Mostrando postagens com marcador Luiz Fernando Carvalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Fernando Carvalho. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de agosto de 2011

2636) Baseado em (16.8.2011)




Este artigo, vou logo avisando, se refere à adaptação de romances para o cinema, TV, teatro, e outras formas de encenação. A expressão “baseado em” costuma ser mal compreendida por muita gente. Ao pé da letra, o livro original seria apenas uma base, um fundamento para a criação de uma obra diferente. Na prática, porém, esta expressão, que me parece correta, acaba se confundindo com outra maneira de dizer, esta sim muito perigosa. É quando falamos: “O livro tal vai ser filmado”. Dizer isto sugere, implicitamente, que o livro vai ser filmado tal qual é, que todos os detalhes que existem no livro vão ser transpostos para o filme, tintim por tintim, e naquela mesma ordem. E não é o caso.

Dizem que no começo do século 20 os diretores distribuíam dezenas de exemplares de um romance entre os atores e os técnicos, e no primeiro dia de filmagem começavam a filmar o que acontecia no Capítulo 1. Logo logo esse sistema de trabalho mostrou que não funcionava. Uma história que se passava em diferentes cenários forçava a equipe a se deslocar todo dia de um lugar para o outro; um cenário que só aparecia no começo e no fim da história tinha que receber manutenção durante semanas ou meses. Logo as pessoas concordaram que era mais simples filmar num cenário tudo que acontecia ali, depois passar para outro, e no final recortar todas essas cenas e colocá-las na ordem certa. Isso é o beabá da produção de cinema.

Um dos raros filmes contemporâneos feito à maneira antiga foi, pelo que me contaram, Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho, cuja equipe se enfurnou durante meses numa fazenda, todo mundo com um exemplar do livro, e todos os dias atores e técnicos liam, discutiam, ensaiavam, filmavam. Não houve roteiro; não foi necessário. E mesmo assim a interferência autoral do diretor é imensa, e não sei se se pode dizer que o filme foi “transposto” para a tela, embora o próprio escritor, Raduan Nassar, tenha elogiado o resultado final.

Bem, se o autor elogiou provavelmente é por ter a compreensão de que um filme é outra obra que se inspira na mesma idéia que o autor tinha do livro antes de começar a escrevê-lo ou durante o ato da escrita. Quando a gente se senta para escrever pode ou não ter uma idéia geral da história; mas para simplificar digamos que existe na mente do escritor uma idéia platônica, perfeita, ideal, do livro a ser escrito; e que o texto que ele publica é uma tentativa de dizer aquilo em palavras. O cineasta, ao ler o livro, julga perceber, através daquelas páginas impressas, qual era o livro platônico, o livro perfeito, que o escritor tinha em mente; e é esse livro (não o livro efetivamente escrito e publicado) que ele procura traduzir em imagens. Daí a liberdade que ele tem ao adaptar, porque não precisa se prender à letra e sim ao espírito da obra. Ele não filma o que foi escrito, filma aquilo que ele imagina que o escritor tinha em mente quando estava escrevendo.


domingo, 15 de fevereiro de 2009

0803) “Hoje é dia de Maria 2” (14.10.2005)



Está de volta à TV Globo a minissérie Hoje é dia de Maria, escrita por Luiz Alberto Abreu (baseado num projeto criado por Carlos Alberto Soffredini) e dirigida por Luiz Fernando Carvalho. A primeira temporada ocorreu em janeiro deste ano, e teve uma tal resposta de público e de crítica que a Globo decidiu repetir a dose. A julgar pelos episódios iniciais, existe uma enorme continuidade com o que foi visto na primeira série, o bastante para dar ao espectador aquela sensação agradável de gostar de novo do que já gostara; e existe novidade bastante para acender seu interesse e mantê-lo ligado na história.

A primeira grande variação é que a primeira série era toda ambientada no mato, e esta leva Maria para uma cidade surreal, onde ela passa por aventuras muito diversas das que enfrentara da vez passada. No primeiro episódio, exibido terça-feira, roteirista e diretor põem um pé na ficção científica, ao mostrar um gigante metálico adormecido (cuja boca, ficamos sabendo, engole todo o lixo produzido na cidade); um binóculo de prismas que transporta Maria, através do olhar, para a cidade mecanizada; dançarinas andróides num night-club freqüentado por bonecos de papel machê; uma cabeça mecânica que fala sozinha; e uma infinidade de outros pequenos e brilhantes achados de roteiro e cenografia que criam um universo feérico, lembrando certas histórias de Ray Bradbury ou o mundo cyborg visto pelos olhos de uma criança em Inteligência Artificial.

Todo crítico se sente na obrigação de comparar cada obra nova com outras obras que já conhece (por algum obscuro senso de compromisso moral, de estar pagando uma dívida). Digamos então que a minissérie dos dois Luiz tem algo do clima de O Mágico de Oz e de Alice no País das Maravilhas, seguindo uma garotinha meio perdida (mas que nunca se dá por achada) no meio de um mundo fantástico, em que cada nova criatura ou ambiente nos deixa em dúvida se está trazendo um perigo, uma tentação, uma ameaça ou um pedido de socorro.

Luiz Fernando Carvalho domina com mestria o realismo narrativo, mas a série de trabalhos que tem dirigido para a Globo no gênero fantasia (Auto de N. S. da Luz, Farsa da Boa Preguiça, a primeira Maria) mostra que ele também sabe o que faz nesta outra direção. Maria tem um brilhantismo visual que deve muito ao Grupo de Bonecos Giramundo e às marionetes de Catin Nardi. Figurinos, direção de arte, adereços, criaturas mecânicas, tudo guarda o clima delirante e saborosamente anacrônico de alguns filmes de Tim Burton, Terry Gillian ou da dupla Jeunet & Caro (Delicatessen, Ladrão de Sonhos). Ao que parece, televisão foi feita para isto: para passar seis meses produzindo com carinho e minúcia um trabalho que fica uma semana em cartaz. Para ter o direito de ver obras assim, a gente engole em seco e se conforma com o fato de que sem as novelas, as intermináveis, ralas, redundantes novelas, nenhuma TV se manteria.

sábado, 4 de outubro de 2008

0572) “Hoje é Dia de Maria” (18.1.2005)



A Globo exibe a minissérie Hoje é Dia de Maria (http://hojeediademaria.globo.com/), onde numerosos contos populares são alinhavados em seqüência, como se tivessem todos acontecido à mesma pessoa. Pequenos episódios, lendas, historietas dos tempos da infância, com pássaros encantados, madrastas cruéis, crianças perdidas no bosque, lugares enfeitiçados onde nunca anoitece, e assim por diante. O texto de Carlos Alberto Soffredini justapõe esses episódios com habilidade. A menina que foge de casa devido aos maus-tratos da madrasta torna-se o fio condutor da história, por entre novos ambientes e novos personagens.

O aspecto mais evidente e mais encantador do trabalho é a sua concepção de espaço. Uma cúpula utilizada no Rock in Rio serve de cenário único, uma redoma onde os diversos cenários são colocados lado a lado, em 360 graus, e cuja face interna possibilita qualquer tipo de “efeito de céu”, através de pintura e iluminação. Os episódios se sucedem dando ao espectador a sensação de um espaço que sempre muda mas que é sempre o mesmo, um espaço paradoxalmente finito e ilimitado, que corresponde intuitivamente ao universo mental das histórias infantis, onde tudo pode acontecer, mas sempre no interior de determinadas regras.

Por outro lado, a minissérie tem a liberdade de utilizar elementos não necessariamente tradicionais ou rurais, como é o caso dos executivos de paletó que andam numa moto com “side-car”. Os elementos mecânicos e visuais são todos brilhantes: os pássaros de metal, os cavalos sobre rodas, as fornalhas, os figurinos surrealistas... O que mais destoa é o sotaque. A Globo deveria desistir de imitar sotaques, porque nunca dá certo. Era muito melhor deixar que os atores falassem num tom neutro, colocando aqui e ali um termo típico para dar um tempero. Italiano, espanhol, nordestino, caipira... Não adianta: ou fica ininteligível, ou caricatural.

Luiz Fernando Carvalho é um dos diretores que mais aprofundaram o senso de realismo na dramaturgia da Globo, com Renascer, O Rei do Gado, Os Maias, refinando uma concepção estética que também está por trás de seu excelente filme Lavoura Arcaica. Hoje é Dia de Maria segue outra linha de sua obra: a linha fantasista dos especiais Auto de N. S. da Luz (1992) e A Farsa da Boa Preguiça (1997). Uma linha inspirada no teatro-de-circo, nos contos maravilhosos tradicionais, onde se misturam o real e o fantástico. Esta minissérie pertence a um espaço dramatúrgico que vem se expandindo de uns quinze anos para cá. É uma “estetização do rural-popular”, visível no trabalho teatral de Antonio Nóbrega, Gabriel Vilela, Moacyr Góes e outros. Uma recriação do “interiorzão brabo” que por um lado deve a Monteiro Lobato e Ariano Suassuna, e por outro indica influências do cinema de Fellini, Chaplin, além de lembrar filmes isolados como Aventuras do Capitão Tornado (Ettore Scola) ou Aventuras do Barão de Munchausen (Terry Gilliam).