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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

5216) O "Frankenstein" de Del Toro (8.1.2026)



 
Existem algumas centenas de monstros-de-Frankenstein espalhados pelo cinema, pela literatura, pelas artes gráficas. O cientista criado por Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein, descobriu um ovo de Colombo: a capacidade inesgotável de criar um ser a partir de pedaços de outras criaturas. 
 
O mito de Frankenstein completou duzentos anos (o livro original de Mary Shelley é de 1818) e nada indica que esteja se esgotando. Cada escritor, desenhista ou cineasta retalha pedaços das obras alheias e com eles compõe a sua. “Frankenstein” é, de certo modo, uma vasta metáfora da reciclagem, da pirataria, da canibalização (reutilização de obras já existentes, em outro contexto), da colagem de pedaços alheios para produzir uma criatura monstruosa que em princípio nem sequer conseguiria estar viva. “E no entanto ela se move.” 



(Ilustração de Theodor von Holst para a edição de 1831 do livro)

 
O inglês Brian Aldiss advoga, desde a primeira edição de seu estudo Billion Year Spree, que a ficção científica começou com o livro de Mary Shelley, e tem bons argumentos para isto. Aldiss define assim o gênero: 
 
A ficção científica é a busca de uma definição do homem e de seu status no universo, baseada em nosso atual estágio de conhecimento (avançado, ainda que confuso) e é tipicamente delineada no modo Gótico ou pós-Gótico.
(The Encyclopedia of Science Fiction, trad. BT) 
 
Há um número espantoso de histórias de FC que de científicas têm apenas a superfície, a parafernália, os adereços. Estão a anos-luz de distância da mais básica verossimilhança científica. Parecem ignorar o método científico. Passam por cima de verdades científicas básicas, sem o menor constrangimento. Por exemplo: histórias de espaçonaves mais rápidas que a luz, ou histórias de máquinas do tempo. 
 
São fantasias científicas, na verdade. Histórias desbragadamente fantásticas que pedem emprestados os figurinos da Ciência, não para ridicularizá-la, mas para imaginar melhor, alcançar outras regiões do pensamento. 
 
E algumas dessas histórias usam de maneira até exagerada certas convenções da literatura Gótica, como sugere Aldiss. A impressão de que o mundo é governado por forças inexplicáveis (e isto não se refere nem a Deus nem ao Diabo). A sensação de pequenez e de impotência do ser humano diante de um universo hostil. A carga e o peso de uma culpa cósmica, um pecado original que não se refere ao critério religioso, mas ao simples fato de existir. 



(Guillermo Del Toro) 

 
Uma narrativa está vibrando num diapasão Gótico quando nela se verifica uma invasão trágica do sobrenatural no mundo físico, e uma invasão do Passado no Presente. 
 
E nas histórias de Ciência Gótica, essa invasão se dá mediante o uso alucinado da Ciência, o seu uso arrogante, egocêntrico, desafiador, o uso de quem tenta ultrapassar limites, fazer o que não pode ser feito. Daí que o título original do livro de Mary Shelley seja: Frankenstein, ou O Prometeu moderno. A ciência é um desafio aos deuses. 


A imaginação visual de Guillermo Del Toro parece feita sob medida para esses temas, e o seu Frankenstein está à altura da riqueza visual de seus outros filmes, em termos de direção de arte, cenografia, fotografia, iluminação, etc. Numa entrevista, o diretor lembra que o laboratório do Dr. Victor Frankenstein não é descrito no livro de Mary Shelley. É uma criação do cinema e das artes visuais. Uma criação que não cessa se se ampliar e se enriquecer, como este filme demonstra. 



 
(A Noiva de Frankenstein, 1935)

 
Del Toro comenta também que para ele o filme é uma fábula da paternidade, da relação pai/filho. Diz que se tivesse feito o filme vinte anos atrás, estaria falando de sua relação com seu pai; fazendo-o agora, está falando disto, mas também de sua relação com seus filhos. 
 
O que não deixa de lembrar o conto de Jorge Luís Borges “As Ruínas Circulares” (em Ficções, 1944), onde um mago se dedica a sonhar um ser humano, imaginá-lo mentalmente com tal intensidade que será capaz de dar-lhe existência física: 
 
Todo pai se preocupa com o destino de um filho que gerou (que permitiu) num momento de mera vertigem ou êxtase; era natural que o mago se preocupasse com a sorte desse filho, pensado entranha por entranha, detalhe por detalhe, ao longo de mil e uma secretas noites. (trad. BT)

 




Na lenda de Frankenstein a tragédia se desencadeia pela hubris do cientista, que se decepciona com sua criatura, acha-a disforme, rudimentar, monstruosa, indigna do gênio que a criou. 
 
A criatura sempre se rebela contra o criador?  O criador sempre subestima o poder da criatura?  O criador acaba sempre por desdenhar a criatura?
 
Robert Ryan (em The Penguin Encyclopedia of Horror and the Supernatural) faz um comentário muito afinado com o filme de Del Toro: 
 
Se [o Frankenstein de Mary Shelley] era de fato um protesto ou um alerta consciente, não o era contra a tecnologia em si, mas contra a tendência humana de deixar a tecnologia à vontade para criar ou descobrir sua própria ordem natural. O pecado de Victor Frankenstein não é sua criatividade, mas sua falta de empatia e de responsabilidade moral. O problema, sugeria Shelley, não é que as nossas invenções sejam refratárias ao nosso controle, mas que nós perdemos a motivação para as controlar e para lhes impor uma ordem humana capaz de refletir nossos melhores valores e ideais. (p. 161, trad. BT)
 
Talvez o monstro mais frankensteiniano produzido pela Ciência de hoje seja a Inteligência Artificial.
 
Ela também é fruto de um laboratório caríssimo, só que agora um projeto coletivo, faraônico, espalhado por todo o planeta, trabalhando em várias frentes simultâneas (ChatGPT, DeepSeek, Grok, Gemini, Midjourney...). 
 
É também um processo que se dedica também a retalhar e recombinar pedaços de uma cultura que já existe. Frankenstein recolhia e recombinava partes de cadáveres. A I. A. recolhe e recombina, inclusive, obras ainda em catálogo, de autores ainda vivos. 
 
As reações diante desse novo “monstro” variam: existe a fascinação temerosa, a exploração oportunista, e o desdém intelectual diante de algo que julgamos “incapaz de um dia possuir uma inteligência igual à nossa”. 
 
Enquanto isto, as I. A. vão proliferando, desenvolvendo-se numa rapidez quase exponencial, acumulando erros, acumulando acertos, incorporando lições, desenvolvendo um tipo de inteligência que aos poucos, em vez de tentar imitar a nossa, procurará se afastar dela, desenvolver as vantagens que têm em relação a nós, e contornar os aspectos em que lhe somos superiores. 
 
A criatura verá com que olhos os seus criadores? 
 



 






segunda-feira, 18 de agosto de 2025

5195) I. A. -- a salsicha literária (18.8.2025)



 

Entre o “texto literário produzido por uma Inteligência Artificial” e o “texto literário produzido por uma pessoa” existe um parentesco indiscutível, e ao mesmo tempo uma distância abissal. Ainda não sei qual dos dois é maior, se o parentesco, se a distância. 

Um está para o outro assim como uma salsicha está para um bife. 

Minha impressão é que o texto da I. A. (Inteligência Artificial) obedece aos mesmos princípios produtivos da acumulação de carnes de toda natureza, que são moídas, homogeneizadas e embutidas em formatos-padrão, por meios puramente mecânicos. A interferência humana vai somente na linha da criação e eventual supervisão desse processo. Uma vez posto em movimento, o processo procede por si só. 

Muita gente prefere negar a existência da Inteligência Artificial. Ou melhor: negar-lhe o direito à existência, na esperança de que diante de muitas negativas as empresas que investiram centenas de bilhões de dólares nessa tecnologia fechem as portas e peçam desculpas. 

Como se diz na Paraíba: “cochila!...”. 

“Cochila!” quer dizer “perca as esperanças!”, mas duvido que alguma I. A. saiba disso. Dificilmente terá pirateado algum texto onde essa expressão apareça. 

Minha resistência pessoal à I. A. é pela sua incapacidade robótica de distinguir, entre os hectares de texto que consulta em fração de segundo, entre Baden Powell, o fundador do escotismo, e Baden Powell, o violonista dos “afro-sambas”. 

 


Amigos meus já consultaram o Chat GPT a meu respeito e obtiveram a resposta de que nasci no Rio de Janeiro em 1965, e sou autor de meia dúzia de livros cujos títulos li de cima a baixo e nunca vi mais gordos. 

Quem pode confiar numa engenhoca tão incompetente?!   

O pior é que quando dizemos “você está errado” o robozinho abre um sorriso parvo e diz: “Peço desculpas! De fato eu estava errado na minha resposta.” E fica por isso mesmo. Ainda bem que é consulta sobre literatura! Se fosse consulta médica (como tem muita gente fazendo) o paciente já estaria rumo ao crematório. 



A I. A. é um mero processo estatístico de cortar-e-colar textos alheios baseando-se em índices de probabilidade, mas é um processo meramente mecânico. Não existe uma inteligência por trás. Não existe uma mente humana (ou um conjunto delas) olhando, interpretando, avaliando, decidindo. Existe uma impressão de presença humana, muito espertamente preparada por quem manipula esses algoritmos. Mas ela é tão humana quanto aquelas gravações dos saites das empresas, aquelas aveludadas vozes femininas que nos dizem: “Por favor, permaneça na linha! Sua ligação é muito importante para nós!”. Você acha que ela está sendo sincera?... 

Ferramentas desse tipo não parecem com uma inteligência criando; são um mero desenvolvimento dos corretores ortográficos que ficam nos sugerindo a complementação de palavras. Quando numa caixa-de-diálogo eu digito “BRA...”, ele me sugere “Brasil”, “Braulio”, “Brasa”... Ele pesquisa em fração de segundo quais as palavras que mais frequentemente foram escritas por quem digitou essas três letras iniciais, e pergunta: “É isso aqui que você está querendo dizer?” 

Corretores ortográficos dessa natureza têm uma orientação estatística. Tendem a sugerir as palavras que aparecem com maior frequência. E no caso dos geradores de texto tendem a sugerir as frases que aparecem com mais frequência nas centenas de milhões de páginas que acumulam nos seus arquivos.  

(Aqui entraria uma digressão interminável sobre a legitimidade ou não do uso desses milhões de páginas sem autorização dos autores; mas esta é outra discussão. Eu, que sou autor, considero isto um roubo, aquilo que a gente chama “tomar na mão-grande”. Há milhares de ações correndo na Justiça, no mundo inteiro, mas não sou otimista quanto ao resultado. Tem muito dinheiro pesando no lado de lá da balança.) 


O uso dos ChatGPTs e similares me lembra a anedota que se conta sobre Horace Gold (1914-1996), o antigo editor da revista Galaxy, uma das principais publicações de ficção científica dos anos 1950-60. Diz-se que Gold, um reescrevedor incansável dos contos alheios que publicava, era capaz de transformar uma história medíocre numa história boa, e uma obra-prima numa história boa. Ele medianizava tudo. 

Um artigo de Kyle Chayka no The New Yorker, “A. I. Is Homogenizing Our Thoughts”, comenta assim os “Modelos de Linguagem em Larga Escala” (LLMs, Large Language Models): 

A Inteligência Artificial é uma tecnologia das frequências médias. Os Modelos de Linguagem em Larga Escala (LLMs) são treinados para detectar a ocorrência de padrões dentro de imensos volumes de dados; as respostas que encontram têm portanto uma tendência para o consenso, tanto na qualidade da escrita, que é repleta de clichês e banalidades, quanto no calibre das idéias.


 

É uma reiteração do mais frequente, do que foi utilizado mais vezes e com isto demonstra o quanto é útil.  

É útil mesmo?  Sem dúvida. Se eu quiser redigir uma “Carta de Anuência” confirmando minha participação num projeto, basta fornecer à I. A. os dados do projeto e ela redige para mim esse texto que tem forçosamente que ser reto, enxuto, padronizado, sem nuances, sem lugar para dúvidas. 

Se eu precisar de um contrato de locação de imóvel, de uma autorização para viagem de um menor de idade, de um relatório de viagem de trabalho, é só fornecer os dados em-bruto e o programa organiza tudo, bonitinho, com um texto enxuto e esclarecedor. (Ou pelo menos é esta a esperança de quem usa.) 

Por esse motivo os usos principais dos LLMs, ao que se diz, estão nas atividades ligadas a Tecnologia, Negócios, Direito, Comércio etc. – onde a produção de textos não visa a originalidade, mas a clareza / objetividade / eficiência / etc. 

Nessas áreas, pelas estatísticas que vi circulando por aí, o uso de Inteligência Artificial chega a 75%; curiosamente (ou talvez não) na área da Literatura ocorre uma das menores percentagens de uso da I. A.  Penso eu: “É claro, porque a literatura, embora tenha seus usos para clareza e objetividade, lida também, e muito, com a polissemia, a ambiguidade, a elipse, a metáfora, ou seja, usos subjetivos da linguagem”. 


A questão é que dentro da área da Literatura, mesmo sendo uma das menores percentagens, ela chega a 40%. É muito. É muita literatura mediana sendo produzida, mas... Vamos pegar o feijão-com-arroz literário de dez anos atrás, de trinta anos, de cinquenta anos atrás. Não estarão ali, com frequência aterradora, e como consequência apenas de escolhas humanas, os mesmos clichês, as mesmas expressões consagradas, as mesmas idéias cediças, os mesmos lugares-comuns ideológicos, as mesmas opiniões padronizadas que circulam numa população ansiosa por aceitação, acolhida, reconhecimento sem muita polêmica? 

A I. A. não inventou o texto-salsicha, apenas turbinou sua produção. 

O algoritmo das Inteligências Artificiais é de uma natureza específica, mas as escolhas humanas têm também o seu algoritmo, se as observarmos numa escala de milhões de exemplos. Somos mais estatísticos do que imaginamos. Nossas “opiniões pessoais” são mais coletivas do que gostaríamos de admitir. A Inteligência Artificial está surgindo, talvez, para nos dar uma sacudida. Quando percebemos o quanto ela na verdade é burra e cega, percebemos também o quanto, ao longo dos séculos, nossa mente humana coletiva também tem sido cega e burra. 


(Em breve: um artigo em defesa da I.A.)

 


domingo, 26 de janeiro de 2025

5146) A foto impossível (26.1.2025)




Lá por volta dos anos 1980, o fotógrafo francês Greg Girard estava andando e fazendo fotos dentro de Kowloon City, em Hong-Kong. Fotógrafo é como caçador: tem que estar o tempo inteiro com o olho atento e o dedo no gatilho.  Às vezes, por um segundo de distração se perde a caça. 
 
A caça, no caso do fotógrafo, é aquela foto de algo que cruza a nossa vista, e quando o artista pega a câmera e leva ao olho... babau tia Chica. Passou.  Aquela foto, nunca mais. 


Foi o que aconteceu com Girard. Ele conta que viu uma comissária-de-bordo da Cathay Pacific descer de um táxi e entrar no labirinto urbano de Kowloon City, puxando atrás de si a mala-com-rodinhas. Sua elegância e postura faziam um contraste brusco com o ambiente decadente em volta, mas ele a perdeu no labirinto de ruelas antes de poder fazer uma foto. 


            (Kowloon City) 
 
Para quem não sabe, Kowloon City, “a Cidade Murada”, ou “a Cidade Emparedada”, era um dos ambientes urbanos mais surrealistas do Oriente. Num espaço equivalente a um quarteirão de uma grande cidade, viviam mais de 30 mil pessoas enfurnadas em edifícios precários, decadentes e gigantescos, num viveiro humano que é difícil de acreditar sem ver. 
 
Em algum momento, Kowloon foi considerada o local de maior densidade de ocupação em todo o planeta. Cheio de problemas criminais, sanitários, ambientais, urbanísticos, o complexo de edifícios foi demolido em 1994. 
 
Quanto a Greg Girard, ele ficou com aquela imagem na cabeça durante anos. Todo fotógrafo (cineasta, pintor, etc.) tem essas coisas. É uma idéia que fica pendurada na memória, como uma ficha esperando a hora de cair. 
 
E de repente apareceu a tecnologia da Inteligência Artificial, onde é possível descrever com razoável precisão a imagem que temos em mente, e... voilà!... A foto é feita.

Trabalhando em parceria com a artista de Hong Kong, Bianca Tse, Girard forneceu a ela as informações e depois de muitas tentativas algumas fotoficções foram compostas. Não para se fazer passar por fotos autênticas, mas para recuperar uma idéia que tinha charme em si: o contraste entre a elegância da personagem e a sordidez do local. 



 
Bianca Tse usa a I. A. principalmente para encurtar caminhos e reduzir despesas logísticas, diz ela: 
 
Não preciso contratar atores, não preciso montar toda a cena, e, sim, isto poupa uma enormidade de tempo, e principalmente de dinheiro, porque não haveria ninguém disposto a investir em mim para criar esse tipo de obra. 
 
Aqui:
https://edition.cnn.com/2025/01/01/style/bianca-tse-hong-kong-images-ai-hnk-intl/index.html
 
Qualquer pessoa pode se sentir incomodada com isto – no presente caso, os atores que hipoteticamente poderiam ter sido contratados e pagos por Bianca, para realizar suas fotos. A questão é que quando os recursos são poucos qualquer pulo-do-gato é bem vindo, qualquer solução barateadora, simplificadora. 
 
O cinema brasileiro faz isto há séculos. A lei que vigora no mundo da Arte Precária é esta: “Se for esperar para fazer somente quando tiver condições, você não vai fazer nunca; faça agora, do jeito que der, e lá na frente a gente resolve os pepinos.” 
 
Acho que a Inteligência Artificial vai desempregar muita gente, talvez até eu mesmo. Entretanto, quando um tsunami se aproxima não cabe ficar discutindo se o tsunami está certo ou errado. Já aconteceu, e a questão é como sobreviver a ele.  
 
Os bateristas sobreviveram à invenção da bateria eletrônica. O teatro sobreviveu à invenção do cinema, e este à invenção da TV.  
 
Bianca Tse usa a I. A. para criar imagens meio surrealistas, impossíveis de produzir com atores e cenários de verdade.  



 ("Superpopulação", Bianca Tse) 

 

“Superpopulação” (acima) é um trabalho dela usando a ferramenta do Midjourney, e abre esta linha de argumentação: a I. A. pode nos ajudar a produzir fotos impossíveis, fotos além das possibilidades físicas de um fotógrafo tradicional. Deixa-se o território da foto propriamente dita e entra-se no território dos efeitos especiais e da computação gráfica. 
 
Nos recentes incêndios acontecidos em Los Angeles, compartilhei nas redes sociais uma imagem da colina onde o letreiro HOLLYWOOD aparece com uma cortina de fogo por trás. 




Várias pessoas vieram me advertir que a foto era feita com I. A., e que daquele ângulo seria impossível avistar o fogo. Aceitei a correção, mas com uma ressalva: para mim, o poder da imagem não estava no seu possível conteúdo jornalístico (“captei visualmente um fato que está acontecendo”), mas na sua simplicidade simbólica: Hollywood está em chamas. 
 
Esse conteúdo simbólico seria o mesmo se a imagem fosse um cartum desenhado a nanquim, um quadro a óleo, etc.  O mesmo impacto: “Hollywood está em chamas”. 
 
Não há dúvida de que a I. A. potencializa um perigo grave, que já vinha desde o CorelDraw, desde o AdobePhotoshop: a possibilidade de alterar imagens reais ou criar “do zero” imagens novas, com total aparência de realidade, mesmo sendo falsas. 
 
Existe uma linha evolutiva muito clara entre estas tecnologias. A grande inovação da I. A. é o fato de que o usuário nem sequer preciso dominar uma técnica de interferência na imagem. Bastam comandos verbais. A pessoa pode inventar uma foto ou uma pintura ou um filme sem pegar no mouse, apenas descrevendo o resultado que quer. 



(ilustração: Bianca Tse) 
 

As fotos de Bianca Tse oscilam nesse limite entre o possível e o impossível – exatamente como o próprio “bairro” de Kowloon em sua cidade natal, aquele “favelão”, aquela aberração urbanística que, como já se disse muitas vezes, era preciso ver para acreditar que existia mesmo.
 
Depois que transcorre um século, a distância entre o real e o irreal se torna uma questão de fé.

(Para quem tiver curiosidade, no link abaixo há uma extensa matéria sobre Kowloon City, com numerosas fotos.)

https://cityofdarkness.co.uk/category/the_city/

 






 
 



quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

5141) As fantasmagorias artificiais (9.1.2025)




(imagem: Petr Válek)


Eu defendo há anos esta teoria: o videogame será, para o século 21, o que o cinema foi para o século 20. Começou como simples curiosidade técnica, uma diversão de quermesse e de galeria de camelôs, começou a atrair muita gente, a dar dinheiro, e começaram a chegar as pessoas de cabeça realmente criativa (e precisadas de dinheiro, como é o karma dos criativos), e “do nada” surgiu uma nova Usina de Sonhos. 
 
Agora, estamos em 2025, e basta comparar. No ano de 1925, no cinema, já tínhamos Griffith, Eisenstein, Fritz Lang, Chaplin... mas tudo isto é pouco.  O Cinema estava apenas começando.  

No mundo dos games, há gostos para tudo, mas pode-se considerar como franquias/séries fundadoras títulos como Super Mario Bros, Prince of Persia, Monkey Island, Grim Fandango, The Sims, The Legend of Zelda, Skyrim, Final Fantasy, Metal Gear, Grand Theft Auto, Fallout, Myst, Red Dead Redemption, Assassin’s Creed, Shadow of the Colossus... Estou falando apenas dos que já joguei algumas horas, uma vez ou outra. Tem muito mais coisas. 




 
Estou começando a considerar uma variável nova nessa equação: é a famigerada Inteligência Artificial. 
 
Se algo já estiver presente, como idéia, na cultura de um povo; se for tecnicamente possível, e não for economicamente inviável, provavelmente acontecerá. E a Inteligência Artificial, com todos os seus prós e contras, suas promessas e ameaças, com todo o seu brotar-desarrumando, já fincou sua bandeira em terra habitada.  
 
A invenção de tecnologias de produzir imagens animadas fez as redes sociais virarem uma proliferação de grotesquerias, no bom e no mau sentido. Quem tem tempo, grana, imaginação e curiosidade está tendo a chance de participar de um momento fundador na história das Imagens Luminosas em Movimento (nem vou falar de texto ou de imagem fixa, porque aí o céu é o limite). 
 
Os algoritmos das redes sociais têm feito pousar nas minhas timelines os trabalhos de gente que não conheço, com experiências curiosas. Esses artistas usam o fenomenal banco de imagens da I.A. (feito às custas de muita pirataria e pilhagem de trabalhos individuais, é bom lembrar), e começam a alterar essas imagens, interferir nelas, recombiná-las com imagens de outras estirpes, e criar com isso pequenas miniaturas animadas. 
 
Aqui estão alguns exemplos vistos ultimamente. Alguém pode dizer: “Que coisa horrorosa! Então todas as animações por I. A. da Internet são coisas de filme de terror?...”  
 
Minha resposta: Não, não é, e deve haver a esta altura um bilhão de animações com anjinhos barrocos, colibris gorjeantes, greguinhos de toga tocando harpa, e sei lá mais o quê. O algoritmo folheia isso e diz aos sub-algoritmos: “Não mandem isso para BT, ele não curte, ele gosta é de fantasmas, monstros alienígenas, esqueletos, ciência gótica, aventura steampunk...” – e não estará muito longe da verdade. 
 
Aqui vão algumas séries de imagens que recolhi e compartilhei no Facebook ultimamente. São trechinhos curtos, visivelmente imagens recicladas mediante um “prompt”, com resultado equivalente aos famosos “GIFs animados”, a novidade de quinze anos atrás, por aí. 
 
Fico comovido com as imagens da série The Rage of Angels, de Alexandra Gorsf (podem ser acessadas aqui:) 
https://www.facebook.com/watch/?v=3086375484843007
 
Elas fazem uma síntese curiosa entre o Fofo e o Horripilante, misturando criancinhas angelicais e insetos monstruosos. 





 
Um trabalho muito detalhado e inquietante é o de Fredrik Jonsson, com a série “Mechanimal” (com criaturas híbridas e animal e robôs), outra série mostrando grupos de cientistas investigando, com toda calma e atenção, criaturas monstruosas; e a série “Cloud Station” onde ele cria estações de trem meio futuristas, meio steampunk, onde evoluem personagens enigmáticos. 














 
Outro maluco genial é o músico Petr Válek. Ele gosta de fazer uns clips encarnando um personagem amalucado, com músicas barulhentas, uma espécie de noizak (noise + muzak). É uma mistura de Daminhão Experiença, Edgar Varèse e Walter Franco. Estes clips tornam-se bastante divertidos se a gente aceitar que o objetivo ali não é propriamente criar belas melodias ou harmonias inovadoras. 
 
O portal de Válek no YouTube tem uma série desses clips musicais, principalmente os clips com imagens aterrorizantes. Ver esses clips tem feito um grande bem à minha saúde, indiretamente, porque agora tenho certeza de que JAMAIS tomarei ácido lisérgico ou coisa parecida, só pelo medo de acessar essas memórias e ser mentalmente transportado para os ambientes macabros e as criaturas sinistras de Valék, imagens produzidas com grande economia de efeitos. Quem quiser que se arrisque.  
 
Aqui, o portal do YouTube, the VAPE:
https://www.youtube.com/@thevape5030
 
E alguns exemplos das imagens de Válek:




"Insignificant Episode 698":




"Lighting the fourth Advent candle":





Não sei avaliar como anda no mundo inteiro a criação desses clips, e não tenho como saber até que ponto eles são feitos com o uso de Inteligência Artificial. São, em última análise, uma série enorme de colagens de imagens bizarras. Imagens com certos movimentos limitados, denunciando o uso de Inteligência Artificial. Gestos mecânicos, meio erráticos, que não esperaríamos de uma pessoa real. 
 
São cenas curtas com duração de cinco a dez segundos, logo substituídas por outras, sucessivamente. Não há narrativa, não há história. Tudo acontece num limbo sem contexto, imagens se movendo e nada mais. Apenas o ambiente fantástico, os personagens grotescos, os gestos limitados e repetitivos. 
 
Esses clips acabam me trazendo à memória as primeiras experiências de Georges Méliès (1861-1938), um dos pioneiros do cinema. Muita gente deve se lembrar dele como o personagem interpretado por Ben Kingsley no filme A Invenção de Hugo Cabret (2011), de Martin Scorsese. 


 
Méliès foi o primeiro cineasta a pesquisar, descobrir e aplicar sistematicamente todo o arsenal de efeitos especiais resultantes da natureza mecânica do equipamento cinematográfico: a filmagem interrompida, a câmera lenta, a câmera acelerada, a superposição de imagens, etc. 
 
Méliès acabou evoluindo para o filme narrativo, mas seus primeiros filmes de curtíssima metragem eram somente isto: episódios isolados, de poucos segundos, com o único propósito de explorar um novo truque, um novo efeito. Essa novidade técnica seduzia as platéias, tal como hoje nos deslumbra o fato de vermos em movimento essas imagens de I.A., híbridas, superpostas, improváveis, impossíveis. 





 
Minha expectativa é que aos poucos essas três vertentes fundamentais irão convergindo para formar "o Algo", a arte típica do século 21: 
 
a)      A Inteligência Artificial trará seu acervo pilhado e pirateado de toda a cultura mundial, e a brutal aceleração de seus algoritmos turbinados, capazes de copiar, cortar e colar as imagens mais diversas num piscar de olhos, de acordo com qualquer prompt do usuário; 

b)      O Videogame trará a interatividade, a participação ativa e a interferência constante do usuário/espectador na narrativa, a possibilidade de viajar por dentro de universos minuciosamente planejados para reagir à sua presença, produzindo uma infinita ramificação de situações e experiências; 

c)       O Cinema trará a dramaturgia, o senso narrativo, a capacidade de criar personagens e situações humanas com densidade suficiente para atrair, segurar e satisfazer por duas ou três horas ininterruptas a atenção de um público (individual ou coletivo). 
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas. 
 
 
 
 
 

 

 

 




sábado, 21 de setembro de 2024

5104) Sete segredos (21.9.2024)



(ilustrações ad hoc produzidas por Inteligência Artificial)


Isabelle Astaing, 27 anos, moradora de Bas-Béthune, na França. Cresceu sem mãe e sem irmãos, criada pela avó materna. Quando tinha apenas um ano, seu pai, Jacques Astaing, num acesso de insanidade, invadiu uma igreja, fuzilou fatalmente seis pessoas, deixou mais onze feridas, e foi morto pela polícia. Sua esposa Marie-Frances morreu (“de desgosto e de vergonha”, dizia-se) meses depois, deixando a bebê para ser cuidada pela avó. A menina, quando ficou grandinha, ficou sabendo de tudo a respeito de seu pai, mas a avó a aconselhava a não tocar no assunto com ninguém da cidade, porque poderia ser alvo de preconceitos. Todos na cidade sabiam da história dos Astaing, mas viam a menina com simpatia. Ela cresceu tendo poucos amigos, e imaginando que ninguém sabe quem foi seu pai, porque ninguém lhe faz perguntas sobre a família. E assim ficam, ela e os outros, cada qual por motivos diferentes, evitando tocar no assunto, e se fazendo de desentendidos sempre que alguém inadvertidamente menciona o episódio da “Chacina da Église du Bon-Dieu”.

 

(I.A. -- Bing)


Chuck Hollinger, 38 anos, advogado em Manhattan, passou pelo andar térreo do World Trade Center naquele dia fatal, duas horas antes do atentado, para tomar o café da manhã numa lanchonete antes de ir para uma reunião a alguns quarteirões dali. Na lanchonete, viu de longe um casal aos beijos que reconheceu como sendo Steve Canby, 35 anos, e Sue Lavery, 29 anos, que trabalhavam num escritório de advocacia no 81º. andar. Hollinger viu os dois saírem de mãos dadas rumo ao estacionamento, ao invés de subirem ao WTC. Nos dias subsequentes ao atentado, sem comentar nada com ninguém, ficou na expectativa de notícias a respeito dos dois e de como talvez tivessem escapado por pouco à destruição das torres. Semanas passaram, e através de cuidadosas e discretas inquirições Hollinger soube que os dois eram dados como desaparecidos pelas respectivas famílias. Ele nunca comentou o fato com ninguém.

 

(I.A. -- Firefly)


Rivalda Barbosa, 44 anos, diarista de profissão, estava há alguns meses fazendo faxina semanal na residência do casal Almério, 38 anos, e Ludmila, 30 anos, que a tratavam de maneira formal e educada, e no curso desse trabalho, que em si não era nem mais nem menos desgastante do que o de outras residências, pôde perceber a tensão entre o casal, fruto principalmente do temperamento agressivo e até cruel de Almério, o qual chegava a agredir a esposa, embora nunca diante de Rivalda, que mesmo assim já tinha passado por isto e conhecia os sinais. Uma tarde, limpando o banheiro da suite, ouviu através da porta fechada Ludmila queixando-se a alguma amiga, e dizendo: “Mas não tem nada não, estou preparando meu esquema, qualquer dia eu desapareço.” Nada disse, nada comentou, mas algum tempo depois, ao arrumar a despensa, lugar onde Almério raramente entrava, fez por mero acaso uma descoberta, um nicho secreto, num tipo de esconderijo que só poderia ter ocorrido a uma mulher, “um esconderijo à prova de homem”, pensou Rivalda, enquanto apalpava e corria com o polegar o maço de notas amassadinhas de cem e duzentos reais; e nas faxinas seguintes, a curiosidade sendo tão grande, percebeu que o pecúlio secreto aumentava, como também as violências verbais de Almério, cada vez mais ciumento, mais desaforado, e Rivalda quando tinha um tempinho ia lá conferir e aquela poupança crescia, enchendo-lhe os olhos, ela Rivalda com a mãe doente, ela Rivalda com o aluguel em atraso, ela Rivalda precisando fazer um canal no pré-molar, e aquela pequena fortuna ali dando sopa, até o dia em que ela chegou para o trabalho e deu com a cara na porta fechada, e uma vizinha lhe explicou, excitadíssima, que Ludmila tinha sumido sem dar explicações, Almério estava furioso e desconcertado, mas, concluiu a vizinha, “ela não é nenhuma boba e a essas horas deve estar muito longe”. E Rivalda comentou: “Tomara”.




(I.A. -- Bing)


Padre Simeão, 58 anos, da paróquia de Bom Retiro (MG), recebeu com certo sobressalto, numa terça-feira à tarde, a presença em sua modesta igreja de D. Emerenciana Catunda, 76 anos. A matriarca da família Catunda-Matoso, dona da maioria das terras daquela ribeira, mulher feita de ferro e baraúna, vinha à missa todos os domingos há décadas, mas jamais se confessava ou comungava. O padre fez os rapapés de sempre e conduziu a anciã até o confessionário, de onde ela se retirou meia hora depois, carrancuda como viera ao mundo e como certamente haveria de deixá-lo. O Padre Florival, 32 anos, observou tudo à distância, num pé e noutro, e, depois de transcorrido um conveniente intervalo, abordou o colega mais velho para saber do que se tratava, uma vez que entre ambos havia uma confiança total, com o beneplácito (esperavam eles) da Justiça Divina. Padre Simeão, no entanto, enxugou o suor da calva, esquivou-se, mudou de assunto, resistiu o quanto pôde, mas finalmente teve que dizer: “Padre Florival, pelo menos desta vez – respeite o segredo da confissão!...”  E nunca revelou nada. 



(I.A. -- Bing)


Marilinha Muniz, 23 anos, roqueira, vocalista simultânea de várias bandas emergentes, como Canabidiol, Coração da Índia, As Barbitúricas e outras, casada com o tecladista Otávio Rabelo, 28 anos, apaixonadíssima pelo seu marido, e fiel, independentemente das numerosas cantadas que recebe no palco e fora dele, das quais sempre se esquiva com um sorriso de desentendida, mantém um pacto com Otávio, pacto de abertura total, franqueza total, de nada-esconder-um-do-outro, e agarra-se a ele com a inocência dos que amam de verdade, mas numa noite de julho, depois de um show numa boate de Mossoró, ela deixou-se levar por um fã para um dogão e uma Coca, uma hora de papo sobre a vida, a música, a juventude, e no fim de tudo estava tão animada com esses três aspectos que deixou-se beijar demoradamente pelo patrocinador do lanche, Luís Paulo Aléssio, 41 anos, nerd, virgem, que lhe confessou balbuciante ser aquele o seu primeiro beijo, e a fez prometer silêncio absoluto sobre o episódio, principalmente sobre este último aspecto, e Marilinha voltou intacta para o hotel e para casa e para os braços confiáveis de Otávio Rabelo, e há anos sua invulnerável felicidade vive não-obstante toldada por uma sombra, de saber que pelo menos naquele detalhezinho comprometedor, ela achou mais cristão e mais fofo ser menos fiel à palavra dada ao marido e mais fiel à promessa feita ao rapaz do dogão, coitado.

 

(I.A. -- Firefly)


Valerii Nikolaiévitch Raspov, 43 anos, co-piloto de um voo comercial Irkutsk-Moscou, com 243 passageiros a bordo, viu como alarme a palidez tomar conta do rosto de seu colega, o piloto Dmitri Ivanovich Tchernáiev, 46 anos, quando o avião foi colhido por uma tempestade súbita e começou a chacoalhar, “era como se alguém estivesse tentando usar a aeronave para preparar um martini”, declarou depois Raspov. Por algum motivo Tchernáiev, piloto experiente, foi tomado por um acesso de pânico, talvez consequência do ser tão afeito à vodka e aos remédios tarja-preta; começou a suar abundantemente, com mãos trêmulas e olhos vidrados, e daí a pouco estava encolhido em seu assento, todo urinado, incapaz de tomar providências. Raspov isolou a cabine, ordenou aos comissários que acalmassem os passageiros, assumiu o comando, enfrentou aquele Maelstrom atmosférico e meia hora depois pousou a aeronave em segurança. A equipe de terra prestou socorro imediato ao piloto, cuja coragem Raspov elogiou em seu relatório. À esposa de Tchernáiev ele declarou: “Dmitri foi um herói, faça por onde ele seja um herói vivo.” Curiosamente, o piloto Tchernáiev, depois de recuperado, cortou relações pessoais com Raspov, a quem passou a acusar de ambicioso, carreirista e difamador. 




(I.A. -- Bing)


Alex Ramos, 25 anos, volante da equipe do Itumbiara, perseguido e esnobado pelo técnico Wilson Maciel, 48 anos, guardando calado o ressentimento pelas reclamações, críticas, comparações desestimulantes, viu chegada sua hora quando durante um treino coletivo o técnico apitou mandando parar e anunciou que tinha perdido a aliança, o que levou todo o plantel a agachar-se no gramado à procura, cabendo a Alex, ao passar os dedos numa grama alta junto à lateral do campo, ver o brilho do pequeno círculo dourado, e ter a estranha reação de pegá-lo disfarçadamente e enfiá-lo entre a chuteira e o pé, talvez com a intenção de fazer uma brincadeira mais tarde, talvez com intenção de pedir algo em troca, talvez para esticar um pouco mais aquela pausa num treinamento entediante, enfim, o próprio Alex ficou sem saber por que motivo escondeu a aliança, que levou para casa após o treino e guardou embaixo de um taco solto no quarto-de-empregada do apartamento em que morava e de onde se mudou no ano seguinte, e onde a aliança continua até hoje, catorze anos depois.