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segunda-feira, 8 de abril de 2019

4454) "A Conversação": os escutadores de segredos (8.4.2019)



Por causa do atraso de um voo noturno, precisei pernoitar longe de casa para pegar um avião na manhã seguinte, e a companhia aérea me botou num hotel. Foi entrar no quarto, ligar a TV e ver que estava começando uma exibição de A Conversação (The Conversation, 1974) de Francis F. Coppola.

Anotei isso no capítulo das coincidências, porque uma semana atrás eu estava placidamente em casa tomando a minha Itaipava e revendo pela enésima vez Blow-Up (1966) de Michelangelo Antonioni, o filme em que o de Coppola se inspirou parcialmente. (Numa entrevista que está no YouTube, ele diz que só viu Blow Up depois de já estar trocando idéias com o colega Irwin Kershner a respeito de um filme sobre espionagem eletrônica.)

O filme de Antonioni é sobre fotografia, o de Coppola é sobre gravação de áudio, mas ambos contam a história de um profissional calejado, introspectivo, desdenhoso, que registra à distância o encontro de um casal de jovens e depois, manipulando os próprios registros, percebe a trama e a execução de um assassinato.

Como se dissesse que toda história de amor tem por trás de si uma dança, uma coreografia de movimentos para escapar à morte, sem conseguir.


No filme de Coppola, o personagem é Harry Caul (Gene Hackman), um “araponga” escutador de conversas alheias, ou, como eles gostam de se apresentar, “um profissional da área de segurança, vigilância e informação”. Ele é contratado por um magnata para espionar o casal e gravar suas conversas. Os dois (de um modo assustadiço e dissimulado) se encontram durante a hora de almoço, numa praça cheia de gente, no centro dos prédios de escritórios, e falam andando sem parar, justamente como quem teme estar sendo espionado.

Harry Caul desenvolveu uma técnica própria com 3 microfones de distâncias variáveis, resultando em 3 diferentes rolos de fita que ele vai depois filtrar, ampliar, equalizar e justapor. As cenas de gravação e depois da recuperação das falas são um primor de montagem (Richard Chew; a edição de som é de Walter Murch), comparável às cenas semelhantes da revelação e ampliação das fotos em Blow Up (montado por Frank Clarke).

Há duas cenas notáveis, uma logo depois da outra. A primeira delas é a surrealista convenção de arapongas, de espiões eletrônicos. Coppola afirma que essas convenções existiam de fato mas foram tornadas ilegais depois de 1968. Eles recriaram uma delas para o filme. São estandes e mais estandes de sujeitos anônimos, nerdosos, envelhecidos, oferecendo suas engenhocas de áudio e vídeo camufladas; e Harry Caul, que até então a gente vê como um zé-ninguém, um mero sujeito arredio e mal-humorado, pela primeira vez é tratado como um ídolo, um craque, “o maior de todos”.


Logo em seguida, Caul leva os amigos (e concorrentes) para o armazém onde faz seus trabalhos. Ali se segue uma complexa sequência de diálogos e marcações onde fica evidente o ambiente cobra-engolindo-cobra em que vive esse pessoal de vigilância. Ninguém confia em ninguém, todos dão tapinhas nas costas de todos, todos estão prontos para furtar os segredos dos colegas na primeira chance que tiverem.

Coppola narra o filme com uma precisão detalhista que está a léguas dos ambientes limpos e vastas extensões de cor uniforme que a gente vê em Blow Up. Gene Hackman, soturno, introvertido, azedo, tem uma atuação minimalista e brilhante, usando roupas desmazeladas, relacionando-se de forma patética com as mulheres. Toca sax sozinho em casa, acompanhando um disco. Seus únicos instantes de prazer são quando se relaciona com instrumentos.



Há algumas piscadelas de olho na direção de Blow Up, como a música de jazz (Herbie Hancock no primeiro filme, Walter Shire no seguinte), sem falar no mímico de rosto pintado que passa perto do casal na praça, numa clara referência ao filme inglês.

O personagem de Harry Caul é também muito mais complexo e mais bem construído do que o Thomas de David Hemmings. Anos atrás, Caul gravou conversas políticas entre dois homens a sós, num barco, no meio de um lago; uma façanha técnica tão impossível que um deles atribuiu o vazamento da conversa ao outro, e mandou torturá-lo e matá-lo junto com a mulher e o filho. Caul é católico, e nunca conseguiu se perdoar por isso.


A Conversação é um filme sobre tecnologia e, curiosamente, eu imagino que um verdadeiro profissional da tecnologia digital de hoje, anos-luz à frente do material analógico e magnético usado pelos personagens do filme, entende tudo que se passa ali e se entusiasma do mesmo jeito. Porque não é o aparelho pesadão e antiquado que conta, é a mente de quem maneja o aparelho. São as pequenas jogadas criativas que se pode produzir com um aparelho qualquer; é o conhecimento refinado do que cada aparelho pode fornecer.

A manipulação política e a manipulação criminosa da tecnologia nunca vão deixar de existir, e ela repousa sempre (para benefício do criminosos e dos políticos) na existência desses nerds quarentões, que vivem para o técnica, que não pensam noutra coisa senão a técnica, que têm dificuldade até de ir para a cama com uma mulher porque a cabeça está pensando em filtros de áudio, em microfonagem de feixe direcional, em bugs miniaturizados e camuflados sabe-se lá onde. Eles só pensam nisso.

Coppola ganhou com este filme uma Palma de Ouro em Cannes, três indicações ao Oscar e uma carrada de prêmios por aí. Curiosamente, mesmo sendo um dos seus melhores filmes (para algumas pessoas, o melhor de todos) ninguém fala mais nele.

Hoje, na época das câmeras big-brother espalhadas pelas metrópoles, dos milhões de celulares fotografando tudo em todo canto, da espionagem do Estado e contra o Estado, da Mídia Ninja, das fake news, do Photoshop e do “audio doctoring”, é talvez mais presciente e mais atual do que os filmes que o diretor fez sobre a Máfia e sobre a Guerra do Vietnam.















quinta-feira, 29 de outubro de 2015

3958) A ditadura do chiclete (30.10.2015)



George Orwell previu a TV onipresente e vigilante; Aldous Huxley previu as drogas recreativas. Disse ele que mais importante do que praticar violências contra a população é dar-lhe pão e circo. Hoje, as ditaduras eletrônicas cobram caro pelo pão e pelo circo, e todo mundo paga feliz. A publicidade vive a bradar: “Não se reprima! O mundo lhe deve todos os seus sonhos! Você está aqui para satisfazer seus desejos, e seus desejos são estes produtos que oferecemos aqui! Quem tentar impedir você de se divertir é um fascista.”  Esta é a linguagem da publicidade, idioma preferencial do capitalismo de consumo. O desejo é o desejo de possuir alguma coisa que está à venda. A felicidade está mais no ato de comprar do que no de consumir, porque é o primeiro que é estimulado, e assim que ele se cumpre percebemos (meio inconscientemente) que o segundo não nos era tão indispensável assim. Na verdade eu não queria ler esse livro, queria comprá-lo.

O discurso publicitário pós-anos 1960, pós-contracultura, apoderou-se de todas essas senhas dirigidas à juventude: desejo, vontade, aventura, afirmação de independência, de liberdade, individualidade. “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Como previu Huxley, as ditaduras do Super Ego repressor foram substituídas no Ocidente pelas ditaduras do Ego gratificado. O chiclete é mais eficaz do que o chicote. Em vez de reprimir, melhor manipular e direcionar os impulsos da multidão. Dar aos prisioneiros conflitos localizados e estanques, onde possam descarregar suas energias: o esporte, as eleições. A alternância de vitórias e derrotas que não mudam nada serve para dar a sensação de que “agora vai ser diferente”.

O próximo estágio é a participação eletrônica, interativa (vide as votações do “Big Brother”), que produz uma sensação de consulta democrática, “aqui quem decide é o povo”. Além de ser uma boa fonte de renda repartida entre a TV e as telefônicas, esse sistema serve de termômetro de opinião que ajuda o sistema a fazer correções de rumo, e um treinamento para que no futuro questões políticas como plebiscitos de mudança na Constituição venham a ser realizadas dessa forma (aposto como o Legislativo ainda vai permitir isso um dia).

A ditadura do chiclete e a democracia eletrônica se baseiam na infantilização do público e dos meios de comunicação, na brutalização dos conteúdos (para efeito de choque e catarse) e na perpétua reciclagem de preconceitos contraditórios, que nunca se resolvem porque são construídos exatamente para promoverem uma queima contínua de energia psíquica que se dirigida de outra forma poderia colocar em risco o sistema.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

3927) O olhar que lê (24.9.2015)




Toda linguagem é metalinguagem, porque qualquer frase, inclusive esta, ou o “bom dia” que damos ao porteiro do prédio, traz embutida uma reflexão prévia ou simultânea sobre significantes e significados. Não existe enunciação da linguagem que não contenha uma crítica ou uma estética da linguagem. Dependendo de quem estiver na portaria eu posso dizer “Bom dia” ou “Fala, Rodrigo, tudo bom?”. A crítica da linguagem e a escolha da linguagem vêm embutidas em cada opção. Toda linguagem impõe hierarquias, prioridades e critérios de escolha. Magritte compreendeu que a melhor maneira de indicar o que é um cachimbo é desenhar um cachimbo e dizer: “Isto não é um cachimbo”.  Vale para praticamente tudo.

O século 20 foi o apogeu dessa vertigem, e tudo adquiriu foros de linguagem própria: a propaganda, a moda, a culinária, a produção industrial, o trânsito, as posições sexuais, a espessura da espuma do chope. Uma doença é uma linguagem com que nosso corpo, esse ser alienígena, tenta nos comunicar algo. Há uma linguagem inconsciente no modo como na praia entramos no mar: tibungando, andando, aos pulinhos... O planejamento urbano é um texto cifrado, e também o jeito de aparar a barba, o modo de forrar a cama, a postura corporal. Tudo é leitura, como nos advertem os comentaristas de futebol: “Neymar leu a jogada corretamente e se posicionou no lugar certo na hora certa”.

A mídia ambiente é toda ela de linguagem, mas não é uma linguagem única nem concebida por uma mente única. É tão diversificada quanto uma floresta tropical, e as linguagens lutam por espaço, lutam por sol, lutam por água – em termos práticos, lutam por um olhar que as leia e as recolha na memória a ponto de deixar seu comportamento ser moldado por elas. Uma empresa espalha dez mil cartazes “Beba Punk-Cola!” pela cidade e começa a medir o consumo nas semanas seguintes. Se aquela enunciação não está produzindo resultado, ela definha como um arbusto sem água. É a única maneira de saber se uma mensagem assim está sendo lida. Lemos sem perceber. Um cardápio, um jardim, um ritual, tudo é uma frase de uma espécie de língua.

Tudo é linguagem. Um detetive chega ao local do crime e lê os objetos, os sinais de presença humana, as coisas que estão fora do lugar. Médico lê sinais nos olhos, na pele e na respiração de um cliente. O mecânico de oficina lê os ruídos e a fluidez de movimentos de um carro que acabou de chegar. Não são linguagens produzidas por uma inteligência humana, são mil linguagens secundárias criadas inadvertidamente por mil ações humanas. Talvez não tenham sido propriamente “escritas”, mas podem ser propriamente lidas.



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

3260) Mídia Ninja e Pasquim (9.8.2013)




A entrevista no “Roda Viva” (TV Cultura) com os organizadores da Mídia Ninja (Bruno Torturra) e Fora do Eixo (Pablo Capilé) veio depois da ida àquele programa dos organizadores do Movimento Passe Livre, um dos responsáveis pelas manifestações dos “20 Centavos” em junho. Eram jovens desconhecidos (eu pelo menos não sabia direito quem eram) sabatinados por velhas raposas da imprensa, que lhes pediram contas de seus atos com aquele ar meio paternal e meio sobranceiro com que um bedel entediado interpela estudantes que flagrou reunidos no banheiro, cochichando entre si, em atitude suspeita. “Bora, bora, o que diabo vocês andam aprontando?”.  Este, aliás, seria um bom título para esses programas, em que jovens na faixa dos 30 anos explicam aos profissionais da informação o que está acontecendo no mundo. Como disse Dylan: “Porque alguma coisa está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é, não é mesmo, Mr. Jones?”.

Alberto Dines, no último bloco, evocou uma semelhança que a cada minuto me vinha à mente, a semelhança dessa nova TV-de-Rua com a imprensa alternativa dos anos 1960-70. Quando O Pasquim surgiu eu tinha 19 anos e via os jornais comentando com desdém aquele jornaleco que já começava esculhambando a si mesmo a partir do nome. Comentários tipo: “Eles mesmos não sabem se é um jornal de humor, de política, de cultura ou de mulher pelada”. Para a imprensa da época, as gírias, os palavrões (inclusive os censurados, que davam origem a expressões saborosas como “vai pra asterisca que asterisquiu!”), a bagunça gráfica, a salada ideológica, tudo isso era uma afronta à grande imprensa da época, que era tão penteadinha, barbeada e cheirando a loção quanto a de hoje.

Fala-se no mundo da ciência que se um cientista velho diz que alguma coisa é impossível ele provavelmente está errado. No mundo da cultura, quando um crítico velho diz que alguma coisa é ininteligível é porque não sabe mais onde pôs os óculos (que estão na testa). Não conheço as atividades do Fora do Eixo (um coletivo de produção de eventos por todo o Brasil), mas tenho acompanhado transmissões da Mídia Ninja há um mês, madrugada adentro. Um celular na mão, um computador (e sua bateria) na mochila, uma conexão 3G, um saite para distribuir. Para quem só tinha as TVs abertas e a GloboNews, virou uma maneira diferente de ver os fatos públicos. Não sei no que vai dar isso tudo. O que os distingue da imprensa velha (a da minha geração) não é o fato de que saibam, porque eles também não sabem. É o mergulho nas novas tecnologias, que geram novas relações, que geram novas idéias. Se são boas (e para quem são boas), o tempo dirá. Vamos ligar e assistir.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

3152) Reality shows (5.4.2013)





Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do Survivor), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.

Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.

Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.

Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo Big Brother que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.



terça-feira, 30 de outubro de 2012

3015) Os jeans e a FC (28.10.2012)




Recentemente comentei nesta coluna o romance Zero History de William Gibson (http://bit.ly/KomW6C), talvez o primeiro livro de FC que tem como tema a fabricação de jeans. Gibson, que de certo modo inventou a realidade virtual em Neuromancer (1984) começou em seus últimos livros a explorar a virtualização da realidade física. Ele percebeu que a realidade daqui de fora dos computadores é tão artificial quanto a da Matrix. Ela é o que chamamos de “mídia ambiente” (“media landscape”), um espaço físico completamente artificializado através de linguagens superpostas, entrelaçadas e conflitantes: arquitetura, vestuário, publicidade, decoração, urbanismo, comunicações, etc. Tudo é linguagem. E tudo é produto de uma máquina feita de gente, planejamento, sistemas e maquinismos.

Na selva barroco-pop, as pessoas estão anestesiadas, embrutecidas de tanta poluição semiótica. E Gibson imagina a criação de produtos que estão limpos dessa sujeira linguística, produtos que utilizam uma linguagem não-referencial, produtos tão simples que não se parecem com nada. Em Reconhecimento de Padrões (2003) é A Filmagem (The Footage), fragmentos de um filme anônimo, que brota aos poucos na Internet sem que se saiba quem o dirigiu, onde, quando. Um filme esteticamente perfeito, para os cinéfilos de um culto que o investiga e acompanha (é este o tema do livro). Em Zero History, é a marca de jeans “Gabriel Hounds”, que tem textura perfeita, corte, acabamento. Um jeans que não se parece com nada, e é vendido clandestinamente, sem propaganda, só para os iniciados. Gibson parece procurar produtos que são verdadeiros paradoxos: produtos no mais alto grau de refinamento de uma cultura e ao mesmo tempo esvaziados de cultura, objetos platônicos que só significam a si mesmos, sem nenhum referencial exterior.

Scott Morrison é um fabricante de jeans-sob-medida em Nova York (http://3x1.us) que certa vez distribuiu calças novas para os lavadores de pratos de um restaurante para que estes os usassem durante o trabalho, na cozinha quente, enfumaçada. O uso “quebra” as fibras e amolda os jeans ao corpo (tem gente que entra na banheira com o jeans novo para acelerar esse processo). Morrison procura o que os japoneses chamam “wabi-sabi”, a beleza do que é “imperfeito, impermanente, incompleto”, a beleza que decorre do uso humano, do desgaste humano, das pequenas vacilações humanas na feitura que dão aos objetos uma marca única, incapaz de surgir da máquina. Ao seu modo, Gibson, como Philip K. Dick, procura estabelecer, num mundo de máquinas, quais são os sinais da presença humana, da vida humana, da imprevisível e inimitável ação humana.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

2596) A paranóia de Truman (30.6.2011)



Nos meus momentos de euforia, tenho certeza de que o mundo é falso e só eu sou verdadeiro. Nos meus momentos de depressão, tenho certeza do contrário. Médicos canadenses já perceberam a ocorrência de uma nova doença mental nos últimos anos, que eles chamam de “Síndrome de Truman”, porque parece ter sido deflagrada pelo filme O Show de Truman de Peter Weir. Os indivíduos afetados por essa condição (todos eles homens) afirmam aos seus médicos terem certeza de que estão sendo vítimas de uma enorme conspiração. Sua vida pessoal é transmitida ao vivo para milhões de pessoas, ininterruptamente, e sua família (esposa, filhos, etc.), seus amigos mais próximos, seus colegas de trabalho, são todos atores contratados para representar aqueles papéis. Ou seja, exatamente o que ocorre com o ingênuo Truman Burbank do filme, interpretado por Jim Carrey. (Ver: http://goo.gl/00vvW).

Descontando o fato de que eu penso exatamente isto da minha própria vida, a emergência dessa nova forma de paranóia indica um curioso fenômeno de retroalimentação, de feedback. Certos aspectos paranóicos da realidade geram uma obra de arte que em troca reforça esses aspectos, até que a realidade produz a seguir outra obra ainda mais explícita, aumentando ainda mais a tendência, e assim por diante. Truman Show é um reflexo da obra de Philip K. Dick, cujos romances mostram o tempo inteiro personagens em dúvida quanto à própria identidade (“sou isso mesmo que penso que sou, ou sou outra pessoa que pensa que sou eu?”). Lembrem-se do personagem de Schwarzenegger em O Vingador do Futuro: um operário que para se distrair recebe implantes de memória dizendo que é um espião e nesse momento se lembra que é mesmo um espião, que havia recebido implantes de memória para pensar que era um operário. Será isso mesmo? Qual das duas certezas está certa?

Truman Show chegou a ser processado pelos agentes de Dick, que alegavam plágio a outra obra do escritor, Time Out of Joint, em que um sujeito mentalmente instável (mas importante para o Governo, que está em guerra) é mantido numa cidade artificial cheia de atores que o ajudam a viver uma ilusão pacífica. O filme tornou-se emblemático dessa nova condição moderna, que envolve os seguintes aspectos: 1) perda de privacidade (o mundo está se tornando um Big Brother, estamos sendo o tempo inteiro espionados por alguém); 2) expansão da Sociedade Espetáculo (o exibicionismo público é uma prova crucial de status; queremos ser vistos 24 horas por dia para termos certeza de nossa própria existência); 3) artificialismo e referencialidade no comportamento humano (as pessoas adotam, cada vez mais, modos de ser, falar, vestir, etc. copiados de filmes, comerciais, etc.; tornam-se cada vez mais artificiais e imitativas); 4) divórcio profundo entre o que realmente queremos ser (o Eu profundo) e o que a sociedade nos obriga a ser (o personagem que representamos diante do mundo inteiro).

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

2355) A palavra show (24.9.2010)




É uma silabazinha onipresente a partir do instante em que a gente aperta o botão do controle remoto. Assistir TV é escutar esse vocábulo que, como um Aleph, comprime no grão de si mesmo um universo de significação. 

Não se trata apenas do Fantástico, o Show da Vida mas de qualquer coisa que a TV esteja mostrando: é um show de calouros, um show de prêmios, tudo é um show de cobertura, um show de imagens, um show de transmissão... 

A TV é um show permanente, e neste sentido essa palavra pertence muito mais ao universo televisivo do que ao universo musical (“vou assistir um show de MPB”). O que chamamos de “show business” não se refere propriamente à música, embora instintivamente associemos estas duas coisas. Refere-se à televisão, a Máquina Mostradora por excelência.

“To show” significa “mostrar”, e é isso que a TV faz melhor do que ninguém. A TV não analisa, não interpreta, não questiona, nem mesmo quanto tenta fazer isso, ou quando parece estar conseguindo. A função orgânica da TV é mostrar. 

Ela mostra uma coisa, depois mostra outra coisa, depois mostra outra coisa, depois mostra outra coisa, depois mostra outra coisa, depois mostra outra coisa, e assim por diante, ao infinito. Foi criada para isto, e pense num produto que correspondeu à intenção! 

Mostra qualquer coisa, e, como as chamadas e os plimplins da Globo nos lembram o tempo inteiro, mostra acima de tudo a si mesma.

A expressão inglesa “to show off” significa “exibir-se, pavonear-se”, ou, mais paraibanamente, “se amostrar”. Dizemos que “o time do Santos ganhou a partida e deu um show”; isto não quer dizer apenas que jogou bem, mas que fez a costumeira exibição de firulas e pedaladas. 

O sujeito que se amostra está tentando ser-e-parecer mais do que é, está exagerando a si mesmo, está fingindo uma imagem um passo além da realidade; lamentavelmente, todo show tem um pouco disto. É da natureza do espetáculo de massas parecer que está mostrando algo quando na verdade se está mostrando uma versão mais colorida, mais ruidosa, mais luminosa e mais rica daquele algo. 

Em inglês, a palavra “show” no sentido de “exibição, espetáculo” data de 1561; no sentido de “ostentação exibicionista”, de 1713 (http://www.etymonline.com/index.php?term=show).

Ariano Suassuna, notoriamente ranzinza para com tudo que tenha cheiro de Bom Ar norte-americano, costuma chamar as apresentações musicais de “espetáculos”, e justifica: “Na minha terra, xô é uma palavra que se usa para espantar galinha”. 

Muita gente nem chama de “shows” aqueles espetáculos discretos, tipo voz-e-violão, de artistas como Elomar ou João Gilberto. Chama-os de concertos ou recitais, ou coisa equivalente. Porque é da essência do “show” musical o exibicionismo, as plumas e paetês, os naipes de sopros, as bailarinas, a fumaça de gelo seco... 

Uma tradução extremamente liberal da expressão “show business” nos daria “mostrar serviço”, e, no frigir dos ovos, é disso mesmo que se trata.





quinta-feira, 15 de julho de 2010

2272) “A Conversação” (19.6.2010)



Harry Caul é um tipo especial de detetive, o chamado “araponga”, que se especializa em escutar e gravar conversas alheias, grampear telefones, etc., a fim de fornecer provas de diálogos clandestinos. Ele não apenas executa os serviços como também desenvolve e aperfeiçoa seu próprio equipamento (bugs minúsculos colocados nos objetos pessoais ou nas casas das vítimas, etc.). Quando comparece a uma convenção de espiões (parece piada, mas não é – nos EUA isso é um mercado tecnológico como qualquer outro) é saudado por toda parte como um dos gênios dessa atividade. Invejado e imitado por todos, mantém o tempo inteiro um perfil discreto. Sua vida se complica quando recebe a função de espionar um jovem casal que namora numa praça. Ele começa a temer que o marido, um poderoso executivo que o contratou, acabe querendo matar os dois.

A Conversação (1974) de Francis Ford Coppola, é um filme injustamente esquecido hoje, talvez obscurecido pelo sucesso e pela polêmica de outros filmes que o diretor fez na mesma época, como as primeiras partes de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Perto desses superespetáculos, A Conversação parece uma coisa menor, como uma canção de Tom Waits ao lado de uma canção do Pink Floyd. Ainda assim, o filme ganhou para Coppola uma das poucas Palmas de Ouro que o Festival de Cannes já concedeu ao cinema americano. Certamente pelo seu teor político: é um filme típico da Era Watergate, quando escutas telefônicas dessa natureza derrubaram Richard Nixon (episódio citado de passagem na cena em que Caul assiste TV num quarto de hotel).

As cenas em que Harry Caul remonta e equaliza trechos de gravação sonora para reconstituir as falas do casal espionado lembram as longas cenas de Blow Up de Antonioni, em que o fotógrafo revela as fotos que parecem revelar um assassinato no parque. Em ambos a mesma situação: um técnico que espiona à distância um casal de namorados e julga descobrir uma trama criminosa. A situação lembra também o recente filme alemão A vida dos outros, em que um “araponga” do governo leva meses inteiros grampeando conversas da vida de um casal no apartamento de baixo, e acaba simpatizando com as pessoas que espiona. É uma curiosa simbiose à distância: o “voyeur” deixando-se embeber pela personalidade daqueles a quem espreita.

A Conversação é um thriller tecnológico que, sem ser propriamente ficção científica, é um filmes sobre a “mídia ambiente”, em que a tecnologia tem papel essencial, e revela o mundo urbano como uma floresta eletrônica. Coppola não imaginaria os níveis de sofisticação e de onipresença que esse tipo de vigilância alcançaria hoje, mais de trinta anos depois. Seu filme, usando gravadores de rolo de fita magnética, faz a ponte entre a sociedade retrô e super-vigiada do 1984 de George Orwell e o mundo digitalizado da espionagem de agora, com câmeras de segurança em todas as esquinas e recintos, e onde ninguém pode se sentir ao abrigo de espiões.

terça-feira, 29 de junho de 2010

2205) A estratégia da distração (2.4.2010)




Circula na Internet um documento atribuído ao linguista Noam Chomsky, um conhecido crítico das políticas dos EUA. Chomsky é uma espécie de Michael Moore do meio acadêmico, que investe como um tanque contra aquilo que a gente chama “o complexo industrial-financeiro-militar” do seu país. O documento que circula talvez seja apócrifo (não encontrei sinal dele em parte alguma na Net, em inglês), mas não importa. As coisas que diz ou são corretas ou são deflagradoras de um debate importante e necessário, pouco importa quem tenha sido seu autor original. O documento enumera “Dez Estratégias” usadas pelos governos atuais para impor suas políticas e manter a população sob controle, um controle ainda mais eficaz do que o das ditaduras, porque as pessoas não sabem que estão sendo controladas, e esse controle se dá de uma maneira aparentemente agradável para elas. É o que eu chamo a Ditadura do Chiclete, contraposta à Ditadura do Chicote. O primeiro item da lista diz:

“1) A estratégica da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

O século XX ensinou que a melhor maneira de evitar que a população tenha acesso a determinadas informações não é proibindo essas informações. Isso foi tentado por todos, desde Hitler e Stálin até nossa ditadura brasileira; e sempre existe uma minoria sólida, atuante e incansável que acaba dando um jeito de recuperar as informações proibidas e fazê-las circular. Muito melhor do que proibir é diluir. Em vez de proibir a obra perigosa de Fulano ou Sicrano, basta estimular a produção de obras de cem Beltranos (que dizem coisas parecidas, mas inócuas) e usá-las para fazer submergir as idéias indesejáveis.

O melhor lugar para esconder uma agulha não é num palheiro, é num agulheiro. Proibir a obra de alguém significa lançar sobre essa obra e esse autor os poderosos holofotes da atenção do Poder. Melhor aparentar desprezo por essa obra, e voltar os holofotes em outra direção. É possível até ceder a esses autores incômodos uma rádio, um canal de TV a cabo, com a garantia de que eles estarão diluídos no meio de 200 rádios e 200 canais dizendo coisas mais chamativas, mais sensacionais, menos problemáticas.



terça-feira, 8 de junho de 2010

2124) Pais e filhos (29.12.2009)



A imprensa adora descobrir (ou inventar) uma pequena fábula natalina para ser encenada no fim do ano, no teleteatro a que chamamos de telejornal. A deste ano foi o destino do menino Sean, que morava no Rio de Janeiro com a família de falecida mãe, e cuja guarda era reivindicada por seu pai biológico, o norte-americano David Goldman. Não vou questionar os meandros jurídicos ou políticos da história, que vocês podem encontrar alhures na imprensa. Basta dizer que na véspera de Natal, uma providencial decisão jurídica do impertérrito ministro Gilmar Mendes possibilitou a Goldman receber o filho no Consulado dos EUA e embarcar imediatamente com ele num avião rumo à Flórida, onde o garoto deve estar (no momento em que escrevo, sexta-feira à noite) sendo apresentado aos encantos “da Disney”.

Um resumo do começo dessa história pode ser lido nesta reportagem da revista Piauí (em: http://bringseanhome.org/piaui_port.html). O processo é complicado porque, além dos detalhes jurídicos, parece ser um daqueles casos em que as duas partes, mutuamente ressentidas e magoadas, fazem e dizem coisas que só contribuem para piorar a situação. O que chama a atenção é o modo como esse “conto de Natal moderno” vem se encaixar certinho com a necessidade, por parte da imprensa (a daqui e a de lá), de ter em mãos na época do Natal um drama familiar pungente, de cortar o coração. Ainda mais este, uma polêmica boa danada para colocar em campos opostos americanos x brasileiros, pais x mães, pais x padrastos...

Isso me lembra outra história emblemática que rolou este ano, a do “Balloon Boy”. Uma família dos EUA mandou aos ares um balão cheio de hélio e alegou para a polícia que o filho de 6 anos tinha subido para a cestinha do balão antes que este se desprendesse do solo. Foi desencadeada uma busca ao balão, atravessando três Estados, e cobrindo cerca de 18km. Quando o balão caiu, nada de guri lá dentro. O pirralho foi encontrado em casa pelos pais, e a partir daí uma série de circunstâncias suspeitas levaram a polícia a concluir que tudo tinha sido um falso alarme. Os pais sabiam o tempo todo que o filho estava em casa; armaram aquele circo para aparecer na mídia e, ao que se diz, ganhar um programa de TV para si. A esta altura, já confessaram a culpa, pagaram multas, e, ao que parece, foram judicialmente “proibidos de lucrar com o episódio”. Sábia medida, porque nos EUA é comum um sujeito matar alguém famoso, ir para a cadeia, escrever um livro e ficar milionário. (Em certas culturas se dá mais importância à conta bancária do que à liberdade.)

O avião em que David Goldman levou o menino para os EUA era fretado pela rede de televisão NBC, que tem direitos exclusivos de explorar jornalisticamente o episódio. A própria TV Globo teve que exibir na íntegra o filme produzido pela NBC na viagem de volta. A diferença entre a história do Balloon Boy e esta é a diferença que existe entre amadores e profissionais.

domingo, 18 de abril de 2010

1926) Ballard e a FC (12.5.2009)



Uma página de tributo ao escritor recém-falecido J. G. Ballard foi criada no saite Omnivoracious (http://tinyurl.com/cavvsj), com links para numerosos depoimentos. Para quem quiser conhecer melhor suas idéias, antes de chegar aos livros propriamente ditos, um bom começo é o saite “Ballard”, em http://www.jgballard.ca/. Ballard era um homem culto, de informação variada e surpreendente, além de extremamente articulado. É notável a sua capacidade de jogar idéias espantosas e verossímeis no colo do interlocutor, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Seu livro de ensaios e artigos A User’s Guide to the Millenium (1996) tem sido uma fonte permanente de temas para esta coluna. Um saite com um grande número de entrevistas, que vão de 1966 a 2008, é: http://tinyurl.com/y29w2d4.

Para os espectadores de cinema, Ballard tornou-se mais conhecido através de dois filmes. O primeiro deles é O Império do Sol de Steven Spielberg, a história de um garoto inglês que, durante a II Guerra Mundial, se perde dos seus pais em Xangai, onde moravam, e acaba passando o resto da Guerra num campo de prisioneiros. É a infância do próprio Ballard, que ele recontou num livro autobiográfico e Spielberg adaptou com sensibilidade e estilo. O outro filme é Crash de David Cronenberg (não confundir com Crash – No limite, filme vencedor do Oscar há alguns anos). Baseado num livro de Ballard, é a história de um grupo de homens e mulheres que têm fixação erótica em automóveis, em acidentes de carro e em pessoas mutiladas por esses acidentes. Com James Spader e Rosana Arquette, é um filme doentio, incômodo e verdadeiro sobre o fetichismo do corpo e da máquina, e o impulso simultâneo do auto-erotismo e da auto-destruição.

Uma das grandes influências na obra de Ballard foi o Surrealismo dos anos 1920, e talvez por isto sua ficção científica destoe tanto da FC norte-americana, que parece não ter tomado conhecimento de André Breton e seus seguidores. O que é uma pena. O Surrealismo e a obra de Freud, que para Ballard estão sempre próximos, lhe serviram para criar o conceito de Espaço Interior (“inner space”) que ele contrapôs ao Espaço Exterior (o sistema solar, as estrelas, a galáxia), domínio preferencial da FC clássica. Ballard argumentava que o mundo da mente era mais amplo, mais surpreendente e mais acessível do que a Via Láctea, e não via motivo para que a ficção científica se limitasse a “ir lá para fora” sem dar muita importância ao que ocorria “aqui dentro”.

Comentando a obra de William Burroughs, com a qual ele tanto se identificava, disse Ballard: “A conclusão a que Burroughs chega em sua obra é de que a guerra entre a sociedade e a liberdade individual, uma liberdade que consiste apenas em ser um indivíduo, nunca pode acabar, e em última análise a única escolha que nos resta é viver em nossos próprios pesadelos ou nos pesadelos dos outros”.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

1921) J. G. Ballard (1930-2009) (6.5.2009)



O trabalho tem atrapalhado minha vida de tal forma que somente no dia 1o. de maio fiquei sabendo que o escritor inglês J. G. Ballard havia morrido em 19 de abril. Sincronicidade? Dias atrás, sem saber de nada, peguei um volume dos contos de Ballard e fiquei me deliciando com suas histórias dos anos 1960. Contos de ficção científica sobre artistas que produzem, para o deleite de milionários entediados, novas formas de arte – estátuas cantantes, ou flores musicais. Histórias de catástrofes ambientais, num mundo onde tecnologia e fantástico se misturam. Uma aventura de Flash Gordon com personagens de Samuel Beckett e objetos-de-cena de Salvador Dali.

A obra de Ballard é uma das mais cruéis e premonitórias de toda a FC. É ao mesmo tempo caricatural e realista, uma versão em alto-contraste das perversões, fetichismos e indústrias-do-prazer de nossa civilização. Embora haja um conteúdo sexual nisso tudo, não é apenas de sexo que se trata, porque – por exemplo – grande parte do fetichismo de nossa Mídia Ambiente se dá através da propaganda e do consumo insaciável de novos modelos de roupas, de carros, de eletroeletrônicos, de cosméticos, de canções, de celebridades... As histórias de Ballard são pequenas fábulas mitológicas onde os deuses são substituídos por produtos industriais, o que inclui a indústria das imagens: propaganda, filmes de Hollywood, a política, as colunas sociais.

Um dos seus livros mais desconcertantes e polêmicos, The Atrocity Exhibition (1969), tem textos (seria questionável chamá-los “contos”) com títulos como “Plan for the assassination of Jacqueline Kennedy” e “Why I want to fuck Ronald Reagan”. Ballard usa esses nomes próprios, e (indiretamente) as imagens públicas que eles evocam, como alvo de pesquisas imaginárias sobre impulsos eróticos e agressivos, que tanto podem envolver o desejo sexual quanto fantasias de atentados homicidas. A vida real tem, consistentemente, confirmado suas hipóteses.

Ballard sempre foi na comunidade da FC uma presença incômoda, alguém que veio “desafinar o coro dos contentes”. A FC americana tende a ser um entretenimento adolescente, que na maturidade evolui para um otimismo tecnomilitar. Seu sonho é a colonização triunfal do Universo pela espécie humana (ou seja, os EUA). Ballard era da linha pessimista e desiludida que predomina no Reino Unido, e que vê a humanidade mais próxima de se destruir por seus próprios meios do que de transformar a Via Láctea numa extensão da Califórnia. Sua FC nunca teve o entusiasmo juvenil e a fé no futuro que vemos em Arthur C. Clarke ou Isaac Asimov. Seu mundo é freudiano e sombrio, dominado por forças que os personagens não percebem. Drogas, fetiches eletrônicos, dinheiro, perversões sexuais e impulso-de-Tânatos aparecem o tempo todo no raio-X de seus contos e romances. São fatores que parte da FC não sabe como lidar, porque contradiz seu ufanismo triunfalista em permanente lua-de-mel com a tecnologia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

1906) “O Quinto Poder” (18.4.2009)




Este thriller de Alberto Pieralisi é um dos filmes brasileiros mais raros e elusivos. Ouvi falar nele pela primeira vez por volta de 1967, e só consegui vê-lo agora, 42 anos depois, no Canal Brasil. A cópia exibida tinha legendas em inglês, e uma advertência de que se tratava da única cópia existente. Ao que parece o filme foi proibido pela Censura do regime militar, e suas cópias foram destruídas ou se perderam.

Ele tem uma premissa de ficção-científica: o controle mental da população através de mensagens subliminares transmitidas pelo rádio e pela TV. Sob o efeito dessa lavagem cerebral imperceptível, o Brasil entrega-se aos saques, à depredação, ao crime, habilmente sugeridos pela montagem de manchetes das páginas policiais de jornais da época (noticiando inclusive o famoso incêndio do circo em Niterói com centenas de mortos) e cenas de passeatas, quebra-quebras, etc.

Os responsáveis pela conspiração (que falam alemão entre si) pretendem com isto assumir o poder num país desorientado e caótico.

[Aqui, o filme completo:
https://www.youtube.com/watch?v=amcp7zgJHyw ]

Em seu blog no Estadão, Luiz Zanin nota as influências hitchcockianas no filme de Pieralisi, como na luta no bondinho do Pão de Açúcar e na cena final em que o chefe dos espiões é perseguido pelo Exército no interior na estátua do Cristo Redentor. As cenas de perseguição (de automóveis, inclusive) têm um dinamismo de encenação, câmara e montagem que era muito raro no cinema brasileiro em 1962.

Do ponto de vista da ficção científica, a realização visual obedece, por economia de tempo e de dinheiro, a todos os clichês dos filmes B dos anos 1950: caixas metálicas cheias de mostradores, luzes piscando, osciloscópios, etc., além de referências tipo “mensagem HRB-350”.

O mais interessante é o conceito em si, porque mensagens subliminares (ou subliminais) são raras no cinema de FC da época, e só em décadas mais recentes foram tratadas a sério, como em Videodrome de David Cronenberg (1982).

Ainda no blog de Zanin há uma informação de Marcelo Miranda de que o produtor Carlos Pedregal, espanhol, dividiu com o italiano Pieralisi a direção do filme, encarregando-se das cenas de ação e perseguição. Isto faz deste filme pioneiro de FC no Brasil uma curiosa “intriga internacional”. Pedregal também teria sido o “marqueteiro” de uma campanha de Adhemar de Barros, e o criador do curioso slogan “Rouba, mas faz” que o político paulista usou desde então.

Essas informações ganham relevo no contexto de um filme cujo tema é a manipulação da mídia para provocar o caos no país e abrir caminho para a tomada do poder por um grupo radical. Um sintoma da convulsão social provocada pelos espiões são as manchetes dos jornais bradando: “Revolução: única saída!”, diante da mortandade desenfreada que campeia no país.

É claro que o governo militar pós-64 se sentiu incomodado com o filme, que, com suas evidentes limitações, é um dos melhores que o Brasil já produziu nesse gênero, e é mais atual hoje do que na época em que foi feito.









domingo, 7 de fevereiro de 2010

1621) Os Mutantes II (23.5.2008)




O segundo disco dos Mutantes, lançado em 1969, veio arredondar e tornar mais nítido o estilo musical do grupo. 

Alguém já disse que “estilo é a repetição organizada de certos cacoetes pessoais”. Coisas que no primeiro disco dos Mutantes pareciam pirações aleatórias ou doidices sem propósito foram repetidas, ampliadas e aprofundadas no segundo disco. Não era barulheira caótica, era um jeito pessoal de fazer as coisas. Se o segundo disco tivesse sido totalmente diferente do primeiro, ninguém iria entender nada. Do jeito que foi, cristalizou um estilo.

Os Mutantes experimentavam muito na parte vocal. Vocal infantilóide em “Rita Lee”, vocal gaguejante em “Qualquer Bobagem”, vocal caipira em “2001”, vocal distorcido em “Dia 36”. 

Cada canção parecia cantada por um grupo diferente, e ao mesmo tempo, depois que o ouvido acostumava, a gente via que eram sempre eles. 

As citações aos Beatles e Rolling Stones continuavam presentes em cada faixa, mas é difícil, para quem não estava vivo naquela época, entender a onipresença e o peso desses dois grupos, que eram uma espécie de duas Torres de Castelo numa paisagem cheia de cabanas de lavradores. Todo mundo estava à sua sombra.

Em “Fuga no. 2” o grupo retoma um tema recorrente da contracultura: o jovem que foge de casa (“She’s Leaving Home” dos Beatles, “Mamãe Coragem” de Torquato Neto). 

Pra mim, sempre exigente, o ponto fraco dos Mutantes eram as letras, que tinham aqui e ali uns ótimos achados, mas no geral... Ainda hoje contraio o rosto quando ouço, na belíssima “Caminhante Noturno”: “Vai, caminhante, antes do dia nascer... Vai, caminhante, antes da noite morrer!” 

Em “Rita Lee”, eles invertem duas proposições óbvias quando dizem: “Suas noites são vazias / porque são tão frias”. Mas, fazer o quê? Eram uns garotos. Tocavam pra caramba, cantavam pra caramba, tinham uma inventividade incansável e borbulhante. Querer que ainda por cima fossem grandes poetas era demais. 

A letra de Tom Zé para “2001” consegue se destacar de todas as demais e ainda assim estar no clima do grupo. E certas letras enigmáticas como “Dia 36” ganharam mais espessura com o passar do tempo (parece um diálogo de filme de FC distópica).

“Dom Quixote” é uma de suas melhores canções. Tem trechos de madrigal renascentista, poesia concreta, referências pop (chiclete, Crush); tem uma segunda parte com virada de bateria, sopros, guitarras estridentes, igualzinha ao que os ingleses estavam descobrindo na época. 

E quando leva Dom Quixote para um programa de TV (“Palmas para o Dom Quixote que ele merece!”) tem uma impudente antevisão da “pop-ficação” do mundo. 

É um final que me lembra o final de Simão do Deserto de Buñuel: o santo numa boate de Nova York, ao lado do Diabo metamorfoseado em loura, ouvindo um conjunto tocar rock. 

É como se dissessem: “Não existem mais heróis, não existem mais santos. Os heróis e os santos de hoje estão todos na Mídia”.








quarta-feira, 24 de setembro de 2008

0557) Feliz ano novo (31.12.2004)




Não peça nada a Deus. Seria um contra-senso Deus fazer algo por você. Digamos que o Mundo estava com problemas, pediu a Deus que mandasse algum tipo de ajuda, e Deus mandou você. Agora, é entre você e o Mundo. Te vira, véi.

Não peça nada ao Destino. Esta é uma grave contradição filosófica, daquelas de fazer Aristóteles se revirar na tumba. “Destino” é um futuro que já aconteceu, que não pode mais ser modificado. Não perca seu tempo.

Não peça nada ao Acaso. O Acaso é quem governa este Universo, e é da natureza dele não escutar pedidos, mas aceitar interferências. Interfira, aja, interrompa, redirecione, transforme. O Acaso agradece.

Não peça nada aos Santos. Santo não é quem toma providências: quem toma providências é médico, bombeiro, mecânico, assistente social... Santo é quem sofre sem se queixar. Deixe que sofram em paz.

Não peça nada ao Governo. O Governo é um brontossauro de cinqüenta patas e trinta pescoços, caminhando aos trancos e barrancos através da jângal antediluviana. Esperar dele alguma coisa que se aproveite equivale a subir pela sua cauda e ir morar numa choupana em seu dorso, tentando convencê-lo a seguir no rumo desejado. Esquece. Melhor ir a pé.

Não peça nada aos Bancos. Por definição, Bancos só dão remédio a quem vende saúde, só mandam marmitas gratuitas para os donos de restaurantes, e só oferecem absolvição espiritual aos cardeais do Vaticano.

Não peça nada às Autoridades. Autoridades são programadas apenas para obedecer ordens. Ou você tem cacife pra já chegar falando grosso, ou então é melhor deixar pra lá.

Não peça nada à Mídia. A Mídia acha que o anonimato é contagioso, e que a Fama também. Olhe pra trás, e veja se ela está indo no seu rastro ou não. Problema dela.

Não peça nada à Sorte. Sorte foi feita pra gente abrecar pela abertura, encostar no canto da parede, e dizer a que veio. Se você tiver pegada, a Sorte se derrete todinha.

Não peça nada à Humanidade. Ofereça e faça antes que ela peça. Existe no Universo uma Lei de Conservação da Energia Psíquica. Mais cedo ou mais tarde alguém fará o mesmo com você.

E pronto. Feliz ano novo, bibibi, bobobó. Vá à luta, meu camaradinha. Tá olhando o quê?


domingo, 14 de setembro de 2008

0546) Cem milhões de origamis (18.12.2004)



Thaksin Shinawatra, o primeiro-ministro da Tailândia, está se defrontando com uma situação problemática em seu país. As províncias tailandesas do Sul são habitadas por muçulmanos, num país de maioria budista, e isto provoca freqüentes choques armados que só este ano já causaram mais de 500 mortes. O “premier” precisava de uma campanha de marketing para amainar o ímpeto separatista daquela região, para fazê-los sentirem-se amados e respeitados pelo restante da população, e aí teve uma brilhante idéia.

Todo mundo sabe o que é o “origami”, a antiga arte oriental de fazer figuras com papeizinhos dobrados. A garça de papel é considerada um símbolo de paz no Japão e em todo o Oriente. Shinawatra propôs à população que todos se unissem num mutirão cívico para fazer 62 milhões de garças de papel (uma para cada habitante do país), que no dia do aniversário do rei Bhumibol Adulyadej, 5 de dezembro, seriam atiradas do céu sobre as províncias do Sul. Instruções sobre como fazer a dobradura foram afixadas em edifícios públicos e divulgadas pela imprensa; postos de coleta para receber os origamis prontos foram espalhados por todo o país.

No último dia 5, mais de 50 aviões militares, cada um carregado com uma média de 50 mil origamis, fizeram repetidos vôos rasantes sobre a região do Sul, despejando sua carga de passarinhos de papel. Multidões se aglomeraram ao ar livre para recolhê-los, porque o Governo também baixou instruções sobre a coleta do lixo resultante do evento. E havia um prêmio especial para quem achasse um origami dobrado e assinado pelo próprio “premier”.

O número de origamis caídos do céu oscilou entre 60 e 100 milhões, de acordo com diferentes jornais. Algumas pessoas adoraram, outras torceram o nariz. Um muçulmano protestou: “Ninguém vai ligar para esses pássaros aqui, mesmo que eles fossem feito de dinheiro dobrado. Será que eles não entendem que um muçulmano não adora símbolos, adora somente a Alá?”

A primeira leitura que isto me sugere é pensar que não existem limites para o que se chama hoje “o Estado espetáculo”, os governos que transformam o ato de governar numa mistura de reveion, quermesse e parada de 7 de setembro. A segunda é que também não existe limite para o delírio dos poderosos. Eu bem gostaria de saber o que é que esse premier anda fumando. Mas a terceira leitura que me ocorre é ver o lado onírico, o lado poético dessa chuva de milhões de avezinhas brancas caindo sobre as cabeças de todo mundo. Existe poesia nisso, mesmo tendo sido idéia de um Governo para enganar os bestas. Existe uma beleza meio infantil nessa cena, que parece um quadro de Chagall, parece um conto dos cronópios de Julio Cortázar, parece um filme de Hayao Miyazaki (o que fez A Viagem de Chihiro), parece uma história em quadrinhos de Moebius. Ah, se toda bobagem inútil e megalomaníaca dos governos tivesse um resultado assim.

sábado, 13 de setembro de 2008

0545) Ratinho, a isca e a ratoeira (17.12.2004)


(Brian White)

Dias atrás estive participando de um ciclo de palestras promovido pela ONG “Leia Brasil”, numa mesa onde se discutiam assuntos ligados à indústria cultural. O mais interessante dessas discussões é que geralmente toma-se algum exemplo-símbolo de uma situação qualquer. Neste caso, as pessoas começaram a citar o programa de Ratinho como exemplo do que havia de pior na indústria cultural. De dez em dez minutos, lá vinha ele no meio de uma argumentação qualquer: “O problema de país é a baixa instrução, o pouco acesso à cultura, porque se as pessoas tivessem acesso à boa literatura elas não iriam assistir o programa do Ratinho”.

Coitado do programa do Ratinho, do qual não gosto nem um pouco, mas que acaba concentrando em si bordoadas que poderiam ser mais bem distribuídas. Em primeiro lugar, eu não acho que se toda a população brasileira de repente ficasse alfabetizada e culta esse tipo de programa iria desaparecer. O programa de Ratinho (pelo que me lembro dele, das 10 ou 12 vezes que o vi até hoje) se baseia num tipo de sensacionalismo que já vem desde a imprensa escrita, desde Gutenberg. É a exploração dos crimes, das tragédias familiares, dos episódios mundo-cão, de personagens grotescos ou ridículos, tudo isto misturado com uma atitude veemente de defesa da moral e dos bons costumes, e da “proteção às camadas populares”. A própria literatura de cordel, que tanto exaltamos, tem ciclos inteiros dedicados a explorar esse filão.

A TV americana faz a mesma coisa. Não é a escolaridade-média que resolve. Programas desse tipo sempre vão existir. Eles satisfazem algum tipo de fascinação mórbida que todos nós temos na direção do que é grotesco. Proibir esses programas (como alguns mais exaltados sugerem) não iria resolver nada. O problema não são os programas ruins, é o fato de que, sendo impostos de cima para baixo, a população se acostuma com eles e passa a tê-los como uma espécie de ritual diário. E o que leva a isto é a enorme concentração de poder nas mãos de uma meia-dúzia de grupos que controlam as telecomunicações.

Ratinho é apenas a isca da ratoeira. Ele serve como o chamariz para atrair a curiosidade meio doentia do público e fazer os níveis de audiência (e o preço do minuto de publicidade naquele horário) subirem à estratosfera. Se em vez de 3 ou 4 grandes redes de TV tivéssemos 30 ou 40, talvez tivéssemos dez vezes mais Ratinhos, mas nenhum teria esse mesmo peso, e as probabilidades de que surgissem programas de boa qualidade (do nossos ponto de vista) seriam muito maiores. Quebrar o monopólio das grandes redes, regionalizar a produção, é o único caminho para melhorar a TV. Muita besteira nova ia aparecer, decerto. Mas eu preferiria correr o risco de ter dez ratinhos em cada Estado, desde que as coisas boas que certamente existem em cada Estado, e que não têm vez nas redes centralizadas no Rio e em São Paulo, pudessem também aparecer.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0074) Mídia ambiente (17.6.2003)



A crítica contemporânea de artes plásticas e de comunicação áudio-visual criou um utilíssimo termo para descrever nossa sociedade. Em inglês, eles chamam de “media landscape” ao ambiente artificial que nos cerca, o conjunto de imagens e sons produzidos pelos meios de comunicação de massas: rádio, TV, revistas, jornais, cartazes e out-doors de propaganda, etc. É um conceito também muito usado pela crítica de literatura futurista ou de ficção científica.

A tradução ao pé da letra de “media landscape” seria “paisagem da mídia” (ou “dos meios de comunicação”), mas proponho a tradução “mídia ambiente”, que deixa mais visível o fato de nosso mundo urbano ser um meio ambiente artificial, feito de mensagens de todo tipo. Se, como afirmam os teóricos da comunicação, tudo é mensagem, tudo é linguagem, torna-se quase impossível distinguir, nessa mídia ambiente, algum elemento natural. Mesmo quando atravessamos uma praça com gramados, riachos, árvores e canteiros de flores, esses singelos elementos vegetais foram plantados (ou transplantados para) ali por um grupo de operários, obedecendo às instruções de um paisagista. Houve uma escolha, um planejamento prévio, e esses elementos bucólicos estão ali com o intuito de dar um recado à população – algo como “eis aqui um oásis de natureza no meio da selva de pedra... venha... traga seus filhos... mostre a eles como era o mundo antes da civilização passar por cima de tudo.” É mensagem. Não pertence mais à natureza, e sim à cultura, à mídia. Está ali com um propósito, com uma segunda intenção.

Tudo é mensagem, tudo é código. Arquitetura é uma linguagem: os traçados dos prédios produzem impressões diferentes, dão mensagens diferentes. O mesmo quanto às roupas que usamos, os carros que dirigimos, os adornos que dão personalidade a nosso rosto (um bigode ou um batom, um par de óculos ou um piercing). Para onde nos voltamos, estamos vendo uma colagem de efeitos visuais produzidos industrialmente, massificados pela propaganda, e escolhidos por nós meio ao acaso, mas com a intenção de criar para nós mesmos uma imagem que possa ser aceita (ou que escandalize), que nos revele (ou que nos disfarce) – cada um escolhe as mensagens que emite.

Para a crítica de ficção científica isto já é, desde os anos 1950, o começo da realidade virtual, da Matrix. Ainda não podemos plugar nossas mentes num super-computador com interfaces sensoriais que inventam um mundo artificial, mas já vivemos num mundo artificial. Quem quiser saber o que é meio ambiente, o que é “o mundo real”, vá para a floresta. Nas cidades, tudo já pertence à Matrix. Tudo já pertence ao mundo das ilusões, ao mundo manipulado que nos manda o tempo todo instruções subliminais. São recados que passam por sob o limiar de nossa consciência. Eles nos guiam ou nos seduzem; nos erotizam ou nos advertem; nos policiam ou nos distraem. Abaixe este jornal. Olhe em redor. Você está na Matrix.