Como faço de vez em quando, vai aqui um pequeno balanço de filmes vistos recentemente. Hoje em dia saio pouco, e em geral vejo filmes em streaming, ou em DVDs comprados, ou cópias emprestadas por amigos.
TESTAMENT, de Lynne Littman (EUA, 1983)
Uma família enfrenta o “day after” de um ataque nuclear
aos Estados Unidos, numa pequena cidade da Costa Oeste. Depois que uma bomba
atômica cai em San Francisco (onde o pai trabalhava), a esposa e os filhos,
junto com os vizinhos, tentam organizar a vida, poupar energia, poupar comida,
e enfrentar a morte lenta causada pela poeira nuclear.
O filme não se volta para as hecatombes militares; a
guerra é algo distante mas a radiação é fatal. A narrativa acompanha os
problemas miúdos e preciosos de quem, vendo todo mundo morrendo devagar ao seu redor,
tenta aproveitar e organizar melhor os dias de vida que lhe restam.
É um filme raro no subgênero “pós-apocalipse” da ficção
científica. A esta altura, ninguém o chamaria de FC, embora lide com uma premissa
surgida na FC da época da Guerra Fria: “Como serão os dias seguintes a uma
guerra atômica?”. E é um filme dirigido por uma mulher, e com a atenção
resolutamente voltada para o interior de uma casa, a perplexidade de uma
dona-de-casa comum, e de uma família que fica nas mãos dela depois que o mundo
começa a se acabar.
O elenco é todo excelente, e não tem ninguém famoso. Eu conhecia
apenas o ator que faz o pai (William Devane; ele faz o ladrão de jóias em Trama Macabra, de Hitchcock). A atriz
principal, Jane Alexander, é o centro do filme, não deixa o filme afrouxar um
instante sequer. As crianças são excelentes. É um filme que dói no coração,
porque vemos a poeira radioativa pousando nos móveis, no chão, nos objetos... Sabemos que todas aquelas pessoas estão
condenadas, mas mesmo assim elas encenam pecinhas infantis no teatrinho da
escola, elas pedem socorro pelo rádio, elas folheiam os próprios álbuns de
fotografias, enquanto ao seu redor tudo vai se esgotando: energia elétrica,
água potável, comida enlatada, pilhas de rádio...
Acho que um filme assim é uma contrapartida necessária a
filmes mais grandiloquentes como “The Day After”, que mostra os horrores da
destruição das bombas propriamente ditas.
CITY OF LIFE AND DEATH, de Lu Chuan (China, 2009)
Eu me lembro que quando eu era pequeno lia, nas revistas
e livros de História, referências à “guerra sino-japonesa” e ficava pensando
por que motivo chineses e japoneses entrariam em guerra, já que eram tão
parecidos uns com os outros. Vendo este filme, essa idéia me voltou à cabeça.
Hoje sei (ou imagino saber) por que motivo estavam em guerra, mas continuo me
perguntando: por quê, se são tão parecidos? A mesma pergunta, aliás poderia ser
feita diante de filmes como “E o Vento Levou” ou “Guerra e Paz”. Somos todos tão parecidos, e viveremos eternamente em guerra.
O filme conta a captura de Nanjing pelas tropas
japonesas, e as semanas de massacre que se seguiram. Tem tela larga e
fotografia em preto-e-branco, com excepcionais cenas de multidão. E é muito
cruel ao mostrar, mais do que o absurdo da morte, o absurdo da vida: as
negociações de poder entre os sobreviventes, as mil e uma sacanagens e
humilhações impostas aos perdedores, as traições, as vergonhas de quem tenta
sobreviver a qualquer custo.
É curiosa a presença, no meio dessa guerra totalmente
oriental, de um pequeno grupo de alemães nazistas, detentores de um certo poder
político (afinal estão ganhando a guerra, que precede de pouco o início da II
Guerra Mundial), mas veem-se meio perdidos no meio daquele terremoto que
ajudaram a desencadear e que foge cada vez mais ao seu controle.
A PRAIRIE HOME COMPANION, de Robert Altman
(EUA, 2006)
Robert Altman gostava de dirigir de vez em quando filmes
com elenco numeroso, distribuído entre dez ou quinze personagens igualmente
importantes, com a narrativa focalizada num ambiente profissional (Prêt-à-Porter, Nashville) ou social (Gosford
Park). São filmes onde vários fios narrativos vão se entrelaçando uns aos
outros, interferindo-se, e a câmera passa de um pequeno grupo para outro,
amarrando tudo, numa história bem montada que às vezes decorre em poucos dias,
às vezes num dia apenas.
É o caso deste filme sobre um famoso programa de rádio
com música country, que ficou décadas
em cartaz. O roteiro mostra o programa em sua última audição, com platéia cheia
e transmissão ao vivo pelo rádio. É o ambiente “de época”, de um tempo em que o rádio era o
grande ponto de encontro das pessoas, antes da televisão. Números musicais,
piadas, propaganda, conversas vão se sucedendo no palco, diante dos microfones,
enquanto o roteiro acompanha as intrigas de bastidores, as fofocas de camarim,
as disputas, as vaidades.
Há um número impagável em que a assistente não consegue
encontrar a página com o texto de uma propaganda e o apresentador fica
improvisando qualquer coisa durante minutos a fio diante do microfone. Rádio
sem improviso não é rádio. Rádio com improviso é bicicleta ladeira abaixo.
A GHOST STORY, de David Lowery (EUA, 2017)
Este filme é anunciado como filme de terror, mas de
terror tem muito pouco. O que é? É o que chamávamos “história de alma”, de alma
do outro mundo, espírito de gente morta. Um personagem morre logo nos primeiros
minutos e daí em diante se transforma nesse lençol meio assustador que aparece
no cartaz. Não fala, não interfere, apenas volta para a casa onde a viúva
ficou, abatida... mas ele é invisível a todos. Ninguém percebe sua presença, e
ele se torna aquela testemunha impotente do seu próprio pós-morte.
A idéia pode não ser a mais original, mas a direção de
Lowery é personalíssima. Não há sustos (bem, há um ou outro apenas). Os planos
são longos, tarkovskyanos, mas, curiosamente, não são tediosos, porque aquela
presença ectoplásmica injeta uma tensão de tudo-pode-acontecer até na cena em
que a moça come sozinha uma torta durante longuíssimos minutos, observada pelo
fantasma do marido.
A música é minimalista e espantosamente adequada para nos
dar a idéia de um tempo que escapa por entre os nossos dedos. Um morto
(percebemos agora) não tem noção da passagem do tempo, que é um instinto
físico, animal. Uma alma não tem isso. A alma pisca o olho e a
casa está vazia de móveis. Pisca de novo, e tem uma família nova morando em seu
lugar. Minutos parecem horas. Décadas parecem segundos. É um dos poucos filmes
que conseguem nos transmitir um ponto de vista plausível de uma consciência,
pós-morte, conseguindo ainda captar alguma coisa do mundo carne-e-osso.
O escritor Mike McCormack é autor de um romance (sem
relação com este filme), Solar Bones,
cujo narrador é um fantasma. O livro consta de uma frase contínua, por centenas
de páginas, sem ponto final. Diz o autor: “A mim parece óbvio que um fantasma
não sabe o que fazer com um ponto. O ponto final é algo totalmente alheio à
sua experiência.” É bem por aí.