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quinta-feira, 9 de abril de 2015

3784) Dupla identidade (10.4.2015)



Oscar Wilde, o rei do paradoxo, dizia: “Se quiser conhecer a verdadeira personalidade de alguém, dê-lhe uma máscara”. Faz sentido. Quando estamos mostrando nossa própria cara, estamos mostrando uma imagem presa a convenções e regras sociais, familiares, morais, etc.  

Cada um de nós é um personagem na convivência social com família, amigos, colegas de trabalho. Sabemos que qualquer passo em falso vai manchar a reputação dessa pessoa que somos, desse papel que é o único que temos. Nosso rosto e nossa imagem pública são esculpidas pelo Superego, pelas exigências que nos massacram de cima para baixo e de fora para dentro.

Quando botamos a máscara, a coisa muda de figura. No carnaval, machões se vestem de mulher, homens pacatos empunham armas de brinquedo e promovem massacres fictícios, mulheres recatadas viram odaliscas se oferecendo (de mentirinha) a qualquer um. 

Botam pra fora o que de fato são (ou uma parte importante e reprimida do que são) e vivem o alívio de uma fantasia permissiva e consolatória.

Freud comentou que a literatura popular, com seus heróis indestrutíveis e sempre triunfantes, é “a literatura do Ego”, destinada a celebrar e gratificar essa imagem idealizada de nós mesmos. Quando colocamos uma máscara, essa máscara vira “o Eu que gostaríamos de ser”; quando criamos um herói, acontece o mesmo. 

Histórias de heróis com dupla identidade são um clichê da literatura popular: Superman, Batman, o Zorro, o Sombra, o Homem Aranha e incontáveis outros têm uma identidade pública, pacata, civil, e uma identidade secreta e famosa, o herói que a cidade inteira teme e reverencia sem saber que se trata daquele mesmo indivíduo banal que todos cumprimentam sem saber que dentro dele se esconde o herói.

A saga do Super-Homem pode muito bem ser vista como um delírio de Clark Kent: um repórter desajeitado, grandalhão, de óculos, tímido, incapaz de arranjar uma namorada. 

Por um processo de compensação, Kent começou, a certa altura da vida, a desenvolver uma fantasia de que era na verdade um extraterrestre dotado de superpoderes. Todas aquelas aventuras são imaginárias, são um processo de autoindenização psicológica onde ele cura as feridas produzidas pelo trabalho e sabe-se lá pelo que mais. 

Na sua rotina de redação, Clark Kent embarca waltermittyanamente em devaneios e delírios onde salva vezes sem conta a cidade de Metrópolis e o planeta Terra. O Super-Homem é a máscara que ele usa para “ser ele mesmo”, ser o que ele de fato gostaria de ser. A máscara é o que o Eu gostaria de ver no espelho, mas precisa de uma máscara para isso.  Ninguém contou ainda a verdadeira história de Clark Kent.








domingo, 31 de março de 2013

3147) O sol e o mundo (30.3.2013)



Nos livros de Monteiro Lobato em que os personagens do Picapau Amarelo voltam à Grécia da mitologia, volta e meia aparece uma discussão sobre o formato da Terra, que os garotos insistem ser redondo. Os gregos negam com veemência: “Não, a Terra não é redonda, é montanhosa.”  Há uma heterogeneidade nessa conta. Os dois termos não pertencem à mesma ordem de coisas. Dizer que a Terra é redonda é ser capaz de imaginar que a está vendo à distância, “sair de dentro de si mesmo”, de certa forma. E o homem medieval não conseguia sair de si mesmo porque se julgava habitando um Universo cujo centro era a Terra, e na Terra, ele. Para ele, o universo era uma esfera e o mundo que ele via à sua volta era apenas uma secção horizontal dessa esfera, um plano infinito se estendendo de norte a sul, de leste a oeste.


Eu seria desonesto se dissesse que esse modo de ver me é estranho. Mas isto me lembrou duas frases emblemáticas sobre o poder do homem sobre a terra, o poder do Homem sobre a Terra, e concepções cosmológicas sucessivas.

No tempo da Rainha Vitória, o auge do colonialismo cuja faceta talentosa são Kipling, Rider Haggard, Conrad, Wilde, Stevenson, etc., dizia-se do império britânico ser “aquele império onde o sol nunca se põe”.  Durante a lenta rotação da Terra sobre si mesma, ao longo de 24 horas, há sempre metade dela exposta à luz do Sol, e nessa metade havia sempre algum território, havia inclusive um considerável território, de propriedade de Sua Majestade.

Já o coronel de José Lins do Rêgo dizia: “O sol que nasce no Santa Rosa, morre no Santa Rosa.” Uma bela imagem, mas uma imagem bidimensional, de quem considera o Universo o chão retilíneo (ou montanhoso!) que se expande à sua volta, com ele no centro. Ver-se no centro de tudo dá uma sensação de poder, de importância, de fazer sentido... Temos milênios dessa fantasia grandiloquente. Não é fácil aceitar que não somos o centro do Universo.

A frase dos ingleses mostra noção tridimensional do mundo, uma presunção, já espontânea, de que a Terra gira em redor do sol.  O velho senhor de engenho, por outro lado, ainda reflete um esquema visual do mundo. Uma planta-baixa do Universo, se quisermos, onde o mundo é um chapadão em volta do qual o Sol orbita, com pontualidade absoluta. O Coronel talvez não entendesse (visualmente, tátilmente) essa imagem de que o sol jamais se põe sobre a Terra inteira. O mundo dele é (como o dos gregos em O Minotauro) uma superfície plana, onde suas posses precisam cobrir 360 graus de superfície. Um sonho grandioso, respeitável, atingível (não importa por que meios) mas, aqui pra nós, insustentável por mais de alguns séculos.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

2559) “O Fantasma de Canterville” (18.5.2011)



Poucas histórias de fantasmas serão tão emblemáticas quanto esta noveleta de Oscar Wilde, de 1887, que hoje é um clássico da literatura infantil. Foi adaptada várias vezes para o cinema, várias vezes traduzida no Brasil. É a história de uma família norte-americana que compra Canterville Chase, uma tradicional propriedade rural inglesa, e ao se mudar para lá recebe o aviso de que a casa é mal-assombrada. A família é pragmática e materialista, não acredita no Fantasma, e, quando este aparece, não lhe dá muita importância. A partir dessa primeira aparição o Fantasma passa a ser o ponto de vista narrativo, e vemos sua decepção e perplexidade diante daquelas pessoas que não o temem, e daquelas crianças capazes de qualquer coisa para infernizar sua vida: há um par de gêmeos que lembram Hans & Fritz, os “Sobrinhos do Capitão” dos quadrinhos.

Wilde cria uma historieta divertida mostrando o desespero do pobre Fantasma que não assusta ninguém. Os jovens e saudáveis norte-americanos não o levam a sério em momento algum, por mais que ele recorra a todos os seus truques, caracterizações, efeitos especiais. O autor fica numa posição “triangular”, mostrando à distância os dois lados da história, satirizando ambos, mas com um bom humor juvenil que talvez tenha se diluído à medida que ele foi cristalizando a “persona” cínica que o tornou famoso em Londres.

O livro de Wilde foi mais um golpe pesado na literatura gótica de velhos castelos, noites tempestuosas, maldições seculares, tragédias de famílias nobres, espectros penitentes que imploram perdão ou vingança. Surgindo no século 18, cem anos depois esse tipo de romance já merecia sátiras e paródias variadas. No século 20, os fantasmas bonzinhos acabaram se transformando num clichê tão consagrado quanto os fantasmas ameaçadores. A “sacada” de Wilde foi de que seria engraçada uma situação em que as pessoas incrédulas vissem, sim, o fantasma, mas isso não tivesse o menor efeito sobre elas. Pelo contrário: os adultos tentam ajudá-lo (dão-lhe óleo para lubrificar as correntes, que rangem muito) e as crianças pregam-lhe peças terríveis. No fim do livro, a filha da família Otis, Virginia, torna-se amiga do fantasma e ajuda a libertar sua alma.

O fantasma do livro é Sir Simon de Canterville, que em 1565 assassinou a própria esposa. O que acaba parecendo uma premonição do poema mais famoso de Wilde, a “Balada do Cárcere de Reading”, escrito dez anos depois, em 1897, onde estão os famosos versos: “Pois todo homem mata a coisa que ama, / e cada um que escute bem: / alguns o fazem com um olhar amargo / outros com uma palavra de elogio / o covarde o faz com um beijo / e o homem valente com uma espada”. Por ter morto a esposa, Sir Simon tem que passar 300 anos vagando pelos corredores da mansão, até ser desmoralizado pela incredulidade dos norte-americanos e ser libertado pela compaixão da garota, a primeira que é capaz de perdoá-lo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

2488) “O Retrato de Dorian Gray” (24.2.2011)



As sincronicidades são as rimas da vida real. Estão para ela assim como a simetria está para as artes visuais. No cinema temos dois tipos de rima. Podemos cortar entre imagens parecidas com idéias diferentes: em Viridiana, Buñuel corta de uma coroa de espinhos para um disco tocando na vitrola; em 2001 Kubrick corta de um osso flutuando no ar para uma nave flutuando no espaço. Ou podemos cortar entre imagens diferentes com idéias parecidas: Hitchcock corta de um casal na cama para um trem entrando num túnel.

Costumo ler livros e ver filmes sem planejamento, mas sem dúvida existe um impulso subterrâneo me levando a procurar obras que, quando justapostas, produzem uma fagulha. A fagulha do presente caso foi produzida pelo fato de, enquanto estou relendo O Médico e o Monstro de R. L. Stevenson ter assistido o DVD de O Retrato de Dorian Gray de Albert Lewin, adaptando o livro de Oscar Wilde. Estes dois textos são clássicos do romance fantástico vitoriano e são, por assim dizer, duas variações sobre o mesmo tema. Algo que poderia ser expresso no antigo slogan da série O Sombra, de Maxwell Grant: “Quem sabe o Mal que se oculta no coração do homem? O Sombra sabe”.

Em ambos os casos, um respeitável cidadão britânico mantém uma fachada de indivíduo exemplar enquanto se dedica a prazeres indescritíveis e crimes imperdoáveis. No livro de Stevenson, ele o consegue através de uma poção que o transforma fisicamente em outra pessoa, um corpo físico que corresponde a uma parte de sua mente onde habitam os “baixos instintos”. No de Wilde, essa divisão é simbólica: Dorian Gray pratica os piores excessos e ao longo dos anos permanece jovem e belo como sempre, ao passo que é seu retrato quem envelhece e decai. Há certamente outras obras com perfil semelhante, mas eu diria que, principalmente no mundo de língua inglesa, estas duas novelas tão curtas criaram o padrão para as histórias de dualidade entre virtude aparente e pecado oculto.

Somos tentados a dizer que isso é a cara da Londres vitoriana, mas os exemplos contemporâneos mostram que a coisa vai mais longe. Talvez os mais conhecidos sejam Psicopata Americano (livro de Bret Easton Ellis, filme de Mary Harron) e Clube da Luta (livro de Chuck Palahniuck, filme de David Fincher). Em ambos, um sujeito extremamente comum e enquadrado no mundo corporativo desenvolve uma segunda personalidade agressiva, sádica e impossível de controlar, um “monstro do Id”, instinto puro, auto-gratificação pura. Nestas obras ficamos sabendo em detalhe quais os atos escabrosos praticados pelos modernos Dr. Jekyll e Dorian Gray, atos que a discrição da época não permitia aos escritores mostrar de maneira gráfica, explícita. Ainda somos vitorianos. Mesmo na mais permissiva das sociedades, ainda existe espaço para a cisão da personalidade entre um “cidadão acima de qualquer suspeita” e um monstro – ou, como disse Olavo Bilac, “um demônio que ruge e um deus que chora”.

sábado, 8 de maio de 2010

2015) O soneto de Euclides (23.8.2009)



O caderno “Prosa & Verso” do Globo, dias atrás, publicou um soneto de Euclides da Cunha que eu lembrei de ter lido em algum compêndio escolar, mas tinha esquecido por completo. O original está manuscrito por cima de uma foto de Euclides, entre amigos, numa comissão de exploração do Alto Purus, na Amazônia, em 1905. E merece um pequeno exame.

Diz o soneto: “Se acaso uma alma se fotografasse / de sorte que, nos mesmos negativos, / a mesma luz pusesse em traços vivos / o nosso coração e a nossa face; // e os nossos ideais, e os mais cativos / de nossos sonhos... Se a emoção que nasce / em nós, também nas chapas se gravasse / mesmo em ligeiros traços fugitivos; // amigo! Tu terias com certeza / a mais completa e insólita surpresa / notando – deste grupo bem no meio - // que o mais belo, o mais forte, o mais ardente / destes sujeitos é precisamente / o mais triste, o mais pálido, o mais feio”.

É um clichê, é a fantasia romântica sobre a possibilidade de enxergar a verdadeira alma de alguém; mas a idéia de que a luz gravasse sobre os “negativos” essa alma ressalta a curiosa contemporaneidade entre a fotografia e o espiritismo. O primeiro daguerreótipo é de 1839. A primeira manifestação mediúnica das irmãs Fox foi em 1848. Na década de 1890, a Society for Psychical Research produziu na Inglaterra uma imenso arquivo de fotos de materializações de ectoplasma, visualização de espíritos, etc. Sessões de médiuns famosas como Eusapia Palladino (1854-1918) e Eva Carrière (1886-?) foram extensamente fotografadas. A idéia de fotografar a alma (do médium, ou alheia) não era um devaneio de Euclides, era uma pesquisa que dezenas de cientistas sérios levavam a cabo nessa época.

O sentido moral do soneto, o que me parece ser o objetivo do poeta, é a idéia convencional de que essência e aparência são contraditórios, “quem vê cara não vê coração”. O poema parece uma versão menos “dark” de O Retrato de Dorian Gray de Wilde, se tomarmos “retrato” como sinônimo de “foto” e não de “pintura a óleo”.

A releitura, agora, me trouxe outro ponto de vista. Este soneto sempre me pareceu dizer, em seu desfecho: “Esse indivíduo que você está vendo nesse grupo, esse indivíduo tão belo, tão forte, tão ardente, é na verdade o mais feio de todos, e nós perceberíamos sua feiura, se pudéssemos enxergar sua alma”. Mas como o poeta coloca entre esses dois tipos um sinal de igualdade, é possível ler também o inverso: “Sabem quem é o mais belo, forte e ardente desses indivíduos? É precisamente esse que, quando o vemos apenas por fora, é de todos o mais triste, pálido e feio”. É o sertanejo. O sertanejo “desgracioso, desengonçado, torto” que de início despertou menosprezo em Euclides, mas aos poucos o conquistou pela sua bravura, estoicismo, grandeza moral. Fotografado de fora, era o “Hércules-Quasímodo”. Quando emergiu de si mesmo, transfigurou-se no “titã acobreado e potente”, graças ao olho-câmara do poeta-jornalista.

sábado, 24 de abril de 2010

1952) Escândalos sexuais (11.6.2009)



O escritor Bruce Sterling sugeriu o termo “centopéia” para descrever um tipo de crime (não sei se a palavra tecnicamente se aplica) que sempre existiu na política mas que se intensificou com a cultura digital. A centopéia é um conjunto de informações verdadeiras e falsas, misturadas e divulgadas de forma a liquidar a carreira de um político. Todo político tem as fraquezas de qualquer ser humano, agravadas pela embriaguez de poder de quem ocupa um cargo e imagina que continuará ali para sempre. Oportunidades não faltam, e, como dizia Oscar Wilde, “sou capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação”.

A centopéia é geralmente um escândalo sexual habilmente preparado pelos adversários da vítima. Segundo Cory Doctorow, que divulgou a teoria no blog BoingBoing, “ela dá a impressão de ser espontânea e estar preocupada com valores morais, mas na verdade é planejada e está visando o poder”. Sterling a chama de centopéia porque ela é segmentada, age às escondidas, e é cheia de veneno. Os ingredientes principais são:

1) Uma vítima numa posição de poder. 2) Um(a) parceiro(a) sexual da vítima. 3) Informações vazadas sobre a conduta sexual da vítima. 4) Militantes online: blogs, listas de mensagens, websaites de vídeos. 5) Atrizes, cantoras ou modelos com algum tipo de envolvimento no caso, para atrair com seu glamour a atenção da massa. Diz Sterling: “um político que tenha um caso com uma mulher feia, gorda, de meia-idade e de origem proletária é praticamente à prova de centopéias”. 6) Políticos de oposição que afirmem estar chocados e peçam a imediata punição da vítima. 7) Mídia digital, tablóides, TV a cabo e redes de TV aberta (que serão exploradas exatamente nesta ordem). 8) Uma investigação policial ou o mero boato a respeito de uma. 9) Uma população feroz e devassa, que se enfurece com a mera idéia de que políticos possam ter o mesmo tipo de relações sexuais ilícitas que eles têm. 10) Aspectos que, quando ocorrem, dão sabor mais picante ao caso: uso de drogas, adolescentes molestados, líderes religiosos (líderes de campanhas anti-pornografia são especialmente vulneráveis a centopéias), venda clandestina de vídeos comprometedores, vazamento de emails e chats, computadores confiscados, roubo de celulares com câmara, grampos telefônicos, malas-diretas anônimas com DVDs difamatórios.

Em geral (diz Sterling) uma centopéia bem feita derruba um político em pouco tempo. Uma centopéia mal sucedida se dilui em mero boato maldoso. A maioria delas é visivelmente produzida por alguém, com revelações sendo liberadas numa sequência que obedece um plano estratégico. O BoingBoing cita exemplos de 2008 na Índia, Grécia, Polônia, Indonésia, África do Sul, Grã-Bretanha e EUA. Mas a centopéia parece se dar bem com o clima moral dos EUA, um país bifronte onde o Moralista e o Depravado moram parede-meia um com o outro, e adivinhem qual dos dois olha pela fechadura para saber o que o outro vive fazendo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

1874) O rosto de baixo (12.3.2009)




(Oscar Wilde)

Diz um velho ditado que se quiser conhecer bem uma pessoa, dê-lhe poder. Dê-lhe um poder muito maior do que ela já conheceu na vida. 

Pode ser poder econômico ou político, para que ela possa influenciar a vida de milhares de pessoas; pode ser poder emocional ou psicológico sobre um grupo restrito ou às vezes sobre uma pessoa só. 

Veja como o “poderoso” agora se comporta, porque é tiro e queda. Ele vai mostrar algo de si que ninguém conhecia antes, e ele menos que todos.

A leitura mais imediata disto é que o sujeito que recebe alguma forma de Poder tende a superestimá-lo, e achar que por causa daquilo está acima dos julgamentos alheios, acima do Bem e do Mal, como se diz. Mas não é só isso. 

É que o Poder na verdade é um Papel que recebemos e que devemos interpretar da melhor maneira possível. Um papel diferente do que tínhamos até então. 

O sujeito é sociólogo, vira Presidente da República, vai ter que trocar de papel. O sujeito é escritor, vira diretor de jornal, vai ter que trocar de papel. O sujeito é ator, vira administrador de um teatro, vai ter que mudar de papel.

Oscar Wilde, que entendia de fingimentos e personagens, disse: 

Um homem é muito pouco ele mesmo quando fala em seu próprio nome. Dêem-lhe uma máscara, e ele lhes dirá a verdade. 

Eu leio esta frase da seguinte forma: o que uma pessoa diz é verdade, mas é uma verdade oficial, já sancionada pelo consciente e pelo superego. 

O Papa só diz aquilo que o Papa pode dizer; Seu Manezim da bodega também só diz coisas que não abalem a reputação de Seu Manezim da bodega. Se ambos forem projetados num contexto em que estão liberados para não serem eles mesmos, é bem possível que digam verdades interessantes.

Essas verdades interessantes são coisas que estão apenas no limiar da consciência de cada um. Fazem parte dele, mas estão, por assim dizer, numa perpétua lista de espera, porque não são convocadas para aparecer – só são convocadas as verdades que fazem parte da tal “versão oficial”, da persona pública, do personagem que Fulano e Sicrano se vêem na obrigação voluntária de representar a partir do instante em que abrem os olhos de manhã.

Para algumas pessoas, na juventude, o teatro proporciona isso – a possibilidade de vestir roupas absurdas, fingir que são alguém, dizer o que não se diz, fazer o que não se faz. 

Exercícios de improvisação trazem à tona não propriamente essas verdades que Wilde sugere, mas um tumulto de vontades, de fantasias, de imaginações reprimidas. A mente consciente é que é a máscara, o texto decorado e bem ensaiado, a “versão oficial” de nós mesmos. 

Se nos dão a máscara de (e com ela a obrigação de ser por alguns instantes) alguém que não somos, o que ocorre? Somos obrigados a improvisar, a tirar atitudes da memória e da imaginação. Isso, na pressão emocional de ter-que-dizer-algo, desencadeia um processo de livre associação, faz emergir o inconsciente, o rosto mais profundo.





terça-feira, 11 de março de 2008

0231) O editor e o autor (17.12.2003)





(Conan Doyle)

No verão de 1889, John Marshall Stoddart, editor do “Lippincott´s Magazine” da Filadélfia (EUA), chegou a Londres para preparar o lançamento da edição britânica da revista, que atravessava um bom momento comercial. 

Uma das estratégias adotadas foi contactar novos escritores que já tinham seu público mas ainda não eram medalhões. 

Stoddart convidou dois destes autores para um jantar no Langham Hotel: Oscar Wilde, um poeta e contista que àquela altura, aos 35 anos, ainda não tinha escrito as peças teatrais que lhe dariam fama e fortuna; e Conan Doyle, um médico que aos 30 anos já publicara alguns volumes de contos e um romance histórico, A narrativa de Miquéias Clarke, bem recebido pela crítica.

Não conhecemos os detalhes deste jantar, mas sabemos suas consequências. Stoddart encomendou a cada um dos escritores um romance para ser serializado na revista. 

Wilde produziu O retrato de Dorian Gray, que acabaria sendo o único romance que chegou a escrever, e é um desses livros que todo mundo conhece. 

Doyle lembrou-se de Um estudo em vermelho, um obscuro romance que publicara em 1886 tendo como personagem um detetive chamado Sherlock Holmes, e escreveu em apenas seis semanas a segunda aventura do detetive, O signo dos quatro

Os historiadores acham provável que haja uma certa influência das atitudes decadentistas de Wilde no fato de que neste segundo livro Holmes aparece pela primeira vez usando cocaína – o que na época não era crime, apenas algo levemente escandaloso.

Como se vê, editores têm um papel decisivo na história de literatura, mesmo não redigindo uma linha sequer. A função de um editor é tornar possíveis as obras, é estimular os autores, dar-lhe idéias ou pedir-lhes que as tenham. 

Eu poderia ter recorrido a exemplos mais ilustres (o Papa encomendando a Miguel Ângelo a pintura da Capela Sistina), mas preferi lembrar um episódio um tanto obscuro, porque desses episódios obscuros existem milhares, talvez milhões.

As deformações e as brutalidades do sistema industrial-capitalista têm sido tais que produzem imagens distorcidas. Autor e editor são, basicamente, parceiros, e não patrão e empregado. Se não existissem escritores, os editores estariam pedindo esmolas embaixo do viaduto, ou mudariam de profissão; e vice-versa. 

A função do escritor é criar um texto, a função do editor é produzir um livro. O texto é de um, o livro é do outro. O texto é uma obra literária; o livro é um produto industrial que serve para tornar essa obra literária acessível a muita gente. 

Poucas coisas terão sido tão benéficas para a literatura, num momento específico, quanto a existência de um editor cercado de autores cujo talento ele percebe. Bem aventurado o editor que percebe o talento de alguém e lhe diz: “Traga alguma coisa bem legal, e deixe o resto comigo.”






sábado, 8 de março de 2008

0109) O velho e o mar (27.7.2003)




(ilustração: Jan Hrebicek)

A coleção de livros do Globo e da Folha de São Paulo pôs nas bancas O velho e o mar de Hemingway. 

O livro poderia intitular-se “O menino, o velho, o mar e o peixe”, porque são quatro seus protagonistas. 

Li esse livro uma vez quando era garoto, com olhos de garoto para quem o velho não poderia ser outro senão meu pai, que me deu o livro de presente. Relê-lo agora, quarenta anos depois, é trocar de olhos; e fechar um ciclo.

Hemingway era mais truculento e machista na vida real do que nos livros. Talvez porque na vida real ele fosse um personagem de Hemingway, e nos livros fosse apenas ele mesmo. 

O velho e o mar é um livro de enorme aspereza e enorme doçura. Compõe um tríptico com Moby Dick de Melville, onde o “peixe” é o Mistério, e com o Tubarão de Spielberg, onde o peixe é o Mal. 

Em Hemingway, o marlim é quase humano, e ao mesmo tempo uma imagem de indescritível beleza e altivez. O Velho pede-lhe perdão por matá-lo, e diz: 

“Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui.”

Há um verso de Oscar Wilde que diz “todo homem mata a coisa que ama”. Pode até ser, mas este livro nos dá o caso, mais notável, do homem que ama a coisa que mata. 

Lembro a cena final do “Augusto Matraga” de Guimarães Rosa, depois que Matraga e Joãozinho Bem-Bem se esfaqueiam mortalmente um ao outro. Caído, agonizando, Matraga vê a multidão a gritar e debochar do jagunço que estertora ao lado, aí ergue-se e diz: 

“Pára com essa matinada, cambada de gente herege!... E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito respeito e em chão sagrado, que esse aí é meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!”

É um aspecto curioso da mentalidade masculina essa admiração guerreira pelo inimigo cuja nobreza impõe respeito. 

A luta de morte não é sempre um esforço para exterminar algo maligno, algo que desperta apenas medo e asco. A luta às vezes se dá por causa de forças muito acima dos dois lutadores, que estão ali, naquele momento, apenas cumprindo um ritual cósmico. 

Eles são os dois pontos através dos quais dois mundos entram em choque; o fato de um deles precisar ser destruído nesse choque não exclui o respeito, a admiração recíproca, como num combate sem quartel entre dois samurais.

São tantas as interpretações sobre O velho e o mar que me arrisco a somar mais uma. 

O velho é um Escritor. O menino é um Leitor. O peixe é um Livro. O mar é o lugar onde os escritores vão buscar os livros, seja este lugar o que fôr. 

Depois de toda aquela luta, o que o Escritor consegue trazer ao mundo parece-lhe um monte de despojos, de destroços sem sentido. Os outros o elogiam, mas ele sabe que foi o único a ter a visão do Livro-como-era-para-ter-sido. Ele viu um clarão, tentou transmitir seu reflexo. O que trouxe é pouco; mas pelo menos ele teve o privilégio de ver o Livro como o Livro era antes de ser trazido à terra.






sexta-feira, 7 de março de 2008

0078) O país de Dorian Gray (21.6.2003)




(Ursula K. Le Guin)
Todo mundo já parou um dia para imaginar como seria o país ideal. A escritora norte-americana Ursula K. LeGuin parou também, e imaginou num conto uma cidade utópica chamada Omelas. 

Ela descreve uma festa popular nessa cidade: jovens e anciãos desfilando com guirlandas de flores, as ruas ensolaradas, as crianças sorrindo, a música ressoando no ar. Diz ela: 

"Não conheço as leis e as regras dessa sociedade, mas desconfio que eram poucas. Assim como eram capazes de viver sem a monarquia e a escravidão, eles conseguiam viver sem bolsa de valores, sem publicidade, sem polícia secreta e sem bomba atômica.” 

Nessa cidade, “a felicidade se baseava na percepção equilibrada do que é necessário, do que não é necessário nem destrutivo, e do que é destrutivo.”

Ao cabo de algumas páginas, depois de descrever belezas e mais belezas, ela pede licença para revelar um último aspecto de Omelas. 

No porão de um dos edifícios da cidade há um quartinho, sem janelas, e com uma porta que vive trancada. Dentro desse quarto há uma criança, que não se sabe ao certo se é menino ou menina. Tem dez anos, mas aparenta ter no máximo seis. A criança está suja, doente, e mal sabe falar; consegue apenas dizer às vezes, na direção da porta: “Por favor, deixe eu sair. Eu vou me comportar bem.” 

Uma vez por dia a porta se abre, e alguém traz um prato de comida e um jarro com água. E a porta se fecha novamente.

Todas as pessoas em Omelas sabem que a criança existe. Este fato é explicado a todas as outras crianças quando elas chegam aos oito ou dez anos; algumas são levadas até lá para vê-la. E aprendem que a felicidade em Omelas tem um preço. Se um dia a criança fôr libertada, medicada, e alimentada, toda a prosperidade de Omelas irá desmoronar. 

Valeria a pena sacrificar a felicidade de milhares de pessoas para agradar a uma só? Seria justo? Não se sabe, mas a verdade é que de vez em quando há pessoas que saem caminhando até os subúrbios e vão embora. Para onde? Não sabem: só sabem que estão indo embora de Omelas.

O conto intitula-se “Aqueles que vão embora de Omelas” (“The ones who walk away from Omelas”), e ganhou o Prêmio Hugo de Ficção Científica de 1973. É uma história de ficção científica, sim. Não tem espaçonaves nem alienígenas, mas é uma extrapolação futurista, um modelo de sociedade projetado a partir de características da nossa. 

O país de Omelas me lembra o romance de Oscar Wilde O retrato de Dorian Gray, onde um playboy da alta sociedade se mantém jovem e belo a vida inteira, enquanto um retrato seu, trancado no sótão, envelhece em seu lugar. Toda vez que elogiam minha inteligência ou meu talento eu fico pensando que em algum lugar por aí existe um cara com meu rosto e meu nome, trancado num porão, a quem nunca foi dado o direito de aprender a ler, de trabalhar, de pensar por conta própria e de ser gente. Não é que Omelas seja um mau lugar, mas acaba dando uma vontade danada de ir embora.