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segunda-feira, 6 de abril de 2015

3781) "Guardiões da Galáxia" (7.4.2015)



Advertência necessária: gosto de quadrinhos mas não distingo sequer entre a Marvel e a DC Comics, que no mundo das HQs são como a Microsoft e a Apple. 

Não presto atenção às guerras editoriais e corporativas, e quando ouço as palavras “Batman”, “Superman”, “Homem Aranha”, o que me vem à mente não é a fisionomia atual do herói, é uma compostagem de tudo que li e vi sobre eles nos últimos cinquenta anos.

Guardiões da Galáxia (2014) de James Gunn é um filme que resulta disso, de uma compostagem de tipos e situações conhecidos, rearranjados como os pedregulhos de um calidoscópio, de forma a produzir uma falsa impressão de ordem. 

A ficção científica é nesse universo apenas um eco distante, uma espécie de ruído de fundo. O cinema de heróis é um almoxarifado cenográfico onde se vão buscar personagens já prontos, dos quais basta trocar o nome, o ator e a roupa, e aí estão de novo Han Solo e Chewbacca e Indiana Jones e Hulk e outros, sem necessidade de pagar direitos. 

É um filme de ação interplanetária para o público infanto-juvenil – qualquer filme que tenha um guaxinim-falante pilotando uma espaçonave é infanto-juvenil, e ponto final. Sua relação com a FC é a mesma de certas histórias de Carl Barks estreladas pelo Pato Donald e seus sobrinhos.

Assistir esses filmes de ação ininterrupta (que eu, pelo menos, assisto com prazer) é como assistir as “Videocassetadas do Faustão”: ficamos olhando porque a fórmula nos garante que de dez em dez segundos alguma coisa movimentada vai acontecer. Essa promessa é cumprida em Guardiões da Galáxia, que é uma mistura de gincana, trem-fantasma, desfile no sambódromo, Keystone Cops e (como se tornou obrigatório na FC pós-George Lucas) duelos de aviõezinhos da I Guerra Mundial.

Entender a história não é possível, nem necessário, porque todas essas histórias giram em torno de um objeto fácil de reconhecer (neste caso “o Orbe”, uma esfera de metal com propriedades borgianas) que pode ser tomado, furtado, escondido, roubado, prestidigitado de mil maneiras. (Queria ver um filme desses cujo McGuffin fosse do tamanho de uma pirâmide.) 

É sempre arriscado emitir opiniões desdenhosas sobre franquias que têm fãs, porque todo fã é um talibãzinho em defesa dos produtos que adquire. Na verdade não sou fã de ninguém, sou fã das mitologias do nosso tempo, que botam no bolso as mitologias gregas ou nórdicas, pelo menos nos quesitos som, fúria e valores-de-produção. Assim como os gregos criaram o Monte Olimpo à sua imagem e semelhança, criamos nós Gotham City, Metropolis e essas galáxias tão parecidas com o mundo corporativo, manipulativo, cruel e bem assalariado que as imaginou.




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

3421) O destino do McGuffin (13.2.2014)



 Estive fazendo uma pequena lista dos finais clássicos para história de aventura (inclusive SF, policial, etc.), onde está em jogo um McGuffin qualquer – uma fórmula secreta, código criptográfico, dinheiro roubado, uma obra de arte rara, etc..  Subentende-se que o herói e um ou mais grupos de bandidos disputam para ver quem fica com o objeto. (“McGuffin” é o termo criado por Alfred Hitchcock para designar esses objetos misteriosos, que têm pouco interesse em si mesmos, mas são alvo de uma disputa de vida-ou-morte que movimenta a narrativa. Um McGuffin clássico: O Falcão Maltês.

Um final típico: o herói fica com o objeto, e o entrega às autoridades (no caso de um McGuffin de interesse nacional).  Ou então: o herói fica com o objeto, e o entrega a uma pessoa que tinha direitos sobre ele (a família do falecido dono, etc.).  Estes são dois happy-ends convencionais.

Uma terceira versão seria: o herói ilude tanto os bandidos quanto as autoridades, e fica com o objeto para si.   Este é um final feliz típico de heróis fora-da-lei: Arsène Lupin (de Maurice Leblanc), O Santo (de Leslie Charteris), etc.  Outra variante: Um dos bandidos apossa-se do objeto, tenta fugir, e é destruído junto com ele.  Usado geralmente como um final moralista, “o-castigo-da-ambição”. Também uma maneira prudente de eliminar um McGuffin (em histórias de FC) que, continuando a existir, traria enormes impasses à verossimilhança da história.

Mais uma: O bandido apossa-se do objeto, mas nesse instante percebe que o objeto não era nada do que se imaginava: era algo maligno, ou com sistema-de-proteção, que destrói quem violar seu segredo (os espíritos que saem da Arca, em Caçadores da Arca Perdida).  Um final clássico e muitas vezes realizado com elegância dramática é aquele onde, na luta para ficar com o objeto, ele escapa das mãos de todos e é destruído ou fica inacessível (o dinheiro espalhado na piscina em Gangsters de Casaca, o ouro espalhado no meio da rua em 7 Homens de Ouro).


Variantes meio catastróficas são aquelas onde alguém (o herói ou bandido) ao se apoderar do objeto percebe que ele não vale mais nada (a fórmula está ilegível, o dinheiro é obsoleto e sem valor, o conteúdo do cofre fora esvaziado há séculos, etc.), ou então casos clássicos em que o bandido apossa-se do objeto e, ao perceber que vai ser alcançado pelo herói, o destrói (“Se não for meu, não será de ninguém!”): Conan Doyle, O Signo dos Quatro.  O McGuffin, conforme teorizado por Hitchcock, é aquele elemento essencial à história, sem o qual a história não aconteceria, mas a história nunca é sobre ele, e sim sobre as pessoas que acreditam nele.