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domingo, 30 de março de 2014

3460) Escolhendo títulos (30.3.2014)



Ainda sobre a questão do título de um livro (ou de uma obra de outra natureza, mas que comporte um título): sua escolha deveria ser objeto das mesmas discussões madrugada adentro que os casais geralmente fazem para escolher o nome de um bebê.  Com um fator de dificultação a mais, porque o nome do bebê basta ser interessante e agradável, não tem a obrigação de condensar a essência do bebê (que nem existência tem ainda, coitado, quanto mais isso), ao passo que título de livro precisa ser tão elucidativo quanto um nome próprio, tão personalizado quanto uma impressão digital e tão expressivo quanto um rosto.

No blog de Marcelino Freire “Ossos do Ofídio” (http://bit.ly/N2DOm8) li uma divertida discussão de Clarice Lispector com dois colegas. Ela queria intitular um livro seu A veia no pulso. Fernando Sabino foi contra, porque achou que o título sugeria Aveia no pulso. João Cabral disse que o título era ótimo, que não se tratava de um cacófato, e que as veias e o pulso são coisas que a mente associa uma à outra sem muito esforço, de modo que só um idiota entenderia errado. Aliás, o livro acabou se chamando A Maçã no Escuro – muito melhor, pelo meu gosto.

O jovem romancista perseguia o escritor veterano e enchia-lhe o saco pedindo sugestão de título para um romance. Um dia o cara se encheu e disse: Me diga uma coisa. Aparece algum tambor no seu livro? O rapaz: Não, não aparece.  Ele: Bom. Tem alguma corneta? O rapaz: Claro que não!  Ele:  Então está aí seu título: Sem Tambor nem Corneta!

Esse tipo de definição por exclusão lembra o conselho de Mark Twain de que sempre que se fosse criar uma biblioteca a primeira coisa a fazer seria não comprar os livros de Jane Austen. “Mesmo que nenhuma outra obra venha a ser comprada,” dizia Twain, “só pelo fato de não ter nenhum livro dessa senhora já será uma excelente biblioteca”.

Que ave misteriosa e insondável, a Coruja da Desinspiração, habitava o campanário mental de Machado de Assis, quando ele, a certa altura, anunciou que seu próximo romance seria intitulado Último?  (Não foi: é o atual Esaú e Jacó).  Ver que mesmo um indivíduo capaz de alguns títulos primorosos, como é o caso de Machado, considera usar um título tão torto e instável como Último, mostra que nenhuma fórmula esgota as possibilidades da resposta lá fora, de centenas, de milhares de pessoas diferentes. Você está acostumado a ler Os Pardaillans, ou Anos de Tormenta ou A Mansão Misteriosa, aí de repente ergue um livro no balcão da livraria e lê: Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, você se pergunta que palavrão é aquele. Aí compra – porque o título inquietou. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

3318) O conto e o romance (16.10.2013)



(manuscrito de Lovecraft)

No recente VII Fantasticon, em São Paulo, participei de uma proveitosa troca de idéias com o escritor Marcelino Freire sobre “Cortázar e o conto sem véus”, um passeio pela obra do escritor argentino, um dos maiores contistas do continente. Marcelino lembrou uma famosa definição de Cortázar, que era um fã do boxe. Dizia ele que um romance é uma luta de boxe que se ganha por pontos, e o conto é uma luta em que se ganha por nocaute. (Ele poderia ter dito, se fosse fã do atletismo, que o romance é uma maratona e o conto é uma corrida de 100 metros rasos.)

Esse assunto me vem à mente depois que foi concedido o Prêmio Nobel de Literatura à canadense Alice Munro, que aliás nunca li, mas que fiquei sabendo ser uma especialista no conto. Isto deu margem a discussões, vindas de todos os lados, a respeito de contistas que nunca ganharam o Nobel (a começar por Borges) porque, segundo se teme, a Academia Sueca talvez considere o conto um gênero menor. (Aqui pra nós, eu acho que há uma veneração excessiva por essa Academia provinciana e pelo tal Prêmio Nobel, que é tão cheio de injustiças, equívocos e bobagens quanto qualquer prêmio de academia municipal de letras do Sertão do Borogodó.)

Acho que o preconceito em relação ao conto, que o faz perder em importância para o romance, é o mesmo que acontece com o filme de curta-metragem (considerado “uma obra menor” em relação ao longa-metragem). Tudo resulta da ética do labor, do trabalho, do capital, do consumo, uma ética perniciosa que, como sempre acontece, acaba produzindo uma estética. Acaba determinando (por valores acidentais e externos) o que é e o que não é uma obra de arte, o que tem e não tem valor artístico.

Por um lado, essa ética supõe que é preciso mais trabalho para escrever um romance de 300 páginas do que para escrever um conto de vinte (assim como se supõe que é mais trabalhoso dirigir um filme de 90 minutos do que um filme de dez ou quinze). Mais trabalho, segundo essa ótica, significa mais valor. Não se pode (pensam eles) comparar o valor de 300 páginas ao valor de vinte. (Ao que os contistas retrucam que é muito mais trabalhoso escrever um livro de contos de 300 páginas do que um romance do mesmo tamanho.)

E assim como se cria uma estética do trabalho, cria-se uma estética do consumo. O consumidor paga por um romance de 300 páginas porque vê ali o valor agregado do trabalho, o que segundo ele faz o romance “conter mais literatura” do que o conto. Essa estética quantitativa (ser longo é um valor estético em si mesmo) está espalhada por todas as artes, mas em nenhuma tem causado tantas injustiças quanto na literatura e no cinema.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

3302) VII Fantasticon (27.9.2013)




(Prêmio Argos)


No fim de semana passado fui a São Paulo para o VII Fantasticon, o evento anual de literatura fantástica organizado por Sílvio Alexandre na Biblioteca Viriato Corrêa (em Vila Mariana), a biblioteca municipal dedicada ao gênero. Participei de dois debates: sobre Julio Cortázar, na companhia de Marcelino Freire, e sobre cyborgs, junto com Luiz Bras. Recebi o Prêmio Argos, concedido pelo CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica), pelo “Conjunto da Obra”. Agradeci ao clube, sem o qual não teria jamais me animado a escrever e publicar contos do gênero. E dediquei o prêmio a dois dos meus primeiros editores na FC: Sérgio Fonseca de Castro (que me publicou na antologia Verde... Verde..., 1988) e Roberto Nascimento, que publicou no fanzine Somnium os primeiros contos que iriam constituir meu livro A Espinha Dorsal da Memória, de 1989.

O mais interessante para mim, este ano, foi ver que o evento está ampliando as áreas de contato entre os três gêneros que geralmente aparecem juntos nos critérios de classificação dos países de língua inglesa (FC, fantasia e horror) e o fantástico considerado do ponto de vista da literatura “mainstream”. Eu já fiz palestras no Fantasticon sobre o fantástico em Guimarães Rosa e em Ariano Suassuna, e sobre a FC de William Burroughs; este ano, vi (entre outras mesas) Ignácio de Loyola Brandão e Manuel da Costa Pinto comentando o realismo fantástico da revista Planeta, e Jorge Schwarz e Andréa del Fuego discutindo a obra de Murilo Rubião.

Acho que este é um estímulo importante para contrabalançar as pesadas doses de literatura-de-gênero em língua inglesa que são a principal leitura do fã e pretendente a escritor do gênero no Brasil. Vejo jovens que leem centenas de contos de FC/fantasia/horror em inglês e não têm idéia de que são Guy de Maupassant, José J. Veiga, Hoffmann, Borges, Ítalo Calvino, Stanislaw Lem, Garcia Márquez, e tantos outros. Correm o risco de, mais do que leitores de um gênero, tornarem-se leitores de meia dúzia de fórmulas. E quando começam a escrever, reproduzem essas fórmulas, que já eram velhas quando eles nasceram, e onde é preciso ser muito sagaz e experiente para inventar uma variante realmente nova.

O Fantasticon é uma tribuna em que autores, críticos e editores se encontram para conversar. Senti falta, este ano, da tradicional “Mesa dos Editores”, em que eles avaliam o mercado e falam dos seus projetos. Mas a discussão propriamente literária é sempre de alto nível, sem pedantismo, sem jargão. Autores e leitores conversam sobre a experiência profunda de ler e de escrever ficção fantástica, e isto é o mais importante.


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

1285) Contos com 6 palavras (26.4.2007)




Será possível contar uma história em apenas seis palavras? Muita gente acredita que sim. 

O escritor Marcelino Freire organizou uma antologia de contos que não poderiam ultrapassar a extensão de um miniconto de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. 

Inadvertidamente, o antologista não estabeleceu um limite para a extensão do título – o que levou o picaresco Millôr Fernandes a bolar um título imenso, que contava a história quase toda. 

Já o “conto de seis palavras” tem como modelo um miniconto atribuído a Hemingway, que diz: "For sale: baby shoes, never worn" (“Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”). Há toda uma história de tragédia familiar por trás deste minitexto. O miniconto consiste basicamente em sugerir, não em mostrar.

O websaite da revista Wired (http://www.wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html) convidou dezenas de autores para produzir textos de 6 palavras com histórias de ficção científica ou fantasia. 

Tem muita besteira, claro. Mas tem também algumas soluções brilhantes. Vejam este, de Eileen Gunn: “Computador? Trouxemos baterias? Alô! Computador? Computador?…” Não precisa mais nada para a gente imaginar uma nave silenciosamente à deriva no espaço, e astronautas congelados, todos com a cara de Mr. Bean.

As especulações sobre o fim do mundo também são ricas em possibilidades. Eis um exemplo de Gregory Maguire: “Nos arranha-céus calcinados, homens criaram asas”. Sugere uma II Guerra Mundial, uma inesperada mutação, uma volta-por-cima no Apocalipse. Não é pouco. 

Outros fins-do-mundo são menos imaginativos, mas não menos amedrontadores: “Choveu, choveu, choveu, nunca mais parou”. Vejam que se trata de algo cientificamente impossível, uma chuva que nunca pára – o que a torna mais inquietante ainda.

Viagens no tempo são um caminho interessante para estas narrativas super-rápidas. Harry Harrison propõe esta hipótese: “MÁQUINA CHEGA AO FUTURO. Ninguém lá...” 

Um recurso mais operacional, meio clichê dentro do gênero, mas eficaz nas curtas dimensões do miniconto, é a historieta de Alan Moore: “Tempo. Sem querer, inventei máquina do.” E tem a humorística hipótese de David Brin: “Dinossauros retornam. Querem petróleo de volta”.

Não multiplicarei os exemplos (no saite tem mais de 50). O interessante nestas experiências é o fato de que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco-de-dados comum para preencher as lacunas, as partes não explicadas (não dá para explicar muito em seis palavras). 

As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem precisar ficar esmiuçando “comos” e “por quês”. As seis palavras são a ponta de um iceberg de subtexto implícito, compartilhado, lido e aprendido por autor e leitor. São como um título de livro, uma manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de “já saber” e também de imaginar.