Mostrando postagens com marcador Osama Bin Laden. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Osama Bin Laden. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de maio de 2011

2550) Obama vs. Osama (7.5.2011)



Depois da execução sumária de Osama Bin Laden num aparelho subversivo instalado numa cidade do Paquistão, saiu na Internet: “Não confunda Obama com Osama. Um deles é o líder de um grupo terrorista. O outro está no fundo do mar.” A morte de Bin Laden não foi muito diferente de morte de Carlos Marighella ou de Carlos Lamarca, dois dos mais famosos terroristas brasileiros. Terroristas, em geral, escolhem morrer mediante uma execução sumária, impiedosa. Eles sabem disso. Foram eles que impuseram, aos regimes que combatiam, as regras do combate. As regras dos terroristas são sempre adotadas pelos governos que os perseguem. Essas regras envolvem: violência planejada; desprezo pelas tecnicalidades jurídicas e pelos preceitos constitucionais; ação rápida, implacável, cruel; intensa participação da mídia, para que o maior número possível de pessoas saiba o que aconteceu; retórica bombástica, salvacionista, sempre invocando princípios abstratos e clichês com que pessoas de mente rudimentar podem se identificar sem muito esforço.

Isto é posto em prática tanto pelos insetos quanto pelos descupinizadores; vale para as “almas sebosas” e para os “justiceiros”. O terrorismo não pertence ao universo da política, pertence ao universo da literatura de terror. Seu objetivo não é substituir um governo por outro, um partido por outro, um regime por outro. Seu objetivo é produzir o terror. Acho que todo mundo conhece aquela fábula do escorpião que pede carona a um sapo para atravessar um rio. O sapo diz: “Eu, hein, você é capaz de me ferroar durante a travessia”. O escorpião retruca: “Ora, eu não sei nadar, se eu ferroar você eu morro afogado”. O sapo acha que aquilo tem lógica, bota o escorpião nas costas e começa a atravessar o rio. No meio da travessia, o escorpião o ferroa. Morrendo envenenado, o sapo grita: “Mas assim você vai morrer também!”. E o escorpião: “Eu sei, mas, não posso evitar, é minha natureza”.

É da natureza do terrorismo morrer, desde que alguém mate. É de sua natureza transformar o mundo da paz no seu mundo da guerra, o mundo da tranquilidade no seu mundo do medo, o mundo do contrato social no seu mundo com sangue nos dentes e nas unhas. Osama Bin Laden quer mostrar ao mundo que quem governa o mundo não são as intenções de Barack Obama, mas as suas. Vejam só que terrível e cruel ironia a História nos proporciona. Barack Obama subiu ao poder nos EUA prometendo extinguir a prisão de Guantánamo, prometendo acabar com as guerras, prometendo, sei lá, uma porção de coisas. Talvez tenha acreditado (como tanta gente acredita, inclusive no Brasil) que ser presidente dos EUA é ser “o homem mais poderoso do mundo”. Já bombardeou a Líbia, torturou prisioneiros em Guantánamo, invadiu o Paquistão, executou um homem desarmado, destruiu provas, jogou (ou alega ter jogado) seu corpo ao mar. Obama virou Osama, e isso mostra que Osama venceu.

sábado, 30 de janeiro de 2010

1589) A Fundação e a Al-Qaeda (16.4.2008)




Duvido que alguém tivesse ouvido falar na Al-Qaeda antes do 11 de setembro de 2001. 

O nome de Osama Bin Laden me era familiar – um daqueles terroristas obscuros que vez por outra eram enumerados num “Globo Repórter”. Quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, o governo dos EUA agiu como a polícia carioca. Tirou da gaveta a lista dos “habituais suspeitos”, e escolheu o mais provável. 

Bin Laden assumiu a autoria dos atentados. Eu também assumiria, se fosse acusado – perdido por um, perdido por mil. (Ademais, no mundo dos criminosos crime grande é sinônimo de Poder.) 

De quebra, foi-lhe atribuída a chefia de uma misteriosa organização chamada Al-Qaeda, responsável, desde então, pela maioria dos grandes atentados que têm ocorrido, da Indonésia à Espanha.

Não passou despercebido, aos leitores de ficção científica do mundo islâmico (que são legião), que o romance Fundação, o clássico de Isaac Asimov, tinha sido traduzido em árabe com o título “Al-Qaeda”. É esse o significado do termo árabe: base, fundação, alicerce, pilastra, ponto de apoio, e idéias correlatas, tanto literal quando simbolicamente. (Na imprensa brasileira, “Al-Qaeda” é em geral traduzido como A Base).

A coincidência mais perturbadora, no entanto, é a que já abordei na coluna “A voz do morto” (28.1.2004). Bin Laden se comunica com o mundo da mesma maneira que Hari Seldon, o protagonista de Fundação: através de depoimentos gravados que seus seguidores fazem exibir em momentos estratégicos. 

No caso de Hari Seldon, esses depoimentos (gravados há séculos, quando ele era vivo) servem como confirmações de sua teoria da Psico-História, uma ciência probabilística capaz de prever o desenvolvimento futuro da civilização. Duzentos anos depois de morto, Seldon reaparece no vídeo, dizendo: “Pelo que calculo, vocês devem estar enfrentando tais e tais problemas, de tal ou tal maneira. Aqui vão minhas instruções sobre o que devem fazer”. Perplexos e maravilhados com a precisão do diagnóstico, os governantes do futuro não têm saída senão seguir a receita.

Giles Foden tem um extenso artigo no “The Guardian” (http://books.guardian.co.uk/review/story/0,12084,779530,00.html) no qual faz uma fascinante análise dos paralelos entre terrorismo e FC. Uma conexão que eu desconhecia é a da seita Aum Shinrikyo, responsável pelos atentados com o gás “sarin” no metrô de Tóquio, em 1995. 

Foden cita um jornalista japonês, e diz que o propósito da seita, inspirada na série Fundação, era “reconstruir a civilização após um cataclisma, e combater as poderosas instituições globalizantes que estão produzindo o apocalipse”. A retórica delirante de certos terroristas lembra muito a de numerosos vilões da FC, os tais cientistas loucos que querem dominar o mundo. 

Será que a FC é uma influência nociva? Nada disso. Como raio-X do nosso inconsciente coletivo, a FC é um diagnóstico antecipado de tudo aquilo que já existe mas só vai se tornar manifesto daqui a décadas.






sábado, 5 de dezembro de 2009

1400) Bin Laden está lá fora (8.9.2007)



Vi de passagem na banca de revistas a capa de uma Newsweek recente. Uma foto aérea magnífica, em preto-e-branco, granulada, mostrando do alto uma interminável cordilheira de montanhas abruptas que se sucedem em tamanho decrescente, como as vértebras de um monstro antediluviano cobertas por terra e matagal. E a legenda dizendo: “Ele Está Ali – a busca por Bin Laden continua”. É uma luta desigual e fascinante: o exército mais bem armado e de mais avançada tecnologia, pertencente ao país mais poderoso do mundo, procurando um homem que se esconde na paisagem.

Mesmo com a antipatia que tenho por Bin Laden, torço um pouco por ele. Podia ser até Paulo Maluf, eu ainda torceria um pouquinho. Se um dia o Íbis enfrentar a Seleção Brasileira, torcerei pelo Íbis. É um reflexo condicionado inculcado em nós por um senso ético confuso (tenho consciência disto) que nos faz sempre preferir um Davi a um Golias, independentemente de qual dos dois esteja “combatendo o bom combate”. Há um senso inato de proporção, de equilíbrio, de simetria (mais até do que um senso moral de justiça) que nos faz torcer pelo pequeno contra o grande.

Conseguirão os EUA prender Bin Laden? Não sei. Jamais duvidei que eles acabassem pegando Saddam Hussein. Saddam não quis fugir do Iraque, e era um sujeito odiado pela maioria da população. Alguém o entregou, como alguém entregou Lampião, alguém entregou Guevara, e alguém sempre entrega, por razões diferentes em cada caso, um sujeito que está na vulnerável situação de depender do sigilo de 100% das pessoas com quem se encontra. Cedo ou tarde, a corda “tora” em algum ponto.

A questão é: os americanos querem mesmo prender Bin Laden? Talvez não precisem deste pretexto para continuar ocupando o Afeganistão, e depois de Bin Laden deve haver uma lista de dezenas de foragidos igualmente importantes. Mas Bin Laden tornou-se um desses símbolos elusivos que o sujeito não sabe se é mais perigoso matar ou deixar vivo. A prisão, julgamento e enforcamento de Bin Laden terão uma repercussão enorme, mas esta contará pontos positivos e negativos para os carrascos, e eles sabem disto.

Por outro lado, a busca me lembra aquela antiga piada sobre o veterano médico do interior que decidiu tirar férias com a esposa e deixou o consultório a cargo do filho, também médico. Ao voltar, o filho lhe disse: “Curei a artrite do Coronel Fulano”. E o velho explodiu: “Seu idiota! Foi aquela artrite que pagou seus estudos!” E me lembra também um trecho do filme de Billy Wilder A Montanha dos 7 Abutres, em que o jornalista cínico e sensacionalista, interpretado por Kirk Douglas, conta como certa vez aquela cidadezinha ficou em polvorosa quando cinco cascavéis fugiram do circo. Quatro foram mortas ou capturadas, mas a última delas continuou à solta durante uma semana. Alguém lhe pergunta onde a cobra estava, e ele diz: “Na minha gaveta, na redação do jornal”. Por que não procuram Bin Laden lá dentro?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

1353) Mistérios e quebra-cabeças (15.7.2007)



Um artigo de Gregory Treverton na revista Smithsonian estabelece uma distinção útil – ainda que problemática – entre o que é um mistério e o que é um quebra-cabeças (“puzzle”). Diz ele: “Um mistério não pode ser resolvido; pode apenas ser enquadrado, quando identificamos os fatores cruciais e tentamos descobrir como eles interagiram no passado e podem interagir no futuro. Um mistério é uma tentativa de definir ambigüidades. Já os quebra-cabeças podem ser mais satisfatórios, mas o mundo de hoje nos oferece cada vez mais mistérios, e tratá-los como quebra-cabeças é tentar resolver o irresolvível, um desafio impossível. Se, contudo, nós os abordarmos encarando-os como mistérios, talvez possamos nos sentir mais à vontade com as incertezas de nossa época”.

Tudo parece girar em torno de uma questão principal. Um quebra-cabeças tem uma solução real e oculta, que não depende do observador. Já um mistério, em princípio, não tem “a resposta certa”, mas respostas aceitáveis em maior ou menor grau, e que sempre dependem da interpretação subjetiva do observador. Uma adivinhação ou uma charada, por exemplo, são quebra-cabeças. Têm uma resposta prevista pelo seu criador, e cabe à gente descobrir qual é. Uma adivinhação: “O-que-é o-que-é, que cai em pé e corre deitado?” Resposta: A chuva. Uma charada: “Água na ponta do osso – uma e uma (sílabas)”. Resposta: Água, com uma sílaba, mar; ponta, com uma sílaba, fim; osso, com duas sílabas, marfim. Isto são quebra-cabeças. Já um mistério seria, por exemplo, o significado do sorriso da Mona Lisa, ou a explicação da origem dos Objetos Voadores Não-Identificados. Não “há” uma resposta. Qualquer resposta é possível, e umas poderão ser mais adequadas do que outras, sendo que o veredito sobre o que é “adequado” é, também, subjetivo.

Transpondo esta questão para a política, Malcolm Gladwell, no The New Yorker faz uma comparação. O paradeiro de Osama bin Laden, por exemplo, é um quebra-cabeça: existe uma resposta concreta, pois ele está em algum lugar, mesmo que mude de esconderijo com freqüência. Os investigadores podem se queixar de escassez de dados, ou de dados contraditórios, mas podem ter a certeza de que existe uma resposta única, real, que pode vir a ser descoberta. Já um mistério seria, por exemplo, o que iria acontecer no Iraque após uma invasão norte-americana. Não há uma resposta concreta, única, para isto: há teorias, cenários, hipóteses, cada qual baseada em elementos diferentes e opiniões contraditórias. À medida que o tempo passa, algumas dessas respostas vão perdendo probabilidade e outras vão se tornando mais viáveis. Mas para uma questão dessa natureza não existe “a resposta”. A resposta está se formando no correr dos dias, dos meses, dos anos, e não existia no momento em que o problema foi proposto. Portanto, não é um quebra-cabeça: é um mistério.

sábado, 13 de setembro de 2008

0542) A volta do Inspetor Clouseau (14.12.2004)



Todo mundo gosta de fazer piada com os portugueses, inclusive eu, mas vejam só o que os nossos civilizadíssimos franceses andam aprontando. Dias atrás, a polícia francesa estava fazendo um treinamento com cães farejadores, no aeroporto Charles De Gaulle. Uma certa quantidade de explosivo foi colocada no interior de uma mala escolhida aleatoriamente numa esteira de bagagens. (Não me perguntem por que eles pegaram a mala de um pobre coitado, em vez de levarem uma mala deles mesmos. Não acho que o cachorro fosse perceber a diferença.) Em todo caso, os explosivos foram colocados na mala, e alguém foi buscar o cão.

Foi aí que alguém se distraiu... e a mala, com os explosivos dentro, foi colocada de volta na esteira rolante, que a levou embora. Ao chegarem os policiais com o cão farejador, estava o canto mais limpo, ninguém tinha idéia de onde a mala tinha ido parar. Cerca de 80 a 90 aviões estavam partindo do aeroporto naquele horário, entre as 5:30 e as 7 horas, e a mala poderia ter ido para qualquer um deles. Não houve como pegá-la de volta. O máximo que os franceses conseguiram fazer foi avisar as autoridades dos EUA para revistarem todos os vôos que chegassem do Charles De Gaulle. O que deu no belo bafafá. Um avião que desceu em Los Angeles, por exemplo, foi evacuado, as bagagens de 300 passageiros foram revistadas, e o vôo só prosseguiu rumo ao Taiti com várias horas de atraso.

A polícia apressou-se a explicar que não havia perigo de explosão, uma vez que os explosivos não estavam conectados a um detonador, mas duvido que isso me deixasse muito tranqüilo se eu descobrisse aquela má-notícia dentro da minha valise. São apenas 150 gramas, ou seja, dificilmente o portador da bagagem vai sentir um peso extra e desconfiar. Provavelmente ele só vai perceber o objeto estranho quando desembarcar aqui no Rio (sim, havia vôos de Paris rumo ao Brasil naquele horário), e não vai saber do que se trata. Mais paranoicamente ainda, podemos imaginar que o desafortunado passageiro estava indo na direção de Londres, e acabou sendo preso no aeroporto de Heathrow, sem saber explicar o que diabo era aquilo que trazia entre suas meias e cuecas.

Osama Bin Laden, no seu vídeo mais recente, divulgado há mais de um mês, dizia que iria destruir os EUA usando a própria força e riqueza destes. Disse ele: “Basta um árabe aparecer em qualquer recanto do seu país dizendo que pertence à Al-Qaeda para mobilizar um aparato militar e policial, e gastar centenas de milhares de dólares.” Há muitas maneiras de destruir um inimigo poderoso, um inimigo dado a excessos, um inimigo que tem muito poder e que na hora de um aperto é obrigado, pelo simples fato de dispor desse poder, a usá-lo em sua plenitude. Se Bin Laden quiser, leva os EUA à falência nos próximos 10 anos, sem precisar disparar um tiro sequer. Basta-lhe criar alarmas falsos e ameaças fantasmas. Além de contar com as ameaças que os próprios trapalhões que o combatem irão criar para si próprios.

terça-feira, 8 de abril de 2008

0355) Os super-vilões (9.5.2004)



Desde o 11 de setembro a figura de Osama Bin Laden habita os pesadelos do mundo ocidental. Há muito tempo o mundo não desfrutava de um super-vilão tão nítido, tão adequado. Os ditadores das últimas décadas, além de caricatos, sempre tiveram ação circunscrita a sua área geográfica: Idi Amin, Ferdinand Marcos, Papa Doc, Bokassa, Pinochet, Kadhafi, Saddam Hussein, Pol Pot, Khomeini... Todos eles foram demonizados pelos governos e pela imprensa ocidental (com exceção do General Pinochet, que até pouco tempo atrás somente nós, latino-americanos, chamávamos publicamente de assassino), mas nenhum deles foi em momento algum encarado como uma ameaça ao mundo. Um atentado ou seqüestro de vez em quando, um crime de grandes proporções, mas nada que tirasse o sono de quem vivia em outro continente.

Osama Bin Laden e o 11/9 mudaram tudo. Ainda tenho minhas dúvidas se foi mesmo Bin Laden o orquestrador daquilo. É mais possível que tenha financiado, encorajado, ajudado com a logística. Mas quem sentou na mesa com os mapas, os horários de vôos, as plantas dos prédios... ah, não foi ele não. Foi gente que faz a barba todo dia e não mora em caverna. Osama serve para nós porque corresponde, com outro perfil étnico, à imagem dos super-vilões com que a cultura-de-massas nos acostumou desde o Dr. Fu Manchu, criado por Sax Rohmer em 1912. Fu Manchu exprimia o medo britânico e norte-americano das imigrações em massa de chineses na virada do século. Foi quando o Ocidente começou a ter uma noção da ameaça meramente quantitativa que era a China. Essa ameaça foi personificada em Fu Manchu, um cérebro privilegiado, formado em três universidades do Ocidente, mestre do disfarce, e que tinha em suas mãos as rédeas de todas as sociedades secretas do mundo.

Fu Manchu teve uma horda de imitadores nos pulp-magazines americanos (“Wu Fang, o Senhor da Morte”, “Dr. Yen Sin”); estes arqui-vilões orientais tinham uma contrapartida européia no Dr. Mabuse dos filmes de Fritz Lang. Como todo arqui-vilão, Mabuse se considera “um Estado dentro do Estado”. O arqui-vilão típico é um gangster elevado ao quadrado: em vez de controlar um bairro, ele quer dominar o mundo: “Agora o mundo saberá quem sou eu! Serei um gigante, um titã que varre as leis e os deuses como folhas secas!” A oratória desvairada de Mabuse inspirou muitos imitadores, mas logo foi substituída por estilos mais melífluos e suaves, como os vilões típicos de James Bond (Dr. No, Goldfinger, Blofeld). Osama Bin Laden tem alguns traços típicos dos arqui-vilões da “pulp fiction”: paradeiro desconhecido, imensa fortuna, uma rede de seguidores devotos e onipresentes, talento para se disfarçar e para se deslocar clandestinamente sem ser identificado, e uma capacidade quase hipnótica de comandar a mente dos seus seguidores. É um Fu Manchu em carne e osso, alguém que o inconsciente coletivo das multidões ocidentais enxerga com facilidade, e teme sem esforço da imaginação.

segunda-feira, 17 de março de 2008

0267) A voz do morto (28.1.2004)




Em seu romance Fundação (na verdade uma série encadeada de narrativas curtas, publicadas em revistas entre 1942 e 1950) o escritor Isaac Asimov criou um dos seus personagens mais fascinantes, Hari Seldon. Seldon é um cientista que inventou uma nova ciência, a Psico-História, uma mistura de Sociologia, Estatística e Futurologia. Com a Psico-História, ele é capaz de prever todas as turbulências que irão sacudir o império da raça humana, que a essa altura do futuro se espalha por toda a Galáxia. Perto de morrer, Seldon grava uma porção de vídeos, deixando com seus descendentes instruções para que eles sejam exibidos dentro de tantas ou tantas décadas. Quando isto acontece, o cientista aparece, descreve exatamente como está a situação política da Galáxia e indica os caminhos que devem ser seguidos. Ele já tinha previsto tudo, desde antes, aplicando as leis matemáticas da Psico-História.

Essas cenas me vieram à mente agora, depois dos atentados de 11 de setembro, com o aparecimento periódico de vídeos de Osama bin Laden, onde ele faz comentários vagos sobre a política mundial e exorta os muçulmanos em geral a continuarem combatendo os Estados Unidos. Imagino que esses vídeos sejam aguardados pelos seguidores da Al-Qaeda com a mesma expectativa com que os habitantes de Trantor, a cidade-planeta de Asimov, aguardavam os pronunciamentos de Hari Seldon, feitos na Câmara do Tempo. São aquele apertar de parafusos, aquelas correções de rumo que os profetas fazem de vez em quando,

Bin Laden nem precisa provar que está vivo. Um líder guerrilheiro ocidental talvez fizesse questão de datar seus vídeos – mostrando um jornal do dia (como fazem os sequestradores quando fotografam os reféns) ou referindo-se a fatos específicos. Parece que a estratégia de Bin Laden é nunca dar certeza. Por um lado, a fidelidade de seus seguidores não depende de ele estar vivo ou não; por outro lado, se provar que está vivo ele talvez faça recrudescerem as buscas.

O mais interessante deste processo, no entanto, é que os profetas tornam-se tanto mais eficazes quanto mais inespecíficos. Se Nostradamus tivesse dito: “O presidente Jimmy Carter será assassinado no poder...” e isso não ocorresse, ele ficaria desmoralizado. Mas não. As suas Centúrias são todas naquele tom de “A grande sombra cinza se erguerá do Oriente, e fará tremer o herdeiro dos falcões; o ouro será jogado ao chão, e o grande Rio deixará de correr durante a noite.” Aí pronto: como nada específico está sendo dito, cada um analisa a xaropada do jeito que bem entende, e pode extrair do texto acima tanto uma análise da Guerra de Canudos quanto uma resenha negativa do filme “O senhor dos anéis”. Hari Seldon, personagem de ficção científica, fazia intervenções claras, precisas, indubitáveis. Profetas como Nostradamus e espertalhões como Bin Laden recorrem a um blá-blá-blá simbólico que pode ser lido de inúmeras maneiras, sempre dando a impressão de que acertaram na mosca.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0021) A Besta Moura Talibã (16.4.2003)

No Romance da Pedra do Reino, Ariano Suassuna faz um dos seus personagens referir-se aos povos nórdicos e anglo-saxônicos em geral como “a Besta Loura Calibã”, a civilização puritana e mercantilista que tudo quantifica e tudo controla, e que pretende estender seu modo de ver o mundo sobre “os povos morenos, criados ao Sol”. Esta visão, que Suassuna retomou e atualizou em textos mais recentes (a “Pedra do Reino” é de 1971), contrapõe o capitalismo financeiro, industrial e bélico da América do Norte e da Europa às culturas consideradas mais primitivas da África, da Ásia e da América Latina.

Os acontecimentos dos últimos anos, contudo, me levam a imaginar uma contrapartida para essa criatura mítica. A Besta Loura Calibã está disposta, a julgar pelos seus rugidos mais recentes, a estender seu domínio sobre o mapa-mundi inteiro, mas agora tem que se defrontar com um clone de si própria, se não em poderio e em fisionomia, pelo menos em espírito. Há trocadilhos que a mente humana se recusa a evitar; eu chamaria a esta segunda criatura “a Besta Moura Talibã”.

Ela é o oposto simétrico, no mundo árabe, do Puritano nórdico. É o Fundamentalista oriental, que mata e morre para propagar seu credo. Devemos temer esta criatura tanto quanto tememos os Falcões de Washington – Bush, Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Dick Cheney. Ou até mais, porque são também líderes espirituais, e no mundo existe muito mais gente interessada em religião do que em política.

Puritanismo Louro e Fundamentalismo Mouro são diferentes em suas origens, mas partilham a mesma neurose, o mesmo núcleo de fanatismo, de rigidez mental, de recusa a imaginar o Outro, o Diferente. Observar os dois me lembra uma frase do General Golbery, de agourenta memória. Dizia ele que a linha da política tradicional, Esquerda-Centro-Direita, não se assemelha a uma reta, e sim a uma ferradura: a extrema esquerda e a extrema direita estão mais próximas uma da outra do que do centro. Faz sentido, no presente caso, quando vemos a Al-Qaeda derrubando as torres gêmeas de Nova York, e o exército norte-americano devastando o Afeganistão e o Iraque.

Saddam Hussein, contudo, não é um representante da Besta Moura Talibã. Apesar de árabe, não é um fundamentalista religioso, pelo contrário. Está muito mais próximo do perfil dos ditadores soviéticos e latino-americanos (palácios, orgias, sadismo, expurgos partidários), e neste sentido é um sub-produto do capitalismo ocidental. É, como dizemos na Paraíba, um capanga que enricou e quis se meter a cavalo-do-cão. Os verdadeiros representantes da Besta fundamentalista são os aiatolás que ordenaram a morte do escritor Salman Rushdie por ter criado um personagem que disse frases ofensivas ao Profeta. São os Talibãs que impuseram ao Afeganistão uma tirania medieval. São os fanáticos sinceros como Bin Laden ou o mulá Omar – os mais perigosos, porque se acham moralmente superiores, e acreditam que o que querem impor ao mundo é o Bem.