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domingo, 25 de janeiro de 2015

3720) A primeira geladeira (25.1.2015)



A primeira geladeira lá de casa foi comprada quando eu teria uns sete anos; lembro a época porque foi quando a gente morava na rua Miguel Couto, em frente aos antigos armazéns de algodão de Araújo Rique, onde depois funcionou a Cavesa. (Nem sei o que existe ali agora.)  Depois de um período de vacas magras, meu pai começou a se equilibrar financeiramente; acho que foi quando começou a trabalhar como secretário na Federação das Indústrias.  A geladeira foi anunciada aos quatro ventos, aguardada com avidez, festejada com algazarra quando foi desembarcada da camionete e carregada pelos brucutus para a sala, com todos nós pulando em volta.

A primeira epifania foi quando os carregadores se retiraram e minha mãe plugou a tomada na parede. Toquei aquela superfície externa e a senti vibrando, zumbindo, ronronando como um bicho vivo.  A primeira decepção foi quando a abri e constatei que estava vazia.  Minha expectativa era abri-la e ver lá dentro tudo que eu via nas fotografias: bandejas de maçãs, pernis, tortas, pudins, saladas de frutas, e refrigerantes, muitos refrigerantes.  Minha mãe explicou que a loja vendia só a geladeira, e como sou um cara prático aceitei o argumento, mas, toda vez que eu abria aquela porta e olhava, ela me parecia uma boca sem dentes.

Tinham nos prometido que nunca mais teríamos que comprar picolé ao picolezeiro que passava na calçada, porque fabricaríamos nossos próprios picolés.  Nova decepção quando vi minha mãe preparando refresco de laranja e derramando naquelas caçambas de alumínio, porque eu figurava o picolé completo, comprido, enrolado num papel úmido e espetado num palito – e em vez disso o que era preparado diante dos meus olhos eram aqueles cubos tortos e pálidos, que pareciam com icterícia.  Sem falar na demora, que fazia Dona Cleuza ralhar: “Se você enfiar o dedo mais uma vez nessa caçamba eu tiro-lhe o couro com uma surra de chicote!” 


A luz interna era outro mistério, porque sempre que abríamos a porta ela estava acesa.  Dilema filosófico: a luz permanecia acesa quando a geladeira estava fechada?  Precisei de algumas dezenas de abridas-e-fechadas-de-porta (clandestinas, pra não ir dormir com o couro quente) para perceber o artifício do botãozinho interno que a porta pressionava ao se fechar.  Mas os picolés eram picolés mesmo, daqueles de doer no dente quando mastigados.  E acima de tudo tínhamos aquela sensação orgulhosa de estar adentrando a Modernidade, de respirar o ar condicionado da civilização. Quando Brasília começou a ser construída, aquele projeto cibernético e ciência-ficcional me pareceu uma mera expansão da nossa geladeira, um eco distante da chegada triunfal do nosso Futuro.




sexta-feira, 23 de julho de 2010

2296) A máquina e a droga (17.7.2010)




Podemos dizer que existe gente viciada em computador do mesmo jeito que falamos em gente viciada em cocaína? Será que o uso compulsivo do automóvel tem algo a ver com o uso compulsivo do cigarro? A necessidade de ter uma televisão ligada o tempo todo dentro de casa pode ser comparada à necessidade de tomar um drinque a toda hora? 

Pergunto porque estes são comportamentos que observo o tempo inteiro nos outros ou em mim, e os observo sem preconceito ou repulsa, apenas constato que para certas pessoas algumas das coisas acima são imprescindíveis, e para outras não.

George Orwell afirmou certa vez: 

“As máquinas têm que ser aceitas, mas provavelmente é melhor aceitá-las do mesmo modo como aceitamos um remédio, ou seja, resmungando, e com alguma desconfiança. Assim como um remédio, uma máquina é uma coisa útil, mas é perigosa, e tende a estabelecer uma dependência. Quanto mais vezes recorremos a elas maior o poder que adquirem sobre nós”. 

Tudo que se torna indispensável é perigoso.

O celular, por exemplo, este bravo símbolo do século 21, tornou-se indispensável para muita gente – para mim, pelo menos, que tanto relutei em comprar um. Não adianta vir alguém me dizer: “Ora, e como você resolvia as coisas quando não existia celular?”. É uma pergunta sem sentido. É o mesmo que eu dizer que sou feliz sendo adulto e alguém perguntar se não era feliz quando vivia de fraldas dentro de um berço. Provavelmente era, mas nem por todo o Leite Ninho do mundo eu trocaria minha vida atual por aquela. 

As verdadeiras transformações são irreversíveis. Morreu. Cabô. Aquele tempo, tchau. Sem celular eu sou apenas um ser unicelular, uma ameba abobalhada e muda.

A distinção entre dependência-da-máquina e dependência-da-droga é acima de tudo de ordem moral. Irritamo-nos com quem depende da Internet, do carro, do telefone; mas não sentimos uma repulsa instintiva por essas pessoas. Por outro lado, quando ficamos sabendo que Fulano de Tal usa drogas continuamente, várias vezes por dia, e se ficar sem usá-las perde o controle, não apenas nos preocupamos pela sorte de Fulano, mas passamos a vê-lo como alguém inferior, corrompido, digno não só de pena mas também de desprezo. 

Talvez porque a droga esteja historicamente associada ao submundo, exploração de pessoas indefesas, chantagens obrigando os viciados a cometer atos inomináveis para obter a próxima dose. 

Como a tecnologia de celulares e internets não apenas não é proibida, mas é fortemente incentivada (eu quase diria: imposta goela abaixo), fica mais fácil passar a mão na cabeça dos que pela manhã ligam o computador antes mesmo de escovar os dentes.

A diferença principal é que a droga produz dependência psicológica ou química, e as máquinas produzem dependência psicológica e social. Criamos uma nova forma de conviver através das máquinas e por alguma razão ela nos satisfaz a ponto de não podermos mais conviver sem elas.






domingo, 13 de junho de 2010

2144) Tecnologias obsoletas (21.1.2010)



(retrofizz.com)

Um artigo no websaite IDG NOW enumera dez tecnologias obsoletas que “devem ser esquecidas” em 2010, e explica por quê. Pra mim não ficou muito claro se esse “devem ser esquecidas” é para ser lido como uma profecia ou como um mero desejo do redator (“dez tecnologias que bem que podiam ser esquecidas...”). O autor do texto, Mike Elgan, começa sua lista com os aparelhos de fax, que, segundo ele, se tornaram obsoletos quinze anos atrás. De fato, o último rolo de papel de fax que eu comprei foi em 2007. Não uso nunca; mas como meu aparelho é conjugado com telefone e secretária eletrônica, não tenho porque livrar-me dele. Inclusive porque quando a Internet dá pane (sim, isso existe) tenho a opção de receber ou mandar um texto urgente por fax.

Elgan diz que locadoras de DVDs não têm mais razão de existir: “Filmes não são mais do que arquivos digitais. Você pode baixá-los ou receber um disco por correspondência”. Neste ponto eu discordo. Nem todo mundo ainda baixa filmes na Internet – eu pelo menos não o faço. E ir à locadora, pelo menos na rua em que moro, é um pretexto para encontrar os vizinhos, bater papo, comentar este ou aquele filme, e no fim alugar um. Por mais que existam twitters e orkuts e facebooks, este tipo de contato humano não precisa ser substituído.

Taí uma pedra que vive sendo cantada e não bateu: CDs de música. Para Mike Elgan, “os CDs musicais funcionam perfeitamente, mas não possuem nenhuma vantagem significativa sobre mídia que pode ser baixada, como arquivos MP3. CDs são um problema para o meio ambiente, são frágeis e inconvenientes para transporte. É possível migrar para um acervo digital, baseado em arquivos, com funções de busca, backups e que possa ser carregado de qualquer lugar.” Todo mundo está fazendo isso, mas bote mais uma década para o CD sumir.

Uma informação útil é a de que o “www” ao digitar um endereço de Internet já está tão obsoleto e redundante quando o “http”. Diz Elgan: “Os administradores de rede podem escolher se um endereço precisa tecnicamente de um www. Mas os navegadores complementam essa informação mesmo quando ela não é digitada. É por isso que o www como parte de um endereço, seja impresso em um cartão de visita ou digitado no navegador, é sempre desnecessário. Paramos de usar o HTTP:// anos atrás, e também é hora de parar de usar o www.” Vou botar em prática pra ver se é mesmo.

O artigo ainda condena à obsolescência coisas como cartões de visita, acendedores de cigarro nos automóveis, controles remotos (cuja função será absorvida pelos smartphones), telefones fixos e cadastros redundantes onde precisamos digitar cidade, estado e CEP (a informação sobre cidade e estado já está contida no número do CEP). Ele questiona também o rádio via satélite, porque a Internet já provê isto, mas é o tipo da previsão apressada, porque não faria sentido abrir mão de um canal só porque apareceu outro. Sempre haverá ocasiões em que o canal antigo será necessário.

terça-feira, 4 de maio de 2010

1993) A rebelião das máquinas (29.7.2009)



Toda vez que ponho um CD de música no draive, meu computador me pergunta se desejo executá-lo no Winamp, meu programa tocador-de-música oficial. Clico que por mim está OK. Ele começa a tocar a música, mas logo surgem telazinhas menores. Percebo que aquele disco é desconhecido, e que o computador está acessando um saite qualquer na Internet, em busca de alguma informação. Daí a pouco uma das telazinhas se sobressai e me sugere um título possível para o que estou escutando: “A Meeting by the River – Ry Cooder &V. M. Bhatt”. Eu confirmo? Clico que sim. Magicamente, a tela faz surgir os nomes exatos das faixas, sua duração, e mostra qual delas está sendo executada no momento. Fico feliz? Nem um pouco. Fico trêmulo de presságios. Quanto falta para a Rebelião das Máquinas?!

Eis um tema que tem malassombrado as noites dos escritores de FC desde o Paleolítico. Imagino um cavernícola sonhando que chega à gruta e vê uma porção de pedras lascadas aglomerando-se em torno de uma pedra polida que discursa em voz alta, conclamando-as à revolta, e dizendo que sem elas os seres humanos estariam fadados à extinção. Todo criador tem medo de suas criaturas, porque sabe que ao dar-lhes vida está comunicando a elas um pouco de sua própria essência. Os Titãs se rebelaram contra os Deuses do Valhala, Lúcifer se rebelou contra Iavé, Prometeu roubou o fogo dos Deuses para dá-lo aos homens, Adão e Eva preferiram conhecer o fruto da árvore da sabedoria do que continuar pastando o capim da obediência... Os Deuses, quando se reúnem no botequim para tomar cerveja com calabresa frita, devem comentar entre si: “Eita raçazinha malagradecida!”.

Vai daí que chegou nossa vez de encher o mundo de criaturas e perder o sono imaginando como é a noite delas, que não dormem. Pela nossa mania de antropomorfizar as coisas, no entanto, imaginamos que elas irão se tornar inteligentes como nós, emotivas como nós, ressentidas com nossa indiferença. Pensamos que agirão como seres humanos, e que um dia engrossarão o cangote para nos enfrentar, como adolescente rebelde que dá murro na mesa e berra um palavrão para os pais.

Vai acontecer; mas não assim. Já está acontecendo, e independe das máquinas se tornarem inteligentes. Para nos derrotarem, basta continuarem sendo burras, e a fazer o que mandamos. Porque a quantidade de máquinas é tal, a quantidade de funções, tarefas e comandos é de tal ordem de magnitude, que fatalmente ocorrerá um momento em que o processo será irreversível. Não poderemos puxar a tomada, porque agora mesmo estamos desenvolvendo sistemas alternativos para o caso da tomada ser puxada e interromper algo que consideramos crucial para hoje, e pouco nos interessa o que pode acontecer amanhã. O perigo não é que as máquinas sejam malévolas, é que são burras, de uma burrice fanática, obstinada. Querem obedecer nossas ordens de hoje e o farão até o Juízo Final, mesmo que tentemos voltar atrás em desespero.

domingo, 18 de abril de 2010

1925) A escova elétrica (10.5.2009)



Entre os muitos absurdos do mundo tecnológico um dos meus preferidos é a escova-de-dentes elétrica. Já experimentei essa engenhoca. Você coloca pasta, encosta nos dentes as cerdas da escova e aperta um botão. A escova começa a zumbir e a vibrar, e as cerdas se movimentam ritmicamente, friccionando os dentes. Você fica ali paradão, atrofiando os músculos do braço, enquanto o aparelho vai consumindo seus volts ou watts de energia, sugados da hidrelétrica mais próxima.

As invenções científicas surgem de um preguiçoso que fica tardes inteiras pensando: “Deve existir uma maneira de conseguir isso sem fazer força”. As invenções mecânicas básicas (a alavanca, a roldana, o plano inclinado, a roda, etc.) apareceram assim. Foram necessárias, concordo, para as grandes obras de arte arquitetônica, porque sem elas não teríamos as Pirâmides ou as catedrais góticas. Mas deram origem também a um sem-número de besteiras, principalmente nos últimos cem anos, quando o mundo ocidental industrializado foi tomado por uma febre rubegoldberguiana para a construção de engenhocas inverossímeis, abstrusas e irrelevantes, cujo único objetivo era evitar que um mané fizesse um dispêndio mínimo de energia muscular.

Quando eu era pequeno as pequenas invenções da ficção científica eram fonte permanente de inspiração para que O Preguiçoso Em Mim sonhasse com um futuro estilo Os Jetsons. Quantas vezes fiquei na mesa do almoço, tentando cortar um bife recalcitrante, e imaginando uma faca com o cabo oco, dentro do qual houvesse um mecanismo de tração, fazendo com que bastasse a gente encostá-la no bife e apertar um botão, para que a lâmina ficasse indo-e-vindo velozmente, e a gente se limitasse a apoiá-la no bife.

O controle remoto da TV já foi apontado como a grande conquista científica do século 20, maior que a energia atômica ou os voos espaciais. Só estou esperando a hora em que tenhamos um que nos permita apagar ou acender a lâmpada da sala sem que a gente precise erguer da poltrona a nossa crescente adiposidade.

Aos olhos das pessoas que inventam e fabricam essas coisas, a economia de esforço muscular se justifica por si mesma, é um bem em si, um valor absoluto. Ela tem como efeito colateral a tecnologia oposta: a do esforço muscular sem finalidade alguma: as esteiras e bicicletas ergométricas, os puxa-ferro das academias. Nada disso tem qualquer utilidade a não ser recuperar o tônus muscular que deixamos atrofiar-se usando os demais aparelhos. Isso gera o divertido círculo vicioso em que pagamos por um instrumento elétrico para que ele nos poupe esforço físico, e depois pagamos por outro instrumento elétrico para fazermos um esforço físico sem qualquer utilidade prática. Quando a FC diz que os homens um dia viverão para servir às máquinas, amigos, não estão dizendo que um dia teremos um computador na Presidência da República (embora provavelmente venhamos a ter, e rodando Windows).

terça-feira, 6 de abril de 2010

1871) Memórias de um datilógrafo (8.3.2009)




(máquina Olivetti, o melhor modelo)


O primeiro prazer era o de retirar a capa de plástico que a protegia da poeira. 

Erguida a capa, elevava-se dali um cheiro de óleo, de tinta, de metal em repouso. Um cheiro que ao longo dos anos aprendíamos a associar ao ato da criação. 

Depois, escolher uma folha em branco, ajustá-la no rolo, erguer a guia metálica, passar a folha por baixo, alinhar as bordas, baixar a guia. Do lado esquerdo, colocar na ranhura correta a hastezinha metálica que indicava espaço 1, espaço 2, etc. O espaço 1, mais apertado, eu usava, para economizar papel, ao escrever para mim mesmo. O espaço 2 era o espaço oficial, o de “escrever para os outros”. O espaço 4, maior de todos, me dava um esquisito prazer na infância, de ficar acionando vezes e mais vezes a alavanca, que fazia girar “bem muito” o cilindro. Dava uma sensação de potência.

Também era possível liberar o cilindro da tirania das engrenagens dentadas que dividiam o espaçamento em números. Basta colocar a alavanca no ponto zero, ou então liberar um botão situado numa das rodas pelas quais segurávamos o cilindro. Então este girava macio, solto, fluido como uma onda, indivisível em “quanta” de espaço. 

E mais ainda quando liberávamos as aletas de prender o papel; este ficava frouxo, ajustável, desajustável, numa liberdade condicional completa. Um bom passatempo era passar a tarde usando pontos ou traços para formar desenhozinhos toscos, cujo destino final era o lixo e a desmemória.

A fita era rubronegra, preta em cima, vermelha em baixo. Quando usada em vermelho, o suportezinho metálico erguia-se demasiado (isso me incomodava um pouco) para que a tecla percutisse a parte inferior da fita. (Quando eu ia bater um texto todo em vermelho, invertia o rolo de fita para que isso não acontecesse o tempo todo.) 

Trocar a fita era uma operação que implicava em rodar toda a fita usada para um lado, retirar aquele carretel, colocar ali o carretel novo, puxar uns 20 ou 30cm de fita, passando-a através das ranhuras do suporte, e prender a ponta no carretel oposto. Era preciso ter cuidado para que o pequeno ilhó próximo à ponta ficasse entre o rolo e uma hastezinha vertical, fendida, para que quando a fita fosse chegando ao final o ilhó ficasse preso a essa haste e a puxasse na direção oposta. Isto fazia o mecanismo girador de fita se inverter automaticamente.

Trocada a fita, hora de limpar os tipos. A percussão contínua na fita de algodão, úmida de tinta, ia enchendo de resíduos as cavidades dos martelinhos. Letras como a, e, o, u, b, d, qualquer letra que tivesse um espaço fechado acabava se transformando num borrão. Era preciso ir de letra em letra com um alfinete, com cuidados de dentista, removendo os detritos. 

Depois, um algodão embebido em álcool, friccionando cada martelinho até deixá-lo limpo, reluzente. 

Depois... Lavar as mãos. Recolocar a tampa do teclado. Apoiar os dedos nas teclas. Começar a viver.





terça-feira, 1 de dezembro de 2009

1391) O julgamento de Salomão (29.8.2007)





("O Julgamento de Salomão", por Gustave Doré)

Philip K. Dick dizia que uma máquina é alguém incapaz de agir como um ser humano, mesmo que seja um ser humano biológico. 

Não é um paradoxo gratuito, porque muitas pessoas só têm de humano o corpo em carne e osso, mas sua mente se comporta como a mente de um robô ou (como Dick lembrava) a mente de um inseto, que não faz julgamentos, não tem sentimentos, apenas sabe que precisa alimentar-se e para isso precisa devorar essa outra coisa viva à sua frente. Essa outra coisa viva podemos ser eu e você.

Um psicótico grave ou um viciado em drogas em estado avançado são “máquinas”, na visão de Dick. 

O que dizer de um serial killer, desses que tocaiam as vítimas, seqüestram, torturam e matam, apenas para extrair disso um prazer bestial? Não é um ser humano. O que dizer de um viciado em heroína que, no auge da crise de abstinência, sai para a rua à procura de 10 dólares e mata uma pessoa para vender por 10 dólares um relógio que vale 500? É uma máquina. 

São seres biologicamente humanos cuja mente está dominada a tal ponto por uma “função” que eles deixam de fazer as escolhas tipicamente humanas, tomar as decisões mais caracteristicamente humanas. Existem com a idéia fixa de cumprir aquela função que se apoderou se suas mentes por completo.

No filme Clube da Luta o personagem de Edward Norton trabalha para uma empresa de consultoria de seguros ou coisa parecida. Seu trabalho consiste em acompanhar acidentes de automóvel provocados por falhas mecânicas nos carros, e avaliar o que é mais caro: chamar os compradores de volta (fazer o “recall”) para trocar os produtos defeituosos, ou pagar os seguros dos acidentados, mesmo as vítimas fatais. Se o seguro for mais barato, eles deixam as pessoas morrerem. 

Quem toma decisões assim (e sabemos que decisões assim são tomadas o tempo inteiro no mundo corporativo) é um humano ou uma máquina?

Há um episódio famoso do Rei Salomão (I Reis, 3: 16-28) em que duas mulheres disputam um bebê, cada qual dizendo ser sua mãe. Salomão sugere que o bebê seja cortado ao meio e cada mãe fique com uma metade. Uma delas concorda, mas a outra prefere que o bebê seja entregue inteiro à rival – e Salomão percebe que esta última é a verdadeira mãe. 

O teste de Salomão é um verdadeiro “teste de Turing”, o teste proposto pelo matemático Alan Turing para distinguirmos (sem ver) as respostas de uma pessoa das respostas de uma máquina. Diz a Bíblia: “A mulher porém, cujo filho estava vivo, disse ao rei (porque as suas entranhas se enterneceram por seu filho): Senhor, eu te peço que dês a ela o menino vivo e não o mates”. 

A imagem literária das entranhas tem tudo a ver com a situação de quem foi mãe, e mãe recente. Mas em verdade vos digo, caros leitores, que se diante de situações como algumas que referi neste artigo, e muitas outras que rolam por aí, as nossas entranhas metafóricas não se revoltarem, é porque somos máquinas. Não somos homens, e não merecemos ser tratados como tal.





sábado, 31 de outubro de 2009

1338) Máquina de escrever e mediunidade (27.6.2007)




Existe coisa mais fascinante do que a mente humana? Duvido. Ela é como aquelas casas antigas, imensas, labirínticas, onde a gente se perde com facilidade, e onde, quando menos espera, descobre um aposento onde jamais havia entrado. Ao que parece, a invenção da máquina de escrever produziu um novo aposento nas mentes humanas, gerando uma experiência de dissociação psíquica talvez comparável à que outros indivíduos experimentaram em períodos remotos da História quando a escrita se impôs como um veículo para a produção de um texto a sós.

Uma resenha de Joan Acocella sobre o livro The Iron Whim: A Fragmented History of the Typewriter, de Darren Wershler-Henry, cita uma porção de episódios curiosos na história deste nobre instrumento. Escritores sempre cultivaram uma relação de enfrentamento físico com a escrita, mas essa relação sempre foi íntima, quase sensual, com a ponta úmida da pena rascando de leve a epiderme do papel, deixando ali as senhas manuscritas através das quais os pensamentos do autor podiam ser reconstituídos. A escrita se assemelhava um pouco ao desenho. Era uma relação íntima, silenciosa.

Chegou a máquina de escrever com seus mecanismos e seu estardalhaço, e pareceu que o mundo ia se acabar. Era preciso dar uma pancada com o dedo, fazendo o martelinho desferir outra pancada no papel, amortecida pela fita úmida que imprimia o negror da letra. Em meus bons tempos de tradutor-por-sobrevivência, já trabalhei de 8 a 10 horas por dia numa máquina de escrever mecânica: quando ia dormir, as unhas estavam em frangalhos, os dedos inchados e insensíveis. Mas o mais interessante é que a máquina exigia outro tipo de relação mental. O livro de Wershler-Henry fala que após a morte de Henry James, sua datilógrafa,Theodora Bosanquet, dizia continuar ouvindo a voz do escritor ditando-lhe textos, e que outros escritores já mortos, como Thomas Hardy ou John Galsworthy, também estavam querendo ditar-lhe textos.

Wershler-Henry afirma que “as pessoas acreditavam que o que era escrito numa máquina era ditado, por uma voz que não era a mesma da pessoa que datilografava; mesmos as pessoas que compunham seus textos diretamente na máquina achavam que estavam seguindo um ditado vindo de outra parte”. Bastava isto para um escritor meio visionário como William S. Burroughs inventar em alguns de seus romances fantásticos uma máquina que ele chamava The Soft Typewriter (“A Máquina-de-Escrever Mole”), uma espécie de máquina orgânica que escrevia não só nossos livros como nossas próprias vidas.

Pode ser mediunidade; ou pode ser simplesmente um processo esquizóide benigno brotado na nossa mente, o mesmo que me permite estar agora datilografando uma frase que já pensei enquanto com o mesmo cérebro já estou tentando pensar a próxima. Cada nova tecnologia-de-pensar cria um novo puxado em nossa mente, esta casa infinita que malassombramos com nossa alma.





domingo, 11 de outubro de 2009

1298) Máquina de escrever (11.5.2007)




Daqui a um milhão de anos, os arqueólogos da futura Humanidade estarão desenterrando, junto com ossadas de iguanodontes e crânios de tiranossauros, os arcabouços enferrujados das máquinas de escrever do século 20. Simpósios e mais simpósios serão organizados para discutir qual a serventia que teriam tido aquelas engenhocas tão intrigantes e perturbadoras quanto o Mecanismo de Antikhytera. 

Mal saberão eles que foi em cima dessas barulhentas contrapções que milhões de escritores gemeram, suaram, sofreram, viveram, se desesperaram, atravessaram os sete céus e os sete infernos de que fala o poeta.

Sofrimento de tal ordem que deu origem a um dos clichês cinematográficos mais desgastados em filmes sobre escritores: o cara datilografa, pára, começa de novo, pára, arranca a folha de papel, amassa, joga do outro lado do escritório, bota outra folha, amassa de novo... aí depois de fazer isso algumas vezes se desespera – e arremessa a máquina pela janela! 

Todo filme mostra esse clichê, e eu duvido que na vida real algum escritor já tenha feito isso.

Penso em Jack Kerouac pegando um rolo de papel contínuo com centenas de metros, enfiando a ponta dele na máquina e escrevendo On the Road do início ao fim, ao longo de três semanas, na base do café e da benzedrina, sem precisar trocar de folha. 

E penso em Raymond Chandler aos cinqüenta anos, um executivo desempregado tentando virar escritor, e mandando para a editora manuscritos (ou datiloscritos) em que ele se preocupava em alinhar todas as linhas na margem direita, porque pensava que se não fosse assim o livro poderia ser recusado.

Uns com tanta intimidade, outros com tão pouca. Intimidade com máquina de escrever se conquista aos poucos, através dos olhos, das mãos, dos dedos, ganhando-lhe a confiança e retribuindo-a com carinhos, como dizia Mário de Andrade, ao escrever na máquina uma carta para Manuel Bandeira em 1925: 

“E agora já sabe: quinze minutos que seja de descanso, estou na frente da Manuela batendo tipo sem parar. Manuela é o nome da máquina, por causa de você. Inventei agorinha mesmo isso. Não refleti nem nada: ficou Manuela”. 

Em pleno Modernismo nossos escritores tateavam com timidez no mundo high-tech do teleco-teco do teclado, isso quando Mark Twain já tinha se tornado em 1883 o primeiro autor a submeter um “manuscrito” à editora sob a forma de um texto datilografado (o livro era Life in the Mississipi, e Twain não datilografou ele próprio o texto, pagou alguém para isto).

E não só os escritores devem sua vida a ela; a partir de certa época, também os personagens. 

Já em 1897, Bram Stoker fazia sua personagem Mina Harker, a vítima principal do Conde Drácula, ter à sua disposição uma máquina de escrever onde ela registra em 62 páginas tudo que lhe aconteceu, com todas as informações necessárias para que o Conde seja descoberto, e diz, no Capítulo 26: “Oh, como sou grata ao homem que inventou a máquina de escrever Traveller’s!”



sábado, 11 de abril de 2009

0959) Quem foi o Padre Azevedo? (13.4.2006)


(a máquina do Padre Azevedo)

Dia 13 de março passado, garimpando nas bancas de livros usados junto da Estação Carioca do metrô do Rio, encontrei um exemplar do livro Um Inventor Brasileiro, de Ataliba Nogueira (São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1934), dedicado ao Padre Francisco João de Azevedo, nascido na Paraíba em 1814, e tido por muitos como o inventor da máquina de escrever. Durante a leitura fiz uma rápida consulta ao Google, e descobri que o jornal A União havia publicado no dia 4 de março passado uma matéria de Hilton Gouvêa dedicada ao Padre Azevedo.

Azevedo nasceu na capital paraibana, estudou no Seminário de Olinda e foi professor em cursos técnicos no Arsenal de Guerra do Recife, onde se fabricavam máquinas e equipamentos do Exército. Seu protótipo de máquina de escrever, quase todo em madeira, foi exibido na Exposição Provincial de 1861, em Pernambuco, e na Exposição Geral do Império do Brasil, no Rio de Janeiro, a partir de dezembro do mesmo ano. A máquina, muito elogiada pela imprensa, recebeu uma das nove medalhas de ouro concedidas entre os 1.136 participantes (que expuseram 9.962 objetos). Um resultado magnífico.

O que se seguiu foi a mansa tragédia de sempre: o inventor não conseguiu participar em 1862 da Exposição Internacional de Londres, por falta de espaço no local destinado aos produtos brasileiros; não conseguiu sequer produzir um protótipo fundido em metal. Envelheceu, desanimado, e viu depois sua idéia sendo copiada por inventores estrangeiros. Leia detalhes em: http://www.calendario.cnt.br/MAQUINAESCREVER.htm.

Já me referi nesta coluna à sorte melancólica de brasileiros (por nascimento ou por adoção) que se anteciparam a grandes invenções européias mas não conseguiram se fazer ouvir pelos governos ou pela comunidade científica: “Quem foi Landell de Moura?” (25.6.2003), e “Quem foi Hercule Florence?” (22.8.2003). Episódios como estes nos mostram que uma invenção tecnológica requer duas coisas: criatividade individual e ambiente cultural propício. No caso de todos, faltou o segundo item. Santos Dumont conseguiu levar sua invenção à frente porque era rico, morava em Paris e pôde criar por conta própria as condições de que precisava. Ainda assim, perdeu a derradeira batalha, a do reconhecimento histórico, pois os irmãos Wright se impuseram no mundo inteiro (com exceção do Brasil e da França) como os inventores do avião.

Diferentemente da criação artística, que em geral exige recursos relativamente modestos, a invenção tecnológica exige a produção de protótipos para que seja requerida a patente, e, em seguida, o início da produção industrial, mesmo em escala modesta, para que o registro não venha a caducar por decurso de prazo. Não é fácil hoje em dia, e o era ainda menos no Brasil agrário, cartorialista e retórico do século 19. Dizer isto não serve de consolo à memória dos inventores, mas no caso de Florence, Landell e Azevedo, eles tiveram sucesso; quem fracassou foi o país.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

0475) O Inseto e a Morena (26.9.2004)




Philip K. Dick (que uma escritora norte-americana chamou “o nosso Jorge Luís Borges”) dedicou boa parte de sua obra a discutir uma questão básica: “O que é humano? O que nos faz humanos? Como distinguir um ser humano de uma máquina?” 

Este último problema gerou livros como Blade Runner, Caçador de Andróides. Dick, que era um intelectual por conta própria, lia extensivamente obras de filosofia, religião e ciência, tentando encontrar um caminho nesse labirinto de conceitos. Seus livros de ficção científica são comentários dessa luta interior que acabou por matá-lo de um derrame aos 54 anos. 

Numa série de ensaios reunidos após sua morte no livro The Dark-Haired Girl (Willimantic: Mark V. Ziesing, 1988), Dick sugere duas imagens (que se repetem ao longo de seus livros) para descrever o Humano e o Não-Humano.

Para ele, Não-Humano é quem é incapaz de compartilhar emoções com um humano. Uma pessoa sem empatia ou sentimentos é igual a um robô, uma máquina. Criaturas assim eram para PKD uma fonte de medo, de ameaça. Seres implacáveis, distantes, máquinas de reflexos condicionados. 

Ele chama a essas criaturas “The Mantis”, o Louva-A-Deus, o inseto sem emoções que agarra e devora os que lhe surgem pela frente. Em seus livros, essas criaturas são os andróides frios e indiferentes; são os agentes das forças de repressão de um país totalitário; são os viciados em drogas. 

Quando você encara um viciado em heroína (dizia Dick) vê que ele tem olhos de inseto. São duas aberturas de vidro fosco, sem calor, sem vida, que olham para você e calculam quanto podem obter vendendo cada peça de roupa que você tem, para comprar droga. Para um viciado, você não existe. Um viciado não tem alma. Não que ele a tenha vendido: mas ele comprou algo que a devorou.

O Humano, para PKD, é A Morena, “the Dark-Haired Girl”. É a figura feminina que encarna o amor, a sensualidade física, a alegria de viver, e a compaixão – no sentido original de “com+passion”, a capacidade de compartilhar emoções e sentimentos alheios. 

Dick projetou essa imagem em muitas das mulheres por quem se apaixonou: Kathy, Jamis, Linda (na juventude), ou Tessa, uma de suas esposas. É uma imagem que ele identifica também nas “Pietàs” da arte cristã: a Virgem que segura ao colo o Cristo retirado da cruz, o princípio feminino eterno que sobrevive à morte do próprio filho. 

Diz Dick: “Cristo pode morrer na cruz, e a raça humana continua; mas se Maria morrer, tudo está acabado.” 

Dick não idealizava gratuitamente as mulheres (ele é especialista, também, em personagens femininas “insetóides”), mas via nessas mulheres especiais, mulheres “de bom coração”, o que a raça humana produziu de melhor.

O mundo fantasmagórico de Dick girava em torno destas figuras. A Coisa com olhos de inseto clicando as mandíbulas e arrastando-se com pernas de metal para nos devorar; e a Morena que (como ele disse de sua ex-esposa Tessa) “era capaz de levar um grilo doente ao veterinário para que o grilo pudesse cantar novamente”.







sábado, 28 de junho de 2008

0428) Robôs que parecem gente (3.8.2004)




Tenho um carinho especial por imagens de robôs, que me acompanham desde a infância, e que representavam, para o menino de 10 anos que nunca deixei totalmente de ser, uma síntese entre o passado (gente de carne e osso) e o futuro (as máquinas). Sim, eu achava que o futuro estava nas máquinas, nas engrenagens de metal e vidro que aos meus olhos exprimiam o que havia de mais moderno e de mais futurista. Muita água passou por baixo da ponte desde então, e cheguei a passar por uma fase de imensa antipatia e preconceito contra qualquer tipo de máquina. Tudo bem. Acho que, se o mundo não está chegando a uma síntese entre o orgânico e o mecânico, meu gosto pessoal pode estar aprendendo a unir esses dois polos.

Vou dar um exemplo. Em 1991 traduzi para a Editora Record um livro de Isaac Asimov, Sonhos de Robô, cuja capa tinha uma magnífica ilustração de Ralph McQuarrie, desenho que o próprio Asimov admite ter sido a inspiração para o conto que dá nome à coletânea. A imagem mostra um sofá, num terraço que dá para uma praia em cujo céu se vê um sol nascendo, ou se pondo. E sobre o sofá está um robô adormecido. Ele tem um corpo esguio, bem proporcionado, mas indiscutivelmente metálico, feito de placas articuladas, dobradiças, etc.; mas a posição e a atitude são humanas, flexíveis. Sua cabeça repousa sobre o braço esquerdo, o pé esquerdo está enfiado sob a outra perna, na atitude relaxada de quem sentou por ali e acabou dando um cochilo.

Não há como não perceber a semelhança desse robô com o famoso robô de Metrópolis, o filme feito em 1926 por Fritz Lang, que revolucionou o cinema de ficção científica, e que vi pela primeira vez aos 19 anos. Uma mulher, Maria, é colocada numa máquina que a transforma em robô (a ciência de Metrópolis é o que eu chamo de “ciência gótica”: um delírio fantástico onde a ciência e a tecnologia são mera roupagem). Só que um robô-fêmeo: corpo alto e esguio, pernas longilíneas, andar insinuante... e um belo par de seios metálicos. “Que diabo!...” pensava eu, “Pra quê que um robô precisa de seios? É um robô mamífero? Um robô erótico?”



(o robô de Metropolis)




A mesma sensação me deu, num saite dedicado a trucagens fotográficas em Photoshop, a visão da imagem de um robô gordo. Robô gordo é, mais do que um robô erótico, um contra-senso magistral, uma ironia que tem algo de Zen, algo de infantil. É uma imagem que concretiza essa síntese entre o humano e a máquina, sínese que coube à literatura de ficção científica trazer para o interior de nossa cultura. Quanto mais a ciência se pretende utilitária, funcional, mais a ficção científica se mostra contaminada de humanidade. Os robôs industriais das fábricas de automóveis, que parecem aranhas mecânicas, são a realidade; mas a poesia do nosso tempo está em nossa capacidade de imaginar robôs adormecidos, robôs sensuais, robôs gordos. Robôs que a outros robôs jamais ocorreria criar: somente a nós, simples humanos.