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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

4535) Natal 2019 (24.12.2019)




1
... e quando o fim acopla-se ao começo,
e a serpente abocanha a própria cauda,
e o escritor, na derradeira lauda,
põe “Capítulo 1” no cabeçalho,
o riverão retoma o seu atalho,
riocorrente em busca, ruminando
rumo... ao futuro? Ao Sempre? Ao Quase-quando?
Não sei. É mais um ano que se encerra,
mais uma volta da precária Terra
em torno deste Sol que nos bronzeia.

2
Quem dera o Sol fosse uma Lua cheia
de luz e enlevo, brisa e maresia...
Quem dera a vida fosse essa poesia
que nada prova, e tudo justifica!
Um poema revela, e não explica;
a canção é o que faz, mais que o que diz.
Uma canção nos salva de um país;
só nos resta este bálsamo, este unguento;
isso que chamam de “pertencimento”
(e nunca vi na enciclopédia Barsa...).


3
Em cada alô, um vírus se disfarça.
Em cada adeus, o som da guilhotina.
Não é de hoje... a quadra natalina
parece um longo Dia de Finados
e a nostalgia dos antepassados
nos faz franzir o cenho ante o futuro...
Mas este vinho é muito bom, eu juro.
E nada é tão real quanto os sentidos.
Quem quiser que lamente os tempos idos:
eu brindo a quem se foi, mas vivo o instante.

4
A vida vai de minerol infante
(dizia Rosa, em sua “Tutaméia”)
e sempre foi assim, tosca, plebéia,
negociada em trancos e barrancos;
e a gente rala, sustentando os Bancos
(o Nosferatu da economia
que não pode sair à luz do dia
pra não ganhar a roda, o pelourinho)
e se o que sobra nos custeia um vinho...
como negar que ainda estou no lucro?

5
Pois seja o Tempo esse cavalo xucro
corcoveando no curral do Agora,
tentando me atirar, longe, lá fora,
nos além-cercas da Eternidade...
Eu me agarro na sela com vontade
de mais solstícios e mais equinócios,
e digo ao Tempo assim: “Sejamos sócios!
Se me poupares, te darei bom uso!”
E o Tempo gira como gira um fuso.
E a resposta me dá: “Outro dezembro.”

6
Sei que tudo será tal como lembro.
Ou não? Qual a hipótese pior?
As lenga-lengas que direi de cor
ou o salto no susto, no imprevisto?
É no Natal que o mundo passa Cristo
no cobre, e deixa dez para o garçom. 
Foi este o mundo que me deu o tom,
é essa a bolsa a que forneço o dízimo,
e ninguém venha com lições de abismo:
estou cavando no fundo do poço.

7
Mas pra que tanta briga e alvoroço,
tumulto de emoções contraditórias,
esperanças, humilhações, vanglórias,
a nefanda “cantiga da perua”...
Olha o mundo passando. Olha essa rua
a mesma que cruzaste de outras vezes;
cada rodada de mais doze meses
te traz de volta ao velho sempre novo,
este país de pólvora e de povo
onde a cada Natal aumenta o preço...










segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

4416) Natal 2018 (23.12.2018)




(ilustração: Ralph Steadman)



... e um ano transcorreu num só segundo
como um flash, um relâmpago, um raio,
e eu aqui, tropeçante, e eu, cambaio,
cultivando as derrotas, como plantas;
não importa se feias, pois são tantas
que formando fileiras, curvas, retas,
traçam formas: mandalas incompletas
arabescos que algum valor terão...
Acabei de encontrar minha missão
no planeta dos cactos e das rosas.

Como Augusto, o das letras tenebrosas,
quero que o solo coma os meus resíduos
como sempre tem feito aos indivíduos
que recolhem do mundo os elementos
com que compor seus corpos suarentos...
A alma é um pião que na poeira
gira, gira; e o corpo é a ponteira
encravada no chão do mundo tosco
tirando chispas do terreno fosco
onde um dia seus ossos dormirão...

Que seja a Glória ter pisado o chão,
ter sido gente, bicho, fruta e flor,
ter sentido o prazer, quase uma dor,
da água fria escorrendo pelo rosto...
O prazer de escrever. De ter composto
um fio de melodia original
que deu prazer a quem, num dia tal,
num subúrbio distante, num distrito,
ouviu um som e disse; "que bonito,
isso aí que no rádio está tocando,,,"

"E eu pela estrada, entre estes monstros, ando"
dando o dedo ao destino que me aguarda,
e peço a Deus, esta eminência parda,
que me dê no relógio alguns acréscimos.
Convenhamos: os tempos estão péssimos,
mas mesmo assim insisto em desfrutá-los;
escrevo à noite enquanto espero os galos
e em dueto a difusa passarada
que gorjeia: "Aproveita, camarada,
vai fazer um café, não dorme agora!”.

Troco minhalma por mais uma aurora.
Troco o que fui pelo que não serei,
os futuros que nunca alcançarei,
a imensidão do que haverá sem mim...
Mas a vida não quer que seja assim
e me obriga a bebê-la de um só gole.
Quer saber?! Sanfoneiro,  puxe o fole,
faça o povo rodar, rode também!
Quanto mais vida vai, mais vida vem:
eis a única lei deste Universo.

Vale a pena (pergunto) mais um verso
celebrando o Natal e os jingobells?
Onde quer que eu me vire vejo os céus
piscando essas luzinhas de néon;
cada shopping um vírus do Leblon
se alastrando na taba brasileira...
Cem mães gritam, regendo a brincadeira
dos guris na piscina de bolinhas,
pula-pula, boliche e argolinhas,
nas descidas do escorregador...

E o Natal musical e multicor
volta a chiar na chapa do verão
e esta dor que voltou me dá razão
para pensar de noite, olhando a treva...
E o rio-tempo em seu passar me leva
e eu canto o tempo, e reinvento o rio,
e esta caneta desenrola um fio
de palavras que valem por meu rosto...
É dezembro, é abril ou é agosto
esse Natal que não melhora o mundo?...





segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

4299) Natal 2017 (25.12.2017)





(ilustração: Galina Kim)

...e o mundo gira a sua bolandeira
de planetas, satélites e luas
como giramos no vaivém das ruas
e no círculo astral do calendário.
Fim de ano é igual aniversário:
um ano a menos resta à nossa frente.
Quem quiser comemore este presente:
mas eu celebro o fluxo, e não o saldo,
a travessia, e não o esforço baldo
de guardar este rio em algum bolso.

As alcatéias cantam, e eu só ouço,
esperando chamarem minha senha,
escutando o machado sobre a lenha,
respirando a fumaça da fogueira,
vendo a vida passar Aleph-inteira
cada vez que me deito pra dormir,
sendo ainda capaz de ler, sorrir,
já que tudo é clicar aplicativos;
cada vez que desperto ao sol dos vivos
sou eu mesmo de novo, e sou um só.

E eu fui feliz, no meu Bodocongó!
Tocando, via o dia amanhecer...
Era uma luz que não voltei a ver
uma alegria de elevar balões
um aconchego de saber canções
sentimento de noite de luar
ascendendo na perpendicular
rumo ao zênite bom de um dia claro
sentimento tão puro, forte e raro
que deve ser produto da memória.

Sentir saudade é maquilar a História;
um direito de todo cidadão!
Ah, se não fosse a imaginação
como ficar em paz dentro de si?
Tudo quanto eu sonhei, pensei, vivi,
era o centro vital daquele Instante,
um “agora” em que todo ser pensante
tem ponto de chegada e de partida,
cartesiano zero, o “x” da vida,
onde o espaço e o tempo entram em foco.

Pois este mundo só existe “in loco”,
o átimo, o momento, o here-and-now,
o passo à frente, o quantum-leap, o vau,
o fotograma que “eppur si muove”.
Porque tudo que pulsa e nos comove
só pulsou desta vez, neste presente;
é o Tempo do corpo, e não da mente;
a mente é transversal, não-linear,
randomizada, ortogonal – lugar
capaz de superpor tempos distintos.

Então... vamos brindar brancos e tintos.
Eu morrerei, e tudo vai passar.
Meus átomos irão se dispersar
e nessa hora não serão mais meus;
só me faltava que existisse um deus!
Um síndico do cosmos, registrando
quem entrou, quem saiu, quem-onde-quando...
O tempo; o espaço; dois vetores; “x”.
E nesse encontro está tudo que eu fiz,
o ponto luminoso em que eu pisquei.

O ano se passou... e eu nem liguei.
Impressionante um ano como passa.
Como um poema escrito com fumaça,
ou ser humano escrito em carne e osso;
ou como passa este universo-esboço,
rascunho escrito em turbilhões de quarks
que me aceitou, como se a Groucho Marx
aceitasse algum clube dadaísta;
não importa; meu nome entrou na lista
e o convidado-trapalhão nasceu.

E aqui estou, por fim. Não mangue d’eu!
Mangue do mundo que me produziu,
mangue dos séculos, ou do Brasil,
que deu matéria pro meu torvelinho.
Sou só um velho contemplando um vinho
sem saber qual dos dois vai durar mais.
Deixo que o mundo me deguste em paz
como o degusto eu, que vou passando,
vendo, sendo, sorrindo, versejando
esta estrofe que emenda com a primeira...








terça-feira, 28 de junho de 2016

4128) O Natal, o Carnaval e o São João (28.6.2016)



“Existe o tempo de apertar o pavio da vela”, diz o Eclesiastes, “e o tempo de acender.” Não, o Eclesiastes não diz especificamente isto, mas a verdade é que os tempos se sucedem em função de uma lei causal, não em função de nossa conveniência. O regimento interno do mundo tem um artigo dizendo que cada coisa na vida vem, ou deveria idealmente vir, o que dá no mesmo, no momento certo para a gente desfrutar.

Em vista disto, proponho meu axioma número um: “O tempo certo para o Natal é a nossa infância”. Como diria Sinhozinho Malta, chacoalhando a joalharia: “Tô certo ou tô errado?”. Na infância, até o mais salafrário dos futuros raparigueiros é a pureza em pessoa. Ele acredita que o algodão é neve, e acreditaria que crediário é dinheiro, se alguém se dispusesse a lhe explicar. Acredita na existência de Papai Noel, e se alguém lhe mostrasse o quanto é improvável esse “plot” envolvendo Lapônia, renas, trenó, tempo hábil de deslocamento e distribuição logística de cargas, ele retrucaria com o mais invulnerável dos argumentos, um fato: a caixa com o sonhado PlayStation reluzindo ao pé do pinheirinho piscante.

A infância é o tempo do Natal, de rasgar sofregamente o papel estampado, quase arrebentar a tampa de papelão que se ergue como Derradeiro Obstáculo à Visão Beatífica... E o que sai lá de dentro? Uma divindade refulgente? Não, apesar do tributo pago ao bezerro de ouro: um sonho impossível tornado realidade. O sonho de fazer teletransportar, mediante anseios, meios-pedidos, sugestões, melancolias inexplicáveis, dedos hesitantemente correndo sobre uma página de revista e indicando um produto ao olho presciente e calculista de um adulto, enfim: teletransportar por meios psico-econômico-científicos desconhecidos (mas certamente eficazes) um objeto que estava numa vitrine lá no centro da cidade para uma caixa de papelão aqui no meu colo, e não é por outro motivo que ainda hoje vou às lágrimas quando ouço Luís Bordón – A Harpa e a Cristandade.

Corramos um véu sobre as chantagens, as alianças espúrias, as delações premiadas, os subornos imperceptíveis, as guinadas morais, as vergonhas-alheias, os inesperados triunfos, as imprevistas responsabilidades, tudo o que a infância nos obriga a executar para virar gente.  O fato é que, quando abrimos os olhos, ela se foi de repente. Negociamos tanto para sair dela, e agora a porta dela se fechou e é só para a frente que podemos saltar.

E vamos parar na famosa juventude.  Ponho de novo a coroa-de-louros de profeta e anuncio o axioma número dois: “O tempo certo para o Carnaval é a juventude”. Pense numa festa e num período pra darem certo que só caçuá em bêsta!  A juventude é uma doença infantil da vida humana. A gente pensa que de agora em diante tudo vai ser gratificação dionisíaca, com breves intervalos de poesia apolínea para acalmar os batimentos cardíacos. E o Carnaval nos serve como uma luva de carne.

Não há melhor época para entender a essência do Carnaval do que a febre hormonal dos vinte e tantos anos. Diante daquela coorte de deusas eufóricas, de odaliscas lantejouladas, de huris de vinho em punho, de hetaíras ressumantes, o sujeito olha para a câmera ou a quarta-parede imaginária, diz: “se eu gritar por socorro não me salve”, e pula. É Carnaval; todos pulam. Todos pularam. Eu também pulei.

Carnaval tem uma coisa interessante que é o desabrochar de carismas nas circunstâncias em que aparentemente todos se nivelam em torno do canto do bode. E eu já fui testemunha, protagonista e coadjuvante em mil cenas onde o carisma salvador brotou do ator menos provável, do papel menos favorável, do arranjo menos ad-hoc. Vi noitadas de farra em que o talento que mais brilhou foi o talento inconteste celebrado por todos, e vi noitadas em que um talento obscuro se ergueu e o eclipsou a ponto de fazê-lo bater palmas com os demais e louvar a divindade da Lua, a deusa que muda todo mês, mais esperta e mais safa do que o Sol, que só muda de luz quando Ela atravessa o seu caminho.

Não posso me alongar sobre o Carnaval sem reviver aquelas horas que eram como correntinhas-de-clipes, intermináveis, reiterativas, sempre parecidas e sempre diferentes, variações barrocas em torno de uma tema gozoso que nos aprisionava em chuva, suor e cerveja. Quem brincou um Carnaval já foi jovem, mesmo que tenha estreado nesse ramo com mais de setenta. Quem quiser que reclame. O fato é que quem estava acendendo cigarro com fogo e bebendo álcool éramos nós, mas curiosamente, historicamente, estatisticamente, quando alguém tocava fogo no mundo não era um de nós, em geral, era um deles.

Muito bem. Chega de acondicionar com circunlóquios o Inefável. E para a velhice, a madureza (dirá o leitor), qual a festa que mais se enquadra? E eu vos direi: o São João. São João não é necessariamente uma festa de velhos, mas é pra quem já deu voltas no circuito e sabe o formato da pista. O formato envolve plantio, colheita, consumo e plantio. O formato envolve gozo, sofrimento, morte e ressurreição. O formato envolve, neste caso, específico fogo e inverno. O Natal é uma festa voltada para o Futuro (“tudo sempre vai ser bonito assim, acredite, é para sempre”), o Carnaval para o Presente (“nada será como antes amanhã”), mas o São João é uma festa voltada não propriamente para o Passado, mas para o Passar.

A lenha, o fogo, a cinza. O fogo, a cinza, a terra. A cinza, a terra, a lenha. A terra, a lenha, o fogo. A lenha, o fogo, a cinza.

Isto é tudo que conseguimos saber, e uma pequena parte do que deveríamos.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

3692) "A Festa de Randolfo" (24.12.2014)



O texto abaixo foi o primeiro texto em prosa de John Lennon que eu li na vida, quando "O Pasquim" o publicou em 1969, traduzido, se não me falha a memória, por Rebeca Nauslauski. É do livro “In His Own Write”, que Lennon publicou em 1964, no auge da Beatlemania, e que lhe valeu comparações com James Joyce (que ele nunca tinha lido, e que provavelmente morreu sem ler). Explica-se. O inglês brincalhão de Lennon é todo salpicado de palavras inventadas ou destoantes que substituem a palavra normal que esperaríamos na frase. Os trocadilhos dele não tentam misturar os significados, mas apenas confundir os sons.  Sua prosa na maioria desses contos é uma distorção sonora das palavras habituais: “Christmas” vira Chrisbus, Chrispbut; Randolph vira Rangolf, Randoff, Randoob... É como se um texto normal estivesse sendo lido em voz alta por um liverpudliano bêbado, com voz pastosa; por causa disto, tudo que ele diz fica semi-ininteligível e sujeito a confusões.

A FESTA DE RANDOLFO 
(John Lennon, tradução BT, 1981)         

Era época de Nemtal, mas Randolfo estava só.  Onde estariam seus velhos amigos Bernie, Dave, Nicky, Alice, Beddy, Freba, Viggy, Nigel, Alfred, Clive, Stan, Frenk, Tom, Harry, George, Harold?  Onde estariam nesse dia? Ruindolfo olhou, chorumbático, para o único Cartão-de-Napalm que recebera: um de seu pai, que morava muito equidistante dali.

“Não posso nemtender isso de estar assim tão souzinho no único dia do ano em que todo joão-alguém pode expirar receber um amígado ou dois?” pensou Randófilo. Em todo catso, ele continuou penduricalhando os enfeites naftalinos, bem como o seu pede-meia.  Repentintinamente tocaram na sineta da torta da frente.  Oras, mas quem poderá estar me tilintando a estas horas?  Ele abril a porta e quem viu alívio? Senão seus amínguos Bernie, Dave, Nicky, Alice, Beddy, Freba, Viggy, Nigel, Alfred, Clive, Stan, Frenk, Tom, Harry, George, Harold - pois eram.

“Entrem tanto, velhos ambigos, meus bem-armados, meus comparseiros!”  Com um grande sou-riso em sua face, Rindolfo os anfitriou benvindamente.  E eles invadiram a cela-de-visitas, a gargralhar e sorrir dentes, com exclamaçons de “Boas Fezes, Randótimo” e deram-lhe tapas nas costas e assaltaram-lhe em cima e o derroubaram no chão e lhe repisaram na cabeça: “Nós nunca lhe gostamos, esses ânus todos em que o conhecemos.  Você nunca hipertenceu mesmo à nossa turma, tá sabendo, seu moribundamole?”

E os sacanas é claro que o assassinaram, assim, sacas?  Mas no final das contras ele não morreu sonzinho, não é?  Bobas Festas e Feroz Ano Novo, Randoido, meu amigo de fel, meu irmão caramarrada.




sábado, 17 de maio de 2014

3501) Cinemas antigos (17.5.2014)



(ilustração: Paul Sandby)

O cinema foi uma novidade tecnológica que desembarcou no Brasil nos primeiros anos do século 20 e foi se espalhando. Nas cidades maiores, acho, estabeleciam-se perto dos teatros, por precisar de salas semelhantes. Mas, pelo Brasil afora, onde houvesse feira, quermesse, parque de diversões, espetáculos populares, tômbolas, rifas, pavilhões de jogos, iam surgindo as primeiras tendas ou salinhas de projeção, atraídas pela força gravitacional dessas diversões baratas.  Era o mesmo público, o mesmo espírito, o mesmo preço.

O que às vezes não lembramos é que o cinema foi precedido por projeções das Lanternas Mágicas e dos variados “...scópios” da época, que lidavam com imagens fixas, transparentes, coloridas, projetadas em grande tamanho em parede ou tela. Em sua saborosa História da Cidade do Natal (1947, pags. 265-266), Câmara Cascudo lembra o fenômeno no Rio Grande do Norte: “Havia o Cosmorama, vistas de cidades e costumes através de um vidro de aumento. Divertimento caro. Um tostão. Os melhores, vindos em 1888, exigiam quinhentos réis de entrada na Praça da Alegria. Depois apareceu a Lanterna Mágica, paisagens, figuras, cenas substituídas com relativa rapidez pela máquina. Ia muita gente boa, bem vestida, comentando o ‘espetáculo’”.

E depois: “Em 1906 Natal viu e gostou das descobertas sensacionais. Em abril o sr. Arlindo Costa com o Bioscópio, no teatro Carlos Gomes, vistas fixas e outras com movimento. Por exemplo – o Hotel Mal Assombrado. Em novembro veio Moura Quineau com uma máquina moderna. Quase cinema. O ‘Álbum Maravilhoso’ era um assombro. Em 1911 o primeiro cinema na praça Augusto Severo, Politeama, nome escolhido por eleição popular pelas página d’A República”.

No fim deste século, lá por 2090, quando forem escritas as histórias dos videogames, serão lembradas as máquinas de fliperamas, joguinhos de “arcade” e outras que já foram (ainda são um pouco) tão comuns em rodoviárias, aeroportos, galerias, shopping-centers, etc.  Diversões populares ao preço de uma fichinha, que vão aos poucos sendo substituídas por seus primos tecnológicos mais aperfeiçoados.

Ao reconstituir sua história, nem sempre percebemos que as tecnologias vão sendo trocadas como cobra troca a pele, mas os temas eternos retornam. Um tema clássico como o “Hotel Assombrado” mencionado por Cascudo passou do bioscópio para o cinema, deste para os games. Passará dos games para os joguinhos rádio-telepáticos do fim deste século.  Ao longo dessa linhagem, uma corrente incessante de influências, empréstimos, pequenas invenções de linguagem e de expressão, onde uma forma de arte, ao morrer, serve de alimento àquela que a substitui.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

3065) Natal 2012 (25.12.2012)




(Catryn Arno)


...e estou de volta ao ponto de partida, 
ao trampolim do Tempo que me impele 
a saltar para fora desta pele 
como quem larga a roupa no banheiro. 
Meu último dezembro? Ou o primeiro 
noutro plano que não este de agora? 
É noite. Ruge o trânsito lá fora 
nessa avenida insone que não para 
e as multidões arquejam no Saara 
buscando o oásis do crédito fácil. 

E onde diabos perdi o meu palácio? 
Em que bolso esqueci o meu castelo? 
Quede o meu submarino, aquele yellow, 
que cruzava universos transversais? 
As alucinações sensoriais 
transportaram meu corpo a outro porto 
onde um dia, não sei, voltarei morto 
e encontrarei meu rosto adormecido 
num travesseiro feito do tecido 
que as aranhas bordaram para mim. 

Someone tells me that life is but a dream 
e a guilhotina do despertador 
decepa o sono no melhor do amor 
e me projeta nesta Distopia 
em que mais queima e dói a luz do dia, 
o ferro-em-brasa de qualquer verão, 
do que a treva, a ausência, o nada, o não, 
o Nirvana do zero absoluto... 
Bastam só as besteiras que eu escuto 
pra sonhar em viver como um Beethoven 

pois os surdos não sofrem do que ouvem 
como nós, a nadar no som alheio, 
um rumor que jamais diz a que veio 
mas aumenta o volume e abaixa o nível. 
Bora lá, paladinos do impossível, 
combater o mau gosto, o gosto médio! 
Quero afogar em vodka este tédio, 
sufocar o Medíocre em si mesmo, 
essa tela que berra à balda, a esmo, 
como se fossem gralhas coloridas. 

Este ano custou-me tantas vidas... 
mas eis-me aqui ao fim de tudo, intacto, 
intratável e áspero; o cacto 
de Bandeira, que morre e não se entrega. 
E em dezembro retorna a luta cega 
das comemorações obrigatórias, 
mil cervejas, mil risos, mil histórias, 
tudo festivo como um Facebook 
onde cada usuário emprega um truque 
pra divulgar o seu melhor retrato. 

Nessa luta de cão-e-gato-e-rato 
não dá pra dispensar a hipocrisia, 
que não deixa de ser diplomacia, 
revestida de boas intenções. 
Sendo assim... tragam logo esses garçons, 
o champanhe, a cerveja, os canapés... 
Que seja a vida como os cabarés 
ou a buate que eu chamava “bôite”, 
onde a festa feliz virava a noite 
e o álcool desmanchava o sofrimento. 

Este ano passou feito um momento: 
vupt! – e pronto, é Natal mais uma vez. 
É hora de lembrar o que se fez, 
empurrar o não-feito mais pra frente, 
abraçar, receber e dar presente, 
como a peça mil vezes encenada 
que toda noite vem modificada 
pela corrente oculta dos Acasos 
visto que o Tempo não tolera atrasos 
e que nossa viagem é só de ida...



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2749) Natal 2011 (25.12.2011)



("The Neverending Search", de David Ho)

...e a roda do Zodíaco e seu zoo,
como um filme de doze fotogramas,
sobre esta Terra projetou seus dramas
que nos dão a ilusão chamada vida.
Tridimensional e colorida,
sensorial, corpórea, carne-e-osso...
De onde virá, então, a voz que ouço
sussurrando que tudo é a Matrix?
Compartilho com os nerds e com os geeks
a noção de que o mundo é Simulacro;

uma área que une o micro e o macro
nesta hipernovela em que caminho
de mãos nos bolsos, tranquilão, sozinho,
pelos jardins da General Glicério
fotografando a face do mistério
de existirem jardins, papelarias,
escolas, locadoras, padarias,
este café que acolhe os literatos,
grama verde, remédio contra ratos...
Tudo tão verossímil. Tão real.

Tudo é vento e é fogo, mel e sal,
pedra de gelo e brasa sobre a pele;
tudo que nos atrai e nos repele,
o corpo vivo e seus magnetismos.
Por baixo deste chão, quantos abismos?
Mas eu caminho, e piso sem receio,
e num piscar constato que passeio
em Manaíra, e compro tapioca,
e o pão daqui, igual ao carioca,
sugere a hipótese de um mundo só.

Passa um carro-de-mão com seu forró
estrondando milhões de decibéis;
fico marcando o ritmo com os pés
enquanto espero meu sinal abrir.
Os carros passam sem me pressentir,
sem saber que vivi por mais um ano;
bem ou mal, eis-me aqui, sem nenhum dano
a não ser os de ordem financeira...
Abriu! E eu atravesso na carreira
como o último Beatle de Abbey Road.

Chego à vitrine, apalpo o cartão Gold,
que já está da finura de uma seda...
Natal, poeta, é uma cana azeda
que a gente chupa e louva-lhe a doçura.
Melhor presentear literatura,
dar poemas aos membros da família!
Sai mais barato que trocar mobília,
renovar guarda-roupa e tudo o mais...
Distribuir sextilhas ou hai-kais
e dar o caso como resolvido.

Sigo, a tirar velhas canções do olvido,
afinal é Natal, “bimbalham sinos”,
exumam-se os enfeites naftalinos,
e volta a ressoar pela cidade
Luís Bordón, “A harpa e a cristandade”,
o mesmo que tocava no Alto Branco...
Tanto tempo passou? Pois serei franco,
dentro aqui tudo aquilo ainda existe;
não me venham dizer, de dedo em riste,
que o meu passado se apagou em mim.

E ao futuro, também, só digo Sim;
talvez um simulacro, mas sincero.
E este presente do futuro eu quero:
os olhos calmos de um bebê mutante
que parecem dizer: não chore, cante
(e que me dizem mais quando adormeço);
e assim me redescubro e reconheço
ao zerar cada ano, cada “game”.
Sobrevivi, ou seja, recriei-me,
sempre o mesmo, e mudando em pleno voo...

sábado, 25 de dezembro de 2010

2436) Natal 2010 (25.12.2010)


(xilogravura: Lynd Ward)

... e o Natal, sorrateiro, se aproxima
como quem não quer nada, e já querendo;
vem feérico, álacre, metuendo,
amarrado a cetins e prestações.
E o mundo inteiro estende os seus cartões
e mergulha mais fundo no vermelho...
E daí? As vitrines são espelho
do mais fundo desejo encastoado:
o de amar para em troca ser amado
e comprar com presentes um futuro.

Foi-se o tempo em que a noite era de escuro!
Hoje é tudo um Niágara de luz,
e as turbinas de quantas Itaipus
alimentam tamanha Babilônia?...
Na minha treva, brilha só a insônia.
Na minha festa, uma canção: tumulto.
Quando é Natal eu me concedo indulto
e brindo, e canto, e rio, e até abraço.
Esqueça o que escrevi. Faça o que eu faço,
pois é tempo de encontro e ritual.

Dezembro se derrete em água e sal
nas calçadas do Rio, flamejantes,
como os dezembros que vivemos antes
até que chegue o não viver nenhum.
E eu fico aqui, enchendo o meu balloon
com a mesma linha-guia de Teseu
que no dédalo oscuro se atreveu
deixando apenas texto atrás de si;
meu carretel é tudo que escrevi,
uma ponta na mão, outra lá fora.

Olho a janela. Nem sinal de aurora.
Tão somente a bendita escuridão
(toda noite parece a projeção
de um filme que nos rapta e nos define;
a insone madrugada é o ultra-cine
em que o mundo se enxerga refletido
nesse cristal esférico e polido,
a membrana-por-dentro do Universo)
...e cada estrela dá de graça um verso
e assim será por toda eternidade.

Mas da vida eu já vi mais da metade,
e, mais perto do fim que do começo,
trocaria os vinténs do que conheço,
por um salto de volta à estaca-zero.
Vibrar uníssono com o mundo, eu quero.
Seguir sempre pensando, além centúrias.
Venha a vida, suas dores, suas fúrias,
seus desesperos, seu viscoso tédio.
Quero seguir vivendo; meu remédio
é a mesma doença que me esgota.

Do mundo eu não dispenso nem um jota,
um ceitil, um farelo, um grama, um quark.
Quero tudo, o mais punk ou o mais dark,
mas que seja um aval de Estar Aqui.
Quero sempre viver o que não vi,
avançar, bicicleta em corda-bamba,
mergulhar na ladeira que descamba
rumo a tudo (o que inclui o rumo ao nada)
quero a vida, esta veia dilatada,
latejando num só diapasão.

E quanto vai durar meu turbilhão?
Quanto tempo, o meu vórtice antientrópico?
Este esforço tão vão, mesmo ciclópico,
de vencer o duelo com o Ninguém?
Maior do que Solaris era Lem.
Mais complexo que a trama do “Ulisses”
era Joyce, sua dor, suas doidices.
Toda obra de arte é um resíduo
de um tumulto ambulante, um indivíduo,
que passou como passa um redemunho.

Estou vivo. Abro os olhos. Cerro o punho.
Faz um ano somente. O rio passa.
Pouco importa o esforço da barcaça
de tentar contrapor-se à correnteza.
Melhor soltar-se livre que ser presa
ao sonho de remar rumo à nascente.
Logo... estendo o cartão. Compro o presente.
É Natal. Custa nada, ser feliz?
Custa nada, dizer: “É o que eu quis”,
este loop com o verso lá de cima?...

domingo, 19 de dezembro de 2010

2431) Drummond: poemas natalinos (19.12.2010)



Fazer poemas sobre o Natal é algo que se espera de qualquer poeta. Um teste de admissão ao Empíreo dos Vates: será que o caro amigo consegue dizer algo de novo sobre um tema tão desgastado? O livro de estreia de Carlos Drummond, Alguma Poesia (cujos leitores comemoram 80 anos de seu lançamento) trazia logo dois. O primeiro, “O que fizeram do Natal”, começa com uma descrição melancólica: “Natal. / O sino longe toca fino. / Não tem neves, não tem gelos.” A descrição do ambiente se prolonga cheia de diminutivos: “coitadinho”, “burrinho”, “estrelinha”, “o deus nuzinho”) certamente ecoando a sensibilidade maternal das beatas e as dimensões do presépio. É somente no final que a guilhotina modernista decapita a cena: “mas as filhas das beatas / e os namorados das filhas, / mas as filhas das beatas / foram dançar black-bottom / nos clubes sem presépio”. Note-se a eficácia da repetição da frase. Quando o poeta repete “mas as filhas das beatas”, é como que considerando a menção aos namorados das filhas uma lembrança repentina e incômoda, e quisesse às pressas retomar o discurso interrompido: “Mas, como eu ia dizendo, as filhas das beatas...” E essa história de dançar black-bottom, seja isto o que for, é Modernismo puro.

O outro poema, talvez um dos mais divertidos de Drummond, é “Papai Noel às avessas”, em que Papai Noel entra de madrugada pela porta dos fundos, examina a casa com olho de profissional, belisca alguma comida na cozinha, rouba os brinquedos das crianças e vai embora com o saco cheio às costas. Como desmistificação do espírito natalino, é uma ótima piada. Como narrativa, é excelente, e poderia ser usado como guia num oficina de roteiro para curta-metragem. Drummond sempre teve um olho cinematográfico e muitos bons momentos de sua poesia são decupagens perfeitas, de cortes precisos, de uma cena visualmente bem concebida.

Há no poema os pequenos detalhes de linguagem com que Drummond dá tapas de luva na poética do século anterior. Veja-se o uso de expressões plebeias (“que nem”, “pegar fogo nas”, ao invés de “atear fogo às”) e de imagens dessacralizadoras para além da mitologia propriamente religiosa (“um presidente da república de celulóide”). Quando o poeta diz que “a eletricidade bateu nas coisas resignadas”, que um galo “comunicou o nascimento de Cristo” e que o luar “abençoava os legumes”, cada expressão destas é uma pequena deseducação imposta ao leitor, como quem diz: “desaprenda o jeito antigo de falar dessas coisas, de pensar nessas efemérides, aquilo não existe mais”.

O Modernismo foi um processo de substituir o olhar romântico pelo olho “esperto” com que Papai Noel localiza um queijo e come. Olho de rato, talvez; mas olho vivo, olho malandro, olho finório, olho irônico. Os poetas parnasianos e simbolistas eram tudo, menos espertos. A esperteza não vem do Empíreo dos Vates nem do Parnaso das Musas, vem das ruas, como veio o Modernismo, e para onde ia a poesia de Drummond.

terça-feira, 8 de junho de 2010

2124) Pais e filhos (29.12.2009)



A imprensa adora descobrir (ou inventar) uma pequena fábula natalina para ser encenada no fim do ano, no teleteatro a que chamamos de telejornal. A deste ano foi o destino do menino Sean, que morava no Rio de Janeiro com a família de falecida mãe, e cuja guarda era reivindicada por seu pai biológico, o norte-americano David Goldman. Não vou questionar os meandros jurídicos ou políticos da história, que vocês podem encontrar alhures na imprensa. Basta dizer que na véspera de Natal, uma providencial decisão jurídica do impertérrito ministro Gilmar Mendes possibilitou a Goldman receber o filho no Consulado dos EUA e embarcar imediatamente com ele num avião rumo à Flórida, onde o garoto deve estar (no momento em que escrevo, sexta-feira à noite) sendo apresentado aos encantos “da Disney”.

Um resumo do começo dessa história pode ser lido nesta reportagem da revista Piauí (em: http://bringseanhome.org/piaui_port.html). O processo é complicado porque, além dos detalhes jurídicos, parece ser um daqueles casos em que as duas partes, mutuamente ressentidas e magoadas, fazem e dizem coisas que só contribuem para piorar a situação. O que chama a atenção é o modo como esse “conto de Natal moderno” vem se encaixar certinho com a necessidade, por parte da imprensa (a daqui e a de lá), de ter em mãos na época do Natal um drama familiar pungente, de cortar o coração. Ainda mais este, uma polêmica boa danada para colocar em campos opostos americanos x brasileiros, pais x mães, pais x padrastos...

Isso me lembra outra história emblemática que rolou este ano, a do “Balloon Boy”. Uma família dos EUA mandou aos ares um balão cheio de hélio e alegou para a polícia que o filho de 6 anos tinha subido para a cestinha do balão antes que este se desprendesse do solo. Foi desencadeada uma busca ao balão, atravessando três Estados, e cobrindo cerca de 18km. Quando o balão caiu, nada de guri lá dentro. O pirralho foi encontrado em casa pelos pais, e a partir daí uma série de circunstâncias suspeitas levaram a polícia a concluir que tudo tinha sido um falso alarme. Os pais sabiam o tempo todo que o filho estava em casa; armaram aquele circo para aparecer na mídia e, ao que se diz, ganhar um programa de TV para si. A esta altura, já confessaram a culpa, pagaram multas, e, ao que parece, foram judicialmente “proibidos de lucrar com o episódio”. Sábia medida, porque nos EUA é comum um sujeito matar alguém famoso, ir para a cadeia, escrever um livro e ficar milionário. (Em certas culturas se dá mais importância à conta bancária do que à liberdade.)

O avião em que David Goldman levou o menino para os EUA era fretado pela rede de televisão NBC, que tem direitos exclusivos de explorar jornalisticamente o episódio. A própria TV Globo teve que exibir na íntegra o filme produzido pela NBC na viagem de volta. A diferença entre a história do Balloon Boy e esta é a diferença que existe entre amadores e profissionais.

2121) Natal 2009 (25.12.2009)



...eis que volta o Natal, com alegria,
como voltam as estações e festas.
As que foram não voltam. Voltam estas.
Inesperadas. Por primeira vez.
Desorganizam tudo em seu talvez,
em seu impulso de dobrar esquinas.
Nem o recurso de tombar ruínas
cancela a cachoeira dos minutos
que se dissolvem, soltos, dissolutos,
na volúpia gozosa de extinguir-se.

Romper por quê, o encanto desta circe,
se a prisão do prazer nos reconforta?
Se a masmorra tem luz, que se abra a porta;
declinará o preso dessa oferta.
A luz (somente a luz) a luz liberta,
a luz de que são feitas as partículas
da matéria. Minúsculas. Ridículas.
Mas são o barro com que fomos feitos:
as moléculas, ondas e conceitos,
hard e software por onde explode a vida.

Essa miragem auto-produzida,
penélope a tecer o véu de Maya.
Universo, finíssima cambraia
que a cada volta torna-se mais fina
e através de si mesma descortina
o seu próximo estágio em quase ser.
Diluir-se é uma forma de embeber
tudo quanto nos cerca, como a tinta
no papel a secar sente-se extinta
e não sabe que Alguém a está lendo.

Mundo velho a girar!... Mundo tremendo!...
Foi tão bom ter podido conhecer-te,
vir travando contigo a dança, o flerte
em que me fazes crer que sou querido,
que vim pra transformar-te, pressentido
por filósofos, vates e profetas
(translúcidos titãs que tu projetas
nos écrans da memória coletiva):
um homem quer razões para que viva,
já que a morte prescinde de porquês.

O dia. A noite. Dominós. Xadrez.
Alfabeto de polos em contraste.
(Cai no teu colo o que não procuraste...
basta alguém respirar que acaba achando!)
Como dados febris se entrechocando,
as palavras produzem seu resulto.
E o sentido do mundo arfando, oculto,
à espera de quem o desencante.
Que seria do Inferno sem um Dante
sublimando seu fogo em pura luz?

E essa rima de volta me conduz
ao Natal, que já foi festa pagã
e hoje é festa paga; e amanhã
com que moeda nos farão comprá-lo?
Em que templo haverá Missa do Galo
com roleta, carnê, bilheteria?
Que 5 estrelas sobre a estrebaria?
E esses ternos Armani dos pastores?
Em que mundo, senhoras e senhores,
vim parar, sem sair deste planeta?

Já sonhei pertencer ao IRA, ao ETA,
já sonhei apertar a tecla “Enter”
e ver cacos do World Trade Center
a chover sobre toda Nova York...
Já fui mais proletário do que Górki
(e sou mais leninista que Lenine)
mas em mim tudo isso é sonho, é cine,
mise-en-scène, poesia, science-fiction;
olho o mundo com olhos Robert Mitchum
(esse olhos de inextinguível lombra)...

Só me resta afirmar que canto a Sombra
com esta mesma voz que canta a Luz,
pois não sei qual à outra é que produz
e nunca vi a linha que as separa...
Gira mais, mundo velho! Ele não para,
por mais que se o requeime e descongele;
como cobra, o planeta troca a pele,
descartando a nociva Humanidade...
Mas que diabo, é Natal! Tenha a bondade,
encha o copo... Pois bem: como eu dizia...

2120) A antiárvore de Natal |(24.12.2009)



(a tal árvore)

Quando eu era pequeno houve um ano em que se montou a primeira árvore de Natal pra valer em nossa casa. Era uma arvorezinha banal, comum, mas não tanto que não me produzisse uma porção de epifanias. A primeira foi constatar que aquelas agulhas verdes de pinheiro eram todas de plástico (murmurei comigo: “É falsa!”). A segunda foi a surpresa de ver que as bolas coloridas, que eu via nas fotos e imaginava maciças e pesadas, eram levíssimas, e feitas de uma espécie de vidro muito fino, que se estilhaçava facilmente (como meus dedos constataram numa infeliz ocasião), frágil (avisou minha Tia Adiza) “como casca de ovo”. A terceira foi a incessante surpresa de ver as lampadazinhas compridas, cheias de água colorida, e que, uma vez acesas, ferviam e borbulhavam sem parar. A quarta foi escutar o comentário jovial de minha mãe: “Agora vamos ter que fazer todo ano, porque dizem que quando a gente faz árvore de Natal em casa e fica um Natal sem fazer, tem morte na família”. Como esquecer um Natal assim?

Razões para perplexidade e incessante deslumbramento têm, também, os frequentadores da Tate Gallery, em Londres, uma das galerias de arte mais famosas (e mais caras) do mundo. Como faz todos os anos, a Tate montou uma árvore de Natal para saudar os clientes, e encomendou o projeto a uma artista. O projeto de 2009 coube a Tacita Dean, e o resultado vem produzido um relativo sucesso-de-escândalo no meio artístico londrino – pelo simples fato de ser uma árvore de Natal com bolas coloridas, velinhas, etc.

A razão do espanto é que a Tate sempre caprichou em árvores que, de acordo com o espírito de vanguarda que caracteriza a instituição, pareciam-se com instalações, intervenções, desconstruções, releituras, tudo menos uma árvore de Natal. Eram coisas que poucos cidadãos se atreveriam a colocar na sala da própria casa. A árvore criada em 2006 por Sarah Lucas, por exemplo, era decorada com “querubins doentios, quase pornográficos, com genitália balouçante”. A árvore de 2007, de Fiona Banner, ostentava o título de “Paz na Terra”, e vinha decorada com aeromodelos de aviões de guerra.

Um artigo de Martin Gayford no saite Bloomberg diz: “Existe um descompasso quase absoluto entre a vanguarda cultural e o espírito natalino. Este último é tradicional, festivo, alegre, voltado para a família; a outra não é nada disso”. A vanguarda seria, então, moderna, austera, triste, afastada dos valores familiares. Pode-se dizer também que o espírito do Natal tende a colocar acima de tudo os valores afetivos e o compartilhamento de emoções agradáveis. A vanguarda, nesse sentido, é brechtiana: quer raspar o excesso de emoções, deixando a nu apenas o osso luzidio e impessoal do raciocínio. A vanguarda quer ser puro pensamento crítico, talvez como uma reação natural à cultura-de-massas, cuja estratégia é a de bajular os afetos, evocar emoções familiares no seu público – e produzir emoções artificiais onde encontra um vácuo.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2109) O nascimento de Cristo (11.12.2009)



Qual a data do nascimento de Jesus Cristo? Mesmo os cristãos mais fervorosos devem reconhecer que a comemoração em 25 de dezembro é meramente simbólica, uma vez que ninguém sabe ao certo em que data o Cristo histórico teria nascido. Um artigo recente na “Biblical Archaeology Review” (http://www.bib-arch.org/e-features/christmas.asp) faz um exaustivo levantamento das referências históricas a essa data, e por fim se concentra em duas hipóteses. A primeira delas, segundo o autor, Andrew McGowan, é a mais disseminada. Diz que a data de 25 de dezembro foi escolhida porque se tratava da data em que há séculos se realizavam festivais pagãos de inverno (no Hemisfério Norte). Trata-se do Solstício de Inverno, e já em 274 d.C. o imperador romano Aureliano criou nessa data a comemoração do nascimento do Sol Invictus. Pelo que entendo, é a partir dessa data (a noite mais longa do ano) que as noites vão ficando gradualmente menos longas até se chegar ao Solstício do Verão em 25 junho, quando temos (no Hemisfério Norte, claro – aqui é o contrário) a noite mais curta e o dia mais longo, e aí tudo volta a caminhar no sentido inverso.

O problema é que os comentaristas cristãos dessa época não se referem ao fato, e a primeira menção conhecida vem apenas no século 12, através de um cronista chamado Dyonisius bar-Salibi. A teoria mais interessante (diz McGowan) é a que foi ressuscitada para o mundo moderno primeiro pelo francês Louis Duchesne e depois pelo norte-americano Thomas Talley. Remonta a cerca do ano 200 da Era Cristã, quando se afirmou que o dia da morte de Cristo (“14 de Nisan”, segundo o Evangelho de S. João) correspondia a 25 de março do calendário romano.

Isto faz com que haja um intervalo de exatamente nove meses entre a data em que Cristo teria sido morrido e a data do seu nascimento; portanto, a sua data de morte seria a mesma data de concepção, o que cria um ciclo simbólico de morte e ressurreição. Vários autores antigos comentaram essa crença, entre eles Santo Agostinho, em “Sobre a Trindade”: “Pois acredita-se que Ele foi concebido a 25 de março, o mesmo dia da sua Paixão; e assim o ventre da Virgem, onde foi concebido, e de onde nenhum mortal brotou, corresponde a esse novo túmulo em que foi sepultado, e onde nenhum homem repousou, nem antes ou depois dele. Mas ele nasceu, conforme a tradição, em 25 de dezembro”. McGowan aponta a presença desse simbolismo nas muitas obras de arte representando a Anunciação, em que a imagem do infante Cristo é representada descendo do céu com uma cruz.

Verdadeira ou não, a tese mostra o quanto de literário existe na composição dos mitos, e uso a palavra “mito” aqui no sentido de narrativa elaborada coletivamente e à qual se atribui uma verdade transcendental que vai além da verossimilhança e da possibilidade de comprovação. O mito cristão faz à Morte seguir-se o Renascimento, e esse é um dos seus símbolos mais poderosos.

domingo, 21 de março de 2010

1808) Natal 2008 (25.12.2008)



(A Máquina de Escrever as Horas, em http://bit.ly/9zDdxe)


...lá vem outro Natal, lá vem chegando,
trazendo em si verão, e sol caliente.
E nas ruas a azáfama da gente
superlota as calçadas da cidade.
Mais um ciclo venceu a humanidade,
outra volta no céu deu o planeta;
quem me dera uma Pedra de Roseta
pra poder decifrar esse mistério!
Mas a Voz do Destino, em som estéreo,
me desanda a falar em outro ritmo.

“Jamais entenderás o logaritmo
que leva o mundo a produzir seus fatos,
por complexos que são, por inexatos,
por sutis disfarçados de absurdos.
Se o Cosmos fosse um som, seríeis surdos;
se fosse só de Luz, cegos sem guia.”
Assim a Voz, pausada, proferia
os seus vagos, randômicos conselhos,
e eu cá, coçando em ócio os meus... cabelos,
matutava nos prós de dar-lhe ouvidos.

Pois, vede: se são cinco os meus sentidos,
e cinqüenta milhões meus sentimentos,
turbilhões de conceitos, pensamentos,
e as intrincadas variantes suas;
se meu corpo é um só e as mãos só duas,
que posso ambicionar de transcendência?
Tenho só o alfabeto da Ciência,
e as sílabas que armei até agora
esclarecem bem pouco do Lá Fora
deixando intacta a treva do Aqui Dentro...

Pois nenhum homem vislumbrou seu centro,
nenhum soube quem é, nem onde está.
Que voz, pergunto, me iluminará,
que resposta terei deste Universo,
a não ser a que eu mesmo esboço em verso?
Logo eu, imprudente escafandrista
que mais desce onde menos chega a vista,
e plunge vertical dentro de abismos
guiando-se com a lâmpada dos Ismos,
luz que transforma em si tudo que toca.

Minha voz não dá trégua, exige, invoca,
dialogando em vão com a Voz Alheia,
que mais que a minha é sonorosa e cheia
e em ser só voz só fala e não me escuta.
Como posso prevalecer na luta
com os circundantes ecos de mim mesmo?
Prossigo, a custo, à força, à balda, a esmo,
pelo bruto prazer do Ser-em-Si
que na cruz do Agora com o Aqui
arde, e produz um som que diz “Eu Sou”.

Quatro horas! A tarde já passou.
E o que fiz deste dia? Algumas linhas.
Poucas, vácuas, efêmeras... mas minhas.
São o que vim dizer, e estou dizendo.
E a esfera armilar, resplandecendo,
baila solta no espaço sideral.
Estrelas com prefixo sempre em “al”
e uma luz mais antiga do que a Terra
já brilhavam em vão quando na Serra
abri meus olhos, recolhi seus fótons.

E os cientistas aceleram prótons.
E o Mercado a comer trilhões de zeros.
E nos quintais do mundo os mesmos Neros,
queimando as Romas e tangendo as liras.
E o celofane a embrulhar mentiras,
e o Photoshop a igualar os rostos,
e o gosto-médio a nivelar os gostos,
neste imenso Brasil desperdiçado:
um refém do Partido e do Soldado,
vampiro às custas do seu próprio sangue.

São fogos de artifício ou bang-bang
este som que me vem daqui do morro?
E esses gritos, de gol ou de socorro?
Que sei eu deste Rio e seu futuro?
(E esta dor, que não passa, e que não curo?
E este amor, que me salva e não entendo?)
E o fim do ano volta, e vem trazendo
tudo quanto esquecemos que já trouxe.
Cumpriu-se a espiral, e adelgaçou-se
o tecido do Tempo. Mas é quando...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

1492) “Enquanto houver Natal” (25.12.2007)


No mercado editorial norte-americano existe uma tradição, pouco frequente entre nós, de publicação de textos relativos ao Natal e a outras efemérides religiosas ou civis. São as chamadas “holiday anthologies”, e o lado mais divertido delas é ver de que maneira os escritores conseguem reunir o tema proposto e as convenções do gênero. Enquanto Houver Natal – oito estórias de ficção científica é uma antologia cujo título é auto-explicativo, e foi publicada em 1989 por Gumercindo Dórea em sua tradicional Editora GRD, de São Paulo. A GRD foi a principal editora de FC no Brasil na década de 1960. Ao mesmo tempo em que lançava para o grande público as obras de estréia de jovens desconhecidos como Rubem Fonseca e Nélida Piñon, a GRD publicava os melhores títulos da FC internacional, além de antologias e de coletâneas de autores brasileiros como Dinah Silveira de Queiroz e Fausto Cunha.

Meu conto preferido na antologia natalina é o de José dos Santos Fernandes, “Atendimento Domiciliar”, em que um grupo de viajantes no Tempo tem problemas técnicos e fica preso por algumas horas no passado remoto. O conto evita com habilidade qualquer indicação clara de que lugar é aquele, quem são aquelas pessoas. Os viajantes no Tempo são identificados por seus nomes (Prof. Franz, Dr. Armand, etc.), mas não temos idéia da região do planeta onde desceram. Um dos personagens, ao conferir seus cálculos, diz que estão a mais de 5 mil anos de sua própria época – o que nada revela. Mas quando a nave em que viajam (é uma nave espacial que viaja no Tempo) precisa pousar, o piloto diz: “Se eu usar os desaceleradores, nós vamos brilhar mais do que a lua cheia”. E em seguida “a nave riscou o céu noturno como uma estrela cadente de brilho jamais visto, indo descer no sopé de umas colinas, fora dos limites da cidade”.

Enquanto a nave é consertada, o médico e o historiador exploram o terreno em volta e acabam descobrindo uma gruta “sombria e abafada”, com “palha e capim espalhados por toda parte”, e onde, num cercado ao fundo, estão dois jumentos e um cavalo. Ao se aproximarem dali eles vêem um homem de meia idade sair correndo, rumo à cidadezinha; quando entram, percebem uma mulher muito jovem está em trabalho de parto, com risco de morrer. O cirurgião faz uma cesariana a laser e depois fecha a cicatriz, deixando-a imperceptível. E diz: “Ninguém jamais poderá dizer, nesta época, que ela foi operada e teve um filho”. Deixam o bebê com a mãe e, quando a nave fica pronta, embarcam de volta, e ainda têm tempo de ver um grupo de pastores e camponeses aproximando-se da gruta.

É um desses contos “à clef” da ficção científica, em que uma situação familiar ao leitor é descrita pelo ponto de vista de observadores externos, e a charada vai se resolvendo aos poucos. É também um tipo de conto em que o autor procura dar uma explicação científica, ainda que com elementos imaginários, aos milagres e aos mitos de nossa cultura.