Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de maio de 2026

5236) O riso de Rosa (27.5.2026)




 
Um aspecto muito visível na obra de Guimarães Rosa, mas talvez pouco comentado, é o humor que a atravessa em todos os sentidos. Não o humor da mera piada, ou da anedota-de-mesa-de-bar, embora elas estejam presentes e apareçam quando menos se espera; mas, mais frequentemente, o humor de pequenas situações engraçadas da vida diária, tornadas mais engraçadas ainda quando recontadas por jagunços ou capiaus de quem às vezes não esperamos tanta finura, tanta ironia, tanto discernimento. 
 
Falei nas anedotas de mesa de bar, e não é que Tutaméia (1967) nos traz uma verdadeira antologia delas no prefácio “Nós, os Temulentos”? Se não tropecei na contagem, são vinte e oito vinhetas curtas, vinte e oito anedotas de bêbados que Rosa, fiel ao seu próprio espírito, corta e cose numa historieta só. A historieta de um bêbado, de noite, tentando voltar para casa. Ou seja: tudo aquilo que já ouvimos aconteceu com um único bêbado, o tal do Chico, em volta de quem ele costura essa Odisséia etílica. 
 
A mesma Tutaméia, aliás, principia com um outro prefácio (são quatro prefácios e quarenta contos), “Aletria e Hermenêutica”, em que o autor faz um passeio desconcertante por metalinguagem, paradoxos, absurdismo. 



(Eusélio Oliveira)
 

Falei que são quatro prefácios, e me lembro do saudoso Eusélio Oliveira, patrono do cineclubismo nordestino, a quem certa vez um amigo pediu “um prefácio, ou posfácio” para um livro de poemas. Eusélio, sempre inovador, ofereceu-se para redigir um “mesofácio”, que depois foi convenientemente intercalado no centro do livro. 
 
Rosa faz o mesmo em Tutaméia, em cujo índice de leitura, na abertura do livro, vê-se que os textos (contos e prefácios) estão todos misturados, e organizados por ordem alfabética. (Com uma pequena irregularidade, que comentarei depois.) E na altura da letra H surge mais um, “Hipotrélico”, que segue os outros no uso de títulos abstrusos. 
 
O autor se apressa a dizer que “hipotrélico” é palavra nova, e a explica: “indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia”. Esclarece também que um hipotrélico é um sujeito que detesta neologismos e com isto desmente a própria existência. 



 
E é sobre neologismos que se estende esse prefácio ou mesofácio, o que o aproxima dos outros dois citados acima. Isso dá uma pista sobre o método de trabalho de Rosa. Ele era um cara que: 1) interessava-se vivamente por coisas diferentes, surpreendentes, engraçadas; 2) fazia listas delas. Não me surpreenderei se um dia eu vier a visitar o Arquivo Guimarães Rosa, na USP, e encontrar ali as origens destes três prefácios: algumas listas de pequenos absurdos, de piadas de bêbado, de palavras inventadas. 
 
Rosa anotava compulsivamente, e na hora de escrever engastava esse material anotado, com relativa parcimônia, no fluir do texto ficcional. O material cresceu tanto que três dessas “listagens engraçadas” nos deram os três primeiros prefácios deste livro. (O quarto, “Sobre a Escova e a Dúvida”, é o texto mais longo de Tutaméia, orçando em cerca de 21 páginas, e é de natureza mais complexa e heterogênea.) 
 
Pequenos “causos” humorísticos também despontam nos diálogos do Grande Sertão: Veredas. Como o diálogo entre José Misuso e Etelvininho: 
 
Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho, a troco de quarenta mil-réis, como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente. Do que deu o preceito: - “... Só o sangue -frio de fé é que se carece – pra, na horinha, se encarar o outro, e um grito pensar, somente: Tu erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de lado, não acerta em mim, tu erra, tu erra, filho de uma cã!...” 
Assim ele ensinou ao Etelvininho, o Misuso. Mas, aí, o Etelvininho reclamou: - “Ara, pois, se é só isso, só issozinho, pois então eu já sabia, mesmo por mim, sem ninguém me ensinar – já fiz, executei assim, umas muitas vezes...” - “E fez igualzinho, conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso, duvidando.
-- “Igualzinho justo. Só que, no fim, eu pensava insultado era: ... seu filho duma cuia!...” – o Etelvininho respondeu. - “Ah, pois então” – o José Misuso cortou a questão - “... pois então basta que tu me pague só uns vinte mil-réis...”
(pág. 618, edição digital) 



É o humor brasileiro da cultura oral, da memória de ouvido, do lero-lero ocioso de botequim com tamboretes na calçada e mesa de plástico. Um anedotário que também foi recolhido, sem muita pressa, em romances de autores como Jorge Amado, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, João Ubaldo Ribeiro... e tantos outros beneficiários das literaturas da voz. 
 
Com maior frequência, porém, o que se vê no modo de ser de Guimarães Rosa, no seu comportamento entre outras pessoas (entrevistadores, etc.) não é propriamente o humorismo, mas o bom humor. O jeitão que Carlos Drummond, num poema-obituário, comparou com um “boi risonho”. Uma predisposição para o sorriso, o gracejo, a brincadeira, o exercício ininterrupto de uma visão lúdica de pessoas, palavras, coisas. 
 
Como quando ele mostrou um texto a João Cabral de Melo Neto e lhe perguntou se tinha notado a pontuação num trecho em que um boi era ferido na veia. “Não sei,” disse Cabral, “o que seria?...”  “Olhe aqui,” disse Rosa, mostrando o fim da frase: .!.  Eram três pontos, só que o do meio estava substituido por um ponto de exclamação. “É para dar a idéia visual do esguicho do sangue!” explicava Rosa, com uma risada. 
 
Um leitor desavisado imagina, às vezes, que ousadias desse tipo são produzidas por algum indivíduo sisudo, erudito, rigidamente compenetrado da importância de um compromisso vanguardista qualquer. Não é o presente caso. Aqui, é um inventor que se diverte com a concepção e execução de algo que não tinha ocorrido a ninguém. 



E voltamos ao índice de Tutaméia, em que os quarenta e quatro textos vêm enfileirados por ordem alfabética, uma ordem que pode ser reproduzida assim: 
 
AAAAABCCDDEEEFHHIJGRLMMNNOOOPPQRRRSSSSTTUUVZ
 
Paulo Rónai, grande estudioso da obra de Rosa, em seu “Apêndice” a este livro, comenta: 
 
Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete. 
-- Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados? 
-- Olhe melhor: há dois que estão fora de ordem. 
-- Por que? 
-- Senão eles achavam tudo fácil. 
“Eles” eram evidentemente os críticos. 
 
As letras fora de ordem, visivelmente, reproduzem as iniciais “JGR” do autor. 
 
Num prefácio que fez à décima edição de Sagarana, o crítico português Óscar Lopes percebeu essa fagulha de gracejo sempre presente desde o livro de estréia do escritor brasileiro. Ele destaca “um humor que desconhecíamos...”, “esta versatilidade viva de humor...”, “um humor humano muito especial que nos leva a sorrir.” Não é o humor da piada comum, e sim o riso de surpresa diante de uma revelação, da redescoberta de algo que não sabíamos que sabíamos.  


 

E nesse capítulo, é claro, entram as tiradas sentenciosas, aforísticas, proverbiais, do grande fazedor de frases que foi Rosa. 
 
Alguns exemplos, de Tutaméia apenas: 
 
“Ao dono da faca é que pertence a bainha.” (“Retrato de Cavalo”) 
 
“Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala.” (“Arroio das Antas”) 
 
“A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.” (“Rebimba, o bom”) 
 
“Velho sacode facilmente a cabeça.” (“Presepe”) 
 
“Duro e mau como uma quina de mesa.” (“Tapiiraiauara”) 
 
“O mundo do rio não é o mundo da ponte.” (“Orientação”) 
 
 “Amar não é verbo: é luz lembrada.” (“João Porém, o caçador de perus”) 
 
“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.” (“Desenredo”) 
 
“Como são curtos os séculos, menos este!” (“Sobre a escova e a dúvida, II”) 
 




 
 





sexta-feira, 14 de novembro de 2025

5207) Quem é Susan? (14.11.2025)



 
É um meme que circula por aí há muito tempo, e cada ver que emerge na tela eu solto uma gargalhada. O texto é em inglês. Alguém aplica uma prova para crianças, com problemas simples de Matemática. 
 
O problema destacado na foto diz: 
 
Jane tem 12 lápis, e Kim tem 7 lápis. Quantos lápis Susan tem a mais do que Kim? 
 
E no espaço para a resposta a criança escreveu: 
 
Quem é Susan? 
 
Este pequeno episódio gera tantas idéias que chega dá uma vertigem. 
 
A primeira coisa que me ocorre é: a resposta da criança foi considerada certa? A criança perdeu o ponto? Sei de muitos colégios, e já vi muitos exemplos, em que uma criança questiona uma pergunta-de-prova. Questiona de uma maneira totalmente aceitável, mas perde o ponto e ganha uma repreensão. 
 
(O que, no-fundo-no-fundo, é muito mais educativo do que passar-lhe a mão na trunfa e proclamá-la inteligentinha. A punição por questionar a autoridade avisa: “Filhota, o mundo funciona assim, caia na estrada e perigas ver.”) 
 
A segunda coisa é a pena que eu tenho da professora que elaborou a prova. Esse texto deve ter sido preparado tarde da noite, após um dia estafante, um jantar conflituoso ou às pressas, uma pilha de provas para corrigir, outra prova para preparar, e chega um momento em que as perguntas envolvem tantas “Susans” e “Marys” e o escambau... Não há como não errar, e como não ter pena de quem erra. 
 
A terceira coisa é a quebra existencialista. A criança está crescendo, aprendendo a ler, a escrever, a fazer contas, e é nesta fase que começa a ser-lhe vendido, em suaves e eternas prestações, o enorme Falso Bilhete Premiado da Loteria que é a entrada no mundo adulto. “Estude, pra se formar, arranjar um bom emprego, ganhar dinheiro e casar.” E a venda desse bilhete depende terrivelmente da idéia de que a vida é bela, o mundo é justo, o país vai pra frente, a felicidade é para todos, a honestidade é recompensada... 
 
Enfim: é uma cartela inteira de bilhetes que a criança está comprando com seu esforço. 



 
E de repente, no meio daquilo, aparece o equivalente à cara de um palhaço estirando a língua, botando os polegares nos ouvidos e agitando os dedos. Tem um erro na prova. A realidade está bugada. O mundo é falso. Os professores erram. Os padres pecam. Os jornalistas mentem. A polícia comete crimes. 
 
Quem é Susan? 
 
Esta Susan invisível e intrusa é o sexto lado do Pentágono, a terceira margem do rio? Algo que não podia existir, mas está ali? 
 
Por trás de uma contazinha aritmética inofensiva (12 – 7 = 5) foi introduzida uma serpente daninha e perniciosa no Éden da Matemática: o elemento humano. Enquanto se tratasse apenas de Jane e de Kim, que por definição já faziam parte do problema, tudo se resumia a fazer as contas, de forma impessoal e não-envolvida. Você tem tantos, e você tem tantos. Mas de repente aparece um nome não previsto na equação. Um elemento humano intruso, não-convidado, que não estava na ficha técnica do mundo. 
 
Os problemas escolares de Matemática são assim: não admitem o elemento humano, que está ali só para ilustração. “Joãozinho comprou 50 melancias na feira, mas no trajeto perdeu 8; quantas melancias Joãozinho trouxe para casa?...” Ninguém ousará perguntar: “Mas para que Joãozinho queria tantas melancias? E ele estava sozinho? Ele trouxe as melancias num carrinho, num táxi, num cesto?...”  Essas questões são proibidas. A única função da existência do hipotético Joãozinho é ajudar a entender que 50 – 8 – 42. 
 
Quem é Susan? 
 
Susan é um clinâmen, um salto quântico inesperado, uma mutação não prevista. Alguém que não estava nos cálculos mas de repente irrompeu problema adentro, estraçalhando tudo com sua existência intrusa. 
 
É o “J. Pinto Fernandes” que não estava na história mas chega de repente e arrebata consigo a sapeca Lili, no poema de Carlos Drummond (“Quadrilha”). 
 
Ou então é alguém parente do sujeito que vai passando na rua e alguém lhe grita: “Manuel, tua mulher está passando mal na tua casa em Niterói!...” e ele dispara na carreira, pega um táxi, e quando está no meio da ponte pensa consigo: “Mas... espere aí... eu não me chamo Manuel, eu sou solteiro, e eu não moro em Niterói!...”. 
 
Georges Perec (a quem devo a dica do conceito de clinâmen, já comentado aqui no blog) dizia que o uso de uma “contrainte” na literatura, ou seja, o uso de uma regra auto-imposta pelo autor, deve sempre permitir uma exceção. O sujeito pode dizer: “Vou escrever um texto em que todas as palavras começam pela letra C”, e ele deve ser capaz de obedecer a essa regra; mas no final, depois do texto impecavelmente pronto, ele deve (diz Perec) inserir discretamente, sutilmente, uma palavrinha que não obedece à regra. Uma exceção proposital, que ele poderia perfeitamente ter evitado. Por que? 
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/search/label/clin%C3%A2men
 
Respondo: para contaminar de realidade e de imprevisto esse “constructo” artificial que é a literatura. Para contar (digamos, hipoteticamente) a história completa da família Buendía, com seus prenomes maniacamente repetidos, mas poder, a certa altura, dizer algo como: 
 
Nesse instante, bateram na porta da frente, a avó Úrsula disse: “Aureliano, tem gente batendo, vá ver quem é”. Aureliano abriu a porta para uma moça loura, de olhos azuis. “Quem é a senhorita?”, perguntou. E ela disse: “Eu sou Susan”. 

 




 
 




sábado, 15 de junho de 2024

5072) A mecânica do humor (15.6.2024)




Vou transcrever aqui a primeira versão que ouvi desta piada, com seu inevitável sabor datado, visceralmente ligado a um momento histórico e social.
 
A professora pediu que cada aluno da turma falasse sobre o trabalho de seu pai, contasse como seu pai ganhava a vida. Cada um foi dizendo: meu pai é bombeiro, meu pai é comerciante, meu pai é motorista...
 
Na vez de Joãozinho, ele disse:
 
– Meu pai é travesti e faz strip-tease numa boite gay.
 
Todo mundo ficou assustado e a professora mudou rapidamente para o próximo aluno. Depois da aula, a colega Glorinha veio falar com o menino.
 
– Joãozinho, eu não sabia que seu pai era travesti.
 
– Ele não é. Ele é jogador do Flamengo, mas fiquei com medo que a turma me zoasse.
 
A anedota é um gênero literário ainda pouco analisado. O próprio Sigmund Freud, citado amiúde, não escreveu propriamente sobre ela, e sim sobre o “chiste”, o “gracejo” geralmente baseado num trocadilho.
 
A obra de Freud (Os Chistes e a Sua Relação com o Inconsciente, “Der Witz und seine Beziehung zum Unbewußten”, 1905) é voltada para os desvios verbais, os trocadilhos voluntários ou involuntários, que revelam associações de idéias ocultas, reprimidas, proibidas, etc.


 

Freud escreveu sobre o chiste, mas não sobre a anedota, que é uma pequena historinha, como o exemplo acima, com leis próprias de dramaturgia.
 
Uma coisa básica da anedota é que ela é (freudianamente, também) toda baseada num mal-entendido, num duplo-sentido, numa ilusão; 90% da anedota são uma história que parece estar dizendo uma coisa, e nos 10% restantes, aquilo que chamamos de punchline ou desfecho, há uma revelação, uma surpresa, uma puxada-de-tapete absoluta, que provoca o riso.
 
Um aspecto interessante da anedota é que todo mundo que escuta uma anedota ri com o seu “conteúdo”, a historinha que foi contada. Está OK. Mas na verdade está rindo por causa de sua “forma”, essa maneira de estruturar e contar a historinha.
 
Vou dar agora uma versão mais recente da piada acima:
 
A professora pediu que cada aluno da turma falasse sobre o trabalho de seu pai, contasse como seu pai ganhava a vida. Cada um foi dizendo: meu pai é bombeiro, meu pai é comerciante, meu pai é motorista...
 
Na vez de Joãozinho, ele disse:
 
– Meu pai é miliciano e mata gente.
 
Todo mundo ficou assustado e a professora mudou rapidamente para o próximo aluno. Depois da aula, a colega Glorinha veio falar com o menino.
 
– Joãozinho, eu não sabia que seu pai era miliciano.
 
– Ele não é. Ele é pastor, mas fiquei com medo que a turma me zoasse.
 
Esta versão da piada não é minha: peguei na Internet. (“Peguei na Internet” é a fórmula atual que substitui “Aconteceu de verdade, com o marido da minha prima”, etc.)
 
Repeti literalmente a verbalização do primeiro exemplo, para ficar claro que os personagens mudam, e quem nos faz rir é a maneira econômica, direta, tensa, com que a historinha é contada, e que faz com que a “mecânica” funcione. Sem perda de tempo com detalhes desnecessários, sem referências colaterais a nada que não seja a piada em si.
 
Existe uma comparação jocosa entre duas profissões. Essa comparação, contudo, precisa ser feita de acordo com essa regra: preparação breve, desfecho instantâneo.
 
É a qualidade literária da “Rapidez”, que Ítalo Calvino elogiava tanto.


 
Essa rapidez narrativa distingue o bom e o mau contador de piadas. Quantas e quantas vezes, numa mesa de bar, alguém começa a contar uma piada que a gente já conhece! E sempre acontece uma destas duas coisas: 1) alguém conta uma piada engraçadíssima, mas a  estraga totalmente, porque não soube contar; 2) alguém conta uma piada banal que a gente já ouviu dez vezes, mas desta vez a piada bate, a gente gargalha até contra a vontade.
 
Muita gente atribui esse “jeito para contar piada” ao histrionismo, a facilidade de fazer caras-e-bocas, de imitar a voz dos personagens, e de fato muita gente se vale disso. A piada pode nem ser muito engraçada, mas “Fulano é engraçado o tempo todo”. Funciona também – mas é outra coisa. Não é isso a raiz do humor da anedota.
 
A raiz desse humor consiste em 90% de preparação e 10% de surpresa, e num modo de contar que otimiza este contraste.
 
Na primeira versão acima, a piada era engraçadíssima, sim, porque o Flamengo (eram os anos 1990) vivia numa pindaíba de vitórias que dava dó, levava goleadas a torto e a direito, vivia lutando contra o rebaixamento. A frase de Joãozinho (digo por experiência própria) era dolorosamente verossímil. Mas... a piada era engraçada porque comparava flamenguistas e travestis? Bem, esse era o objetivo da piada, mas só foi conseguido através do uso correto da mecânica: 90% de preparação e 10% de surpresa na frase final.
 
Na segunda versão (miliciano / pastor), a mecânica da piada é rigorosamente mantida, e pouco importa se os alvos do deboche são os milicianos e os pastores. O conteúdo desta piada vai mudar de dez em dez anos, ou mesmo de dez em dez dias, não importa. A mecânica dela será sempre esta: o garoto diz que seu pai tem uma profissão (circunstancialmente) vergonhosa para não dizer que tem outra, aparentemente respeitável, mas que o autor da piada quer tornar mais vergonhosa ainda.
 
Não duvido que a primeira formulação dessa anedota tenha sido algo como:
 
Na época da Terceira Dinastia, na escola de Hatseph, às margens do Rio Nilo, a professora pediu que cada aluno da turma falasse sobre o trabalho de seu pai, contasse como seu pai ganhava a vida. Cada um foi dizendo: meu pai é escriba do templo, meu pai é construtor de pirâmides, meu pai é fabricante de papiro...
 
Na vez do pequeno Eutychius, ele disse:
 
– Meu pai é comerciante de peles de crocodilo.
 
Todo mundo ficou horrorizado e a professora mudou rapidamente para o próximo aluno. Depois da aula, a colega Bashma veio falar com o menino.
 
– Eutychius, eu não sabia que seu pai era comerciante de peles de crocodilo.
 
– Ele não é. Ele é sacerdote do culto de Fahd-al-Raqq, mas fiquei com medo que a turma me zoasse.
 
As funções exercidas pelo personagem vão variando de país para país, de época para época, e têm a função social de ridicularizar a última profissão citada; é por causa disso que a gente ri. Mas quando a gente vê mais de uma piada obedecendo à mesma estrutura, a gente percebe que a gente não riria do “conteúdo” se a “forma” não estivesse bem aplicada. E para a forma ser bem aplicada, é preciso que o “conteúdo” tenha um significado social para quem escuta.
 
A piada desse tipo irá morrer e renascer mil vezes, sempre substituindo os “tipos sociais” de acordo com os preconceitos da época, a realidade social da época, os conceitos de “digno/indigno”, “sério/ridículo”, etc., da época.
 
É a mecânica da surpresa que caracteriza a anedota, que é diferente do “chiste” freudiano, embora muitas anedotas usem um “chiste freudiano” para deflagrar sua surpresa, o que também é totalmente válido.
 

 
A profissão de “redator de humor” é um grande paradoxo, por ser aquela onde mais se ri e onde mais se chora. Forçado a arrancar diariamente do cérebro uma coisa engraçada qualquer, o mísero redator vê-se muitas vezes forçado ao mais aviltante dos recursos: o furto de uma piada alheia, e isso acaba se tornando um hábito, depois uma obrigação, depois um direito natural da profissão. (Como acontece na maioria das outras.)
 
Esse furto, quando criativo, acontece assim: a gente vê uma piada engraçadíssima, e volta ao começo, relendo com cuidado, e separando o que é a roupagem circunstancial (jogador do Flamengo, vendedor de pele de crocodilo, etc.) e o que é a mecânica: De que modo é feita a preparação? De que modo acontece o desfecho? Identificada a mecânica, basta substituir os pesonagens, a época, o local, e projetar a anedota num universo facilmente reconhecível pelo público.
 
A professora pediu que cada aluno da turma falasse sobre o trabalho de seu pai, como seu pai ganhava a vida. Cada um foi dizendo: meu pai é bonbeiro, meu pai é comerciante, meu pai é motorista...
 
Na vez de Joãozinho, ele disse:
 
– Meu pai é coach de auto-ajuda.
 
Todo mundo ficou assustado e a professora mudou rapidamente para o próximo aluno. Depois da aula, a colega Glorinha veio falar com o menino.
 
– Joãozinho, eu não sabia que seu pai era coach de auto-ajuda. 
 
– Ele não é. Ele é poeta de vanguarda, mas fiquei com medo que a turma me zoasse.
 
“Pano rápido.”
 


(Billy Wilder) 
 



sábado, 30 de dezembro de 2023

5017) Resoluções para 2024 (30.12.2023)



(Saul Steinberg, 1949)


Tirar a poeira que provavelmente se acumulou por trás dos livros nas prateleiras da estante. (Ou pagar alguém para fazê-lo, o que está mais próximo ao reino das possibilidades.) 
 
Fazer uma consulta no oculista; trocar as lentes dos meus óculos, mais arranhadas do que o escudo de Sir Lancelote; e, talvez, parar de ler os livros como se lesse em Braille com a ponta do nariz. (Bem, devo estar exagerando, mas a miopia está tão avançada que a olho nu não distingo entre enxergar e exagerar.) 
 
Entregar aquele texto atrasado, mas não esquecido. (Desculpa aí, amigos, mas o que nasce de parto natural tem seu ritmo próprio, e ainda não se inventou a cesariana literária.) 
 
Dar uma nova chance a pelo menos um terço dos livros que no ano passado não passaram no Teste do Primeiro Capítulo. (Sim, sei que o critério é brutal, mas trata-se de uma pilha com cerca de quarenta ou cinquenta obras, e nestas horas não sou mais o intelectual diletante e complacente, sou segurança-de-boate com dentes de titânio e tatuagem de Chuck Norris no bíceps, e só tem acesso quem fizer por onde.) 
 
Responder todas as mensagens ainda não respondidas, assim que for capaz de decidir se devo fazê-lo por ordem cronológica, por ordem alfabética, ou por ordem de importância. (E, neste último caso, retomar os originais dos meus Prolegômenos a uma Taxonomia Hierárquica das Motivações Subjetivas dos Meus Assim-Ditos Semelhantes, interrompida na página 638 no início da pandemia.) 
 
Investigar mais a fundo o dúbio acidente de automóvel que vitimou o escritor Albert Camus, nos primeiros dias de janeiro de 1960, e que muitos dizem ter sido um crime premeditado. (Paul Auster é um dos que defendem essa tese polêmica.) 
 
Pesquisar com detalhes o meu projeto antigo de criar na Paraíba uma reprodução do “Caminho de São Tiago de Compostela”, começando em João Pessoa (Ponta do Seixas) e indo até Cajazeiras, a última grande cidade paraibana, num trajeto feito a pé. (Calcular número de quilômetros por dia, possíveis paradas, albergues, etc.) 
 
Escrever um livro de contos intitulado “Praça de Alimentação”, com pequenas cenas, diálogos, etc., ambientados nas respectivas praças de alimentação de dez shoppings de cidades brasileiras, com detalhamento de descrição suficiente para serem identificados, mas sem dizer quem é quem. (O livro será um best-seller absoluto, porque irá impactar lucrativamente na frequência a esses recintos, e receberá um impulso comercial extra sempre que uma das praças for identificada sem sombra de dúvida.) 
 
Escrever uma biografia de B. Traven. (Já que ninguém sabe quem foi ele ao certo, embora sua obra literária seja famosa, qualquer biografia tá valendo.) 
 
Desencaixotar aquela parte da mudança de 2019 na qual ainda não tive ânimo para mexer. (Principalmente porque muitos livros sumiram na mudança, quem me garante que não estarão ali? Questão de lógica elementar!...) 
 
Redigir o piloto daquela série de TV que será um grande sucesso, “Dennis vs. Sheldon”, em que o Pimentinha dos gibis encontra o Young Sheldon, o futuro protagonista da série The Big Bang Theory. (Verossimilhança cronológica à parte, claro, porque esse detalhamento diegético fica para esse pessoal pentelhante e catador-de-lêndeas, os sheldonianos da vida real.) 
 
Separar as camisas em que é preciso pregar botão. (E mais uma vez me verei diante do dilema: aprender a costurar aquela cruzinha que sustenta o botão, ou continuar terceirizando? Fortes emoções nos próximos capítulos.) 
 
Aprender a fazer mágicas. (Sim, muitas pessoas transbordantes de solidariedade dirão que eu “já faço mágica com as palavras, etc etc...”, mas meu sonho é fazer mágica com baralho, lenço, pombo, jarro dágua, etc.) 
 
Passear nas três linhas do VLT do Rio, que praticamente não conheço ainda. (Eu não moro no Rio de Janeiro, moro no meu apartamento.) 
 
Baixar aquele software que atribui uma nota musical a cada tecla deste meu teclado de escrita, e registrar a melodia-aleatória correspondente a meus poemas mais conhecidos. (Ainda estou em dúvida se solto as melodias no YouTube e ofereço um prêmio a quem descobrir, mas isso vai bagunçar minha rotina, melhor não.) 
 
Traduzir o Eugene Onegin de Pushkin sob o título de Eugene, Oregon, mantendo o formato de “soneto pushkiniano”, e ambientar a história no noroeste dos EUA, uma história tipo aquele Paterson de Jim Jarmusch. (Pode parecer uma violentação à arte do poeta russo, mas muito pior do que isto foi o que fez Vladimir Nabokov!) 
 
Todos os dias trancar a porta do escritório, pegar o violão, e improvisar sextilhas sobre temas aleatórios durante 30 minutos. (Só começar a gravar a partir do quinto mês.) 
 
Ganhar bem muito dinheiro, comprar as casas onde já morei em Campina Grande, e cedê-las às autoridades para que sejam transformadas em bibliotecas públicas. (Para ser totalmente realista, a parte mais provável desta proposição é o seu trecho inicial.) 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 








quarta-feira, 15 de novembro de 2023

5002) Explicar o poema e a piada (15.11.2023)




Dizem que Ava Gardner, numa visita social ao poeta Robert Graves, disse a ele: “Sabe de uma coisa, Robert, eu não entendo poesia.” E ele, cavalheirescamente: “Minha querida, ninguém espera que você entenda um poema, espera que você o desfrute.”
 
Isto bate um pouco com a afirmativa de Stanley Kubrick de que um filme, idealmente, não deve ser compreendido, e sim desfrutado como se fosse uma peça musical.
 
Quer dizer que um poema não deve ser examinado pelo nosso intelecto, pela nossa mente racional, analítica? Deve, sim; se alguém inventar de dizer que não deve, aí é que a mente analítica se assanha toda para produzir interpretações.
 
A questão é outra. Um poema não converge para uma explicação nítida e clara, como ocorre com um problema matemático. O poema espalha significados em várias direções, a cada leitura, e para cada leitor.
 
Interpretar (“explicar”) um poema é uma tarefa desnecessária mas inevitável, porque somos uma civilização propensa a interpretar tudo. Precisamos explicar tudo cujo sentido não é imediatamente claro – uma chuva fora de estação, um bezerro que nasceu com duas cabeças, um carro novinho que deu o prego na BR, o comportamento bizarro de um técnico de futebol ou de um político.
 
Ao ler um poema diante de uma classe com 40 adolescentes, um professor de literatura não consegue ficar o tempo inteiro colhendo e comparando 40 impressões. Ele cede à tentação demasiado humana de matar a charada:
 
– Este poema fala sobre a perplexidade do Homem diante da falta de sentido de nossa civilização.
 
Soa tão plausível que desse momento em diante todas as leituras do poema tenderão a passar por esta porta, e só por ela.
 
Uma das maiores armadilhas em que o leitor acaba caindo é a de achar que um poema tem uma “resposta certa”, uma “mensagem”, um “significado único” que é preciso descobrir, como se fosse uma charada ou uma adivinhação.
 
Uma adivinhação é algo assim:
 
O que é, o que é: cai em pé e corre deitado?
Resposta: a chuva.
 
Quem inventou essa adivinhação tinha esta resposta em vista, e nesse caso, sim, podemos considerar que esta é a “resposta certa”.
 
Outras podem admitir mais de uma resposta-certa, e com isso servem de jogo de engana-engana.
 

 
(Trupizupe, o Raio da Silibrina, direção de Hermano José, com Gilmar Albuquerque, Saint-Clair Avelar e Geová Amorim, 1979, Campina Grande)


Na minha peça Trupizupe, o Raio da Silibrina (1979) vários pretendentes vão à corte do Rei responder adivinhações, para conquistar a mão da princesa, mas ela é mal-humorada e não quer casar com ninguém.
 
REI: Que entre o primeiro candidato!
(ENTRA CANDIDATO 1)
PRINCESA: O que é, o que é: quanto maior menos se vê?
CANDIDATO 1: A distância!
PRINCESA: Errado! É a escuridão. Cortem-lhe a cabeça!
(CANDIDATO 1 SAI)
REI: Que entre o segundo candidato!
(ENTRA CANDIDATO 2)
PRINCESA: O que é, o que é: quanto maior menos se vê?
CANDIDATO 1: A escuridão!
PRINCESA: Errado! É a distância. Cortem-lhe a cabeça!
 
E por aí vai. O conceito de “resposta certa” pertence ao domínio da Matemática, da Lógica, da Ciência (de algumas Ciências), mas não ao domínio da cultura popular ou da poesia.
 
O poema é um gerador de “imagens”, “melodias” e “idéias” (fanopéia, melopéia e logopéia, nos termos usados por Ezra Pound), e quem o escreve tem consciência de estar apenas desencadeando um processo nas mentes alheias. 
 
Mal comparando, o poema é como um raio de luz. As mil-e-uma impressões sensoriais, emotivas e intelectuais que fervilham na mente do poeta são como um espectro de várias cores, que ele consegue por fim sintetizar num raio único, de cor branca, onde se contém tudo que estava em sua mente. Esse raio branco é o poema. E quando o poema é lido por uma pessoa, ele volta a se refratar em raios de várias cores, mas – isto é crucial – esses raios jamais serão idênticos aos que havia na cabeça do poeta. 



Assim como nossos olhos veem no mesmo arco-íris um arco-íris diferente do que as pessoas ao nosso lado estão vendo (porque o ângulo de incidência dos raios luminosos é diferente, mesmo com alguns centímetros de distância entre os olhos de um e os olhos do outro), nossa leitura do mesmo poema é parecida mas nunca é igual. Porque aquelas palavras despertam ressonâncias diferentes em mim e em você. 
 
Um poema não conduz a um único significado, previsto (e disfarçado) pelo autor. É um gerador de múltiplos significados – todos flutuando, é claro, no interior da “nuvem” de significados cabível nas palavras do texto. O poema não é uma casa-da-mãe-joana onde cada um lê o que bem entende. 
 
Um poema é para ser sentido, desfrutado, saboreado, experimentado com interesse, curiosidade, sem muita pressa de “entender”, de “achar a resposta”. 
 
Nem todo poema se presta a isso. A maioria dos poemas que eu leio eu não desfruto muito, não porque “não compreenda o significado”, mas, em geral, porque já li centenas de poemas muito parecidos. Aquele ali, por mais benfeitinho que esteja, é agradável, mas não me traz muita novidade. É uma lata de Coca-Cola a mais. 
 
Explicar um poema é um pouco como explicar uma piada. A gente conta a piada. Algumas pessoas riem no final, outras não. Então a gente vai explicar a piada, o que já é, por definição, a confissão de uma derrota. É como fazer uma carícia na parceira, ouvir dela que não sentiu absolutamente nada, e depois explicar-lhe cientificamente por que deveria ter sentido alguma coisa. “Sheldon In Love.” 
 
A emoção do poema e a graça da anedota dependem muitas vezes de um voo mental, dependem da nossa capacidade de, num segundo, repensar o que vinha sendo pensado e ver tudo com novos olhos, a partir de cada informação nova que chegou. 




Fazer isto é saltar de um pico-da-montanha a outro, sem descer ao vale; mas o que chamamos “compreender” é filho do “explicar”, que é por natureza uma atividade pedestre. Explicar requer um avanço passo a passo, um reconhecimento cauteloso de cada pedaço de chão, como quem cruza uma floresta detendo-se a nomear e descrever cada árvore.  
 
Nem o poema nem a anedota resistem a esse desfibrar de uma experiência que se supõe instantânea. Claro que uma explicação sempre deixa algum lucro atrás de si; mas é como explicar a água fria a alguém que nela não mergulha a mão. 
 
Ou explicar o que é o leite a um menino cego, como na anedota antiga que li em Seleções
 
Um Homem está passeando no parque, num dia de sol, fazendo companhia a um Menino cego de nascença. O menino se queixa do calor e diz que gostaria de tomar um copo dágua. 
 
Homem: Por mim, eu tomaria um copo de leite. 
 
Menino: O que é leite? 
 
Homem: É um líquido branco. 
 
Menino: Líquido, eu sei o que é. Mas o que é branco? 
 
Homem: É a cor das penas de um ganso. 
 
Menino: Penas, eu sei o que é. Mas o que é ganso? 
 
Homem: É uma ave do pescoço torto. 
 
Menino: Pescoço, eu sei o que é. Mas o que é torto? 
 
O Homem, já impaciente, pega o braço do menino, estica-o, e diz: “Assim, seu braço está reto”. Dobra o braço do Menino, e diz: “E assim está torto”. 
 
Menino: Ah... Entendi o que é leite. 
 
O problema da maioria das explicações, principalmente as de poesia, é que tendem a se afastar cada vez mais da questão inicial. 


 
Para explicar uma frase, o explicador propõe um conceito que não está visível no poema em si. Não está muito distante, também; mas só em ser chamado a esclarecer alguma coisa ele já desloca o centro da discussão um pouquinho para o lado. Um novo questionamento afasta esse centro ainda mais, e assim por diante. 
 
O poema vai se distanciando no retrovisor, vai sumindo, e a explicação vai produzindo novos e mais novos conteúdos, e em torno deles a discussão avança. Pode deixar algo positivo? Sem dúvida. Mas o poema perdeu-se lá atrás, intacto. 
 
E é isto que acontece com centenas, milhares de poemas que lemos desde a infância e a adolescência, enquanto ampliamos a nossa capacidade de ler e de sentir. E jamais chegaremos a um ponto em que sejamos capazes de “entender” qualquer poema. Ninguém chega – embora seja capaz de explicar tudo e mais um pouco. 
 



 
 




quinta-feira, 18 de maio de 2023

4943) A arte do trocadilho infame (18.5.2023)




O melhor livro sobre o trocadilho é o clássico de Sigmund Freud Os Chistes e a Sua Relação Com o Inconsciente (1905). A tradução “chiste” me parece seguir o modelo espanhol; conheci esse livro numa tradução espanhola, e tenho agora o volume VIII da Edição Standard da Ed. Imago, tradução de Margarida Salomão. 
 
No prefácio desse volume, discute-se a tradução do termo original alemão (“der Witz”). Ele deu em inglês “wit” e “joke”, mas grande parte dos exemplos freudianos, sem deixarem de ser “piadas”, “chistes”, “gracejos”, são principalmente trocadilhos, termo que em inglês é “pun”. (Evidentemente, nenhum brasileiro habituado a soltar um trocadilho deixou passar impune essa palavrinha sugestiva.) 
 
Resumindo: todo trocadilho é um chiste, mas nem todo chiste é em forma de trocadilho.
 
Tenho a doença do trocadilho; pertenço a uma irmandade informal de viciados, onde posso incluir sem medo Marcus Vilar, André Aguiar, José Araripe, Henrique Rodrigues, Fraga, e outros calemburistas de reputação duvidosa. O trocadilho é um sintoma neurótico, no sentido de que o indivíduo dotado dessa capacidade sente uma compulsão irresistível de trocadilhar tudo que lhe apareça pela frente, e, pior, de dizer em voz alta cada trocadilho que lhe ocorre. 
 
É difícil, ao viciado, não armar um trocadilho quando as palavras se articulam e se oferecem ao seu ouvido; e é praticamente impossível não dizê-lo. Nenhum trocadilhista autêntico cala um trocadilho que lhe ocorra em público. 




Vou teorizar um pouquinho sobre esta arte, usando um exemplo autobiográfico. Eu teria uns dezoito anos; na casa dos meus pais, vi uma maçã numa fruteira e fui pegá-la para comer. Minha mãe, que já tinha examinado a fruta antes, avisou que ela estava com uma metade podre. “Não tem problema,” disse eu, “eu jogo fora a metade má e como a metade sã.” 
 
É um bom trocadilho, e é por coisas assim (não porque leio Freud) que sou tido por inteligente na família. Mas esta pequena façanha tem características que o trocadilho ideal em geral apresenta: 
 
1) foi um improviso, uma resposta instantânea a uma situação não planejada; 
 
2) houve uma notável economia de meios, ou seja, não precisou de nenhum raciocínio complicado, nem fez alusão a algum elemento externo ao fato em si; 
 
3) a intenção da resposta foi instantaneamente compreensível, sem precisar de explicações posteriores. (Piada explicada é piada perdida.) 
 
Darei como contra-exemplo uma graça contada por Ariano Suassuna, que também manifestava pendor por esse traquejo. Ariano, aliás, eu coloco no rol dos trocadilhistas clássicos, ao lado de Guimarães Rosa, Paulo Leminski, François Rabelais, Millôr Fernandes, Emílio de Menezes, James Joyce, Lewis Carroll e John Lennon.



Foi no tempo em que Ariano era jovem. Ele vinha andando na rua, numa tarde ensolarada e abafada do verão recifense. Um amigo se aproximou, os dois trocaram algumas frases, e o amigo disse:
 
– Olhe, Ariano, eu admiro muito você. Um sujeito íntegro, intelectualmente firme.
 
– Muito obrigado – disse Ariano.
 
– Você é uma pessoa admirável, uma pessoa íntegra. Eu diria mesmo: uma pessoa una.
 
– É mesmo? – disse Ariano, já com alguma coisa coçando atrás da orelha.
 
– E ainda mais nesse calor! – exclamou o amigo, erguendo a mão de encontro à luz do sol. – Esse calor terrível, que faz a gente suar.  E aí... suas, una?... 
 
Ariano fazia um muxoxo de incredulidade e comentava: “Veja bem, o sujeito faz um arrodeio desse tamanho, traz uns assuntos que não têm nenhuma relação, somente pra fazer um trocadilho vagabundo como esse.”  
 
É a contraprova do primeiro exemplo! Porque claramente não foi improvisado (foi pensado em casa e trazido para a rua), precisou introduzir dois temas não relacionados (integridade pessoal, e calor) e mesmo não precisando de explicação adicional fica bem claro que para juntar essas duas palavrinhas o sujeito precisou dar o equivalente a uma volta no quarteirão. 
 
Isso é o chamado “trocadilho infame”. E agora vou propor a segunda parte da minha teoria: se o trocadilho é uma arte, o trocadilho infame é uma anti-arte, uma paródia de si mesma, uma versão grotesca do Belo e uma versão disparatada da Sabedoria. Ou seja: é Arte também. 



Um trocadilho bem–feito nos leva a guardar alguns segundos de silêncio e depois dizer um palavrão admirativo ou um elogio ao geniozinho que o fez. Um trocadilho infame faz o grupo inteiro gargalhar ao mesmo tempo, dar tapa na perna, tapa na barriga, fazer munganga de arrancar os cabelos ou de cortar o próprio pescoço; provoca crises lacrimais de hilaridade e – em suma – reforça a boa-vontade entre os seres humanos, e consequentemente contribui para a Paz Universal. 
 
Pertence ao domínio do trocadilho infame a famosa “charada trocadilhesca”, tão dependente da deformação sonora dos vocábulos que não tem cristão no mundo que adivinhe a resposta. Meu exemplo preferido: “O animal na torre da igreja encontra-se doente. Duas e duas.”  (Resposta: tatu / sino).
 
Ou esta clássica: “Sofre de gagueira o filho do Couto. Não é ele, é o outro. Duas e três.” (Sacadura Cabral). 
 
O trocadilho infame só presta se for uma forçação de barra, um pino quadrado enfiado à força num buraco redondo (ou vice-versa), algo tão desnecessariamente complicado quanto aqueles mecanismos rubegoldberguianos em que dezesseis objetos diferentes são conectados uns aos outros para acender um interruptor de parede. 



(Ilustração: Rube Goldberg)
 
O trocadilho é uma Arte porque implica num mínimo de esforço para obter um máximo de efeito. O trocadilho infame é uma anti-arte porque implica num máximo de esforço para obter um mínimo de efeito. (E portanto, pelas leis do Humor, é uma Arte também.) 
 
(Este texto foi motivado por uma postagem de Alex Antunes no Facebook, onde ele dizia: “Se um baiano tem abdome negativo, ele é chamado de 'meu rei côncavo'?) 



 (cartum: Odyr)