O deus da guerra (Der Kriegsgott)
Bertolt Brecht (trad. BT)
1949.
(traduzido da versão inglesa de Michael Hamburger)
Eu vi o velho deus da guerra de pé num pântano, entre a parede de pedra e o precipício.
Cheirava a cerveja grátis e a ácido carbólico, e mostrava os testículos às
adolescentes, porque tinha sido rejuvenescido por vários cientistas.
Tinha a voz de um lobo enrouquecido, e declarava seu amor por tudo que era
jovem.
Ao seu lado estava uma mulher grávida, trêmula de medo.
Falando com
desenvoltura, dizia ser o maior dos defensores da ordem.
E contava como por toda parte impunha a ordem nos estábulos, esvaziando-os.
E, assim como quem joga migalhas de pão aos pássaros, alimentava os pobres com
migalhas tomadas de outros pobres.
Sua voz ora era forte, ora suave, mas sempre rouca.
Com a voz forte ele nos falava dos grandes tempos que estavam por vir, e com a
voz suave ele ensinava às mulheres como cozinhar corvos e gaivotas.
Seus ombros estavam sempre inquietos, e a toda hora ele olhava para trás, como
se temesse ser apunhalado.
E de cinco em cinco minutos ele garantia ao público que iria tomar pouco, muito
pouco do seu tempo.
