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terça-feira, 9 de outubro de 2012

2996) Infinitamente complexo (7.10.2012)




O ser humano, dizem alguns autores, existe numa escala que fica exatamente no meio do caminho entre as maiores estruturas físicas conhecidas (chamadas as Muralhas de Galáxias) e as menores (as partículas subatômicas, como os quarks).  Calculando as proporções desses dois extremos, o mundo em que existimos está situado bem no meio do caminho. Ou talvez — aí já é especulação minha – isso não passe de uma limitação inevitável do nosso ponto de vista.  Sempre estaremos exatamente no meio do caminho entre quaisquer macro e micro-universos que viermos a perceber, olhando para cima e olhando para baixo.

Outra coisa interessante: as leis físicas que governam o grande Universo e o universo sub-microscópico são parecidas. Tanto os cosmólogos (que estudam a formação das estrelas e galáxias) quanto os físicos-de-partículas (que estudam a estrutura do átomo) usam uma Física que trabalha com as mesmas leis, regras, forças básicas que governam a matéria. Mas esse domínio é muito diferente deste em que nós existimos. A Física Quântica, p. ex., e as leis da Relatividade, não têm muito a ver com esse mundo real onde existem pessoas, casas, livros, computadores e latas de cerveja (perdão pela descrição – é do meu mundo que estou falando). Nosso mundo é governado por uma Física raríssima no Universo, a Física de Galileu e de Isaac Newton, mas já descobriu a existência de outra Física, mais formatada pela nossa percepção. Só no fim do século 19 começamos a perceber que na escala Macro e na escala Micro as leis eram diferentes, ou melhor, somente nessas escalas percebíamos certas sutilezas.

Teilhard de Chardin, o jesuíta arqueólogo que foi silenciado pelo Vaticano pelo atrevimento de ter idéias científicas (e homenageado por autores de FC como George Zebrowski e Dan Simmons), tem uma imagem interessante a este respeito.  Dizia ele que o ser humano está nesse limite entre o Infinitamente Grande e o Infinitamente Pequeno – e que essa dimensão em que vivemos pode ser chamada o Infinitamente Complexo.  É como se no mundo dos aglomerados de galáxias e no mundo dos quarks e do bóson de Higgs funcionassem apenas ciência como Física e Química.  O Universo, como um todo, é meramente físico.  E nesta área intermediária onde estamos ocorre o fenômeno da vida, da matéria orgânica, e tudo que deriva dela: plantas, animais, pessoas, linguagem, civilização, ciência, religião, filosofia, psicologia, artes.  Inventamos dezenas de Ciências (além da Física, que pode ser considerada a ciência da base do Universo) para estudar e tentar entender tudo que acontece apenas em nosso estreitíssimo domínio. 


quinta-feira, 25 de junho de 2009

1128) Coincidências (26.10.2006)




Entre 1999 e 2000, o escritor Paul Auster coordenou um programa de rádio nos EUA onde ele lia colaborações enviadas pelos ouvintes. Ele pedia histórias verídicas, com a condição de que fossem histórias que desafiassem “nossas expectativas sobre o mundo”, episódios que revelassem “as forças misteriosas e desconhecidas que movem nossas vidas”. 

O livro resultante chama-se True Tales of American Life, e foi publicado no Brasil como Achei Que Meu Pai Fosse Deus (Companhia das Letras, 2005). É um livro para se ter por perto, abrir ao acaso, ler uma historieta e ficar pensando.

Fiz isto hoje e me deparei com “Land of the Lost”, enviado por Erica Hagen, da Califórnia. Diz ela que alguns anos antes de ser professora trabalhou como atriz, e apareceu num seriado de TV chamado “Land of the Lost”. No episódio em questão, a protagonista era uma garotinha, e Erica fazia o papel da mesma personagem, já adulta, que viajava de volta no Tempo e aparecia a si mesma para avisar que estava em perigo. 

Anos depois disto, ela resolveu fazer um passeio até Burma, na Malásia. Conheceu Rangun, Mandalay e outras cidades. Um dia, estava visitando um templo budista e entabulou conversa com um cavalheiro local, muito culto, que falava excelente inglês. Ele lhe serviu de cicerone no templo, explicando-lhe detalhes da cultura local.

Ao chegar a hora do almoço, o cavalheiro convidou Erica a almoçar em sua casa. Chegando lá, ela foi apresentada à família. E a neta do cavalheiro, uma menina de oito ou nove anos, declarou de repente: “Eu conheço você!” 

Foi lá dentro e trouxe um daqueles antigos aparelhinhos chamados TeleVisex, uma espécie de binóculos onde se colocam discos de papelão com fotos estereoscópicas. Um desses discos era sobre o seriado “Land of the Lost”, e lá estava Erica, numa das cenas do filme.

O dono da casa tinha trabalhado como marinheiro num navio mercante. De passagem por Nova York, comprou aquele aparelhinho para a neta. Anos depois, Erica resolve ir a Burma, vai ao mesmo templo que o avô da menina, os dois travam amizade, ele decide convidá-la para almoçar, ela aceita... O relato dela acaba assim: 

“O mais espantoso de tudo foi a reação daquela família. Não ficaram nem um pouco surpreendidos. Uma vez que tinham minha foto, acharam perfeitamente natural que o Destino acabasse por me trazer até a sua porta”.

Este assunto pode ser encarado de muitas maneiras, e escolherei uma. 

Existem dois tipos de pessoas. Para o primeiro tipo, os fatos, os acontecimentos da vida, são linhas divergentes, que partem do mesmo ponto central e se afastam sem parar. Estas pessoas acreditam, por exemplo, que o Universo foi criado com um Big Bang. Sob esta premissa geométrica, só é possível que duas linhas se cruzem se uma força externa, visível, interferir sobre elas. 

E o segundo tipo acredita (com Teilhard de Chardin) que “tudo que se eleva para as alturas converge para um mesmo ponto”.