Mostrando postagens com marcador José Lins do Rêgo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Lins do Rêgo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de junho de 2014

3518) "Histórias da Velha Totônia" (6.6.2014)




Veio parar nas minhas mãos um livro de José Lins do Rêgo que eu nunca tinha lido: Histórias da Velha Totônia (1936), uma coletânea de histórias de Trancoso que Zé Lins diz ter escutado, quando era menino, dessa velhinha que andava de engenho em engenho, contando suas histórias.  A 21a. edição de José Olympio é de 2010; como o livro é curtinho, sobre espaço para vários textos explicativos e para as ótimas ilustrações de Tomás Santa Rosa, da edição original.

Esse livro parece ter sido o inspirador de outro publicado no ano seguinte: Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato, muito mais conhecido, até porque Lobato tem um público infantil historicamente estabelecido, ao contrário de Zé Lins.  Presumir influências é sempre arriscado – pode ser que Zé Lins tenha ouvido falar que Lobato estava preparando um livro de histórias de Trancoso e resolveu adiantar-se, lançando primeiro o seu.  Em todo caso, o de Zé Lins tem apenas quatro histórias, contra 43 do livro de Lobato. (E há duas em comum: “O Sargento Verde” e “O príncipe pequeno”/”O homem pequeno”).

Comparando as histórias vê-se que Monteiro Lobato reproduz o conto da maneira mais despojada possível, mas Zé Lins (talvez por dispor de menos material) capricha no enchimento. O que em Lobato se resolve com “Um dia apareceu um moço, também muito lindo, querendo casar com ela”, dá a Zé Lins assunto para uma página inteira (em “O Sargento Verde”).  O autor literário, em geral, quando pega esse tipo de narrativa aumenta os diálogos, as descrições, etc. – aumenta somente o material acessório, até por um certo pudor de mexer no esqueleto, na estrutura narrativa.

No seu livro, Zé Lins se queixa se que “as velhas Totônias estão desaparecendo”.  O livro é de quase 80 anos atrás, e como o Nordeste ainda é cheio, hoje, de velhinhas contando histórias, podemos imaginar que no momento exato em que Zé Lins escrevia havia algumas Totônias (ou Nastácias) nascendo por toda parte.  A maior contadora-de-histórias paraibana, Luzia Tereza (1909-1983) tinha 27 anos quando o livro dele saiu, e certamente ainda não tinha aprendido a maior parte do repertório que a tornaria famosa.

O número dessas pessoas tende a diminuir, mas mesmo que diminua é possível fazer com que elas não desapareçam. Não se trata apenas de amparar e documentar as velhinhas que passam adiante as histórias da memória oral.  Mas fazer com que elas não falem só para os pesquisadores e os gravadores – falem para as meninas e meninos de hoje, as mocinhas e os rapazinhos de hoje.  Alguns deles, quem sabe, estarão daqui a 70 anos recontando a histórias de Luzia Teresa, de Tia Nastácia e da velha Totônia.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

3181) O Dono do Mundo (9.5.2013)






Nossa literatura sempre gostou de contar a história dos Donos do Mundo. Qualquer cara merecedor desse título, mesmo em escala regional, merece um romance ou um filme 35mm, não é verdade? 

O regionalismo nordestino nos deu inúmeros donos-do-mundo na pessoa dos fazendeiros de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, e por aí vai. Cada senhor de engenho ou criador de gado sabia-se dono de um mundo, e como era o único mundo de que ele tomava conhecimento, essa consciência era invulnerável a argumentos.

O Cinema Novo e o Realismo Mágico trouxeram uma dimensão extra a esse mito. O Dono do Mundo deixou de ser objeto de análises e descrições históricas e pulou direto para a categoria de mito, de lenda, de personagem maior-que-a-vida. 

Em O Senhor Presidente de Astúrias, O Outono do Patriarca de Garcia Márquez, Cabeças Cortadas de Glauber Rocha e inúmeras outras obras o Dono do Mundo é um indivíduo neurótico, desmedido, imprevisível, alucinado... 

Como os deuses bêbados das antigas mitologias, ele detém o poder total sobre nosso mundo mas não tem o menor controle sobre as próprias emoções. Como os reis bêbados (nos quais, certamente, o conceito antigo de Deus se inspirou), podem nos dar hoje a fortuna, amanhã o cadafalso, e depois de amanhã chorar nossa ausência.

A ficção científica está transpondo esse conceito para os ricos do nosso tempo. São aqueles bilionários, CEOs de megacorporações, políticos, altos funcionários, etc., que praticamente vivem em seus jatinhos, saltando de capital em capital e costurando a rede das finanças globalizadas. 

São o Hubertus Bigend dos livros de William Gibson, o governador Huey Hugelet de Bruce Sterling, o Weyland (Guy Pearce) do filme Prometheus... Não são indivíduos onipotentes, por mais poderes que tenham. São guerreiros envolvidos em conflitos que nós, formiguinhas perdidas na poeira das ruas, mal somos capazes de vislumbrar.

Ninguém melhor do que a FC para recuperar a aura mítica, surpreendente, aterrorizante e fascinante, daqueles ditadores latino-americanos “capazes de horrores e de ações sublimes”. 

São personagens de estatura mítica pela dimensão cósmica de sua ambição, crueldade, esperteza, magnetismo. Um pouco semideuses, um pouco super-heróis, não têm poderes de natureza física como Superman. Seu poder é totalmente social (os cargos que ocupam) e psicológico (as qualidades que têm). Projetamos neles nossos medos e nossas ambições. 

Eles são, de certo modo, o que qualquer um de nós seria se de uma hora para outra se tornasse bilionário, poderoso, influente, respeitado, paparicado. A FC é a única literatura que pode descrever adequadamente os Donos do Mundo de nosso tempo.









domingo, 31 de março de 2013

3147) O sol e o mundo (30.3.2013)



Nos livros de Monteiro Lobato em que os personagens do Picapau Amarelo voltam à Grécia da mitologia, volta e meia aparece uma discussão sobre o formato da Terra, que os garotos insistem ser redondo. Os gregos negam com veemência: “Não, a Terra não é redonda, é montanhosa.”  Há uma heterogeneidade nessa conta. Os dois termos não pertencem à mesma ordem de coisas. Dizer que a Terra é redonda é ser capaz de imaginar que a está vendo à distância, “sair de dentro de si mesmo”, de certa forma. E o homem medieval não conseguia sair de si mesmo porque se julgava habitando um Universo cujo centro era a Terra, e na Terra, ele. Para ele, o universo era uma esfera e o mundo que ele via à sua volta era apenas uma secção horizontal dessa esfera, um plano infinito se estendendo de norte a sul, de leste a oeste.


Eu seria desonesto se dissesse que esse modo de ver me é estranho. Mas isto me lembrou duas frases emblemáticas sobre o poder do homem sobre a terra, o poder do Homem sobre a Terra, e concepções cosmológicas sucessivas.

No tempo da Rainha Vitória, o auge do colonialismo cuja faceta talentosa são Kipling, Rider Haggard, Conrad, Wilde, Stevenson, etc., dizia-se do império britânico ser “aquele império onde o sol nunca se põe”.  Durante a lenta rotação da Terra sobre si mesma, ao longo de 24 horas, há sempre metade dela exposta à luz do Sol, e nessa metade havia sempre algum território, havia inclusive um considerável território, de propriedade de Sua Majestade.

Já o coronel de José Lins do Rêgo dizia: “O sol que nasce no Santa Rosa, morre no Santa Rosa.” Uma bela imagem, mas uma imagem bidimensional, de quem considera o Universo o chão retilíneo (ou montanhoso!) que se expande à sua volta, com ele no centro. Ver-se no centro de tudo dá uma sensação de poder, de importância, de fazer sentido... Temos milênios dessa fantasia grandiloquente. Não é fácil aceitar que não somos o centro do Universo.

A frase dos ingleses mostra noção tridimensional do mundo, uma presunção, já espontânea, de que a Terra gira em redor do sol.  O velho senhor de engenho, por outro lado, ainda reflete um esquema visual do mundo. Uma planta-baixa do Universo, se quisermos, onde o mundo é um chapadão em volta do qual o Sol orbita, com pontualidade absoluta. O Coronel talvez não entendesse (visualmente, tátilmente) essa imagem de que o sol jamais se põe sobre a Terra inteira. O mundo dele é (como o dos gregos em O Minotauro) uma superfície plana, onde suas posses precisam cobrir 360 graus de superfície. Um sonho grandioso, respeitável, atingível (não importa por que meios) mas, aqui pra nós, insustentável por mais de alguns séculos.



domingo, 4 de abril de 2010

1866) “Menino de Engenho” (3.3.2009)



Este filme de 1965 continua a ser um dos melhores da obra de Walter Lima Jr. e um dos melhores de todo o Cinema Novo. Também podemos colocá-lo entre as melhores adaptações literárias feitas pelo nosso cinema. O fato do filme de estréia de um diretor de 27 anos ter conseguido tudo isto deve-se a uma feliz combinação de circunstâncias. Primeiro que tudo, à adequação entre talento e material, que é importante em qualquer obra de arte, ainda mais no cinema, arte industrial em que a necessidade de certo material se sobrepõe às possibilidades de um talento. Há diretores extremamente talentosos que passam a vida inteira desperdiçando a si próprios em projetos que não são os mais adequados para sua visão do mundo, ou seu estilo de trabalhar, ou suas obsessões pessoais, seu modo de tratar a linguagem do cinema, etc. Fazem isto, uns, pressionados pela necessidade de sobrevivência; outros, pressionados pela ansiedade em seguir a moda. Querem imitar os filmes que estão fazendo sucesso de crítica, mas com os quais eles não se identificam (e só o percebem quando é tarde demais).

No caso de Walter e do “Menino”, aconteceu justamente o contrário disso tudo. Parece que houve uma identificação imediata entre o assunto e o ambiente do filme e a sensibilidade dramatúrgica e fotográfica do diretor. Os enquadramentos clássicos e imponentes da ótima fotografia de Reynaldo Paes de Barros parecem reproduzir um ritmo de vida de muita grandeza e pouco dinamismo. Tudo é se passa como se aquilo fosse o centro do mundo, e no entanto o tempo parece congelado num eterno presente, levemente defasado em relação a um mundo de fora que só percebemos em raros momentos (a visita dos industriais da Usina, a chegada das primas de Recife).

Este filme pertence a uma vereda do Cinema Novo que eu classificaria (elogiosamente) de Novo Cinema Velho. Foram filmes que trouxeram pela primeira vez (ou trouxeram de volta, em alguns casos) para o cinema brasileiro virtudes clássicas da narrativa, da imagem filmada, da interpretação do mundo. Devemos lembrar esse Novo Cinema Velho porque ele ficou um tanto oculto pelo Cinema Novíssimo praticado principalmente por Glauber Rocha em sua trilogia principal, e depois dele por um exército de diretores que procuraram segui-lo, mesmo quando seu temperamento os aconselhava a praticar outro estilo.

O Novo Cinema Velho tem obras notáveis como O Padre e a Moça de Joaquim Pedro, Vidas Secas de Nelson Pereira, Augusto Matraga de Roberto Santos, etc. Filmes que ninguém chamaria de vanguarda no sentido revolucionário, godardiano, que este termo tinha na época. Mas eram vanguarda, porque traziam ao nosso cinema virtudes antigas mas quase inéditas. Austeridade de Bresson, lirismo de Humberto Mauro, humanismo de Renoir, impulso épico de Ford... Um Novo Cinema Velho que ligou o Brasil daquela época com o passado, e que torna certos filmes (como este) incorruptíveis pelo tempo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

1684) O regional e o universal (5.8.2008)





(Árido Movie, de Lírio Ferreira)

A literatura nordestina tem que ser literatura regional? Depende. “Literatura regional” deve ser uma literatura que fale da região, exprima o que é característico (embora não exclusivo) daquela região. 

Não é preciso reproduzir o que fizeram José Lins do Rêgo, Graciliano, Rachel de Queiroz, etc. A região mudou. Literatura regional não é apenas falar da cana-de-açúcar, dos cangaceiros ou dos beatos.

Nosso regionalismo de hoje poderia falar de transplante e comércio clandestino de órgãos, algo que ocorre muito no Nordeste.  

Ou prostituição infantil; ou o cultivo da maconha. Poderia falar do fato de que condomínios inteiros, terrenos imensos na orla marítima estão sendo vendidos para investidores estrangeiros. 

Poderia falar da ação das igrejas evangélicas; da invasão dos DVDs piratas, das lan-houses, dos cybercafés nas cidades e vilas do Sertão. 

Poderia falar da destruição de sítios arqueológicos por causa da exploração das mineradoras.
  
Essas mudanças sociais estão gerando histórias, conflitos, dramas humanos, fortes emoções.

Regional é o que retrata o visível, o imediato, o que está à nossa volta, o aqui-e-agora da nossa experiência direta como nordestinos. O interesse desse tipo de literatura é poder mostrar experiências humanas que são típicas de um grupo social: o dia-a-dia de um criador de cabras na Paraíba, de um esquimó no Alasca, de um agricultor no Cáucaso, de um missionário em Uganda, de um pescador no Mar do Norte. 

O regionalismo é sempre descritivo, demonstrativo, quer mostrar algo que os outros talvez não conheçam. Muitas vezes é lido e admirado apenas pelo que tem de exótico. Muitas vezes fica na história da literatura, não pelo que tem de literário, mas pelo que tem de etnográfico, de documental.

Quem aprofunda os personagens, os conflitos psicológicos, sociais, econômicos, etc., torna-se universal. O “universal” é algo profundo, como um lençol de petróleo. Obras superficiais não o alcançam. O universal está dentro das pessoas, é o conflito humano, que é basicamente o mesmo; é o “inconsciente coletivo”, são os medos, os desejos. 

Superficial é quando você descreve um cangaceiro ou um agricultor que são meras figuras, que agem de forma previsível, convencional; são “cangaceiros” entre aspas, “lavradores” entre aspas. 

Se você projeta num personagem desses tudo que você sabe sobre o ser humano, ele pode se tornar tão universal quanto um personagem de Shakespeare ou de Balzac.

Machado de Assis é um ótimo exemplo de autor regional que atingiu, por ser profundo, uma dimensão universal. Toda a obra literária de Machado ocorre numa região limitada, num raio de algumas dezenas de quilômetros quadrados, na cidade do Rio de Janeiro. Só sai desse âmbito para descrever lugares exóticos e imaginários. 

Machado é tão regional quanto José Lins do Rego. E ambos são universais, porque foram fundo nos personagens e nas histórias contadas, não se limitaram a descrever as coisas de fora.





sábado, 12 de dezembro de 2009

1419) “O Engenho de Zé Lins” (30.9.2007)




Vi dias atrás este documentário, já exibido na Paraíba, no festival Cineport, em maio. É o filme mais pessoal da obra de Vladimir Carvalho. Pessoal não no sentido da pessoa do realizador, mas do seu tema. Vladimir faz filmes sobre o Brasil, ou melhor, sobre segmentos históricos ou geográficos do Brasil: O País de São Saruê, Conterrâneos Velhos de Guerra... 

Seus filmes, mesmo quando têm o foco sobre uma pessoa famosa ou anônima (O Homem de Areia, A Pedra da Riqueza), usam esse indivíduo como uma vidraça transparente através da qual enxergamos uma face do Brasil que nos era desconhecida. O público vai ao cinema para ver aquela pessoa, e acaba vendo a si próprio.

O Engenho... é sobre a pessoa de José Lins do Rêgo, que talvez seja o maior romancista paraibano, e é de longe o mais amado. O retrato que nos dá o filme confirma essa impressão. Zé Lins era aquele sujeito gordo, sorridente, de óculos, expansivo, falador pelos cotovelos, entusiasmado com a vida. Era impossível não se deixar envolver pela sua presença, por sua espontaneidade emocional. (Digo isto sem tê-lo conhecido, claro. Quando ele morreu eu tinha 7 anos.) 

Era um meninão. Um menino “de engenho”, de engenhosidade, de talento. Isto é visível na sua literatura antropomórfica, centrada nos personagens e no vaivém das sua emoções contraditórias, de seus conflitos interpessoais, e das crises sociais do mundo desconjuntado e injusto dos engenhos canavieiros.

Sua vida tinha também uma zona de sombra, horas de depressão e desespero. O filme de Vladimir revela um fato pouco conhecido. Na infância, Zé Lins teria morto acidentalmente, com um tiro, um garoto com quem brincava. O terror e o remorso lhe marcaram a alma para sempre. Já adulto e famoso, no Rio, os amigos cochichavam, quando o viam deprimido: “Está pensando no menino”. Para um sujeito bom e emotivo como ele, um fato assim é um “núcleo de fogo e sangue” que marca a ferro em brasa uma vida inteira.

A última meia-hora do filme mostra a decadência física dos engenhos onde ele viveu (arruinados, esboroando-se aos poucos, invadidos pelo mato e pelos cupins) e a história da doença (esquistossomose) que o consumiu até a morte (com um longo e angustiado relato do poeta Thiago de Melo, que esteve ao seu lado até o fim, junto com a família). 

Zé Lins, um sujeito com a afetividade à flor da pele, escondia de todos a doença, para não fazê-los sofrer. Escondida, camuflada, a doença prosperou e tomou conta de seu corpo. Os engenhos, suas chaminés, suas casas-grandes, suas relíquias arquitetônicas, estão sendo consumidos por uma doença igualmente insidiosa, o tempo e o descaso. Como se a Paraíba moderna, jovem, turística e cosmopolita tivesse vergonha do seu passado. Zé Lins era como a Paraíba, um rosto ensolarado e feliz que esconde uma doença grave, dramas profundos, corrosão silenciosa e oculta. Quando se abre os olhos, babau Tia Chica.





domingo, 25 de outubro de 2009

1325) “Cangaceiros” (12.6.2007)



Cangaceiros, de José Lins do Rego, é um romance que enxerga o cangaço pelo lado de fora, ou em volta dele. Em vez de descrever o dia-a-dia dos cangaceiros, seus combates, suas fugas, prefere contar a vida das pessoas que são parentes ou amigas dos cangaceiros, que pensam neles o tempo todo, que os temem, que os protegem, que torcem por eles ou contra eles. A toda hora chegam-lhes relatos das façanhas e das crueldades praticadas tanto pelos cangaceiros quanto pelas volantes de soldados que os perseguem. A trama acompanha Bento, irmão do cangaceiro Aparício. Através dele, na fazenda onde que se refugia, ficamos vendo a quantidade enorme de boatos, de lendas, de informações falsas e de histórias mal contadas que cercam a atividade desses indivíduos, num Sertão da década de 1920, carente de comunicações e de estradas.

A literatura de Zé Lins desenvolveu um monólogo interior com feição própria, extensos parágrafos que se expandem por páginas e mais páginas, nos quais ele acompanha as idas e vindas do pensamento do personagem, seus avanços e recuos, suas decisões, hesitações, suas intermináveis discussões íntimas nos momentos de ameaça ou de crise. Como Zé Lins usa um vocabulário claro e direto, o leitor acompanha sem muito esforço essas reviravoltas mentais sem perceber o labirinto de idéias em que está se metendo.

O livro, que aliás é uma continuação direta de “Pedra Bonita”, formando com ele uma unidade sem cesura, mostra um enorme entendimento do autor da mecânica social do ambiente que descreve, e uma grande familiaridade com usos e costumes, resultado de uma memória vívida, de um ouvido infalível. Isto lhe permite criar personagens de peso como os três irmãos Vieira: o cangaceiro Aparício, o pacífico Bento, e Domício, o poeta cantador que acaba enveredando pelo cangaço.

Mas os dois grandes personagens do livro são para mim os dois neuróticos. O primeiro é o Capitão Custódio, desmoralizado pela vergonha de ter visto seu filho ser morto pelo Coronel Cazuza Leutério e nada ter feito para vingá-lo. O código de honra do Sertão da época não admitia que um pai não vingasse o assassinato do filho, e o Capitão remói sua culpa e sua humilhação em todas as cenas em que aparece. O outro personagem é o Mestre Jerônimo, que foi embora do Brejo por ter cometido um crime de morte, não gosta do Sertão, e vai pouco a pouco entrando num delírio paranóico equivalente ao do Capitão Custódio. São dois personagens trágicos, que mostram o remoer de angústias e ansiedades que existe às vezes por trás da fisionomia impenetrável do sertanejo. Numa interiorização progressiva de culpas, ressentimentos, humilhações e medos, os dois vão sendo consumidos de dentro para fora diante dos nossos olhos. Quando Bento procura fugir dali, nos últimos capítulos, está fugindo ao terrível futuro que o ameaça, o de se tornar um cangaceiro como os irmãos ou um doido como os seus dois protetores mais velhos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

1309) As árvores e a floresta (24.5.2007)


(Zé Lins, por Baptistão)

Num comentário sobre os romances do “ciclo da cana-de-açúcar” de José Lins do Rego, o saudoso presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, assim se expressou: “José Lins do Rego consignou um dos fenômenos sociais mais típicos da civilização latino-americana no século XX, e, com isso, deu vida a uma galeria de tipos psicológicos que ficarão para sempre em nossas letras”. É um juízo elogioso com o qual concordo em princípio, só que eu reverteria a ordem do argumento. Eu diria assim: “José Lins do Rego deu vida a uma galeria de tipos psicológicos que ficarão para sempre em nossas letras, e, com isso, consignou um dos fenômenos sociais mais típicos da civilização latino-americana no século XX”.

Parece bobagem, mas não é. Se Zé Lins conseguiu reproduzir em seus romances o que era aquele mundo dos Engenhos, que ele conheceu tão de perto, foi devido a sua capacidade de criar personagens e mostrá-los em sua relação profunda com o ambiente. Ao contrário da ficção sociologizante, que parte sempre de conceitos gerais como se lidasse com uma vasta equação matemática, Zé Lins reconta as histórias individuais dos moleques, das iaiás, das negras velhas, dos cambiteiros, de todas aquelas pessoas que marcaram sua memória, e, por entender em retrospecto (depois de adulto, depois de muitas leituras) a história social que aconteceu ali, ele consegue partir, como rezam os manuais literários, “do particular para o geral”.

Hoje em dia essa ficção sociologizante, que teve um peso tão grande nas décadas do meio do século passado, está em baixa. Com o afrouxamento das ideologias de esquerda (que em grande parte sobrevivem apenas no meio universitário) os jovens literatos não têm preocupação alguma em “retratar condições sociais”. Não lhes falta assunto porque falam do seu umbigo, que por sinal é mais vasto do que seu vocabulário, então fica tudo em casa. Mas para quem quer ler os autores das gerações precedentes, é preciso entender que a literatura se dava então num outro “horizonte de expectativas” em que Autores, Leitores e Críticos avaliavam os livros de acordo com outros critérios.

Naquele tempo, escritores de esquerda bem-intencionados pretendiam descrever ambientes sociais de acordo com descrições generalizantes como “os intelectuais da pequena burguesia urbana apóiam os operários ms têm que enfrentam o conservadorismo dos camponeses, além do papel ambíguo da Igreja, que se divide entre o assistencialismo e o conformismo...” Munido de generalidades assim, os autores obrigavam os personagem a se comportar de acordo com tais abstrações, e o resultado eram personagem mecânicos, repetitivos. Zé Lins fazia o contrário. Tinha espírito de escritor capaz de desenhar cada árvore individualmente, sem perder de vista o modo como todas elas se juntavam para formar a floresta. Quem começa desenhando a floresta, jamais vai saber fazer uma árvore.

sábado, 12 de setembro de 2009

1259) “Doidinho” (27.3.2007)




Continuação de Menino de Engenho, este romance de José Lins do Rego é também uma ruptura. O livro anterior era rural, este é interiorano (chamá-lo de “urbano” seria exagero). O anterior trazia para o leitor dos anos 1930 a novidade de um ambiente exótico, os engenhos de cana-de-açúcar da Zona da Mata paraibana. Este, contando a vida de Carlinhos no internato, perde o exotismo de superfície. Molda-se com mais facilidade à mente do leitor, que já lhe conhece a ambientação através do clássico com que é tantas vezes comparado: O Ateneu de Raul Pompéia. Valeria a pena rastrear na literatura brasileira o sub-gênero “Romance (ou Conto) de Internato”, a que pertencem estes dois títulos. Pela importância que os colégios internos tiveram na formação escolar e literária de tantos brasileiros de famílias abastadas, a lista deve ser longa, embora o único outro título que me ocorra à memória seja o conto “Pirlimpsiquice” de Guimarães Rosa, uma das escassas histórias não-rurais do autor.

A leitura de Doidinho (1933) me traz à mente uma obra com a qual parece não ter nada a ver: Anos de Ternura (“The Green Years”, 1944) de A. J. Cronin. Meu pai tinha as coleções completas de Zé Lins e de Cronin editadas pela José Olympio nos anos 1950, a de Cronin em verde, a de Zé Lins em azul-marinho. Anos de Ternura, posterior a Doidinho, mostra como mais importante do que a influência de um autor sobre outro é a influência de mundos semelhantes sobre mentes parecidas. As angústias e os deslumbramentos do menino irlandês num colégio da Escócia não são muito diferentes do que Carlinhos vem a conhecer no colégio de Itabaiana. Os livros de Cronin e de Zé Lins conheceram o sucesso popular em virtude das mesmas qualidades: uma memória vívida a serviço da imaginação romanesca; estilo claro, mesmo quando o pensamento é tortuoso; senso de humor; senso do melodrama; crítica social por um viés humano, mais do que político.

Doidinho ocorre numa zona intermediária entre o mundo rural e o mundo urbano. No Capítulo 32, Carlinhos descobre a história de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, clássico que hoje pertence mais ao sertão nordestino do que à Europa tão globalizada e “high-tech”. Diz Carlinhos, com candura: “Grande livro, que nada tinha que ver com a vida, mas que me veio mostrar que eu era ainda criança, porque acreditei nele, da primeira à última página. (...) Era um livro de capa encarnada, grosso, de páginas encardidas, amarrotadas. Com ele aprendi a temer mais a Deus do que com o catecismo”. No Capítulo 29, ele descobre o Cinema, recém-instalado em Itabaiana, passando seriados, dramalhões, faroestes, comédias do “Bigodinho”. Aquelas projeções artesanais, primitivas, coruscantes, que Carlinhos descreve numa frase exemplar: “O cinema de Chico Sota tremia como um velho”. Um cinema de cordel, de clássicos toscamente adaptados, mas transmitindo a excitação da descoberta de uma maneira nova de enxergar o mundo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

1255) “Menino de Engenho” (22.3.2007)



Menino de Engenho é o romance rural que me revelou, como a muitos brasileiros urbanóides, o cheiro doce-azedo dos canaviais, os bois mortos descendo na enxurrada da cheia, o estralejar do fogo nas taquaras, a senzala abafadiça com suas avós centenárias, o carneirinho arreado e selado para o sinhôzinho cavalgar, o escravo gemendo no tronco, Antonio Silvino de pé no terreiro com o bando perfilado às suas costas, as crueldades e as doçuras das sinhás da Casa Grande, as safadezas dos meninos com as negrotas pelo meio do mato. Devemos lembrar, também, que a adaptação de Walter Lima Jr. foi um dos filmes mais equilibrados e autênticos do Cinema Novo, e só não foi mais valorizado na época porque não era um filme sobre a Revolução, sobre o levante armado dos camponeses, e não se parecia em nada com o cinema de vanguarda europeu. (Na melhor das hipóteses, parecia um roteiro memorialista de Fellini filmado por Kurosawa.)

Dizem os críticos que quem revolucionou a cabeça do jornalista Zé Lins foi seu encontro com Gilberto Freyre. Este o convenceu de que era possível fazer romance sem pensar na literatura européia, usando apenas duas armas: a língua brasileira e a vida brasileira. Bastava isto para criar uma Literatura, e o romance regionalista da década de 1930 foi a melhor prova. Muita gente achou, depois do sucesso de Zé Lins, que tinha de escrever como ele e tinha que recordar coisas parecidas com as que ele recordava. Equívoco mais comum do que se pensa. Hoje está cheio de gente achando que para ser bom escritor tem que escrever como Jorge Luís Borges ou Guimarães Rosa. Zé Lins descobriu que já tinha em si todo o necessário para fazer grande literatura, que bastava olhar para dentro e narrar para fora. Daí em diante, foi um livro por ano, cada qual melhor do que o outro. Pelo menos metade de sua longa obra é de nível muito alto, ainda hoje.

Menino de Engenho, curiosamente, começa com uma cena de melodrama urbano (marido ciumento mata a mulher a tiros) e esta tragédia não tem prosseguimento na narrativa. O filho único é mandado para morar com o avô, e aos poucos ficamos sabendo que o pai era mentalmente instável e estava agora num manicômio. Como é de se esperar, ninguém fala as coisas às claras para o menino, e toda sua infância se passa cobrindo com camadas e mais camadas de experiências novas e explicações novas este fato central misterioso, cuja única justificativa é mais misteriosa ainda: a Loucura.

Não fosse esse núcleo doloroso, Menino de Engenho talvez fosse apenas um romance bucólico de exaltação às simplicidades e encantos do mundo rural. Do jeito que é, é uma história sofrida, onde cada experiência nova faz atrito na sensibilidade exposta do garoto, que tem um olho infalível para as violências, as crueldades, as coisas que ninguém explica. É um narrador de romance psicológico contracenando com personagens e ambientes de um romance de costumes regionalistas

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

1249) O lobisomem (15.3.2007)


Diz a Antropologia que a Magia é concreta, e a Religião é abstrata. Com o passar dos milênios as religiões foram ficando cada vez menos antropomórficas e mais abstratas. As mitologias grega, nórdica, etc., eram uma espécie de telenovela melodramática em que os deuses não eram muito diferentes dos seres humanos, em suas paixões, vinganças, amores e ódios. O Judaísmo ainda é antropomórfico: o Deus do Velho Testamento se parece com as divindades mitológicas antigas. O Cristianismo, com o Novo Testamento, tem um humanismo fraterno que foi sua grande contribuição à humanidade, mas ainda é antropomórfico, com suas imagens, santos, etc. O Protestantismo fez uma ruptura na direção de uma abstração maior, eliminando por exemplo, a adoração às imagens (como o Islã aboliu a representação da figura humana, embora tenha permanecido antropocêntrico em seus valores e em sua legislação). Eu diria que a mais refinada das religiões é o Taoísmo, este sim, plenamente abstrato, relativizando sempre as contingências humanas e absorto na tentativa de entendimento das forças essenciais que movem o Universo.

A Magia, por outro lado, é o terreno do dia-a-dia, da nossa experiência voltada para a fisicalidade do mundo, dos seres e das coisas. A Religião, quanto mais evolui e se abstrai, mais exige de nossa capacidade intelectual de abstrair, generalizar e sintetizar. A Magia se baseia naquilo que Lévi-Strauss chamou de “a ciência do concreto”, uma sabedoria baseada no contato íntimo e intenso com as coisas que nos cercam.

Ainda não pude ver o filme que Vladimir Carvalho fez sobre José Lins do Rego, mas tenho relido algumas coisas do mestre, e em Menino de Engenho me deparo com este trecho, que não apareceria mal num livro de Lévi-Strauss, Mircea Eliade ou outro pesquisador das religiões e magias. Carlinhos, o narrador, está se referindo a José Cutia, um sujeito esquisitão e pálido que é suspeito de ser lobisomem porque precisava “corar com o sangue dos outros”:

“Eles me contavam estas histórias dando detalhe por detalhe, que ninguém podia suspeitar da mentira. E a verdade é que para mim tudo isto criava uma vida real. O lobisomem existia, era de carne e osso, bebia sangue de gente. Eu acreditava nele com mais convicção do que acreditava em Deus. Ele ficava tão perto da gente, ali na Mata do Rolo, com as suas unhas de espetos e os seus pés de cabra! Deus fizera o mundo somente. Era distante dos nossos medos, e nós não o víamos como a José Cutia com o seu cesto de ovos. Pintavam o lobisomem com uma realidade tão da terra que era o mesmo que eu ter visto. De Deus, tinha-se uma idéia vaga de sua pessoa. Um homem bom, com um céu para os justos e um inferno para a gente ruim como a velha Sinhazinha, com caldeiras e espetos quentes. Mas tudo isso depois que o sujeito morresse. O lobisomem lutava corpo a corpo com a gente viva. Era sair antes da meia-noite para a Mata do Rolo, e encontrá-lo.”