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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

4196) Um cão de lata ao rabo (3.1.2017)



(Machado, por: Rocha + Takiguthi + Ramon Muniz)





Na velha edição da “Obra Completa” de Machado de Assis em três volumes, da Aguilar, li uma crônica dele em que um mestre escola sugere um tema a seus alunos.

O tema proposto é “Um cão de lata ao rabo”, e ao recolher os trabalhos o imaginário professor recebe três que se destacam dos demais. Os respectivos estilos são: “1 – Estilo antitético e asmático; 2 – Estilo ab ovo; 3 – Estilo largo e clássico.”

Esse é o exemplo mais antigo que me lembro de uma história sendo repetida, de três maneiras diferentíssimas, por três maneiras diferentes de pensar, que Machado parodia de modo muito divertido.


Anos depois dei uma furtadinha nesse título para um conto, tendo como mote a imagem sugerida por Machado. O escritor é um cachorro correndo. Amarrada ao rabo dele, há latas que produzem sons musicais diferentes. Essa melodia é o estilo dele, e a obra é o que resulta dela.

Existem escritores para quem escrever é rasgar a alma e as tripas e botá-las à venda na tábua de uma barraca pouco higiênica na esquina da baixa da Rua da Lama num país periférico e suicida. Para escritores assim, o estilo é a pessoa. Eles não poderiam escrever de maneira diferente, mesmo se disso dependessem suas vidas. O escritor é aquilo, ele escreve aquelas coisas, sempre daquele jeito. Ele não tem dois ou mais conjuntos de entranhas, só tem aquele.

E existem os que, sem perder a sinceridade ou o personalismo, manejam essas técnicas como Machado manejou. Para este segundo tipo de escritores, trocar de estilo é tão banal quanto trocar de roupa. Ou de figurino, porque o autor assim é um ator, troca de máscaras como bem lhe convém. Como faz Raymond Queneau em seus famosos Exercícios de Estilo, livro onde ele reconta uma mesma cena casual, entre transeuntes, de 99 maneiras diferentes.



Um cão que atravessa a mesma rua 99 vezes, cada vez com uma lata diferente atada à cauda. E cada vez uma sonoridade, um timbre, um andamento diferente. A lata é outra mas, por baixo disso, algo se repete e está sempre presente, porque o cão e a rua são os mesmos.

Queneau fez no seu livrinho uma demonstração meio por “redução ao absurdo”. Diante de suas piruetas verbais, os seus tradutores acabam se divertindo também, porque é um processo reiterativo que convida à reaplicação. Existe, sim, a Grande Arte da paródia, ou do pastiche, ou da imitação meramente técnica. 

Experimentos lúdicos desse tipo parecem às vezes, ao leitor pouco aficionado desses jogos mentais, uma demonstração de erudição, de alta complexidade. Nem tanto. Em geral, os escritores que gostam de truques assim (Lewis Carroll, James Joyce, Umberto Eco, Thomas Pynchon, Georges Perec) fazem porque acham divertido, e conseguem usar essa diversão como um gerador de energia-de-escrever.

Perec dizia que seu objetivo era produzir uma obra extensa onde não houvesse dois livros quaisquer pertencentes ao mesmo gênero. Não sei se conseguiu, mas em todo caso isso descreve bem a variedade das suas abordagens narrativas. Ele era cruzadista, meio cientista, fã de whodunits e de pulp fiction. E dominava (embora não tanto quanto seu mestre Queneau) um grande número de estilos.




Nem por isso sua visão do mundo, ou o que a valha, deixa de aparecer em tudo quanto ele escreve. A obra é raramente autobiográfica, mas estão há sempre referências a toda uma história sua que se perdeu e outra que se salvou.

Em casos como esses todos, a multiplicidade de estilos não se transforma numa multiplicidade de capas escondendo o autor, e sim como uma multiplicidade de rascunhos feitos de memória para captar uma imagem que se viu poucas vezes. Não são mil disfarces, mil camuflagens, são mil tentativas de aparecer feitas por algum fantasma.

Alguns têm a facilidade de ser publicados como humoristas, como foi o caso de Millôr Fernandes (“enfim, um escritor sem estilo!”), outro notório surrupião de modos de falar, ou como poetas, caso de Fernando Pessoa, que inventava tanto o estilo quanto o homem.



Ou como Daniel Clowes, o surrealista-lynchiano de novelas gráficas: Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro (Like a Velvet Glove Cast in Iron, 1993) tem a nonsequiturice de Um Cão Andaluz numa ambientação de road movie e semi-enredo de filme policial noir.

Um dos seus álbuns, Wilson, segue, de leve, a sugestão dos 99 de Queneau. Cada página isolada do livro é desenhada num estilo de grafismo e de cor diferente das anteriores – mas a história avança. Não é a mesma cena, são capítulos de uma mesma história, desconjuntada mas proposicionalmente única. Como se a cada salto do olhar para o começo da página nova houvesse uma troca de canal, ou uma aplicação de filtro.



Em Wilson, Clowes conta as atribulações de seu barbudo sub-herói, que em algumas imagens é a cara do Walter White de Breaking Bad (só que numa versão existencialista e menos agressiva). As mudanças de estilo têm continuidade suficiente para que o leitor possa pular de uma faixa para a outra sem atrapalhar o passo.  Li em algum lugar que alguns críticos nem perceberam, pelo pouco que comentaram, o uso de toda essa variedade de formas, com transições tão insistentes e propositais.



Se algum crítico nem percebeu isso não percebeu, está na companhia dos críticos que leram o livro de Georges Perec onde ele proibiu a letra E (La Disparition) e não perceberam que uma das vogais estava ausente do livro inteiro. O romance foi traduzido ao inglês por Gilbert Adair como A Void, e agora no Brasil como O Sumiço, em tradução de Zéfere (Ed. Autêntica).




Saber imitar estilos é como saber imitar a voz e os trejeitos dos amigos, ou ser capaz de produzir 99 personagens e diluí-los em si próprios, deixando ver o ator.



















quarta-feira, 6 de maio de 2015

3807) Ler na cama (7.5.2015)



Pergunta-se muito às pessoas “qual é o seu livro de cabeceira”, supondo com isto que cada pessoa mantém um livro junto à cama para se aconselhar naquele aconchego de pré-dormida, ou durante as horas de insônia. Livro de cabeceira implica livro favorito, livro companheiro-de-todas-as-horas, mas que, como qualquer companhia de todas as horas, ganha uma importância especial nas horas em que tudo está bem, tudo está em paz, a família ressona, a cidade descansa, as contas estão pagas, “governo e oposição estão sem assunto” (como dizia Guilherme de Figueiredo), o mundo inteiro está adormecido... e para acontecer o “plin!” da perfeição a gente precisa apenas estender o braço, e apanhar o Livro de Cabeceira. Qual é o seu?

Eu não tenho, ou melhor, tenho junto da minha cama um movelzinho de madeira com duas fileiras de volumes. A última vez que contei, eram vinte e sete. Ali tem principalmente livros recentes que ainda estão sendo examinados pra ver se dão um caldo, livros de amigos, livros divididos em unidades menores (poesia, contos, artigos, variedades, fragmentos) que vou lendo ao ritmo de uma unidade por semana. Não existe O Livro Especial, e muitos que ali estão são livros de releitura, volumes de contos ou de poemas que já li dez vezes, mas a última delas foi quinze anos atrás. Em verdade vos digo: a gente só pode dizer que conhece um livro quando o lê pelo menos duas vezes.

O “pobrema” de ler na cama não é mental nem bibliográfico, é físico. Primeiro, a posição. Tudo que a Inquisição Espanhola vem fazendo à minha coluna nos últimos vinte anos não se deve às minhas piadinhas de herege, e sim ao costume de ler deitado. Os médicos já insistiram: “Ponha travesseiros, sente em forma de L (tronco ereto, pernas esticadas). Não leia na horizontal com os travesseiros forçando seu pescoço para cima”. Disseram, mas não adiantou, foi como se eu telegrafasse hoje para John Lennon pedindo-lhe que não desse autógrafo a ninguém quando chegasse em casa tarde da noite.

E aqui pra nós, é uma coisa fisicamente absurda o camarada pretender ler deitado, com os dois braços tendo que manter o livro erguido no ar, com a luz do teto incidindo nos olhos e a página sendo mantida na sombra. Em casa a gente se vira, mas 99% dos hotéis brasileiros tratam seus hóspedes como indivíduos avessos à leitura: não há um mísero quebra-luz pra clarear o livro. Sem contar o maior problema de todos, resumido por Millôr Fernandes num versinho que trago decorado desde a infância: “Ler na cama / é uma difícil operação. / Me viro e me reviro / e não encontro posição. / Mas, se afinal encontro um cômodo abandono... / pego no sono”.




quinta-feira, 27 de março de 2014

3457) Numa casca de noz (27.3.2014)



Vi uma postagem numa rede social, numa troca de idéias entre tradutores, comentando um livro que traduziu assim um título em inglês: A História das 40 Horas de Devoção em uma Casca de Noz. O original deve ser algo como The History of the 40 Hours’ Devotion in a Nutshell. A expressão “in a nutshell” tem o sentido de: “de forma resumida, de forma compacta, em poucas palavras”. Talvez tenha origem na famosa frase do Hamlet de Shakespeare: “O God, I could be bounded in a nutshell, and count myself a king of infinite space—were it not that I have bad dreams.”  Algo como: “Oh, Deus, eu podia ser trancado numa casca de noz e me considerar um rei dos espaços infinitos, não tivesse os sonhos maus que tenho”.

Dessa fonte clássica, talvez, veio a expressão popular “in a nutshell”, ou quem sabe ela já era popular no tempo do dramaturgo. Em todo caso, é uma dessas frases feitas, em torno de uma imagem fortemente concreta, de que a língua inglesa é rica. “Money makes a hole in his pocket” poderia ser traduzido por “dinheiro na mão dele é vendaval”, mas a imagem física da frase original suportaria ser vertida diretamente. (Ressalva: o personagem estaria deixando de dizer um clichê banal, e dizendo uma frase aparentemente fora do comum.) “I put my foot in my mouth yesterday” é mais visual do que, e tão coloquial quanto, “rapaz, eu ontem paguei o maior mico”.

Expressões populares tipo provérbios, comparações, frases feitas, aforismos, usam muitas vezes de uma força imagética que tanto tem de vívida quanto de meio sem sentido. Falar de corda em casa de enforcado?  Cor de burro quando foge?  Contar com o ovo no cu da galinha?  Pegar ar (=irritar-se)? E quando a gente traduz expressões estrangeiras, elas têm expressões de função equivalente em português, mas usando imagens completamente diversas. E algumas dessas frases, traduzidas com aquela literalidade de Millôr Fernandes em The Cow Went to the Swamp, ficam muito engraçadas, porque ninguém as diz assim em português. 

Muitas vezes a gente precisa traduzir “drunk as a lord” por “bêbado como um gambá”, mas “bêbado como um lorde” passaria imagem diferente, um contexto diferente; passaria uma ironia diferente, e como tal seria uma frase com luz literária própria. Outras não transporiam tão bem; mas quando alguma frase transpõe, o resultado literário pode ficar interessante. Se um sueco traduzir “Fulano pegou ar” para o idioma sueco conseguindo transmitir a idéia de algo inflável que vai inchando até estar bufando e a ponto de explodir... Se ele traduzir assim, pode ficar mais interessante do que a expressão equivalente lá deles.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

3344) Viva Millôr! (15.11.2013)




(Quinho)



Millôr Fernandes foi escolhido como homenageado da Flip, Festa Literária de Paraty, um dos mais importantes eventos literários do país. E logo começaram os aplausos, de um lado, e os apupos, do outro. 

Vou logo avisando que estou do lado dos aplausos, e olha que eu participei de um abaixo-assinado defendendo a escolha de Lima Barreto para essa homenagem. Não deu Lima; deu Millôr. É justo?

Na rejeição de alguns a Millôr há uma defesa da “literatura propriamente dita” contra a sua contaminação por outras atividades. 

Entre nós, literatura significa romance, conto e poesia. Para ser grande escritor é preciso ter sido grande numa dessas três áreas. Tanto que aí estão os homenageados anteriores: romancistas/contistas (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Machado de Assis, Graciliano Ramos), poetas (Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. Carlos Drummond), com a ressalva de que alguns se destacaram também em outras áreas. 

Restam os casos do dramaturgo Nelson Rodrigues, mas este também foi um romancista de peso; e do sociólogo Gilberto Freyre, mas pode-se argumentar o impacto cultural e o brilho estilístico do que escreveu.

Millôr não foi romancista, nem contista, nem poeta. Foi autor de crônicas, epigramas, parábolas, anedotas, aforismos, versinhos de ocasião. Foi excelente tradutor, e dramaturgo de sucesso. Foi um dos nossos melhores artistas gráficos, mas isto “não é literatura”. 

Tinha opiniões claras (de muitas das quais discordo, aliás) e corajosas. Ganhou inimizades porque vivia alfinetando os balões da vaidade de muitos figurões e mostrando que eram feitos de 1% de plástico e 99% de vazio.

A grande contribuição de Millôr não foi na área da ficção nem da poesia, e sim na área da linguagem. Na área da fala-escrita, dos jeitos de dizer. Poucos manejaram a língua brasileira com a mesma versatilidade e habilidade dele. Como outros jornalistas, pegou uma língua pesadona, balofa, e deu-lhe leveza e graça de bailarina ou de craque de futebol. 

Foi um dos maiores fazedores de frases num país que é fértil nesse tipo de talento; e se alguém disser que frase não é literatura é porque pensou no assunto pela primeira vez neste momento.

Isto ele compartilha com Lima Barreto: a linguagem simples, direta e riquíssima. Sua originalidade vem da ousadia das idéias expressas em palavras simples. Millôr combateu a prosa enfatiotada e oca, o beletrismo oratório que levou antas e mais antas às Academias e aos manuais escolares. 

Combateu o Monstrengo Pomposo, aquela prosa “capaz de acrisolar no cadinho do vernáculo as emoções candentes que diuturnamente se estiolam na labuta do louvor às Musas...” Vôte.










terça-feira, 11 de junho de 2013

3209) A piada do incêndio (11.6.2013)



Analisar piadas é uma espécie de tarefa impossível ou de missão inútil. É como dissecar uma mulher bonita ou empalhar raios de sol.

Millôr Fernandes já teve um espaço no Pasquim em que ele reproduzia um cartum qualquer e depois o analisava, sempre começando com: “Evidentemente...” Eram gozações, como se um marciano que nada soubesse da nossa cultura e do nosso modo de ver as coisas quisesse analisar o comportamento de personagens de um cartum.

Mas eu tenho um princípio ideológico que não respeita nem o humor. É esse: “Se achar bom, pare e questione: Por que foi que eu achei bom? Se achar ruim, idem. Se achar engraçado, idem: Por que foi que eu ri?”

Vejam esta piada. Uma menina chega correndo ao quartel dos bombeiros. “Moço, me ajuda, minha casa está pegando fogo!”. O bombeiro responde: “Fique calma! Como surgiu o fogo?”, e a menina: “Na Pré-História, eu não sei exatamente, mas me ajuda por favor!!!”.   Eu ri, mas depois de rir eu sempre faço a pergunta: por que foi que eu achei graça?

Reexaminar suas emoções e reações durante um fato, mesmo fato bobo como uma piada, é um talento que qualquer um pode desenvolver. Ninguém nasce sabendo. Quando li essa piada, ainda há pouco, eu senti um misto de deboche e de piedosa ternura em relação à menina. A casa dela está pegando fogo, mas ela parece viver tão preocupada com as notas da escola que reage à pergunta do bombeiro como se fosse uma pergunta de um professor.

Toda piada (como toda história de mistério, segundo Isaac Asimov) se baseia em um elemento que pode ser visto ou interpretado de maneiras diferentes por diferentes pessoas. Esta piada surgiu quando alguém pensou nos dois sentidos possíveis da frase “como surgiu o fogo?”. Essa frase é o núcleo da piada.

E percebemos que de certo modo nós estamos atribuindo mais gravidade ao incêndio da casa do que a própria menina. O que lembra a frase de Ernesto Sábato, que volta e meia eu cito: “Enquanto o mundo for mundo, sempre haverá um homem que se preocupa com o universo enquanto sua casa pega fogo, e uma mulher que se preocupa com sua casa enquanto o universo pega fogo”.
 
No breve instante da “punchline”, a menina atribuiu valores equivalentes a um e a outro.

O que é tocante e nos enternece é ver o funcionamentozinho da mente ingênua, porque no estado de alarme da garota ela responde como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao dar um alarme de incêndio para o bombeiro, ele lhe fazer uma “pergunta de prova oral de História”.

No mundo dela, é melhor responder ao que os adultos perguntam, mesmo que as perguntas deles pareçam uma coisa totalmente inadequada à gravidade da situação.






quinta-feira, 19 de abril de 2012

2848) Millôr Fernandes (19.4.2012)



Não conheci Millôr pessoalmente. No lançamento de um livro, há quase 20 anos, num salão repleto de gente, vi-o a cinco passos de distância, conversando com alguém. Poderia ter ido até lá e dito a bobagem de sempre, “sou seu fã desde pequenininho”, a que ele responderia com bom humor e atenção, como me parece que era seu jeito. Paciência. Um autor tem vida própria, tem sua família, seus amigos. E tem seus leitores, que são uma espécie de amigos virtuais: nunca conviverão com ele, nunca tomarão um cafezinho na esquina ou um chope na calçada, nunca compartilharão confidências pessoais, nunca telefonarão um para o outro quando estiverem precisando trocar idéias ou reclamar da vida. Paciência; a vida é assim, não adianta reclamar.

Cresci numa época em que a revista O Cruzeiro era uma espécie de Fantástico, o Show da Vida impresso, que levávamos uma semana saboreando. Eu lia as reportagens sobre futebol, crimes e discos voadores; e lia as seções de humor, o Pif-Paf de Millôr, o Amigo da Onça de Péricles, a página de Carlos Estêvão, os cartuns de Appe ou Borjalo. Millôr saiu da revista brigado, por causa da sátira “A Verdadeira História do Paraíso”, que desagradou a Igreja. Fundou seu próprio Pif-Paf, depois entrou no Pasquim, tornou-se uma figura onipresente na minha vida adulta. Por causa dele conheci a obra de Steinberg, e a palavra “cartum” virou uma forma de arte. Li quase todas suas peças de teatro, a começar pela colagem Liberdade, Liberdade com Flávio Rangel (um dos mais célebres espetáculos anti-ditadura), e depois É..., Um elefante no caos, Os órfãos de Jânio, Computa, computador, computa!... Millôr era uma espécie de Bernard Shaw carioca. Seu teatro era engraçado, profundamente crítico, e cheio de teorizações sobre o Brasil e o mundo.

Foi o maior fazedor de frases do Brasil? Difícil dizer, porque este é um dos talentos mais espontâneos e viscerais do nosso povo. Mas mesmo nesta concorrência acirrada Millôr poderia reivindicar o título pelo mero fator quantidade (basta folhear A Bíblia do Caos). Era um agnóstico tranquilo e um individualista renitente. Brigava pelo direito de não usar cinto de segurança, o que me parece idiota na prática mas compreensível como atitude ideológica (“quem manda em mim sou eu, não o Estado”). Tinha uma independência de espírito que muitos intelectuais também poderiam ter, se para isso não fosse preciso ter a coragem de passar a vida batendo com a cabeça nas paredes e dando murros em pontas de faca. Millôr fez isso até o fim, e, pelo menos daqui de onde enxergo, as paredes e as facas nunca mais tiveram o mesmo poder sobre seus leitores virtuais.

quinta-feira, 25 de março de 2010

1825) A paz da descrença (14.1.2009)



(ilustração: Millôr Fernandes)

Numa entrevista ao programa Encontro Marcado com as Artes, Millôr Fernandes rememora um episódio crucial de sua infância. Tendo perdido o pai aos cinco anos, ele perdeu a mãe aos dez, e foi morar na casa de um tio. O dia do enterro da mãe foi um dia meio confuso em que ele não teve muita noção do que estava acontecendo. Quando tudo acabou, de volta à casa do tio, ele ficou sozinho no quarto que lhe destinaram. A casa tinha um piso de tábuas corridas, e o piso tinha sido lavado naquele dia. Embaixo da cama havia uma esteira, e o piso estava ainda fresco e úmido, naquele dia de calor. “Fui para baixo da cama,” diz ele, “deitei na esteira e chorei até me acabar. Ninguém viu. Chorei até não poder mais. Depois que acabei, baixou sobre mim uma paz muito estranha, que só posso definir como a paz da descrença. Eu percebi que existia eu, existia o destino, e nada mais. Nenhum intermediário. Nenhuma interface.”

Este episódio lança uma pequena pista sobre a complexa personalidade de Millôr Fernandes, que tem sido por mais de cinco décadas, à distância e à revelia, um dos meus professores de agosticismo. Tive a sorte de não ter passado por uma perda semelhante à dele, de forma que minha relativa descrença se teceu com outras fibras. Millôr é um cético e frequentemente um cínico, pela sua visão irreverente das nossas limitações morais. É um cinismo, contudo, que critica a humanidade em nome de um humanismo. Não é o cinismo ególatra e “blasé” de um certo pessoal de hoje em dia, que escarnece de todas as ideologias, de todas as crenças, de todos os valores, mas preserva cuidadosamente a própria vaidade e os próprios interesses. Millor diz, na entrevista: “A maior qualidade humana não é a inteligência nem a competência técnica, é a bondade. Se estou na minha janela e vejo um acidente lá embaixo na rua, às vezes, por alguma razão, não posso descer para ajudar, mas vejo que duas ou três pessoas descem. Isso me dá fé na humanidade”.

A descrença em divindades sobrenaturais é, para alguns, uma fonte perpétua de desespero, negação de tudo, revolta surda e irritada contra a vida. Para outras pessoas, a descrença pode ser a força que leva cada indivíduo a extrair um humanismo de si mesmo, um humanismo por conta própria, não aprendido num manual ou numa Escritura Sagrada, mas como consequência das experiências de vida de cada um.

Millôr já se queixou muitas vezes de que não é considerado escritor porque nunca escreveu um romance. O que produziu – mesmo que filtrado, enxugado, reduzido ao essencial, ao não-circunstancial, ao que é realmente bom – somaria alguns milhares de páginas. (Sem falar no seu espantoso trabalho como artista gráfico.) Mas os manuais de Literatura Brasileira não lhe reservam mais que umas poucas linhas, enquanto dedicam páginas e mais páginas a algumas cavalgaduras diplomadas e pomposas que só produziram miolo-de-pote. Nossa descrença começa sempre em nossa própria casa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

1285) Contos com 6 palavras (26.4.2007)




Será possível contar uma história em apenas seis palavras? Muita gente acredita que sim. 

O escritor Marcelino Freire organizou uma antologia de contos que não poderiam ultrapassar a extensão de um miniconto de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. 

Inadvertidamente, o antologista não estabeleceu um limite para a extensão do título – o que levou o picaresco Millôr Fernandes a bolar um título imenso, que contava a história quase toda. 

Já o “conto de seis palavras” tem como modelo um miniconto atribuído a Hemingway, que diz: "For sale: baby shoes, never worn" (“Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”). Há toda uma história de tragédia familiar por trás deste minitexto. O miniconto consiste basicamente em sugerir, não em mostrar.

O websaite da revista Wired (http://www.wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html) convidou dezenas de autores para produzir textos de 6 palavras com histórias de ficção científica ou fantasia. 

Tem muita besteira, claro. Mas tem também algumas soluções brilhantes. Vejam este, de Eileen Gunn: “Computador? Trouxemos baterias? Alô! Computador? Computador?…” Não precisa mais nada para a gente imaginar uma nave silenciosamente à deriva no espaço, e astronautas congelados, todos com a cara de Mr. Bean.

As especulações sobre o fim do mundo também são ricas em possibilidades. Eis um exemplo de Gregory Maguire: “Nos arranha-céus calcinados, homens criaram asas”. Sugere uma II Guerra Mundial, uma inesperada mutação, uma volta-por-cima no Apocalipse. Não é pouco. 

Outros fins-do-mundo são menos imaginativos, mas não menos amedrontadores: “Choveu, choveu, choveu, nunca mais parou”. Vejam que se trata de algo cientificamente impossível, uma chuva que nunca pára – o que a torna mais inquietante ainda.

Viagens no tempo são um caminho interessante para estas narrativas super-rápidas. Harry Harrison propõe esta hipótese: “MÁQUINA CHEGA AO FUTURO. Ninguém lá...” 

Um recurso mais operacional, meio clichê dentro do gênero, mas eficaz nas curtas dimensões do miniconto, é a historieta de Alan Moore: “Tempo. Sem querer, inventei máquina do.” E tem a humorística hipótese de David Brin: “Dinossauros retornam. Querem petróleo de volta”.

Não multiplicarei os exemplos (no saite tem mais de 50). O interessante nestas experiências é o fato de que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco-de-dados comum para preencher as lacunas, as partes não explicadas (não dá para explicar muito em seis palavras). 

As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem precisar ficar esmiuçando “comos” e “por quês”. As seis palavras são a ponta de um iceberg de subtexto implícito, compartilhado, lido e aprendido por autor e leitor. São como um título de livro, uma manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de “já saber” e também de imaginar.





segunda-feira, 7 de setembro de 2009

1253) O prostiturismo (20.3.2007)


Millôr Fernandes situou a problemática do turismo numa frase, como sempre, brutalmente veraz: “Transformar sua cidade em atração turística é como colocar sua mãe na Zona”. Precisa dizer mais? Existem dualidades conflitantes nesse negócio de turismo. O turista alemão, louro e obeso, tem pela nossa cidade um interesse muito maior do que temos pela pessoa dele. Ele só nos interessa porque dispõe de dólares para espalhar à mão-cheia. Queremos os turistas em nossos shoppings, nossas lojas, nossos restaurantes. Se viessem aqui sem um tostão, apenas para andar na rua e fazer perguntas sobre nossa cidade, nossas vidas, nossos planos para o futuro, nossa opinião sobre a existência de Deus ou sobre o formato do Universo, nós os correríamos daqui a vassouradas. Não queremos o interesse espiritual deles. Queremos a grana, não é mesmo?

Aí, quando eles tentam estabelecer conosco uma relação prostitucional, ficamos ressentidos. Mas o modo como o turismo se organiza (“nós oferecemos as belezas naturais, vocês oferecem as riquezas artificiais”) conduz fatalmente a isto. Nem todos os turistas vêm pensando apenas em pegar nossas mulatinhas impúberes e conduzi-las ao motel mais próximo. Mas desde que se estabelece um interesse prioritário pelo dinheiro que deixarão aqui, qualquer um que tenha dinheiro se sente no direito de trocar esse dinheiro pelo que mais lhe interessa. Não importa se o que ele vem visitar são igrejas barrocas ou mulatas boazudas; o dinheiro que deixam aqui tem o mesmíssimo valor. Se não é isso que queremos, então vai ser preciso fazer muita força. Cuba foi o bordel dos EUA durante muitos anos; fizeram uma Revolução Socialista para acabar com isto (entre outras coisas) e hoje, meio século depois, Cuba voltou a ser bordel (pelo que me contam; nunca estive lá).

Existem outras formas de fazer turismo? Eu, pelo menos, sempre fiz turismo por outras razões. Existe o turismo da fantasia simbólica, que faz um brasileiro abestalhado sair daqui até Liverpool (como ainda pretendo sair um dia) só para tirar uma foto junto a uma placa onde está escrito “Penny Lane”, ou cruzar metade do mundo (como ainda farei) para ver em Hiroshima a abóbada que sobreviveu à explosão da bomba. Por que as pessoas fazem isto? Porque se sentem intimamente ligadas, por questões espirituais ou artísticas ou literárias ou religiosas ou políticas – ou seja, por questões culturais – a lugares distantes. Um amigo alemão quase me estrangula uma vez porque afirmei que mesmo morando no Rio não sabia onde ficava o Museu Carmen Miranda. Já recebi em Campina Grande jornalistas que queriam conhecer a casa onde morreu o cangaceiro Antonio Silvino (não existe mais; ficava na Praça Félix Araújo, no Monte Santo). Podem ser motivos meio bobos para se fazer turismo, mas são motivos verdadeiros. Quem visita Veneza, o Cairo, Praga, Ouro Preto, o Lago Ness, Waterloo, Cordisburgo, Graceland, não vai atrás das menininhas locais.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0061) O poeta e o imperador (1.6.2003)



Millor Fernandes resumiu tudo numa fórmula simples: “O pobre quer ser rico, o classe-média quer ser rico, o intelectual quer ser rico, e o rico quer ser intelectual.” Precisa dizer mais? 

É curioso o modo como quem tem o Saber sonha com o Poder, e vice-versa. É curioso como quanto mais nos aproximamos de um deles mais nos afastamos do outro. Parece um decreto da Providência divina, porque se algum dia alguém conseguisse ser dono destas duas forças, seria igual aos deuses.

Seria digno de uma grande cobertura jornalística o encontro entre o Rei que tinha arroubos de poeta e o Poeta que tinha pose de rei; mas o encontro de D. Pedro II e Victor Hugo em Paris, em 1877, ocorreu quase sem testemunhas, e sem nenhum alarde, durante a segunda viagem do Imperador à Europa. 

Fernando Gouveia registra em O Imperador Itinerante que, hospedado no Grand Hotel de Paris, onde recebia visitantes e diplomatas nos fins de tarde, Pedro II vinha já há algum tempo tentando uma audiência com o poeta, mas Hugo já por duas vezes se esquivara. Na primeira vez, com uma seca recusa; na segunda vez, valendo-se de sua condição de Senador para sugerir ao Imperador que fosse procurá-lo em seu gabinete do Senado, em Versalhes.

Na verdade, a saúde de Hugo, que tinha 75 anos, começava a declinar, e isso viria a afastá-lo da política no ano seguinte. 

Talvez aos seus olhos aquele sul-americano relativamente jovem (51 anos), imperador ou não, fosse apenas mais um admirador em busca de um autógrafo e de uma história para sair contando.

Foi portanto com uma certa condescendência que finalmente, em 22 de maio, o poeta concordou em receber o imperador em sua casa, no nº 21 da Rue de Clichy. Desse modo, repetia-se o episódio de cinco anos antes, quando da visita de Pedro II a Portugal: Camilo Castelo Branco se recusara a ir visitá-lo no hotel e o monarca, com a humildade característica dos verdadeiros leitores, foi à casa do romancista.

Hugo registrou a visita em seus “Carnets”, e o diálogo entre os dois parece finalmente ter transcorrido sem acidentes. Ao chegar, Pedro II disse logo: “Tranquilizai-me, sou um pouco tímido.” 

Hugo apresentou seu neto Georges ao Imperador, e chegou a tratá-lo de “Majestade”. A resposta de Pedro II (“talvez com malícia maior do que parece”, como observou Wilson Martins, no volume 4 de sua História da Inteligência Brasileira), foi: “Aqui só há uma majestade, é Victor Hugo”. Os dois voltaram a se encontrar dias depois, num jantar ao qual compareceu também a atriz Sarah Bernhardt.

Hugo viria a morrer exatamente 8 anos depois, em 22 de maio de 1885. 

Quanto a Pedro II, guardou como recordação do encontro a foto autografada que Hugo levou depois, pessoalmente, ao Grand Hotel, com a dedicatória: "Àquele que tem como ancestral Marco Aurélio", o que mostra que um único encontro bastou ao Poeta para perceber por qual tipo de glória suspirava o Imperador.