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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

5134) Dicionário Aldebarã XXVII (18.12.2024)

 


(ilustração: Moebius)


O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 
Laupinn – Estilo arquitetônico de colunas para edifícios públicos, com colunas redondas, triangulares, quadradas, pentagonais e assim por diante, de acordo com a função do edifício. 
 
Atskont – Sistema de plantar roçados que em geral envolve umas três pessoas em fila indiana: a primeira cava um buraco, a segunda despeja sementes ali, e a terceira cobre sementes com terra, enquanto cantam baixinho uma música qualquer cuja cadência os ajuda a trabalhar em sincronia. Usa-se geralmente com um adulto acompanhado de duas crianças, para acostumá-las à rotina do trabalho. 
 
Cartunth – A sucessão de soluções improvisadas (ou “gambiarras”) que alguém providencia enquanto não resolve um problema qualquer. Soluções que acabam produzindo outros problemas colaterais, e requerendo novos improvisos, os quais se acumulam numa cadeia de situações difíceis de explicar a quem chegou agora. 
 
Akank – Terrina larga que se costuma colocar em cima da mesa durante o dia, entre as refeições, recolhendo pedaços de comida que não merecem ir para o lixo: frutas pela metade, biscoitos partidos, sanduíches incompletos, fatias de queijo da semana passada, tudo que pode ser comido sem problemas mas que em geral se perde porque fica misturado a comidas mais novas e mais atraentes. 
 
Willykunks – Um conjunto de técnicas usadas pelos estudantes para “colar” ou “filar” nos exames, e que envolvem uma infinidade de recursos: papeluchos dobrados e escondidos na roupa ou no cabelo, fórmulas copiadas na pele por baixo das roupas, etc. 
 
Vollcrep – A sensação de recordar um fato relativo a uma pessoa e ser capaz de recuperar na memória várias emoções e opiniões diferentes sobre essa pessoa, antes mesmo de lembrar quem é. Provoca descrições como: “Me disseram para entrar em contato com alguém, que não lembro agora: só sei que é uma pessoa que conheço desde a infância, de quem já me afastei por discussões tolas, voltei a ter amizade mas não consigo confiar totalmente nela, ou nele.” 
 
Guiombs – Uma espécie de lesma coriácea capaz de se alimentar de praticamente qualquer coisa digerível. Os aldebaranes as usam para ajudar na limpeza de pratos, tigelas, copos e outros utensílios após uma refeição, bem como das mesas e pia da cozinha. Elas engolem e digerem tudo que seja orgânico (cascas de frutas, migalhas, de pão, etc.), facilitando o trabalho posterior de limpeza. Algumas famílias  se afeiçoam a elas e costumam deixá-las sobre a mesa durante a refeição, alimentando-as  com ossos, farofa, etc. 
 
Hagazz-hagizz – A consciência de ter um compromisso social importante para cumprir, e  hesitação entre o interesse de comparecer, pelos prováveis resultados positivos para a vida profissional e pessoal, e o desejo de ficar em casa entregue a alguma tarefa banal que exija muito pouca energia íntima. 
 
Anspruch – A curiosa sensação de esperar por alguma coisa longamente, até por muitos anos, e no momento de satisfazer esse desejo perceber que essa expectativa tinha se tornado uma parte essencial de sua vida, e não vale a pena trocá-la por uma satisfação que, a esta altura, não passa de um anticlímax. 
 
Azunkerd – O estado de tensão psicológica de uma pessoa introvertida que precisa estar presente a um evento cheio de gente (uma festa de família, uma confraternização de trabalho, etc.) e fica dividida entre sensações opostas: a angústia da rejeição, quando percebe que ninguém dá importância à sua presença, e a angústia do julgamento, quando alguém se aproxima e tenta estabelecer contato. 
 
Egugs – Pequenos pratos comestíveis, feitos de farinha-doce torrada e prensada, servidos à sobremesa, com doces, mel, etc., que molhando o prato o tornam mais fácil de mastigar. 
 
 




quinta-feira, 6 de junho de 2024

5069) Dicionário Aldebarã XXVI (6.6.2024)



 

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso. 
 
Astorn – Um momento breve de prazer ou de alívio durante um período de estresse pessoal; geralmente simbolizado em coisas sem grande valor material, como uma lufada de brisa num dia de calor, um copo de água gelada para uma pessoa sedenta, alguns minutos de silêncio no meio de um trabalho ruidoso e estafante. A palavra tem a conotação de uma coisa minúscula mas que é boa em si mesma, sem excesso de louvor e sem espaço para ressalvas. 
 
Laning: Mangueirinha de borracha que se adapta às torneiras e produz um jato fino e concentrado, sob pressão, usado principalmente para lavar os dentes após as refeições, removendo resíduos e impedindo a formação de placa bacteriana; substitui com vantagem os palitos e os pedaços de linha-de-costura. 
 
Ragum-Ragum: Onomatopéia com intenção ameaçadora reproduzindo o ruído das grandes máquinas de metal (fornalhas, motores, etc.), que parecem a ponto de explodir ou de avançar mortalmente sobre as pessoas que estão próximas. E também se usa com conotação irônica, para designar uma situação qualquer que parece aterrorizante mas acaba se revelando inofensiva ou banal. 
 
Vi-Carvieris: a sensação pervasiva de irrealidade que nos acomete durante alguns minutos em situações de cansaço extremo, falta de sono, leve embriaguez, desorientação etc., fazendo-nos acreditar que nada daquilo à nossa volta é real, que nada daquilo está acontecendo de verdade. 
 
Dundos: pequenos tambores distribuídos com a platéia nos espetáculos ao ar livre, para que todos possam acompanhar os números executados pelos músicos no palco, em longas sessões de improvisos nas quais a platéia é “regida” pelos músicos. Os dundos ficam colocados embaixo dos assentos, e ninguém é obrigado a usá-los; por outro lado, tentativas de bagunçar a execução coletiva são reprimidas de forma delicada mas firme. 
 
Gellibar: Processo educativo usado nas escolas de crianças pequenas, em que forma-se uma roda e as crianças são estimuladas a lembrar fatos importantes que lhes aconteceram nas últimas semanas, os quais são discutidos coletivamente. Estes encontros periódicos ajudam a ir formando nelas um conjunto de lembranças autobiográficas que ajuda em seu desenvolvimento. 
 
Birij: Nome que se dá a qualquer objeto, ao ser usado para produzir uma dor não muito intensa, quando aplicado ao corpo: uma pinça, uma lâmina pouco afiada, uma extremidade pontuda, etc.  Os aldebaranes as empregam, por um misto de ciência e superstição, com o intuito de desviar a atenção de uma pessoa da dor mais forte que está sentindo. Se alguém está com uma forte dor de dentes, ou em algum órgão, o uso de um “birij” é aplicado no músculo do braço, ou nas costas da mão, ou na batata da perna, na crença otimista de que uma segunda dor ajudará a reduzir a dor principal que a pessoa sente. 
 
Iskrymio: Sistema de aprendizado que vigora nas oficinas, ateliês, etc., em que os candidatos a emprego inscrevem-se numa fila por ordem de habilidade e de conhecimento das várias tarefas a serem executadas. Cada aprendiz torna-se, durante algum tempo por dia, “mestre” do aprendiz que está logo abaixo dele na lista, checando seu conhecimento e ensinando-lhe a habilidade mais urgente no momento, e assim por diante. Desse modo, todos são aprendizes e mestres simultaneamente, e cada novato precisa galgar posições ao longo do “iskrymio”. 
 
Armivéris: miragens atmosféricas muito frequentes nos continentes do hemisfério norte, devido a bruscas mudanças de temperatura e à evaporação das águas; nesses episódios, que chegam a durar mais de meia hora, o horizonte visível parece erguer-se, revelando a parte oculta por trás da sua linha-limite, e dando a impressão de que o chão do planeta ergueu-se e está se dobrando sobre si mesmo, revelando florestas, desfiladeiros, montanhas, etc., que normalmente estão invisíveis ao observador. 
 
Coc-Nambure e Kic-Nambure: O sentido aproximado é de “Coincidências e Descoincidências”, ou “Rimas e Não-Rimas”. Os aldebaranes têm como passatempo colecionar coincidências ou rimas da vida real, por exemplo: ver passar na rua uma mulher de blusa azul e saia amarela, e logo na rua seguinte, em outro contexto, encontrar outra mulher com a mesma combinação de cores. A “não-rima” é quando algo parecido ocorre ao revés: p. ex., quando num dia conhecemos um pai e um filho, e no dia seguinte outro pai e outro filho com os nomes trocados em relação ao primeiro par. 
 
 



terça-feira, 24 de outubro de 2023

4995) Cada qual com as suas manias (24.10.2023)



(Seu Nilo)
 
Toda pessoa tem direito a uma mania mansa, uma mania inofensiva, algo que na pior das hipóteses consome seu tempo livre e uma fatia de seu orçamento. Tem gente que coleciona chaveiros, latas de cerveja, cartões postais, selos. Tem gente que coleciona recortes de jornal. Tem gente que anota resultados de futebol, de eleições, de corridas de cavalos.
 
Meu pai era charadista e cruzadista, ou seja, gostava de resolver (e criar) charadas e problemas de palavras cruzadas nas muitas revistas que comprava todo mês, como Brasil Enigmista ou A Recreativa (para ele, Coquetel e congêneres eram para crianças ou amadores.)  Eu contraí esse vírus, e ainda hoje tenho que me conter quando vejo uma “grade” cruzadista pela frente.
 
Por volta de 1960 ele cismou de criar um dicionário de palavras cruzadas, e começou a anotar definições em pequenas fichas pautadas para as quais ele próprio construiu uma porção de gavetinhas de madeira. Não lembro qual era o viés do dicionário; acho que eram palavras organizadas pelo número de letras. Ele dava a mim e a minha irmã Clotilde um “agrado” monetário para a gente copiar definições das dezenas de dicionários que tinha na estante.
 
Aquilo exigia tempo, aquilo ocupava muito espaço, desarrumava a casa, e eu teria uns dez anos quando por motivos que nunca entendi ele desistiu do trabalho e mandou que a gente rasgasse tudo. Eu, que me divertia copiando as fichas, me diverti rasgando-as.
 
Meu pai era expansivo e piadista quando estava de bom humor, mas quando ficava contrariado fechava-se, virava uma ostra, uma esfinge. Cada pessoa tem seu temperamento. O dele era de não fazer confidências, o meu é de não fazer perguntas. Nunca me passou pela cabeça, a não ser postumamente, chegar para ele e perguntar: “Por que o senhor desistiu do dicionário?”.
 
Outra mania que ele tinha era o futebol, e esta eu herdei de corpo inteiro. Ele se entusiasmou loucamente com a Copa do Mundo de 1958, e comprava todas as revistas que traziam matérias sobre a Copa da Suécia: Manchete Esportiva, Fatos & Fotos, A Gazeta Esportiva Ilustrada... (Acho que a Revista do Esporte, em formato menor, só surgiu depois.)
 
Não só comprou como encadernou todas. E para mim a Copa de 1958 (cuja comemoração em tempo real presenciei meio aturdido, porque tinha apenas 7-8 anos) se transformou depois numa aventura literária. Eu pegava um daqueles enormes volumes encadernados, sentava no sofá, e passava uma manhã inteira lendo as detalhadíssimas reportagens sobre cada jogo, com mil fotos, diagramas ilustrativos de cada gol da Seleção, cartuns, piadas, entrevistas... e as páginas assinadas pelos irmãos Nelson Rodrigues e Mário Filho.
 
Em 1961 nos mudamos triunfalmente para a “casa própria”, no bairro do Alto Branco.  Nesse tempo meu pai já tinha tantos livros que a mudança foi feita em dois dias: no primeiro dia, uma camionete levou os livros, e no dia seguinte veio o resto da casa. O primeiro dia foi épico. O Alto Branco era (ainda é) uma colina muito úmida, com muita água à flor da terra, muita lama. A camionete atolou a 100 metros da casa, e atraiu a curiosidade de dezenas de garotos desocupados. Minha mãe, atarefada e expedita, coordenou uma força-tarefa com promessa de níqueis e lanches. A vizinhança ficou assistindo a caravana de guris descalços que sobraçavam pilhas de livros e os levavam ao seu destino final, voltando na carreira para buscar mais.
 
“Ah, Fortuna inviolável!...”  A casa não era muito grande, os livros atravancavam tudo, mas havia uma garagem e meu pai nunca dirigiu carro, de modo que ergueram na garagem uma parede e uma porta. Os livros desceram para lá. A umidade porejava das paredes. Em poucos anos, as coleções de Manchete Esportiva etc. foram sendo corroídas por manchas de mofo. Era um papel-jornal barato, vulnerável. Enormes crateras esverdeadas se abriam no sorriso largo de Vavá, no choro de Pelé abraçado a Gilmar, na calma hitchcockiana de Vicente Feola, no cigarro no canto da boca de Nelson ao comentar “Meu Personagem da Semana”.
 
E a coleção de dezenas de volumes capa-dura foi trasladada melancolicamente para o lixo, enquanto eu reprimia os inevitáveis trocadilhos tipo “o mofo deu”. Meu pai nada dizia (pelo menos na minha frente). Acendia um cigarro e olhava a paisagem.
 
Devo ter herdado um pouco disso tudo, não só das manias como do estoicismo. Não sei onde foram parar as centenas de fichas técnicas de filmes que anotei em meus tempos de cineclube (Diretor/Produtor/Roteiro/Música/Fotografia/Elenco), nem os incontáveis cadernos onde copiava com fervor religioso os jogos do Treze (data/local/juiz/renda/gols do 1º. Tempo/gols do 2º. Tempo/placar final/escalação do time).
 
Perderam-se ao longo das minhas muitas mudanças de cidade em cidade. Espalharam-se com meus livros de bolsos, minhas revistas de contos policiais, meus Argonautas, meus Vampiros, para não falar nas pilhas de Pasquim, Opinião, Movimento, Versus, Flor do Mal, Rolling Stone... Meu tesouro se espalhou pelo tempo afora, tal como o Tesouro de Agra que hoje repousa no fundo do Tâmisa.
 
Quando alguém vem na minha casa e diz: “Puxa vida, você tem muitos livros, e acumula muito papel”, eu respondo baixinho: “Isto é apenas a ponta de um iceberg que derreteu”.
 
Todo maníaco é um obstinado, dizem os tratados médicos. Meu pai não desistiu e durante a década de 1970 iniciou um novo projeto faraônico: o Dicionário do Que, um dicionário inverso que ele datilografou em stêncils e rodou no mimeógrafo-a-tinta que mantinha no quarto dos fundos da casa do Alto Branco.
 
Cabe aqui, para os leigos (as pessoas normais) uma explicação sobre os dicionários inversos. Quando a gente vai resolver uma “palavras-cruzadas”, a gente se depara com uma definição que nos encaminha para a resposta. “Pedra de sacrifício”, é o que nos pedem: e a gente cedo ou tarde descobre que é “ara”. Minha iniciação à obra de Sigmund Freud veio ao descobrir que “o substrato instintivo da psique” é “id”.
 
Ora, muitas dessas pistas se iniciam pela palavra “Que”, esse coringa verbal que é para nosso idioma um problema e uma solução. “Que tem duas pernas” = não demoramos muito a entender que a palavra é bípede. Entretanto, os dicionários comuns são organizados em função da palavras, e não de suas definições. Sem saber a palavra, jamais encontraremos a definição-pista.
 
Vai daí que os cruzadistas dedicam-se a compilar “dicionários inversos”, organizados a partir das definições, e indicando no fim a palavra correspondente. Meu pai se dedicou a organizar todas as definições começadas com “Que...”, um projeto babélico, borgiano. Bem ou mal, ele produziu alguns volumes mimeografados, que distribuiu entre seus confrades da TERNOR (Tertúlia Nordestina), um grupo de aposentados bonachões que se dedicava ao mesmo passatempo.
 
Corta para a década de 1990, eu já morando no Rio de Janeiro, trabalhando como redator da TV Globo. Discutíamos pautas para os programas, e alguém sugeriu uma matéria sobre clubes de decifradores de charadas e palavras cruzadas: “é um pessoal excêntrico, mas simpático”. Eu me ofereci para pesquisar, e certa tarde bati à porta de um desses clubes, numa transversal da Av. Rio Branco. Havia dois ou três senhores conversando, entre poltronas, estantes e um balcão. Expliquei que era da TV (o que sempre produz um alvoroço de solicitude), estava fazendo uma matéria...
 
Mandaram-me sentar, crivaram-me de perguntas. Tive que demonstrar o meu conhecimento do assunto – e olhe, nunca me faço de rogado nesse departamento. Quando falei que meu pai pertencia à TERNOR, soltaram exclamações de familiaridade.
 
– Qual o pseudônimo dele? – perguntaram. (Todo charadista se assina com pseudônimo, mesmo que sua identidade seja conhecida de todos).
 
Respondi:
 
– “Pequeno Polegar”. Ele inclusive compilou um dicionário inverso, chamado Dicionário do Que.
 
Os caras arregalaram os olhos. Um deles foi à estante e não demorou a trazer o volume com capa de papelão, que folheei e reconheci, comovido. Apertaram minha mão, serviram-me cafezinho, responderam tudo que perguntei. A matéria da TV acabou saindo de pauta, mas aquela tarde foi ganha. Não estou sendo demagógico se disser que ver um livro meu na vitrine de uma livraria carioca me dá muito prazer, mas ainda menos do que tive ao encontrar naquela salinha modesta o resultado da mania mansa de Seu Nilo, e a vindicação das muitas noites que passou compilando (sem ambição de glória, sem cobiça de fortuna) o seu livro de areia.
 
 





domingo, 24 de setembro de 2023

4985) Dicionário Aldebarã XXV (24.9.2023)




O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 
Catrinus – Jogo de salão onde as pessoas improvisam coletivamente uma narrativa. Cada uma tem cinco a dez minutos para narrar em voz alta sua contribuição, usando como “mote” um objeto aleatório retirado de um saco. Retirado o objeto, a pessoa precisa usá-lo como tema para prosseguir a história do ponto em que foi largada pela pessoa anterior. Segue-se assim em rodadas sucessivas até que os objetos se esgotem, e o último deles será usado por quem irá criar o desfecho da história. 
 
Nandei – Nome de um tipo de prensa metálica usada para prensar diferentes tipos de folhas vegetais, de diferentes árvores e arbustos, para a fabricação de uma “tela” especial onde serão aplicadas pinturas abstratas muito apreciadas para decoração de aposentos. 
 
Some-Sime – Empregado (geralmente um rapaz ou moça adolescente) que trabalha para as famílias de uma rua inteira, fazendo pequenas tarefas e com direito a comer e dormir em qualquer uma das casas, de acordo com sua conveniência. Essa processo dura um ano e é considerado um rito de passagem, porque um some-sime entrega correspondências, lava pratos, bota crianças para dormir, apara mato, ajuda a arrumar móveis e a costurar roupas, cozinha, serve à mesa, cuida de doentes, faz trabalhos de marceneiro, pedreiro, etc. 
 
Nelones – Caixinhas de pedidos colocadas em lugares públicos. A pessoa deposita uma moeda, coloca um pedido num papelzinho dobrado, e retira outro, aleatoriamente. Quando não pode atendê-lo, coloca o pedido de volta. Se achar que pode atender o pedido, leva-o consigo e depois entra em contato com quem pediu. Grande parte dos pedidos são relativos a utensílios, instrumentos, livros, peças de roupa específicas. 
 
Senkaya: grandes murais pintados nas paredes das escolas de arte, onde gerações sucessivas de estudantes pintam novas formas, figuras e paisagens sobre que foram pintadas pelas gerações anteriores, num movimento perpétuo de substituição e renovação. 
 
Rana-dem-Dur: a sensação de estar usando alguma coisa que não se encaixa bem no nosso corpo ou na nossa personalidade: um sapato pequeno, uma roupa apertada, uma comida muito sofisticada, um veículo muito lento ou muito rápido, um emprego inadequado. 
 
Dreakans: hábito brincalhão, entre pessoas da mesma família ou amigos muito próximos, de no meio de uma discussão acalorada, ao perceber que está havendo um aumento da tensão, uma pessoa começar a cantarolar o que diz, ao invés de simplesmente falar, ao que a outra imediatamente adere, e as duas passam a improvisar um pequeno número musical, totalmente informal e descontraído, com o único intuito de diluir a agressividade e a irritação que começavam a surgir. 
 
Kimbass: Uma espécie de quarto-de-despejo, porão ou sótão existente na maioria das casas, para onde são levados trastes velhos, objetos quebrados mas passíveis de conserto, utensílios ainda úteis mas que foram substituídos por uma versão mais nova, brinquedos, roupas, instrumentos obsoletos. Por extensão, tornou-se um termo para designar o acervo de lembranças ou de fatos irrelevantes que nossa memória acumula ao longo dos anos, e gerou expressões como “Isto aí está no kimbass”, com o sentido aproximado de "Existe, mas é impossível de encontrar”.
 
Vistunyi: crianças de inteligência acima da média, para as quais há uma permissão provisória para que participem de atividades adultas relacionadas ao estudo, ao trabalho e ao lazer, como uma espécie de iniciação precoce ao mundo adulto. Em função disso, precisam fornecer contrapartidas, que vão desde o ensino para outras crianças até a participação em conselhos educacionais e de administração do bairro em que vivem.  
 
Ulfos: almofadas macias, em tamanhos variados, que se usam na cama;  diferentes regiões e diferentes culturas  usam formas de animais ou objetos que podem ter um sentido religioso, erótico, familiar, e há crenças de que durante o sono noturno as entidades que elas representam entram em contato mental com os sonhos das pessoas adormecidas. 
 
 
 
 








 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

4928) Dicionário Aldebarã XXIV (3.4.2023)



(ilustração: Moebius)


O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 

“Ospronk”: sonhos que constam quase totalmente de experiências corporais: a sensação de estar sentado num lugar banhado de sol, de tocar numa parede que vibra, de ter os cabelos remexidos por um vento forte... a tal ponto que é impossível narrar o sonho em palavras, porque mesmos as palavras que usamos não guardam nenhuma relação com a sensação que pretendem descrever. 
 
“Corduflans”: certas explicações improvisadas que as pessoas dão ao serem apanhadas de surpresa numa situação qualquer, sem tempo para preparar uma versão convincente; e depois é preciso distorcer uma porção de fatos ou de relatos para que nada daquilo entre em contradição com a explicação que foi inventada sem muito preparo. 
 
“Amburo”: pequeno fogareiro escavado no chão de terra, nas cabanas do interior, sempre cheio de cinzas e brasas, para aquecer comida. Em muitos lugares serve também como disfarce para o local onde estão enterradas jóias, dinheiro, economias da família, etc.  Como o uso de tal disfarce é tradicional e de conhecimento público, gerações sucessivas de pessoas o descartam, por inútil, e depois voltam a adotá-lo. 
 
“Smirro”: tarefas úteis executadas coletivamente e sem pressa, como derrubar uma árvore, remover uma pedra, aterrar um brejo. Cada pessoa que passa pelo local faz um gesto: o machado fica ao lado da árvore para qualquer um dar um golpe, a pedra fica ao longo da estrada para qualquer um revirá-la uma vez, há uma pá perto do brejo. Subentende-se que é proibido uma pessoa sozinha assumir o trabalho; tem que ser feito por todos. 
 
“Chussamp”: pequenas canções meio narrativas, com letras absurdas e engraçadas, cantadas sempre numa mesma cadência, e que servem de marcador de tempo para algumas tarefas domésticas, principalmente na cozinha. Cantar do princípio ao fim Eu Vi Vocês na Corda-Bamba marca o tempo ideal de preparação do chá de zuinn, que tem um bom efeito sobre a atenção e aumenta a nitidez na vista. 
 
“Ankh-ankh”: cavalos ou cães um tanto rebeldes que passam a ser repassados para sucessivos donos, a fim de serem amansados de acordo com um pequeno menu de regras básicas que todos tentarão aplicar, até que o animal é devolvido ao dono original. Por trás desta prática vigora o princípio de que, tal como um animal, uma pessoa tem que ser educada pela coletividade inteira, e não apenas pela sua família de origem. 
 
“Albalahn”: pequenas cerimônias íntimas que correspondem a um “pré-aniversário”, e onde a pessoa acende velas, ergue um brinde, recita preces ou versos e executa outras manifestações de esperança e respeito, tudo isto com vistas a alguma coisa que deverá acontecer dali a exatamente um ano, e que ela, ainda sem saber o que será, comemora e agradece por antecipação. 
 
“Escarts”: assentos feitos de placas de vime, dobráveis, que podem ser levados às costas (são muito leves) e depois desdobrados. Podem ser usados em passeios, caminhadas, eventos ao ar livre, etc.; além da praticidade para quem usa, são muito apreciados pelos artesãos que os fabricam, os quais estão sempre inventando novos desenhos de encaixe e desdobramento, a ponto de fazerem um banco para três pessoas caber, depois de dobrado, dentro de uma mochila. 
 
“Abforn”: o percurso sentimental que uma pessoa se obriga a fazer quando visita sua cidade natal, e prepara uma lista de alguns lugares para visitas obrigatórias: a casa de amigos, a escola onde estudou, o prédio onde trabalhou, etc.  É um percurso não obrigatório, mas que a maioria das pessoas procura cultivar, como uma maneira não apenas de revisitar boas ou más lembranças, mas de constatar a passagem do tempo e as transformações que produz. 
 
“Calbug-tan”: prece informal cuja primeira parte as pessoas recitam quando perdem algum objeto (geralmente na própria casa, em meio aos afazeres domésticos) e querem que lhes seja revelado onde está. A tradição avisa que daí em diante virão “pistas” aleatórias sobre a localização dele, através de palavras ouvidas à distância, referências a um aposento ou móvel, etc.  Ao ser encontrado o objeto perdido, a pessoa deve recitar a parte final da prece. 
 
“Lank-umm”: a percepção instintiva (e impossível de explicar) que algumas pessoas têm com relação à casa em que vivem, e que lhes permite saber intuitivamente, sem fazer esforço, em que parte da casa ou de seus arredores está cada morador, em qualquer momento do dia; um talento tão mais admirável quando se sabe que as famílias aldebaranes, somando seus moradores, agregados e hóspedes, são sempre muito numerosas. 
 
“Dik-dikken”: brincadeira de salão em que cada pessoa escreve uma frase de duas ou três linhas, sobre um tema qualquer, com a intenção de não revelar através dela a própria identidade; esses papeizinhos são dobrados, misturados e depois lidos de um em um, enquanto as demais pessoas da roda se arriscam a adivinhar quem escreveu cada trecho. 
 
“Daoulb”: o individuo que se vê numa posição de intermediário entre dois grupos, ou dois antagonistas, com a obrigação de apaziguar um conflito e conduzir as duas partes a um acordo comum; em geral, cada um dos lados o vê com desconfiança, encarando-o como um mero representante dos interesses do seu adversário. 
 
“Herlegan”: personagem folclórico, reconhecível por suas roupas coloridas e seu comportamento meio distraído, meio anárquico; qualquer pessoa que se vista assim e saia à rua será tratada de acordo, mas se por algum motivo precisar “ficar séria” tem que tirar imediatamente a fantasia ritual, sob pena de detenção por mau comportamento. 
 
“Eswurten”: artesãos que, como atividade paralela de seus ofícios (marceneiro, escultor, ferreiro, ourives, etc.) dedicam-se a produzir cópias perfeitas de objetos fornecidos pelos clientes, seja para substituir um original danificado, criar uma imitação para desviar a atenção de possíveis ladrões, presentear alguém, etc.  O termo é usado muitas vezes em tom pejorativo, com a conotação de “falsário, fabricante de mentiras”. 
 
“Panj”: licor de sabor forte e adocicado, que misturado a bebidas destiladas como o rum produz um forte coquetel alcoólico; muito usado em ocasiões festivas quando as pessoas se reúnem para beber e cantar a plenos pulmões, e invariavelmente descambam para uma sessão de improvisação de versos de duplo sentido, em formas fixas tradicionais, que provocam maior hilaridade quando recorrem ao absurdo e ao despropósito.
 








quinta-feira, 9 de junho de 2022

4831) Essa palavra existe (9.6.2022)


Toda vez que eu digo uma palavra inventada, as pessoas estranham. Falo, por exemplo: “Que comida feia a desse prato, eu é que não vou comer essas grangranhas.”  E alguém pergunta: “Mas, essa palavra existe?”
 
Claro que ela sabe que existe, pois acabou de ouvi-la. O que a pessoa pergunta, na verdade, é se a palavra é oficialmente reconhecida. Se está nos dicionários, por exemplo. E, principalmente, a pessoa pergunta (bem baixinho): “Se eu disser essa palava, alguém pode dizer que eu estou falando errado? Que eu não me alfabetizei? Que eu sou pobre?...”
 
É essa a preocupação.
 
Somos um país cartorial, como dizem alguns analistas e historiadores. Um país burocratizado, onde o Poder se exerce através de documentos: escrituras de terra, testamentos, acordos políticos, ordens de prisão, contratos financeiros... O documento é a instância mais importante da existência, e o que não pode ser confirmado por um documento não existe.
 
Vai daí que uma palavra não-dicionarizada é como uma pessoa que nunca tirou certidão de nascimento ou carteira de identidade, e oficialmente não existe. De nada adianta provar que é de carne e osso. Existe um Brasil mais elevado, que depende do país de carne e osso, mas que o transcende: um Brasil feito de papel e tinta. Ou, mais modernamente, de silício e pixels eletrônicos.
 
“Grangranha”, por exemplo, era uma coisa que meu pai dizia nesse contexto acima. Uma comida pouco apetitosa, geralmente de má aparência. Tem no dicionário? Não sei, e não ligo. Só ouvi essa palavra lá em casa. Não posso dizer que é uma expressão paraibana: talvez nem os nossos vizinhos na rua do Alto Branco a conhecessem. Mas para nós, existia, sim.
 
As palavras brotam desse jeito, inventadamente, improvisadamente, brincalhonamente, impacientemente. A pessoa quer exprimir uma idéia, mas as palavras oficiais não lhe servem nessa hora, porque são muito domesticadas, ou muito sofisticadas... Ele precisa de uma coisa mais forte, que exprima de maneira mais direta o que quer dizer, e que além disso dê um pequeno susto no ouvinte.
 
Darcy Ribeiro usava muito a palavra fazimento: o ato, o processo de fazer alguma coisa. Em inglês se diz “the making”. Ele fala do fazimento das leis, o fazimento do povo brasileiro... Muita gente acha que a palavra é canhestra, desajeitada. Não importa. Em seu lugar teríamos o quê? “Confecção”, “feitura”, “criação”, “produção”... Palavras sem muita força e pouco claras, porque têm conexões fortes com outros contextos e outros significados. Darcy se impacientava, e tascava fazimento
 
É a palavra ideal para exprimir essa idéia? Talvez não, mas é uma palavra que existe. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
O lado burlesco da política recente trouxe duas contribuições interessantes: “motociata” e “lanchaciata”. Esta última parece o nome de uma grangranha feita na Itália, mas corresponde a uma passeata de lanchas (e a outra a uma passeata de motos).
 
Isso mostra como o processo de invenção de palavras é insubordinado, desregrado, não dá ouvidos à gramática nem à etimologia (nem ao bom gosto), cria-se por mera associação ou derivação. “Passeata” vem de passos, os passos que damos com as pernas quando passeamos. Depois dele veio “carreata”, que mantém uma certa simetria e não precisa de muitas explicações. Quando surgiu “motociata” o problema ficou maior, até porque deveria se escrever talvez “motosseata”, para indicar de onde vinha, mas esses dois “SS”, que vêm de “passo”, já não tinham razão de ser; e “lanchaciata” já soa como galhofa. O problema é se inventarem um desfile coletivo de homens de negócios, porque nesse caso a imprensa vai ter que chamar de “negociata”.
 
E repito: são as palavras ideais para exprimir essas idéias? Talvez não, mas são palavras que existem. Ninguém é obrigado a usar. Ninguém é proibido de usar.
 
Expressões recentes como “mandar um zap” e “maratonar” não precisam de muita explicação, a não ser para aqueles que não costumam usar o WhatsApp e não costumam ver vários episódios seguidos de uma série. As palavras novas são inventadas em contextos onde rapidamente são compreendidas – é o mesmo processo da formação das gírias. Com o uso constante, acabam escapando para o mundo de fora, o nosso, que ouvimos aquilo pela primeira vez quando em alguns grupos já é coisa velha.
 
Uma vez eu estava trabalhando numa pesquisa e uma moça numa fábrica se referiu a alguma coisa relativa ao “instrutor” dela, que ajudou a prepará-la quando ela assumiu a função. E explicou: “Sabe o que é instrutor, né? É a pessoa que explica pra gente a instrutura do serviço.”
 
A linguagem não sofre erosão, com essas interferências. Sofre mutação genética. Não diminui: cresce. Não é um edifício, é um organismo. Podemos inventar um milhão de palavras por dia, e 99% delas sumirão na poeira sem ter merecido uma repetição sequer. Só fica o que “pega”. Só pega o que tem o mesmo DNA, o que não é rejeitado.
 
E outra – a língua brasileira não é a mesma em todo canto. Uma palavra nova pode ser facilmente aceita no Nordeste e parecer sempre estranha a ouvidos sulistas. Numa cidade como São Paulo, deve haver todo um glossário de jovens da Freguesia do Ó que jovens de Pinheiros não terão interesse em assimilar, e vice-versa.
 
O melhor de inventar palavras é quando ela surge como um improviso no meio de uma fala, como a do paciente de manicômio capaz de confessar ao jovem médico Guimarães Rosa que estava enxergando “umas pirilâmpsias”. Poesia pura.
 







segunda-feira, 21 de março de 2022

4805) Dicionário Aldebarã 23 (21.3.2022)




(ilustração: Moebius)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.
 
“Queninodis”: o súbito reencontro, ao longo do dia, com alguma coisa (um nome, uma pessoa, um lugar, um objeto) com a qual havíamos sonhado na noite anterior, e esquecêramos por completo.
 
“Mossonheims”: cargo oficial posto em prática quando ocorre um desentendimento entre duas famílias, ou dois grupos políticos; cada um deles nomeia seu mossonheim para ir dialogar com o líder do grupo oposto e trazer ao líder do seu próprio grupo as queixas e reivindicações do outro; depois de aplainado o terreno por esse processo, os dois líderes se encontram em pessoa para a mera formalização dos acordos.
 
“Dortrisse”: o intervalo noturno entre duas sessões de sono, quando, após dormir por três ou quatro horas logo ao escurecer, as pessoas acordam, e se entregam ao lazer, à conversa ou a alguma tarefa caseira leve, depois da qual dormem novamente até amanhecer o dia. 
 
“Serundy”: jogo de salão que consiste em fazer cada pessoa, depois de sentadas em roda, escolher um objeto qualquer no aposento e o segurar à vista de todos; em seguida, sorteia-se a pessoa que dará início a uma história inventada de improviso, quando mais amalucada e improvável melhor, e nessa sua invenção deverá incluir o objeto seguro por outra pessoa da sala, o qual, ao ser finalmente referido, dará ocasião a muita risada e divertimento; em seguida, passa a vez para a pessoa ao lado, que dá prosseguimento à história, às improvisações, e à referência a outro objeto em poder de mais alguém.
 
“Wanga-wanga”: bravatas ou gabolices que alguém faz meio descuidadamente, sem nenhuma intenção mais grave, mas às vezes vê aquilo tomar uma proporção inesperada, e é forçado a desmenti-las – ou pelo menos tentar desmenti-las de modo convincente, o que muitas vezes não é mais possível.
 
“Valallini”: dieta à base de flores, mel e sementes que serve para desintoxicar os noivos nos dias que antecedem o casamento, as parturientes alguns dias antes do parto, e os administradores públicos antes dos dias de votações decisivas.
 
“Andialas”: um tradicional sistema de repasses e “terceirizações” de tarefas, trabalhos, projetos, etc., mediante o qual uma pessoa, quando se desinteressa do uma tarefa da qual foi incumbido, pode transferi-la para uma segunda pessoa com certos direitos e deveres; esta pessoa pode fazer o mesmo com uma terceira, e esta com uma quarta, desde que fiquem implícitos os níveis da transferência, que são chamados “andiala-um”, “andiala-dois”, etc. Esse sistema cria uma condição de responsabilidade recíproca entre todos os participantes.
 
“Wizz-nizz”: espécie de doce ou compota feito de fruta, para o qual se prepara um creme especial feito com a casca da própria fruta, moída e transformada em uma pasta que se deixa decantar em açúcar por longo tempo; tipicamente, quando mais fresca a fruta e mais “curtido” o creme, melhor.
 
“Cavonsy”: a sensação inexplicável que temos diante de um pequeno fato do cotidiano que não entendemos ou não pudemos examinar direito; a compulsão crescente de tirar a limpo essa dúvida; a sensação ominosa de que seria melhor deixar tudo como está, porque a resposta pode nos acarretar um prejuízo maior do que o desconhecimento.
 
“Famaldy”: um presente especial que se dá a uma pessoa que completa uma idade especial, em geral redonda (60, 70, 80 anos...). Um caderno é circulado em segredo entre amigos e parentes, e cada um tem direito a uma página, não mais. E deixa ali uma frase, um verso, uma lembrança, um desenho, uma colagem... No dia da festa, o aniversariante recebe o presente coletivo.
 
“Serruvun-pep”: pequenas faixas de borracha colorida que algumas pessoas costumam pregar no teto do quarto de dormir, para que quando a luz do sol da manhã, entrando por uma fresta específica, atingir aquele ponto, indicar que está na hora de levantar.
 
“Caflant”: aquelas situações em que reencontramos uma pessoa e, a certa altura, uma fala ou uma atitude de sua parte nos mostra que não há mais entre nós tanta identificação ou cumplicidade quanto imaginávamos.
 
 
 
 
 
 
 






sexta-feira, 28 de maio de 2021

4708) Falatório nordestino (28.5.2021)




(foto: Campina à noite, por Leydson Jackson)

São jeitos de falar, jeitos de dizer que se fala em vários lugares do Nordeste. Se se usa em outras regiões, é porque foram nordestinos que levaram para longe.
 
PEGAR
Um expletivo para dar mais força ao verbo que vem em seguida. “Fui reclamar de minha filha, ela pegou e saiu da sala sem responder.” “Minha mãe disse que se eu deixasse a cama desarrumada ela me botava de castigo, aí eu peguei e deixei, pra ver se era mesmo”.
 
Também se usa o verbo “ir” num sentido semelhante, de mero reforço. “Eu duvidei que Fulano conseguisse beber um café quente como aquele, pois o danado foi e bebeu”.
 
PEITICA
Teimosia, implicância.  “Ele fica de peitica comigo porque sabe que eu já fui namorado da noiva dele, mas qual é a culpa que eu tenho?”

O cunhado dissera que, pessoal, amanhã era Carnaval!  Numa alegria estranha que Deisi talvez não tivesse, concentrada ainda na aula que dera. Mas a irmã continuou na peitica, reclamona, reprovando inclusive a aula.
(Marilene Felinto, O Lago Encantado de Grongonzo, pag. 139)
 
NÃO DAR UM PREGO NUMA BARRA DE SABÃO
Diz-se de alguém muito preguiçoso ou muito rico, que não faz o menor esforço.  “Ela é quem sustenta e casa e cuida dos filhos, o marido não dá um prego numa barra de sabão e ainda pede dinheiro a ela pra ir beber.”
 
PARA O ANO
No ano que vem. Usa-se também “para o mês” e “para a semana” (esta última, sempre em contração: “pra semana”).  “Pra semana começam as aulas, é bom ir logo procurar seu material do colégio”.  “Eu vou viajar ao Rio para o mês, se tiver alguma encomenda pode ir preparando”.  “Para o ano vai ter eleição, aí você vai ver gente aqui prometendo calçar a rua.”  
 
Curiosamente, vale notar que no caso do mês e do ano não se usa, nunca, a forma contraída (“pro mês”, “pro ano”).
 
É DA VEZ QUE...
O mesmo que “É dessa vez que...”: “Se o pneu do carro furar, é da vez que eu me lasco: deixei meu estepe no carro de meu irmão.”  É uma dessas expressões apenas expletivas, intensificadoras, que podem ser extraídas da frase sem mudar seu sentido ou sua estrutura.
 
SIMÃO - O que eu vou fazer é escrever três folhetos arretados, três folhetos chamados “O Peru do Cão Coxo”, “A Cabra do Cão Caolho” e “O Rico Avarento”.  Vendo tudo e é da vez que fico rico!
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato III)
 
É DE ROSCA?
Pergunta que se faz quando alguma coisa está demorando muito.  “Ô garçon, esse sanduíche é de rosca?  Tem mais de dez minutos que eu pedi!”   O termo implica uma comparação entre um prego, que se enfia ou se arranca de uma vez só, com um parafuso, que é preciso enroscar ou desenroscar.
 
GARAPA
Água com açúcar.  É uma espécie de remédio universal para pessoas que levam um susto, crianças que choram de noite, pessoas com tonteiras, etc.  Também se usa para descrever uma briga desigual, geralmente na expressão « pegar garapa » : « Olha, eu não vou brigar com um cara pequeno do seu tamanho, não gosto de pegar garapa. »  Por extensão, qualquer coisa muito fácil de preparar, ou de obter.
 
-- O cinema é o diabo, seu Ramalho.  O senhor não imagina.  São uns beijos safados, língua com língua, nem lhe conto.  Provavelmente as moças saem de lá esquentadas.
-- Devem sair, concordava seu Ramalho.  Por isso há tanta gente de rédea no pescoço.
-- Que réde!  Hoje não há rédea.  Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.
(Graciliano Ramos, Angústia, pag. 104)
 
GAZEAR
Fazer gazeta; matar aula. Bi-transitivo: “Já faz três dias que eu gazeio, amanhã vou ter que assistir aula.”   “Toda quarta-feira eu gazeio as duas últimas aulas e vou ver o treino no campo do Treze.”
 
A Rua Manoel Pereira de Araújo estendia os grandes braços contaminados para o encontro da orgia; escancarava a bocarra velha para receber o ósculo pestilencial da luxúria, para cantar “a canção prostituta do ludíbrio”.
A artéria comportava a sua cotidiana paisagem: grupos de boêmios; cavaquinhos repetindo Waldir Azevedo; estudantes que gazeavam aulas do Alfredo Dantas; adolescentes discípulas de Maria Garrafada – o ABC do amor campinense --; cães vadios virando latas de lixo ao meio-fio; radiolas rodando discos de Nelson Gonçalves; a brisa gelada movimentando a dança sem ritmo dos papeluchos do calçamento, sacudindo o jaquetão de casimira de Moacyr Tiê; Horácio Bacanácio cantando samba de breque de Jorge Veiga.
(Orlando Tejo, Zé Limeira, Poeta do Absurdo, pag. 203)
 
MORRENDO DE FOME
Com uma certa fome; com apetite.  A expressão é usada em geral sem a menor intenção de exagero.  "Ih, já é meio-dia e eu estou morrendo de fome.  Vamos comer um sanduíche?"   O nordestino diz "estou morrendo de fome" nas mesmas circunstâncias em que um carioca diz "estou cheio de fome": apenas para comentar que está na hora de comer alguma coisa.
 
BOTAR SENTIDO
Vigiar, tomar conta, ficar de olho em algo.  "Fulana!  Bota sentido nesse leite que está no fogo, enquanto eu vou ali no quintal."
 
Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado.
(Gilberto Freyre, Assombrações do Recife Velho, pag. 94)
 
DAR PRA...
Equivale a « começar a.... »« Fulano agora deu pra chegar em casa bêbo toda terça-feira, não sei o que é que tá acontecendo. »   « Esse menino agora deu pra mentir, se não levar uma surra vai virar um problema. »  Também se usa com sujeito impessoal :  « Ultimamente deu pra chover todo dia de manhã, eu não sei o que é isso. »

Subindo mais um pouquinho
Pra Santa Cruz visitar
As pernas dão pra doer
A roupa dá pra molhar
O suor por todo canto
Se não tiver fé no santo
É obrigado a voltar.
 
(Minelvino Francisco da Silva, “Aparição de Nossa Senhora das Dores e a Santa Cruz do Monte Santo”)
 
TÉSA
(Atenção: palavra masculina, vogal “E” com som aberto).
Dar “um tésa” é o mesmo que “dar um carão” ou “dar uma subida”: repreender asperamente.  “Fui lá na casa dela e dei-lhe um tesa na vista de todo mundo, pra ele ficar sabendo com quem está se metendo!”
R. Magalhães Jr. registra “Dar o tesa com alguém” como expressão equivalente a “Entesar-se com alguém”, registrada no Dicionário de Morais com o sentido de “Ter-se a duras, encrespar-se com ele, não se lhe acanhar”.
 




domingo, 16 de maio de 2021

4704) Dicionário Aldebarã XXII (16.5.2021)




("Castelo e Sol", Paul Klee, 1928)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.


“Viamag”: a emoção contraditória de receber uma notícia importante (ruim ou boa), absorver seu significado, avaliar todas as consequências possíveis daquele fato, preparar-se para elas, e algum tempo depois receber o desmentido (bom ou ruim), e ter que se adaptar de volta à antiga situação.
 
“Jancib-tan”: o ato de partilhar alguma coisa com alguém: um pão, uma fruta, um copo de bebida, um guarda-chuva para atravessar uma rua. Estende-se para outras situações mais abstratos: assistir juntos um espetáculo, ouvir uma música, lembrar um fato passado, ou estarem os dois juntos por coincidência no momento de algum acontecimento importante para o mundo.
 
“Teressimbe”: conjunto de dois espelhos presos entre si por uma haste, e virados um para o outro. Usa-se para se pentear, cortar, tingir os cabelos, porque assim pode-se ver ao mesmo tempo a frente do rosto e a parte de trás da cabeça.
 
“Kaprilla-kambe”: refere-se às situações tensas em que dois indivíduos, ou grupos de indivíduos, estão presentes ao mesmo tempo num território disputado pelos dois, mas não desejam deflagrar um conflito imediato, de modo que ou simplesmente fingem ignorar a presença dos outros (como se fossem invisíveis) ou limitam-se a cumprimentos formais e lacônicos, como se não estivessem se reconhecendo mutuamente.
 
“Tezillen”: termo (que tanto pode ser usado em tom elogioso quanto em tom depreciativo) para indicar qualquer objeto que se destaca em um conjunto: uma pessoa de passo errado num batalhão em marcha, um livro desalinhado na estante, uma árvore verde no meio de um grupo de árvores ressequidas (ou o contrário), o melhor ou o pior aluno da classe.
 
“Onderrid”: pequenas moedas artesanais, rememorativas, com frases curtas e imagens, que as pessoas confeccionam em casa e que levam consigo para depositar num local que lhes recorda uma pessoa querida que já faleceu. Servem como homenagens simbólicas dedicadas ao morto, como se dissessem “lembrei-me de você quando visitei novamente esta praia, este restaurante, esta árvore”.
 
“Kottig”; certas perturbações nervosas que fazem uma pessoa perder ao mesmo tempo o sono e a noção do tempo, e passar uma noite inteira acordada, entregando-se a tarefas banais ou excêntricas, sentindo o tempo inteiro a impressão de que passaram-se muitos dias e o sol não nasceu.
 
“Jurukammi”: qualquer situação humana que envolva grande número de pessoas e onde a quantidade passa a se sobrepor às individualidades envolvidas, como numa guerra, um acidente com muitas mortes, uma multidão que protesta.
 
“Lilevald”: a sensação crescente de premonição que se tem à medida que se aproxima uma data de grande importância pessoal ou coletiva, sensação que consiste numa mistura de medo e de determinação, e onde se tem a impressão de que as possibilidades tornam-se cada vez mais numerosas à medida que a hora se aproxima e os acontecimentos convergem todos para o mesmo ponto.
 
“Darrib”: literalmente, “pequeno dia”; o horário noturno em que a lua aparece no céu, principalmente quando está cheia, deixando a noite mais clara e permitindo que as pessoas acordem levantem, conversem, visitem-se umas às outras, executem alguma tarefa necessária na noite bem iluminada.
 
“Pessaf”: costume pouco saudável durante as festas, comemorações etílicas, etc., de juntar numa só caneca os restos de diferentes bebidas que estão espalhados, e coagir alguém a beber tudo, à custa de promessas, ameaças, apostas, etc.
 
“Megssen”: a idéia de algo que apesar de ter inteireza e individualidade próprias pode ser visto também como parte de um todo maior: um elo numa corrente, um segmento de reta, um copo de água, um indivíduo na sua linha de antepassados e descendentes, uma lembrança, uma história, um país.