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sexta-feira, 12 de julho de 2024
5081) Biliu de Campina, 1949-2024 (12.7.2024)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
4652) Zé Calixto e o fole de 8 baixos (14.12.2020)
(foto: Antonio David Diniz)
Por uma dessas simetrias irônicas da vida, neste domingo
dia 13, aniversário de Luiz Gonzaga, nossa música perdeu o grande Zé Calixto,
87 anos, um dos mestres do fole-de-8-baixos do forró nordestino.
Os Calixto (Zé, Luizinho, Bastinho) são uma linhagem de
músicos talentosos e populares. Conhecendo a eles e à sua obra não é difícil
entender o "caldo cultural" de onde emergiram figuras hoje
internacionalmente famosas como Sivuca e Hermeto Paschoal.
Uma vez, nos anos 1990, fui convidado para cantar meus
martelos numa coletiva de músicos nordestinos no Circo Voador do Rio. Estava
nos bastidores, no meio de dezenas de figuras, conversando com Zé Calixto,
quando se aproxima uma figura leonina de cabelos e barbas quase brancos:
"Você é Zé Calixto? Meu nome é Hermeto Paschoal, e sou seu maior fã.”
Presenciei assim o que imagino ter sido o primeiro papo
pra-valer entre esses dois reis do teclado.
Teclado é um modo de dizer, porque o fole de oito baixos
usa botões, como as “gaitas” gaúchas. E tem como principal característica
técnica o fato de que, quando se aperta um botão, “abrir o fole” produz uma
nota musical, enquanto que “fechar o fole”, apertando o mesmo botão, produz
outra. Na sanfona convencional, o acordeom, tudo é muito mais simples – a nota
musical é a mesma, não importa em que direção a gente puxe ou empurre o fole.
O fole-de-8-baixos é um instrumentozinho invocado,
pequeno, difícil, rico de recursos. Como dizia Dominguinhos, com uma
gargalhada: “A vantagem dele é que é mais leve...”
“O nêgo agora tá gordo que parece um major... É uma casemira lascada, um dinheiro danado... Enricou!... Tá rico!... Pelos cálculos que eu fiz, ele deve possuir pra mais de dez contos de réis. Sanfonona grande danada... 120 baixos. É muito baixo. Eu nem sei pra que tanto baixo, porque arreparando bem ele só toca em dois! Januário não. O fole de Januário tem 8 baixos, mas ele toca em todos oito.”
Quem quiser se aprofundar no estudo dele não tem porta de
entrada melhor do que o livro de Léo Rugero,
Com Respeito aos oito baixos – Um estudo etnomusicológico sobre o estilo
nordestino da sanfona de oito baixos (“Prêmio Produção Crítica em Música”, Funarte,
2012 / Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2013).
Léo Rugero, paulista criado no Rio
de Janeiro, pesquisador musical da UFRJ, mergulhou nessa colônia nordestina de sanfoneiros e puxadores de
fole, produzindo este livro repleto de informações preciosas, e um documentário
homônimo que pode ser visto na web.
O blog de Rugero, Sanfona de 8 Baixos, pode ser acessado aqui:
“A volta do sanfoneiro” (Philips, 1961)
Nascido em 1933 em Lagoa Seca, na época pertencente ao
município de Campina Grande, Zé Calixto foi filho de tocador, tal como
aconteceu com Luiz Gonzaga, e desde pequeno acompanhava o pai nos bailes rurais
onde este tocava. Mudou-se para o Rio em 1960 e conseguiu sua primeira gravação
intermediado pelo compositor Antonio Barros, outro recém-chegado naquela imensa
leva pós-Gonzaga, pós-Jackson do Pandeiro, quando os estúdios cariocas ficaram
repletos de tocadores, cantores e ritmistas gravando discos modestos que
vendiam como água.
Aqui, um programa da TV Paraíba, em duas partes, criação de Rômulo
Azevedo, onde Zé Calixto conta com o bom humor de sempre a sua odisséia
nordestina:
“A Paraíba e Seus Artistas” (Rômulo Azevedo)Parte 1:Parte 2:
Dominguinhos + Luizinho Calixto:
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
4521) Minhas canções: "Caldeirão dos Mitos" (8.11.2019)
Tenho visto alguns livros muito interessantes em que compositores explicam como foram criadas algumas de suas canções mais conhecidas, o processo de composição, as circunstâncias, como foi gravada a música...
Tenho alguns volumes da série de Ruy Godinho Então, foi assim? e o livro de Paulo
César Pinheiro Histórias das Minhas
Canções (LeYa).
Pensei comigo: está aí um bom assunto para escrever de
vez em quando, porque mesmo quando as músicas não sejam grande coisa (tem as
que são, e as que não são), às vezes a história lança alguma luz sobre processos
criativos em si, sobre o meio musical, sobre um momento da História, e tudo
isso interessa.
Minha primeira música gravada foi “Caldeirão dos Mitos”,
que Elba Ramalho incluiu no seu segundo disco, Capim do Vale (1980). Foi composta, como a maioria das músicas que
faço sozinho, em duas fases: primeiro a melodia, depois a letra.
A melodia era muito antiga, era dos anos 1970, quando
voltei de Belo Horizonte para Campina Grande e passava o dia inteiro pegado com
o violão, redescobrindo o forró e a cantoria de viola. Se bem que essa melodia,
especificamente, era anotada em meus caderninhos com o título provisório de “I
wanna sing this all together”, verso que misteriosamente se transformou, anos
depois, em “Eu vi o céu à meia-noite”.
Esse título não era pra valer, aliás era meio chupado de
uma canção dos Rolling Stones, acho que em Their
Satanic Majesties Request, mas na época em que fiz essa música eu ouvia
muito umas bandas menores, que tocavam no rádio. Uma delas era o Mungo Jerry,
com uma canção brincalhona e simpática chamada “In the Summertime”:
Uma pessoa com o mais rudimentar conhecimento musical vai
dizer que as duas músicas não têm nada a ver uma com a outra, e este é um dos
mistérios da criação artística. Ela se dá por uma cadeia de associações de
idéias com saltos tão grandes que na quarta ou quinta parada já não se tem a
menor noção de como aquilo começou.
A única coisa clara para mim era que não haveria a tal
“segunda parte”, que é uma coisa da MPB e da música fonográfica em geral. Eu
queria o modelo da canção folk: estrofe musical única, com sucessivas letras
nas mesmas notas. É o modelo “Asa Branca”, é o modelo que o folk-rock
norte-americano, Bob Dylan à frente, empregava, bebendo nas canções irlandesas
e escocesas trazidas pelos colonizadores.
No São João de 1978 eu morava em Salvador, e não tinha
grana para ir passar a festa junina em Campina Grande. Me veio a idéia de fazer
uma música falando em São João, mas a primeira frase que me veio à mente foi “o
Apocalipse de São João”. (Olha aí como funcionam as associações de idéias!).
Essa imagem me trouxe à mente o céu pegando fogo, a qual
de imediato me lembrou uma espécie de trocadilho que eu já tinha usado antes,
em mais de um contexto: o fato de que “corisco” quer dizer relâmpago, e
“lampião” quer dizer candeeiro, ou seja, duas coisas que produzem clarão dentro
da noite. Estava pronta a primeira estrofe:
Eu vi o céu à meia-noite
se avermelhando num clarão
como o incêndio anunciado
no Apocalipse de São João
porém não era nada disso
era um corisco, era um lampião.
O que faz o compositor preguiçoso? Exatamente o que eu
fiz: pega a estrutura da primeira estrofe e a repete, com outros elementos, sem
introduzir nenhum conceito novo. O conceito da canção (que eu poderia, se
quisesse, ter expandido para 200 estrofes) era: “Eu vi uma coisa assim-assim;
não era tal-e-tal-coisa da Bíblia; era tal-e-tal-coisa do Sertão”.
Claro que o conceito não é seguido de forma totalmente
rígida, me permiti introduzir aqui e ali uns elementos destoantes (Inglaterra,
Paris, Japão), mas é isso mesmo. O dono do poema é o poeta. Ele não precisa
obedecer a regra nenhuma, nem mesmo a que ele acabou de criar. Georges Perec,
um obsessivo criador de regras, pregava o conceito de “clinâmen”, e dizia:
“Crie uma regra super rigorosa, e a obedeça da maneira mais fanática; depois,
num ponto escolhido com cuidado, desobedeça essa regra. Produza voluntariamente
uma exceção, num ponto onde seria facílimo ter continuado a fazer como antes.”
O primeiro título que dei à música depois de pronta,
pegando como deixa a estrutura “eu vi isso, eu vi aquilo”, foi “Visão do
Mundo”. Tá vendo como é bom continuar procurando uma segunda idéia?
Toquei essa música em público pela primeira vez em 1979,
numa coletiva de compositores baianos no Teatro Castro Alves repleto, na qual
entrei por obra e graça de Zelito Miranda, com quem eu estava compondo bastante
na época. Eu não tinha coragem de subir no palco, mas ele praticamente me
arrastou até o microfone e disse: “Vai, Galo, agora canta essa porra.”
Na primeira versão a música não tinha o “riff” entre as
estrofes, que depois ficou característico, o “tãrãrã -- tãrãrã”. Este foi
criado algum tempo depois, quando eu estava no Recife ensaiando para um show
que fiz com outro parceiro, Zé Rocha. Ele gostava da música mas achava que era
meio repetitiva (e é), era preciso dar uma encorpada nela com alguma coisa
instrumental e diferente, já que a gente ia tocar com banda. E na hora mesmo do
ensaio eu fiz o rasqueado veloz, 3+3 notas, que foi logo incorporado.
Cantei muito essa música em palco de bar e em mesa de
bar. Em 1979, Elba Ramalho levou para a Bahia seu show Ave de Prata, no lançamento desse seu álbum de estréia, e se apresentou
no Teatro Vila Velha, acompanhada pela Banda Rojão (Zé Américo, Guil Guimarães,
Joca, Marcos Amma, Élber Bedaque).
Falou que queria gravar alguma coisa minha. Eu mostrei o
“Caldeirão”, ela disse: “Me mande numa fita! É genial, vou gravar com certeza”.
(Eu levaria alguns anos para perceber que ela diz isso com toda música minha,
mas só grava de vez em quando.)
A música foi gravada para o segundo disco dela pela CBS, Capim do Vale (1980), e acabou sendo a
música de abertura do Lado A, uma honra impensável para um compositor
desconhecido que estava tendo uma canção gravada pela primeira vez. Ainda mais
num disco que trazia Sivuca, Alceu Valença, Zé Ramalho, Pedro Osmar, Elomar...
Quando o disco saiu, toda vez que chegava gente querendo ouvir
“o disco novo de Elba”, eu tirava o vinil de dentro da capa e checava toda vez o
selo pra ver se meu nome continuava lá.
A gravação de Elba produziu um arranjo perfeito, com
levada de arrasta-pé (que eu chamo de “marcha-quadrilha”), e a ótima idéia de
começar com a música “solta”, sem ritmo, somente voz e sanfona se erguendo
lentamente em meio às percussões, e só depois a banda atacando completa no
“tãrãrã -- tãrãrã”. E no meio da canção,
quando fala “Era um fole de 8 baixos a tocar numa noite de forró”, a
intervenção agilíssima de Abdias.
Aqui, a gravação original:
domingo, 29 de abril de 2018
4342) Dez álbuns: 4 - Jackson do Pandeiro (29.4.2018)
Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.
O desafio inicial era falar de um álbum por vez. Como quem
manda sou eu, baixo uma Medida Provisória e afirmo que estas três coletâneas de
Jackson do Pandeiro formam um único disco. Se me apontarem um revólver à cabeça
para eu dizer em qual dos três fica uma música qualquer, podem apertar o
gatilho: não sei. Para mim, constituem uma totalidade inconsútil, um continuum.
E eles guardam a nata, o filé, a flor do coco da obra do
mestre Jack, mesmo sabendo que ele tem outros álbuns sensacionais e jóias
espalhadas por toda a sua discografia. Mas estes três discos não são álbuns no
sentido de “obra inteira”: são coletâneas, empacotamento conjunto de sucessos
que em sua época saíram de 2 em 2, na forma de discos de 78 rotações.
Se alguém me pagasse eu escreveria um livro inteiro sobre
este repertório, mas como é de graça vou fazer como os vendedores de amendoim-torrado
da Cinelândia: deixo uma derramadinha grátis e sigo em frente.
Ouvindo faixa por faixa, uma atrás da outra, a gente
percebe a variedade de ritmos e de levadas que Jackson malabarizava em seus
discos.
Veja-se por exemplo a cadência implacável das percussões
conjuntas de “Casaca de Couro” (Rui de Morais e Silva), sem perder um
microssegundo de compasso, ajudada pelo canto staccato do coro (tão preciso e
marcante quanto o de “Na base da chinela”), justificando plenamente o grito de
“ô serviço!” do cantor. Sem falar nas rasgadas lamentosas do clarinete,
assinatura eterna desta faixa.
Não é só marcação pesada, é a sutileza. “Tem mulher, tô
lá” é um xotezinho divertido, mas seu carimbo é a suspirada da sanfona depois
do “tem mulher...”.
“Peneirou Gavião” tem esse paralelo visual (a famosa fanopéia)
entre o movimento do gavião planando (peneirando) no ar e o movimento da
peneira com a massa da mandioca. E tem um verso de pé-quebrado (faltando uma
sílaba), “Filozinha gritou”, que o cantor encaixa magistralmente no ritmo sem
deixar traço.
Acho que já se escreveu muito sobre “Cantiga do Sapo”,
com seu “Tião – Ôi...”.
Quem já morou perto das lavanderias do Alto Branco já
ouviu de longe esse coro dos sapos à noite, um perguntando, outro respondendo,
coro que foi glosado por Manuel Bandeira ao satirizar a cena literária carioca
(“Os sapos”, em Carnaval), e que
Moacir Laurentino imortalizou numa sextilha:
Acho bonito o sertão
quando o chão está molhado:
um sapo faz “ôi” daqui,
outro “ôi” do outro lado,
parecem dois violeiros
cantando um mourão voltado.
E um “diálogo” também imitado no refrão entre o coro
masculino e o feminino, e depois nos floreados do clarinete e da sanfona.
Acho que uma das primeiras músicas de Jackson que vieram
catalogadas como “samba” foi “Falsa Patroa”, uma música de malandragem digna de
Moreira da Silva:
Doutor delegado, eu não tive culpa,
foi a sua criada que me convidou,
doutor, dizendo que o apartamento era dela
me pegou pelo braço para jantar com ela...
O senhor compreende, viu doutor?
A cabrocha é boa... Eu fiquei iludido
até pensando que ela fosse a patroa.
Olha só a distância psicossocial que existe entre músicas
rurais e ingênuas como “Moxotó” e uma música como esta, tipicamente de Copacabana
ou Botafogo nos anos 1950, com seu exército invisível de empregadas domésticas descolando
um PF para um paraíba amigo, na ausência dos donos da casa. Seu lado B deveria ser
o “Xote de Copacabana”, que já cantei mil vezes em mesa de bar: “Eu vou voltar, eu não aguento, o Rio de
Janeiro não me sai do pensamento”.
Sem falar que nesta faixa aparece por duas vezes uma
marca registrada de Jackson: o tratamento “nego véi”, com que ele se dirigia a
todo mundo.
Ainda na coletânea O
Rei do Ritmo tem pelo menos três faixas com uma coisa curiosa na música
nordestina de então: a canção de briga, que seria um equivalente ao funk proibidão ou gangsta rap de hoje em dia. A música que fala de sururu, briga,
quebra-pau entre bêbados ou entre eles e a polícia.
“Forró em Caruaru” (Zedantas):
“Matemo dois soldado, quatro cabo e
um sargento; compadre Mané Bento, só faltava tu!”
“Cabo Tenório” (Rosil
Cavalcanti): “Os caba de lá quiseram lhe bater, e ele gritou: Vixe! Vai ter
confusão. Balançou a mão, deu murro e bofete, tomou canivete, peixeira e
facão...”
“O crime não compensa” (Genival
Macedo / Eleno Clemente): “Antigamente eu só andava bem armado, uma peixeira,
um revólver e um punhá, tinha uma foice bem vazada dos dois lados, o maior
prazer da minha vida era matar”.
Essas músicas passariam hoje nas censuras? Tanto a
censura do policialmente errado quanto a censura do politicamente correto?
Cartas para a redação. Sociologicamente, elas são reflexo de um tumulto social
permanente entre polícia, gente pobre querendo se divertir e gente perturbada
querendo perturbar. Canções são acusadas de “fazer apologia” da violência, mas
eu vejo tais canções como crônica, jornalismo, documento, retrato da vida real
de quem canta e de quem ouve.
E nem vamos nos espalhar no resto do repertório
jacksoniano, com “Forró do Surubim”, “A Lei da Compensação”, “Forró em
Limoeiro”, “Pacífico Pacato” e tantas
mais.
Essa é a única realidade do forró? De jeito nenhum.
Violência tem no rock, tem no samba. Briga em salão tem nos Clubes que reúnem a
fina-flor da nossa sociedade, quando um grupo de playboys resolve tomar as
dores do filho de Doutor Fulano cuja noiva foi desacatada por alguém. (Eu já vi
muita mesa e muito litro de uísque voando pelo ar, nas tertúlias dos nossos
sodalícios.)
Saindo dos forrós urbanos e suburbanos, Jackson lembra
também o baião rural, coco rural, sei lá que classificação etnomusicológica se
dá a isso.
Como por exemplo a beleza que é “Coco do Norte” (Rosil
Cavalcanti):
No coco do Norte tem caracachá,
zabumba, ganzá, poeira do chão,
coqueiro fazendo improvisação,
compadre e comadre seguro na mão;
batendo umbigada com palma de mão...
“Isso assim é coco, nunca foi baião”, diz o próprio
estribilho da música. E outro retrato rural que vai fundo é o de “Êta baião”
(Marçal Araújo):
Como é bonito ver, no alto sertão,
os violeiros rasqueando a prima com bordão...
Os cabras fazem desafio
rima sem perder o fio
e assim nasce o baião... Êta baião!
São os velhos batuques de cem anos atrás, as festas de
fazenda em que se misturavam a dança ao som das percussões e os improvisos ao
som da viola, antes que as duas modalidades se separassem para seguir carreiras
independentes.
É o universo de Dona
Guidinha do Poço de Oliveira Paiva, de Luizinha
de Araripe Jr., de tantos livros de época que registraram essa origem comum de
nossa criação musical e poética. O tronco de onde brotaram Pinto do Monteiro e
Jackson do Pandeiro.
terça-feira, 10 de junho de 2014
3521) Meu São João (10.6.2014)
Meu São João espiritual começou na quarta-feira dia 4, no XIII Forum de Forró em Aracaju. Três dias de palestras, debates e shows, tendo como homenageados este ano Antonio Barros & Cecéu (PB), Zé Calixto (PB), Edgard do Acordeon (SE) e Rogério (SE). O Forum se realiza todos os anos na capital de Sergipe, e foi lá, em edições anteriores, que tive a alegria de bater longos papos com Almira Castilho (ex-parceira de Jackson do Pandeiro), Carmélia Alves (a Rainha do Baião), Dominguinhos, Onildo Almeida, D. Iolanda (viúva de Zé Dantas), o pesquisador cearense Nirez, o compositor João Silva e muitas outras pessoas ligadas ao mundo da música nordestina.
O São João para nós, nordestinos, é uma espécie de Copa do
Mundo musical que dura um mês inteiro. Uma febre de festas que se estende por
trinta dias e que no fim nos larga numa cama, extenuados e felizes. A festa é a festa e se justifica por si só;
mas a vida não é somente a festa. É trabalho também, e não devemos esquecer que
quando estamos bebendo e dançando, bem satisfeitos, aqueles músicos em cima do
palco estão trabalhando. Estão se
divertindo, também, mas sobrevivem daquilo (ao contrário de nós) e é do
interesse deles todos que, assentada a poeira da festa, tenha havido algum tipo
de proveito profissional para isso tudo.
Vai daí que o Forum do Forró é um espaço onde se discutem as
questões artísticas e profissionais do forró. O que é o forró? Quais os estilos musicais que ele
inclui? Quem são os grandes criadores,
e que tipo de parâmetros eles deixaram para nós? O forró pertence ao ano inteiro ou só ao São João? O forró de hoje ainda é rural ou já é todo
urbano? Como conviver com as “bandas de
forró eletrônico” que arrancam cachês milionários das prefeituras do
interior? O que fazer com
instrumentistas geniais que não arrastam multidões gigantescas mas são os
responsáveis pela manutenção da tradição e pelo alto nível técnico do gênero?
sexta-feira, 24 de maio de 2013
3194) Troféu Gonzagão (24.5.2012)
(Antonio Barros & Cecéu)
Estive em Campina para assistir a cerimônia do V Troféu
Gonzagão, que o pessoal chama “o Oscar do forró”. Os homenageados principais deste
ano foram Sivuca (in memoriam), Genival Lacerda e a dupla Antonio Barros &
Cecéu. Houve também a entrega de troféus para o cineasta Breno Silveira
(Gonzaga – de pai pra filho), Chico César, Assis Ângelo, Fred Ozanam e Onaldo
Rocha (autor de Baião em Crônicas). Durante mais de quatro horas, passaram
pelo palco (acompanhados por uma firmíssima banda de apoio, com o maestro
Adelson Viana) cantores como Alcimar Monteiro, Pinto do Acordeon, Fagner, Cezinha,
Flávio José, Biliu de Campina, Josildo Sá, Trio Nordestino, Ton Oliveira,
Capilé, Elba Ramalho... Lamento, a lista completa iria preencher sozinha esta
coluna. O prêmio é uma iniciativa de Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso, realização
do Centro de Ortodontia Integrado e FIEP/SESI, com apoio dos governos estadual
e municipal, UEPB, Sandálias Havaianas e Duraplast.
Essa ficha técnica aí em cima é importante para dar uma
medida não apenas do evento em si, mas da força e vitalidade do forró
pé-de-serra, cujo “estado terminal” vive sendo anunciado há muitos anos, tanto
pelo pessimismo de alguns dos seus defensores quanto pelo otimismo de seus inimigos.
Cada vez que o mundo dá uma volta aparecem manchetes dizendo que o forró está
morrendo, mas na volta seguinte o forró aparece de novo, vivinho da silva. Me
lembra a situação do cordel, descrita uma vez por Ariano Suassuna: “Aqui no
Recife tinha um sujeito que dizia o tempo todo que o cordel tinha morrido.
Quando ele morreu, escreveram um cordel em homenagem a ele”.
Não faltam talentos ao forró: milhares de músicos, compositores
e cantores vivem dele. Não lhe faltam história nem tradição. Sua principal
concorrente, a Lambada, se auto-intitula “forró eletrônico” – um duplo
equívoco, pois nem é forró nem explora a fundo os recursos eletrônicos (que,
aliás, qualquer gênero musical usa hoje em dia, com exceção talvez do Canto
Gregoriano). Quais as maiores qualidades desse adversário? A Lambada é uma
música alegre, sensual, boa de dançar? Pois o forró é tudo isso e muito mais.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
3032) Luiz Wanderley (16.11.2012)
Seguindo uma dica de Gerdal José
de Paula, incansável pesquisador da MPB, relembrei as canções de Luiz Wanderley
(1931-1993), um dos forrozeiros que fizeram sucesso na minha infância e
adolescência, e depois foram esquecidos (inclusive por mim). Wanderley era
alagoano, e quem não ligou o nome à pessoa deve lembrar de um dos maiores
sucessos dele, principalmente na voz de Tim Maia: “Coroné Antonio Bento” (com
João do Vale). O link fornecid0 por Gerdal (http://bit.ly/XBLGhF)
é da gravação original da música, em que a noiva se chama Mariá (e não
Juliana), e há mais uma estrofe, que Tim Maia não cantou: “Meia-noite o Bené se
enfezou/e tocou um tal de rock and roll /os matutos caíram no salão/não
quiseram mais xote nem baião/e que briga se falasse em xaxado/foi aí que
eu vi que no sertão/também tem uns matutos transviados."
LW fazia parte da linha litorânea
e coquista da música nordestina; era mais Jackson do que Gonzagão. Suas
cantigas têm ritmo seguro e marcado, versos de embolada, breques bem quebrados,
melodia ágil e variada que sua voz segura e melódica valoriza. “Saudade de Leopoldina”, “Ai que vontade de
comer goiaba”, “Bode cheiroso”, “Coco do Gogó da Ema”, “Baiano burro nasce
morto” (“O pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto / baiano burro garanto
que nasce morto”. Esta última canção serviu de modelo para “Mineiro sabido”
(1960); este clip de chanchada dá uma idéia do jeito mungangueiro de Wanderley
(http://bit.ly/UEOrs7).
Os anos 1960 viram a pororoca
gigantesca entre o baião, que predominava em nossas rádios, e a invasão do rock
norte-americano. Uma canção como “Rock do Sedaka” (que atribui a invenção do
rock a Neil Sedaka!) é uma sátira divertida dessa época (como já era “Coroné
Antonio Bento”), inclusive com piadas para “Elvis Prego” (http://bit.ly/W5EkOj). Veja-se também
“Carolina”, talvez uma resposta brasileira ao “Corrina, Corrina” que Ray Peterson
tornou famosa em 1960 (http://bit.ly/QEcU55).
sexta-feira, 22 de junho de 2012
2903) Zédantas (22.6.2012)
Estou
lendo Zédantas segundo a letra I, publicado pelo Memorial Luiz Gonzaga
(Recife, 2010), com a longa entrevista da D. Iolanda Dantas, viúva do grande
parceiro do Rei do Baião.
Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas.
Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta.
No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão). Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.
Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas.
Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta.
No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão). Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.
Quando
viajava a Pernambuco, levava um gravador de rolo de 14 kg e trazia de volta
para o Rio dezenas de fitas com cantorias, aboios, toadas e forrós, que usava
como base para suas composições em seu apartamento na Av. Pasteur, onde
acordava cedinho e ficava compondo, olhando a Baía da Guanabara.
Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse.
O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.
Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse.
O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.
Era médico
obstetra, e por causa de dores nas costas tomou muitos remédios à base de
cortisona (um medicamento novo na época), que prejudicaram sua saúde.
Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego.
Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.
Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego.
Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.
domingo, 22 de maio de 2011
2563) Os Gafanhotos do Forró (22.5.2011)

(The Locusts, de Mary Boxley Bullington)
Eles não gostam de forró, não gostam de música. A única música que lhes faz bem aos ouvidos é o tilintar de uma caixa registradora. Entraram no ramo musical em busca de uma massa consumidora fácil de mobilizar, com intensa divulgação boca-a-boca (gratuita, portanto), e a simpatia imediata de todos os que sobrevivem da própria capacidade de mobilizar multidões: políticos, agências de publicidade, etc. Música feita para 500 pessoas não lhes interessa. É um investimento desproporcional de tempo, para faturar pouco dinheiro. Só lhes interessa lidar com públicos de 5 mil para cima.
Os Gafanhotos do Forró querem colocar no palco algo que tenha resposta imediata. O povo gosta de ver mulher pelada? Vamos colocar mulheres nos mais diferentes graus de peladice, uma vez que nuas mesmo não pode ser. Saia curta, malha cor da pele, calcinha de fora, calcinha jogada para a platéia. O povo gosta de pornografia? Vamos fazer letras chamando palavrões, falando de sexo o tempo inteiro. O povo gosta de ridicularizar o vizinho? Beleza, vamos fazer músicas ofendendo todo tipo de pessoa, assim qualquer ouvinte escolhe a música que dá certo com a pessoa que ele quer ridicularizar (e o outro faz o mesmo com ele, claro).
O povo gosta de dançar. Mas como dançar forró não é para qualquer um, usa-se aquele ritmo que é uma diluição de elementos do próprio forró, da lambada, do carimbó, da salsa. Adaptam-se, da gafieira e de outras danças de salão, passos simples que qualquer dançarina principiante consegue reproduzir no palco com alguns dias de treino, dando às moças da multidão lá embaixo a sensação de que elas também conseguem reproduzir. Na verdade, nem precisa que as mulheres da platéia dancem tão bem quanto as do palco: basta que estejam de saia bem curtinha e calcinha de fora. O que é mais fácil de conseguir do que saber dançar.
Os Gafanhotos do Forró abordam candidatos a prefeito em 5 mil cidades do interior. Comprometem-se a fazer “x” shows de graça na campanha do candidato, com a condição de que, se eleito, ele contratará “x” shows dos Gafanhotos do Forró durante todos os anos de sua gestão. Além do mais, o pagamento do cachê dos Gafanhotos é sempre em dinheiro vivo, de modo que parte dele pode ficar na mão de quem faz o pagamento, e uma mão lava a outra.
Os Gafanhotos do Forró combatem, a ferro e fogo, o forró que tocava nas festas juninas de alguns anos atrás, o forró de Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, etc. Não porque tenham medo de sua concorrência. Combatem o forró porque todo impostor que rouba os documentos, a aparência e a identidade de uma pessoa real só descansará quando essa pessoa estiver morta, e não possa ser vista em lugar nenhum. Enquanto o forró existir, estiver vivo e for tocado, os Gafanhotos do Forró não poderão dormir tranquilos uma só noite, não poderão gastar tranquilos um só centavo dos seus milhões.
terça-feira, 3 de maio de 2011
2546) As lições do frevo (3.5.2011)

Ao invés de comparar o forró com o forró-de-plástico, no entanto, ganharíamos muito comparando-o com o frevo pernambucano. Os gangsters que estão derrotando o forró não têm força contra o frevo. Por que? Eu diria que, por variados motivos, o frevo é uma comunidade musical unida, solidária e forte há mais de um século. Surgiu no meio urbano, entre comunidades suburbanas ligadas por uma profissão. O frevo surgiu de um movimento ao mesmo tempo espontâneo e organizado, popular e erudito. Popular pela origem social (classes trabalhadoras), erudito pelo grau de educação musical necessário para praticá-lo. Todo músico de frevo lê partitura desde cedo, e aprendeu a ler partitura tocando todos os clássicos do frevo, que são talvez milhares. O forró, por seu lado, brotou de comunidades rurais, distanciadas entre si, sem grande mobilização política ou social, sem uma preparação teórica e prática. O músico de forró típico é um autodidata, que toca de ouvido, sem ter passado por uma escola, e trabalha por conta própria.
O frevo se beneficia do fato de que as orquestras de frevo contam com grande número de músicos, dezenas às vezes, enquanto o forró se estilhaça em milhares de pequenos trios tocando na base do “cada um por si e salve-se quem puder”. O forró só teria a ganhar se hoje (estou dizendo hoje mesmo, no dia de hoje) houver uma ação coordenada entre os que o praticam (e os que gostam dele à distância, como eu) para que escolas de sanfoneiros sejam criadas e interligadas, ensinando a tocar por música. Quem é capaz de tocar por música toca qualquer coisa, e ganha liberdade para tocar o que quiser. A diferença de oportunidades entre um músico excelente que só toca de ouvido e um músico excelente que lê partitura é a mesma que existe entre um poeta excelente que não sabe ler nem escrever e um poeta excelente alfabetizado. Não se discute talento (e aliás talento não se ensina, não se planta, não se fabrica). O que se discute é: criação de oportunidades profissionais.
A melhor maneira do poder público comprar essa briga é dar aos forrozeiros, ao longo das próximas décadas, uma estrutura semelhante à que os músicos de frevo criaram para si próprios ao longo de um século, e que faz com que o frevo nunca pare de evoluir e ao mesmo tempo que clássicos de 50 ou 70 anos atrás continuem a ser tocados, a ser conhecidos e amados por todos. Centros Culturais públicos e privados, escolas de música, conservatórios, entidades rurais e urbanas, colégios público e privados, todos podem se reunir e traçar um projeto de ação que inicie agora o ensino da música, com ênfase no forró. Para que os garotos aprendam a tocar através das músicas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro ou Dominguinhos, assim como os músicos de frevo aprendem tocando os grandes frevos dos anos 1930 e 1940. Querem lutar? Organizem-se. Como se diz no Rio: enquanto o crime organizado fôr mesmo mais organizado do que os que o combatem, a luta está perdida.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
2543) O fim do forró (29.4.2011)

O ayapaneco, língua falada no México há muitos séculos, está ameaçada de sumir. Só restam dois índios que a falam com fluência. Um tem 75 anos, o outro tem 69, mas os dois são “intrigados”. Não se falam há muito tempo, e com isso o ayapaneco está em vias de extinção. Algo parecido está ocorrendo com o forró nordestino. Já foi a música mais tocada no país, no tempo de “Asa Branca”. Agora, está sendo suplantada por outros tipos de música que espertamente lhe tomaram o nome, invadiram seu território, colonizaram seu público. Se os falantes do forró não começarem a conversar e a tomar providências juntos, essa idioma musical deixará de existir. Ou melhor, haverá no Brasil inteiro uma coisa chamada “forró” atraindo dezenas de milhares de jovens para as festas. Mas – nomes à parte – aquele tipo de música não existirá mais.
O forró está sendo esmagado pelo chamado “forró de plástico”, que é uma musiquinha alegre, sacudida, boa de dançar, com letras bobas ou ruins com-força. É uma variedade da lambada; recorre ao palavrão e a dançarinas seminuas, o que em princípio não é pecado, a não ser quando se torna (como é o caso) uma receita obrigatória e a principal atração. É duro assistir um show de uma hora onde a melhor coisa do show são as pernas das dançarinas, e as frases que fazem vibrar a platéia são apenas as que dizem palavrões (em geral insultando parte da platéia). Uma ou duas músicas assim... Vá lá que seja. O show inteiro? Quem ouve isso, e gosta, merece o que está escutando.
Além disso, o forró de plástico recorre a práticas que corroem há tempos nosso mercado musical. A primeira é o jabá (suborno de radialistas e de diretores de rádios), que tem dois tipos: o “jabá pra tocar minha música” e o “jabá pra não tocar de jeito nenhum a música de Fulano e Sicrano”. Ganhar concessões de rádios e usá-las para divulgar as próprias músicas é uma versão legalizada desse processo, mas é legal somente porque os critérios para concessões de rádios e TV no Brasil são uma calamidade. A grande imprensa combate, como se fosse o fim do mundo, a cópia não-autorizada de CDs ou o download gratuito de músicas. Por que não fala nos critérios de concessão de rádios e TVs, que são uma catástrofe ainda pior para o país?
O forró de plástico está criando a monocultura da produção de uma coisa única, repetida, uniforme. Monocultura é o contrário de cultura. Cultura é o reino da diversidade, das manifestações livres dos indivíduos e dos pequenos grupos. A monocultura é uma imposição de-cima-para-baixo, feita por um grupo que fabrica e vende uma música igual até que o povo não suporte mais a música igual mas não saiba mais como fazer a música diferente, e com isso as duas morrerão juntas. O forró de plástico destrói o forró e destruirá a si mesmo no futuro. Sua repetitividade e mau gosto esgotam em seu próprio público o prazer e o significado de ouvir música.
terça-feira, 26 de abril de 2011
2540) Valorizar o que é nosso (26.4.2011)

Esta discussão retorna ciclicamente na música popular, no cinema, na televisão, no escambau. Num mercado onde a disputa por espaço é na base do tapão-e-pontapé, um dia alguém percebe que uma porção de sujeitos de fora está invadindo um mercadozinho que antes era somente nosso. E pior, estão fazendo o maior sucesso, porque trazem algo diferente e parece que o nosso povo está gostando! Não interessa por que gosta. Pode ser porque os forasteiros tenham maior poder econômico. Pode ser porque tenham algum tipo de poder político e consigam acesso a canais (imprensa, verbas, espaços públicos, etc.) que os artistas locais não alcançam. Pode ser apenas porque são diferentes, e o povo gosta de novidades. Pode ser (hipótese terrível!) porque são melhores do que nós. Não importa a razão, a verdade é que quando essa ocupação começa a acontecer brota dos 256 pontos cardeais o brado: “Vamos valorizar o que é nosso!”.
Aqui estou eu, portanto, para trazer meus centavos de opinião. Vamos, sim, valorizar o que é nosso. Que não seja simplesmente porque é nosso, pois não vejo lucro em ficar com uma idiotice feita aqui e descartar uma coisa boa vinda de fora. Mas se os valores são iguais – besteira por besteira, ou coisa boa por coisa boa – até compreendo que a gente dê um crédito de confiança e uma injeção de incentivo à prata-de-casa.
Já vi esse filme nas velhas lutas cineclubistas dos anos 1970, quando queríamos forçar a exibição de filmes brasileiros num mercado dominado pelos norte-americanos (não mudou muita coisa em 40 anos). Vejo ainda hoje, nas festas de São João nordestinas, na briga do forró pé-de-serra contra o falso-forró avestruz-com-leite. Vi um filme parecido na época pré-globalização, quando havia reserva do mercado de informática para os computadores feitos no Brasil (lembram do COBRA?), e éramos impedidos de importar computadores e softwares estrangeiros. Vamos valorizar o que é nosso! Que frase importante. E problemática.
Algumas hipóteses em que vale a pena, sim, valorizar o que é nosso: 1) Quando o que é nosso, mesmo tosco, mesmo amadorístico, nos revela e nos retrata de uma maneira que nenhum gênio de fora conseguiria; 2) Quando o que é nosso surge numa rede de atividades que tende a nos transformar numa comunidade interligada de produtores culturais, e não de meros consumidores endinheirados do Produto Externo Bruto; 3) Quando o que é nosso serve, lá fora, de parâmetro para que seja julgado o nosso talento, os nossos valores, a nossa capacidade de sentir, de entender e de criar; 4) Quando os valores culturais retrocedem para um segundo plano e nos vemos naquela fase em que tudo não passa de uma briga de foice pelo domínio de um território, pela posse dos corações-e-mentes de um povo (que por acaso é o nosso!), e, na dúvida, melhor ocupar primeiro o território nosso com o produto nosso... e dar nesse produto nosso uma surra de “crítica construtiva” depois.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
2113) Se a moda pega (16.12.2009)
(Larry Ochs)
Deu no The Guardian, um jornal respeitável, portanto deve ser verdade.
(Caro leitor: a primeira parte desse trecho é provavelmente verdadeira, porque foi no saite do jornal que li a matéria, ou pelo menos num saite que se apresenta sob este nome, não sendo impossível que eu tenha sido direcionado a um falso saite homônimo que publica notícias pitorescas e inventadas.
A segunda parte é conjetura minha, porque ouço há tantos anos falar nesse jornal, e desde que surgiu a Internet fui tantas vezes nesse saite, que acabei produzindo em mim mesmo a noção de respeitabilidade do jornal, coisa com a qual não sei se os leitores ingleses, e os demais, concordariam.
A terceira parte deve ser imediatamente posta em dúvida, pois nem tudo é verdade que é publicado em jornais respeitáveis; eu próprio vivo a colecionar verdadeiros absurdos publicados naqueles que leio diariamente).
Se o parágrafo anterior lhe deu a impressão de um indivíduo em crise de crença, acertou. Certas notícias me dão a sensação de estar sendo vítima de uma pegadinha.
Já me ocorreu, nestes tempos internéticos, ir parar (para dar apenas um exemplo) num jornal científico onde li até o fim, fortemente impressionado, uma matéria onde se analisavam palavras em inglês, aparentemente sem sentido, que alguns cientistas, graças ao microscópio eletrônico, haviam descoberto gravadas nas espirais do DNA humano.
Uma descoberta que iria mudar toda a história da humanidade, e de fato a mudou durante os cinco minutos que levei para perceber que estava lendo uma espécie de Pasquim com paródias científicas. Portanto, como diziam os latinos... caveat, lector!
Toda esta cética introdução é para comentar a notícia (os mais céticos do que eu podem conferi-la aqui: http://tinyurl.com/y88knu8) do que sucedeu com o saxofonista Larry Ochs num festival de jazz na cidade de Sigüenza. A certa altura do show surgiu a Guarda Civil Espanhola para interpelar os organizadores. Segundo eles, um purista que estava na platéia resolveu chamar a polícia porque segundo ele “aquilo não era jazz”.
Os policiais escutaram alguns minutos do show e chegaram à conclusão de que havia, sim, certo fundamento na queixa do espectador. Criou-se então o bate-boca entre o fã ofendido, os organizadores e os policiais. O pessoal do Festival argumentou que Larry Ochs era um nome conhecido, seu som era de conhecimento público, e se o sujeito comprou o ingresso foi por sua conta e risco. O fã redarguiu que o médico lhe dissera ser “psicologicamente desaconselhável” para ele ouvir qualquer outro tipo de música que não fosse o jazz legítimo.
Tudo se encerrou sem maiores consequências, mas, segundo o jornal, Ochs passou durante alguns minutos por uma certa crise de identidade musical.
A pergunta agora é: Já pensou se a moda pega? Já pensou se alguém no Parque do Povo resolve ligar para a polícia e diz: “Venham aqui agora mesmo interromper um show! Isso não é forró nem aqui nem na Coréia!”
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