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sábado, 4 de maio de 2019

4463) Hipnose da estrada (4.5.2019)




Eu não sei dirigir automóvel, nunca dirigi um. Isso não me impede de avaliar o modo de dirigir de quem quer que seja, nem de teorizar sem pejo sobre essa nobre atividade moderna.

Um dos aspectos que me interessam nela é o modo como “o motorista” torna-se quase um “duplo” da pessoa. É uma pessoa menorzinha que vive dentro dele. Uma espécie de “puxadinho” mental em que uma nova personalidade é criada e desenvolvida, paralelamente à personagem principal.

A ação de “dirigir automóvel” pode perfeitamente abrir mão de uma série de camadas da nossa consciência. É um ato maquinal, que se executa com transições confortáveis entre assumir o controle e deixar no piloto automático.

As pessoas dirigem enquanto conversam, até mesmo um assunto da maior gravidade. Dirigem enquanto escutam um jogo de decisão do campeonato. Dirigem enquanto cantam a plenos pulmões com os filhos pequenos no banco de trás.

É como se a existência do “robô motorista” permitisse liberar a mente lúcida da pessoa para cuidar de assuntos mais interessantes.

De vez em quando dá um bug. É aquele famoso momento em que estou no banco do carona, num papo animado com outra pessoa, e de repente ela diz: “Caramba. Por que é que eu vim parar aqui no girador? Era para eu ter pêgo a ponte, lá atrás!”  E ninguém nem comenta, de tão comum que é o fato.

Vou contar aqui três histórias cuja veracidade nem me interessei em discutir, porque me pareceram plausíveis. Uma ou outra dela eu já ouvi com pequenas variantes. Deve ser, sim, um fenômeno reiterativo, levando em conta a quantidade de motoristas.

A História #1 fala de uma família que foi curtir o domingo num churrasco ou pescaria ou almoço de família num subúrbio mais que distante, e na hora de voltar, ao anoitecer, armou-se um toró que não tinha mais tamanho. A esposa pediu a chave do carro. O marido estava pra lá de Bagdá, mas insistiu previsivelmente em dirigir. Ela sugeriu passarem a noite no local, havia essa opção. Ele disse que ia trabalhar logo cedo, e tinha que dormir em casa.

A tempestade caiu, o carro fez-se ao asfalto, e felizmente as crianças estavam exaustas do domingo e se enrodilharam no banco de trás. Era água de quase não se ver um palmo à frente, e ela estava reduzida a um trapo de nervos quando eles finalmente chegaram ao bairro, à rua, à casa. Ele alinhou o carro à calçada e desacordou sobre o volante.

Ela insistiu muito, depois fez a única coisa que podia fazer. Levou as crianças para dentro, primeiro uma, depois a outra, mandou deitarem nas poltronas preferidas, voltou, abriu o carro (felizmente agora estava só um chuvisco), agarrou-o pelos suvacos e o trouxe para dentro de casa. No outro dia ele acordou com o despertador pré-programado e foi trabalhar assim como se nada.



A História #2 fala de outro cara que tomou umas e outras, voltou para casa, abriu de longe o portão, subiu a rampa com o carro, entrou na garagem são e salvo. A sensação de são e salvo foi tão forte que ele apagou. Os faróis do carro continuaram acesos, o motor ligado. O carro todo zunia, fremia e trepidava em torno dele. Ao cabo de algum tempo, ele entreabriu os olhos. Viu o brilho cegante daqueles faróis refletidos na parede branca do fundo da garagem, a um metro das luzes. Pisou no freio com tanta força que partiu ossos, rompeu ligamentos.

A terceira é a de um respeitável casal que fazia de vez em quando umas viagens do sertão para a capital, com parada em uma cidade no meio do trajeto. A esposa e o marido se alternavam ao volante. Numa das vezes, ela o deixou nessa cidade do meio e prosseguiu rumo à capital, no litoral do Estado. E a certa altura, já chegando naqueles subúrbios, teve uma espécie de susto, não sei se porque precisou frear de repente. Alguma coisa desse tipo a sobressaltou, e ela pensou: “Meu Deus, mas eu já estou aqui? Eu não me lembro de ter dirigido até aqui. Quem dirigiu? Porque eu só estou acordando pra valer agora.”

A pergunta interessante é de fato “quem dirigiu”, porque quem dirigiu foi a mesma pessoa. Mas dirigir é (como muitas outras, aliás) uma atividade que ganha uma certa autonomia. Também depende do motorista. Um motorista pode dirigir assim de modo meio sonambúlico e não sofrer nenhum problema grave, porque dirige com prudência e os reflexos visuais e motores estão em ordem.

Há vários níveis, como constatou Paul McCartney durante uma viagem lisérgica dos Beatles, da qual ele emergiu com esta única frase, dando provas de ser mais minimalista do que Yoko Ono.



Na primeira história acima, eu pressuponho que o motorista estava bêbado mas era um bom motorista, e isso prevaleceu sobre a bebida. Não aconselho a ninguém (como se fosse preciso). Acho que estatisticamente há mais motoristas bêbados sem acidentes do que com acidentes. O que não vale como desculpa.

No caso do meio, o da freiada cegante, o que vejo é o grau de reflexo, de adestramento, de autocondicionamento. Vai bater e você ao volante de toneladas de tralha com metal e vidros. Pela força da pisada e pela rapidez do reflexo, é um preparo comparável ao de um campeão do tênis. Devia existir um Teste Voight-Kampff só para medir isso.

O último caso é o mais interessante, porque facilmente pode ser considerado um estado alterado de consciência. A causa pode ser a auto-segurança de quem não vai fazer bobagem por sua iniciativa. Todos veem que a pessoa está acordada, a parte sensorial toda ativa, bota bagagem na mala do carro, abastece, conversa com um e outro, pega o volante, e lá vem aquela imensa fita solitária fluindo à sua frente.

Podemos postular, pelo menos em termos de dramaturgia, a existência de um sistema emocional, que naquelas horas de preparativos e na viagem de rotina continuava ali, mas adormecido, não tinha sido chamado a abrir os olhos. A freiada brusca atrás do caminhão, nas pistas paralelas de acesso ao subúrbio, acordou uma ninhada de aplicativos que desde o despertar estavam em modo espera: medo, susto, estranheza daquilo tudo, aquela sensação estrídula de ser dois.

Há vários níveis, também diria o inefável Colin Wilson, que nunca, diante de um fato, hesitou em produzir uma teoria. A consciência não é uma coisa, é um conjunto fluido, mas voluntariamente estável, de processos que se complementam. Como descrevê-los?  Em termos que a gente visualize melhor.

John R. Searle, professor de filosofia, disse uma vez:

“Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital”.






sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

3749) "The Black Room" (28.2.2015)



Colin Wilson, escritor existencialista britânico, propôs o conceito de “outsider” para designar o indivíduo inquieto, rebelde, movido por uma intensa busca de sentido na vida, e que tanto pode derivar para a grande arte quanto para o crime.  Muitos livros seus têm como centro personagens que realizam essa busca.  Neste romance de 1971, a história acompanha o compositor erudito Christopher “Kit” Butler, que aceita, meio na esportiva, o convite de um amigo que faz parte do Serviço Secreto britânico, o MI5, para participar de uma experiência científica como cobaia altamente qualificada.  A experiência, realizada numa espécie de hotel-com-laboratório num lugar remoto, consiste em submeter-se durante dias à experiência da total privação dos sentidos da visão e (tanto quanto possível) da audição.  O objetivo é medir o grau de resistência ao tédio e ao isolamento, para seleção e treinamento futuro de espiões.

Butler é o porta-voz das teorias de Wilson, e discute com os cientistas e as outras cobaias sobre energia mental, concentração, autocontrole emocional, etc.  Ao mesmo tempo, ele percebe que outras agências, como a CIA, a KGB e uma misteriosa “Estação X”, espionam as pesquisas dos ingleses.  Na segunda parte do livro, Butler, já aprovado, está em Praga numa missão um tanto inócua mas arriscada. É sequestrado e depois de algumas aventuras violentas vai parar na sede da misteriosa Estação X, onde se defronta com um chefe cheio de teorias próprias sobre o assunto.

Em matéria de escritor popular, conheço poucos como Colin Wilson capazes de encadear uma discussão filosófica e psicológica superficial, mas que faz sentido, com aventuras e um senso de realidade satisfatório.  Os seus romances policiais são bem melhores que sua ficção científica, e The Black Room lembra um pouco aquelas histórias de espionagem cheias de traições, subentendidos e reviravoltas, tipo John Le Carré.  O único defeito do livro, se é que é defeito e não um corte ousadíssimo, é que ele não acaba, interrompe-se bruscamente.  Há um desfecho em vista, mas precisaria de mais 20 ou 30 páginas para dar-lhe alguma conclusão satisfatória numa situação política tão complicada, embora haja algumas alusões interessantes à política européia de 1968. 

Pode-se dizer de Wilson o que já foi dito de Philip K. Dick: que a leitura de sua obra pode começar com qualquer título, porque sua visão do mundo está inteira em cada um, e cada um conduz aos demais como se todos fossem continuação de todos. A fé infatigável de Wilson nos poderes da mente humana perpassa sua filosofia, seus romances populares, suas antologias, sua obra sobre crimes e sobre ocultismo.







sábado, 7 de fevereiro de 2015

3731) A loucura e a lucidez (7.2.2015)



("The Tell-Tale Heart", por Virgil Finlay)

Não sei quem foi que disse que o remédio de um doido é outro na porta.  Talvez seja preciso um maluco para entender o que se passa na cabeça de outro maluco.  Ele tem que ser capaz de pensar como o maluco e ver que até certo ponto toda maluquice é justificada.  E tem que ser capaz de dar um passo atrás e ver que é só doidice mesmo, ou seja, aquilo não é a narrativa-mãe, aquilo é o Delírio do Depoente.  Por mais comovente que esse delírio seja.  Assim como um bêbado é alguém que ‘NÃO ESTÁ BÊBADO!!!”, um bom doido relativiza qualquer loucura.

Num ensaio sobre a imaginação, Montaigne diz (não li o ensaio, vi a citação por aí): “Gallus Vibius preparou sua mente de tal forma para compreender a essência e a dinâmica da loucura que deixou seus critérios serem distorcidos, a ponto de não poder acomodá-los de novo em seus devidos lugares; e, caso quisesse, poderia se vangloriar de ter-se tornado um abestado através da sabedoria.” 

O psicanalista Robert Lindner tem um ensaio famoso, “O divã espacial” (“The Jet-Propelled Couch”) onde ele descreve a longa terapia de um homem que acreditava piamente num universo paralelo “space opera” onde alternava seus dias com os dias passados na Terra.  (Há uma tese de que esse paciente teria sido o escritor Cordwainer Smith.)  O analista dava-lhe conselhos de como administrar seu império galáctico, mas acabou se envolvendo e entrando na viagem do outro. Recompôs-se depois (não é spoiler), mas admitiu que houve um duelo psicológico intenso, e que por um momento o Delírio do Depoente prevaleceu.

Vejo, por exemplo, Rubião tentando glosar os motes de Quincas Borba, tentando a ominosa tarefa de entender um doido por dentro.  Deve acontecer muito com empresários no campo das artes, que endoidecem por artistas imbancáveis, que se deixam levar mais pelos seus instintos do que pela razão, e que antes dos interesses pessoais pensam acima de tudo nos interesses do coração. Muitos ficam ricos. Provavelmente porque sabem como pensam os seus fãs na derradeira fila a contar do palco. São mentes iguais. 

O protagonista tem um amigo que é doido: eis uma cadeia dramatúrgica presente numa enorme variedade de textos.  Quem entende o doido, sensato lhe parece. O que mais chamamos de loucura é o contrário dela, chamamos de loucura a desorganização fatal do pensamento. Mas não, a loucura também é organização, organização maligna, sugadora, feito raiz de algaroba visitando o poço alheio.  Uma ordem vinda de cima que se recusa a dialogar com o resto e que precipita assim a crise que faltava.  O organismo é invadido por uma linguagem estranha que acaba por matá-lo por dentro.




quinta-feira, 6 de novembro de 2014

3651) Os cinco sentidos (6.11.2014)



“Audição, visão e tato / mais olfato e paladar”: são os nossos cinco sentidos, que conhecemos desde a infância.  A audição é o mais abrangente deles (a vista alcança mais longe, mas só vemos o que está à nossa frente, e não como ouvimos, em 360 graus à nossa volta).  Nosso olfato tem pouca utilidade, e nos serve mais para o prazer do que para o trabalho.  A boa cozinha é uma homenagem simultânea ao olfato e ao paladar.  O tato é, como os dois anteriores, sujeito à contiguidade física: só funciona ao termos contato físico com o outro objeto.  Visão e audição (e olfato, um pouquinho) nos mostram o mundo à nossa volta; tato, paladar e olfato nos dão informações sobre algo físico com que fazemos contato.



Daí que a expressão “sexto sentido” seja tão usada, porque volta e meia estamos percebendo algo, ou tendo a sensação de algo, e não sabemos como encaixar aquilo nesse repertório tão limitado.  Li agora um oportuno post de Mark Lorch (aqui: http://tinyurl.com/kn2ghdv) sobre noções científicas superficiais que aprendemos na escola e nunca mais nos livramos. Uma delas, diz ele, é essa limitação de “cinco sentidos”.  Na verdade, temos mais do que isso.



Sentimos o movimento com acelerômetros localizados no vestíbulo, uma região do ouvido interno.  Nosso sentido de equilíbrio se deve ao movimento de fluidos através de canais muito finos, também nos ouvidos: se você ficar tonto, vai sentir um perturbação desse sentido, que usamos o tempo inteiro. O autor também diz: “Quando prendemos a respiração, sentimos nosso sangue se tornando mais ácido à medida que o dióxido de carbono se dissolve nele formando o gás carbônico”.  Bem, eu nunca senti isso, mas quem sou eu para questionar os sentidos alheios; vai ver que sou daltônico nesse aspecto. 



Lorch argumenta: “Não estou sugerindo que comecemos a ensinar a crianças de seis anos coisas estudadas em laboratórios ganhadores do Nobel, nem que o currículo deles seja soterrado de detalhes a respeito de dezenas de sentidos. Mas podíamos parar de contar lorotas.  Podíamos dizer, por exemplo, numa aula de biologia: Nós temos muitos sentidos, e estes aqui são os cinco que vamos estudar.” 


O texto de Lorch questiona estas e outras simplificações, que têm função didática mas acabam se transformando em Tábuas da Lei. Os três estados da matéria, por exemplo (sólido, líquido e gasoso): ele mostra que existem vários outros inclusive o plasma, que é o estado da matéria que compõe o sol.  Dizemos três estados como dizemos cinco sentidos: para facilitar, para poder concentrar o foco em algo mais presente na nossa experiência diária.  Mas a realidade sempre vai muito além disso.


sábado, 16 de agosto de 2014

3579) Singularidade Absurda (16.8.2014)




A Singularidade, segundo os cientistas e os escritores de FC, será aquele momento em que todos os processos de inteligência artificial que estamos criando irão convergir para a formação de um estado supra-biológico de consciência humana/cibernética.  Como um piloto automático que se apossasse do avião e impedisse os pilotos humanos de entrar na cabine. 

O que acontecerá então?

Temos a tendência de projetar um perfil antropomórfico, ou uma essência semelhante à humana, em todo fenômeno que nos transcende, sem atentar para essa contradição. Se nos transcende, não é como nós. Não parece conosco. Não pode ser descrito em nossos termos. Deus não é um homem de barbas brancas sentado num trono. 

A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.

É bastante possível que estejamos criando não uma, mas uma série de Semi-Inteligências Artificiais, e que a Singularidade, o momento irreversível em que esse processo escapará das nossas mãos, não tenha uma consciência central. Não será um computador gigantesco dizendo: “Agora, vocês vão ter que me obedecer”. 

Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.

Milhares, milhões de processos eletrônico-digitais controlando nossas finanças, nossas identidades sociais (documentos, senhas, acesso a tudo), nossos bancos, nossos meios de transporte, nossas formas de comunicação. Quem me garante que a Singularidade não será capaz de produzir pastiches perfeitos do meu texto e do meu estilo, postar em redes sociais, mandar emails para minha família dizendo o que bem entender – e fazer-se acreditar?

Isso, no entanto, não acontecerá com intenções malévolas, pois não há uma personalidade humana por trás. Será a combinação multiplicada de processos automáticos que se somarão uns aos outros para produzir efeitos aleatórios, não projetados por ninguém (e não desejados por ninguém, inclusive pelas “máquinas”). 

A Singularidade será um universo beckettiano ou douglasadamsiano. A vida no planeta correrá o risco de ser destruída justamente pela falta de um ditador antropomórfico em busca do poder. Serão mil ditadores algorítmicos, conflitantes, contraditórios, tentando se sobrepujar por mero determinismo de programação. 

E o mundo se transformará num pesadelo surreal-cubista, numa peça de Ionesco montada pelos loucos do Asilo de Charenton, e a vida humana se tornará finalmente um conto contado por um louco, cheio de som e de fúria e significando rigorosamente nada.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

3353) Grandes idéias de FC (26.11.2013)



(freys, em Deviant Art)

Certas idéias científicas parecem óbvias, mas não vejo a ficção científica se dedicando a elas. Por exemplo: por que motivo não pesquisamos (nós, escritores, que ao contrário dos cientistas podemos pesquisar a custo zero) a formação de múltiplas personalidades (“o médico e o monstro”) na mente humana?  Nem vou falar nas possíveis utilizações pacíficas desse divisionismo, mas citarei, para ver se atraio patrocinadores, algumas utilizações bélicas. Um soldado cuja mente seja, metade, uma máquina pré-ética de matar, e outra metade um carinhoso e patriótico pai de família. Cada um deles podendo ser ativado por um gatilho hipnótico (lembrem o filme O Telefone, de Don Siegel, com Charles Bronson), e assumindo o controle do corpo (do “cavalo mediúnico”) até concluir a tarefa prevista.

Faríamos melhor em investigar o cérebro humano, que bem ou mal estará conosco enquanto formos nós mesmos, do que em construir espaçonaves, gastar milhões de litros de gasolina para ir catar pedras num planeta baldio. Fernando Pessoa já ironizava o conceito de personalidade única no “Ultimatum”, um dos textos mais importantes de “Álvaro de Campos”. A produção de individualidades artificiais pode ser apenas uma questão de poucas décadas.

Antigas civilizações pré-colombianas doutrinavam seus neófitos aplicando-lhes na noite do “rito de passagem”, uma dose cavalar de ervas alucinógenas, e depois um passeio por dentro de cavernas labirínticas, ouvindo o eco de vozes, os cânticos, vendo os efeitos com archotes naquelas tortuosas galerias subterrâneas. Quem, no outro dia, acreditaria ter visitado menos do que um outro mundo que misturava cacos de inferno e de paraíso? Essas formas artesanais de controle mental mostram que o ser humano é sempre mais maleável do que parece, e Alguém, cedo ou tarde, usa isso em seu proveito.

Usar meios artificiais para criar personalidades distintas não seria mais do que levar às últimas consequências lógicas o processo de socialização que exige de nós atitudes diferentes em diferentes lugares ou atividades. Um Presidente poderia ser um orador carismático e cheio de empatia, e, longe das câmaras, um administrador enérgico, um negociador maquiavélico, e cada uma dessas personalidades só saberia das demais o necessário para funcionar.  O emprego de múltiplas personalidades artificialmente controladas (inclusive pelo dono original daquele corpo) é uma possibilidade científica muito mais próxima e factível do que a construção de um império galáctico. Os escritores de FC preferem falar de impérios galácticos porque é mais fácil se movimentar no Passado (império é coisa do passado) do que no Futuro.

domingo, 24 de novembro de 2013

3352) Mente binária (24.11.2013)




Eu estava lendo um saite literário, com advertências e conselhos. Num certo post, o autor dizia algo assim: “Na ficção, o personagem é essencial. Ele tem que ter espessura, credibilidade. Se o personagem não parece uma pessoa – dentro das limitações de um texto, claro – a história não se sustenta”. O primeiro comentário do saite dizia: “Falso. E os personagens de Kafka, de Beckett? Que espessura eles têm? Parecem com quem? Isso que você fala é um absurdo.” A crítica do leitor tem uma certa razão, porque os personagens de Kafka e Beckett têm tudo menos essa “espessura” realista que o autor do saite reivindicava. Mas o que ele diz exprime, sim, uma verdade. Só que uma verdade parcial. E é sobre isto, não sobre literatura, que quero falar.

A mente de muitas pessoas funciona de modo binário, preto ou branco, sim ou não, 100% ou 0%. Acho que na infância elas assimilaram o conceito de “verdade” e “mentira”, e daí em diante se fixaram na atitude mental de considerar que qualquer afirmativa ou é cem por cento verdadeira ou cem por cento falsa. Eu chamaria a isso A Crispação Aristotélica – me parece que foi Aristóteles quem estabeleceu o conceito de que “se A é A, então A não é B”... algo assim.

Na discussão acima, a afirmação sobre a necessidade de verossimilhança dos personagens literários é uma verdade. Não no sentido científico de uma verdade factual, que pode ser objetivamente comprovada quantas vezes for preciso, mas no sentido de uma “verdade cultural”, de um conceito que faz parte da nossa cultura literária. É uma verdade parcial (digamos), que convive com a verdade parcial oposta. Anna Karenina e Joseph K podem coexistir no mesmo universo cultural. São verdades opostas, mas verdadeiras.

A imensa maioria das generalizações que a gente diz são verdades parciais. E a toda hora aparece um Leitor Binário, um Crispado Aristotélico para dizer que nossa afirmação é falsa, porque ele acaba de descobrir algumas exceções a ela. Qualquer afirmação vaga como, digamos, “os brasileiros gostam de futebol” é imediatamente denunciada, porque (dizem eles, triunfantes) nem todo brasileiro gosta de futebol. Ora, “os brasileiros” não significa (e é isso que ele não entende) “todos os brasileiros”. Significa “um número significativo de brasileiros”. É uma verdade estatística, cinzenta, difusa, como as da Física Subatômica.

E é a existência de gente assim, catadoras de lêndeas verbais, que obriga o redator a atulhar seus textos com a repetição de expressões como “na maioria dos casos”, “quase sempre”, “cerca de”, “aproximadamente”, “em torno de”, “grande parte”... Ressalvas que um leitor mais lúcido faz sem precisar de instruções.


quarta-feira, 6 de março de 2013

3126) A mulher desaparecida (6.3.2013)



(by Gonul Koçak)


O episódio aconteceu na Islândia e desta vez não é invenção minha, aconteceu mesmo. Um grupo de turistas, de ônibus, percorria a região vulcânica de Eldgja, no sul do país.  A certa altura, quando o grupo, depois de um passeio a pé, retornou para o ônibus, alguém deu pela falta de uma passageira, que havia saído junto com os outros mas não voltara. Olharam em torno, examinaram a estrada, o motorista buzinou, e nada da mulher aparecer. Como a região é vulcânica, todos se preocuparam – ela poderia ter caído numa cratera, desmaiado devido aos gases, etc. O motorista pegou o microfone, e, no inglês previsivelmente carregado que se usa em qualquer país ocidental, explicou a todos do que se tratava, e deu uma breve descrição da mulher desaparecida: asiática, cerca de 1,60m de altura, falando bem inglês, vestindo roupa escura.

O serviço de emergência local foi acionado, e os demais passageiros do ônibus juntaram-se à busca pela mulher, percorrendo de novo os caminhos que tinham trilhado durante o dia. Cerca de 50 pessoas, ao todo, passaram a noite examinando aquela área, munidos de lanternas, aflitos porque com o passar do tempo aumentava a possibilidade de que algo mais grave tivesse acontecido.

A notícia (que colhi no saite Wanderlust, em: http://bit.ly/T1qqOp) informa apenas os fatos, mas posso usar a imaginação para dizer que entre os ansiosos buscadores havia uma senhora, também passageira da excursão, que a princípio estava tão preocupada quanto os demais, mas foi se tornando mais hesitante e dubitativa à medida que as horas se passavam. Enquanto todos iam aos poucos cedendo ao cansaço, ao pessimismo e já a uma certa resignação diante do inevitável, ela ficava mais inquieta, deixando transparecer um misto de angústia e confusão. E a certa altura, lá pelas 3 da madrugada,  chamou de lado alguns passageiros que vinham sentados em poltronas próximas, no ônibus, e fez um discreto interrogatório. Ao ouvir-lhes as respostas, soltou uma exclamação de desabafo, e abraçou-se com eles, nervosa: “Então sou eu!”.

Era ela, de fato. Durante o passeio tinha voltado ao ônibus para trocar a roupa escura que usava por outra mais quente, ou mais confortável; e no retorno sentara numa poltrona diferente (os assentos eram livres). Ninguém achou estranha sua presença, mas, curiosamente, alguns deram pela ausência da outra senhora que viera perto deles durante o trajeto. E ela, ao ouvir dizer que alguém estava faltando, não imaginou que pudesse ser ela própria, visto que estava ali.  A literatura existencialista, por mais que se esforçasse, não conseguiu produzir uma parábola tão cristalina sobre os bugs embutidos no software da vida humana.



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

3109) Bandeira inconsciente (14.2.2013)





(Manuel Bandeira)



No seu livro de memórias literárias Itinerário de Pasárgada (Global, 2012) Manuel Bandeira comenta os poemas que fez dormindo. Pode parecer estranho a quem não é poeta, mas se um sujeito que anda de bicicleta pode sonhar que está bicicletando, o que há de estranho em um poeta sonhar que está poetando? Ele cita, p. ex., o poema “Palinódia” (no livro Libertinagem, 1930). Diz que sonhou com uns versos, e ao acordar conseguiu lembrar estes: 

Não és prima só 
senão prima de prima 
prima-dona de prima 
- Primeva. 

E um pouco dos versos iniciais: 

Quem te chamara prima 
arruinaria em mim o conceito 
de teogonias velhíssimas 
todavia viscerais.

E diz: “Para completar o poema, tive que inventar a segunda estrofe, que não saiu hermética, como a primeira e a terceira. Achei que seria melhor isso do que fingir obscuridade, coisa que jamais pratiquei. É verdade que tentei o ditado do subconsciente, segundo a receita ‘surréaliste’ (fracassei, como sempre)”. 

É bom ouvir isso de Bandeira, cuja poesia lindamente espontânea esconde um trabalho rítmico e sonoro tão minucioso quanto o de João Cabral, embora dê menos na vista, porque é mais integrado (eu diria “mimetizado”), aos ritmos e sons da fala cotidiana, incluindo-se aí a fala carregada de emoção.

A segunda estrofe, inventada lucidamente pelo poeta, diz: 

Naquele inverno 
tomaste banhos de mar 
visitaste as igrejas 
(como se temesses morrer sem conhecê-las todas) 
tiraste retratos 
enormes 
telefonavas telefonavas... 
hoje em verdade te digo 
que não és prima só / ... etc.”.  

Fico imaginando se esse poema não teria a ver (tal como o “Lutador”, do livro Belo Belo) com sua prima Maria do Castro do Cristo Rei, que era monja carmelita. Trata-se, afinal, de um poema sobre uma prima, com referências religiosas (“teogonias”, “igrejas”).

O poema, mesmo sem ser uma obra-prima (o trocadilho é proposital) parece ter certa importância para Bandeira, não só porque o incluiu em livro, mas porque se deu o trabalho de construir uma ponte entre os dois trechos sonhados. 

A leitura que posso fazer dele agora, obviamente depois de municiado com informações do próprio autor, é que o poeta se dirige a uma prima observando que durante um certo inverno os dois pareceram mais próximos, porque a prima não apenas teve uma vida social mais intensa (indo à praia, visitando igrejas, tirando fotos) como porque ela também lhe telefonava o tempo todo. Há uma relação indiscutível de afeto entre o poeta e a inspiradora do poema, que o faz remontar à própria origem dos deuses (teogonia) e do homem, porque ela é a “prima Eva”.









sábado, 9 de fevereiro de 2013

3105) O poema inconsciente (9.2.2013)





Falamos em mente consciente e mente inconsciente como se fossem duas coisas distintas, mas talvez elas sejam apenas como um jardim que a certa hora da tarde é batido parcialmente pelo sol. Uma parte fica iluminada e visível, e a outra mergulhada na sombra. Não a vemos direito porque o brilho da primeira deixa nossos olhos acostumados, e tendemos a pensar que o resto não está ali. 

Mas não são dois espaços diferentes.  O jardim é um só.


Manuel Bandeira conta, no seu Itinerário de Pasárgada, sobre alguns versos que compôs num estado alterado de consciência. O mais conhecido é o poema “Oração no Saco de Mangaratiba”, poeminha curto que era para ser muito maior. 

Diz ele que vinha voltando de barco de Mangaratiba, à noite, cansadíssimo, quando 

“...numa espécie de subdelírio de imensa fadiga, todo um poema, o mais longo que já se formou na minha cabeça, começou a fluir dentro de mim. O meu esgotamento era tal, que não tive ânimo para tomar o menor apontamento. Pensei poder recompor os versos em casa. Mal cheguei, caí no sono... Quando acordei, só me restavam na memória os seis versos da oração, única estrofe regular do poema, que era no mais em verso livre. Nunca me consolei desse desastre”.

O primeiro aspecto interessante é o estado alterado de consciência produzido pelo cansaço; algo que muitos artistas e escritores, inadvertidamente, procuram, quando “viram a noite” escrevendo, tomando drogas, sem dormir, etc. Por paradoxal que pareça, certos tipos de cansaço físico parecem deixar a mente mais livre para pensar e para criar em paz. 

O segundo aspecto, notado pelo próprio Bandeira, é o fato de que os trechos em verso livre foram esquecidos, mas ele conseguiu lembrar o único trecho “regular” (=com métrica e rima). O fragmento final, que foi salvo, diz: 

“Nossa Senhora me dê paciência 
para estes mares para esta vida! 
Me dê paciência pra que eu não caia 
pra que eu não pare nesta existência 
tão mal cumprida tão mais comprida 
do que a restinga de Marambaia!”.

Todos sabem que é mais fácil decorar algo rimado e metrificado do que um texto solto. A métrica e a rima se gravam em outro departamento do cérebro, talvez, um setor responsável pela memorização de estruturas regulares, que, por assim se dizer, memorizam-se a si mesmas, impõem uma regularidade. Uma rima chama a próxima, a cadência regular do metro define o tamanho e a acentuação dos trechos que vêm a seguir. 

O que dá mais pena é sabermos que todo o texto esquecido por Bandeira poderia ter sido recuperado através de algum tipo de exercício mental, quem sabe até através de hipnotismo. Na mente nada se perde, tudo vai para o sótão.







domingo, 9 de dezembro de 2012

3052) A tecno-telepatia (9.12.2012)





Os cientistas trabalham duro, e a sério, para encontrar algum meio tecnológico de produzir a telepatia, aquilo que a gente se refere brincando como “transmimento de pensação”.  Há pouco tempo, o canadense Scott Routley, que está em estado vegetativo, teve seus pensamentos comunicados através de aparelhos de ressonância magnética. Isto não quer dizer, claro, que ele se comunicou verbalmente, mas que a atividade de certas áreas do seu cérebro foi mapeada e depois “traduzida” para dar uma idéia do que ele estava pensando.  Ou, pelo menos, de que apesar da imobilidade ele permanece consciente. (Este é um dos dramas de pessoas em estado de coma – dá muito trabalho provar se estão conscientes ou não.)

Vai ser difícil produzir comunicação de um cérebro para outro baseando-se em nosso processo de formação de palavras e frases e em nossa memória verbal. É um processo muito subjetivo, muito impalpável.  Mais fácil estabelecer algum tipo de código, como o código Morse, para que o telepata envie a mensagem letra por letra, como no telégrafo. Ademais, como serão estabelecidas as ligações pessoa-a-pessoa? Não faz sentido encontrar uma maneira de transmitir pensamentos mas não conseguir direcionar esses pensamentos para uma pessoa específica. Qualquer pesquisa deve levar em conta a transmissão e a recepção.

A telepatia não vai ser como uma conversa telefônica, onde duas pessoas, num mesmo canal, falam alternadamente e podem até falar ao mesmo tempo sem deixar de ouvir com clareza o que o outro está dizendo. Com o pouco que sabemos sobre o processo de verbalização dos pensamentos (pensar nas palavras sem pronunciá-las) não há como imaginar, agora, uma tecnologia capaz de tornar esse processo algo compartilhável à distância. O maior empecilho a esse tipo de telecomunicação não é o meio (que são as ondas de rádio), é o fato de que não sabemos como as idéias verbais se formam e “são salvas” em nossa mente.

Ao invés de um “telefonema mental”, talvez a telepatia tecnológica venha a se parecer com os torpedos, mensagens de texto construídas letra a letra e enviadas de uma vez só. Haveria dois níveis sucessivos a serem ativados por concentração mental. No primeiro, a pessoa poderia compor, de letra em letra, sua mensagem, e a “salvaria” de algum modo. Em seguida, ativaria um código que a colocaria em contato com o destinatário, e em seguida algo equivalente à tecla “send”, “enviar” – e só então a mensagem seguiria, via ondas de rádio, para o seu destino. O que não acho possível são aquelas longas conversas telepáticas das histórias de FC, que mais parecem duas pessoas desocupadas matando o tempo com um telefonema.



sábado, 21 de abril de 2012

2850) Temple Grandin (21.4.2012)




Temple Grandin é uma mulher autista, e tem 64 anos.  Na infância teve professores especiais, mas depois estudou em escolas de crianças normais.  Como se sabe, crianças “normais” não perdoam crianças que sejam um pouquinho diferentes delas. Quando percebem que Fulano é “estranho”, elas mangam, zoam, perseguem, às vezes dão porrada.  Temple Grandin diz hoje que tinha dificuldade em entender a razão daquilo: “Eu pensava que todo mundo pensava igual a mim, e não entendia por que eles me tratavam daquele jeito”.  Todo autista é uma pessoa completa, e toda pessoa é diferente.  Quando alguém tem uma condição especial como autismo, isso é apenas 10 ou 20%, e os outros 80 ou 90% dela são tão imprevisíveis quanto os de qualquer pessoa.  Nenhum ser humano pode ser definido exclusivamente em função de alguma condição especial que possua, seja ela qual for.

Temple estudou Psicologia e tornou-se uma defensora dos “direitos humanos dos animais”, se bem me exprimo.  Planejou fazendas, currais e matadouros menos estressantes para o gado. Mesmo reconhecendo a necessidade do sacrifício do gado para nos alimentar, ela resume sua reivindicação para eles em “uma vida digna e uma morte indolor”.  Incapaz de sentir emoções, como muitos autistas, ela mesmo assim fez muito mais pelos bichos do que muita gente que se comove com a tragédia deles mas não move uma palha em seu favor (eu, por exemplo).

Aqui está uma palestra dela (com legendas em português: http://bit.ly/HLYZQs), “O mundo necessita de todos os tipos de mentes”. É uma mulherona grisalha, com camisa florida de cowboy, um jeito meio masculino. Vi-a pela primeira vez anos atrás, num documentário da TV que mostrava uma engenhoca bizarra que ela construiu, a “máquina do abraço”, uma coisa feita de traves de madeira, roldanas e tudo mais. Ela entrava naquela estrutura, movia controles, e as partes de madeira pressionavam partes diferentes das costas, das pernas e dos braços dela, produzindo-lhe “uma indescritível sensação de bem estar”. Deve ser o que as crianças normais sentem quando são abraçadas e acarinhadas pelos pais.  O fato de Temple ter precisado inventar uma trapizonga mecânica para obter esse efeito mostra, como diria Drummond, que “cada pessoa é diferente e somos todos iguais”. 

Os autistas se fixam em pequenas obsessões, diz ela: animais, automóveis, livros. Pode-se usar essas obsessões para lhes ensinar matemática, desenho, história, etc.  Infelizmente nosso ensino não é (nem tem como ser) personalizado. Existe um conjunto de fórmulas que todos devem assimilar até a graduação e o diploma. Quando os autistas forem maioria (estão aumentando!), talvez isso mude.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

2801) Sonhos (24.2.2012)




(Self, de Michael Morgenstern)

Tem uma história antiga que se refere a um desses monumentos da humanidade, não lembro se era sobre Matchu Pitchu ou a Esfinge de Gizé; alguma coisa gigantesca e enigmática. 

Quando os exploradores europeus chegaram lá, séculos atrás, perguntaram às tribos que moravam perto: “O que é aquilo?”. Os nativos olharam com uma cara de quem estava vendo a tal coisa pela primeira vez e responderam: “Pois é, que coisa estranha aquilo, o que será?”. 

Era um resíduo cultural dos antepassados deles, eles a viam diariamente quando iam levar os camelos para beber água ou coisa parecida, e não tinham parado para imaginar o que era.

Assim somos nós com grande parte das coisas importantes da nossa vida. Por exemplo, digamos que amanhã desembarque na Terra uma frota de espaçonaves cheias de psicólogos alienígenas que falem português (tá bom, vá lá, que falem inglês, que é mais disseminado). 

E que eles nos perguntem: “O que é o sonho? Lá no nosso planeta, quem dorme apaga. Aqui, vocês dormem e ficam pensando maluquices, como quem tomou LSD. Que diabo é isso?” Não saberíamos responder. Temos 258 teorias para explicar o sonho, o que equivale a não ter nenhuma.

A teoria mais recente é do dr. Rodolfo Llinás, um neurologista e fisiologista da New York University. Diz ele: 

“O sonho não é um estado mental paralelo, mas é a consciência propriamente dita, na ausência de estímulos fornecidos pelos sentidos”. 

Em seu livro I of the Vortex: from Neurons to Self (M.I.T., 2001) ele diz que quando as pessoas estão despertas a mente compara automaticamente essas imagens do sonho com o que vê, ouve e sente – os sonhos são corrigidos pelos sentidos. Ou seja: se entendi bem, a mente está o tempo inteiro processando situações, inventando-as, manipulando imagens, fazendo associações de idéias, mas o que ela faz é constantemente interferido pelos sentidos, pelo fato de que estamos acordados, cercados de outras pessoas que nos dizem coisas, nos mandam fazer isso ou aquilo. 

Somos forçados a pensar socialmente, pensar em conjunto, e isto cria um superego de obrigações e compromissos coletivos.

A loucura poderia ser algum desarranjo em que o “input” sensorial deixa de prevalecer sobre o caldeirão borbulhante da mente-em-si. Experiências com LSD seriam um modo artificial de produzir algo semelhante. Quando dormimos, a mente consegue trabalhar em paz, de acordo com suas próprias regras, sem ter que ficar dialogando com o mundo material. 

Já foram feitas experiências em que voluntários num laboratório foram impedidos de dormir. Depois de 3 ou 4 dias eles começam a sonhar acordados. O sistema sensorial afrouxa, enfraquece – e a mente crua toma conta.





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

2788) A criação inconsciente (9.2.2012)



(Jon Kuta, "Schizophrenia")

Em sua palestra na revista eletrônica Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel comentou: “Eu gostaria de sugerir que os nossos processos criativos estão bem próximos de ser uma coisa aleatória. Nossos cérebros podem estar funcionando num nível subconsciente, criando idéias o tempo todo, o tempo inteiro, sem parar, e outra parte da nossa mente subconsciente está testando essas idéias. E aquelas que acabam se infiltrando em nossa consciência podem ser as que aparentam estar bem formadas, mas isto é porque elas podem ter passado através de um filtro, juntamente com uma porção de outras idéias randômicas, antes de chegar ao nosso consciente”.

Já deve haver por aí um mapeamento desse processo. Acompanhamento elétrico da atividade cerebral, mas nada que nos faça dizer com segurança coisas como: “Neste momento, ele estava à procura de um advérbio para completar uma frase”, ou “Ele está visualizando a rua em que mora e tentando imaginar se o trânsito vai estar bom, quando voltar para casa à noite”. Ainda não chegamos a esse ponto, mas não chega a ser impossível.

A atividade criadora, no entanto, parece ser permanente nos andares do cérebro feitos da Matéria Escura do universo. Einstein, Poincaré, Galileu, Kékulé, Descartes e outros já tiveram revelações inesperadas, caiu-lhes do céu a resposta que buscavam longamente a um problema científico ou matemático. O sujeito maltrata o juízo durante semanas ou meses em busca de uma resposta, e nada dela aparecer. Aparece quando ele está subindo num trem ou dormindo. Por que? O trabalho inconsciente, a preparação febril de dezenas de respostas que são avaliadas por um processo intermediário, exigente, paciente, que só deixa passar até a consciência aquelas idéias que lhe parecem ter algum potencial.

Chamar esse processo de “inspiração artística” idealiza sua natureza e dá a entender que ao artista basta esperar pelo inconsciente. Ora, o processo é aleatório, mas passa por muitos filtros. O inconsciente é preguiçoso e desorganizado. Botá-lo pra trabalhar pra gente demanda um bocado de esforço, porque ele só quer trabalhar para si mesmo. Essas iluminações repentinas só acontecem a quem está virando noite, fazendo serão, quebrando a cabeça em busca de uma resposta. A resposta, que parece cair do céu, sobe à superfície no meio desse caldo borbulhante de combinações, associações de idéias, hipóteses meio absurdas, tudo isso comparado, descartado, resgatado, escolhido, trazido à consciência. “Inspiração” é o resultado de muito trabalho duro. Não é por ser inconsciente que é menos trabalhoso. O inconsciente funciona melhor sob pressão.

sábado, 31 de dezembro de 2011

2753) Criação aleatória (30.12.2011)




Na revista Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel estuda o modo como o pensamento criativo se dissemina no interior das sociedades, e o compara com a evolução biológica. 

Esta se dá através de pequenas mutações aleatórias em nossos genes, ao serem passados dos pais para os filhos. Muitas vezes não dão certo, mas às vezes dão, e “uma das coisas mais notáveis da natureza é que a seleção natural, atuando sobre essa variação genética gerada sem controle, é capaz de achar a melhor solução entre muitas, e sucessivamente incorporar essas soluções umas às outras. E, através desse processo extraordinariamente simples e não controlado por ninguém, criar coisas de complexidade inimaginável”.

Pagel compara isto ao que ele chama de “aprendizado social” (“social learning”), o processo através do qual as novas idéias são avaliadas pelo grupo, umas são descartadas, outras aceitas: 

“Qualquer processo evolutivo dessa natureza precisa ter tanto um mecanismo de escolha, uma seleção natural, quanto o que podemos chamar de mecanismo generativo, um mecanismo capaz de criar variedade”. 

Muitíssimas vezes o que o pensamento criador faz durante mais tempo é andar às cegas, tatear, dar saltos no escuro, escolher um caminho em vez de outro, sem saber exatamente por que este e não aquele. Tentar combinações ao acaso, produzir reviravoltas sem razão aparente, inserir elementos que não sabe exatamente o que são... tudo isto faz parte da atividade criadora na arte, na ciência, na literatura, etc. 

Cria-se (mecanismo generativo) sem muita preocupação com a lógica ou o planejamento; e depois passa-se um pente fino no que foi criado (mecanismo de escolha).

Pagel enfatiza a importância do fator randômico, ou aleatório, em “qualquer processo evolutivo que consiste na exploração de um espaço desconhecido, tal como se dá com os genes, ou com os neurônios explorando o espaço desconhecido em nosso cérebro e tentando criar conexões, ou com as nossas mentes tentando produzir idéias novas e explorando o espaço de alternativas que nos conduz para o que chamamos de criatividade”.

Meu conselho aos jovens artistas: produzam intuitivamente, levados pelo instinto, sem planejar. O planejamento nos traz de volta à repetição. Quando pensamos racionalmente, em geral, estamos repetindo modos de pensar que aprendemos, que já são consagrados, coletivos. 

A criação (artística, científica, etc.) precisa lidar com hipóteses absurdas, argumentos sem provas, descobertas inexplicáveis, elementos aparentemente sem sentido. Somente depois devemos ligar o “mecanismo de escolha” para achar o equilíbrio entre o aprendido e o recém-descoberto.






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

2746) Evolução copiadora (22.12.2011)



A revista eletrônica Edge (http://bit.ly/vmEGf8) reproduz uma palestra de cerca de 40 minutos com o biólogo Mark Pagel em que ele defende uma interessante teoria, que em alguns aspectos me fez lembrar a visão evolucionista (e pessimista) de H. G. Wells em A Máquina do Tempo. Pagel faz um breve histórico da evolução da vida na Terra, lembrando que o planeta tem 4,5 bilhões de anos, as formas de vida primitivas surgiram há 3,8 bilhões, plantas e animais simples surgiram há 500 milhões, os seres humanos primitivos há cerca de 200 mil, e a História do Mundo que estudamos no colégio remonta a no máximo dez mil anos. (Eu acrescentaria, por minha conta, que os últimos 200 anos produziram um mundo novo, e que os últimos 50 viraram esse mundo novo pelo avesso.)

Pagel observa que o ser humano desenvolveu, através da memória e da linguagem, um “aprendizado social” mediante o qual as descobertas de um indivíduo são rapidamente assimiladas pelos demais, e passadas adiante no espaço e no tempo. Isto fez, raciocina ele, com que inventar e copiar sejam funções essenciais para a sobrevivência da raça. Se a raça precisa de um novo instrumento ou uma nova técnica, não é preciso que todo mundo a invente. Basta que um invente, e os outros copiem. O que o grupo precisa é que a descoberta seja compartilhada.

Uma consequência disto é que num grupo de 50 pessoas, uma horda primitiva, basta que meia dúzia sejam criativos. Mas num grupo dez vezes maior, o número de pessoas criativas pode continuar sendo o mesmo, porque a memória e a linguagem se encarregarão do “aprendizado social”. Dessa forma, à medida que a população aumenta (e as comunicações se aperfeiçoam), o número de pessoas criativas diminui proporcionalmente, porque o aprendizado social se encarrega de disseminar suas invenções e descobertas. Desde que haja uma pequena quantidade de inventores, de descobridores, de pessoas genuinamente criativas, a sociedade tem meios para distribuir os resultados dessa criatividade, para serem copiados pelos demais.

Por isso, talvez estejamos atingindo (depois da Internet) um ponto-sem-retorno que é consequência deste longo processo em que a necessidade de copiar foi muito mais estimulada do que a necessidade de criar. Pagel ironiza inclusive as grandes corporações, que em tese seriam redutos de criatividade bem remunerada, dizendo que “ao invés dessas corporações dedicarem seu tempo e sua energia na produção de novas idéias, elas querem apenas comprar outras empresas que possuem essas novas idéias. E isso nos mostra o quanto essas idéias são preciosas, e o esforço que as pessoas são capazes de fazer para adquiri-las”.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

2745) “Mais Que Humano” (21.12.2011)



Este romance de Theodore Sturgeon, de 1953, é um dos grandes romances de ficção científica de sua época, e aparece na maioria das listas dos melhores do gênero. Ser incluído nessas listas não é uma questão de qualidade literária, mas de presença histórica. Obras que compõem um cânone são as obras formadoras, aquelas que uma vez publicadas passam a servir de ponto de referência obrigatório. More than Human conta a história de um grupo de crianças e jovens de rua, marginais, desprezados pela família, com poderes paranormais que utilizam da modo aleatório, sem compreendê-los totalmente. Encontram-se pouco a pouco, meio por acaso, e acabam formando uma Gestalt, um grupo em que cada um deles desempenha um papel essencial. Uma pode mover objetos com a mente, outras podem se transferir instantaneamente de um lugar para outro, outro induz as pessoas a lhe obedecem, como num hipnotismo instantâneo, etc. Juntos, tornam-se uma criatura nova, o Homo Gestalt.

A história se conclui com o aparecimento de um derradeiro personagem, que, após ser perseguido pelo grupo, acaba sendo salvo por uma de suas integrantes e se junta a ele. Sua função é proporcionar ao grupo (que era isolacionista, egocêntrico, amoral) uma moralidade, um senso de finalidade, uma missão a cumprir junto à espécie humana. A infância sofrida e perseguida daquelas crianças produz, quando elas descobrem seus super-poderes, uma espécie de vingança cega contra a humanidade que os desprezou. (Os personagens mutantes da série de HQ “X-Men” herdaram algo dessa atitude.) Somente com a chegada de um personagem que exige deles uma atitude ética o Homo Gestalt passa a funcionar com sua plena capacidade.

É possível que o livro tenha influenciado um conto de Robert Sheckley, “Specialist” (1953), onde aparece uma nave cuja tripulação é composta por criaturas extraterrestres interligadas através da função de cada um: o Olho, o Motor, as Paredes, o Pensador, a Fala... Eles chegam à terra em busca de um Propulsor, ou seja, um ser humano. Sem ele, são uma Gestalt organizada e infalível; mas para dar os saltos que fazem a nave viajar mais rápido do que a luz, precisam desta espécie, o Propulsor, que extrai energia de si mesmo: “Os Propulsores viviam há séculos por entre o medo e a dúvida. Guerreavam por causa do medo, matavam por causa da dúvida”. E é essa energia de que a Nave precisa para mover-se pelo Universo. Os textos de Sturgeon e Sheckley podem servir de metáforas da sociedade ou da mente humana, que por mais organizadas e eficientes que sejam precisam de um componente subjetivo essencial para poderem funcionar com seus plenos poderes.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

2625) Fantasia Compensatória (3.8.2011)



Walter Mitty é um piloto de caça na II Guerra Mundial, envolvido numa tremenda batalha contra os caças japoneses em disputa de uma ilha no Pacífico, fazendo manobras arriscadíssimas para evitar as baterias antiaéreas do inimigo, metralhando os aviões nipônicos que passam à sua frente. De súbito, a voz da esposa soa no banco ao lado: “Walter, você está dirigindo de uma maneira muito imprudente! Quase bateu naquele ônibus!”. “Desculpe, querida,” balbucia ele, e reduz a velocidade do fusquinha. O conto clássico de James Thurber, “The Secret Life of Walter Mitty” (1939) descreve um personagem tímido, desajeitado, casado com uma mulher truculenta e ranzinza. Walter vive uma série de fantasias com os olhos abertos, sempre imaginando que é um herói de guerra, um valentão, um cirurgião com nervos de aço, etc. Aliás, o diálogo acima foi inventado por mim, não sei de tem na história original. Não importa. Mitty tornou-se um tipo universal. Woody Allen que o diga.

A atividade mental de Mitty vive num “loop” constante do que eu chamo de fantasia compensatória, aquele devaneio (geralmente inocente e inofensivo) que todos nós praticamos. Muitas fantasias têm caráter erótico: estou numa festa, vejo uma garota, levo para a varanda, ficamos por ali, pegamos o carro, vamos para a casa dela... E tudo acontece exatamente como gostaríamos que acontecesse, o que faz da Fantasia Compensatória um sub-ramo da literatura utópica. Ou então estou jogando pelo Treze, decisão da Copa do Brasil no Maracanã, zero a zero com o Fluminense já nos acréscimos, a bola é alçada na área, aplico uma bicicleta sensacional e entro para a História. Ou então... Não, é desnecessário prolongar a lista. A Fantasia Compensatória mobiliza nossa libido, nossa imaginação, nossa capacidade fabulatória. Alimenta-se de um desejo emocional profundo cuja fome pode ser enganada momentaneamente com o biscoito-de-polvilho da fantasia.

Diz-se que a gente fica doido quando não distingue mais entre a fantasia e a realidade. Ou, como dizia Philip K. Dick (notório fantasiador) a realidade é aquela parte que quando você deixa de acreditar nela ela não desaparece. (Isto conduz à interessante questão: no filme Uma Mente Brilhante, o personagem de John Nash (Russell Crowe) descobre que é esquizofrênico e que alguns amigos seus são imaginários. Ele agora sabe disso; os amigos continuam aparecendo, insistindo, e ele dizendo “vão embora, vocês não existem!”. Uma das fantasias de Nash é que foi contratado pelo Serviço Secreto dos EUA para decifrar mensagens secretas publicadas em código através de notícias de jornal, algo que só pode ser decifrado através de cálculos logarítmicos complicadíssimos. Nash foi um Walter Mitty mórbido, tentando compensar sua timidez e desajustamento com uma fantasia de espionagem, e ela cresceu a tal ponto que até o fim da vida ele só conseguiu livrar-se dela parcialmente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

2615) O tempo não para (22.7.2011)




No filme Uma Mente Brilhante, Russell Crowe interpreta John Nash, o matemático esquizofrênico que, já na idade madura, enclausurado em si mesmo pela doença, acabou recebendo o Prêmio Nobel de Economia por causa de uma teoria que desenvolvera na juventude.

No filme, Nash tem fantasias recorrentes, incessantes, em que está sendo cooptado para trabalhar em projetos de espionagem para o governo, ajudando a decodificar mensagens da URSS. Sua loucura cria também amigos imaginários que o acompanham durante a vida inteira.

Um momento comovente do filme é quando ele descobre, por conta própria, que está doido – porque uma pessoa com quem ele convive há anos continua sempre com a mesma idade! Mesmo já tendo se passado uns 20 anos desde que ele a conheceu, a sobrinha de um amigo seu continua uma garota de dez anos. E Nash percebe que está louco, que aquela pessoa não existe, é uma alucinação paranóide.

A loucura é uma entre várias disfunções mentais, e tudo são tentativas de descrever situações em que partes da nossa mente deixam de dialogar com outras, ou estacionam no tempo enquanto o restante evolui.

 Todos nós sabemos exemplos de crianças que por um problema qualquer têm seu desenvolvimento interrompido num certo estágio, e vivem o resto da vida com uma idade mental estacionária. Não são loucos; são diferentes. (Acho que falta a Ciência investigar casos curiosos em que um cara de 50 anos estacionou numa idade mental de 25, e reclama que os outros não o compreendem.)

Achamos que só é real (realidade física, consensual) o que está submetido às leis do tempo. Nos contos de fadas e narrativas folclóricas, se um personagem tem acesso ao Reino das Fadas, ao Mundo Subterrâneo, etc., ele constata que ali o tempo não corre no mesmo ritmo que no mundo real.

Thomas the Rhymer vai para o Reino das Fadas para uma festa no castelo, e quando volta ao mundo real na manhã seguinte descobre que sete anos se passaram. A festa no castelo das fadas é de certa forma a fantasia em que a mente fica aprisionada, entretida consigo mesma, enquanto do lado de fora o tempo não para.

Viver é aceitar envelhecer? Sim, mas não no sentido de aceitar passivamente a decadência ou a deterioração de si mesmo. Viver é acompanhar a passagem do tempo, o desaparecimento de algumas coisas, a permanência de outras e o aparecimento de mais outras.

Quando era jovem e antissocial, Nash criou uns amigos imaginários com quem mantinha conversas silenciosas, amigos que diziam o que ele gostava de ouvir, que lhe davam conselhos, etc. Era essencial, para sua fantasia, que esse amigos ficassem sempre do jeito que eram. Vê-los crescer, envelhecer e mudar seriam uma fonte a mais de insegurança e angústia.

Nash percebeu que eles não existiam quando percebeu que para eles o tempo não passava. Tudo que é imune ao tempo existe apenas na mente, que é, curiosamente, o único lugar em que o Tempo pode ser acessado da forma randômica, não-linear.






sábado, 2 de julho de 2011

2598) A hora do pesadelo (2.7.2011)




O pesadelo é uma experiência pré-verbal de tal intensidade que traduzi-la verbalmente se transforma num desafio para um escritor. 

Digo pré-verbal porque a experiência do pesadelo (pelo menos minha experiência pessoal, parcialmente confirmada por depoimentos de outras pessoas) é algo que ocorre em 360 graus na nossa mente, envolvendo-a por completo. 

Sonhar parece um pouco com estar mergulhado numa atividade intensa e rápida, como um acidente, uma briga, um assalto. Agimos e reagimos por reflexo, em fração de segundo, sem verbalização prévia ou simultânea. Quando depois precisamos verbalizar a experiência, há tanta coisa para ser lembrada que é difícil saber por onde começar.

Um ensaio de Robert Louis Stevenson, “Um capítulo sobre o sonho”, fala sobre a dissociação psíquica que a criação onírica envolve. 

Ele conta ter sonhado uma história, com personagens, enredo, envolta num mistério que se dissipa quando uma personagem faz uma confissão ao protagonista. E Stevenson “ouviu” aquilo com absoluta estupefação, pois era a última coisa que poderia imaginar ouvir daquela pessoa. Sua surpresa foi tão grande que ele acordou, sobressaltado. 

E no entanto (observa Stevenson) a história tinha sido criada por ele mesmo. Como pôde manter o segredo? Como pôde provocar tamanha surpresa, se a mente que inventara a história e a mente que a contemplava em sonho eram uma só?

Tenho o hábito de anotar alguns sonhos, sejam pesadelos ou não. Claro que não anoto todos, mas costumo registrar, quando posso, aqueles que me deixam uma impressão mais vívida. 

Minha sensação é de que, quando sonho, sonho com minha mente inteira, diferentemente do que acontece quando estou escrevendo em estado lúcido, quando quem comanda a escrita é uma fatiazinha do cérebro hipoteticamente situada na parte frontal. Chamo a isto “escrever com a consciência verbal”, pois estou tirando a história de minha própria consciência, palavra por palavra. 

Já quando estou anotando um sonho, não. É como se o cérebro inteiro tivesse participado da criação daqueles episódios e é impossível escrever tudo, porque a massa de sensações, impressões visuais, nuances emotivas, etc., é tão grande que eu precisaria de dezenas de páginas para registrar tudo, se fosse possível transformar aquilo tudo em palavras.

E esse é outro aspecto curioso do sonho. O relato do sonho não o reproduz. O sonho não é feito de palavras. É feito de uma massa esférica e pesada de sensações, e a relação que o relato verbal do sonho tem com aquilo é tão distante e tênue quanto a relação entre a palavra “elefante” e um elefante de verdade. 

Daí, talvez, que o sonho se preste tanto à criação literária, porque é e será sempre irredutível às palavras, deixando-as com uma aura mágica (pois ao ler aquilo eu evoco o que sonhei) mas ao mesmo tempo com uma dimensão utilitária, banal: posso fazer o que quiser com aquelas palavras, porque aquelas palavras não são o que eu sonhei.