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sábado, 28 de outubro de 2017

4282) "O Ovo da Serpente" (28.10.2017)




Numa cena deste filme, Manuela (Liv Ullmann) está em crise emocional após o suicídio do marido, e vai procurar um padre católico (James Whitmore) para se aconselhar. O padre está atrasado para um compromisso e, de início, a repele e a trata com alguma rudeza. Depois se arrepende. Pede a ela que se ajoelhe no chão, junto com ele. E diz:

– Nós vivemos tão longe de Deus que ele não ouve as nossas preces. Por isso, temos que pedir uns aos outros o perdão que esse Deus distante não pode nos conceder. – Ele pousa a mão na cabeça dela. – Eu perdoo qualquer culpa que você possa ter tido na morte de seu marido. – E depois de uma pausa: – E lhe peço perdão pela minha apatia, minha indiferença diante do seu problema. Você me perdoa?

Ela põe a mão sobre a cabeça dele e diz:

– Sim, eu o perdoo.

Ele fica de pé às pressas e diz:

– Agora vamos, estou atrasado, e meu superior vai me repreender se eu me atrasar ainda mais.

E os dois saem da sacristia, quase correndo.

No cinema de Ingmar Bergman, tão imbuído daquela religiosidade angustiada e indagativa, essa cena tem mais força ainda porque O Ovo da Serpente (1977) é ambientado na Berlim de 1923, com a espantosa crise econômica, o miserê social, e o terror que era a vida das pessoas comuns na Alemanha estraçalhada pela I Guerra Mundial e vampirizada pelo Pacto de Versalhes.

É uma das produções mais caras e mais internacionais da obra de Ingmar Bergman, e (dizem) um dos seus piores filmes. São os dois aspectos menos relevantes a se discutir sobre ele.

Berlim, 1923. Abel Rosenberg (David Carradine) mora com o irmão (os dois são acrobatas de circo) numa pensão barata. Chega em casa uma noite e vê que o irmão se suicidou. Acaba indo morar com a viúva dele, Manuela, e tendo um caso com ela. Os dois conhecem um médico alemão meio rico, Vergerus, meio metido a dono do mundo, que simpatiza com Abel e tem um trelelê clandestino com a moça.

Vergerus consegue para Abel um emprego burocrático onde ele começa a ter acesso a informações sobre experiências científicas secretas que usam seres humanos como cobaias. Arranja também um lugar para o casal morar, mas daí em diante eles brigam o tempo todo, no prédio há um motor que zune dia e noite, e Abel, que já é meio alcoólico, começa a ter acessos de fúria, que contagiam Manuela.

O filme é uma mistura de “Big Brother” com Auschwitz. É o filme mais dark de Bergman, onde a angústia existencial é substituída pela brutalidade nazista e pela fome pura e simples. Na Alemanha de 1923, as pessoas vivem bêbadas, porque a bebida é barata e a comida não existe.  Há uma cena em que pessoas carneiam um cavalo morto em plena rua, no centro da cidade.



Outra influência do filme é o Cabaret de Bob Fosse, ambientado no mesmo espaço e tempo: Bergman mostra nos cabarés pobretões cenas que lembram o de Fosse: um mestre-de-cerimônias que parece calcado no de Joel Grey, números de ménage à trois grotesco com travestis. No fim, os nazistas invadem o cabaré, espancam o dono e ateiam fogo a tudo.

Abel descobre que há câmeras ocultas no apartamento, e ele e Manuela estavam sendo filmados por ordens de Vergerus. Estavam também aspirando um gás que os fazia brigar o tempo todo. Uma espécie de Big Brother à revelia dos participantes. Um prelúdio das experiências que alguns anos depois cientistas nazistas como Mengele se sentiriam à vontade para realizar nos campos de extermínio.

As experiências do filme envolvem centenas de cobaias humanas, em recintos fechados e monitorados. São uma gota no oceano. Quase um século depois, elas podem ser realizadas numa escala inimaginavelmente maior, com centenas de milhões de cobaias. Ao invés de um gás desorientador dos sentidos, algoritmos e memes cuidadosamente concebidos e viralizados.

Um mero fato (um acidente, um crime, uma crise política, uma frase de celebridade) pode ser manipulado memeticamente e se espalhar  como uma febre instantânea, produzindo milhões de respostas em ondas sucessivas que se espalham por um país inteiro ao longo de poucos dias.

Essas respostas são monitoradas, tabuladas, reforçadas aqui, neutralizadas acolá, numa experimentação em que milhares de monitores humanos e de controles robóticos filtram e classificam as reações das cobaias, indicando cada elemento capaz de extrair respostas mais rápidas, ou mais intensas, ou mais duradouras. Assim se produz o ódio, a confusão conceitual, a paixão-ou-repulsa via reflexo condicionado.

Não é necessário para isto que as cobaias estejam trancadas em kafkeanos labirintos subterrâneos. O experimento é um processo cotidiano, sem começo nem fim, um bombardeio eletrônico permanente, permanentemente aferido e recebendo correções de rumo. Permitindo prever como reagirão dezenas de milhões de pessoas quando receberem os tipos de estímulo a que foram acostumadas.

Através da membrana translúcida e delicada, pulsa o corpo da serpente por nascer.












terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

3113) "Literatura Nazista" (19.2.2013)





Não sei se foi Jorge Luís Borges quem inventou a biografia literária como gênero da ficção (Pierre Menard, Herbert Quain, etc.), mas o chileno Roberto Bolaño produziu um dos mais saborosos e intrigantes títulos desse gênero: A Literatura Nazista nas Américas (1996). Não sei se já saiu no Brasil. 

[ Saiu agora, pela Companhia das Letras, em tradução de Rosa Freire d'Aguiar. ]

É uma coletânea de biografias curtas de 30 escritores de variadas tendências direitistas. Os capítulos variam entre duas e trinta páginas. A imaginação de Bolaño é notável, mas mais notável ainda é seu olho jornalístico: os personagens que ele descreve são caricaturas ou esboços descritivos de escritores em que a gente esbarra em qualquer esquina.

Há por exemplo os irmãos Ítalo e Argentino Schiaffino, chefes da torcida organizada do Boca Juniors, envolvidos com gangsters, celebrantes da violência física e da briga de rua, e colocando a culpa de todos os problemas do país na burguesia judaica e nos intelectuais comunistas. 

Há o plagiador inveterado Max Mirebalais, haitiano, cuja obra é uma gigantesca antologia de autores obscuros cujos poemas ele copia e assina. 

Há a socialite argentina Luz Mendiluce Thompson, cuja maior honra foi ter posado nos braços de Hitler quando era bebê e sua mãe visitou a Alemanha. 

Há o norte-americano Zach Sodenstern, autor de romances de ficção científica sobre o super-herói Gunther O’Donnell, que é acompanhado por seu cão, “um pastor alemão mutante, com poderes telepáticos e tendências nazistas”. 

Há o poeta Rory Long, que cultiva a poesia falada e funda a Igreja Carismática dos Cristãos Californianos. 

Há a poetisa mexicana Irma Carrasco, que afirmava estar “apaixonada por Deus, pela Vida, e pela Nova Aurora Mexicana, à qual se referia indiscriminadamente como ‘ressurreição’, ‘despertar’, ‘sonho’, ‘apaixonar-se’, ‘perdão’ e ‘casamento’”.

Deixo para depois o comentário sobre os dois brasileiros que entram no catálogo imaginário de Bolaño. Os autores que ele inventa (ou que recompõe das memórias de suas andanças por América Latina e Europa) não são todos propriamente nazistas. São aquela mistura informe e desorientada (que aliás não é privilégio da Direita) de vaidade, tacanhez espiritual, leituras desordenadas e cheias de lacunas, alpinismo social, idealismo egoísta, fervor missionário. 

Seus “nazistas” na verdade não passam desses indivíduos que ouvem dez galos tecendo a manhã em diferentes pontos cardeais e querem descobrir todos ao mesmo tempo. 

O único personagem realmente ameaçador é o último, Ramírez Hoffmann, que Bolaño retomou brilhantemente, com o nome de Carlos Wieder, no romance Estrela distante, já comentado aqui nesta coluna (http://bit.ly/SgYxoE). 









terça-feira, 8 de janeiro de 2013

3077) "Estrela Distante" (8.1.2013)






Este romance curto de Roberto Bolaño (1996) saiu pela Companhia das Letras e depois (a edição que tenho) na coleção da Folha de S. Paulo de capa dura, vendida nas bancas. O autor explica, numa nota inicial, que é uma expansão do último capítulo de seu A Literatura Nazista na América, coletânea de contos sobre escritores imaginários, um exercício meio borgiano em que Bolaño imagina toda uma fauna de nazistas, fascistas e simpatizantes da direita em geral, produzindo poesia, romance e até mesmo ficção científica no continente americano. O autor dedicou-se a expandir a história daquele último personagem, transformado aqui em Carlos Wieder, tenente da força aérea chilena, torturador, serial killer, que se infiltra como espião em grupos de poesia de vanguarda.

Essas biografias fictícias são o espaço ideal para Bolaño desenvolver sua prosa, jornalística no que este termo tem de melhor. Descrições breves e vívidas, com mergulhos ocasionais e surpreendentes na subjetividade do narrador, que na maior parte do tempo está apenas reconstituindo e comparando suas próprias lembranças e as lembranças alheias. Como em Os Detetives Selvagens (http://bit.ly/WnNhCq), Bolaño monta o mosaico do personagem de fora para dentro; não temos acesso à consciência de Wieder, e na verdade pouquíssimas falas suas são reproduzidas. Vemos o monstro pelo lado de fora, pelos relatos de como ele cruzou na vida de numerosas pessoas. Se bem que o narrador de Bolaño ousa descrever (sob o pretexto de estar supondo, estar imaginando como as coisas aconteceram) até mesmo um dos mais arrepiantes crimes do chileno.

Wieder é um criminoso que incomoda até os fascistas. O capítulo 6 narra o episódio em que ele cai em desgraça dentro do regime Pinochet, pela sua ousadia, crueldade e morbidez desafiadora. Lembra o nazista culto do conto “Deutsches Requiem” de Borges; lembra por outro lado o personagem de Dirk Bogarde no filme O Porteiro da Noite de Liliana Cavani. Tem a serenidade dos psicopatas movidos a certeza: “dominante, seguro, os olhos como que separados do corpo, como se olhassem a partir de outro planeta”. O narrador do livro (um possível Bolaño que jamais diz o próprio nome) cita um oficial de Pinochet para quem Wieder “não fez mais do que aquilo que todos os chilenos tiveram de fazer, deveriam ter feito ou quiseram mas não puderam fazer”. Na terrível reta final, o narrador diz: “Esta é a minha última transmissão a partir do planeta dos monstros. Não mergulharei nunca mais no mar de merda da literatura. De agora em diante, escreverei meus poemas com humildade e trabalharei para não morrer de fome e não tentarei publicar nada”.



segunda-feira, 14 de junho de 2010

2148) “Bastardos Inglórios” (26.1.2010)



O novo filme de Tarantino é, segundo descrição dele mesmo, um bang-bang italiano ambientado na Europa ocupada pelos nazistas. Modéstia de QT, que mistura meia dúzia de gêneros (como sempre) num coquetel que tem dois dedos disso, uma pitada daquilo, uma colher não-sei-do-quê. Em grande parte, principalmente, na segunda metade, o filme pertence àquele sub-gênero que linka guerra e espionagem: agentes infiltrados nas linhas inimigas tentando fazer-se passar pelos próprios inimigos. Quem não já viu 50 filmes assim, principalmente envolvendo nazistas? A cena do porão da taverna é um suspense exemplar, não o suspense intelectual e distanciado de Hitchcock, mas o suspense “tudo-agora-mesmo-pode-estar-por-um-segundo” de Sergio Leone ou de Peckinpah, onde as mortes são reais. Por outro lado, a cena da recepção antes da exibição do filme nazista, no final, com os Bastardos disfarçados de italianos, é uma mistura de Mel Brooks com Brian de Palma – tudo vai ficando ligeiramente over, distanciado, delirante, metalinguístico.

Tarantino é violento porque a gente sente que uma cena brutal, para ele, é como um gol. Se não tiver de vez em quando o filme acaba 0x0. Mas violência gráfica, explícita mesmo, acima do padrão, tem apenas na cena da ponte (os escalpos, a execução do nazista com bastão de beisebol), na cena de Brad Pitt interrogando a alemã ferida na maca, e na derradeira cena de todas (a marca de Caim). O resto são mortes a tiros, rajadas de metralhadoras, etc., o feijão-com-arroz de qualquer filme de guerra dos últimos 40 anos. Brad Pitt, que começa o filme alardeando um sadismo de arrepiar, durante o filme inteiro não dá um único tiro, um único murro. Afora sua habilidade com a faca, a única coisa que seu personagem mutila é o idioma de Walt Whitman.

No coquetel de gêneros que é o filme, não posso deixar de lembrar a todos que se trata, acima de tudo (embora isto só fique claro no final), de um filme de ficção científica, certamente o primeiro de Tarantino. Como sabem os aficionados, um dos sub-gêneros mais importantes da FC é a “História Alternativa”, em que a linha do Tempo que conhecemos é rompida e a História vira a esquina numa direção diferente. Grandes clássicos da FC são baseados em premissas desse tipo: e se o Sul tivesse ganho a Guerra da Secessão? Ver Bring the Jubilee, de Ward Moore. E se a Peste Negra, no século 14, tivesse exterminado 99% da humanidade? Ver The Years of Rice and Salt, de Kim Stanley Robinson. E se Hitler, derrotado na política, tivesse migrado para os EUA e virado ilustrador de pulp fiction? Ver O Sonho de Ferro de Norman Spinrad. E se os holandeses não tivessem sido expulsos de Pernambuco, e o Quilombo de Palmares tivesse se tornado uma nação independente? Ver O Vampiro de Nova Holanda, de Gerson Lodi-Ribeiro. O final apocalíptico e orgástico do filme de Tarantino cria um novo futuro, e o arremessa para essa galeria de clássicos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

1425) Hitler e minha mãe (7.10.2007)




Herdei de meu pai a poesia e de minha mãe a prosa. Esta é uma simplificação excessiva de uma situação mais complexa, pois o fato é que era Dona Cleuza quem me cantava folhetos de cordel e romances orais, e Seu Nilo quando estava na veia era um contador de histórias que não devia a nenhum outro. 

Mas não há dúvida de que foi ele quem me aplicou Bilac, Augusto, Castro Alves, até poetas hoje obscuros como Guerra Junqueiro ou Luís Dantas Quesado.

Já minha mãe costumava contar histórias sobre a época da II Guerra Mundial e seus reflexos no Brasil e em Campina. O monte de ferro-velho acumulado pelas autoridades para ajudar no esforço de guerra, ali na confluência entre as ruas João Pessoa e João Suassuna, em frente ao antigo Banco Industrial. Os blecautes que havia em Olinda (onde ela e meu pai moraram depois de casar), as luzes todas apagadas para não atrair a aviação inimiga (nunca entendi por que diabos Hitler iria querer bombardear Olinda). 

E havia uma historieta, provavelmente apócrifa, mas que para mim faz parte das lendas urbanas que um tempo de guerra é mais propício a criar do que um tempo de paz.

Hitler costumava aprisionar num país invadido, a Polônia por exemplo, centenas de crianças, e as trancafiava num imenso galpão. Ali os meninos e meninas eram deixados durante dias e noites sem comer, sem nada. 

Quando o desespero estava grande, entrava um oficial nazista de megafone em punho e gritava: “Vocês estão com fome?!” Havia uma gritaria que sim. E ele tornava: “Pois peçam comida a Deus! Vamos, gritem! Gritem bem alto para que ele ouça!” E saía. Os garotos começavam o maior berreiro: “Deus, me dê comida! Deus, me dê um copo dágua!”

Por motivos teológicos que não tenho espaço para analisar aqui, Deus não se manifestava, e um dia depois a fome tinha recrudescido ainda mais, devido à reversão da expectativa. Era o momento em que o oficial voltava. Perguntava se ainda tinham fome, recebia a resposta ululante que era de se esperar, e aconselhava: “Pois peçam comida a Hitler”. E ia embora. 

Os meninos, que a esta altura não tinham mais nada a perder, começavam o coro: “Hitler, me dê comida! Hitler, me dê água!”

E aí (ela gesticulava, encorpava a voz, abria os braços para sugerir uma encenação digna de Spielberg) abriam-se enormes clarabóias no teto e de lá desciam, mediante correntes e engrenagens, vastas plataformas de madeira cobertas com terrinas fumegantes, bandejas de pastéis e sanduíches, receptáculos cheios de macarrão com molho, carnes suculentas, jarras de água, de leite e de suco, frutas em abundância, e doces, doces, muitos doces. Os garotos atiravam-se sobre aquilo, balbuciando orações e agradecimentos ao Fuhrer.

Minha mãe não era nazista, caro leitor. Ela usava isto como um conto caucionário, uma parábola acauteladora. No fim da história ela aproximava o rosto, encatitava o olho, erguia no ar o indicador e sussurrava, com intensidade: “Des-con-fie!”






sábado, 19 de setembro de 2009

1272) Borges e “O Justiceiro” (11.4.2007)



Um dos contos mais atuais de Jorge Luís Borges é “Deutsches Requiem” (no livro O Aleph). Nele, o nazismo é mostrado pelo lado de dentro, pelo ponto de vista de um cara que acredita que aquele pesadelo é o futuro do mundo. Otto Dietrich Zur Linde, o narrador, vê com euforia a ascensão do nazismo e sua expansão devastadora pela Europa. No final, quando o resto do mundo se ergue contra Hitler e o esmaga por todos os lados, ele ainda consegue ver nisto uma vitória. Suas palavras finais são: “Ameaça o mundo agora uma época implacável. Nós a forjamos, nós que já somos sua vítima. Que importa que a Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, e não a servil timidez cristã. Se a vitória e a injustiça e a felicidade não são para a Alemanha, que sejam para outras nações. Que o céu exista, mesmo que nosso lugar seja o inferno”.

A monstruosidade da ideologia é reforçada, por contraste, pela beleza poética desta última frase, que encerra a mais altruísta das filosofias. Zur Linde exprime aquilo que Borges mais detestava e desprezava, mas o autor cede ao personagem sua melhor inspiração literária. Para quê? Para evitar a caricatura, mostrar que o Nazismo é uma doença mental que pode acometer a qualquer um. O nazismo veio para implantar o terror, a guerra, a loucura à mão armada. Veio para ameaçar o mundo com uma monstruosidade tão absurda e desmedida que para destruí-la, para torná-la inviável, foi preciso criar “um monstro ainda maior, e ainda mais monstro”. E o reino dos monstros começou de fato a imperar sobre a Terra.

Hitler afirmou certa vez: “Quem quiser viver é constrangido a matar. Martelo ou bigorna. Minha intenção é preparar o povo alemão para ser o martelo”. Esta frase estava (me parece óbvio) na memória de Borges quando ele compôs o fecho do seu conto. Zur Linde vai além de Hitler, pois percebe que a função do nazismo era trazer para o mundo A Lei do Martelo e da Bigorna, e para que isto acontecesse era indiferente qual dos dois a Alemanha viria a ser.

Na história em quadrinhos O Justiceiro, escrita pelo irlandês Garth Ennis, na última parte do episódio “Nascido para matar”, ambientado na Guerra do Vietnam, lemos a certa altura:

“Há uma grande Besta-Fera à solta no mundo dos homens. Ela despertou em tempos sombrios para enfrentar um terrível inimigo. Percorreu a Europa e o longínquo Pacífico, esmagando o Mal que encontrou pelo caminho. No entanto, quando foi vitoriosa, quando a perversidade da Cruz Gamada e do Sol Nascente teve fim, os guardiões da Besta-Fera julgaram por bem não devolvê-la ao seu sono. A Fera tem muitas cabeças, cada qual com um nome escrito: Lockheed, Bell, Monsanto, Dow, Grumman, Colt e muitos mais. E elas são muito famintas. Por isso, a Fera deve se alimentar... e, a cada geração, nosso país vai à guerra pra garantir seu sustento”. A Fera que nos livrou de Hitler está à solta, mas quem vai nos livrar da Fera?

quarta-feira, 11 de março de 2009

0874) Os últimos dias de Hitler (4.1.2006)


Foi um dos filmes mais notáveis de 2005, esta reconstituição dos dias finais do III Reich. Sobre a tão falada “humanização” de Hitler já me referi nesta coluna (“A volta de Hitler”, 27 de maio, “Hitler e o Barba Azul”, 28 de maio). Baseado nas memórias da secretária pessoal de Hitler e num livro do historiador Joachim Fest, este é um filme que estilisticamente poderia ter sido feito décadas atrás. Sem “modernismos”, sem efeitos de câmera ou picotes de edição, é um filme cuja narrativa convencional, quase anacrônica, tem o poder de nos transportar para a época narrada. Como linguagem de cinema, parece, sim, um filme feito no ano em que a ação transcorre. Isto certamente é proposital, e é uma das muitas qualidades do filme.

Seu tratamento do espaço dramático é notável, porque quase todo ele acontece no ambiente claustrofóbico do “bunker” onde Hitler, seus generais e algumas dezenas de pessoas mais próximas estão encurralados pelo avanço dos russos sobre Berlim. Ali, o máximo de espaço que se vê é de oito ou dez metros em qualquer direção, sendo que quando vemos um longo corredor temos uma sensação subconsciente de alívio. E, o tempo inteiro, as caixas de som do cinema, à nossa volta, reproduzem o soturno bombardeio que faz estremecer sem parar aquela mistura de necrotério e hospício. Há um belo plano das bombas fazendo balançar a água em um copo na mesa de cabeceira, e esse repisar contínuo da morte que se aproxima contamina personagens e platéia.

Bruno Ganz faz um Hitler notável, estranhamento parecido com o Jânio Quadros dos derradeiros anos, até a voz empostada, os cacoetes nervosos, “o olho rútilo e o lábio trêmulo”. Seus generais, desnorteados e contrafeitos, parecem recusar-se a acreditar que desta vez o seu chefe não tem uma solução milagrosa na manga. Pior do que constatar que “o Rei está nu” é constatar que o Führer estava louco, e o desespero de muitos deles mostra o quanto Hitler foi capaz de hipnotizá-los durante tantos anos, com seus monstruoso carisma. É o filme com mais suicídios que assisti em minha vida.

O elenco é ótimo, e espero que com o passar do tempo eu consiga esquecer o rosto de rapina e os olhos encatitados de Ulrich Matthes, que interpreta Goebbels (cuja família é o centro do mais arrepiante episódio do filme). Em Os Deuses Malditos, Visconti mostrou o lado decadentista do nazismo, as perversões sexuais, as drogas, a orgia do poder. Em Der Untergang, Olivier Hirschbiegel mostra a rebordosa, o momento em que passa o efeito da bebedeira e o sujeito se dá conta da enormidade da loucura que fez. “Ser nazista”, disse Jorge Luís Borges em “Outras Inquisições”, “é, no final das contas, uma impossibilidade mental e moral. O nazismo sofre de irrealidade, como os infernos de Erígena. É inabitável: os homens podem apenas morrer por ele, mentir por ele, matar e ensangüentar por ele. Ninguém, na solidão central de seu eu, pode desejar que triunfe”.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

0684) Hitler e o Barba Azul (28.5.2005)



Ainda sobre a questão de Adolf Hitler: liberar demais pode ser um risco, mas proibir também não resolve. Vocês já leram a história do Barba Azul? O sujeito casa com uma mocinha e leva-a para morar no seu palácio. No primeiro dia, percorre o palácio com ela, mostrando tudo: jardins, salões, centenas de quartos. A certa altura ele se detém e mostra um quarto trancado. “Você pode entrar em todos os quartos, menos neste”, diz ele; “nunca chegue perto desta porta, em hipótese alguma!”. Dias depois ele faz uma viagem, e adivinhem qual é a primeira coisa que a mocinha acaba fazendo?...

Ninguém é “Hitler”, ninguém é “Gandhi”. Satanizar ou endeusar pessoas não é a melhor maneira de ensinar História aos nossos filhos. De nada adianta parar com eles diante de um quarto do palácio que tem uma suástica pintada na porta e dizer: “Você está proibido de ver o que tem aqui dentro!” É tiro e queda, meu amigo. Da próxima vez que você sair de casa para ver o filme de Michael Moore, seu garoto vai mergulhar na oratória do pintor-de-paredes.

Existem muitos jovens por aí que recusam, por convicções morais (não por “atitude roqueira”) toda a bandalheira que rola solta no País e no mundo. Jovens que vêem toda noite o Jornal Nacional denunciando mais uma falcatrua dos figurões da República, ou mais uma brutalidade dos imperialismos armados. Para esses jovens, “O Governo” é fonte de corrupção, militarismo, arbitrariedades, torturas, violência, injustiça social. Passei uns vinte anos da minha vida pensando isso dos Governos, e ainda hoje prefiro tratá-los a uma respeitosa distância. Algo neles é contagioso.

Vocês já leram entrevistas de rapazes neo-nazistas da Alemanha, dos EUA, do Brasil? Muitos são nazistas por pura maldade: “Queremos queimar judeus, queremos matar africanos, são todos sub-gente”. Esses aí são psicopatas mesmo. Mas muitos explicam: “O cara era foda... Ele sozinho enfrentou o mundo inteiro... A Alemanha estava lá embaixo, e ele levantou o país... Agora os poderosos fazem campanha contra ele, inventaram essa história de Holocausto... Ele queria era derrubar o capitalismo americano...” E assim por diante. Ou seja: criou-se uma unanimidade tão manipulada e tão obrigatória contra Hitler que um jovem desconfiado começa a achar essa história meio estranha.

Hitler era um excêntrico, um cara de grande carisma pessoal, capaz de arrebatar outras pessoas (ministros, generais, políticos) numa espécie de delírio coletivo na base do “É claro que vai dar certo!” que não é muito distante de alguns delírios menos malignos que tivemos aqui no Brasil, e basta dar como exemplos Jânio Quadros e Fernando Collor. Hoje, vocês (dirijo-me aos caros leitores que porventura tenham votado neles) sabem quem eram. Mas na hora, parecia que finalmente o Salvador da Pátria tinha aparecido, um homem de juízo, um homem honrado. E ainda vai acontecer de novo, quanto quer de aposta?

0683) A volta de Hitler (27.5.2005)



Os 60 anos do fim da II Guerra e o lançamento de um filme sobre os últimos dias de Adolf Hitler têm trazido esta ominosa figura de volta à imprensa. Diz-se muita besteira sobre Hitler por aí, e o pior é que são besteiras bem-intencionadas. Criticaram o tal filme porque ele “humanizava” Hitler, mostrava Hitler “como uma pessoa normal”, com momentos de bom-humor, de gentileza para com os outros, etc. Esses críticos devem achar que para evitar que o Nazismo volte basta demonizar a figura de Hitler, dizer que ele comia criancinhas (como se dizia dos comunistas), que era coprófago, não escovava os dentes e tinha doenças venéreas. Ou seja: deve-se emporcalhar o máximo possível a imagem do cara, para que ninguém no futuro queira se parecer com ele.

As obras de Hitler são liberadas no Brasil? Duvido. Proíbem, por medo de contaminação. E olhe que o Brasil é uma democracia onde todos têm o livre direito à informação e a expressar suas opiniões – se bem que basta ser Deputado, como Ronaldo Caiado, para obrigar a Justiça a proibir um livro onde ele é acusado de querer esterilizar as mulheres nordestinas. (O interessante é que o Governo, por um lado, proíbe os livros de Hitler, mas dá asas aos seus seguidores, permitindo que indivíduos como o nobre Deputado que advoga essa “Solução Final” tenham um cargo eletivo e façam tais propostas)

Todo mundo tem suas curiosidades. Eu li Mein Kampf aos 19 anos, mesma idade com que li o Manifesto Comunista, bem como os Protocolos dos Sábios de Sião. Era o tempo da ditadura militar, mas todos estes livros estavam disponíveis na Biblioteca Pública de Belo Horizonte. Se a simples exposição a eles fosse garantia de contaminação eu estaria ferrado, mas não era. Li todos, lembro de muito pouca coisa, e dos três confesso que somente o de Marx parecia fazer um pouco de sentido, porque se fundava em raciocínios, não em preconceitos. De lá para cá, li dezenas de livros sobre Política: socialismo, comunismo, nazismo, fascismo, anarquismo. E de tudo só me sobrou uma conclusão: “A Direita nunca me enganou. A Esquerda, já”.

Não reivindico a reedição dos livros de Hitler; tenho mais o que fazer. Mas demonizar uma figura histórica sempre dá problemas lá na frente. Dá a Hitler um valor que nem na Guerra ele teve. Quando Hitler apareceu, ganhou simpatizantes pelo mundo porque o Império Britânico era a Grande Potência, como os EUA de hoje. Ninguém agüentava mais tanto poderio e tanta arrogância. Surge um maluco na Alemanha batendo de frente com o Império, aí muita gente aplaude, como aplaudem hoje Bin Laden por enfrentar os americanos: “Esse é o Cara!” E o cara acaba se transformando numa espécie de Antonio-Conselheiro Bizarro, pelo simples fato de estar enfrentando o Governo dos Governos. Batendo de frente com os EUA, Bin Laden (como Hitler) induz todo mundo a pensar falsamente que se trata de uma briga de Davi contra Golias – e a torcer pelo falso Davi.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0163) Buñuel e o cinema nazista (28.9.2003)




Morreu recentemente, aos 101 anos de idade, a alemã Leni Riefenstahl, cuja maior contribuição ao cinema foram os filmes O Triunfo da Vontade (1934), onde ela registra o congresso do Partido Nazista em Nuremberg, uma das mais impressionantes coreografias de massas militares na história do cinema, e Olympia (1936), documentário sobre as Olimpíadas de Berlim, aquelas que os nazistas pretendiam transformar na glorificação esportiva do atleta ariano, mas quem acabou sendo o dono da festa foi o negro americano Jesse Owens.

Riefenstahl inovou a linguagem do documentário esportivo. Seu senso visual, e seu estilo de iluminar e registrar os corpos musculosos dos atletas, fazem escola até hoje. Com a queda do nazismo, ela conseguiu se safar, alegando que nunca fôra membro do Partido, e que apenas era uma cinegrafista contratada. Bem ou mal, foi escapando, e durou mais tempo do que o III Reich que deveria durar mil anos.

A diretora foi parceira, à revelia, do espanhol Luís Buñuel, num episódio pouco conhecido da biografia deste. Durante a II Guerra, Buñuel tinha se refugiado nos Estados Unidos, à procura de emprego. Foi parar em Nova York onde conheceu a cinéfila inglesa Iris Barry, descrita pelo biógrafo buñueliano John Baxter como “uma comunista convicta, que apreciava uísques sofisticados e homens vulgares”. De 1932 a 1947, Barry foi a curadora do setor de cinema do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), e ali conseguiu vários trabalhos free-lancer para Buñuel, cujos filmes ela admirava. Foi ela também quem conseguiu hospedagem para Buñuel no apartamento do escultor Alexander Calder (o inventor dos “mobiles”), dando início a uma longa amizade entre as duas famílias.

O crescimento do nazismo, e o desinteresse do governo americano pelo cinema como arma de propaganda, fizeram Iris Barry planejar uma estratégia de choque. Ela conseguira uma cópia do negativo de O Triunfo da Vontade de Riefenstahl, juntamente com um filme sobre a invasão da Polônia, e encarregou Buñuel de preparar uma versão “melhores momentos”. Buñuel fêz em menos de um mês uma edição de 43 minutos, com música de Wagner, e o milionário Nelson Rockefeller intermediou uma exibição na Casa Branca para o presidente Roosevelt e um grupo de senadores; em seguida (janeiro de 1943), o filme foi exibido em Hollywood para uma platéia de celebridades.

Buñuel relata que em Hollywood o filme provocou gargalhadas em Chaplin (que a esta altura já realizara O grande ditador), mas que o diretor René Clair lhe disse: “Estes filmes não devem ser mostrados ao nosso público. Eles dão a impressão de que o nazismo é invencível.” O filme foi exibido nos consulados americanos de vários países, principalmente na América Latina. Nenhuma cópia sequer da versão editada por Buñuel sobreviveu nos arquivos do MoMA. Quem sabe algum dia uma delas virá a ser descoberta, toda empoeirada, em algum consulado americano aqui no Brasil.