[ Ed. Aleph - capa: Daniel Canedo)
Este clássico da ficção científica, publicado por John Wyndham em 1951, tornou-se um dos romances fundadores do gênero que os ingleses batizaram de “cozy catastrophe”, a catástrofe aconchegante, a catástrofe administrável. Ou seja: acontece uma catástrofe de proporções aterrorizantes, inimagináveis; é o fim do mundo... mas é o começo de outro.
Poderíamos também chamar a esses livros: “as catástrofes de reconstrução”. Elas de certo modo satisfazem a filosofia das pessoas impacientes e amargas que dizem: “O único jeito é zerar a sociedade humana e começar de novo”.
E a primeira tarefa é: não morrer de fome.
As condições que delimitaram e nos ensinaram os nossos padrões de comportamento desapareceram, junto com esse mundo. Nossas necessidades agora são diferentes, e nossos objetivos devem ser diferentes. Se quiserem um exemplo, posso lembrar que todos nós passamos o dia de hoje praticando, com a consciência perfeitamente tranquila, uma série de atos que dois dias atrás seriam considerados invasão de propriedade e roubo. Com os velhos padrões rompidos, temos agora que descobrir qual o modo de vida mais adequado aos novos padrões. Não temos simplesmente que começar a construir de novo: temos que começar a pensar de novo, o que é muito mais difícil e muito mais incômodo. (Cap. 7)
Para quem não conhece o livro, um breve resumo:
Da noite para o dia, 99% das pessoas, em todo o mundo, acordam de manhã e descobrem que estão cegas. A civilização colapsa; o caos, a violência tomam conta de tudo, e em breve a fome e as epidemias incontroláveis se encarregam de dizimar uma parte das pessoas. Bill Masen, o narrador, é uma das poucas pessoas que não cegaram.
E outra parte da população começa a ser dizimada pela trífides, umas plantas misteriosas capazes de caminhar (desajeitadamente, usando as raízes como pernas) e de matar pessoas com um longo chicote que traz na ponta um aguilhão venenoso.
Quanto mais eu considerava este novo aspecto, menos eu estava gostando. Não tinha idéia de quantas trífides poderia haver em Londres. Todos os parques tinham pelo menos algumas. Geralmente eram mantidas em currais, onde podiam mover-se à vontade, mas havia outras, de ferrão intacto, ora presas a estacas, ora mantidas em segurança por trás de cercas de arame. Pensando nas que eu vira cruzando Regent’s Park, pensei quantas eles mantinham no cercado perto do zoológico, e quantas teriam escapado. (Cap. 4)
Li esse livro pela primeira vez aos quinze anos, e traduzi-lo depois dos setenta foi um reencontro comigo mesmo.
Li como parte da saudosa e fundamental Colecção Argonauta, da Editora Livros do Brasil, de Lisboa, coleção da qual eu comprava e lia tudo que me aparecia pela fente, nas livrarias de Campina Grande e do Recife.
(Colecção Argonauta – capa: Lima de Freitas)
Já fiz aqui no Mundo Fantasmo uma crítica ao livro de Wyndham, no ano de 2009, afirmando:
O Dia das Trífides é um ótimo romance de FC sob vários critérios, e seu único defeito é a ocorrência de duas premissas fantásticas tão distantes (plantas inteligentes, cegueira coletiva) e tão convenientes para o autor. Bastaria uma.
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/05/2084-um-fato-fantastico-12112009.html
Fiz este comentário inspirado num conselho de Anthony Boucher, um romancista e crítico em cujo bom-senso literário nunca deixei de me apoiar. Boucher desenvolve aqui um conselho de H. G. Wells, e sugere:
O autor tem
direito a uma única premissa fantástica, que dará origem a toda a sua história.
Ele pode usar uma pessoa capaz de atravessar paredes, mas não pode usar na
mesma história outra pessoa que é invisível.
Dois fatos fantásticos, distantes um do outro, não-relacionados, provocam um desequilíbrio narrativo. (Não quer dizer que não possa resultar num grande livro; apenas alerta que vai dar mais trabalho para fornecer um background convincente.)
Traduzindo agora o livro de Wyndham, me dei conta (com olhos mais experientes do que meus olhos estrelados de rapazinho) de que o autor se sai bem dessa aparente bifurcação. As trífides bamboleantes e venenosas e a cegueira generalizada devem-se a um contexto político-científico bastante visível. John Wyndham testemunhava o desabrochar da Guerra Fria, e vivia ainda os abalos sociais da II Guerra Mundial. E o romance, curiosamente, pode ser visto como um dos primeiros a indagar de maneira adulta e convincente, num contexto de catástrofe: O que foi que os nossos governos andaram fazendo, e escondendo de nós?
O livro faz um retrato confrangedor de Londres, em sua primeira metade, quando milhares de pessoas cegas vagueiam em desespero pelas ruas, quebrando vitrines em busca de comida, sequestrando com violência quem possa lhes servir de guia, organizando-se em grupos de assalto para saquear armazéns e supermercados.
Mesmo encarando de frente a questão coletiva do recomeço da civilização (há discussões renhidas sobre “o que faremos do mundo”), Wyndham é um escritor que cria o tempo inteiro cenas curtas, vívidas, tocantes.
Eu tinha visto
apenas uma meia dúzia de pessoas capazes de caminhar, depois de chegar naquele
distrito. Agora, parecia não haver nem mais uma sequer. Por fim, perto da
esquina de Buckingham Palace Road, encontrei uma mulher idosa, sentada e
encolhida num batente. Estava atarefada tentando abrir uma lata com unhas
partidas, enquanto praguejava e choramingava ao mesmo tempo. Fui a uma lojinha
próxima e encontrei meia dúzia de latas de feijão, numa prateleira alta que
tinha escapado. Achei um abridor de latas também, e voltei até onde estava a
mulher. Ela ainda arranhava inutilmente a lata.
-- Melhor
jogar essa lata fora – disse eu. – É café.
Pus o abridor em sua mão, e dei-lhe uma lata de feijão. (Cap. 9)
É
uma história escrita numa Londres que começava a se reconstruir após os
bombardeios alemães da II Guerra, e o espírito de resistência e reorganização
que ele descreve tem a ver com essa admirável qualidade da espécie humana. “Não importa. Recomeçaremos”.
Fui até a
janela e olhei para fora. De forma deliberada comecei a dizer adeus para tudo
aquilo. O sol já vinha baixando. Torres, catedrais, fachadas de pedra de
Portland surgiam brancas ou cor-de-rosa de encontro ao céu que escurecia. Outros
incêndios tinham brotado aqui e acolá. A fumaça se erguia em borbotões negros,
às vezes deixando entrever algumas línguas de fogo por baixo. Era provável, disse para mim mesmo, que depois
de amanhã eu nunca mais voltasse a ver nenhum daqueles edifícios que me eram
tão famiiares. Talvez chegasse o tempo em que alguém fosse capaz de voltar –
mas nunca para o mesmo lugar. O fogo e o clima o teriam maltratado: estaria
visivelmente abandonado e morto. Mas agora, a uma certa distância, ainda era
possível fantasiá-lo como uma cidade viva. (Cap. 5)
Tem a ver também com o pânico diante do desmoronamento de tudo que julgávamos garantido, certo, seguro. E um pânico cego, irracional, quando nos deparamos com uma ameaça mortal que não conseguimos compreender. Uma releitura recente de A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells me trouxe à memória algo desse desespero que Wyndham iria reconstituir, meio século depois.
Como indiquei acima, o livro já estava publicado em Portugal (com tradução de José Manuel Calafate) em meados dos anos 1960. Teria sido lido por José Saramago? Teria ajudado a inspirar o seu excelente Ensaio Sobre a Cegueira (1995)?
Aqui no Brasil temos também “A Escuridão” (1963), do mestre André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (Casa da Palavra, 2003); neste caso, não são as pessoas que ficam cegas, mas a luz que misteriosamente desaparece. O resultado é o mesmo.
Em
O Dia das Trífides, o narrador, Bill
Masen, escapa da cegueira (provocada por uma chuva de meteoros brilhantes)
porque estava hospitalizado, com os olhos vendados, justamente após ser
atingido pelo aguilhão de uma trífide. Ele é um especialista nessas plantas, e
isso o ajuda a sobreviver quando elas, sem controle, começam a se propagar pela
cidade, matando quem se aproxima.
A cegueira universal e a ameaça das trífides fornecem o suspense da história, mas sua parte mais interessante é sua descrição de que mal o mundo se acaba já tem gente disposta a propor uma nova organização para o que restou.
Há uma luta constante pela liderança das pequenas comunidades que se formam, em que um pequeno grupo de pessoas que veem organiza e protege um número maior de cegos.
É aí que entra
a importância de um líder. Um líder planeja, mas é sábio o bastante para não
dizer que o fez. Quando as mudanças se revelam necessárias, ele as introduz
como se fossem uma concessão – temporária,
é claro – às circunstâncias, mas se ele for hábil, ele vai introduzir
justamente as partes que faltam para completar seu plano. Sempre haverá
objeções esmagadoras a qualquer plano, mas sempre será preciso admitir
concessões feitas num momento de emergência.
(Cap. 10, trad. BT)
E as trífides – venenosas, numerosas, obscuramente inteligentes – estão por toda parte.
Os lança-chamas estavam guardados numa das privadas do lado de fora. Eu não quis correr riscos quando fui buscá-los. Com roupas e luvas bem grossas, um elmo de couro e óculos de mergulhador por baixo da máscara de malha, abri caminho por entre a multidão de trífides empunhando o maior facão que consegui achar. Os aguilhões chicoteavam e se chocavam contra minha máscara com tal intensidade que a encharcaram, e o veneno começou a se filtrar para dentro como uma tênue neblina. Ele embaçou meus óculos, e ao entrar na privada a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto. Ao sair, não me atrevi a usar mais do que um jato de chamas breve, apontado para baixo, por medo de incendiar as molduras da porta e da janela; mas ele produziu uma agitação suficiente para me permitir voltar ileso para dentro da casa. (Cap. 15)
O livro foi adaptado várias vezes, para cinema e TV. Eu havia visto quando garoto uma adaptação mediana para o cinema, escrita por Philip Yordan e dirigida por Steve Sekely. Está aqui, no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=1HJ2qi63_O0
Durante os meses em que traduzi esta edição, vi duas séries muito interessantes, também no YouTube.
Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UJVBu7p8Otk
Gostei mais – pelo quesito “fidelidade ao livro” – da série de 1981, em seis episódios, dirigida por Ken Hannam. Segue muito de perto a narrativa, e quando a gente está traduzindo há a necessidade permanente de visualizar de forma adequada (e interessante) as cenas que o autor descreve. Nem sempre ver um filme ou uma série ajuda – tem diretor que visualiza mal, por incrível que pareça. Neste caso, não. A série de Ken Hannam tem um bom ritmo narrativo, bons atores, e hoje, muitos meses depois, quando releio algumas cenas do livro, não sei mais se minhas memórias visuais de agora se devem ao que imaginei por conta própria enquanto lia e traduzia, ou ao que vi nestes episódios.
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=sFCUOPwBFd8
