sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

5220) O fiscal de título (6.2.2026)




Dias atrás fiz uma brincadeira aqui mencionando os “fiscais de título”, aquele pessoal que fervilha nas redes sociais botando defeito nos títulos de romances, filmes, álbuns, canções e tudo o mais. 
 
O fenômeno não é novo, remonta aos meus tempos de juventude quando fui crítico-de-cinema e cineclubista. Havia sempre uma minoria exigente, punctiliosa, para quem um título deveria corresponder, de maneira insofismável, a algum elemento concreto da obra, e assim estabelecer com ela uma relação quase jurídica. Um título deveria poder ser certificado em Cartório. 
 
(Digressão: uma pessoa punctiliosa é precisamente uma pessoa capaz de me escrever aqui alertando-me que essa palavra não existe em português, é uma adaptação indolente do adjetivo inglês “punctilious”, que um tradutor sério deveria reproduzir como “meticulosa”, “detalhista”, etc.). 
 
O título do filme O Agente Secreto tem sido questionado por muitas pessoas. Na minha visão, o agente secreto do filme é o personagem de Wagner Moura, porque ele age em segredo, o tempo inteiro, e na verdade ele se define por essas duas características. Ele é agente: ele está envolvido numa missão perigosa, a de pegar o filho e escapar aos pistoleiros de aluguel contratados para matá-lo. E age secretamente, sob nome falso, morando escondido, fingindo ser outra pessoa, protegido por uma organização clandestina de apoio a gente perseguida.
 
A expressão é usada no título de maneira ampla, quase metafórica.


O problema surge porque em nosso idioma mental o termo "agente secreto” significa: “indivíduo que trabalha para o serviço de segurança de algum governo com a finalidade de, sob identidade falsa, executar missão de espionagem contra um governo rival ou organizações rivais independentes”. Ou seja: James Bond, Francis Coplan (“o agente secreto FX-18”), Phil Corrigan (“o agente secreto X-9”), Hubert Bonisseur de La Bath (“o agente secreto OSS-117”, Nick Carter (o agente secreto “Killmaster”), Matt Helm (escrito por Donald Hamilton) e outros. 
 
Tem muitos mais; estou falando apenas dos livrinhos de bolso que eu lia aos quinze anos. 



Essas discussões me lembram outras. Lembro de ficarmos, meio século atrás, batendo boca por causa de O Estrangeiro de Albert Camus. “Quem é o estrangeiro?”, perguntavam. Alguém respondia que era Meursault, o protagonista, porque a história se passa na Argélia, e Meursault é francês. “Mas a Argélia era possessão colonial francesa”, lembrava alguém, então o estrangeiro devia ser o árabe que é morto a tiros. “Mas o árabe nasceu ali,” argumentava outro. (Estamos argumentando até hoje.) 
 
Um título deve corresponder à obra, concordo, mas poucos títulos são inquestionáveis. Lembro de outra discussão. Alguém dizia: “Por que Os Irmãos Karamazov?  O nome devia ser A Família Karamazov, porque o pai é tão importante quanto os filhos.” E por aí vai. 
 
Sábio era Machado de Assis, um ancião sem tempo para polêmicas. Logo na primeira página do Dom Casmurro chamou os fiscalizadores, explicou o título, passou marcha e foi embora sem olhar para trás. 




Igualmente sábio foi Eugene Ionesco, que deu a uma peça o título absurdista de A Cantora Careca, e desincumbiu-se dele com uma única troca de frases. (“ – Ah, você tem visto a cantora careca?... – “Não, mas me disseram que agora está com outro penteado.”). 
 
Foram mais pragmáticos do que Umberto Eco, Luís Buñuel, Henry Miller, que até hoje dão explicações mediúnicas sobre O Nome da Rosa, O Anjo Exterminador, Trópico de Câncer... A lista é longa e não tem fim.  
 
Sou fiscal também, e na minha alfândega particular está retido até hoje o polêmico O Casal Osterman, filme de espionagem dirigido por Sam Peckinpah onde não aparece casal algum. O título original é The Osterman Week-end, ou “O fim de semana na casa de Osterman”, bastante descritivo: o filme narra uma reunião de agentes da CIA que desanda em tiroteio, ou não seria dirigido por quem foi. 



(O Homem do Prego) 

 
Quando foi exibido em Campina Grande o excelente The Pawnbroker (1964), de Sidney Lumet, o título brasileiro “O Homem do Prego” nos desorientou um pouco, porque nenhum de nós, imberbes alecrins, sabia o que diabo era uma casa de penhor, aquela lojinha onde as pessoas botavam “no prego” seus objetos pessoais, como garantia por algum dinheiro emprestado. O que nos salvou foi a cena, quase no final, em que Rod Steiger, torturado por traumas de guerra e culpas de paz, enfia a mão, como castigo, no prego de metal onde costuma enfiar os recibos dos objetos alugados. 
 
Mesmo, assim, interpretar um título ao pé da letra é sempre perigoso. É no pé da letra que tantas vezes tropeçamos. 
 
Quando eu estava publicando meus primeiros livros, um escritor veterano me deu uma dica. Disse ele para pensar num título que: 
 
1) Não precisasse ser repetido, nem soletrado, principalmente ao telefone; 
 
2) Não precisasse ser explicado: fizesse algum sentido aparente, por si mesmo; 
 
3) Fornecesse um mote interessante para desenvolver na conversa. (“Algum jornalista ou entrevistador invariavelmente vai perguntar: Sr. Braulio, por que A Máquina Voadora? E isso lhe dará a chance de ser engraçadinho e dizer: Porque é um romance sobre um caracol.”) 
 
Nome de livro/filme precisa ser uma descrição da obra? Não necessariamente. Um título pode muito bem ser um acréscimo à obra. Uma das primeiras coisas que me encantaram na canção “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso foi que o título não aparece na letra da música em momento algum, e é a mais completa tradução dela. Modelo que o autor repetiu em canções como “Panis et Circensis”, “Tropicália”, etc. 
 
Um título não deveria descrever previamente um livro, mas ser definido, após a leitura, pelo livro que se acabou de ler. Como acontece com os nomes de pessoas, aliás. Na pia de batismo, ou no balcão do Cartório, nomes como “William Shakespeare”, “Franz Kafka” ou “Vincent Van Gogh” não tinham significado algum além do ferrete onomástico; foi somente depois da obra que ganharam algum peso metafórico ou simbólico.  
 
E por falar em pia de batismo, me vem à lembrança a piada sobre o casal de jovens nordestinos, em São Paulo, que leva seu bebê à pia batismal. O padre é impaciente, vê os jovens paraíbas se aproximando, recebe o bebê, pergunta: “Vai se chamar como?...”  A mãe, tímida: “Roberto...” E o padre, bufando: “Roberto o quê!  Nome de paraíba é Adenílson!... Eu te batizo Adenílson, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo...”  

(Aqui, comentário sobre o filme:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/11/5208-o-agente-secreto-20112025.html )