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sábado, 28 de julho de 2018

4371) Os bilionários e o Fim do Mundo (28.7.2018)




Se você soubesse, com certeza bastante concreta, que o mundo ia se acabar (conflito nuclear, ou catástrofe ambiental, ou meteoro, etc.), o que você faria – se tivesse um bilhão de dólares pra investir?

Vocês eu não sei. Mas eu procuraria um lugar relativamente afastado e seguro (montanha, espaço subterrâneo, etc.) e usaria meu bilhão para construir ali um abrigo onde eu, minha família e alguns amigos pudéssemos ficar em segurança. Durante algumas décadas. Preparando-nos para sair dali um dia... e repovoar a Terra.

É um sonho antigo da humanidade (Arca de Noé, etc.). A versão atual é um sonho recente. Começou durante a Guerra Fria, com a possibilidade do extermínio nuclear.

Me vem à mente a sequência final do Dr. Fantástico de Stanley Kubrick – os generais norte-americanos (com George C. Scott à frente) ficam entusiasmados com a sugestão do dr. Fantástico (Peter Sellers):

DR. FANTÁSTICO
Sr. Presidente, eu não descartaria a possibilidade de preservarmos um núcleo da espécie humana no fundo das nossas mais profundas galerias de mineração. (...) Reatores nucleares poderiam fornecer energia por um tempo indefinido. Vegetais poderiam produzidos em estufas. Animais poderiam ser criados e abatidos. Poderíamos fornecer instalações adequadas para algumas centenas de milhares de pessoas.

PRESIDENTE MUFFLEY
Eu detestaria ter que decidir quem ficaria por cima e quem entraria no buraco.

DR. FANTÁSTICO
Poderemos programar um computador com parâmetros de juventude, saúde, fertilidade sexual, inteligência, e uma variedade de qualificações técnicas. Seria absolutamente vital, é claro, que nossas lideranças políticas e militares fossem incluídas, para poderem preservar e transmitir os nossos princípios de tradição e de liderança.

Parece improvável? Pode até ser, mas eu vi esse filme com 17 anos e desde então essa hipótese nunca foi afastada da minha mente. Dou até hoje como favas-contadas o fato de que é exatamente isso uma das coisas que o Pentágono e seus satélites vêm fazendo desde então. Continua plausível. Porque é mais ou menos o que eu faria, se estivesse no lugar deles.

De lá pra cá, meio século se passou. Serei otimista a ponto de imaginar que essas “lideranças políticas e militares” estão dando-de-barato que o mundo não vai ter problemas? Acho que não.



Nem vou falar em guerra nuclear. É uma possibilidade um tanto mais remota, agora que a Rússia conseguiu instalar o seu “Mandchurian Candidate”, Donald Trump, na Casa Branca.

Mas a situação se agrava em outras frentes. Li há pouco no websaite do Terra esta matéria sobre recursos naturais do planeta:

No próximo dia 1º de agosto, a população mundial terá consumido todos os recursos naturais - frutas, verduras, carnes, peixes, água, madeira e etc. - disponíveis para 2018 e começará a retirar do planeta mais do que ele pode oferecer.

Essa data é chamada de "Earth Overshoot Day", ou, em português, Dia da Sobrecarga da Terra, e é calculada anualmente pela organização internacional Global Footprint Network - em 2017, a população esgotou os recursos do planeta para aquele ano em 2 de agosto.

Segundo a entidade, para satisfazer as necessidades de recursos naturais da população global seria preciso ter uma Terra e mais 70% de outra. O ser humano passou a consumir acima da capacidade de regeneração da natureza na década de 1970, e, desde então, o Dia da Sobrecarga acontece cada vez mais cedo.

No entanto, a exploração não se dá de forma equilibrada por todo o planeta: se todos vivessem como os habitantes dos Estados Unidos, por exemplo, seriam necessárias cinco Terras; se tivessem o mesmo padrão de consumo dos indianos, por outro lado, 0,7 Terra já seria o bastante.

Link:

E enquanto isto, os Muito Ricos estão preparando suas futuras Zonas de Conforto.

O websaite da CNN publicou ano passado a matéria de Elizabeth Stamp intitulada Os bunkers dos bilionários: como os 1% estão se preparando para o Apocalipse.

Aqui a matéria completa (com galeria de fotos):

O texto explica que os bunkers de proteção antinuclear dos anos 1950 eram porões de cimento cheios de comida enlatada e água mineral. A boa notícia é que os bunkers de hoje deixam no chinelo algumas suítes presidenciais de Dubai. Quem tem dinheiro pesado investe pesadamente no próprio futuro, e tem que ser um futuro que não deixe saudades do presente.

Aconselho uma olhada na galeria de imagens destes saites. Algumas parecem estar ao ar livre, mas os bunkers dispõem de luz solar artificial, plantas, gramados. Para não falar em “jardim subterrâneo, piscina, spa, cinema e adegas.” Ou em bibliotecas luxuosas, suítes e alcovas 5 estrelas.



Uma das empresas que estão faturando alto com esse Luxo Apocalíptico é a Vivos (terravivos.com), que em sua página de acolhida afirma:

VIVOS não é apenas uma empresa que produz abrigos subterrâneos. É uma rede de comunidades de pessoas com mentalidade semelhante, que dão apoio umas às outras para que tenham melhores chances de sobreviver praticamente qualquer desastre.


(Vivos Europa One: um dos 34 apartamentos 5 estrelas deste complexo)

Outra empresa é a Rising S Company, cuja instalações são meio espartanas comparadas à fidalguia da Vivo, mas tornam-se sedutoras quando você faz a conta na ponta do lápis e percebe que esse abrigo pode ser financiado a partir de 65 mil dólares, um preço mais ao alcance da classe-média norte-americana (imagino eu).


A matéria cita também o saite da companhia tcheca The Oppidum, que se anuncia como O Maior Bunker de Bilionários do Mundo. Fui olhar, todo animado, e me deparei com esta página de acesso:



Mas enfim... A situação é esta. Não está fácil para nós, que temos tão pouco a perder; como minimizar a angústia de quem está correndo o risco de perder bilhões?!

Essa angústia gera outro tipo de problemas, relatados por Douglas Rushkoff (https://en.wikipedia.org/wiki/Douglas_Rushkoff) na matéria Sobrevivência dos Mais Ricos. Diz ele que foi convidado, meio laconicamente, para dar uma palestra para “banqueiros de investimentos”, recebendo como cachê da palestra o equivalente a seis meses de seu salário como professor.
Chegando no local, descobriu que a palestra não era num teatro ou auditório. Era numa sala, ao redor de uma mesa onde estavam sentados cinco homens. Ele estava ali como consultor especializadíssimo para as perguntas que estes cinco homens tinham a fazer.

“Que região vai sofrer menor impacto na crise ambiental: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está mesmo construindo um receptáculo para o cérebro de Ray Kurzweil, e será que a consciência dele continuará se mantendo durante e após a transferência? E como será possível manter a lealdade das equipes de segurança que estarão cuidando do meu bunker após O Evento [era este o termo empregado continuamente]?”

Para Rushkoff, estes homens, cuja fortuna pessoal e poder político é equivalente à de outros mais famosos (Bill Gates, Elon Musk, Jeff Bezos, etc. etc.) não estão mais preocupados em investir seu dinheiro para evitar O Evento, ou minimizar suas consequências. Sua preocupação é sobreviver a O Evento com segurança; e emergir, de algum modo, depois que a tempestade passar.















sexta-feira, 19 de setembro de 2014

3608) O Apocalipse do Metano (19.9.2014)



Anos atrás lançaram um livro de divulgação científica (acho que era de Isaac Asimov) intitulado Escolha a Catástrofe. Cada capítulo tratava de uma forma possível para o fim do mundo: guerra nuclear, choque com asteróides, elevação dos oceanos, etc.  Ando curioso para saber se o tal livro previa uma possibilidade que agora reencontro a todo instante na imprensa: o Apocalipse do Metano. 

Meu conhecimento de química é zero. Se eu falar alguma barbaridade não me execrem, mas como parte da opinião pública tenho o direito de compartilhar as razões da minha insônia. O metano é uma delas. Quantidades absurdamente grandes desse gás estão acumuladas no subsolo e nas águas. Em muitas regiões, principalmente em volta do Ártico, o gás está confortavelmente represado abaixo de uma espessa camada de gelo, que não o deixa escapar.  O problema é que com o aquecimento global o gelo (ou, mais tecnicamente, a camada de permafrost, “solo permanentemente congelado”) está se adelgaçando. Quanto mais fina fica, mais sujeita fica a uma quebra, que deixaria escapar uma grande quantidade de gás, numa explosão de baixo para cima.

Não é outra (li por aí) a origem daqueles misteriosos buracos que estão aparecendo na Sibéria, com dezenas de metros de diâmetro e uma fundura a perder de vista. O metano está comprimido, querendo escapar, e em qualquer ponto onde a barreira enfraqueça ele pipoca com gosto de gás. Há poucos anos vi um documentário sobre isto no The History Channel (OK, concordo que é um canal meio sensacionalista). A catástrofe me pareceu tão iminente que me desencadeou uma crise aguda de ternura pela humanidade e amor à existência. Abracei todo mundo da minha família, telefonei para amigos que não via há anos, comecei a me despedir da vida.

O metano me poupou, mas não sei até quando, principalmente depois de ver essa entrevista de uma cientista, que me pareceu bastante pessimista, até que comecei a escutar os apartes de um colega dela na platéia, que a achava otimista demais. (Veja aqui: http://tinyurl.com/n6ds54b). “Poucas décadas” é o tempo de vida que resta à humanidade, segundo eles, se for liberado apenas 1% (um por cento) do metano represado embaixo da terra.

De qualquer modo, foi bonito.  Tivemos momentos como a Grécia de Péricles, o impulso civilizatório do Império Romano, tivemos a Renascença, tivemos as Revoluções Científicas... Criamos e destruímos impérios.  Fomos à Lua e voltamos. Tivemos as artes e as ciências. Experimentamos todas as possibilidades da existência humana, uma coisa tão frágil, num planeta mais frágil ainda.  Valeu a pena? Tudo vale a pena, enquanto o ator ainda está em cena.


sábado, 17 de agosto de 2013

3267) Armagedon das abelhas (17.8.2013)




Na Bíblia, as pragas do Egito e outros fenômenos apocalípticos envolviam manifestações de caos no mundo dos animais e dos insetos (pragas de gafanhotos, rãs, etc.). Na vida real, são as abelhas que estão dando o alarme. Falei em 2007 aqui nesta coluna (“A debandada das abelhas”: http://bit.ly/11PVSo9) sobre o fenômeno da “Desordem do Colapso das Colônias”, que nos últimos seis anos dizimou cerca de 10 milhões de colmeias. Estudos recentes indicam que o pólen recolhido por essas abelhas está contaminado por um verdadeiro coquetel de pesticidas; já foram descobertos 21 agrotóxicos diferentes em uma única amostra.

Os cientistas dizem que a absorção de fungicidas era considerada inofensiva para as abelhas, pois eles se dirigem contra a população de fungos. A gravidade da situação trouxe um elemento de tensão a mais entre a Rússia e ao EUA. A Rússia questiona o uso de inseticidas chamados “nicotinóides”, que, afetando a população das abelhas, pode desequilibrar a cadeia ecológica e comprometer a produção de alimentos do mundo inteiro. Houve irritação, dias atrás, num encontro entre Vladimir Putin e o Secretário John Kerry. Dois dos principais nicotinóides (Actara e Cruiser) são fabricados pela Syngenta, baseada na Suíça, parte de um grupo que inclui outros gigantes como Monsanto, Bayer, Dow e DuPont e controla quase a totalidade de pesticidas, plantas e sementes geneticamente modificadas.

Críticas pesadas vêm sendo feitas ao governo Barack Obama pela promulgação de leis que liberam as grandes empresas para produzir e comercializar material geneticamente modificado, e pelo fato de que o presidente colocou pessoas ligadas à Monsanto (como Roger Beachy, Michael Taylor e outros) em postos-chave do governo. O peso político dessas empresas, e o modo como seus lobistas estão incrustados em Washington, não permite imaginar que venham a perder influência no futuro próximo.

Sem querer ser apocalíptico, mas as cadeias ecológicas são tão bem encaixadas que não precisa de muita coisa para produzir desastres localizados. Basta lembrar episódios de proliferação descontrolada como a de coelhos na Austrália, de pardais nos EUA, de abelhas africanas nas Américas. A ficção científica já imaginou inúmeros cenários de catástrofes ecológicas globais onde há mais interesse em explorar as consequências do que as causas, mas como ainda estamos na fase das causas, são elas que nos interessam do ponto de vista prático. Com os milhões de toneladas de agrotóxicos despejados no mundo todos os anos, é só uma questão de tempo. A cada década que passa, as possibilidades de um colapso ecológico se multiplicam por todos os lados.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

2262) O avanço dos mares (8.6.2010)



Manhã de domingo no Recife. Estou no 8o. andar de um hotel à beira-mar. Diante do edifício, gigantesco, ocupando metade do espaço visível e perdendo-se no horizonte, o Monstro me encara. Parece injusto chamá-lo assim, porque sua visão antes encanta do que aterroriza, e na verdade não existe nele nada de maligno. É apenas sua imensidão sem controle que nos permite ver nele aquilo que Virgílio, na Eneida, chamava de “monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum” – “um monstro horrendo, disforme, imenso, sem olhos”.

Todos veem o Mar, só eu vejo o Monstro. A visão da minha janela lateral está totalmente tomada pelo vulto maciço do hotel vizinho, um leviatã de concreto, pastilhas cinzentas e basculantes em vidro fumê. Preciso debruçar-me e olhar para a direita para vê-lo. São faixas sucessivas, superpostas, de cada qual mais distante que a outra. Embaixo, a Avenida Boa Viagem, seu trânsito da direita para a esquerda, as bicicletas, pessoas que correm ritmadamente, de óculos blindados. Mais acima, a primeira faixa, de areia clara, pontilhada por um jardim de guarda-sóis em azul e branco. Mais acima, a faixa escura, rajada, da piscininha formada pela couraça irregular dos arrecifes, onde crianças pulam nas suas boiazinhas; os arrecifes propriamente ditos são uma mancha negra paralela à avenida, e as ondas os recobrem sem cessar com suas espumas brancas. Mais para cima ainda, uma faixa mais larga (uns 20 metros) de água verde-clara como a líquida esmeralda dos olhos de Iracema, ou, menos literariamente, como caldo de cana recém-tirado. Depois desta, uma faixa maior, cerca de 50 metros, de um verde puxando mais para o azulado; depois desta, outra faixa de uns 200 metros de um tom mais azulado ainda; e coroando tudo, como um muro que veda o horizonte, uma faixa estreita mas compacta de um azul profundo, com um tanto do cinza do cimento, e do roxo de algas remotas.

Eis o monstro. Volto à poltrona e abro o livro em que Kim Stanley Robinson descreve o degelo da Antártica: “Gigantescas placas de gelo, aquecendo-se, rachando, deslizando por sobre a terra que as suporta abaixo do nível do mar, flutuando oceano afora em imensos blocos, deslocando muito mais água do que quando estavam fixas ao continente. Se todo esse gelo se desprender, o nível do mar subirá sete metros. Um quarto da população mundial será diretamente afetado, com prejuízos estimados, por baixo, em cinquenta trilhões de dólares”.

O Monstro não é cruel nem feroz. É um conjunto de processos físicos no qual interferimos, encorajados por não recebermos reações adversas imediatas. Isso nos faz aumentar o grau de intervenção, porque na verdade não temos o propósito de intervir, e sim o de produzir mais e mais energia para nossa conveniência. Despertamos o Monstro, e ele não é um Monstro que persegue ou dilacera. Ele apenas se expande e ocupa mais espaço, ocupa esta precária Atlântida em que vivemos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

2238) A nuvem do vulcão (11.5.2010)



A explosão do vulcão na Islândia foi mais um indício da fragilidade do nosso estilo de civilização. Isto poderia ser evitado? A erupção propriamente dita, não, porque a Humanidade não tem condições científicas e tecnológicas de intervir num processo de tal natureza e tais proporções. É mais fácil levar um homem à Lua e trazê-lo de volta do que evitar que um vulcão exploda. Vivemos na Terra como um jangadeiro vive no mar. Sabemos que não temos controle sobre ela. Só nos resta prestar atenção, e nos adaptarmos.

O que se questiona é como evitar as consequências. Criamos uma rede de transporte aéreo (principalmente no Hemisfério Norte) eficiente, veloz, utilíssima e frágil. Como em qualquer mecanismo de alta precisão, basta um grão de areia para impedir que funcione. A Europa, ao contrário do Brasil, tem excelentes estradas e excelentes transportes ferroviários, que bem ou mal conseguiram durante esses dias escoar parte do tráfego. Mas o episódio todo deixa um gosto amargo de incompetência científica. Talvez até tenhamos condições de produzir instrumentos caoazes de enfrentar esse tipo de situação, mas não sabemos criá-los.

O físico Haim Harari declarou à revista “Edge”: “A crise das cinzas e a crise financeira têm muito em comum. Ambas resultam do fato de que as pessoas que tomam as grandes decisões não entendem de Matemática nem de Ciência, mesmo num nível rudimentar, enquanto que a maior parte dos matemáticos e cientistas não têm sensibilidade para com as implicações que seus cálculos podem ter sobre a vida real. Os engenheiros de finanças criam complexos instrumentais matemáticos, evitando chamar a atenção para as premissas que estão propondo, enquanto que os banqueiros e as agências reguladoras não admitem que não têm a menor idéia do que esses documentos significam, e nunca fazem perguntas sobre os parâmetros ocultos por trás dessas novas estratégias do lucro fácil. Modelos teóricos provam às autoridades que a nuvem de cinzas está aqui ou ali, sem se dar o trabalho de medir coisa alguma, e ninguém pergunta se os modelos estão baseados em dados realistas.

“Os que tomam decisões, se tivessem preparo científico, perceberiam imediatamente o problema, mesmo que não entendessem nada de finanças ou vulcões. Quando alguém propõe um esquema onde é possível ganhar sempre, não é difícil enxergar as pegadas de um “esquema pirâmide”, e a existência de uma nuvem mortífera que afeta um continente inteiro mas ninguém pode ver, e que não se baseia em nenhuma medição real, devia fazer as pessoas inteligentes erguerem as sobrancelhas. O mundo está descobrindo a profissão que lhe falta: pessoas cientificamente preparadas para tomar decisões. Bons cientistas sem experiência administrativa, ou políticos espertos sem conhecimentos de ciência, não são capazes de detectar esses problemas. Precisamos de pessoas que tenham ambas essas qualidades”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

2122) No Reino da Dinamarca (26.12.2009)



O relativo fracasso das negociações ambientais na cúpula de Copenhague já estava mais ou menos previsto, e, como bem falou nosso presidente, somente um milagre ou um anjo descido do céu seria capaz de reverter, de última hora, a tendência do mundo para uma inexorável rota de colisão consigo mesmo. A colisão pra valer só acontecerá dentro de algumas décadas, portanto nenhum de nós, participantes e espectadores da cúpula, tem motivo para se preocupar. Como na velha história do cara que prometeu ao rei que em 10 anos ensinaria um burro a falar, “até lá ou morro eu, ou morre o rei ou morre o burro”.

Claro que os líderes comunistas chineses não estão a fim de sustar sua industrialização galopante por motivos ambientais. Quando a China começar a sofrer os efeitos das suas decisões de hoje, todos eles já estarão confortavelmente embalsamados em seus mausoléus. Claro que Barack Obama (que para manter os EUA respirando a curto prazo precisa costurar dezenas de acordos políticos internos, delicados, com seus adversários domésticos), não vai “dar uma de frouxo” e obrigar o país a um sacrifício a que os americanos não estão habituados, e que considerariam sinal de fraqueza. Ou seja: em princípio, ninguém tem nada contra o meio ambiente, ninguém tem planos de destruir o planeta. Mas todo mundo tem prioridades políticas a curto prazo. Se elas ameaçam de extinção a Humanidade, tanto pior para a Humanidade. Numa democracia, os eleitores são mais importantes do que ela. (É ou não é?)

É a velha solução do bêbo liso: se não tem dinheiro para pedir a conta, melhor dar de ombros e pedir outra cerveja. Alguém vai pagar a conta, e posso até ser eu-amanhã, mas eu-agora é que não pago.

A teoria freudiana diz (na verdade não é bem assim que ela diz, estou fazendo uma bruta simplificação, a bem da brevidade) que o ser humano é movido por dois impulsos, um impulso de prazer (Eros) e um impulso de morte (Tânatos). O impulso do prazer quer a gratificação contínua e ininterrupta dos nossos desejos físicos. O impulso de morte nos leva à auto-destruição como indivíduo e como espécie. Abstraindo a visão psicanalítica e projetando-a para o gênero humano, podermos ver a junção dos dois impulsos neste nosso processo de destruição do planeta. No momento atual, predomina o impulso do prazer. Criamos uma industrialização e uma sociedade consumista que nos gratifica física e psicologicamente: roupas caras, carros, ar condicionado, aquecedor, indústrias, empregos, luz elétrica abundante, eletrodomésticos para fazer a mais boba tarefa, toda uma civilização do ócio e do conforto, que exige quantidades indescritíveis de energia, e joga na atmosfera quantidades equivalentes de poluição. Tudo isso para garantir nosso prazer. Quando percebermos o mal que fizemos a nós mesmos, nos destruiremos. Pense Mad Max, pense ficção pós-apocalíptica, pense um mundo de gangues em guerra por comida, por água, por oxigênio para respirar.

domingo, 4 de abril de 2010

1862) Salve-se quem puder (26.2.2009)




Num texto que vi citado na Internet (mais precisamente em um mailing do “A Word a Day”), os autores Robert M. Lilienfeld e William L. Rathje dizem: “Existe um mito: o de que devemos salvar a Terra. Sejamos francos, a Terra não precisa ser salva. A Natureza nem liga se os seres humanos estão aqui ou não. O planeta vem sobrevivendo a mudanças cataclísmicas e catastróficas há milhões de anos. Ao longo desse tempo, crêem os cientistas, 99% de todas as espécies já existentes surgiram e desapareceram, enquanto o planeta permaneceu. Quando falamos em salvar o meio ambiente trata-se na verdade de salvar o nosso meio ambiente – tornando-o seguro para nós mesmos, para os nossos filhos, e para o mundo como o conhecemos. Se mais pessoas vissem o problema como uma questão de salvar a si mesmas, provavelmente poderíamos aumentar a sua motivação e sua dedicação a lutar por essa causa”.

Dias atrás fui a um bar que distribuía nas mesas um artigo de jornal onde o cronista alertava os boêmios para um terrível perigo iminente: o aumento do preço da cerveja. Explicava ele que a cerveja é feita de lúpulo, cevada e outros grãos. O preço desses grãos (e consequentemente da bebida) tem aumentado sem parar nos últimos anos, porque a terra de cultivo destinada a eles está sendo tomada por plantações de cana-de-açúcar. O objetivo dessas plantações é produzir um combustível mais barato que o petróleo. O petróleo do mundo está acabando porque gastamos muita energia.

Qual a solução, então? – pergunta o cronista. E responde: economizar energia, apagar as luzes de casa, poupar gasolina, não andar com o carro muito pesado, usar judiciosamente o chuveiro elétrico no inverno e o ar condicionado no verão, etc. etc. Os dois terços restantes da crônica são um conjunto de medidas simples e eficazes para se economizar energia. E tudo isto para quê? para que o preço da cerveja caia, e a gente possa beber mais cerveja.

Esses dois exemplos mostram a irracionalidade básica do ser humano, e mostram que somente levando essa irracionalidade em conta é possível convencer as pessoas a fazerem o que queremos, desde enviá-las para uma guerra onde certamente morrerão até convencê-las a salvar a própria vida. Parece que temos um comando embutido em nossa mente que nos torna incapazes de perceber o alcance a longo prazo de tudo que fazemos. Percebemos apenas o nosso interesse egoísta, imediato, auto-indulgente. E somente apelando para esse interesse é possível nos levar a agir em função de algo mais amplo.

Campanhas do governo poderiam adotar esse tipo de ótica: distribuir instruções práticas e úteis, só que camufladas por um propósito que falasse mais de perto ao egocentrismo, à vaidade, ou a alguma outra tendência capaz de mobilizar as pessoas a “lutarem pelos seus próprios interesses pessoais”. Parece que é muito mais fácil do que tentar convencê-las a lutar por um interesse coletivo pelo qual elas não ligam a mínima.




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

1607) O filme de Al Gore (7.5.2008)




Vi na TV a cabo o documentário Uma Verdade Inconveniente, sobre as palestras que o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, faz pelo mundo, alertando as pessoas para os perigos do aquecimento global. Gore tem tido algum sucesso. Recentemente perguntaram ao presidente Bush se ele achava que iria mergulhar na obscuridade ao sair da presidência, e ele disse: “Bem, Al Gore depois que deixou a vice-presidência já ganhou um Oscar e um Prêmio Nobel, de modo que deixar o poder não chega a ser o fim do mundo”.

O fim do mundo é de certa forma o que Gore tenta nos fazer enxergar, numa palestra bem conduzida com imagens e estatísticas mostrando aquilo que eu chamo “o terremoto em câmara lenta” – a destruição vagarosa do nosso planeta pela industrialização desenfreada. Como é em câmara lenta, dá tempo da gente ir se mudando daqui para ali, e achar que adiou o problema. Ou que ele não existe.

Vi algumas críticas ao filme dizendo que é uma “egotrip” de Al Gore, que o filme se concentra o tempo todo na pessoa dele, etc. Essas críticas erram o alvo. O filme é um filme de Al Gore (mesmo dirigido por outras pessoas), para divulgar a palestra sobre aquecimento global que Al Gore tem feito pelo mundo (ele diz já ter feito essa palestra mil vezes). O filme não tem nada a ver como a Arte Cinematográfica nem com a Metalinguagem Documental. É uma peça de agitprop, agitação e propaganda. Equivale a um panfleto que recebemos num comício político. E seu objetivo é atingir um público maior que o das palestras. Eu, por exemplo. Gore fez a tal palestra aqui no Rio, há um ou dois anos, mas era só para convidados ilustres. Se não fosse o filme, eu não ficaria sabendo.

Não repisarei aqui as estatísticas citadas por Gore. O filme está nas locadoras, e aconselho a todos que o vejam. Como nenhum de nós tem condições de votar em Gore (ou em Hillary, em Obama, em McCain), acho que somos um tanto neutros ao que o filme contiver de propaganda política dos democratas. Eu vejo Gore, neste caso, como um porta-voz de escritores de ficção científica que há 50 anos nos alertam para os problemas que estamos causando ao meio ambiente. A mensagem apocalíptica de Gore se encaixa como uma luva (ou melhor: se encaixa como a costa leste do Brasil à costa oeste da África) à mensagem de outro filme, The Corporation, já comentado aqui (em 1.7.2005). É tudo o mesmo fenômeno. A atividade predatória e desenfreada das corporações, em busca de cada vez mais lucro, nos leva a um uso irracional da energia, um consumo excessivo, e uma exploração acelerada de recursos naturais não-renováveis. O aquecimento global é apenas uma das conseqüências disto, mas é uma das mais fatais.

Vai ver que não dão muita atenção a Gore por causa da boa aparência dele. Parece um executivo de megacorporação. Se ele usasse um camisão branco, um bastão nodoso, e deixasse a barba crescer, talvez evocasse um arquétipo mais poderoso e conseguisse salvar as vidas dos nossos netos.