais, e o Redator Final fica cobrando serviço), lá vai o táxi ao poste, e eles arranjam outro para fazer o que é para ser feito.

Eis o busílis – descobrir o que é para ser feito, descobrir qual a razão que os leva a me manterem aqui, quando já tiveram mil chances de se livrar de mim. 

Será que esperam que eu escreva um romance? Mãos à obra. Compor uma música que vai ser o sucesso da atriz principal no capítulo 18.356? Deixa comigo. Ser pai de uma criança que no capítulo 38.615 vai ganhar o primeiro Nobel brasileiro? Não há problema. 

E lá vou eu, marcando “x” em tudo quanto é quadrinho, apostando nas loterias de mim mesmo, para que meu personagem se justifique e se mantenha no ar por sécula-seculóro, amém.






segunda-feira, 1 de março de 2010

1730) O fantasma de Joan Burroughs (27.9.2008)



(Joan Vollmer Burroughs)

Não acredito em fantasmas. Acredito que os mortos têm uma sobrevida em nossa mente, uma existência residual que independe deles, da pessoa que foram. Continuam em nossa memória como imagens autônomas, indiferentes à dissolução da pessoa que lhes deu origem. Vem daí a tradição da literatura fantástica em mostrar imagens que se libertam do espelho e ganham vida própria, a sombra que se desprende do corpo, a figura que sai da pintura.

Como dizia Drummond, em “Convívio”, “eles não vivem senão em nós, e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil”. Esse poema sempre me lembra um poema (“Dream Record: June 8, 1955”) que Allen Ginsberg escreveu sobre Joan Burroughs, a esposa do seu amigo, o escritor William Burroughs. Joan morreu de maneira patética quando o casal morava no México. William tinha mania de revólveres, estava bêbado, e quis brincar de Guilherme Tell. Pôs um copo sobre a cabeça de Joan e tentou acertar um tiro nele. Acertou a testa da esposa, que morreu na hora. Burroughs comentou, na velhice, que isto foi um dos impulsos para que ele se tornasse escritor. Escreveu (talvez) para que um dia fosse julgado por outras ações além dessa.

Diz Ginsberg que adormeceu bêbado e sonhou com Joan Burroughs, sentada num banco do jardim, e seu rosto tinha readquirido a beleza que tinha, “uma beleza estranha devido ao sal e à tequila, antes do tiro na testa”. Os dois começavam a conversar. Joan pedia notícias dos amigos – e Ginsberg respondia, como acontece em todo reencontro de quem não se vê há muito tempo.

 “O que Burroughs anda fazendo agora? / Bill continua na Terra, agora anda pelo Norte da África. / Ah, e Kerouac ainda mantém / o mesmo gênio “beat” de antes, / com cadernos cheios de budismo. / Tomara que ele se acerte, riu ela. / E Huncke, ainda está na cadeia? Não, / a última vez que o vi estava em Times Square. / E como está Kenney? Casado, bêbado / e bronzeado, no Leste. E você? Novas paixões / no Oeste...”

Diz Ginsberg que nesse momento percebeu que era um sonho, e perguntou-lhe:

“Joan, que tipo de conhecimento têm / os mortos? Você ainda ama / os mortais que conheceu? / Lembra o quê, de nós? / E ela se desvaneceu à minha frente – e no instante seguinte / tudo que vi foi sua lápide manchada pela chuva / com um epitáfio ilegível / sob um galho retorcido / de uma árvore, entre o mato selvagem / de um cemitério esquecido no México”.

Nunca vi um fantasma, e acredito que nunca verei. Mas já me ocorreu sonhar com alguém morto e só lembrar dessa morte lá pelo meio do sonho. Meu cuidado, então, era para continuar agindo normalmente, para que a pessoa não percebesse que já tinha morrido. Ao conversar com os mortos, tocar no assunto da morte é como tocar numa bolha de sabão. Eles desaparecem, porque uma pergunta é algo muito sólido e muito brutal para o que são, e os arremessa de volta para o lugar, dentro de nós, de onde vieram.





sábado, 12 de dezembro de 2009

1420) Explode coração (2.10.2007)



Eu acompanho futebol há mais de quarenta anos, e não me lembro de uma seqüência tão impressionante. Refiro-me à quantidade de jogadores profissionais que vêm morrendo do coração nos últimos tempos. Se fossem peladeiros de fim de semana, tudo bem, porque o Brasil está cheio de cinqüentões com excesso de peso e de colesterol. Conscientes do problema, eles resolvem queimar gorduras com uma pelada no domingo. O problema é que insistem em fazê-lo depois de um churrasco regado a cerveja. Aí, não dá outra – no terceiro pique o cidadão enfarta. Como não é famoso, não sai no jornal. Mas aposto que acontece toda semana no campo de terra de algum subúrbio brasileiro.

Só que o que está saindo nos jornais são as mortes de jogadores profissionais, em plena juventude, fisicamente bem preparados, trabalhando em clubes com monitoramento científico das condições físicas de cada um. Por que morrem? Não consigo entender. De um mês para cá tivemos a morte do jogador Puerta, do Sevilla; depois um jogador inglês cujo nome e clube me escapam; e no começo de setembro o equatoriano Jairo Andrés Nazareno, do Chimborazo, da terceira divisão do Equador. Mais recentemente, houve o caso do inglês Clive Clarke que teve um piripaque durante um jogo Leicester x Nottingham Forest (este, até agora, está sobrevivendo). No Brasil, o caso de maior repercussão ainda é o daquele zagueiro do São Caetano que morreu durante um jogo disputado em São Paulo. Falo apenas dos casos que me vêm à memória, mas é claro que existem muitos outros. Tem algo de errado num futebol como este.

Sou um indivíduo sedentário – e sedento, daí a quantidade de cerveja que ingiro. Consciente de todos estes problemas, faço minhas caminhadas de vez em quando, porque exercício faz bem à saúde. Mas já dizia minha mãe que “tudo demais é veneno”. Ao que parece cada organismo humano tem seu limite em termos de exercício, de preparação física. Não pode transpor este limite – e não sei se é possível prever com segurança qual é o limite de cada pessoa. Não sendo possível prevê-lo, cada jogador é tratado como se fosse um cavalo de corrida. E aí estão, não me deixando mentir, esses jovens de vinte e poucos anos, atletíssimos, que treinam a semana inteira desde os quinze anos, cheios de saúde, e cujos corações estouram quando menos se espera. O sujeito vira minuto-de-silêncio.

No esporte, como é impossível fabricar o talento, tenta-se fabricar a capacidade atlética, mas com o risco de perder muitas cobaias. Um antigo provérbio chinês (por falar nisso –existem provérbios chineses recentes?) diz: “Cavalo ganha uma vez? Sorte. Cavalo ganha duas vezes? Coincidência. Cavalo ganha três vezes? Aposte no cavalo!” Jogador morre três vezes? Demita o preparador físico. Como as mortes são muitas e espalhadas por todo o mapa, o problema não são os preparadores, é o conceito do preparo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

1377) O Bosque de Birnam (12.8.2007)



Macbeth é um nobre escocês que certa noite hospeda o rei em seu castelo. Quando o rei está dormindo, Macbeth entra no quarto, corta-lhe a garganta e assume o trono da Escócia, de espada em punho, olhando em redor com aquela cara de “Que foi que viu? Vai encarar?!” Como dizia Dom Pedro Dinis Quaderna, uma maneira muito européia e fidalga de tornar-se rei.

Preocupado, Macbeth vai se consultar com as feiticeiras locais, e elas lhe dizem que, entre outros sinais, ele só será derrubado do trono “quanto o bosque de Birnam chegar a Dunsinane”, que é o castelo onde ele mora. É um pouco como dizer – quando a Floresta da Tijuca chegar ao Palácio do Catete. Macbeth sente firmeza e começa a praticar os maiores despautérios, até que os outros nobres mobilizam as tropas e marcham contra seu castelo. Ao passarem por Birnam, eles, sem sequer saberem da profecia, cortam os galhos das árvores e os empunham, para disfarçar o número de seus soldados. Macbeth recebe o alarma, vai até a muralha de Dunsinane, e o que vê no horizonte? O bosque de Birnam marchando na direção do seu castelo.

É vezo das profecias parecerem impossíveis e depois se concretizarem graças a um pulo-do-gato qualquer. Há um livro notável e pouco conhecido de Malba Tahan intitulado Sob o Olhar de Deus, que em sua primeira edição tinha o título “O Aviso da Morte”, mais descritivo do seu conteúdo. Célio Musafir, um escritor de sucesso, recebe uma noite a visita da Morte, que faz um pacto com ele: quando chegar a hora de levá-lo embora, lhe dará um aviso. Aliviado com esta promessa, Musafir passa a viajar, ter aventuras, fazer caçadas, escalar montanhas, etc., confiante de que a Morte cumprirá a palavra. Anos depois ela volta a lhe aparecer e diz que está na hora. Ele reclama que não recebeu aviso nenhum. E a Morte diz: “Meu amigo! E aquelas avalanches na montanha, e aquele tigre que quase o alcançou, e aquele seu barco que naufragou, etc. – isso não foi aviso suficiente de que eu estava chegando perto?!”

Compreensivelmente, ele diz que não entendeu assim. Quer um aviso claro, inconfundível; e a Morte diz: “Então tá bom. Escolha o aviso”. Ele pensa um pouco e diz: “Quero que o aviso seja esta cena: uma mulher de preto, sentada num piano, à luz de velas, tocando a Marcha Fúnebre de Chopin”. A Morte aceita: “Tá legal. Quando chegar sua hora, você verá exatamente isso”. E desaparece.

Musafir respira aliviado e pensa: “Bom, tudo que eu tenho a fazer daqui em diante é deixar de ir a concertos de piano”. E vai à janela, para fechá-la e ir dormir. Quando chega lá, vê do lado oposto da rua que na mansão em frente está havendo uma festa: pela janela ele vê a sala da mansão, e bem ali, no meio, adivinhem o quê. Ele vacila, cambaleia, leva a mão ao coração e (a frase final é uma citação de Dante) “caiu como um corpo morto cai”. Bem feito. Ele, um homem culto, leitor dos clássicos, deveria saber que o bosque de Birnam sempre chega a Dunsinane.

domingo, 25 de outubro de 2009

1320) A maldição da morte burra (6.6.2007)




Que sedução tem sobre nós a morte burra? A morte que não é suicídio, mas um acidente cruel e gratuito – ou procurado às cegas, como quem pisa no acelerador e fecha os olhos. Quando pequeno eu me admirava da história do almirante inglês que venceu batalhas, sobreviveu a naufrágios, e uma noite, ao voltar para casa, tropeçou, caiu com o rosto numa poça na calçada e morreu afogado. Ou com a história do sujeito que estava bêbado no apartamento, foi até a varanda e começou a urinar do alto do décimo andar, mas aí o jato líquido tocou num fio de alta tensão e ele morreu eletrocutado. Sem falar em mortes famosas como a do dramaturgo Ésquilo: ele estava numa praia onde as águias costumavam erguer tartarugas com as garras e soltá-las lá de cima sobre as pedras, para partir sua carapaça e poder devorar o recheio. Uma águia pouco observadora soltou uma tartaruga lá do alto sobre a cabeça calva do autor de Prometeu Acorrentado. (Mas, como ele próprio disse um dia, melhor morrer de repente do que sofrer eternamente)

Nos EUA foi criado o Prêmio Darwin (http://www.darwinawards.com/) para homenagear simbolicamente aqueles indivíduos que morrem de morte burra. Não me refiro a mortes involuntárias, como a de Ésquilo, mas àqueles acidentes que contam com a colaboração do acidentado, fazendo alguma enorme bobagem e perdendo a vida em conseqüência. Chama-se “Prêmio Darwin” porque os organizadores consideram que o cara que morre assim colabora para a conservação da espécie, deixando vivos apenas os indivíduos mais inteligentes do que ele. É o caso, por exemplo, do sujeito que depois de limpar um depósito de gasolina entrou nele e acendeu um fósforo para saber se tinha ficado algum restinho (e foi parar a cem metros de distância), ou do casal britânico que, certamente inspirado pela canção dos Beatles “Why don’t we do it in the road?” parou o carro no acostamento, à noite, e foi fazer sexo no meio da rodovia.

Vocês acham que ser engolidor de espadas num Circo é coisa arriscada? Mais arriscado ainda é fazer como fez um deles na Alemanha, que engoliu um guarda-chuva e por distração apertou o botão que o abria. Ou o advogado de Toronto que, para mostrar a visitantes o quanto o vidro de seu escritório era à prova de impacto, arremeteu contra ele com o ombro, estilhaçou a janela e caiu vinte andares. Tem também o casal americano que foi fazer “rappel” numa ponte por onde passa uma via-férrea: prenderam as cordas, e desceram, pendurados sobre o abismo, curtindo o panorama até que o trem veio e cortou as cordas – que estavam amarradas aos trilhos.

Morrer de um acidente ou de uma bala perdida pode acontecer com a mais precavida das pessoas. Mas existe gente que, numa mistura de imprudência, distração ou insensatez, parece procurar uma morte que jamais lhe aconteceria mesmo na mais improvável combinação de circunstâncias. Só aconteceu porque a vítima obrigou o Acaso a matá-la.



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

1286) O mistério do Mary Celeste (27.4.2007)



Sou um “gourmet” de mistérios, ou seja, sou capaz não apenas de saboreá-los como também de comparar receitas, detectar influências e sugerir aperfeiçoamentos. Um mistério recente foi referido pela imprensa como um “novo Mary Celeste”, um dos mistérios insolúveis do século 19. Descreverei o básico; quem quiser mais detalhes veja aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Mary_Celeste. O Mary Celeste é um navio que em 1872 foi encontrado vagando à deriva na costa de Portugal. Ninguém estava a bordo: nem o capitão (que levava consigo a esposa e a filha) nem os sete tripulantes, Tudo estava aparentemente intacto; havia comida e água, não havia sinais de luta ou de abordagem por piratas ou algo parecido. Apenas um barco salva-vidas estava faltando. Há numerosas teorias para explicar o sumiço das dez pessoas, algumas bastante práticas e plausíveis, outras envolvendo (como é inevitável) a abdução por alienígenas. Uma bem interessante (talvez a primeira que li) é o conto de Conan Doyle, “A História de J. Habakuk Jephson”.

Dias atrás, um catamarã de 12 metros de comprimento foi encontrado na costa da Austrália. Seus três tripulantes estavam desaparecidos. Tudo no interior do barco parecia normal: coletes salva-vidas e equipamento de emergência estavam no lugar, o motor estava funcionando, havia comida servida sobre a mesa, e até um laptop estava ligado. Mas, cadê o pessoal? Em geral, as explicações mais simples são as que se revelam verdadeiras. Um dos tripulantes (que tinham 59, 63 e 69 anos) pode ter caído no mar e os outros dois pularam no bote para resgatá-lo; como o mar estava agitado, nenhum se salvou. Mas situações assim mexem com o nosso inconsciente, com a nossa fascinação angustiada diante de situações em que tudo parece normal mas existe um vazio aterrador no centro, uma falta, uma ausência.

A ausência inexplicável do Humano num contexto que deveria estar totalmente povoado de humanos (um navio abandonado, um prédio evacuado, uma cidade fantasma) é uma das imagens mais poderosas da Morte. Quando morre alguém que nos é muito próximo, temos que nos acostumar não com uma ausência, mas com milhares. Temos que olhar para o sofá onde aquele indivíduo sentava e vê-lo vazio pela primeira vez, e para sempre. Em vez de sentir a ausência de uma vez só, passamos a senti-la como uma sucessão de ausências específicas, personalizadas. Não está mais dormindo no quarto. Não está mais à janela. Não está mais lendo jornal no terraço. Não está mais tomando café à mesa. Não está mais chegando do trabalho e entrando pela porta. Serão dezenas, centenas de “pessoas” ausentes de um ambiente que, afora essa “multidão de desaparecidos”, parece normal, parece estar funcionando, com tudo aceso e ligado, ainda que vagando um pouco à deriva. O mistério do Mary Celeste é o mistério de como é possível que o mundo inteiro continue existindo e funcionando depois que morre alguém.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

1281) Zola e a Fatalidade (21.4.2007)


(Émile Zola)

Será que existe mesmo esse negócio, a Fatalidade com F maiúsculo? Claro que as fatalidades minúsculas existem e acontecem todo dia, como o cara que vai botar uma carta no Correio, passa perto de uma construção, cai-lhe uma viga na cabeça e tchau. A Fatalidade é outra coisa, é algo que pertence mais ao domínio do Destino do que ao do Acaso, é algo que parecia escrito-nas-estrelas, predeterminado para acontecer. Por mais que se fuja a ela, está-se fugindo na direção de Tebas ou de Samarra, ou seja, sempre na direção desse encontro marcado com nosso futuro irreversível.

No filme Belle de Jour de Luís Buñuel há uma cena em que o casal interpretado por Jean Sorel e Catherine Deneuve vai caminhando por uma rua de Paris e vê numa calçada uma cadeira de rodas, vazia, estranhamente deixada ali. Sorel se interrompe e fica olhando para aquele objeto com um ar fascinado. A esposa o puxa pelo braço, “vamos embora, o que foi?” E ele, “nada, nada...” Ainda um pouco intrigado recomeça a andar, meio que olhando para trás. Ele próprio não sabe por que aquilo lhe chamou a atenção. Saberemos nós, no fim do filme, quando ele é alvejado pelos tiros de Pierre Clémenti e fica paralítico. Foi um vislumbre do próprio futuro; um aviso do Destino.

Num livro de Sérgio Paulo Rouanet leio um comentário sobre Émile Zola, o grande romancista do naturalismo francês da virada dos séculos 19/20. Zola era um neurótico obsessivo, que deu um certo trabalho aos psiquiatras da época. Os obsessivos são essas pessoas que lavam as mãos cem vezes por dia, ou que ao sair de casa voltam vinte vezes porque acham que deixaram alguma luz acesa ou alguma torneira aberta. Há o caso famoso de uma mulher que só saía de casa levando o ferro de passar roupa, para ter certeza de que não o deixara ligado. Diz Rouanet: “Zola precisava antes de dormir tocar várias vezes os mesmos móveis, abrir as mesmas gavetas. Contava os bicos de gás, os degraus de uma escada. De noite, abria os olhos sete vezes, para provar a si mesmo que não ia morrer” (Os Dez Amigos de Freud, vol. 2, pag. 363).

Ora – como morreu Zola? O próprio Rouanet registra (vol. 1, pag. 142) que Zola morreu em 28 de setembro de 1902, durante o sono, envenenado pelo óxido de carbono produzido pela lareira de seu apartamento. A chaminé estava entupida e o gás se acumulou no aposento. Depois suspeitou-se de um entupimento proposital; Zola arranjara muitas inimizades com sua participação no Caso Dreyfus, em que combateu com ferocidade o anti-semitismo na França. Mas à luz dessa morte, as ansiedades e obsessões anteriores parecem se justificar. Como se ele pressentisse no futuro, um perigo relacionado ao gás, à noite, à hora de ir dormir. Como se precisasse se certificar, todas as noites, movido pela angústia dos pressentimentos vagos, de que estava em segurança e que aquela coisa que temia não iria acontecer.