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sexta-feira, 8 de junho de 2018

4355) O amor, o cinema e a revolução (8.6.2018)




Nem tudo que diz respeito aos anos 1960 pode ser carimbado com a fórmula “sexo, drogas e rock-and-roll”.

O livro de memórias de Anne Wiazemsky, Um Ano Depois (Ed. Todavia, 2018, trad. Julia de Rosa Simões) poderia se chamar O amor, o cinema e a revolução, porque era mais ou menos este o lema em vigor na época que ela viveu tão de perto e descreve tão bem.

Anne foi casada com Jean-Luc Godard e aparece nos seus filmes A Chinesa, Week End, One Plus One, além do Teorema (1968) de Pier Paolo Pasolini e A Grande Testemunha (1966) de Robert Bresson. Era uma atriz discreta, mas muito fotogênica, e correspondia (tal como Anna Karina, a esposa-musa anterior de Godard) ao tipo mediano das garotas daquele tempo.

Alguém dirá que nem todas as garotas daquele tempo eram tão bonitas; mas atrizes como estas duas reproduzem modos de andar, de vestir, de sentar, de discutir, de dançar, de cantar, nos quais rapazes e moças se reconheciam sem esforço. Essas atrizes de cinema que a gente chama de “musas de uma geração” nem sempre são bonitas. Elas são  um conjunto de atitudes, inflexões de voz, movimentos, olhares, que dão a sensação imediata de uma verdade de dentro para fora.

Anna Wiazemsky relata as agitações de 1968 com o olho de quem, quando deu fé, estava no centro do furacão, coitada. E ao lado de Godard, no ano crucial da vida do diretor – quando este parou de fazer filmes sobre garotas como ela e começou a fazer filmes de esquerdismo militante e radical. Com quase 40 anos, Godard estava se fascinando cada vez mais com o ardor combativo dos jovens radicais do movimento estudantil.

Era principalmente Jean-Jock quem falava, os silêncios de Jean-Luc me surpreendiam: ficar calado na presença de outra pessoa não era um dos seus hábitos, ele sempre precisava ter a última palavra. (p. 21)

Há um episódio pitoresco logo no início, quando Godard é convidado para dirigir o filme O Assassinato de Trotsky tendo John Lennon no papel-título. Ele e Anne viajam a Londres, se reúnem com os Beatles na Apple, mas os “santos” de Godard e Lennon não se harmonizam em momento algum (o que não é de admirar), e a reunião termina com Paul McCartney convidando Anne para tomar chá embaixo da mesa.

O projeto não foi à frente; mas como Godard já estava em Londres, com um pré-contrato assinado, acabou aceitando dirigir os Rolling Stones em One Plus One, que não passa de uma longa maratona de ensaios da canção “Sympathy for the Devil”, intercalado com discursos marxistas-leninistas.

No pinga-fogo das passeatas estudantis, com as ruas de Paris sendo desparalelepipedadas pelos estudantes para combater a polícia, a cidade parou. Diz Anne: “em pouco tempo os estoques de rádios de pilha pela primeira vez se esgotaram no país”. Godard vai para as passeatas cheio de perplexidade e entusiasmo, tropeça, quebra os óculos...

O bom de livros assim é trazer esses olimpianos (como os chamava Edgar Morin) ao plano banal e nada heróico de nós mesmos. É romântico, mas também dá um certo consolo financeiro, saber que de manhã Godard levava para Anne uma bandeja com “uma xícara de Nescafé e um pão com manteiga”. E lendo relatos do dia a dia de pessoas tão famosas (aparecem Bernardo Bertolucci, Gilles Deleuze, Pier Paolo Pasolini, etc.) a gente vê como o pessoal daquele tempo vivia modestamente. Comparados a eles, nós brasileiros de hoje somos uns xeiques sauditas.

Maio 1968 ficou de certa forma como um modelo de estudo para manifestações de rua por muito tempo. Não há como não reconhecer Junho 2013 em trechos como:

Às vezes, exaustos, parávamos num café para descansar ou beber alguma coisa. Todos os cafés estavam abertos, nenhuma porta fechada. Os comerciantes e moradores do bairro se diziam indignados com a violência policial e não deixavam de ajudar os jovens que buscavam abrigo. (p. 35)

Os confrontos tinham começado sem que ninguém soubesse por quem. Os estudantes acusavam as forças de segurança, que por sua vez acusavam os estudantes. Pela primeira vez, ouvimos falar em “elementos incontroláveis” que teriam se infiltrado na passeata para semear a discórdia. Estudantes entrevistados falavam em “provocadores manipulados pela polícia”. (p. 44)

Somente alguns estudantes, que ele julgava pertenceram à UNEF e que portavam megafones, pediam sem cessar: “Voltem para casa, não se deixem manipular... A manifestação de luto terminou há muito tempo... Voltem para suas casas.” (...)  Um grupo de uma centena de jovens, rostos cobertos por lenços, muitas vezes com capacetes e armados de coquetéis Molotov, lhe parecia particularmente perigoso porque estava visivelmente determinado a lutar. (p. 116)


Não é um livro de análises, é um livro de lembranças e comentários. Engana-se quem pensa que Jean-Luc Godard era diferente de qualquer um de nós no que diz respeito à comédia conjugal. Anne Wiazemsky tinha 21 anos então, Jean-Luc tinha 37 e além do mais era o que o pessoal chama “uma lenda viva”, “uma pessoa pública, um oráculo, uma estrela, uma espécie de deus” (p. 114)

O que não o impedia de, no dia seguinte a um bate-boca feroz com Anne, pedir desculpas nestes termos: “Lamento o que disse antes, falei sem pensar, e, se você acreditou, é uma imbecil.

Um livro de memórias é sempre um livro onde o autor demonstra que quem tinha razão era ele. O livro de Anne Wiazemsky é uma série de flashes breves na vida de uma garota que, por caminhos de família e de profissão, estava no epicentro da crise ideológica de sua época. Muita tinta filosófica e política já correu sobre Maio 1968, mas a tinta de Anne, se não traz nenhum “raio ordenador” sobre aquela balbúrdia, relata com clareza o que era estar no meio dela.


(A Grande Testemunha)




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

3620) A Revolução das Umbrelas (3.10.2014)




São guerras festivas: uma revolução dos cravos, uma revolução das umbrelas. Uma cidade tomada por um milhão de guarda-chuvas abertos, enfrentando os policiais com seus cães e seus escudos.  A revolução é uma espécie de rito sazonal que dá a volta ao mundo de tantos em tantos meses.  Em Hong-Kong, os jovens querem votar.  Para eles, como para qualquer bando de idiotas que fique, digamos, uns vinte anos sem votar, eleger um Presidente é uma conquista.  Se contentarão com essa duvidosa honra, quando a conseguirem, ou terão coragem de encarar todo este resto?



Um poeta desfolha a bandeira, uma moça desabrocha a sombrinha, e o fato de ser jovem e estar num epicentro qualquer a eleva nos ares como uma Mary Poppins interpretada por Michelle Yeoh.  Era uma hongkonguiana qualquer, uma menina filha dum pessoal e que estudava num colégio, até então uma garota como qualquer outra.  De repente podia votar.  De repente podia escolher em quem queria votar.  De repente, um belo dia, podia estar pedindo aos outros que votassem nela.



O fato de poder quantificar vontades individuais (em eleições, referendos, etc.) é útil principalmente num mundo em que temos de um lado cidadãos sem noção dos seus mínimos direitos diante dos demais, e do outro lado cidadãos sem noção dos seus mínimos deveres diante da sociedade.  Tem gente que acha que está lá para ser capacho mesmo, e a vida não poderia jamais ter sido outra coisa.  E tem gente que, como se diz por aí, “é só venha-a-nós, e ao vosso reino nada.”



Outra faceta disso é que o voto do cientista político vale tanto quanto o do analfabeto, o do governador tanto quanto o do mendigo, embora longe da urna tudo volte à proporção anterior. Além do mais, as eleições são uma maneira de provocar uma febre artificial no povo, estudar suas reações, programar-se para montá-lo.  O povo é um cavalo cheio de venetas, aguenta mil coisas mas de vez em quando manda um pro espaço.  Quem ambiciona montá-lo tem que estudar seus corcoveios – e suas preferências gastronômicas.



Eu não acho que o sistema do voto seja garantia de democracia.  Poder votar é poder opinar, mas um voto no meio de dezenas de milhões perde peso, quase desaparece.  Deve ser emocionante viver numa cidadezinha tão pequena que uma eleição de vez em quando seja decidida por um voto, como um jogo de basquete por um ponto.


E as umbrelas revolucham, revolucham sem parar.  A chuva pode ser lacrimogênea, o granizo de granito, mas as valorosas umbrelas estão ali, defendendo uns hongkonguianos quaisquer não sabemos quem são, mas não duvido que ali no meio também estejam Guy Fawkes, Gene Kelly, Darth Vader, Indiana Jones, Che Guevara, Homem Aranha, Hulk.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

3434) Manifestações (28.2.2014)



1) Vamos torcer por um Brasil em que a gente tenha projetos-de-futuro diferentes e consiga se tratar com respeito e negociar com sensatez. 2) Os partidos de esquerda costumam sempre se fracionar à esquerda, porque quando crescem não conseguem mais conviver com a própria esquerda.  3) É engraçado você endeusar um vulto histórico, desencantar-se com ele, mas depois sair à rua para defender a estátua dele diante de um bando de milicianos subvencionados. 4) Uma noite de horror e fogueiras sem controle, uma noite de tropeções e queixo arrebentado, uma noite de ácido nos olhos mas de vergonha na cara. 

5) Se a rua é de todos, paciência, é deles também (identificar e demolir a contradição nesta afirmativa; depois recuperar a formulação original, relativizando-a mediante uma superpremissa de natureza ética).  6) Será possível produzir um estado policial meramente através do estímulo a protestos violentos, insuflando-os de fora, de modo a fazer aumentarem, por assim dizer, os anticorpos de combate?  7) Há uma enorme tensão na voz das pessoas que não sabem direito se ficam a favor disto ou daquilo, e uma sede de vingança cega no seu discurso quando finalmente encontram uma posição. 8) Uma multidão é como uma saca de feijão, não há dois indivíduos iguais. É mero preconceito seu achar que um caroço de feijão é igual a outro.

9) Quem nasceu primeiro, o ovo ou a serpente? 10)  As redes sociais funcionam como uma droga no corpo da sociedade, acelerando as sinapses, turbinando os estímulos, e periga a sociedade ficar mais viciada nelas do que os próprios indivíduos.  11) O processo de acanalhamento da política é essencial para manter fora dela todos os que não são canalhas e não gostam de conviver com canalhas, e desse modo os canalhas não precisam proibir a presença destes, pois um dia eles mesmos se afastarão. 12) Liberdade de expressão é o diálogo entre um estudante indócil e um capadócio de cassetete e capacete.

13) O principal objetivo do terrorismo é produzir um anti-terrorismo duzentas vezes maior. 14) Quebrar caixas eletrônicos para agredir os Bancos é como queimar santinhos para dar prejuízo ao Vaticano. 15) E se alguém encostasse o Brasil na parede e pedisse pra ver os documentos?  16) O fascismo não chega de repente como a guilhotina, chega volta-a-volta como o garrote vil.  17) No jornalismo ninguém tem mais credibilidade do que as fontes que cita, e em política ninguém é mais honesto do que os aliados que arregimenta. 18) O diabo é que algum dia isto aqui vai ser lido por um indivíduo fardado que vai acender um cigarro, reler tudo, continuar em dúvida, e depois dizer: “Pelo sim pelo não, traz ele aqui.”


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

3407) Lima Barreto: o Motim (28.1.2014)



“O cocheiro parou. Os passageiros saltaram. Num momento o bonde estava cercado por um grande magote de populares, à frente do qual, se movia um bando multicor de moleques, espécie de poeira humana que os motins levantam alto e dão heroicidade.  Num ápice, o veículo foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu. Continuei a pé. Pelo caminho a mesma atmosfera de terror e expectativa. Uma força de cavalaria de polícia, de sabre desembainhado, corria em direção ao bonde incendiado. Logo que ela se afastou um pouco, de um grupo partiu uma tremenda assuada. Os assobios eram estridentes e longos; havia muito da força e da fraqueza do populacho naquela ingênua arma. E por todo o caminho, este cenário se repetia.”

Não são as manifestações de 2013 no Rio e nas capitais; é o Rio de Janeiro, sim, mas o de um século atrás, o Rio da Revolta da Vacina de 1904, que Lima Barreto transformou na “Revolta do Calçado” no romance de 1909 Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Existe, na sucessão das gerações humanas, uma certa recorrência de padrões, uma certa semelhança de procedimentos, talvez porque só quando estamos envolvidos numa ação intensamente coletiva (um jogo de futebol, um show de rock, uma manifestação de rua) sejamos capazes de, sintonizados com a multidão, acessar uma memória coletiva que existe em todos e só emerge numa multidão de verdade.

“Da sacada do jornal,” diz Isaías Caminha, “eu pude ver os amotinados.” (Não, ele não fará menção à máscara de Guy Fawkes nem aos Black Blocs. Mas vejam que olho futurista o do escritor.)  “Havia a poeira de garotos e moleques; havia o vagabundo, o desordeiro profissional, o pequeno burguês, empregado, caixeiro e estudante; havia emissários de políticos descontentes. Todos se misturavam, afrontavam as balas, unidos pela mesma irritação e pelo mesmo ódio à polícia, onde uns viam o seu inimigo natural e outros, o Estado, que não dava a felicidade, a riqueza e a abundância.”

E ele explica: “O motim não tem fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem ligação alguma com o que tiroteia acolá. São independentes, não há um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência, e moralidade. Começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde e alguém lembra: vamos queimá-lo. Os outros não refletem, nada objetam e correm a incendiar o bonde.”  Em 1909 não havia redes sociais, celulares, TV ao vivo, Rádio AM.  A tecnologia está sendo absorvida pelo modo-de-ser da multidão, e não o contrário.