Em seu romance Huckleberry Finn Mark Twain conta a fuga de Huck Finn e do negro escravo Jim numa jangada à solta rio afora, e a certa altura dois dos seus personagens mais divertidos. São uma dupla de trambiqueiros que Huck salva e traz a bordo da jangada. Os resgatados contam o que fazem e por que razão vinham sendo perseguidos pela população da vila, e, num episódio hilário, revelam ao menino e ao negro suas verdadeiras identidades: um diz ser um duque inglês, e o outro se confessa o delfim-herdeiro do trono da França. São dois heróis picarescos; cruzam-se nesse momento pela primeira vez, e daí em diante vão se envolver em mil pequenos golpes, encenações. E Huck comenta:
“Não levei muito tempo para compreender que aqueles
mentirosos não eram reis nem duques, coisa alguma, e sim simples vagabundos e
aventureiros. Mas nada disse, nem deixei transparecer; guardei-o para mim mesmo;
é o melhor; assim se evitam brigas e aborrecimentos. Se eles preferiam
intitular-se duques e reis, eu não tinha objeções a fazer, contanto que se
mantivesse a paz na jangada. E também não adiantava dizer a Jim, de modo que
não lhe disse. Se eu nunca aprendi nada que valesse a pena com papai, aprendi
pelo menos que a melhor maneira de lidar com essa espécie de gente é deixá-los
agir a seu modo.” (Cap. XIX, tradução de Alfredo Ferreira)
O duque e o rei, como passam a ser chamados, são uma dupla
cômica picaresca tradicional. Não são propriamente o Palhaço e o Besta, que
Ariano Suassuna identificava em muitas narrativas populares, e usava nas suas.
São dois espertalhões de personalidades e recursos diversos, em permanente luta
um contra o outro, o que não exclui alianças eventuais em função de um golpe
mais polpudo, ao fim do qual cada um procura trair o outro. Lembram os
personagens de Michael Caine e Steve Martin em Os Safados, só que numa
ambientação paupérrima de beira de rio, entre populações puritanas e crédulas.











