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quarta-feira, 3 de abril de 2024

5048) O Banquete dos Mendigos (3.4.2024)




 
A imprensa tem comentado um filme russo recente, O Mestre e Margarida, que está fazendo grande sucesso popular, e inquietando os censores do governo de Vladimir Putin. 
 
É mais uma adaptação cinematográfica (há várias) do famoso romance de Mikhail Bulgakov, que se não me engano já tem mais de uma tradução no Brasil.
 
Nunca o li. É um romance fantástico, muito elogiado, e está naquela lista de “500 Livros Que Preciso Ler, Nem Que Seja Depois De Morrer”. 
 
Houve uma sincronicidade interessante porque vi o anúncio desse filme mais ou menos ao mesmo tempo em que estava começando a rabiscar umas notas sobre o disco Beggars Banquet (“O Banquete dos Mendigos”, 1968) dos Rolling Stones, um dos meus preferidos na extensa obra da banda. 
 
O Banquete dos Mendigos (“Beggars Banquet”, 1968) foi um disco-porrada que os Stones lançaram na segunda metade da década de 1960, quando essa hidra-de-70-cabeças chamada “rock” brotava por toda parte. 
 
Para mim, é um dos melhores discos deles, junto com Between the Buttons, Let It Bleed, Exile on Main Street, Flowers, Some Girls e certamente mais algum título inesquecível que estou esquecendo agora. 




Os Stones sempre foram mais identificados com rockão pesado do que os Beatles, por exemplo. Eram metal-quente, e parede estremecendo. Junto deles, os Beatles eram o Trio Esperança, e o que os “salvava” era a riqueza melódica, a harmonia vocal, o imenso repertório de estilos musicais (graças principalmente a MacCartney, que cresceu ao lado de um pai músico, escutando tudo). E as letras, de Rubber Soul em diante; e o carisma sorridente. 
 
O lado “musicalmente beatle” dos Stones ficava por conta do multi-instrumentista Brian Jones, que morreu cedo; uma perda tão grande para o rock quanto as de Jimi Hendrix e Jim Morrison.
 
Lembro que o primeiro choque que Beggars Banquet produziu em mim e na minha turma na Paraíba foi que não era tão “rockão pesado” assim, se descontarmos “Street Fightin’ Man”. Era um cardápio variado de ritmos e sonoridades, que fazia a gente escutar de cenho franzido, pensando: “Que troço estranho. Isso é rock? Onde foram achar isso? Que troço legal.” 
 
A começar, é evidente, pela faixa que abre o disco, “Sympathy for the Devil”. Reza a lenda que as primeiras “levadas” da música surgiram quando os Stones vieram pegar uma areia ensolarada em Arembepe e outros lugarejos baianos, e de vez em quando tiravam um som com os moradores locais. 
 
O famoso e hipnótico “Uh-uuh!...”, que pontua a canção do começo ao fim, não foi trazido da Bahia, como pensei por muito tempo; foi meio que improvisado pelo produtor Jimmy Miller durante a gravação, e incorporado pela banda. Todo mundo entrou no balanço.  Não duvido que Mick Jagger e Keith Richards tenham explicado, muito convictos, aos técnicos de som: “É samba”. 
 
“Sympathy for the Devil” junta-se à capa interna do disco para explicar o diapasão mental que afinava o rock daquele tempo: luxo, decadência, esbanjamento e devassidão. O Diabo, que se apresenta nos versos, é “um homem de posses e de bom gosto”, um aristocrata. E ao mesmo tempo um conspirador dos salões e dos gabinetes, um instigador de conflitos. Ele se vangloria de estar por trás da Revolução Russa, da Blitzkrieg nazista, da morte dos Kennedys... 
 
E é aí que entra a sincronicidade com O Mestre e Margarida, o livro de Bulgakov, porque Mick Jagger sempre afirmou que “Sympathy for the Devil” tinha se inspirado nesse livro, escrito por Bulgakov entre 1928 e o ano de sua morte, 1940. A tradução inglesa, lançada em 1967 pela Grove Press, e em seguida por outras editoras, teve uma influência direta na canção dos Stones, cuja letra fala em nome do Diabo: 
 
Estou rondando por aqui há muitos anos
roubei a alma e a fé de muitos homens.
Estava por perto quando Jesus Cristo
teve o seu momento de dor e de dúvida;
e me certifiquei de que Pilatos
lavasse as mãos e selasse o seu destino.
 
O confronto entre Pilatos e Cristo é uma das linhas narrativas de O Mestre e Margarida, e Jagger o transpôs diretamente para a canção.
 
Jagger e os Stones nunca foram propriamente satanistas, ao que eu saiba. Pegaram um pouco de fama por causa dessa música. Quem teve pela vida toda um flerte com o Ocultismo e os seres-de-umbral foi gente como Jimmy Page, morador numa mansão que foi de Aleister Crowley. Os Stones intitularam um disco Their Satanic Majesties Request, mas o disco lembra mais um passeio no Mundo Imaginário do Dr. Parnassus do que uma visita ao Hades.



(Their Satanic Majesties Request)


O Diabo (dizia Guimarães Rosa) não existe: existe é o homem humano. O homem de posses e de bom gosto, apreciador de uma boa debaucheria, e que é o próprio Mick Jagger e seus ajudantes. E o disco ganhou um dos melhores títulos e uma das melhores capas internas da história do rock. 



Nessa capa interna e na faixa de abertura está concentrado o espírito de dissipação e auto-indulgência do rock daquela época. Uma farra meio surrealista promovida por alguns jovens milionários: o mais velho dos Stones, o baixista Bill Wyman, tinha 32 anos, mas os demais estavam na faixa de 25-27 anos. 



(Viridiana) 


O fotógrafo do disco, Michael Joseph, comenta que a idéia da foto do banquete foi do diretor de arte Mike Peters, e que este teria sido influenciado pela famosa foto do “banquete dos mendigos” de Viridiana (1961) de Luís Buñuel, numa versão satírica da Última Ceia de Leonardo da Vinci. 
 
Quase toda a comida que aparece na foto é artificial, com exceção de algumas bandejas com frutas. O local da sessão foi no norte de Londres, na mansão de Sarum Chase, em Hampstead. O supervisor da casa perguntou se na foto apareceriam mulheres nuas. “Não,” disse o fotógrafo, “vai ser somente a banda. Por que?”  E ele: “Se a foto incluir mulheres nuas, cobramos 10 libras a mais.” 
 
Ao ler isto, lembrei de um amigo meu, em Campina, olhando a capa do Banquete: “Tem bebida pra caramba, tem comida, tem porco, galinha, marreco... e não tem mulher nua. Isso é lá farra!” O que não nos impedia de correr o olho pela foto, catando detalhes; ou pela reprodução feita em Campina Grande pelo saudoso Roberto Coura, então com 16 anos, reproduzindo essa foto do banquete em nanquim sobre cartolina, em 1 metro x 2,5, e que foi parar na sala de Jakson e Marcos Agra. 
 
O banquete era uma síntese entre a vulgaridade e a sujeira dos mendigos de Buñuel, e (aqui é uma conjetura minha) a famosa capa do Bringin’ It All Back Home (1965) de Bob Dylan. Capa cuja intenção, nesta foto montada, era conferir a Dylan (que tinha uma origem rústica, de Minnesota, origem de cantor folk) a imagem sofisticada de cantor agora novaiorquino. 





A foto de Daniel Kaufman o mostra numa sala, diante de uma lareira, com um gato no colo, por entre objetos descuidadamente/cuidadosamente jogados em torno: uma revista Time, um disco de Robert Johnson, uma placa de “abrigo nuclear”... e uma mulher, vestida, mas linda, em pose relaxada e promissora (é a ex-modelo Sally Grossman, a esposa do empresário de Dylan). 
 
Tenho a mais tranquila certeza de que os Stones, além de ouvirem muito esse disco, examinaram muito essa capa, e três anos depois tiveram a chance de dar a resposta. A resposta não era a Dylan, na verdade, era ao jet-set londrino que no começo os esnobou tanto quanto o jet-set de Nova York esnobou Dylan; mas o sucesso doura qualquer pílula, e ambas as capas parecem estar dizendo: Fodam-se, nós agora somos ricos também. 
 
Nem tudo eram banquetes: o fotógrafo dos Stones lembra que na noite anterior à sessão de fotos a casa de Brian Jones tinha sido invadida pela polícia, em busca de drogas (não acharam nada), e ele, sempre o mais emocionalmente instável da banda, estava ainda abalado. 




O repertório do disco, curiosamente, não fica batendo na tecla da ostentação. Há várias canções quase totalmente acústicas, fugindo às muralhas de som do heavy-metal nascente. 
 
“Factory Girl” é uma homenagem às garotas que trabalham em fábricas, cantada pelo sujeito que a espera do lado de fora (quase um “Três Apitos” de Noel Rosa), uma garota “com joelhos gordinhos, com um lenço em vez de chapéu, e uma roupa com um zíper quebrado atrás”. 
 
“Salt of the Earth” é outra canção proletária, se se pode dizer isto. A banda ergue um brinde “aos humildes de berço... aos que trabalham duro... ao soldado raso que se mata de trabalhar, à sua esposa e filhos que acendem fogos e aram a terra... vamos beber a esses milhões de pessoas que precisam de líderes, mas só lhes chegam especuladores...” Aqui, os ecos se propagam até “Working Class Hero”, da carreira solo de John Lennon. 
 
Ou seja: por mais que fossem milionários recentes os Stones não cortavam seu cordão umbilical de classe, das origens não-milionárias de cada um. E mesmo quando decolavam num dos seus rocks mais pesados e rebeldes dessa fase, “Street Fighting Man”, eles perguntam: 
 
Mas afinal, o que pode um rapaz pobre fazer
a não ser cantar numa banda de rock?
Porque nesta sonolenta cidade de Londres
não há lugar para guerreiros de rua.
 
E depois, em versos que parecem pedidos-emprestados a “Sympathy for the Devil”:
 
Então... o meu nome é Distúrbio,
eu vou gritar e ulular
eu vou matar o rei
e passar o rodo nos seus servidores.
 
Keith Richard comenta que a rapaziada inglesa de então (lembrem-se, o ano era 1968) via com certa inveja as agitações estudantis francesas que fecharam a Sorbonne e pararam Paris no mês de maio. Richard lembra que as frases iniciais desta música (“Ev’rywhere I hear the sound of marching charging feet, boy..”) se baseia na sirene de duas-notas dos carros de polícia franceses. Uma inspiração semelhante à que teve John Lennon ao compor “I Am The Walrus” (“Mister-City-p’liceman-sittin’-pretty-little-p’liceman-in a row...”). 
 
Comparada à Paris de Daniel Cohn-Bendit e de Jean-Luc Godard, Londres devia parecer uma grande Boston. Talvez por isso mesmo a banda tenha convidado Godard para filmar a gravação de “Sympathy for the Devil” no estúdio – parafraseando Chico Buarque e dizendo: “pra ver se o fogo deles, guardado em ti, nos contagia um pouco”.
















sábado, 12 de novembro de 2011

2712) Pior do que o mal (12.11.2011)




Na cozinha de um restaurante, um sujeito não conserta direito a mangueira de um bujão de gás, que dias depois explode, matando algumas pessoas. 

Na estrada, um motorista se distrai tentando trocar o CD que estava ouvindo, bate de frente com outro carro, e morrem duas famílias. 

Num campo de batalha, uma ordem pelo rádio é mal compreendida e um batalhão se desloca para leste ao invés de oeste, sendo dizimado pela artilharia inimiga. 

Dois homens fazem uma piada de mau gosto na porta de um bar; um transeunte pensa que estão rindo dele e inicia uma briga que, muitos tiros depois, deixa alguns mortos.

Goethe afirmou certa vez que os mal-entendidos e as negligências causam mais danos ao mundo do que a maldade humana. A gente tem uma tendência a ver o Mal como um jorro íntegro e maciço de ruindade, algo que existe apenas para ofender, matar, destruir, corromper, vilificar. 

O Mal é uma força que tem a intenção, o orgulho e a vaidade de ser má. Faz a maldade com a dedicação circunspecta de quem cumpre uma missão inadiável, com a euforia de quem está fazendo o que mais gosta, com a brutalidade de quem só tem uma ação que justifique sua existência e precisa cumpri-la integralmente o mais depressa possível.

Este será o Mal grandioso, o Mal montanha, o Mal cordilheira. Mas pelo que se vê existe uma forma mais minúscula e mais insidiosa, uma espécie de varejo do Mal, em que nada é grandioso, nem mesmo as intenções, mas dá passagem ao Mal de qualquer forma (o Mal compreendido aqui como a fonte da infelicidade e da destruição humana). 

Há um poema de Brecht que diz: “Escapei dos tigres, alimentei os percevejos”. Esse Mal-percevejo habita nosso cotidiano. Mesmo quando escapamos aos tanques de guerra, aos genocídios étnicos, aos serial killers, existe uma maldadezinha mixuruca e tacanha destinada a empobrecer nossa vida, roê-la pelas beiradas, como uma cárie capaz de deteriorar tudo em pequena escala.

Pior, muitas vezes, do que o Mal grandioso, é o Mal insetóide, minúsculo, fervilhante, que se exprime pelo mal-entendido, pela má vontade, pela coisa mal feita; pelo erro de cálculo, pela imprevidência, pelo descuido, pelo esquecimento relapso, pela desatenção, pela omissão, pelo vacilo, pela bobeira. 

Razão tinham os primitivos que acreditavam na existência de um Demônio Chefe mas também na existência de mil demoniozinhos menores, que quebram a telha, deixam o gás aberto, furam o pneu, desencapam o fio, travam o fecho, e produzem com certo esforço na mente humana aquele “branco” de dois ou três segundos de duração que é tudo de que o Mal precisa para fazer explodir sua catástrofe repentina.





quinta-feira, 29 de julho de 2010

2306) “O Olho do Diabo”(29.7.2010)



Ingmar Bergman é um dos grandes realistas do cinema, mas seus filmes fantásticos também são notáveis, entre outras coisas porque, como todo grande realista, quando ele conta histórias fantásticas sabe dar-lhes espessura realística, o que torna o fantástico também mais espesso. É o caso de um dos seus filmes mais famosos, O Sétimo Selo, em que um cavaleiro medieval joga xadrez com a Morte.

O Olho do Diabo (1960) é um filme menor, desdenhado (ao que se diz) pelo próprio Bergman, que o dirigiu apenas para atender ao produtor de A Fonte da Donzela, que fez no mesmo ano. É um filme com estrutura e apresentação teatral, onde um ator, folheando um livrão, anuncia que vai contar uma história. A história é a de uma moça (Bibi Andersson) que pretende casar virgem; isso incomoda o Diabo, que convoca Don Juan para vir à Terra e seduzi-la. É, portanto, um conto moralista à moda do século 18 ou 19, e que Bergman narra com mão leve e ágil. Ele evita a farsa, sabendo que não é seu terreno; a história tem charme e leveza em alguns momentos, e em outros mergulha nas angústias existenciais e enigmas metafísicos de que o diretor tanto gosta.

Don Juan está condenado a uma eternidade no inferno: seu tormento é o de todos os dias receber em seus aposentos mulheres desesperadas ou apaixonadas, que ele seduz, mas que desaparecem quando ele consegue levá-las para a cama. Sua vinda à Terra é supervisionada por um Diabo vestido de padre, que se transforma de vez em quando num gato preto. Don Juan traz consigo seu fiel criado Pablo, o qual, enquanto o patrão seduz a mocinha, faz o mesmo com a mãe dela, cujo marido, um pastor bonachão e meio papalvo, hospeda os dois em sua casa sem desconfiar de nada. O melhor do filme de Bergman é que, ao narrar uma historieta tão esquemática quanto um libreto de ópera bufa, trata realisticamente os personagens. Todos são contraditórios. Todos são surpreendentes. Nenhum deles fica ancorado à caricatura, e todos produzem pequenas reviravoltas na narrativa, que de galhofeira fica repentinamente séria, ou vice-versa.

“A pureza de uma mulher é um terçol no olho do Diabo”, diz o provérbio citado na abertura do filme. Bibi Andersson e Gertrud Firdh, que interpretam a mãe e a filha, dão uma riqueza de nuances às suas personagens , que variam o tempo inteiro entre pudicas e oferecidas, vulneráveis e sedutoras. As cenas do Inferno (na verdade um escritório cuja janela dá para o Fogo Eterno) reproduzem o conceito tradicional do Diabo como uma mistura de aristocrata e burocrata. No final, há um diabo-assistente capaz de ouvir à distância (e relatar) os ruídos e as falas da mocinha em sua noite de núpcias. Há outra cena divertida em que Don Juan, antes da viagem, recebe instruções sobre as características da sensualidade das mulheres nórdicas. O Olho do Diabo é também um filme inesperadamente perceptivo sobre a mecânica da sedução.

domingo, 4 de julho de 2010

2226) Utopias e horrores (27.4.2010)



(Lúcifer, por Gustave Doré)

Isaac Asimov, num artigo famoso sobre vilões literários, comentou o Paraíso Perdido de John Milton dizendo: “O Satã de Milton é indomável mesmo derrotado, e apresenta lampejos de piedade, e por isto é um personagem interessante, enquanto que o Deus de Milton nunca se permite ser menos do que perfeito, e por isto é tedioso”. Isto me parece uma regra geral para a contraposição entre heróis e vilões. Os heróis populares de 50 anos atrás eram muito mais certinhos e mais politicamente corretos do que os de hoje. Deixaram de ser: vejam Batman, Superman, etc. O que causou essa mudança foi o fato de que o público – principalmente o público jovem, consumidor de filmes e de histórias em quadrinhos – começou a se impacientar com heróis muito bem comportados e a ficar fã dos vilões. Os vilões eram muito mais excitantes! Para recuperar o terreno perdido, os roteiristas e escritores tiveram que tornar os heróis mais complexos, dando-lhes traços de cinismo, uma certa crueldade, uma esperteza malandra, etc.

Quando um herói tem que ser um modelo de conduta, ele perde a liberdade – que é o que mais fascina o público jovem. A rapaziada começa a se interessar pelo vilão, porque este, sim, é livre, faz o que lhe dá na telha, não dá satisfações a ninguém, não tem medo de nada, não tem superego, não tem código de conduta... Leitores jovens são mais seduzidos por isto do que por um diploma de bom rapaz. Essa falta de liberdade implodiu os heróis clássicos, dando origem, principalmente nos quadrinhos, aos moralmente complexos heróis contemporâneos, com quem os leitores se identificam melhor.

Isto me lembra uma frase de Evelyn Waugh: “A mente humana é muito inspirada quando se trata de inventar horrores, mas quando se trata de inventar um paraíso ela mostra suas limitações”. Se dermos uma olhada nas Utopias clássicas da literatura, da poesia, do cinema, veremos que nenhuma delas se sustenta como algo plausível, e algumas chegam mesmo a se aproximar da Distopia, do pesadelo. Por outro lado, para inventar pesadelos nosso talento parece ilimitado. (Existe também uma espécie de consenso de que o Inferno de Dante é muito mais vívido, interessante, movimentado e bem escrito do que seu Paraíso).

A verdade é que a Realidade é muito mais próxima do Horror do que do paraíso ou da utopia. O propósito da ficção é alçar voo elevando-se desse horror, mas sabendo que o céu é inatingível. As coisas terríveis nos parecem mais vívidas, mais fáceis de imaginar e de assimilar porque são parte da nossa experiência real, ao passo que os paraísos são uma incógnita. Se pudéssemos visualizar o conjunto das literatura humanas em relação a esses dois extremos, veríamos que a maior parte do que criamos está bem mais próxima do pesadelo do que do paraíso, pelo simples fato de que o pesadelo é inteligível e tem abundantes exemplos, e o paraíso não. Nossas literaturas têm voo baixo: enxergam de longe o céu, mas mal conseguem se afastar do chão.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

1973) Os castigos eternos (5.7.2009)



Na infância, amedrontavam a gente com o Inferno através da descrição de torturas físicas horrorosas. As aulas de Religião nos ameaçavam com o Fogo Eterno, em que nossas almas iriam arder para sempre, caso a gente morresse em pecado. Um dia, um aluno mais blasê retrucou: “Eu não ligo, porque é a alma, alma não sente dor”. A freira o fuzilou com o olhar: “Pois fique sabendo que quando a alma está no fogo do Inferno ela sente muito mais dor do que o corpo! E o que é pior: não morre! É um fogo tão grande que o corpo não ia aguentar nem um minuto, mas como a alma é imortal, ela queima ali eternamente!” Era o quanto bastava para de noite eu cair de cama e arder numa febre antecipatória.

Teólogos adultos são mais sofisticados. Dizem-nos que “o Inferno é a ausência de Deus”, o mais intolerável dos castigos. Imagino que para uma pessoa religiosa a ausência de Deus deve provocar uma Náusea, uma ausência de sentido nas coisas, mil vezes maior do que a do protagonista do livro de Sartre quando olha para a raiz de uma árvore e percebe que ela não significa nada, apenas está ali, e isso é tudo. Será que este castigo é mesmo o mais cruel de todos? Parece ser assim para Neil, o protagonista do conto “Hell is the absence of God”, de Ted Chiang (2001), no qual ele vai parar no Inferno, um lugar de onde Deus está ausente a ponto de não saber que Neil está ali. Diz o autor: “Neil sabe que, estando fora da percepção de Deus, seu amor por Ele não é retribuído. Isto não afeta os seus sentimentos, porque o amor incondicional nada pede em troca, nem mesmo reciprocidade. Mas ele continua a amar Deus, pois essa é a natureza da verdadeira devoção”.

Espíritos céticos, no entanto, continuam a se alinhar com a opinião daquele meu colega blasê da escola. É o caso de Oscar Wilde e sua famosa frase: “Livre-me Deus da dor física, e pode deixar que da dor espiritual eu mesmo me encarrego”. Tem razão, em parte. Quando eu tinha 12 anos tive uma dor de dentes que durou dias, tão violenta que pensei em me suicidar. Em alguns momentos o medo de ir para o Inferno me detinha. Em outros eu pensava: “Dane-se o Inferno, eu quero é acabar com essa dor!” E então me veio a idéia salvadora. Compreendi que o Inferno era aquela mesma dor – só que em todos os dentes ao mesmo tempo, e por toda a Eternidade. Essa noção pode ter salvado minha vida.

E tem a história de Rudyard Kipling dando conselhos ao jovem escritor Ford Maddox Ford, então um garoto. “Se você for bom, Fordie”, disse ele, “irá um dia para um lugar cheio de nuvens e de harpas. Você vai sentar numa nuvem e cantar hinos em louvor ao Senhor, para sempre, e sempre, e sempre. Você vai vestir eternamente uma túnica branca, e estará cercado por criaturas parecidas com sua mãe, só que todas têm asas. Mas se você for um menino mau...” Aí ele fazia uma pausa ameaçadora e concluía: “Se você for mau, vai parar num lugar muito, muito pior do que esse”.

sábado, 29 de agosto de 2009

1226) “O Perfume” (16.2.2007)



Os dez primeiros minutos deste filme são de tirar da sala qualquer espectador que tenha entrado ali apenas em busca de uma poltrona enquanto come pipoca e fala ao celular. Reconstituindo a sujeira e a violência das ruas de Paris no século 18, ele nos oferece uma antologia impecável de imagens de sujeira e violência, e nos faz mergulhar de cabeça no ambiente onde nasce Jean-Baptiste Grenouille, o homem que tem o olfato perfeito.

O livro de Patrick Susskind foi grande best-seller há 20 anos. Muita gente deve lembrar dele. A adaptação é cuidadosa, fiel, visualmente impressionante. Descrever cheiros, seja com palavras ou com imagens, só é possível através de associações de idéias, e o filme o faz tão bem quanto o livro. (Se não leu o livro, caro leitor, vá dar uma olhada; seu olfato sairá muitíssimo enriquecido). Em alguns momentos me veio à memória aquele filme recente (Entre Umas e Outras, ou Sideways) em que um cara degusta vinho e faz descrições mirabolantes dos sabores que está sentindo.

O Perfume não é só isso. É também a história de um serial-killer, e talvez isto tenha ajudado na realização deste filme caríssimo, porque o cinema elegeu o serial-killer como símbolo de nossa época (Freud explica). É uma história de ficção científica, pois mostra como é possível, através de manipulações químicas, controlar e manobrar as emoções das pessoas. É também um conto fantástico, ao postular um indivíduo com uma percepção sensorial impossivelmente aguda e sem nenhum odor em seu próprio corpo. Vi algumas críticas onde se comentava que Grenouille, o Homem Que Não Tem Cheiro, seria por causa disto o próprio Diabo, o que me trouxe à mente a lenda que comentei nesta coluna em “O Diabo: o homem que não sua” (5.4.2006).

Grenouille mata mulheres para extrair a essência de seus corpos e fabricar o perfume perfeito, capaz de produzir em quem o sente a ilusão de estar no Paraíso. Seu mestre Baldini (Dustin Hoffman) tem, para explicar a beleza dos perfumes, uma teoria musical baseada em notas, acordes dominantes e sub-dominantes. Grenouille me lembrou o filme Amadeus de Milos Forman: é um Mozart maligno. Diante de uma linda mulher, ele, nascido na sarjeta e criado no submundo, não sabe o que fazer com ela, a não ser roubar e guardar, com a obsessão de um vampiro avarento, o precioso líquido em que aquela beleza foi destilada em essência.

O diretor é o mesmo de Corra, Lola, Corra (que comentei aqui em 9.12.2005). Dois filmes de tema, técnica, estilo e espírito completamente diversos – o que, para mim, é uma excelente recomendação para um diretor de cinema. O Perfume é uma dessas raras adaptações cinematográficas tão densas quanto o livro original. Não é para todos os gostos, mas, ao contrário dos filmes de Hannibal Lecter, não glorifica o sadismo ou a crueldade. O assassino é desumano o bastante para que não queiramos nos identificar com ele, e possamos acompanhar de fora a limpidez de sua obsessão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1200) "O Fim da Infância" (17.1.2007)


(a tradução portuguesa, na "Colecção Argonauta")

Em seu romance com este título, Arthur C. Clarke lançou uma idéia perturbadora: o Diabo não existe, mas é nosso amigo. No livro, a Terra é invadida logo no início por uma frota de imensas espaçonaves alienígenas. Com um poder tecnológico que não podemos nem imaginar, os extraterrestres inviabilizam qualquer tipo de reação. Desativam nossas armas, apossam-se de nossas telecomunicações, e deixam a humanidade inteira, em termos práticos, de pés e mãos atados, totalmente à sua mercê. E isto sem nem sequer desembarcar: suas naves ficam pairando, fechadas e inacessíveis, por cima das maiores capitais do mundo. A partir daí, eles começam um paciente trabalho de desmonte de nossa estrutura bélica e de resolução de nossos problemas de infra-estrutura. O mundo passa por uma revolução benéfica como jamais conhecera. Só que os benfeitores continuam ocultos em suas naves, recusando-se a aparecer. Dizem eles que a Humanidade ainda não está pronta para encarar sua aparência física, e que só se mostrarão depois de transcorridos cinquenta anos.

Quando o prazo se esgota, as naves pousam, as portas se abrem, e eles surgem. E sua aparência é a reprodução exata da imagem tradicional do Diabo: são altos, peludos, com chifres na cabeça, cauda pontiaguda, etc. e tal. Eles explicam que não é coincidência. São oriundos de um planeta parecido com a Terra, por isto parecem uma mistura entre humanos e animais terrestres. A imagem ameaçadora do Diabo gerada em nossa cultura corresponderia à memória remota deixada por eles em outras visitas ao nosso planeta.

Clarke, que em 2001 nos deu alienígenas misteriosos, elusivos, que nunca se deixam ver, parece divertir-se com esse jogo de imagens entre Ciência e Religião. Para ele, o que chamamos de Deus ou de Diabo são criaturas de civilizações impensavelmente superiores. Todo o nosso panteão de divindades não passa de reflexos deixados por esses seres. Clarke representa a visão cientificista ocidental, para a qual tudo que chamamos hoje de religião, mitologia, misticismo, superstição, etc. são versões rudimentares de um conhecimento do mundo que irá pouco a pouco caducando e sendo substituído pelo conhecimento científico. Clarke é um Iluminista do século 20, um sobrevivente heróico daquela época em que o Ocidente embriagou-se de racionalidade e deu à Razão a tarefa de explicar tudo.

Para Clarke, a humanidade de hoje vive ainda a infância da espécie. Chegará o momento em que os Adultos da Galáxia nos tirarão do berço e nos adaptarão com cuidado ao seu mundo. Ele disse certa vez que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. E nesses dois livros parece dizer que os extra-terrestres distantes e poderosos são a verdadeira face de Deus. Ou do Diabo.

domingo, 5 de julho de 2009

1149) A Besta Loura novamente (18.11.2006)


(Aleister Crowley e Barbara Bush)

A melhor coisa das Teorias da Conspiração é que nelas, ao contrário da vida real, tudo faz sentido. Tudo se encaixa, tudo acaba se fechando num desenho tão harmonioso que cada revelação nos faz exclamar: “Arrá!... Então era por isso!”. Aqueles que acreditam ser George W. Bush “a Besta Loura Calibã”, para usar um termo proposto por Ariano Suassuna na Pedra do Reino, acabam de receber uma caixa de munição pesada. No blog de um tal de Joseph Cannon foi levantada uma lebre que não tem mais tamanho: o presidente Bush seria neto de Aleister Crowley, o mestre da Magia Negra que foi chamado “a Besta do Apocalipse”. Crowley foi um desses charlatães pseudo-demoníacos que exercem fascinação sobre gente sem rumo, como foi o caso de Raul Seixas e Paulo Coelho, dois brasileiros ingênuos que foram por algum tempo seus admiradores. (Hoje, Paulo Coelho quer ouvir falar de tudo, menos de Crowley).

A história é longa, e sugiro ler os detalhes em: http://cannonfire.blogspot.com/2006/04/george-w-bush-barbara-bush-and.html. Crowley (1875-1947), ocultista famoso, fundou vários grupos dedicados à prática da Magia, onde se praticavam ritos sexuais. Era um sujeito egocêntrico, intelectualmente brilhante, capaz de dar os maiores golpes financeiros e de conquistar qualquer mulher (ou homem) por quem se sentisse atraído. À sua volta viviam poetas e socialites, gente com dinheiro, desocupada, e doida para ser cobaia da Magia Sexual.


Uma delas era Pauline Pierce, americana que por volta de 1924 deixou os filhos pequenos nos EUA para juntar-se à “entourage” de Crowley. Pauline era casada com Marvin Pierce, presidente da McCall Corporation, que entre outras coisas publicava as revistas McCall’s e Redbook. Pauline conviveu na Europa vários meses com sua amiga Nellie O’Hara, o amante dela, Frank Harris (autor do clássico erótico Minha Vida, Meus Amores) e Crowley. Em outubro de 1924, Pauline voltou para os EUA. Em junho de 1925, deu à luz sua terceira criança, uma menina que recebeu o nome de Barbara. A qual, muitos anos depois, se tornaria a esposa de George Bush, e mãe do atual presidente George W. Bush.

Vejam bem: estou vendendo pelo preço de fatura. Pelo que sei, tudo isto pode ter sido inventado pelo dono do blog. Consultei o capítulo dedicado a Crowley por Colin Wilson em O Oculto (Ed. Francisco Alves), mas este não menciona Pauline Pierce. Tanto Crowley quanto a família Bush, contudo, são personagens públicos, de vida bem documentada, e quem duvidar pode ir atrás e checar os nomes e as datas. A questão levantada por Cannon é de que existe a possibilidade de que Barbara, mãe de George W. Bush, não seja filha de Marvin Pierce, e sim um fruto das experiências de magia sexual que Pauline teria praticado com Crowley. O blog de Cannon compara uma foto de Crowley com uma foto de Barbara Bush, uma mulher severa, de cabelos brancos, que parece um general vestido de “drag queen”. Cá pra nós, parecem irmãos.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

0952) O Diabo: o homem que não sua (5.4.2006)




(O sheriff Cooley, em O Brother, Where Art Thou?)

Lembro de ter lido, não sei onde nem quando, uma menção ao Diabo como sendo “um homem que nunca sua”. Essa referência veio se somar a outras vindas da tradição popular, onde o Demônio é sempre um indivíduo que aparece de repente, que nunca ri, que atravessa paredes... 

No Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, podemos encontrar no Folheto LVI: 

“Garanto ao senhor: eu tenho muito mais medo e muito mais horror ao Diabo das cidades, que tem cara de funcionário aposentado, que anda às vezes de bicicleta, vestido de preto, com chapéu-coco, com um ar esquerdo e maldoso, em pleno sol, sem suar nada, absolutamente nada, o que, como todo mundo sabe, é coisa do Danado!” 

Essa confirmação sempre me pareceu consequência do fato óbvio de que o Diabo não sua porque não está com calor. É claro! Muito mais calor faz no Inferno, e quando transita por aqui ele deve estar é batendo-o-queixo de frio.

Guimarães Rosa, que nunca me deixa mentir, também o atesta, por vias indiretas, quando faz Riobaldo afirmar, logo depois de fazer o pacto com o Demônio na encruzilhada das Veredas Mortas: 

“Meu corpo era que sentia um frio, de si, frior de dentro e de fora, no me rigir. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.” (pag. 399 da 2a. edição). 

Ao se encarnar em corpo humano, o Diabo treme de frio.

Falando em pacto, lembro do bluesman Robert Johnson, de quem se diz que fez um tal acordo. E é curioso ver o depoimento de seu companheiro Johnny Shines, que viajou com ele por todo o delta do Mississipi: 

“Robert estava sempre limpo. Robert andava na estrada o dia inteiro, eu olhava para mim e estava sujo como um porco, e Robert estava sempre limpo – como, eu não sei”.

"Não suar" parece ser um atributo dos que têm ligação com o sobrenatural. Em seu livro sobre Tia Ciata e o samba carioca, Roberto Moura transcreve um depoimento sobre Hilário Jovino Ferreira, figura seminal do carnaval desde sua chegada ao Rio em 1872. Diz seu afilhado Bucy Moreira: 

“O Jovino era um espírito danado. Tinha o espírito de Don Juan, um sujeito bem apanhado. Olha, esses pretos que não suam, sabe como é? Preto enxuto, meu padrinho, tudo dessa turma, que os médicos dizem, aliás, que duram pouco. Todo negro dessa espécie tem transporte de cão, não sua, pode fazer o calor que fizer, ele tá sempre enxuto”.

Sem dúvida é uma característica étnica, de certas populações negras; mas sempre há quem faça a conexão sobrenatural. Relata Moura que Hilário Jovino “era temido como feiticeiro, considerado amigo poderoso e adversário dos mais temíveis e implacáveis, capaz de se valer dos seus diversos dotes e saberes num confronto”. 

A ausência de suor funciona (num contexto de pensamento mágico) como a ausência de reflexo no espelho ou de sombra (no caso dos vampiros). O suor é um detalhe, mas é atributo da humanidade. Quem não o tiver, não é humano.






segunda-feira, 23 de março de 2009

0909) A blasfêmia (14.2.2006)



A blasfêmia é um ato de libertação. Sofremos na infância uma lavagem cerebral (toda educação tem algo de lavagem cerebral) proibindo-nos sequer de pensar certas coisas. A religião católica ameaça com o fogo do Inferno e com tormentos indizíveis certas ofensas, mesmo mentais, à Divindade. Quando adolescente, eu passava noites em claro pensando coisas sacrílegas e pornográficas, mas não via trezentos raios de fogo trovejando do céu, reduzindo-me a algo menor que uma mosca torrada. Quando conheci o cinema de Luís Buñuel, um especialista em sacrilégios, entendi-o profundamente. Não, nunca tive raiva da igreja. Apenas queria ter certeza de que ninguém me eletrocutaria para sempre só porque visualizei a imagem de... Deixa pra lá, não quero escandalizar os leitores.

Em Memórias, Sonhos e Reflexões C. G. Jung narra um episódio de infância em que o esforço para aceitar a visualização de uma cena sacrílega (e, vista em retrospecto, bastante bobinha) produziu nele alguns dias de incessante terror que culminaram (quando permitiu por fim que a imagem se formasse em sua mente) num estado eufórico e quase transcendental de libertação íntima. Comento este episódio em meu livro O Anjo Exterminador (Ed. Rocco, 2002), porque ele tem relevância para discutir a tendência blasfema dos surrealistas parisienses em geral e de Buñuel em particular. A blasfêmia é um ato de afirmação da liberdade individual: “Eu penso no que eu quiser, e assumo a responsabilidade”.

Não é o caso de episódios recentes como a publicação num jornal dinamarquês de cartuns ofensivos ao Profeta Maomé. O que os dinamarqueses fizeram não é uma blasfêmia, porque para eles, provavelmente, Maomé é uma entidade tão exótica e distante quando o Padrinho Ciço ou Iemanjá. Não acho que um humorista dinamarquês (ou de qualquer país ocidental) tenha problemas íntimos em fazer gozações com o respeitável Profeta do Islã.

Este é um ingrediente ainda mais explosivo na revolta dos muçulmanos. Eles não apenas vêem seu ídolo ofendido, como percebem que os ofensores estão se lixando para o ídolo. Na verdade, nem sequer quiseram ofendê-lo: querem apenas ridicularizá-lo, porque não lhe dão nenhum importância. É essa atitude arrogante e desdenhosa do Ocidente para com seus valores sagrados que enfurece ainda mais os islamitas.

Um dos polêmicos cartuns, reproduzido na imprensa, mostra Maomé chegando todo enfarruscado no Paraíso, onde é recebido por Buda, Cristo e Jeová, que lhe dizem: “Liga não, eles fazem isso com a gente o tempo todo”. Ao contrário dos países do Oriente Médio, onde Igreja e Estado geralmente se misturam, as sociedades ocidentais têm essa atitude bem republicana de “colocar Deus no seu devido lugar”. O que os cartunistas dinamarqueses fazem não é heresia nem blasfêmia; isto só acontece quando agredimos algo em quem acreditávamos. E, não sendo blasfêmia, é mera pose, mero escracho, não envolve nenhum tipo de crescimento ou libertação espiritual.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

0838) O Demônio Logrado (23.11.2005)



Andei lendo algumas coletâneas de contos populares do ciclo chamado de “Demônio Logrado”. São todas aquelas histórias em que um indivíduo faz um pacto qualquer com o Diabo, oferecendo sua alma em troca de um benefício qualquer, e depois o Diabo aparece para cobrar o prometido. O sujeito (geralmente com a ajuda da esposa) acaba inventando um estratagema para se ver livre do Tinhoso. É um tema comum a todos os folclores, de todas as épocas.

Alguns episódios foram recontados por Altimar Pimentel numa entrevista recente à revista Preá (de Natal). Ele diz que a mulher do sujeito consegue estabelecer com o Diabo um acordo: se ela pedir uma coisa e o Diabo não conseguir executar, o marido tem sua alma de volta. As soluções são várias. Numa delas, a mulher mostra uma lagoa (num dia de sol abrasador) e diz ao Diabo que esvazie a lagoa de todos os sapos que tem ali. E o Diabo se dana a tirar sapo de dentro da lagoa, e os sapos (morrendo de calor) se danam a pular de volta... e aquilo não acaba nunca. Outro estratagema da mulher é soltar um peido e dizer ao Diabo: “Segure isso aí!”

As histórias do Demônio Logrado são uma coisa curiosa. Porque em princípio bastaria ao Diabo recorrer à força bruta ou, por extensão, aos seus poderes sobrenaturais – e tudo estaria resolvido. Ela estalaria os dedos, e a lagoa ficaria esvaziada de todos os sapos, ou então o peido da mulher apareceria preso em sua mão como se fosse uma fumacinha azulada, ou sei lá o que. O Diabo só perde porque aceita as regras de um jogo onde ele forçosamente tem que se nivelar aos mortais, aos humanos. No momento em que ele se nivela, ele se torna igual aos outros, que acabam por se mostrar mais engenhosos do que ele. Quando o campo de batalha não é a força ou o poder sobrenatural, mas a mera engenhosidade, o Diabo não é páreo para a mulher.

Isto me parece uma metáfora da transição entre a Guerra e a Política, ou entre a Violência e a Negociação. A guerra interessa aos povos que são militarmente fortes, e, inversamente, a política interessa aos que são fortes em argumentação, em negociações jurídicas, em Direito Internacional. Os contos do Demônio Logrado servem como advertência aos humanos: “Não lutem com as armas do Demônio, senão vocês estão perdidos; chamem o Demônio para lutar com armas iguais às de vocês”. Mas ao mesmo tempo essas histórias podem servir de alerta ao Demônio, deixando-lhe bem claro que o maior erro que ele pode cometer é abrir mão de seus poderes sobrenaturais. Trazendo isto para o campo da Guerra e da Política, qualquer negociação bem sucedida em que um país militarmente fraco consegue impor seus interesses (geralmente através de uma mediação internacional) a um país militarmente mais forte, serve também de alerta para este último. A Guerra é o momento em que o Diabo resolve usar plenamente seus poderes, em vez de cometer o erro tático de se nivelar aos humanos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

0793) Governo e Oposição (2.10.2005)




(Gustave Doré: "Lúcifer")

Um anarquista espanhol, daqueles que jogam granada em carro de general, viajava num navio, que naufragou, e ele acabou indo parar numa ilha desconhecida. Ao ser recolhido na praia pelos habitantes locais, perguntou: “Hay gobierno acá?” Disseram que sim. E ele: “Entonces, soy contra”. Ser contra o governo é em certos casos uma atitude mais biológica do que ideológica. Não tem nada a ver com política: é algo que está no sangue, no DNA de um sujeito. Tem gente que só sabe ser oposição, e ponto final. São criaturas inquietas, personalistas, que não se dobram facilmente, desconfiam de autoridades, querem ser donas do próprio nariz e decidir o próprio destino. Pessoas com temperamento assim só têm dois caminhos: ser contra o Governo, ou virar Governo. Ou seja: seu destino é a política (mesmo que seja a mera política literária).

Num ambiente social em que existe um conceito hegemônico, um conceito dominante, muita gente vai para o lado oposto por “default”, por uma opção assumida antes mesmo do exame do problema. Acho que somente isto explica o fato de que os jovens, por exemplo, tenham tanta fascinação pela imagem do Diabo. Quando eu tinha vinte anos, vivia lendo as “Litanias de Satã” de Baudelaire ao som de “Sympathy for the Devil” dos Rolling Stones. Quereria eu ser satanista, realizar missas negras, fazer sacrifícios humanos? Deus me livre, companheiros! Mas numa sociedade onde manda Deus e ponto final, tem horas em que um jovem se cansa e pensa, “sim, tudo bem, mas por que será que ninguém quer que eu escute o que o outro lado diz?” E vai em busca da Oposição.

Existe um movimento parecido nas pessoas que se cansam de literatura realista e vão em busca de literatura fantástica. O Realismo é o estilo literário eleito pela burguesia ascendente do século 18 em diante. É o retrato da mentalidade pragmática, objetiva, pão-pão queijo-queijo, que vê na linguagem um instrumento de exame, catalogação, apropriação e controle. Tudo que não seja voltado para o controle do mundo real é supérfluo, é fuga, é perda de tempo. Com um governo assim ditatorial e sufocante, muitos escritores e leitores se esgueiram para algum recanto escondido e vão ler histórias de vampiros e extraterrestres. Porque acreditam neles? Nem tanto. É só porque “são do contra”.

Na música também. Nos anos 1960, a MPB (de smoking e gravatinha borboleta) era o governo, e ser roqueiro era ser oposição. Hoje, o rock, inchado e balofo pelos silicones e esteróides do capital multinacional, é um governo arrogante e perdulário, e ser MPB é ser uma espécie de Resistência Francesa, que trabalha na moita, devagar e sempre, esperando que o dragão fique bêbado o bastante para permitir um ataque frontal. Sempre que um grupo chega ao topo, todas as suas energias se voltam para uma única tarefa: permanecer ali. E essa concentração de forças empurra para o extremo oposto todos os que, por biologia e fatalidade, são contra e acabou-se.


terça-feira, 12 de agosto de 2008

0508) Deus e o Diabo (4.11.2004)



A maioria dos meus leitores vai dizer que o mundo está perdido e o Juízo Final está batendo na porta, e quem sou eu para discordar? A imprensa noticia que a Marinha Real Britânica acaba de garantir a um dos seus marujos liberdade de crença para que possa realizar a bordo, quando em serviço, os seus rituais religiosos. Até aí nada de mais. Se o sujeito é muçulmano, precisa rezar cinco vezes por dia, voltado para Meca. Se é judeu, não pode comer tais ou tais coisas e tem que guardar o sábado; e assim por diante. A liberdade religiosa é um direito garantido em qualquer democracia esclarecida do nosso tempo.

O problema é que o tal marinheiro é Satanista. Chris Cranmer, de 24 anos, serve na fragata Cumberland, e pertence à chamada Igreja de Satã, fundada por um tal de Anton LaVey nos EUA. Ele solicitou ao capitão do navio autorização para praticar seu culto (que o jornal não descreve em detalhes) e para, em caso de morte em serviço, receber um funeral não-cristão. Depois de se aconselhar com o capelão do navio, o Capitão achou por bem conceder o pedido, por achar que os soldados têm o direito de professar a religião que bem entenderem, desde que isto não interfira com seus deveres.

Está aí um bom teste para a democracia, meus camaradas. Faz-me lembrar as velhas discussões dos anos 1970, quando muita gente aqui no Brasil pedia a legalização dos Partidos Comunistas. O argumento do Governo, ou melhor, da ditadura militar, era de que a doutrina comunista pregava a derrubada das “democracias burguesas” através da violência, e a instauração de uma Ditadura do Proletariado. Legalizar um partido comunista implicaria em colocar em perigo a existência de todos os demais partidos. A liberdade política, portanto, não era um Bem absoluto.

Será a liberdade de fé religiosa um Bem absoluto, como a decisão da Marinha britânica parece admitir? Será que somos tão respeitadores da liberdade de crença que temos a obrigação de permitir o culto aberto ao Demônio? Para mim, que sou agnóstico, esta é uma questão meramente retórica, mas para as pessoas de temperamento religioso é um problema de tirar o sono. Será que autorizar o culto do Diabo não corresponde ao que na linguagem popular chamamos de “dar asa a cobra”, conceder de mão-beijada um benefício extra a um adversário traiçoeiro e cruel?

O saite da CNN fez uma pesquisa com mais de 18 mil leitores perguntando se a adoração ao demônio deveria ser tratada pelas Forças Armadas do mesmo modo que as religiões oficiais; 58% disseram que não e 42% que sim. Numa época de guerra aparente (porque as razões reais são econômicas) entre o Fundamentalismo Protestante dos EUA e o Fundamentalismo Muçulmano, será isto uma indicação de que religiões voltadas para Deus estão sendo cada vez mais cooptadas pelas forças das Trevas e da Destruição? Que Deus e o Diabo, no contexto do Capitalismo Militarista, estão cada vez mais próximos um do outro?

sábado, 29 de março de 2008

0330) Deus e o Diabo nos detalhes (10.4.2004)



Carlos Alberto Parreira, nosso incompreendido técnico campeão do mundo em 1994, deu uma entrevista certa vez e os jornalistas se queixaram de que a Seleção tinha jogado bem mas não fizera gols. Ele retrucou: “Não ter feito o gol foi uma questão de detalhe.”

Ele queria dizer que muitas vezes, embora a jogada saia toda certa, o gol deixa de ser feito porque o pé bate mal na bola, ou porque o pé-de-apoio escorrega, ou porque o chute sai fraco – ou seja, por pequenos detalhes cujo controle foge ao técnico.

Bastou isso para a imprensa ficar repetindo, como repete até hoje, que Parreira teria dito: “O gol não tem importância, é um mero detalhe.”

Isto me lembra uma frase que ouço há anos: “O Diabo está nos detalhes.” Só que também escuto o reverso desta frase: “Deus está nos detalhes”. “Que coisa curiosa,” fiquei matutando, “toda vez que um desses caras aparece o outro está junto!”

O que é mais do que natural. Se você é religioso, se acredita em Deus (nosso Deus ocidental), acredita também na existência do Diabo. Se não acredita num, também não acredita no outro. Mas, qual a frase original?

Fiz uma rápida busca na Internet, e fui informado de que a frase “Le bon Dieu est dans le detail” é atribuída a Gustave Flaubert, mas também há quem dê como seu autor o artista Michelangelo, os arquitetos Mies van der Rohe e Le Corbusier, e o historiador de arte Aby Warburg (estes 3 últimos podem muito bem ter lido em Flaubert).

A coluna “Word Court” de Barbara Wallraff, em “The Guardian”, também cita o uso da frase por Albert Einstein, Friedrich Nietzsche, Ronald Reagan e Ross Perot.

Acho que ocorre neste caso um fenômeno muito comum com as “frases célebres”: a gente ouve Fulano de Tal dizendo e passa a atribuir o dito a esse Fulano, sem que nos passe pela cabeça que o Fulano poderia perfeitamente estar citando alguém. Parece que uma frase só é famosa pra valer quando é atribuída a diferentes pessoas famosas.

A intenção dessa frase é clara: muitas vezes é nos pequenos detalhes que fazemos escolhas cruciais, que definem o sucesso ou o fracasso de nossa empreitada. Projetos gigantescos podem ir por água abaixo caso não se dê a devida atenção a uma bobagenzinha qualquer.

Um bom exemplo disto são as duas catástrofes ocorridas com os ônibus espaciais norte-americanos, o Challenger e o Columbia: ambos explodiram por causa de defeitos técnicos em pequenas peças que, ao serem submetidas às tremendas pressões de um vôo, não resistiram.

Já citei nesta coluna a frase de Conan Doyle, “nenhuma corrente é mais forte do que o seu elo mais fraco”.

Em certos tipos de estrutura, todos os elementos, mesmo os menores, têm o mesmo grau de responsabilidade. Se um deles se romper, de nada adiantou a solidez e a resistência de todos os outros. Em cada um deles está se decidindo, a cada instante, a luta entre a vida e a morte, a sorte e o azar, Deus e o Diabo.





quarta-feira, 19 de março de 2008

0281) Os filhos de Dionisos (13.2.2004)




Um dia eu estava numa sala de visitas com um casal idoso. O Jornal Nacional mostrava um show de rock não sei onde: o habitual amontoado de jovens de camisa preta, pulando feito malucos na frente da câmara, agitando os braços, gritando “Ú-Tererê” (ou o equivalente atual a Ú-Tererê), e fazendo aquele gesto tradicional: a mão espalmada, o polegar puxando para dentro os dedos médio e anular, o indicador e o mindinho esticados ao máximo.

O dono da casa falou que não sabia o significado daquilo. Visitante, solícito, não querendo deixar a conversa morrer, eu me apressei a explicar:

“São os chifres do diabo, assim, ó...” -- e reproduzi o gesto.

Pra quê que eu fiz isso? O casal teve um sobressalto, o velho empalideceu, a velha benzeu-se e murmurou:

“Meu deus, meu deus... além de drogados, são satanistas”.

Eu devia ter dito que eram as orelhas de Batman ou de Scooby-Doo, mas os velhos talvez não ligassem os nomes à pessoa. E pra falar a verdade, a pergunta que me fica (e que eu gostaria de ter respondido ao casal) é:

“Por que os jovens não têm medo do Diabo? Por que não fogem dele, por que resolvem encará-lo, tirá-lo pra dançar, domesticá-lo, esvaziar sua ameaça, trazê-lo de um contexto do Mal e da Violência para um contexto do Bem, da Festa e da Alegria?”

De vez em quando aparece nos jornais que um desses adolescentes que fazem esse gesto matou alguém. Aí pronto:

“O rapaz andava de camisa preta! Tinha argolas na venta! Escutava Iron Maiden! Só poderia acabar assim!”

Eu não acho. Gente com camisa do Palmeiras ou do Vasco também mata, e a culpa não é da camisa.

Os jovens querem acreditar em alguma coisa. Tem Deus na jogada, mas eles aceitariam melhor um deus que os acompanhasse às festas, que os aconselhasse em seus namoros. O rock os acompanha; a religião, não.

O Cristianismo é visto, de forma que considero até injusta, como uma religião que glorifica o sofrimento. Seu símbolo é um homem torturado e morto. Não é essa a mensagem do Cristianismo; mas parece ser, pela inevitável simplificação de uma doutrina de massas. Parece querer dizer que sofrer é bom, que estamos aqui para sofrer calados, e que a alegria, a sensualidade e a festa coletiva pertencem ao demônio.

Quando os jovens precisam queimar as overdoses de energia que seu organismo produz, quando precisam acasalar-se, afirmar sua independência e individualidade, eles recorrem à imagem que se identifica com essa auto-afirmação.

Os deuses antigos que correspondem a ela (Dionisos, Pan) foram identificados pelo Cristianismo com o Diabo.

As religiões deviam inventar dois deuses do Bem, para esvaziar a força do Diabo.

Um seria puro, sério, espiritualizado. O outro seria uma espécie de Dionisos grego: um deus gente-boa, do-Bem, conquistador, boêmio, festeiro.

É um lado que a religiosidade popular sempre se esforçou para suprir: aquele arquétipo pelo qual que Nietzsche ansiava – um deus que saiba dançar.










sábado, 15 de março de 2008

0258) Da Terra Média ao Sertão (17.1.2004)




(ilustrações: Poty / J. R. R. Tolkien)

A trilogia O Senhor dos Anéis foi trazida para o cinema por Peter Jackson com a fidelidade possível quando se trata se adaptar um livro tão imenso – na edição de bolso que possuo, ele ultrapassa as 1.500 páginas.

A comunidade internacional de fãs de J. R. R. Tolkien teve um papel importante nisto, pressionando diretor, roteiristas e produtores, e impedindo as catástrofes dramatúrgicas típicas das adaptações dos clássicos feitas em Hollywood. Assim, grande parte da substância do livro acabou tendo um equivalente aceitável na tela.

Tolkien era um sujeito introvertido, ascético. Teve uma terrível experiência nas trincheiras durante a I Guerra Mundial, quando perdeu vários amigos. O Senhor dos Anéis foi escrito entre 1936 e 1949, durante a II Guerra, portanto.

É comovente (e educativo) nos dias de hoje, ver Tolkien afirmar que o manuscrito inteiro foi duas vezes datilografado por ele próprio, porque mesmo sendo professor em Oxford não podia pagar um datilógrafo.

Era um conservador, apaixonado pela Idade Média, sobre a qual falava aos seus alunos com entusiasmo; conta-se que costumava encerrar essas descrições dizendo: “E aí veio a Renascença, e estragou tudo.”

Era profundamente católico, misoginista como muitos britânicos de sua geração, detestava a tecnologia e a modernização.

O “Condado” (Shire) onde vivem os hobbits é sua utopia pessoal, uma visão idealizada de uma Inglaterra rural, pacífica mas resoluta, amante do sossego e dos livros, mas capaz de ganhar uma guerra se ameaçada de invasão.

O Senhor dos Anéis, apesar de ser aquele catatau, é apenas a ponta do iceberg ficcional de Tolkien, que imaginou uma história-do-mundo completa, desenhou mapas, criou genealogias, idiomas e alfabetos.

Tolkien fundou o que podemos chamar de “ficção catalográfica”, onde o autor inventa todos os detalhes de um mundo. Ele inventou primeiro o idioma dos elfos, e ao imaginar sua História começou a inventar as narrativas que hoje conhecemos. Neste aspecto, sua obra tem uma coerência e um mapeamento interno muito maior que a obra de Guimarães Rosa.

Rosa era meticuloso ao pesquisar, e totalmente intuitivo e instintivo ao escrever. Seus arquivos guardam uma quantidade impressionante de material, mas ele não lhes deu a coerência catalográfica que existe na obra de Tolkien.

Extrovertido, vaidoso, bem-humorado, cosmopolita, Guimarães Rosa era em muitos aspectos o avesso de Tolkien.

Seus heróis (Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga) são tomados muitas vezes por uma alegre ferocidade, uma euforia-de-batalha que está ausente nos heróis dos “Anéis”.

Por outro lado, o romance de Tolkien é otimista (dos nove membros da Irmandade do Anel, apenas Boromir morre), enquanto que o Grande Sertão é no fundo a história de um fracasso, ou de uma vitória de Pirro: no final, Riobaldo é feliz no jogo (na guerra) e infeliz no amor.

Tolkien era um homem triste que sonhava com finais felizes, e Rosa um homem alegre que temia o Final.



0257) Frodo e Riobaldo (16.1.2004)





(Elijah Wood como Frodo)

Na coluna de ontem, comparei o perfil do Riobaldo de Grande Sertão: Veredas com o de Aragorn em O Senhor dos Anéis. Chamo isto de “recorrência arquetípica”. Todo autor, ao recriar um tipo clássico de personagem (no caso, o Guerreiro Heróico) dá-lhe (mesmo sem perceber) traços que pertencem a uma tradição literária. 

Aragorn e Riobaldo são grandes guerreiros, merecedores do posto mais alto do Poder, mas cheios de dúvidas e de hesitações. A literatura está cheia de riobaldos, mas nenhum como o de Rosa, e de aragorns, mas nenhum como o de Tolkien.

Há outro herói no Senhor dos Anéis, contudo, que tem muitos traços em comum com Riobaldo: é Frodo Baggins (na tradução brasileira, “Frodo Bolseiro”). 

Se Aragorn é o Herói Guerreiro a quem cabe derrotar os exércitos do Mal e unificar sob um poder central os clãs rivais, Frodo é, como Riobaldo, o sujeito pacífico sem vocação para herói mas que, é jogado pela circunstâncias no meio de uma batalha, e vira guerreiro a contragosto. 

É, assim como Riobaldo, um herói problemático, pouco à vontade com este papel (Riobaldo: “Sou de ser e executar, não me ajusto de produzir ordens”). E, como Riobaldo, é também um herói atormentado pela presença do Diabo.

Riobaldo, embora se torne grande guerreiro, foi criado para uma vida pacífica, e entrou na jagunçagem por acaso. Muito apegado aos livros, é contratado para ser professor e secretário de Zé Bebelo, o capitão das tropas que perseguiam os jagunços. Ao ver o primeiro combate de verdade, desgosta-se daquilo e abandona o patrão. 

Uma série de acasos o faz entrar em contato com o bando de jagunços de Joca Ramiro, entre os quais reconhece o “Reinaldo”, ou Diadorim, um menino que conhecera anos antes. E é por essa amizade, depois transformada em amor, que Riobaldo se junta ao grupo, e de intelectual vira guerreiro.

Riobaldo vai à encruzilhada das Veredas Mortas para fazer um pacto com o Diabo. O Diabo não aparece, mas o jagunço volta de lá transformado, mais seguro, mais ambicioso, e pela primeira vez disposto a tornar-se líder do bando. 

Nos “Anéis”, Frodo, tendo colocado o Anel, entra em contato direto com Sauron, o Senhor das Trevas, fica daí em diante sob a mira deste, e acaba oferecendo-se a contragosto para destruir o Anel e fazer desmoronar o império do Mal. 

Tanto Frodo quanto Riobaldo são heróis contaminados por esse contato com o Mal. Frodo diz, após o fim da aventura: “Estou ferido, Sam, ferido, e nunca vou me curar.” Riobaldo, na encruzilhada: “Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.” Cada frase poderia ter sido dita pelo outro.

Note-se também que ambos exorcizam o Mal virando “escritores”: Riobaldo constrói oralmente sua epopéia, ditando-a a um interlocutor invisível (implicitamente o próprio Guimarães Rosa); Frodo é o cronista que passa para o papel a Guerra dos Anéis, finalizando o manuscrito iniciado por Bilbo.






0256) Aragorn e Riobaldo (15.1.2004)




(Viggo Mortensen, como Aragorn)

Já me referi nesta coluna aos pontos em comum entre a obra de Tolkien e o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. 

Em ambos se descreve uma batalha épica do Bem contra o Mal, onde as tropas do Bem são conduzidas por um herói problemático, cheio de dúvidas e hesitações. 

O herói do Grande Sertão é Riobaldo, um jagunço a quem cabe liderar o bando na jornada de vingança ao seu líder, Joca Ramiro, assassinado à traição por um dos seus sub-chefes, Hermógenes. 

Joca Ramiro tem a estatura épica e o caráter íntegro de um rei medieval (Riobaldo o chama de “par-de-França”). Com sua morte, os jagunços ficam divididos em bandos menores, cada qual comandado por um sub-chefe: Medeiro Vaz, João Goanhá, Titão Passos, Sô Candelário, etc.

Riobaldo é o melhor atirador do grupo, o jagunço mais frio no gatilho, o de melhor pontaria, talento que o torna respeitado e lhe vale apelidos honrosos: “Tatarana”, “Urutu-Branco”. Ele junta-se por fim ao grupo de Medeiro Vaz que, à morte, oferece-lhe a chefia. Ele recusa. 

É um típico herói-em-dúvida, herói moderno, diferente dos heróis mitológicos que em nenhum momento questionam a própria coragem, as próprias motivações. Riobaldo pergunta-se: “Por que estou fazendo isto tudo? Por que fazer isto? E por que logo eu?” 

Crivado de dúvidas, ele recorre ao pacto com o Diabo, na encruzilhada das Veredas Mortas, para a qual vai descrente, e de onde retorna sem ter certeza se encontrou mesmo o Diabo ou não. 

Mas a partir desse episódio ele parece mudado, imbuído de uma autoridade que não parecera ter até então. Sob seu comando os bandos dispersos de jagunços são unificados, e encurralam os “hermógenes” ou os “judas”, como chamam aos inimigos, até derrotá-los na batalha final do Paredão.

Em O Senhor dos Anéis, Aragorn é o legítimo herdeiro do trono, por ser filho de Isildur, o rei que decepou a mão de Sauron, o Senhor das Trevas, tomando dele o Anel do Poder. 

Aragorn, órfão, é criado pelos elfos, que somente na idade adulta vêm a saber de sua linhagem. Ele torna-se um “Ranger”, patrulha as fronteiras da Terra Média, e adquire não só experiência de batalhas e de privações como passa a conhecer profundamente o território e o povo. Ele poderia repetir a frase de Riobaldo: “Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido.” 

Sabe que é destinado a ser rei, e que para isso terá que unificar os diferentes reinos que se opõem a Sauron (Gondor, Rohan, etc.). Mas sabe também que seu pai, Isildur, cedeu à tentação do Anel e em vez de destruí-lo ficou com ele. 

Como Riobaldo, ele não questiona a própria bravura ou sua competência como guerreiro, mas, até ser arrastado pelos acontecimentos, hesita diante da missão que lhe cabe. Ambos pertencem a uma estirpe de heróis (como o Paul Atreides de Duna) que enfrentam a Morte sem medo, mas que hesitam diante do Poder, por saberem que nenhum Poder é conquistado com mãos limpas, por melhores que sejam as intenções do Herói.






terça-feira, 11 de março de 2008

0223) Os anjos de Miami (7.12.2003)






(William Blake, "O Dragão Vermelho e a Mulher Vestida de Sol")



Uma guerra cósmica acontece neste momento nas ruas de Miami. O palácio de Deus foi destruído por uma ofensiva maciça dos demônios, e Deus desapareceu, deixando a Terra entregue a um batalhão de anjos que tentam proteger os humanos, especialmente os menores abandonados que dormem pelas calçadas. Um dos demônios mais ameaçadores é a “Bloody Mary”: uma criatura aterradora, com órbitas vazias que gotejam sangue negro. Ela persegue as crianças, auxiliada por demônios menores que usam numerosos portais para alcançar nosso mundo: geladeiras abandonadas, espelhos, e jipes Cherokees com vidros fumê. Num caso bem documentado, Satã, disfarçado de turista rico, foi surpreendido por um grupo de anjos perto de Ocean Drive: eles o agarraram e o prenderam no fundo do rio. No mesmo instante, as águas do rio ficaram vermelhas, e chifres brotaram da cabeça de Satã.

Crianças de seis, oito, dez anos de idade são as únicas testemunhas desse Armagedon invisível. Elas contam as mesmas histórias, mesmo pertencendo a grupos que nunca tiveram contato direto uns com os outros, grupos espalhados por cidades como New Orleans, Chicago e Oakland (Califórnia). Em todas estas cidades funcionam abrigos mantidos pelo Exército da Salvação, e os pesquisadores que entrevistam essas crianças têm registrado a presença das mesmas histórias, dos mesmos eventos, até da mesma terminologia. Por exemplo, as crianças sempre se referem às criaturas sobrenaturais como “espíritos” e nunca como “fantasmas”.

Para os antropólogos que pesquisam a propagação das Lendas Urbanas, o termo “poligênese” designa o surgimento simultâneo de histórias fora do comum e semelhantes, em lugares distantes. A mitologia dos meninos de rua de Miami (onde a pesquisa se concentra) usa, por exemplo, imagens extraídas do folclore mexicano: eles também dão à Bloody Mary o nome de “La Llorona”, “a chorona”, um fantasma tradicional da Cidade do México, a mulher que assassinou os próprios filhos ao ser desprezada pelo amante. Outros pesquisadores vêem traços de Iemanjá na imagem da “Blue Lady”, um espírito feminino protetor, vestido de azul, que “é linda, boa, inteligente, vive no mar, e só aparece para as crianças.”

As crianças afirmam que a guerra está quase perdida. O céu não mais existe, e a melhor sorte para quem morre é ir morar no acampamento dos Anjos, numa floresta nas proximidades de Miami, mas é preciso depositar no túmulo da pessoa um pedaço de folha de palmeira, que serve como salvo-conduto. As crianças dizem que, mesmo assim, é preciso não desesperar, pois existe um exército angelical vindo em seu socorro. A escritora Virginia Hamilton observa que essas crianças se sentem com a responsabilidade de responder às mais terríveis das perguntas: “Por que ficar do lado do Bem, quando vemos o Mal vencendo de ponta a ponta? E se eu for morto, como posso fazer com que minha vida tenha alguma importância, mesmo depois que eu não exista mais?”