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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

2974) Paralímpico? (12.9.2012)




Não sou a única pessoa que se surpreendeu ao ser avisado, pela TV, que os Jogos Paraolímpicos chamam-se agora Jogos Paralímpicos. Não vi a menor razão para isso, porque mesmo que fosse necessário eliminar uma dessas vogais do meio da palavra (“...ao...”) o resultado, ao meu ver, deveria ser algo como “parolímpico”.  Por que?  Porque olímpico vem de Olimpíadas, palavra que por sua vez vem de Olimpo, o monte Olimpo da Grécia, onde viviam virtualmente os deuses antigos. Pra mim não faz o menor sentido mutilar a raiz da palavra amputando esse “O” inicial. Se alguma vogal tem que cair, que caia a do prefixo, ora. Não dizemos “hidrelétrico”?

O saite oficial do Comitê Paralímpico Internacional diz apenas: “A palavra paralímpico deriva da preposição grega ‘para’ (= ao lado de, ou ao longo de) e a palavra ‘Olímpico’. Seu significado é que os Jogos Paralímpicos são jogos paralelos às Olimpíadas, e ilustram como os dois movimentos existem lado a lado”.  Ninguém me explicou até hoje por que motivo os ingleses derrubaram o “O” olímpico, e espero que haja uma boa razão linguística e morfológica para esse absurdo, porque sentido aparente não há nenhum. (Talvez quisessem evitar a semelhança com “parole”, liberdade condicional?...)

O professor Pasquale Cipro Neto veio ao meu socorro em sua coluna (intitulada “Paralímpico: haja bobagem e submissão”) na Folha de SP (http://bit.ly/RnCAwl), que cito a seguir:

“A formação de ‘paraolímpico’ é semelhante à de termos como ‘gastroenterologista’, ‘gastroenterite’, ‘hidroelétrico/a’, ‘socioeconômico’, das quais existem formas variantes, em que se suprime a vogal/fonema final do primeiro elemento (mas nunca a vogal/fonema inicial do segundo elemento): ‘gastrenterologia’, ‘gastrenterite’, ‘hidrelétrico/a’, ‘socieconômico’. O uso não registra preferência por um determinado tipo de processo: se tomarmos a dupla ‘hidroelétrico/hidrelétrico’, por exemplo, veremos que a mais usada sem dúvida é a segunda; se tomarmos ‘socioeconômico/socieconômico’, veremos que a vitória é da primeira. O fato é que em português poderíamos perfeitamente ter também a forma ‘parolímpico’, mas nunca ‘paralímpico’, que, pelo jeito, não passa de macaquice, explicitação do invencível complexo de vira-lata (como dizia o grande Nélson Rodrigues)”.

Resumindo: os países de fala inglesa produziram a forma “paralímpico” e a impuseram aos demais países, que vêm a reboque na criação de organismos internacionais, entidades, eventos, etc. Estes se sentiram na obrigação de adotar essa forma, mesmo que ela não faça o menor sentido em seu próprio idioma. Não é o primeiro nem será o último caso em que isso acontece.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

2949) O futebol olímpico (14.8.2012)




E mais uma vez a medalha de ouro olímpica passou quicando entre as pernas dos nossos craques do futebol e caiu no ralo do esgoto.  Esta, aliás, é uma metáfora de muito mau gosto, e muito mal educada. Na verdade, a medalha de ouro foi para um destino muito melhor: como acontece com as medalhas de ouro, foi para quem soube merecê-la e lutar por ela.  O Brasil, mais uma vez não soube. A derrota para o México no jogo final surpreendeu muita gente, menos eu. Nunca botei fé nessa seleção, a mais fraca que vi nas Olimpíadas mais recentes. Vi quatro dos jogos anteriores à decisão, e em momento algum senti firmeza. Um time que tem que se desdobrar para ganhar de 3x2 de uma Honduras com dez jogadores? Fala sério. Esse jogo tinha sido um alerta, mas o injusto e desproporcional 3x0 na Coréia deve ter tranquilizado a Comissão Técnica, a CBF e a imprensa ôba-ôba. Eu mesmo não.

Nosso time tem três jogadores de Seleção: Thiago Silva, Marcelo e Neymar. (Todos têm defeitos, mas paciência, estamos em entressafra.) Tem quatro promessas: Leandro Damião, Oscar, Lucas e Paulo Henrique Ganso (a dúvida quanto a este é mais pela fragilidade física atual.)  Um jogador badalado como Alexandre Pato nunca me convenceu.  Hulk é uma promessa, mas vi-o jogar poucas vezes, e como é meu conterrâneo tenho a tendência de valorizar tudo que faz, sou suspeito. Mas as apresentações coletivas do time foram sempre atabalhoadas, misturando estrelismo, imaturidade emocional, e em muitos momentos uma deficiência técnica assustadora. Não gostei. Medalha pro México, que soube jogar e mereceu ganhar. Para nossos meninos, prata está até sobrando.

Os times de vôlei ganharam todo tipo de medalhas, e mesmo quando a gente fica chorando resultados específicos (como as decisões em que estávamos com o jogo na mão e deixamos virar), paciência, o jogo é assim, e quando somos nós que viramos achamos tudo muito normal. O vôlei olímpico está sempre nivelado pelo alto em meia dúzia de equipes, e é apenas a nossa carência afetiva que nos faz pensar que temos a obrigação de ser sempre os melhores.  Nos últimos vinte anos, estamos no lucro, e não temos o que reclamar dos atletas.

Ainda não sabemos administrar o nosso esporte. Quando dá resultado, o esporte vira um cabide de emprego e de negócios escusos, e quando conseguimos investimentos da iniciativa privada é sob a forma de contratos de propaganda cuja contrapartida é uma maratona de coquetéis, eventos, filmagens, badalações e negociatas que acaba virando a cabeça dos nossos atletas jovens que de uma hora para outra pensam que são craques (e não são) e que estão milionários (e não estão).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

2946) Locutores olímpicos (10.8.2012)


As transmissões esportivas durante os Jogos Olímpicos, com suas dezenas de esportes e de competições diferentes, mobiliza centenas de locutores e nos deleita com a espantosa variedade de tons de voz que acompanham essas transmissões, de acordo com a apoteose ou via-crucis que esteja sendo descrita. 

Existe, por exemplo, o tom “eufórico-estabanado”, aquele que o pessoal usa logo no início das competições, quando a adrenalina está solta, a cabeça está a mil, e os locutores sentem, como eles próprios dizem, “a História acontecendo diante dos nossos olhos”. Nessa hora vale tudo, vale o clichê, vale o grito de guerra, vale o grito de Tarzan. Quando o nosso time começa a massacrar o adversário, esse tom é substituído pelo “triunfalista-tripudiante”, em que o bravo falastrão começa a bordar firulas elogiando a ginga, a improvisação, o jeitinho brasileiro, aquele algo mais que nós temos e que é invejado pelos nórdicos, germânicos, orientais... Aí também vale tudo, inclusive zombar de quem está perdendo e puxar de um baú cheio de poeira resultados de 1900-e-cocada que estão sendo vingados agora.

As coisas não vão bem? O diapasão muda para o “roendo-raivoso-as-unhas”, quando o cara se irrita com os atletas, chama-os de estrelas mimadas ou de mercenários sem bandeira.  Ele havia trazido meia dúzia de bordões gozadores no bolso, e se desespera quando vê que não vai poder usá-los, porque a vaca está partindo rumo ao brejo. Os comentaristas também intervêm, e mesmo concedendo que muitos deles são sensatos e conhecem o assunto, nunca deixa de haver o tom de “titubeio-dos-mal-informados”, ainda mais quando se trata de esportes alienígenas como badminton ou luta greco-romana. Ouve-se claramente o roçagar das folhas de papel enquanto eles consultam os press-releases e os regulamentos.

No final de cada competição, fazendo a amarração final antes dos comerciais, ouvimos, dependendo do resultado, ou o “laudatório-ufanista-com-a-mão-no-peito”, quando o bravo apresentador nunca deixa de nos brindar com uma recordação pessoal de 15 ou 20 anos atrás, só faltando dizer que aquela vitória foi dedicada a ele em pessoa; ou então o “rancor-ressentido-contra-o-ídolo-que-não-correspondeu”, que usa uma retórica consoladora para destilar toda a decepção de quem mandou gelar o champanhe e não vai poder espoucá-lo. E tudo em geral se encerra com o tom “melancólico-conciliador-frente-à-crueza dos fatos”, quando a poeira mental começa a assentar e o sujeito sente-se no dever cívico de falar nas lições aprendidas, na necessidade de que as autoridades deem mais apoio ao esporte, e na esperança de que, “daqui a mais quatro anos...”.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

2060) Rio 2016 (15.10.2009)



Torci para que os Jogos Olímpicos viessem para o Rio. Torci porque queria ver a cidade comemorando alguma coisa. Nada é tão bom quanto o Rio comemorando. Alguns dos grandes momentos de euforia coletiva que já presenciei foram vividos nesta cidade, desde vitória na Copa do Mundo até comício das Diretas-Já, desde reveion em Copacabana até aquele famoso título carioca do Botafogo (o do gol de Maurício). Ao mesmo tempo, torci contra. Em parte por medo de uma desorganização catastrófica que tirasse de Atlanta o ouro de Jogos mais bagunçados das últimas décadas. E em parte porque, gato escaldado, sei que os Jogos Olímpicos servirão para fazer algumas centenas de novos milionários, e fim de papo.

O Rio é uma cidade que só merece coisas boas, mas o diabo é que também merece o ruim que lhe cai na cabeça, pois em geral foi ele mesmo quem buscou. O Rio é como um adolescente brilhante, inteligente, esperto, cheio de energia e de alegria de viver. O problema é que é também um adolescente vaidoso, daqueles que conversam com os outros olhando-se no espelho; um adolescente mimado, que gosta das coisas fáceis. Foi o Rio quem inventou o conceito do “jeitinho brasileiro”, aquele joão-sem-braço ideal para driblar a rigidez da burocracia, a obtusidade da lei, a frieza dos contatos impessoais. O problema é que o jeitinho descamba facilmente para a contravenção, a corrupção, o desvio, o desfalque, a lei-de-Gérson, o um-sete-um. Onde traçar a linha que separa as duas coisas? Impossível, pois não há uma linha, o que há é um centro-de-gravidade puxando os fatos para o lado da mera descontração e informalidade, e outro puxando-as na direção do calote e do estelionato.

O Rio é uma cidade de vocação hedonista, de viver com intensidade o momento presente e deixar que o futuro cuide de si mesmo. Ao mesmo tempo, a cidade tem um lado combativo, dinâmico, fazedor-de-coisas, que não a permite refestelar-se no “dolce far niente” da mera curtição. O Rio é uma cidade que gosta de fazer as coisas acontecerem. E uma cidade dividida (como um adolescente) entre o impulso de fazer e o impulso de fruir, entre o prazer de criar e o prazer de meramente consumir.

É engraçado a gente se referir assim a uma cidade, comparando-a a uma pessoa como se ela fosse uma coisa única, e não (como de fato é) um aglomerado de milhões de pessoas e milhares de grupos puxando mil brasas para mil sardinhas. Esta, contudo, é uma simplificação necessária para se lidar com entidades complexas. Uma pessoa não é muito diferente de uma cidade, pois uma pessoa também é um aglomerado de forças contraditórias, impulsos em conflito, hesitações, venetas, mudanças de rumo, teorias e práticas que entram em colisão o tempo inteiro. E mesmo assim dizemos que Fulano é um sujeito ponderado, Beltrano é um interesseiro que só quer se dar bem e Sicrano é um bom administrador. O Rio é a soma total de suas contradições, mas existe algo nele que sempre nos permite esperar pelo melhor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1710) Artista não pode errar (4.9.2008)



(Diego Hipólito)

Certas formas de arte buscam a perfeição. Ao ver certas esculturas gregas ou ler certos contos de Maupassant a gente vê ali um cristal, uma forma definitiva e irretocável. A palavra “perfeição” é questionável do ponto de vista filosófico, mas pode ser aceita para situar nossa reação emocional diante de coisas assim. Elas não podem ser perfeitas, por definição. Mas bem que parecem.

Mais difícil é você alcançar a perfeição em algo móvel, algo fluido, algo que precisa ser recriado a cada vez que acontece: um pianista tocando Chopin, uma bailarina executando uma coreografia, um ator fazendo ao vivo o monólogo de Hamlet ou (mais difícil ainda) o monólogo de Lucky em Esperando Godot. Não importa quantas vezes o artista já tenha feito aquilo certo. Quando começa a fazer de novo, ele está em pleno mergulho no Aqui-e-Agora, não pode errar, e o fato de ter feito certo antes não é nenhuma garantia de que vai acertar agora (a não ser a convicção de que “posso acertar, sim, já acertei”). Como dizia o poeta Gil, “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.

Lembram-se de Diego Hypólito nas Olimpíadas? Pois é, o fato de você ter atingido a perfeição mil vezes nos treinos não é garantia suficiente (está provado) de que vai atingi-la de novo na hora do vamos-ver. Quem esculpe a Vênus de Milo uma vez, quem escreve “Ouvir estrelas” ou “A máquina do mundo” uma vez, não precisa fazer isso de novo no mês que vem. A perfeição do gesto resultou na perfeição do objeto, e este não pode ser cancelado por qualquer erro futuro. No caso das artes da performance (e aqui, curiosamente, o esporte e a arte se fundem numa coisa só), é preciso, sim, ser perfeito de novo, e de novo, e de novo...

Um repentista estava numa cantoria de pé-de-parede (Ivanildo Vila Nova me contou esta) e o colega lhe fez uma crítica. Ele respondeu com esta sextilha antológica: “Meu amigo e camarada / não faça isto com mim... / Colega de profissão / com outro não faz assim! / Pelo cálice de amargura / que Jesus Cristo bimbim!” Parou de rir, amigo? Vou explicar. Ele planejou mentalmente a sextilha para terminar dizendo: “... que Jesus Cristo bebeu”. Quando começou a cantá-la, viu que não podia dizer: “... não faça isto com eu...”, talvez tenha até pensado em dizer “...comigo...”, mas viu que também não dava, e a boca resolveu a hesitação dizendo “com mim”. Tudo isso, colegas, se decide na fração de segundo em que a boca escolhe a palavra a dizer. Depois de ter dito este fatídico “mim”, ele fez dois versos intermediários em que conseguiu encaixar uma rima correta (“assim”), mas aí, quando chegou no verso pronto para o final... não encaixou. Deu-se a catástrofe.

Foi assim com Diego Hypólito. Fez tudo certo, a corrida, a cambalhota, a rolada no chão, o duplo-mortal-carpado... Mas no meio do processo houve algum vacilo, hesitação, esquecimento. Em vez de finalizar o verso com os dois pés no tablado e os dois braços erguidos... Bimbim.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

1702) Em busca do choro olímpico (26.8.2008)



(César Cielo)

Passei estes dias tomado pelo espírito olímpico. Ia dormir às 3 da manhã, depois de acompanhar esportes que não compreendo, como o handebol ou a natação (até hoje não sei quantos metros tem aquela piscina, nem quantas vezes o nadador tem que percorrê-la). E acordando às 7 para ver o futebol. Só me arrependi no dia de Argentina 3x0 Brasil, mas também, por essa eu já esperava. Já não boto fé na Seleção titular de Dunga, quanto mais nos vestibulandos!...

Quando juntamos todos os esportes do mundo, e toda a imprensa que os cobre, numa mesma Vila Olímpica, isso produz uma gigantesca massa crítica de frases feitas, que de 4 em 4 anos se repete. Nada é tão parecido com uma Olimpíada quanto a Olimpíada anterior. Entre os clichês mais repetidos, pelo menos pelos locutores brasileiros, está a frase lapidar que eles bradam, sempre que alguém ganha uma semi-final: “Agora vamos para a decisão, e a prata já está garantida!” Se eu fosse um atleta diria: “Toc-toc-toc! Isola! Meu amigo, vá agourar outro!” Porque a última coisa que o sujeito tem que pensar nessa hora é que vai ganhar a prata, não é mesmo? Se perder o jogo, a prata é de bom tamanho. Mas dizer que ela “está garantida” é o mesmo que dizer que a derrota está garantida.

Foi mais ou menos o que ocorreu com os rapazes do vôlei. Claro que foram “pra cima”, tentando o ouro. Nenhuma prata é mais dolorosa do que a que vem no lugar de um ouro que se sabia possível, como ocorreu no futebol feminino e no vôlei masculino. Neste último caso, de forma menos dolorosa, porque o jogo foi pau-a-pau. Em nenhum momento o time de Bernardinho mandou no adversário, que ganhou porque jogou melhor. Não foi assim no futebol das moças. Aquele jogo final do time da Marta nos deu ambição, nos deu esperanças, nos deu “espaço para a expansão do Desejante”, como diria um psicanalista. O resultado era pra ter sido outro.

Estes Jogos Olímpicos nos deixaram um gosto amargo na boca, apesar das vitórias sensacionais do vôlei feminino, de César Cielo e de Maurren Maggi. Das nossas quatro pratas, a de Scheidt & Bruno foi uma vitória. As dos vôleis de quadra e de praia, e a do futebol feminino, ocorreram em disputas em que éramos favoritos e que deveríamos ter vencido. As medalhas de bronze foram sofridas e suadas; a única que representou uma decepção, desta vez, foi a do futebol.

A imprensa otimista se consola lembrando que fomos o país latino-americano mais bem colocado, e que pela primeira vez ganhamos mais medalhas do que Cuba. Isso é uma cara-de-pau sem tamanho. Cuba é uma ilhota que vem sendo morta à míngua pelos EUA há 50 anos. Não precisa ser comunista para achar que é um despropósito compará-la com este gigantesco continente de corrupção e desperdício que é o Brasil. Pelo que o país afirma gastar com esportes (os jornais falam hoje em 692 milhões de reais gastos em preparação para este Olimpíada) a obrigação era mostrar muito mais. E não me refiro aos atletas.

sábado, 14 de novembro de 2009

1367) A pirâmide olímpica (1.8.2007)



O esporte olímpico consagrou a imagem do pódio para os três melhores colocados: ouro, prata e bronze. Em torno dessa comemoração, existem duas atitudes diferentes. Uma é a dos atletas que repetem sem cessar, como cansamos de ver nesse Pan do Rio: “Estou muito feliz com este bronze...”, “Esta prata para mim vale ouro...”, e assim por diante. A outra é a dos torcedores que torcem o nariz para as medalhas de prata e achincalham os ganhadores do bronze: “Essa aí não vale nem uma tampa de garrafa”.

Por um lado eu compreendo. A prata é aquele prêmio que se conquista com uma derrota. Quem ganha a prata, teoricamente, era o sujeito que estava tentando ganhar o ouro, foi para a final, teve chance – e não conseguiu. É compreensível, até certo ponto, que o torcedor o veja como um derrotado. E que alguns medalhistas de prata tenham no pódio aquela expressão meio vaga, meio taciturna, de quem só está ali porque o regulamento obriga, mas se pudesse já tinha trocado de roupa e voltado direto pro hotel, para trancar a porta do quarto e apagar a luz. Quanto ao bronze, é o prêmio dos que “bateram na trave”, não conseguiram nem sequer ir à final.

O pódio com seus dois degraus é apenas o topo minúsculo de uma pirâmide gigantesca. Abaixo daquele segundo degrau, onde estão a prata e o bronze, está outro com quatro lugares, e depois um com oito, outro com dezesseis, outro com trinta e dois, e assim por diante, em progressão geométrica. Essa pirâmide é formada pelos atletas que disputaram as competições classificatórias e eliminatórias que um medalhista atravessa ao longo de anos e anos para poder alcançar os índices que lhe permitiram ir ao Pan, à Olimpíada ou ao Mundial da sua categoria. Se pudéssemos reunir em carne e osso todos os atletas que participaram dessas disputas, teríamos uma pirâmide-de-degraus da altura da Pirâmide de Quéops, e talvez precisássemos de um binóculo para ver lá no topo, miudinhos, os três medalhistas.

Como todo subdesenvolvido, como todo mundo que tem pouco, o torcedor brasileiro é Desejo puro. No futebol, ganhar uma Copa do Mundo já não nos basta: é preciso ganhar de goleada, e ridicularizando o adversário, dando olé, dando toquezinho. Quando simplesmente ganhamos mas não damos baile, como em 1994, os exigentes fazem cara feia. Essa mesma mentalidade, de quem tem tão pouco que só se contenta com tudo, é a que nos faz esnobar as pratas e os bronzes conseguidos por nossos atletas.

O atleta que ganha um bronze pode considerar que naquele momento, naquela modalidade, só existem dois caras melhores do que ele, e existem centenas ou milhares que ele deixou para trás, direta e indiretamente. Ser o terceiro num grupo de mil não é brincadeira. E não é uma derrota, mesmo que o derradeiro jogo tenha sido perdido. As medalhas são atribuídas em função do resultado da última disputa, mas quem sobe ao pódio está no ponto final de uma escalada cujo percurso se perde de vista.

sábado, 26 de julho de 2008

0467) Quero ver o espírito olímpico (17.9.2004)


(Cameron Clapp)

O leitor há de ler este título e estranhar: “Oi, lá vem ele de novo com Olimpíadas! Vire o disco, cidadão! A Olímpíada já acabou!” Ledo engano, meu camarada. Os verdadeiros Jogos Olímpicos começam hoje, dia 17 de setembro, em Atenas, reunindo 4 mil atletas de 144 países para disputar 19 modalidades esportivas. Você vai ver muito pouca coisa na imprensa, mas pasme: há coisas que acontecem de verdade, pertencem ao mundo real, e nunca aparecem no jornal ou na TV! Pois bem: é hoje a abertura dos “Jogos Para-Olímpicos” de Atenas, os jogos para pessoas que portam algum tipo de deficiência. Basquete em cadeira de rodas, atletismo para deficientes visuais, natação para amputados, e assim por diante. Na organização e logística dos Jogos trabalham 35 mil indivíduos, sendo 15 mil deles voluntários.

Numa nota recente no blog “Boing Boing” (http://www.boingboing.net/), o jornalista britânico Stuart Hughes (BBC) registrava o fato de que nenhuma rede de TV dos EUA iria cobrir os Jogos Para-Olímpicos de Atenas. Isto apesar dos 200 milhões de espectadores (e cerca de 60-70 milhões de dólares de lucro) que a NBC teve cobrindo os Jogos Olímpicos recentemente encerrados. A nota do “Boing Boing” era ilustrada com a impressionante foto de Cameron Clapp disputando uma prova de atletismo, com duas pernas artificiais e sem o braço direito. Clapp, um garoto norte-americano de 18 anos, foi mutilado por um trem em setembro de 2001, mas recuperou-se e, com a ajuda de próteses mecânicas, tem participado de vários eventos esportivos. (Vejam as fotos e a história em: http://www.cameronclapp.com/home.asp) .

Por que motivo Jogos Para-Olímpicos não despertam o mesmo interesse que os outros? Mistério. As Olimpíadas nos fascinam por mostrar a nossa possibilidade de superar obstáculos, de ultrapassar limites, de conseguir o que nunca foi conseguido antes. São um espetáculo de afirmação das possibilidades infinitas do corpo e da mente. Ora... então, meus camaradas, por que não democratizar essa admiração? Está uma coisa muito parecida com a democracia ateniense, onde todo mundo era muito livre, todo mundo era artista, todo mundo era filósofo... menos os escravos, que davam duro para sustentar aquele luxo todo.

A verdade é que as Olimpíadas “normais” nos mostram o lado bonito do corpo, e os Jogos Para-Olímpicos nos mostram os dois lados: a força e a fragilidade, a beleza e a feiura, a glória e a tragédia. É um tema pesado demais, e a indústria cultural talvez não esteja preparada para lidar com isto. Melhor fazer de conta que todo mundo é igual, que todo mundo é perfeito, que desgraças não acontecem e não precisam ser enfrentadas. Hollywood até que tem uma tradição de endeusar deficientes mentais (Forrest Gump, I am Sam, Rain Man...) mas a TV americana não quer mexer nessa área sensível: os deficientes físicos. Até mesmo entre os gregos, o único deus coxo foi arremessado para longe do Olimpo e trancafiado num subterrâneo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

0456) Estatísticas olímpicas (4.9.2004)



Um humorista disse certa vez que as estatísticas são como os biquínis: o que mostram é interessante, mas o que tentam esconder é mais interessante ainda. Todo cômputo estatístico obedece a critérios escolhidos por quem o organiza. Governos e oposições passam a vida inteira invertendo as estatísticas divulgadas pelos adversários, para mostrar que a situação é outra. E outro humorista disse que um estatístico é um cara para quem um sujeito com a cabeça num forno e os pés num “freezer” está, estatisticamente, em boa situação.

O Australian Bureau of Statistics, órgão do governo australiano, resolveu fazer uma estatística própria do quadro de medalhas olímpicas, que é organizado, como sabemos, em ordem decrescente do número de medalhas de ouro conquistadas. Os australianos estão animados com os Jogos Olímpicos, desde que os sediaram em Sidney-2000, conquistando um ótimo 4o. lugar. Agora, em Atenas, repetiram a colocação. Pois o pessoal do ABS propôs um critério: Que tal se a gente relacionasse o número de medalhas de ouro com o número de habitantes do país? Porque é claro que a China, com mais de um bilhão de pessoas, tem mais chances de produzir medalhistas do que Mônaco ou Andorra.

O saite onde estão estes cálculos tem um endereço quilométrico, que espero saia por inteiro aqui no jornal: http://abs.gov.au/Ausstats/abs@.nsf/57a31759b55dc970ca2568a1002477b6/be9f47591541e29eca256ef40004f25a!OpenDocument . Se não achar e quiser uma cópia, caro leitor, me mande um email. Porque nossos amigos austrais chegaram à conclusão de que o grande vencedor dos Jogos de Atenas não foram os EUA, e sim as Bahamas, que com pouco mais de 300 mil habitantes faturaram um ouro e um bronze. Em segundo lugar vem a Noruega, que com 4 milhões e meio de pessoas ganhou 5 ouros e 1 bronze. Em terceiro aparece (adivinhem!) a Austrália, que com uma população de 20 milhões ganhou este ano 17 ouros, 16 pratas e 16 bronzes.

É um conceito interessante, concorda? Eu acho que tem uma certa lógica, mesmo constatando que por este cálculo o Brasil cai de 18o. para 55o. lugar. O que me consola é ver a queda dos três primeiros colocados no ranking oficial: os EUA despencam de 1o. para 34o., a China de 2o. para 53o. e a Rússia de 3o. para 22o.

Tiro disto duas lições. A primeira é que por mais que uma conquista esportiva seja um valor em si, é sempre útil vê-la no contexto econômico e social da disputa. (Penso nisto sempre que vejo o São Caetano no campeonato brasileiro) A segunda é que a arte da estatística consiste em pegar um quadro de número frios, objetivos, organizados em fileiras e colunas... e observá-lo de todos os ângulos possíveis, até encontrar um que mostre aquilo que queremos ver. Que tal se a gente organizasse o quadro olímpico em função da renda per capita? Ou da quantidade de associações esportivas e atléticas? Ou do total de verbas investidas pelo governo? Quem sabe a gente não melhoraria esse 18o. lugar?

0455) O momento de decisão (3.9.2004)



Ainda emocionado pela medalha de ouro do time de vôlei, voltei a ligar a TV durante a tarde para pegar o finalzinho da Maratona. Gosto de maratonas e de corridas-de-São-Silvestre, mais do que das provas de velocidade. Gosto desses esforços do tipo devagar-e-sempre, se bem que devagar não é bem o termo. Não me identifico muito com a explosão do “sprinter” que faz 100 metros em 10 segundos. Gosto mais do cara que é capaz de sustentar uma teimosia durante quarenta quilômetros, cinqüenta anos, esse tipo de coisa.

Surpresa! Quem está liderando é um brasileiro, Vanderlei Cordeiro de Lima. Lá vem ele, deixando para trás um pelotão de fundistas, inclusive aquele crioulo magro, o queniano Paul Tergat, que já conheço de outros reveions. Vanderlei vem com 40 segundos de vantagem! Fico aos pulos por dentro de casa. Já pensou? A gente encerrar a Olimpíada ganhando o ouro na Maratona, a prova mais tradicional de todas?

De repente... que é isso? Um sujeito maluco, fantasiado, invade o asfalto, abraça Vanderlei, empurra-o para fora da pista, derruba-o na calçada, no meio da multidão! Há um tumulto generalizado. As câmaras da TV se aproximam. Guardas e fiscais da prova estão tendo trabalho para separar os dois. Vanderlei está possesso: “Como é que pode! O cara me tirou da pista! Eu ia ganhar a prova!” Os fiscais, atarantados, falam nos walkie-talkies. Vejo flashes rápidos do público que espera no Estádio Panathinaiko, a consternação de todos ao contemplar pelo telão o enorme “salseiro” armado em torno da briga. Outros corredores perdem um tempo precioso tentando varar a multidão, que invadiu a pista. Minutos depois já temos flashes das autoridades do COB exigindo a anulação da prova – que aliás acabou sendo interrompida mesmo, devido ao tumulto. Aparece um novo flash com Vanderlei. Ele está nervoso, revoltado: “Eu ia ganhar. Todo mundo viu que eu vinha na frente. Não ganhei por causa do cara. Quero minha medalha!”

Não foi bem assim, não é, caro leitor? O mundo inteiro viu que Vanderlei perdeu uns 15 segundos desvencilhando-se do maluco, e voltou à corrida. Ele poderia perfeitamente ter “armado o maior barraco”, convocado testemunhas, chamado os advogados, pressionado o Comitê para que lhe desse ali mesmo a medalha, e mais uma polpuda indenização-por-danos-morais-e-materiais. Conheço uma porção de “desportistas” que fariam exatamente isto. Vanderlei, não. Perdeu tempo, perdeu pressão, e ficou meio desorientado – tanto que acabou ultrapassado pelos dois corredores que chegaram à sua frente; mas não parou, e creio que nem pensou em parar. Espírito olímpico? Bravura? Patriotismo? Acho que não. Acho que Vanderlei é acima de tudo um maratonista, e a lei do maratonista, menos do que chegar em primeiro, é mostrar que consegue completar a prova. Vanderlei tomou a decisão certa, na fração de segundo que teve para decidir. Que os deuses da Grécia o abençoem. E nos iluminem com seu exemplo.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

0452) Escalando o monte Olimpo (31.8.2004)



O futebol pode ser o esporte que mais nos apaixona: todo brasileiro (este “todo” é uma hipérbole, claro) sabe de cor a escalação da Seleção atual, e tem no bolso da camisa sua escalação preferida, que é muito melhor do que a do Parreira. Mas não é a Copa do Mundo o evento esportivo que nos define como povo. São os Jogos Olímpicos, onde participamos, como todo mundo, com o que temos de melhor em cada esporte. Por suprema ironia, nestes Jogos de Atenas ficou de fora justamente o nosso filho mais brilhante e mais mimado, o futebol masculino, que no Pré-Olímpico resolveu rebolar e usar salto alto, e acabou sendo substituído pelo futebol feminino, que, sabiamente, preferiu correr e calçar chuteiras.

Ganharam a prata, as meninas, e um dos indicadores do nosso fracasso como nação esportiva é o fato de que provavelmente continuarão todas desempregadas, treinando por conta própria, perdendo jogos decisivos para equipes mais preocupadas em finalizar jogadas para dentro do gol do que em “quebrar uma escrita que já dura tantos anos”, ou “mostrar por que somos o país do futebol”, ou “resgatar a auto-estima da mulher brasileira”, ou bobagens semelhantes que os cartolas e nós, da imprensa, vivemos repetindo.

Batemos pino no futebol, e vemos subir ao pódio o pessoal da vela, do iatismo. Vi um crioulo resmungar, diante da TV de um botequim, que mostrava a entrega de uma medalha a Torben Grael ou Robert Scheidt: “Agora danou-se, até no esporte eles estão tomando o lugar da gente.” Na cabeça desse indivíduo, certamente, há uma olimpiadazinha interna no Brasil entre ricos e pobres, e ele via com preocupação o fato de nossos ex-favelados estarem indo pro espaço nas eliminatórias, enquanto o pessoal de olho azul e sobrenome europeu singra como cisnes brancos as águas da vitória.

Não concordo, mas compreendo. As Olimpíadas têm que nos representar como povo, num corte vertical onde estejam presentes todas as camadas de gente que nos compõem. O problema é que elas refletem também nosso imenso conflito emocional, de gente que quer compensar seu complexo-de-inferioridade adquirindo um complexo-de-superioridade. Em Atenas 2004 ganhamos quatro ouros que compensaram a frustração de Sidney 2000. Naquele ano, publiquei no “Jornal da Tarde” de São Paulo um artigo em que dizia:

“Falta de patrocínio, excesso de patrocinadores, instabilidade emocional, paúra de novato, traumas de veterano, influência daninha do marketing, assédio invasivo da imprensa, falência do modelo neo-liberal – tudo já foi invocado para explicar por que motivo na hora H nossos atletas dão aro. Eu não gostaria de, na hora de cortar de encontro a um bloqueio, estar pensando na percentagem da cota, na revisão do contrato, na fogueira das vaidades, nas expectativas do fã-clube, na manutenção de uma escrita, na coletiva do aeroporto... Eu queria poder estar pensando apenas na bola, no tempo, no espaço, na rede, no olho, no braço.”

quinta-feira, 17 de julho de 2008

0449) O ovo olímpico (27.8.2004)



Brasileiro adora contar com o ovo no asterisco da galinha. Ainda mais quando se trata da galinha-dos-ovos-de-ouro da glória olímpica. É engraçado comparar a empáfia brasileira com a empáfia norte-americana. Os nossos simpáticos irmãos do Norte se acham os donos do mundo em qualquer coisa. O campeonato de beisebol deles é chamado de “World Series”, mas tudo bem – afinal, quantos países jogam beisebol além dos EUA, Cuba e Japão? Faz um pouco de sentido. Não faz é no basquetebol. O nível da NBA americana pode ser impressionante, mas fora dos EUA sempre existiram escolas de basquete respeitadíssimas. Não importa: me lembro de que um dia desembarquei em Chicago e vi o aeroporto de Ohare totalmente decorado com faixas dizendo: “Saudamos os Campeões do Mundo!” Era o Chicago Bulls que tinha acabado de conquistar o campeonato americano.

O Brasil é o contrário. Tirando o bendito futebol, que anda numa fase boa (duas Copas e um vice nos últimos 10 anos), os vôleis e alguns esportes aquáticos, estamos entre os melhores em que, mesmo? Note a sutileza, leitor: não falei “somos os melhores”, e sim “estamos entre os melhores”, o que na minha modesta opinião exprime muito melhor a realidade do esporte. Ninguém “é o melhor” em coisa nenhuma. No esporte, o que existe é uma espécie de grupo de elite que vai de dois ou três até uma dúzia de competidores, todos mais ou menos num mesmo nível. Os resultados se decidem por detalhes: preparação técnica e física, inovações táticas, nervos no lugar, etc. Sem falar no Sobrenatural de Almeida, o personagem criado por Nelson Rodrigues, e que melhor traduz o elemento imponderável e imprevisível que tantas vezes decide uma competição.

O engraçado é que quando se trata da honra da pátria brasileira, parece que até o Sobrenatural de Almeida é barrado na porta. Vi numa TV, semana passada, o locutor anunciando eufórico: “E não percam, na próxima segunda-feira, a transmissão do ouro olímpico de Daiane dos Santos!” Pobre de Daiane, que treina 7 horas por dia. Parecia ser ela a única a saber que ao trilar do apito tudo é zerado, e você tem alguns segundos para tentar a perfeição pela milésima vez. De nada adiantam os resultados anteriores. Na véspera da final, ela disse: “Treinei, repassei a série toda, o joelho não doeu, estou bem. Agora, quando for na hora tem que sair tudo certo.”

Certa vez Zico comentou um fracasso da nossa Seleção: “Parece que eles não foram disputar uma medalha, foram buscar uma medalha.” Daiane foi disputar. Tinha vencido cinco competições seguidas, mas isto nunca garante que alguém vencerá a sexta. Resultados não se acumulam. O que se acumula (e é patético termos que reconhecer isto) é o nosso complexo de inferioridade de terceiro-mundistas, sempre esperando o salvador-da-pátria que vingue todas as nossas humilhações passadas. Peso demais para quem busca a perfeição em um minuto e meio.

domingo, 13 de julho de 2008

0443) No Olimpo da arrogância (20.8.2004)



Escrevo estas linhas na terça-feira passada, dia 17, e os Jogos de Atenas já mostraram algumas cenas memoráveis. O Brasil já ganhou dois bronzes no judô, e no vôlei travou uma batalha memorável com a Itália (33 x 31 no “tie-break”). Vi a pernambucana Joana Maranhão arrasando na piscina, vi Guga sofrendo na quadra, vi nosso futebol feminino matando de inveja o masculino, vi o basquete de Porto Rico derrotar o Dream Team americano.

O que me traz ao assunto principal: a arrogância dos americanos. Já comentei nesta coluna que poucas pessoas são tão americanizadas quanto eu, mas é duro agüentar o marketing, a pose, a marra, o desprezo-pelo-mundo que passa nas atitudes de muitos atletas dos EUA. Vai daí que ninguém torceu tanto quanto eu para que o truculento Michael Phelps não conseguisse ganhar as 8 medalhas de ouro que prometeu. (Até agora ganhou 2 e perdeu 2) O basquete já tomou sua sapecadazinha, e o futebol tem-com-que-me-pague daqui pro fim. E hoje de tarde, paradoxalmente, vi a derrota da única equipe americana que não me incomodaria de ver ganhar: a da ginástica feminina. Todas aquelas meninas, não importa o país, me parecem igualmente frágeis e fortes, intensamente físicas e misteriosamente etéreas. Ganharam o ouro as romenas. Menos mal.

Quando falo na arrogância, não é preconceito nacionalista. Uma das grandes qualidades do povo americano é a sensatez, a simplicidade, os pés-no-chão. É o dinheiro que está acabando com isso. Mas há quem mantenha os olhos abertos. Dan Wetzel, comentarista de esportes do Yahoo, pergunta: “Afinal, quem inventou essa história de Phelps ganhar 8 medalhas de ouro? Foi ele mesmo, num rompante de audácia juvenil, que pensou: ´Por que não sugerir o impossível´? Foi sua equipe de marketing no Octagon Group, ansiosa para ganhar a guerra da mídia? Foi a USA Swimming, desesperada por atenção, e vendo nisto uma bela chance? Foi a Speedo, cuja equipe de relações públicas faturou um milhão de dólares em publicidade gratuita ao oferecer um milhão a Phelps, se ele conseguisse?”

Vinte anos atrás, em plena Guerra Fria, o espírito olímpico transformou-se numa guerra particular entre comunistas e capitalistas, com boicotes, perseguições e acusações de parte a parte. Tivemos olimpíadas sucessivas sem os melhores atletas do mundo, só porque se realizavam “em território inimigo”. Depois que a URSS caiu de podre, quem tomou conta foi o espírito do marketing comercial, de badalação, de mercado onipotente, de vitória a qualquer custo. Sem um adversário específico à altura, os americanos assumiram uma postura imperial, de insuportável arrogância. Wetzel lembra o slogan da Nike para os Jogos de Sidney: “Você não ganha a prata. Você perde o ouro”. É essa a mentalidade esportiva que se quer passar para a garotada em volta das quadras, dos campos, das piscinas. A prata e o bronze são um símbolo de derrota, num mundo dominado por marqueteiros que nunca praticaram esporte.