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sexta-feira, 25 de maio de 2012

2879) A pseudomorfose (25.5.2012)










(Pe. Antonio Vieira)

O jornal literário Rascunho, de Curitiba, publicou em abril uma entrevista de Alfredo Bosi, “Ler com a alma”(http://bit.ly/IKEary).  Ele examina a figura do Pe. Antonio Vieira (1608-1697), um desses personagens que ninguém encaixa numa categoria só.  Vieira, na sua ação política e na expressão ideológica, era um sujeito escorregadio, elusivo, que mordia e assoprava todo mundo no arriscado xadrez político do seu tempo. Se me perdoam a comparação plebéia, ele vivia dando o drible-da-vaca nas autoridades, tocando a bola para a direita e rodeando-as pela esquerda, com um volteio da frase.  Vieira foi um dos fundadores do nosso idioma, e fez pela prosa o que Camões fez pela poesia.  Ler Vieira é como fazer um passeio de asa-delta com um instrutor experiente.  A gente nunca pensaria aquilo sozinho, mas tendo a voz dele como guia fica com a sensação de ser capaz de pensar qualquer coisa.

A certa altura, Bosi comenta as análises de Otto Maria Carpeaux sobre Vieira, e diz: “Vieira queria que todos pagassem impostos, inclusive o terceiro Estado, e não tivessem os privilégios da nobreza e do clero; ele diz coisas muito fortes contra a desigualdade das contribuições. Finalmente, ele diz que o que vale no homem é o que ele faz, e não os seus ascendentes, sua linhagem. Parece uma idéia que só na Revolução Francesa vai ter seu momento tremendo, sua explosão. A idéia de que somos iguais, filhos do mesmo Adão, e pela teologia não deve haver nobres, não deve haver hierarquias. Então ele diz, num dos sermões, somos o que fazemos, não somos o nosso nome, mas a nossa ação. (...) Carpeaux chama isso de pseudomorfose. É como uma pessoa que tem forma muito conservadora, mas idéias revolucionárias, ou então uma pessoa que tem palavras muito revolucionárias na boca, mas ela tem toda uma ação conservadora. Isso é muito comum na nossa época, como é que uma pessoa tem uma forma que não convém ao seu conteúdo? E isso é a pseudomorfose”.

Maiakóvski, por exemplo, dizia que não pode haver idéia revolucionária sem forma revolucionária, e que as grandes transformações sociais exigem grandes transformações da linguagem poética. Mas talvez ele dissesse isto porque nele convergiram a Revolução Soviética (um dos maiores catalisadores de utopias do século 20) e o Formalismo Russo, um complexo movimento de vanguarda. Vieira não foi vanguarda literária no sentido de ruptura, como Maiakóvski, mas foi o ponto mais alto de uma tradição, o que no frigir dos ovos vale muito bem uma vanguarda. Sua linguagem e sua postura escorregadia foram instrumentos para colocar em xeque a própria cultura e civilização que produziram aquela linguagem.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2110) Carpeaux e a FC (12.12.2009)



Num artigo de 1959, Otto Maria Carpeaux desdenhava a literatura de ficção científica nestes termos: “Os habitantes de planetas na ‘science-fiction’, dotados de forças físicas e mentais superiores às nossas, são reedições dos gênios astrais da época pré-copernicana. Mais exatamente: são anjos. ‘Science-fiction’ é, inconscientemente, literatura pseudo-religiosa, literatura de edificação do homem que já não suporta sua solidão no Universo. (...) O sonho do desejo de conquistar o espaço produz seu efeito psicológico contrário. É o medo de uma catástrofe cósmica e da destruição do mundo. (...) A psicose é caracterizada pela perda total do contato com a realidade. Literariamente, a consequência é a baixa realidade: literatura de cordel.”

Como os leitores devem lembrar, durante muitos anos os respeitáveis dicionários brasileiros, em seu verbete sobre a palavra literatura, incluíam a menção: “Literatura de cordel – literatura de baixa qualidade”. É uma visão de classe que perdurou durante muitos anos e que fortaleceu muitos preconceitos. Para esses lexicógrafos, a boa literatura era praticada pelas elites. O que era praticado pelo povo era de má qualidade, já que o povo não tinha formação cultural e não poderia escrever bem, não poderia produzir boa literatura.

Algo parecido ocorre hoje com o termo “axé-music”, que surgiu para designar um conjunto de ritmos, instrumentações e danças com origem nos trios elétricos baianos, e que hoje virou um sinônimo de “música ruim”. Quando qualquer crítico musical da nossa imprensa precisa usar um termo pejorativo, usa “axé-music”, e a imensa maioria dos seus leitores aceita essa equação simplória. Por que? Porque o leitor já ouviu algumas dezenas de canções da “axé-music”, não gostou, achou que são todas parecidas, e se as que ele ouviu são parecidas todas as demais (que são dezenas de milhares) devem ser também. Em literatura, a expressão “livro de auto-ajuda” cumpre a mesma função preconceituosa.

Não tenho o Dicionário Aurélio, por exemplo, mas hoje o Houaiss define assim a literatura de cordel: “Literatura popular (especialmente contos, novelas e poesias) de impressão barata, exposta à venda em cordéis, especialmente em logradouros públicos do Nordeste do Brasil”. Em vez de um juízo de valor cheio de preconceito, uma descrição clara e sensata. Pode-se comparar a ficção científica à literatura de cordel? Claro que sim. Em ambas convivem o primitivo e o sofisticado, o antiquíssimo e o contemporâneo, o interesse comercial imediatista e o sonho da arte pela arte. Em ambas existe a convivência entre elementos fantasiosos e elementos realistas que não são enxergados por ninguém que não leia aquelas histórias – são uma forma de percepção do real que é exclusiva delas. Cordel e FC cumprem aquilo que a teoria literária chama de “função gnoseológica da arte”: produzir um tipo de conhecimento do mundo que não é proporcionado por nenhuma outra forma de literatura.

2107) O tropeção de Otto Maria Carpeaux (9.12.2009)




Otto Maria Carpeaux foi um dos intelectuais que aportaram aqui na chamada “Diáspora Européia”, fugindo dos tumultos políticos pré, durante e pós-II Guerra Mundial. Essa época nos trouxe Carpeaux, Ziembinski, Stefan Zweig, Paulo Rónai, Lasar Segall, Anatol Rosenfeld... 

O Brasil lhes deu (talvez não a todos) tranquilidade e cidadania; eles retribuíram de tal modo que no frigir dos ovos foi o Brasil que saiu ganhando. 

Carpeaux é um dos nossos críticos literários mais perspicazes e cultos, e talvez seja até uma injustiça referir-me a ele, aqui nesta coluna, indicando um defeito de julgamento. Fique a ressalva de que só questiono esse julgamento porque devo muito ao que o autor me ensinou.

Em sua Introdução ao Estudo da Science-Fiction, André Carneiro cita alguns artigos em que OMC menospreza repetidamente o gênero, em termos que sempre me chamaram a atenção. Diz Carpeaux, por exemplo, num artigo de 1959: 

“A ‘science’ não importa. O que importa é a ‘fiction’, isto é, a aventura. Toda uma imensa literatura de contos de fadas, de viagens e aventuras, de Marryat e Stevenson caiu em esquecimento para renascer na ‘science-fiction’: façanhas heróicas em face de perigos monstruosos, fidelidade comovente dos companheiros, traição infame, revoltas e motins de tripulações, a autoridade do chefe nato e, embora muito secundariamente, uma ou outra ‘affaire’ amorosa – eis os enredos sempre repetidos da moderna Odisséia dos espaços interplanetários. (...) 

"O ‘puerilismo’ do nosso tempo, que já foi diagnosticado por Huizinga, encontra na ‘science fiction’ uma manifestação quase tão característica como as histórias em quadrinhos. Essa literatura de cordel fornece ao leitor comum todas as trivialidades, horrores, sentimentalismos etc. que a literatura moderna exclui cuidadosamente dos seus enredos (ou de sua falta de enredo)”.

Carpeaux não chama sem motivo a ficção científica de “literatura de cordel”. As duas (bem como as histórias em quadrinhos) são o desaguadouro da nossa necessidade de histórias que envolvam o fantástico, o heróico, o exagerado, o improvável. 

O romance burguês, realista, “retrato da sociedade”, se forjou a partir do Iluminismo do século 18 e foi, durante os séculos 19 e 20, uma revolução positiva na literatura. Tão positiva que para grande parte dos críticos e autores ele se transformou numa palavra de ordem, numa fórmula obrigatória, numa solução definitiva para o problema literário. 

Acontece que existe nos autores e nos leitores (à revelia dos críticos) a necessidade de viagens extraordinárias, histórias fantásticas, conflitos titânicos, façanhas heróicas, não importa se tudo isso ocorre num passado distante ou no futuro próximo, se ocorre em ilhas desconhecidas ou em outros planetas. 

O cordel, a FC e os quadrinhos exprimem essa necessidade. São o retorno do reprimido, são uma literatura à parte que surgiu para compensar o excesso de racionalidade da literatura.