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sábado, 30 de agosto de 2025

5196) Luís Fernando Verissimo, 1936-2025 (30.8.2025)





O maior escritor brasileiro em atividade estava inativo há alguns anos, quando sofreu um AVC que agravou seu estado já debilitado pelo Mal de Parkinson. Não, não é esta a melhor maneira de começar um texto sobre uma pessoa tão pouco melodramática quando Luís Fernando Verissimo. 
 
Um cartunista, um saxofonista e um torcedor do Inter entram num bar e sentam no balcão. O barman pergunta: “O senhor vai querer o quê?”. Também não é a melhor saída. O pastiche é a mais avarenta forma de homenagem. 
 
Hoje é o dia em que todo sujeito como eu, que ganha (perde) a vida batucando num teclado sente-se no dever agradecido de pegar uma pedrinha qualquer na beira da estrada e vir colocá-la aos pés da deusa invisível que habitou aquele sujeito simpático e tartamudo. 
 
Devemos muito a ele aqui no Brasil, porque o fato de termos um DNA barroco não nos condena a afundar no barroquismo unânime. Precisamos do contrário, que não sei aqui como nomear, mas seria uma prosa com elementos de coloquialismo, maleabilidade, nitidez, simplicidade na-mosca, imprevisibilidade constante. 
 
A prosa de Verissimo tinha um segredo, que não revelarei aqui, mas era o mesmo segredo que fez os egípcios moverem aqueles blocos de granito como se fossem pacotinhos de algodão. Ele passou a vida fazendo isso diante dos olhos de todo mundo. 
 
Em algum texto antigo já me referi aos “começos-de-conto” de Verissimo e denominei esse modo de escrever “o estilo Saíram-Do-Bar-E-Foram-Andando”.   
 
Porque bastava a ele um pontapé-inicial desse tipo para se instalar, com 100% de credibilidade, ao volante da mente do leitor, e conduzi-lo para onde bem quisesse.
 
Saíram do bar e foram andando. De repente, João bateu com a mão no bolso traseiro da calça.
-- Minha carteira!  Perdi.
-- Perdeu não, idiota. Você deu de presente à garçonete, e nem foi à bonitinha, foi à que parecia com Robert de Niro.
 
Isso aí não é de Verissimo, claro, é meu, improvisei agora, para testar pela milésima vez o poder mágico desse mote inicial. Saíram do bar e foram andando! As palavras, especificamente, pouco importam. Basta que sejam capazes de invocar um portal de simplicidade e consenso. Perguntem a Nelson Rodrigues, a Fernando Sabino, a Mario Quintana. 
 
Em teatro e música existe um conceito que a gente chama às vezes de “presença de palco”. É um mini-carisma específico, uma magia-de-bolso que serve para aquilo e para nada mais; mas serve. A atriz surge no palco, avança alguns passos.  Antes que ela diga um oi, baixa o silêncio; todo mundo engole em seco e prende a respiração. 
 
Existe uma Presença ali, e essa presença dá credibilidade (ou seja, no dizer do poeta: Verdade e Beleza) a qualquer coisa que aconteça em seguida. 
 
Escrever é como discursar diante de um teatro repleto, mas com os olhos vendados. Nunca temos certeza de nada, mas é preciso exibir segurança em tudo.  A segurança de um dançarino de tango que já dá o primeiro passo sabendo o que vai fazer, e a segurança de um folião de rua que ao som do frevo começa a marcar o passo sem ter a mínima idéia do movimento que vai fazer em seguida. Existe uma equação do Tao embutida em tudo. Precisamos do Flexível capaz de se firmar, e do Firme que saiba fluir.   
 
Eu estava há pouco deslizando telas no celular e vendo nelas todas as mesmas Duas-Datas-Fatídicas, e o mesmo rosto bonachão e de óculos, com aquele meio sorriso de quem tenta se tornar invisível pelo mero esforço da vontade; e do-nada tropeço numa entrevista de George Martin, o quinto Beatle. 
 
Eu estava no estúdio quando me disseram: “Vamos trazer um grupo novo para você dizer se vale a pena produzir.” O nome era um nome brega, The Beatles, com A. Quando eles entraram... As canções eram banais, mas havia neles uma eletricidade, um carisma, uma presença... Quando eles saíram, eram como se alguém tivesse ido embora. E eu pensei: Se eu me senti assim, o público talvez se sinta também. 
 
Dou esse contra-exemplo porque Verissimo (disclaimer: nunca o encontrei pessoalmente) parecia fazer o possível para se esvaziar de carisma. Lembrava aquela conversa de Paulo Coelho, de que certas práticas da magia ritual tornam possível alguém cruzar um salão cheio sem ser visto por ninguém. 
 
Todo o carisma de Verissimo, por assim dizer, foi investido na sua escrita, como alguém que deposita todo o seu dinheiro no mesmo banco. 
 
Verissimo apostou todas as suas economias literárias (e eu acrescentaria: toda a sua herança, que não foi pouca) numa fórmula simples que não precisarei descobrir, porque Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio) já o fez por mim: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência. 
 
Nada disso vem às nossas mãos para cancelar ou desmentir o nosso lado barroco, onde habitam Guimarães Rosa, o Padre Vieira, Coelho Neto, Jorge de Lima, Ariano Suassuna, Osman Lins, Euclides da Cunha e outros igualmente imprescindíveis.  
 
A contrapartida da exuberância barroca é a escrita dos que limpam a prosa até deixar o osso alvejando, dos que com dois ou três riscos de tinta permitem ver uma catedral ou uma ninfa nua, dos que em três linhas de verso conjuram uma floresta invernal, dos que nas dez páginas de um conto embutem a biblioteca do absurdo. 
 
Precisamos do Muito que se apóia no Pouco, e do Pouco que contém o Muito. 
 
Numa homenagem ao mestre acontecida alguns anos atrás, amigos gaúchos (alô, Fraga!) me pediram uma colaboração, e enviei um texto, “Verissimo e a Marca do Zorro”, onde dizia: 
 
(...) Verissimo ganhava a gente (o leitor jovem) por diferentes motivos: o humor, o nonsense, a linguagem, as situações, a comédia humana... No meu caso, era isso tudo e mais uma coisa: o exemplo de uma escrita de destreza absoluta, capaz de jogar qualquer leitor dentro de qualquer situação com duas ou três linhas, às vezes menos do que isto.
 
Temos entre nós a tendência ao nariz de cera, ao prelúdio interminável, por isso eu admiro quem apresenta uma situação complexa “em rápidas pinceladas”, como se diria antigamente. Como Machado – que nem sempre fazia isso, mas quando o fazia parecia a espada do Zorro traçando um “Z” mais depressa do que o olho podia acompanhar. (...)
 
Duas ou três linhas; e a isca foi mordida. Mordi o anzol de Verissimo com vinte e poucos anos, e até hoje deixo que ele me leve para onde está indo. 
 




domingo, 22 de dezembro de 2024

5135) O orgulho do artesão (22.12.2024)



 
“Qual a diferença entre um artesão e um artista?”, pergunta uma piada antiga. E responde: “É que o artesão trabalha por dinheiro, e o artista trabalha por tesão.” 
 
Existe um prazer específico em produzir qualquer uma dessas coisas que chamamos de “obra de arte” – um livro, um filme, uma pintura, uma música... Mas esse mesmo prazer, ou algo equivalente a ele, pode ser obtido ao produzir objetos artesanais em série – bonecos de barro, de madeira, etc. 
 
Esse prazer não é exclusivo da arte, por certo. Um pedreiro tem prazer em contemplar uma parede perfeita, uma médica vê o resultado da cirurgia que fez e se orgulha, um “chef” vai às nuvens quando seu prato recebe um elogio especial... 
 
É um prazer que está ao alcance de muita gente, e por isso me surpreendo ao ver, de vez em quando, esse pedreiro, essa médica ou esse “chef” desdenharem a importância da obra de arte bem realizada. 




Uma das melhores narrativas sobre a criação artística é uma narrativa sobre culinária: A Festa de Babette (conto de Karen Blixen, ou “Isak Dinesen”, e filme de Gabriel Axel). Depois de oferecer um jantar extraordinário a um grupo de pessoas de gostos simples, Babette diz: “No mundo inteiro soa um grito que sai do coração de cada artista: Me deem a chance de fazer o melhor possível!...” 
 
Em outra obra, Contos de Inverno (Ed. 34, trad. Anna Olga de Barros Barreto), Karen Blixen amplia este exemplo, dizendo: 
 
“Vamos supor (...) que um fabricante de flautas faça uma flauta que nunca seja tocada por ninguém. Não seria uma vergonha e uma pena? Então, de repente, alguém pega e toca a flauta, e o fabricante ouve, e diz: “é a minha flauta”. (pág. 173)
 
O criador reconhece a sua criação (ou a sua criatura), porque ali existe algo de si próprio. A criação é ao mesmo tempo coletiva (é a ponta de uma longa linha de outras criações, que vem há gerações, há séculos) e individual, porque foi uma pessoa que, naquele exemplo específico, produziu algo de novo e pessoal numa linhagem de obras. 



Fazer bem feito, pouco importa o quê. Ítalo Calvino, com seu olho perceptivo para as contradições da vida, conta, na sua trilogia Nossos Antepassados: 
 
Em virtude de todos esses trágicos acontecimentos, o Mestre Pietrochiodo estava produzindo forcas cada vez mais engenhosas.Elas agora eram verdadeiras obras-primas de carpintaria e mecânica, assim como os cavaletes, os molinetes e outros instrumentos de tortura com os quais o Visconde Medrado extraía confissões dos prisioneiros. Eu ia com frequência à oficina de Pietrochiodo, porque era um bom espetáculo vê-lo a trabalhar com tanto afinco e entusiasmo. Mas pesava sempre uma tristeza no coração do velho carpinteiro. Os cadafalsos que ele produzia eram destinados a homens inocentes. “Como faço para conseguir encomendas de trabalhos assim, delicados, mas com outra função?! Que outros mecanismos poderiam me dar o mesmo prazer de construir?” Mas vendo que tais perguntas ficavam sem resposta, ele as afastava da mente e dedicava-se a construir seus instrumentos da maneira mais perfeita e engenhosa que podia.
 
-- Basta esquecer a finalidade a que se destinam – dizia-me, -- e olhar para eles como peças de mecanismo. Não são uma beleza?
 
Eu olhava para aquela arquitetura de traves, aquelas cordas entrecruzadas, cabrestantes conectados a roldanas, e tentava não ver corpos torturados presos àquilo, mas quando mais eu tentava mais me via pensando neles, e dizia a Pietrochiodo:
 
-- Como posso esquecer?
 
-- Pois é, meu rapaz – dizia ele. – Imagine eu.
 
(Italo Calvino: “The Cloven Viscount”, in Our Ancestors, Picador, trad. Archibald Colquhoun; pág. 22; edição original, 1951). (trad. BT)
 
Um orgulho contraditório, problemático, que me traz à lembrança o orgulho do protagonista da série Breaking Bad, Walter White, que se orgulha de produzir a metanfetamina mais pura e mais rigorosamente fabricada de todo o mercado das drogas do Novo México. 
 
“Fazer bem feito” é um critério que vai além da arte, mas tem tudo a ver com ela. Tem a ver também com o grau de humanização impregnado em qualquer matéria que tenha sido usada, modificada, trabalhada, desgastada pelo contato humano. 
 
Um livro muito lido, manuseado, meio amassado, cheio de frases sublinhadas e de anotações. Uma mesa de madeira exibindo círculos deixados por canecas de café e copos de bebida, riscos de facas, marcas de pancadas. Uma escada de pedra, desgastada por milhares de pés que por ali subiram ou desceram. 
 
São duas fases dessa relação amorosa entre a mão humana e os materiais da vida. A mão que pega o material bruto, sem forma, sem sentido, e lhe dá uma forma que pode ser para contemplação (uma escultura) ou para uso (uma cadeira), mas em todos os casos uma destinação que integra aquele material à vida humana. 
 
E, num segundo momento, a mão que usa, o corpo que usa e que desgasta o que outra mão criou. 



(Bertolt Brecht)

 
É o que fez Bertolt Brecht escrever, em “De Todas as Obras do Homem”:
 
De todas as obras do homem eu prefiro
as que têm marcas de uso.
As panelas de cobre com arranhões e bordas amassadas,
as facas e os garfos cujos cabos de madeira
foram desgastados por tantas mãos: formas assim
me parecem as mais nobres. Como as lajes em volta das casas antigas
pisadas por tantos pés, afundadas no solo,
e com tufos de grama brotando entre elas: sim,
essas são obras felizes. (...)



 
Primo Levi tem um livro inteiro dedicado ao ofício de produzir coisas materiais: A Chave Estrela (“La Chiave a Stella”, 1978). É uma série de capítulos quase independentes narrando sua convivência com Fausone, um operário que trabalha supervisionando (e pondo mãos à massa) a construção de pontes, viadutos, represas – obras em grande escala e que envolvem riscos de acidentes graves.
 
Em cada capítulo do livro Faussone conta para o narrador (um químico, que se presume ser o próprio Levi) algum trabalho complicado em que se meteu, os problemas que surgiram, as soluções encontradas, ou os prejuízos resultantes.
 
O amor ao próprio trabalho (infelizmente, o privilégio de uns poucos!) representa a melhor e mais concreta aproximação da felicidade na Terra. (...) Para exaltar o labor, nas cerimônias oficiais, emprega-se uma retórica insidiosa, baseada na noção de que uma louvação ou uma medalha custam menos do que um aumento de salário, e rendem mais frutos. Existe também uma retórica do extremo oposto, contudo, não propriamente cínica, mas profundamente estúpida, que tende a aviltar o trabalho, enxergando-o como algo inferior (...) como se alguém que sabe trabalhar fosse, por definição, um servo, e como se, ao contrário, alguém que não sabe executar um trabalho, ou sabe muito pouco, ou não quer aprender, fosse por essa razão um homem livre. (p. 79-80, trad. BT)
 
(The Wrench, Ed. Michael Joseph, London, 1987, trad. William Weaver)
 
O trabalho material é uma linguagem sem palavras capaz de conectar pessoas diferentes, de culturas e idiomas diferentes, de mundos diferentes. 
 
O roteirista Bo Goldman (Um Estranho no Ninho, A Rosa, Shoot the Moon, Perfume de Mulher, etc) diz que no começo de sua carreira profissional o melhor elogio que recebeu foi : “Bo, você sabe o que é uma coisa”. “You know what a thing is”. É uma maneira de dizer que o escritor nunca perde de vista o significado e a importância de tudo que temos à nossa volta. Tem um peso especial para quem escreve para o cinema – para quem é capaz de pensar em idéias universais, abstratas, e conseguir transmiti-las através de cenas onde elas se encarnam em coisas banais: um copo, um chinelo, um par de óculos. 
 
Quem sabe o que é uma coisa? Em princípio, quem é capaz de fabricar aquela coisa e disso extrair um certo prazer, um certo orgulho, uma realização profissional. E também quem é capaz de usar aquela coisa e reconhecer a quantidade de trabalho humano que foi necessário para produzi-la. 

 



quinta-feira, 21 de novembro de 2024

5125) As cidades invisíveis de Calvino (21.11.2024)

 


 

É um dos livros mais famosos e mais comentados de Ítalo Calvino, e é curioso que o seja, quando rompe com duas das convenções mais enraizadas da literatura de hoje: 

 

1) a de que um livro precisa ter um gênero nítido, definido (ser “um romance” ou ser “um livro de contos”, no caso); e 

 

2) a de que um texto de ficção precisa ser uma obra narrativa, com começo, meio e fim. 

 

As Cidades Invisíveis (Companhia das Letras, 1991, trad. Diogo Mainardi; edição original, 1972) se esquiva desses dois compromissos. É uma narrativa múltipla, auto-geradora, que brota de seu próprio centro, sem avançar na direção de um final. Não é uma narração, é um conjunto de descrições. 

 

Marco Polo descreve para Kublai Khan as cidades que encontrou nas suas viagens: esta é a narrativa-moldura que contém todas as outras, mas é uma narrativa que não se modifica, não “avança”, não contém conflito algum, nem desenvolvimento, nem resolução. Uma situação estática, de dois homens trocando idéias, e examinando exemplos – como se percorressem uma galeria de quadros, comentando cada um deles. 

 

Calvino subdivide o livro em várias categorias: “As Cidades e os Símbolos”, “As Cidades e a Memória”, “As Cidades e o Desejo”, etc.  São ao todo 55 cidades imaginárias, bizarras, surrealistas, fantasiosas, utópicas, sinistras... 



Sua enumeração faz do livro algo semelhante àqueles quadros de Brueghel onde o artista acumula, num mesmo espaço, lado a lado, exemplos de brincadeiras de crianças ou de ditados populares. São as “obras por agrupamento”, obras cuja natureza não é narrativa (=contar uma história), e sim descritiva ou enumerativa. 

 

Essa técnica de agrupamento deixa o livro numa oscilação permanente entre um “romance” e uma “coletânea de contos”, sem se definir claramente por nenhuma das duas fórmulas costumeiras. 

 

E no entanto, o livro é fascinante, é movimentado, tem sucesso junto ao público. Por que? 



(ilustração: Cecilia Reeve)

 

Um dos motivos, talvez o principal, é a riqueza da imaginação de Calvino, uma imaginação exuberante, variada, detalhada, que se realiza principalmente através de sugestões visuais vívidas, descrições capazes de valer por narrativas inteiras.  

 

No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera, vê-se uma cidade azul que é o modelo para uma outra Fedora. (p. 32) 

 

Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de que alguma coisa – sabe-se lá o quê tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar – entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte – e aquilo que é permitido – dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerar o cadáver dos parentes. (p. 17) 

 

A riqueza desses detalhes torna este livro equivalente àqueles quadros em que cada figura minúscula está pintada com verossimilhança anatômica, de atitude, de figurino; cada pequena ação congelada no momento sugere todo um enredo; e em cada um desses detalhes há algo de inesperado, de pitoresco, de absurdo, de característico... 



(ilustração: Pooja Patel)

 

Existe a enumeração incessante de cidades, e em cada cidade uma enumeração de pessoas, de lugares, de logradouros, de acontecimentos. O “formato” do livro não é, portanto, o de uma seta que parte do princípio até atingir o fim. Ele se assemelha a um cacho de bolhas, em que novas bolhas vão surgindo e crescendo, cada vez mais numerosas, mas sem uma direção, sem um fim em vista. 

 

As Cidades Invisíveis é, em tese, um livro que poderia ser indefinidamente prolongado, multiplicado, sem que se alterasse o seu formato, a sua estrutura interna. Uma estrutura composta por acréscimo, não por desenvolvimento. 



(ilustração: Karina Puente)

 

Eufêmia (As Cidades e as Trocas, 1) é a cidade onde se cultua a imaginação, onde basta um mote para gerar uma narrativa: 

 

À noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou em barris ou deitados em montes de tapetes, para cada palavra que se diz – como “lobo”, “irmã”, “tesouro escondido”, “batalha”, “Sarna”, “amantes” – os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarna, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade em que se troca de memória em todos os solstícios e equinócios.” (p. 38-39) 

 

Teodora (As Cidades Ocultas, 4) é a cidade que se dedica ao extermínio dos animais incômodos, em ondas sucessivas de chacinas: corvos, serpentes, aranhas, cupins, ratos, todas as espécies daninhas vão sendo liquidadas em massa, até desaparecerem por completo. Mas... 

 

“Relegada por longas eras a esconderijos apartados, desde que fora despojada do sistema das espécies agora extintas, a outra fauna retornava à luz dos porões da biblioteca onde se conservavam os incunábulos, saltava dos capitéis e dos canais, empoleirava-se no travesseiro dos dormentes. As esfinges, os grifos, as quimeras, os dragões, os hircocervos, as harpias, as hidras, os unicórnios, os basiliscos retomavam a posse de sua cidade.” (p. 145) 

 

Será exagero ver nisto uma “vingança” da literatura fantástica contra o realismo documental?... 




(ilustração: Eda Akaltun)

 

Cada cidade vale como metáfora ou alegoria de alguma coisa: algum processo mental, algum arquétipo coletivo, algum exagero bizarro, alguma demonstração pelo absurdo. 

 

As cidades de Calvino têm todas elas nomes de mulheres: Esmeraldina, Leandra, Irene, Cecília, Armila, Eudóxia... A certa altura o leitor brasileiro se depara até com uma Olinda (As Cidades Ocultas, 1). 



(ilustração: Leighton Connor)

 

Por que mulheres?...  Talvez porque as cidades são múltiplas, mercuriais; contraditórias, mas vivendo dessas contradições. Talvez porque sejam, alternada e simultaneamente, acolhedoras e inabarcáveis. Talvez porque digamos “minha cidade” como dizemos “minha mulher”, não como indicativo de posse, mas de amálgama. 

 

Cidades onde predomina um senso de justiça que muitas vezes não alcançamos, é ela que nos alcança e nos explica a nós mesmos, como em Berenice (As Cidades Ocultas, 5): 

 

“Na origem da cidade dos justos está oculta, por sua vez, uma semente maligna: a certeza e o orgulho de serem justos – e de sê-lo mais do que tantos outros que dizem ser mais justos do que os justos --  fermentando rancores, rivalidades, teimosias, e o natural desejo de represália contra os injustos se contamina pelo anseio de estar em seu lugar e fazer o mesmo que eles” (p. 147) 

 

Calvino tem uma imaginação fractal, no sentido de que cada detalhe de uma história sua é rico o bastante para sugerir um subtexto tão complexo quanto a história principal. Daí o sucesso deste livro. Percorrê-lo não é (como seria num romance convencional) acompanhar a vida de uma pessoa, é caminhar através de uma cidade. 


(ilustração: Sofia Correa) 

 

 

 





sábado, 3 de agosto de 2024

5088) Leituras 2024 - parte 2

 
Em geral faço no fim do ano estes pequenos balanços de minhas leituras, mas desta vez vou fazer diferente. Até porque quando chega dezembro tenho dificuldade para evocar detalhes de livros lidos nos primeiros meses... Enfim, vai ser desse jeito. 
 


“Um estranho tão familiar” de George Amaral (São Paulo: Bandeirola, 2023)

Dentro dos estudos sobre literatura fantástica, este ensaio de George Amaral usa o conceito de “estranheza” para comparar as estratégias narrativas de diferentes gêneros literários. Em capítulos claros e bem argumentados, vemos a “ostranenie” dos formalistas russos, o “distanciamento brechtiano” no teatro, o “uncanny” (“Unheimlich”) estudado por Freud, o “estranhamento cognitivo” com que Darko Suvin definiu a ficção científica... Em todas essas formas, a tentativa de “acordar” o leitor/espectador de sua modorra mental, fazê-lo ver algo familiar como se o estivesse vendo pela primeira vez, fazê-lo perceber, por uma nova contextualização (que no caso da FC pode envolver mudanças bruscas no Tempo e no Espaço) a verdadeira dinâmica dos fatos. 



 “Giacomo Joyce” de James Joyce (Paris: Gallimard, 1973, trad. Yves Malartic)

Oscar Wilde dizia ser capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação; eu não resisti quando vi na barraquinha de livros da Praça Afonso Pena esta tradução francesa da noveleta romântica de Joyce, pelo preço bastante acessível de 3 reais. “Giacomo Joyce” é uma narrativa compacta, cheia de um lirismo distanciado, com olhos de lince para detalhes do ambiente e dos gestos humanos. Foi escrita entre 1911 e 1914, antes que o autor embarcasse no gigantesco projeto do Ulisses, e conta a paixão reprimida de um autobiográfico professor de inglês, em Trieste, por sua jovem aluna judia. Mais que uma narrativa é o registro impressionista de quadros sucessivos em que o professor rumina consigo mesmo seu encantamento pela “flor inodora” com quem convive. “Giacomo Joyce” já foi traduzido no Brasil por Paulo Leminski (Ed. Brasiliense, 1985) e por José Antonio Arantes (“Folhetim”, Folha de S. Paulo, 10-6-1984). É um pequeno camafeu, comparado à catedral do Ulisses, cheio de delicadas belezas e de surpresas intrigantes. 



“Riacho escuro” de Marta Pessoa (Sete Autores, 2024)

A literatura sertaneja se confunde às vezes com o gênero das “sagas familiares”, que se pratica em todos os continentes. Histórias de uma família ao longo de décadas e gerações; às vezes ao longo de séculos. Marta Pessoa (“Zignau”, “É Tempo de Cuidar”) é sertaneja e conhece de perto o peso desses vínculos de sangue, cartório, terras, lealdades, paixões e ódios. “Riacho Escuro”, seu primeiro romance, começa com o desaparecimento do filho de um fazendeiro e vai entrelaçando, ano após ano, uma rede de intrigas, vinganças, segredos e revelações. A prosa é segura e precisa, a ambientação é fiel sem carregar nas tintas do “nordestinismo”. Alguns dos segredos revelados são cruéis, mas como diria algum personagem, cruel é a vida. 



“Memorial do Esqueleto e Outros Contos” de Aldo Lopes de Araújo (Natal: Offset / Sebo Vermelho, 2024)

Aldo Lopes é contista e romancista no mesmo tecido e no mesmo corte. Igualmente à vontade na ambientação urbana e na rural, no realismo lógico e no realismo mágico, ele faz do Sertão um terreno fértil para o insólito, o grotesco, o brutal. Neste seu mais recente volume de contos, ele remexe no baú-sem-fundo das histórias de assombrações, superstições, maldições de família, onde reescreve episódios incrustados em nossa memória cultural, desde Machado de Assis (“Uns braços”) à Bíblia (“Estátuas de Sal”, “Adeus, Deus”). “A maldição de Princeza” é um gótico sertanejo arrepiante; “Memorial do Esqueleto” traz uma versão meio fescenina da lenda do homem que vende o próprio esqueleto antes de morrer. Duas histórias curtas têm uma concisão e um peso verbal admiráveis: a que abre o livro (“O gancho do teu braço em meu pescoço”) e o que o encerra (“Arquivos dos portais”). 



“Se um Viajante numa Noite de Inverno”, de Ítalo Calvino (1979; Círculo do Livro, s/data, trad. Margarida Salomão)

Este é um livro que sozinho rende um ano de Mundo Fantasmo, e certamente voltarei a ele no futuro. Calvino é um fabulador, bom contador de histórias, e consegue fazer um livro cheio de conceituações sobre o ato de escrever sem torná-lo um livro chato. Aqui, ele realiza seu sonho confesso de fazer um livro só feito de começos de livros. Um casal de leitores se depara com um livro misterioso cujo meio-e-fim estão sempre faltando, e cada vez que adquirem uma cópia se deparam com o “começo” de um novo livro, que também não acaba. Calvino discute fake news (sem usar esse termo – o livro é de 1979), literatura eletrônica, tradução, picaretagens editoriais, idiomas em desaparecimento, a arte da narrativa... Um livro para passar a vida relendo. 



“Traduzir-me”, de João Batista de Brito e Sérgio de Castro Pinto (João Pessoa: Idéia, 2024)

Este volume feito a quatro mãos é uma aventura tradutória de João Batista de Brito, crítico de cinema com respeitável carreira e vários livros publicados. Ele fez uma seleção de poemas de Sérgio de Castro Pinto, outro nome indiscutível nas letras paraibanas, e os verteu para o inglês. Os versos de Sérgio, curtos, sintéticos, extremamente concisos, parecem à primeira vista fáceis de traduzir.  Ledo engano, diz João Batista, porque o jogo de polissemias, que é uma das marcas características do poeta se esvai o tempo inteiro na tradução, onde dificilmente se pode encontrar uma palavra que contenha em si as mesmas duas faces. Ainda assim, o tradutor encontra caminhos e produz versões agudas, sólidas. Falei que era um livro a quatro mãos mas poderia dizer seis, porque um terceiro amigo se faz presente, o artista Flávio Tavares, com uma série de desenhos inspirados (não sei se todos) nos poemas escolhidos. O jornalista e poeta Astier Basílio assina o prefácio, o que torna este pequeno volume um instantâneo da cultura da Paraíba neste começo de século.  



“A exumação do corpo de Maria Saraiva de Araújo – Tramas e intrigas na Vila Nova de Pombal do século XVIII” de Jerdivan Nóbrega de Araújo (João Pessoa: Idéia, 2024)

A cidade de Pombal é, na Paraíba, uma das que têm sua história, memória e cultura mais bem documentadas, graças a um punhado de historiadores e memorialistas como Jerdivan Nóbrega de Araújo, José Tavares de Araújo e Werneck Abrantes. Em parceria ou isoladamente eles vêm cobrindo sem cansaço o passado histórico da cidade, seja numa visão geral da evolução desta, seja no registro de fatos e vultos específicos. “A exumação...” é o relato fascinante de um possível crime ocorrido em 1784, com a morte de Maria Saraiva, esposa do capitão-mor Francisco de Arruda Câmara, um potentado local com muito poder e numerosos inimigos. Depois de sepultada a defunta, brotaram boatos de que ela teria sido envenenada pelo marido, o que deu motivo para um inquérito, a convocação de dezenas de testemunhas e a exumação do corpo da suposta vítima. A reconstituição minuciosa feita por Jerdivan Nóbrega se apoia na transcrição de documentos da época e na comparação de fatos e depoimentos para extrair uma versão plausível dessa morte misteriosa, que já tem quase dois séculos e meio. É uma mistura de reportagem de crime real  e reconstituição histórica, mais um episódio fascinante (às vezes brutal) e bem documentado do passado da cidade sertaneja. 

 

 

 



quarta-feira, 27 de março de 2024

5046) Curso: "As propostas de Ítalo Calvino" (27.3.2024)




Para quem se interessa por cursos de literatura online: estarei realizando mais um, entre 4 de abril e 9 de maio (nas quintas-feiras), através da plataforma Zoom, para o Instituto Estação das Letras (RJ). 
 
Serão seis aulas, das 19 às 21:00, abordando as propostas feitas por Ítalo Calvino sobre a literatura do próximo milênio – este em que estamos agora. 
 
Em 1985, quando morreu, Calvino estava preparando seis conferências que iria proferir na universidade de Harvard (EUA), no projeto conhecido como “Norton Poetry Lectures”. Um ótimo projeto, inclusive do nosso ponto de vista de leitores distantes. Não assistimos as palestras, mas tempos depois chega às nossas mãos um livrinho com esses textos, como This Craft of Verse de Jorge Luís Borges, Seis Passeios pelo Bosque da Ficção de Umberto Eco, Os Filhos do Barro de Octavio Paz, e este precioso volume de Calvino. 
 
As “Norton Lectures” são sempre seis conferências. Cinco de Calvino chegaram a ser escritas, mas ele morreu antes de redigir a última, da qual só nos restou o título. 



(Seis Propostas Para o Próximo Milênio, Companhia das Letras,1990, trad. Ivo Barroso)
 
 
O nosso curso de seis aulas vai dedicar cada uma delas a um dos temas propostos pelo escritor de Se Um Viajante Numa Noite De Inverno, de Cidades Invisíveis e de As Cosmicômicas. 
 
Calvino foi um dos escritores mais populares e mais experimentalistas de seu tempo. O experimentalismo literário costuma produzir obras difíceis de ler, ou pouco entusiasmantes. Não é o caso dele: Calvino tem um temperamento parecido com o de Julio Cortázar, cujas experimentações narrativas estavam sempre envolvidas em histórias capazes de atrair o leitor e prender sua atenção até o final. Ele consegue contar uma história envolvente enquanto reflete “em voz alta” sobre os mecanismos da contação de histórias.  Seu livro de maior sucesso de vendas, Se Um Viajante Numa Noite de Inverno (1979) é exatamente isto. 




Pensando no terceiro milênio ainda distante, Calvino enumerou seis idéias que ele queria discutir. Sua análise é muito ampla, recolhendo exemplos e modelos de diferentes formas artísticas. Logo na introdução ele explica: 
 
É típico da literatura italiana compreender num único contexto cultural todas as atividades artísticas, e é portanto perfeitamente para nós que, na definição das “Norton Poetry Lectures”, o termo “poetry” seja entendido num sentido amplo, que abrange também a música e as artes plásticas; da mesma forma, é perfeitamente natural que eu, escritor de fiction, inclua no mesmo discurso poesia em versos e romance, porque em nossa cultura literária a separação e especialização entre as duas formas de expressão e entre as respectivas reflexões críticas é menos evidente que em outras culturas. (p. 9) 
 
É uma advertência necessária, num contexto acadêmico onde a especialização e o foco excessivo são talvez superestimados. Calvino avisa logo que não vai falar somente do romance, a arte que praticou com mais constância: vai puxar exemplos da pintura, da poesia, dos quadrinhos, de onde ele possa obter uma referência ou uma influência, e criar uma interface com outra forma de expressão que (como todos sabemos) se reflete na literatura. Escritor bebe de todas as águas. 
 
E vamos aos temas.



1) Leveza
 
Calvino explica que existem “duas vocações opostas” na literatura:
 
Uma tende a fazer da linguagem um elemento sem peso, flutuando sobre as coisas como uma nuvem, ou melhor, como uma tênue pulverulência, ou, melhor ainda, como um campo de impulsos magnéticos; a outra tende a comunicar peso à linguagem, dar-lhe a espessura, a concreção das coisas, dos corpos, das sensações. (p. 27) 
 
Essa comparação entre dois impulsos opostos lembra uma comparação semelhante feita por Isaac Asimov num artigo famoso, “O Vitral e a Vidraça” (“The Mosaic and the Plateglass”). Para Asimov, existem duas linguagens: uma que é como um vitral de igreja, uma obra bonita em si mesma, que só exibe e só revela a si mesma; e existe uma linguagem que é como a vidraça: invisível, discreta, que serve somente de veículo para mostrar o que está acontecendo na história. 
 
A formulação de Asimov é compreensível, mas simplória – ele esquece que por mais “invisível” que pareça ser a linguagem ela não “mostra” a história. A história é criada por ela, e ela parece invisível somente porque é convencional, familiar, já devidamente assimilada pelo público-alvo. A gente lê “sem perceber que está lendo”. 
 
Calvino busca imagens da leveza que vão para além da linguagem em si. Ele lembra que Perseu, que usa sandálias aladas (presente de Hermes, o deus “Mercúrio”), é o único herói que consegue matar a Medusa (que tudo petrifica). Comenta que em A Insustentável Leveza do Ser o autor Milan Kundera está realmente falando sobre “O Inelutável Peso do Viver”. Avisa que o mundo de hoje, o mundo da Informática, “repousa sobre entidades sutilíssimas”: tudo é muito leve, muito fluido, e o peso do hardware é controlado pela leveza do software. 
 
E ele faz uma recomendação, citando Paul Valéry, que acho preciosa: “É preciso ser leve como o pássaro, não como a pluma.” 



2) Rapidez
 
Do ponto de vista físico, a leveza parece quase a mesma coisa que a rapidez, mas vamos pensar nesta frase de Valéry aí em cima. A pluma é leve mas é vagarosa, “precisa que haja vento sem parar” (como dizia Vinicius de Moraes); o pássaro tem impulso próprio, por isto é rápido. 
 
Calvino (organizador de uma excelente coletânea de Fábulas Italianas) usa lendas e contos populares para mostrar a importância das narrativas baseadas em “uma rápida sucessão de fatos”, uma prosa vapt-vupt, concreta, nítida: 
 
O segredo está na economia da narrativa em que os acontecimentos, independentemente de sua duração, se tornam punctiformes, interligados por segmentos retilíneos, num desenho em ziguezagues que corresponde a um movimento ininterrupto. (p. 48)
 
Toda narrativa é uma compressão temporal dos fatos. Toda narrativa é resumo. Mesmo a mais preguiçosa das narrativas, a mais tediosa, a mais baseada em encheção-de-linguiça, é mais rápida do que os fatos que narra. O tempo é sempre comprimido pela literatura. E o tempo literário é uma sanfona, é preciso saber distendê-lo e depois comprimi-lo.
 
E uma advertência meio dolorosa tanto para os principiantes quanto para muitos autores de “alta literatura”:
 
Todos conhecemos a desagradável sensação que se prova quando alguém pretende contar uma anedota sem ter jeito para isso, confundindo os efeitos, principalmente a concatenação e o ritmo. (p. 51)
 
Um comentário específico de Calvino nos lembra um aspecto crucial do Repente, da Cantoria de Viola, do verso improvisado em geral, o verso feito em tempo real, em cima da hora:
 
“A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela.  Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.” (p. 58)



(Ivanildo Vila Nova)
 
 
3) Exatidão
 
Calvino define este aspecto com clareza:
 
Para mim, exatidão quer dizer principalmente três coisas: 
1)      Um projeto de obra bem definido e calculado; 
2)      A evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis; temos em italiano um adjetivo que não existe em inglês, icástico (...); 
3)      Uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (p. 71-72) 




Ele faz em seguida uma análise de um trecho de Leopardi, o grande poeta italiano que dizia: “A linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for”. Ele transcreve um belo trecho em prosa em que Leopardi louva a beleza do luar quando não é visto diretamente, e sim em seus reflexos nos objetos, ou por entre obstáculos parciais (um canavial, uma floresta). No fim, Calvino comenta: 
 
Para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado (...), para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem. (p. 73)
 
Nesse capítulo Calvino fala da influência, em sua obra, de linguagens como a Matemática e a Geometria, onde convivem a precisão e a indefinição, onde os processos de análise acabam nos conduzindo ao conceito de infinito, de dízimas periódicas, de contas que sempre deixam resto (como o número Pi), como que nos dizendo que a exatidão absoluta é impossível de obter. 
 
E ele contrapõe duas imagens desse conceito: o cristal, uma forma estática, e a chama, uma forma imprecisa, móvel, mas igualmente clara e contida em si mesma – nítida e exata, à sua maneira. 




4) Visibilidade
 
Este capítulo começa com uma citação de Dante, na Divina Comédia: “Poi piovve dentro a l’alta fantasia” (“Chove dentro da alta fantasia”, Purgatório, Canto XVII). Calvino acha que a fantasia, o sonho, a imaginação, a alta poesia, a ficção, são espaços onde as imagens “chovem”. 
 
Ser capaz de imaginar visualmente é a marca de muitos grandes escritores. Talvez não todos; mas o escritor que é capaz de fazer projetar “um filminho” na cabeça do leitor tem meio caminho andado para conquistá-lo. 
 
Calvino observa dois processos criativos distintos: “o que parte da palavra para chegar à imagem visiva e o que parte da imagem visiva para chegar à expressão verbal”. Ele comenta o caráter atemorizante da imagem e o fato de que em muitas religiões é proibida a representação visual de Deus (ou até mesmo da Natureza física). A imagem tem algo de sagrado e inacessível ao verbo, à razão. 
 
Calvino confessa pertencer ao time dos que usam uma imagem visual (às vezes absurda, bizarra, inusitada) como ponto de partida para um conto ou um romance inteiro. Assim surgiu, por exemplo, sua trilogia Nossos Ancestrais: um homem cortado verticalmente em duas metades, um homem trepado em árvores recusando-se a pisar no chão, uma armadura que anda e fala sem ter ninguém dentro. 
 
Neste Capítulo ele rende homenagem às histórias em quadrinhos, à pintura e à literatura fantástica, que tenta “capturar a alma do mundo numa única figura”. 



(M. C. Escher, "Print Gallery") 
 
 
5) Multiplicidade
 
Calvino era um erudito que quando ia escrever deixava a erudição no bolso do paletó. Lia literatura de todo tipo. Escreveu uma ficção científica (As Cosmicômicas; Tau Zero) que não tem similar em lugar algum; talvez alguns textos de Stanislaw Lem, Robert Sheckley ou R. A. Lafferty. Tinha a volúpia da leitura e a da escrita. 
 
Ele diz:
 
O tema desta minha conferência (...) é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. (p. 121) 
 
Sempre recorrendo a exemplos italianos, ele comenta a obra de Carlos Emilio Gadda, onde “cada objeto mínimo é visto como o centro de uma rede de relações de que o escritor não consegue se esquivar, multiplicando os detalhes a ponto de suas descrições e divagações se tornarem infinitas”. 
 
Há toda uma tendência na literatura contemporânea desse romances em que deve caber tudo. Thomas Pynchon, Neal Stephenson, David Foster Wallace – escritores de real talento e razoável sucesso popular -- são alguns exemplos dessa literatura cujo objetivo não parece ser apenas o de descrever a realidade, mas de fagocitá-la por inteiro. 




Por outro lado, quando Calvino se refere a “romance enciclopédico” não quer dizer necessariamente que o autor deva despejar tudo que sabe dentro do livro que está escrevendo, produzindo esses monstrengos de 1.200 ou 1.500 páginas que a gente vê por aí. Mesmo num livrinho mais fino, de meras 150 páginas – como o seu Cidades Invisíveis –  ele deve ser capaz, a qualquer momento, de puxar, de qualquer área do saber humano ou da arte humana, aquela imagem de que precisa, a referência que esclarece, o mito que re-emerge, a peripécia que puxa o tapete. 
 
O romance não tem obrigação de conter tudo, mas tem licença para receber qualquer coisa. Sem limitação de “gênero literário”, de convenção de época, de modismo da imprensa ou da academia. 
 
O autor simpatiza com esse ímpeto gargantuesco: 
 
A literatura só pode viver se se propõe a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de realização. Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura continuará a ter uma função. (p. 127) 
 


(Ítalo e Esther Calvino)


6) Consistência
 
Em 6 de setembro de 1985, Ítalo Calvino foi internado no Hospital Santa Maria Della Scala, em Siena, onde morreu na noite de 18 para 19, com uma hemorragia cerebral, aos 61 anos. Não chegou a escrever a última conferência, a que dera o título de “Consistência”. Sua esposa Esther Calvino afirma que ele dissera apenas que deveria fazer uma referência ao Bartleby, o Escrivão (1853) de Herman Melville.
 
O que teria dito Calvino a respeito? Podemos apenas conjeturar, e acho que é um prazer fazer conjeturas – sem nenhuma ambição de “bater o martelo” – no contexto da obra e do pensamento de alguém com tanto gosto pela literatura.
 
 
O Curso:
“As seis propostas de Ítalo Calvino”
Braulio Tavares
Seis aulas, online (via Zoom), das 19:00 às 21:00
Sempre às 5as.feiras, de 4 de abril a 9 de maio.
(Perdendo a aula ao vivo, o aluno inscrito tem acesso, depois, a uma gravação.)
Informações:
Instituto Estação das Letras (Rio de Janeiro)
(21) 99127-4088






sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

5030) "O Barão nas Árvores" (9.2.2024)




Ítalo Calvino é um dos grandes fabuladores do nosso tempo, um desmentido vivo àquela falsa dicotomia que opõe os “contadores de histórias” aos “estilistas”, ou a “literatura de enredo” à “literatura de estilo”. Calvino é mestre nas duas. 
 
O Barão nas Árvores (1957) é o segundo livro de uma trilogia que inclui O Visconde Partido ao Meio (1952) e O Cavaleiro Não-Existente (1959). 
 
Este último já comentei aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4938-o-cavaleiro-nao-existente-352023.html
 
O Barão é, nos primeiros parágrafos da história, apenas um garoto, filho da aristocracia rural da Ligúria (noroeste da Itália), que na hora da refeição recusa-se a comer um prato que lhe desagrada, bate-boca com os pais, foge pela janela, pendura-se nos galhos de árvore mais próxima e jura de pés juntos que nunca mais pisará no chão, em sinal de protesto. E o faz. 
 
Cosimo passa a viver de galho em galho, como Tarzan, saltando pelos cipós, dormindo em forquilhas confortáveis. Nos primeiros capítulos, enquanto a família se desespera e tenta negociar, Calvino explica como o rapaz, que é inteligente cheio de recursos, resolve durante os meses seguintes os seus novos problemas de sobrevivência – comida, dormida, higiene, roupas, etc. 




Daí em diante são muitas as aventuras. Um escritor contemporâneo (leitor dos manuais que nos pressionam a “fazer suspense”, “obrigar o leitor a virar páginas com rapidez”, etc.) passaria a inventar situações cada vez mais melodramáticas em que o rapaz estivesse a ponto de ser forçado a botar o pé no chão, mas escapasse por um fio. 
 
As situações até se apresentam – perseguições armadas, lutas contra piratas, amizade com salteadores, invasão do exército francês... Até mesmo um encontro pessoal com Napoleão Bonaparte, o imperador em seu cavalo e Cosimo no seu galho. Mas a essa altura o leitor nem se interessa se ele vai descer ou não. O autor impôs, com seu estilo de narrar, um novo conceito de normalidade. Não queremos saber se Cosimo “vai voltar” ou não. Ele criou uma nova regra para o mundo em que vive. 
 
A história é narrada na primeira pessoa pelo irmão mais novo de Cosimo, o que permite um certo distanciamento muito útil. Quando algum detalhe da história não se encaixa direito, ou quando falta uma explicação, o narrador simplesmente diz: “não sei como aconteceu, há várias versões” – e estamos conversados. 



(ilustração: Yan Nascimbene) 
 

É uma história ambientada na virada do século 18 para o 19 (acompanhando os mais de 60 anos da vida de Cosimo), e tem um formato aparentado aos “contos filosóficos” daquele tempo, semelhança ainda maior quando pensamos que o Barão Cosimo, acima de tudo um estudioso, se corresponde com Voltaire, Rousseau e outros intelectuais da época.
 
Ele se torna, inclusive, autor de um Projeto Constitucional para uma Cidade Republicana, com uma Declaração dos Direitos do Homem, Mulheres, Crianças, Animais Selvagens e Domésticos, incluindo Aves, Peixes e Insetos, e toda a Vegetação, sejam Árvores, Legumes ou Grama. 
 
Calvino, como já falei, é um grande contador de histórias, e indivíduos com esse talento geralmente sabem extrair uma história de cada personagem que lhes passa pelo teatro da mente. Os membros da família de Cosimo Rondò vão sendo apresentados ao longo da narrativa, e cada qual tem sua cena, seu episódio marcante, antes que o narrador retorne à vida do tarzã-da-Ligúria.


 
O argumento do livro lembra um pouco aqueles indivíduos imprevisíveis que um belo dia tomam uma decisão meio gratuita, meio absurda, mas mantêm-se fiéis a ela pelo resto da vida. É o velho pai de “A Terceira Margem do Rio” de Guimarães Rosa, que embarca numa canoa e passa seu resto de vida remando à toa, na água, sem falar com ninguém e sem voltar à terra firme. É o “Wakefield” de Nathanael Hawthorne, que um dia não volta para casa, apenas desaparece, e durante vinte anos fica espreitando de longe a esposa e vendo como ela reage ao seu desaparecimento. É o “Bartleby” de Herman Melville que, do dia para a noite, prefere não fazer nenhuma das tarefas que o patrão lhe atribui, no escritório. 
 
Essas venetas repentinas, que podem parecer sintoma de loucura, correspondem, no seu rigor e na sua gratuidade, a certas “contraintes” (“constrições, limitações auto-impostas”) que um escritor pode impor a si mesmo, e que são um elemento fundamental do pensamento do grupo de que Calvino fez parte, a OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle, “Oficina de Literatura Potencial”). 



(ilustração: Yan Nascimbene) 


Os membros da OuLiPo (Calvino, Georges Perec, Raymond Queneau, Jacques Roubaud, Harry Matthews e outros) consideravam que uma liberdade plena acarreta uma frouxidão plena, e que a criatividade do autor é estimulada e potencializada quando ele impõe para si mesmo uma regra arbitrária, inventada, sem nenhuma razão-de-ser aparente, mas apega-se a ela e procura criar a obra escrupulosamente dentro desses limites. 
 
É o que faz o Barão Cosimo. “Nunca mais pisarei no chão!” – e por mais de cinquenta anos ele vive de galho em galho, ali ele mora, namora, dorme, passeia, trabalha, ajuda a apagar incêndios, ajuda a organizar uma resistência armada durante a guerra. Ali ele estuda e escreve obras filosóficas; e essa limitação auto-imposta torna-se parte de sua personalidade, de sua biografia. A tal ponto que depois de certa altura seria impensável um Cosimo caminhando no chão, pelas alamedas do castelo da família. 
 
Seu universo se reorganiza de forma a ter como centro a folhagem das árvores, as quais felizmente são abundantes naquela região. Mas o narrador, a certa altura, conta como ele, chegando aos limites de suas propriedades, se depara com um espaço vazio, não-arborizado: 
 
Esse descampado, para Cosimo, era uma visão que o enchia de desconforto. Tendo vivido sempre em meio à vegetação espessa de Ombrosa, com a segurança de poder chegar a qualquer lugar seguindo seus próprios caminhos, bastava ao Barão ver diante de si um espaço vazio e intransponível para ser tomado por uma sensação de vertigem.
(The Baron in the Trees, Picador, trad. ing. Archibald Colquhoun, trad. port. BT)
 
Em Viagem ao Centro da Terra, Jules Verne fazia seus personagens, antes de descerem ao mundo subterrâneo, subirem à torre da igreja para tomar “lições de abismo”. A lição de abismo de Cosimo é horizontal. Não haver árvores, para ele, equivale a não haver chão. É um espaço inacessível que lhe causa terror; um não-espaço. 



(ilustração: Yan Nascimbene)
 

O irmão-narrador confessa:
 
Eu acompanho o noticiário, leio livros, mas eles me desnorteiam, o que ele tinha para dizer não se encontra ali, porque ele compreendeu alguma coisa a mais, alguma coisa que abrangia tudo, e ele não conseguia explicar isso com palavras: somente vivendo como vivia. Somente sendo tão autenticamente ele mesmo, como meu irmão o foi até sua morte, ele poderia deixar alguma coisa para todos os homens. 
 
Em seu clássico Cidades Invisíveis, Calvino enumera dezenas de cidades fantásticas e a certa altura sugere que a humanidade sonha com uma espécie de “cidade contínua” onde todas se misturam; algo disso já existe nas grandes metrópoles de hoje, onde espaços de serviços se repetem (aeroportos, supermercados, shopping centers, hotéis, etc.) de tal modo que podemos mudar de cidade sem mudar de ambiente. Cosimo criou para si uma cidade contínua feita de diferentes bosques, diferentes jardins, diferentes matas selvagens, mas seu universo era definido pela existência ou não de árvores. 
 
Para os que entendem inglês, aqui há uma simpática sessão de leitura e debate, em que o ator Richard Gere lê trechos de The Baron in the Trees, e depois debate a obra com Giovanna Calvino, filha do escritor. 
 
https://www.youtube.com/watch?v=BYx5VkYf7eY