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terça-feira, 25 de agosto de 2015

3901) "As Aventuras do Flama" (25.8.2015)




Foi o primeiro super-herói paraibano. Nasceu na novela de rádio homônima transmitida todos os dias pela Rádio Borborema; eu e minha irmã Clotilde ficávamos grudados no pé do rádio para ouvir as histórias escritas por Deodato Borges e interpretadas pelo “cast de rádio-teatro da Rádio Borborema”. 

Era um tempo em que praticamente todas as noites havia novelas de rádio escritas e interpretadas por artistas locais. Meu pai trabalhou na rádio alguns anos, e alguns desses atores frequentavam nossa casa. 

Lembro de ter ouvido uma adaptação de As Quatro Penas Brancas, romance de aventuras passado na Legião Estrangeira.

O Flama era um herói mascarado e usando capa, fisicamente no modelo do Batman. O rosto me sugeria uma certa semelhança com Errol Flynn, que era uma espécie de George Clooney daquele tempo. Suas aventuras ocorriam num ambiente que misturava elementos brasileiros e estrangeiros. 

No elenco de personagens, havia Eliana, sua noiva (era um tempo em que os super-heróis tinham noivas!), o garoto Zito (uma espécie de Robin), Bolão, um rapaz meio gordo que servia de “alívio cômico” pelas suas tiradas engraçadas, o Comissário Láurence (simétrico ao Comissário Gordon, do Batman), e havia um “Raposa” que usava uma metralhadora e chamava os bandidos de “os macacos”.

A novela foi patrocinada pelos Drops Dulcora (“quadradinhos, embrulhadinhos um a um!”). Criou um Clube do Agente Secreto, com carteirinha e tudo; e sorteava fotos do Flama e Zito, mascarados, de arma em punho, em contraluz, fotos feitas em estúdio. Era grande a audiência. 

O Flama (tal como o Dick Peter, de Jeronymo Monteiro) tanto enfrentava assaltantes de bancos quanto “monstros de ferro” que invadiam a cidade.

O sucesso foi tanto que Deodato lançou em março de 1963 a revista em quadrinhos, escrita e desenhada por ele. A esta altura eu, já com 12-pra-13 anos, não me interessei tanto, não colecionei, afinal já lia Conan Doyle e Julio Verne. Mas o sucesso foi grande! 

Agora, a Funesc (Fundação Espaço Cultural, de João Pessoa) lançou uma edição fac-símile do número 1 da revista, com uma HQ (“O Caso do Dragão Vermelho”), um conto (“Rapto!”) e algumas seções de piadas, curiosidades, sonetos.

A reedição do gibi vem com uma sobrecapa “moderna” desenhada por Mike Deodato, filho do autor, merecidamente famoso por sua atividade de desenhista no mercado internacional. 

Deodato faleceu ano passado (2014). Foi um entusiasta da cultura pop, como Jeronymo Monteiro, Rubens Francisco Lucchetti, Péricles Leal e outros pioneiros da literatura de gênero (policial / FC / terror / fantasia) que temperaram no fogo do medo os meninos e as meninas da minha geração.






quarta-feira, 1 de outubro de 2014

3618) Rubens F. Lucchetti (1.10.2014)



A pulp fiction tem autores invisíveis, que se multiplicam por toda parte. “Já cheguei a encontrar 15 títulos meus em uma banca, assinados por diversos autores,” diz Rubens Francisco Lucchetti, tão conhecido entre os fãs do Horror quanto Zé do Caixão. 



No Brasil não era comum, quando ele começou a carreira há 60 ou 70 anos, o escritor pulp que hoje está roteirizando quadrinhos, amanhã escrevendo uma novela de rádio, publicando um romance, reeditando contos antigos, metendo-se com cinema.  Nosso primeiro escritor de FC-de-gênero foi Jeronymo Monteiro.  “De gênero” por ser uma tentativa clara de reproduzir aqui as premissas da FC norte-americana, tentativa anunciada com entusiasmo de fã.  Com seu próprio nome e seus recursos, além do seu pseudônimo Ronnie Wells, ele foi um multimídia, na linguagem de hoje: radialista, editor, antologista, ficcionista, crítico... 



O ubíquo R. F. Lucchetti é um nome que eu cresci vendo por toda parte e lendo de vez em quando.  Não conheci sua obra tão bem quanto a de Jeronymo.  (Deste, eu tinha aos doze anos uma coleção das aventuras de Dick Peter com 9 volumes, achava que era completíssima.) Lucchetti atuava mais na literatura de horror, que sempre li menos que FC.  Na página de uma matéria recente sobre ele no Uol (aqui: http://bit.ly/1rx25m4) aparecem as capas de alguns livrinhos de bolso de terror, apenas alguns entre centenas e centenas de títulos. “Noite Diabólica – contos macabros” era um deles, cuja capa lembrei de cara.  Não lembro se foi ali que vi minha primeira referência sobre Ray Bradbury, um resumo comentado de sua carreira, ilustrado por desenhos.



Não li os romances mais famosos de Lucchetti, que me parecem ser “O Crime da Gaiola Dourada” e “O Fantasma do Tio William”, mas devo ter lido dezenas dos seus terrores góticos, seus calabouços, seus zumbis, seus sacerdotes de cultos indizíveis, em livrinhos vendidos nas bancas há 50 anos, feitos em papel jornal, do tamanho de um folheto de cordel. Lucchetti, que tem 84 anos, pertence a um mercado editorial muito diferente do de hoje.


Ele diz que já publicou muita coisa com pseudônimo inglesado, para vender. (Achei “Brian Stockler” uma ótima idéia.)  Na Paraíba estivemos lembrando e homenageando o nosso Deodato Borges velho-de-guerra, o criador do “Flama”, que faleceu há pouco tempo.  Deodato enveredou pelo radialismo em Campina Grande como poderia ter enveredado pela “pulp fiction” se morasse em São Paulo.  Como enveredou, por esses e outros caminhos, o paraibano Péricles Leal, que foi do “Falcão Negro” às telenovelas.  Todos com a inquietude, a imaginação e as contas-a-pagar de todo autor de literatura popular.