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quinta-feira, 19 de março de 2015

3765) Bob Dylan para um só (19.3.2015)



Imagine um superstar do rock como Bob Dylan, subindo com sua banda num palco e fazendo um show para uma platéia de – dez mil, vinte mil, cinquenta mil pessoas?  Não: de uma pessoa só. Não é delírio: estou assistindo um clip do show agora (aqui: http://en.experimentensam.com/bob-dylan) e matutando sobre o lado pitoresco do capitalismo. (Digam o que quiserem do capitalismo, mas ele é tão divertido, pelo menos pra quem tem capital, quanto um baile de carnaval no Clube Monte Líbano nos anos 1950.)

 

O show faz parte do projeto Experiment Ensam (“Experimente Só”), financiado por um grupo sueco de apostas (que deve ter dinheiro sobrando, dá pra perceber). A filosofia por trás do projeto (está tudo lá no saite) é que muitas das nossas experiências são comunais, só podem ser fruídas plenamente quando estamos acompanhados, ou quando pelo menos olhamos em redor e sabemos que outras pessoas estão sentindo aquilo que a gente sente. Então, o projeto produz situações coletivas e escolhe ou sorteia alguém para ser o único usuário durante uma noite.

 

Fredrik (um sueco fã de Dylan) diz que uma das coisas mais divertidas nos shows dele é tentar identificar as canções, e tem razão. Dylan é famoso por modificar o tom, o andamento, o ritmo, os arranjos. Já vi 4 shows dele, todos no Rio, e muitas vezes a gente só identifica a música quando ele chega ao primeiro refrão. (Tentar reconhecer pelos versos é igualmente difícil: a dicção dele é pior do que letra de médico.) “O que é isso? Será ‘Changing of the Guards’ em ritmo de reggae?”.  E esse prazer (diz Fredrik) só é possível quando se está com amigos, inclusive após o show: “Você viu o solo de gaita na música tal?...”

 

Num teatro com uma única poltrona ocupada, Dylan cantou músicas de Buddy Holly, Fats Domino, etc. – uma escolha correta. Se eu fosse fazer um show assim, ao invés de cantar os “grandes sucessos obrigatórios” ficaria mais à vontade cantando as músicas que mais gosto, e que ninguém nunca me pede. Fredrik aplaude no silêncio após a música, e a certa altura grita uma frase de incentivo que arranca risadas de Dylan e dos músicos. Diz ele, depois: “Na hora, foi uma das experiências mais intensas da minha vida; depois, no entanto, eu fico meio triste por não ter podido compartilhar com ninguém”.

 
Outros experimentos levam uma pessoa sozinha para um restaurante e depois uma boate, para um parque de diversões, para um show de comédia stand-up. É uma dessas sacadas publicitárias baseadas em idéias curiosas e muito dinheiro. (Aliás, não consegui saber quanto pagaram a Dylan pelo show, nem se ele teve a hora-e-meia de duração habitual.)


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

0762) Esconderijo urbano (27.8.2005)




(City Hideout)

Já comentei aqui nesta coluna (“A bênção da solidão”, 23.9.2004) um filme de guerra em que um prisioneiro, não agüentando mais a cela superlotada em que vivia, prendia num canto da parede um pedaço de pano e se escondia atrás dele, para ter a sensação de estar sozinho. Era uma demonstração dessa necessidade patética que todos nós temos (ou se não todos, “somente os normais”, como diria Nelson Rodrigues) de em algum momento nos isolarmos da multidão, da presença incômoda dos olhares alheios.

Pois bem: como diria o pessoal das Organizações Tabajara, “seus problemas acabaram!”. O saite “Cool Hunting” anuncia uma singela invenção intitulada “Esconderijo Urbano” (City Hideout), projetada pelo estúdio belga OOOMS. Trata-se de uma caixa de metal desmontável, como essas caixas de papelão que usamos para embalar material. O sujeito pode levá-la na mala do carro, ou, se não for a uma distância muito grande, pode levar embaixo do braço, pois não é muito pesada. Se em qualquer momento ele for acometido pelo “pânico da multidão” é só colocá-la no chão, junto da parede, armar com ela um cubículo de um metro e meio de altura, entrar ali dentro e puxar a tampa sobre si. Vista do lado de fora, parece apenas mais uma dessas caixas metálicas usadas para proteger instalações elétricas ou telefônicas.

É pena que esta coluna não seja ilustrada, etc e tal, mas dê uma olhada no endereço: http://www.coolhunting.com/archives/2005/06/how_to_disappea_1.php#more. O saite comenta que a caixa, por outro lado, possui algumas fendas horizontais pelas quais o ocupante poderá olhar para fora sem ser percebido, o que para alguns pode ser uma forma de compensação. Ver sem ser visto! Tem gente que daria um olho para poder desfrutar deste prazer.

Os modernos escritórios das corporações substituíram as salas individuais pelos tabiques separatórios. São salas sem teto, por onde vazam conversas, ruídos, toques de telefone. Reduz a solidão, mas acaba com a privacidade. Entrar num desses escritórios é deparar-se com um enorme vão, com teto muito alto, e um labirinto de paredes pré-moldadas, coberto por um enorme “balloon” comunitário onde se misturam os diálogos, telefonemas e reuniões de todo mundo que trabalha ali. Indivíduos mais introspectivos não suportam esse tipo de zum-zum-zum, de colméia em polvorosa. Vão ao banheiro de meia em meia hora, só para poder se fechar atrás de uma porta.

Minha teoria é de que assim como na questão dos grupos sanguíneos existem “doadores universais” e “recebedores universais”, existem pessoas que necessitam constantemente do estímulo psíquico da presença e da atenção de outras pessoas, porque recebem energia com isto; e existem pessoas para que essa presença é debilitante, porque “doam” energia, e precisam se isolar de vez em quando para recuperar a normalidade. Mergulhá-las num ambiente coletivo 24 horas por dia é como matá-las de hemorragia.





segunda-feira, 28 de julho de 2008

0472) A bênção da solidão (23.9.2004)




(ilustração de Banksy: http://www.banksy.co.uk/)

Li há alguns dias a entrevista de um escritor afegão, Atiq Rahimi, que mora em Paris. Perguntaram-lhe se ele gostaria de voltar a viver em seu país e ele respondeu: 

“Não, porque lá não existem cafés abertos durante a madrugada, onde você possa sentar sozinho, ficar tomando café e escrevendo. Em países assim, não se tem direito à solidão, porque a vida em família e a vida social nos obrigam a estar o tempo todo em contato com outras pessoas.”

Senti um imenso alívio lendo isto, porque às vezes penso que sou o único ser humano que consegue ficar sozinho sem cair em depressão. Aqui na Zona Sul do Rio, para dar só um exemplo, a maioria das pessoas só existe em grupos, só existe em público, só existe sob a massacrante luz dos holofotes da atenção alheia. 

Conheço pessoas incapazes de irem sozinhas a um restaurante, a um cinema. Só andam com uma “entourage”. Deixadas a sós, não saberiam o que fazer, porque não há ninguém olhando. A solidão, para elas, é uma maldição pior do que a morte, porque a morte tem o atenuante da inconsciência. Um morto não sabe que morreu, mas um camarada desses, sozinho, fica com medo de estar morto.

Vi muitos anos atrás um filme de guerra tcheco ou iugoslavo em que centenas de prisioneiros eram amontoados num imenso galpão, um vasto espaço único onde aqueles homens todos dormiam amontoados em camas ou colchões colocados um ao lado do outro. Era um vozerio constante, uma agitação interminável; imaginem um espaço do tamanho de um hangar, tão superlotado quanto um porão do Carandiru. 

Pois um dos prisioneiros não agüentou aquilo, foi até o ângulo formado por duas paredes, esticou um cordão entre dois pregos, e pendurou ali um pedaço de pano. Por trás desse arremedo de cortina ele se sentava todos os dias. Para que? Para delimitar um espaço onde ele pudesse ter a ilusão de estar só.

Eu não sou um desses misantropos a quem a companhia humana incomoda. Pelo contraríssimo! Meu ambiente preferido é mesa-de-bar. Mas existem momentos em que a gente precisa estar sozinho, sem gente por perto, sem TV, sem música tocando, sem nem sequer a voz miudinha de um livro a nos dizer alguma coisa. 

Sentar num terraço e olhar para um pedaço de muro. Ou caminhar de madrugada, com as mãos nos bolsos, pela cidade-fantasma adormecida. O que resta de nós, quando ninguém nos vê? Resta aquilo que somos depois de todas as fatorações, depois que eliminamos tudo que é reflexo da presença alheia em nós.

É por isso que o mundo da TV ou do show-business está cheio de gente que tem crise existencial e entra para a Seita do Lótus Iridescente, ou coisa parecida, só para ter uma desculpa (diante de si mesmos) para se trancarem num quarto meia hora por dia, sem falar com ninguém, sem ver TV, sem escutar o walkman. “Estou descobrindo meu verdadeiro Eu!”, bradam elas, felizes. Eu desejo bom Nirvana a todos, aqui da minha janela, olhando a hera avançar pelo muro.