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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

4508) Eu me lembro - 16 (30.9.2019)




1
Eu me lembro do tempo (por volta de 1960) em que a gente morou na Vila dos Motoristas, atrás do Estádio Presidente Vargas. Quando o Treze jogava à noite, a luz dos refletores clareava a rua inteira e a gente aproveitava para jogar uma pelada noturna. Meu pai me levava para o jogo e a gente ficava nas cadeiras cativas, onde ele tinha duas (acho que eram números 58 e 59). Por trás das cadeiras havia uma parede com cobogós onde eu escondia pedaços de papel amassado dos pacotes de amendoim, e os reencontrava miraculosamente no jogo seguinte. Uma vez o Treze fez um gol e ao erguer os braços eu bati com o cotovelo nos óculos de um rapaz meio calvo que estava na cadeira vizinha, derrubando-os e quebrando. Seu Nilo pediu desculpas e se ofereceu para pagar, o rapaz disse que não era nada. Anos depois, por volta de 1978, meu pai foi chefe de gabinete do reitor da Universidade Regional do Nordeste, José Cavalcanti de Figueiredo – o rapaz dos óculos.



2
Eu me lembro da Livraria Universal, que ficava no térreo do Edifício Palomo, na Maciel Pinheiro: era a loja da direita, de frente para a calçada. Era uma mistura de papelaria com livraria, meio estreita e apertada, mas a estante de livros era excelente, tinha todas as novidades da Civilização Brasileira e da Zahar. Quando eu estudava à noite no Estadual da Prata, um funcionário da livraria, Clímaco, era meu colega de turma. Ficamos amigos e quando eu chegava na livraria ele já me fazia um sinal: “Chegou livro de cinema!” – e me levava direto para os pacotes recém-chegados da Biblioteca Básica de Cinema, da Civilização; eu tinha todos.



3
Eu me lembro que, estranhamente, havia algumas ruas de Campina Grande, ruas até bastante centrais, por onde eu nunca andava, e que continuaram desconhecidas para mim até a idade adulta. Lembro do Palácio do Bispo, aquele belo casarão onde funcionaram (ou ainda funcionam) secretarias da Prefeitura. Eu ouvia falar nele desde pequeno mas nunca soube onde era, e quando o vi pela primeira vez, já com mais de 25 anos, tive um susto em descobrir que um “palacete” como aquele existia na cidade. Foi o que vim a chamar depois de “momento philipkdickiano”, uma súbita irrupção de algo impossível no meio de um espaço aparentemente conhecido.



4
Eu me lembro de quando eu tinha uns 8 ou 10 anos e meu pai me levou para assistir uma noite de luta-livre no palco da Rádio Borborema, transformado em ringue. A programação tinha 3 ou 4 lutas preliminares e uma luta principal. Numa das preliminares tinha um lutador chamado Ferrinho, e quando ele foi derrotado a platéia gritava em coro: “Ferrinho enferrujou! Ferrinho enferrujou!”. A luta principal era entre Máscara Negra e Touro Novo. Este último era um lutador moreno, troncudo, que entrou no “ringue” com um roupão vermelho e ficou se exercitando; ficou de costas para a platéia e atrás do roupão estava escrito: TOURO NOVO – CAMPEÃO BAIANO. Alguns segundos depois um gaiato gritou lá de trás: “Pode virar, a gente já leu”. Máscara Negra era um cara branco, meio magro, de calção preto e a necessária máscara no rosto. Claro que torci por ele. Touro Novo o pegou pra limão e ganhou a luta sem muita dificuldade. Eu voltei para casa perplexo, porque me parecia impossível que um cara chamado Máscara Negra pudesse ser derrotado por um simples mortal.


5
Eu me lembro que uma noite a gente estava bebendo no galeto de Benedito, que ficava na rua João Pessoa, naquele trecho depois da Siqueira Campos, quando a rua começa a se elevar rumo à subida do Monte Santo. A gente levava violão e ficava cantando forrós e sambas, mas contava os dinheiros antes, pra saber até onde podia ir a conta, e se a noite ia ser somente de cerveja ou se a certa altura dava para se distribuir entre todos um galeto com farofa amarela, arroz e vinagrete. Nessa noite a gente já estava há mais de uma hora cantando e quando se fez uma pausa aproximou-se Benedito, o dono, trazendo duas garrafas de cerveja em cada mão, já abertas, e colocou em cima da mesa. A gente protestou, dizendo que não tinha pedido, e ele indicou com o polegar: “Foi o doutor ali quem mandou servir.” A gente olhou e viu no fundo do salão o poeta-tribuno Raymundo Asfora, ladeado por duas beldades da noite, erguendo o polegar em sinal de positivo e dizendo: “É só pra não pararem de cantar”. A noite foi longe.


6
Eu me lembro de uma vez em que meu pai e minha mãe, com alguns amigos, foram a uma festa à noite no Gresse, o clube dos oficiais militares (“Grêmio dos Subtenentes e Sargentos do Exército”) , que na época era um dos mais animados; na adolescência inteira brinquei muito carnaval ali. Nessa noite eles foram em dois carros, e quando acabou a festa, de madrugada, voltaram para continuar bebendo lá em casa. Acontece que um dos motoristas estava completamente de pileque. Meus pais não dirigiam (uma prudência que eu herdei), bem como as outras pessoas. Um motorista, dois carros. E Louro, um amigo deles que estava ao volante, trouxe os dois carros alternadamente, do Gresse até nossa casa no Alto Branco. Dirigia uns 30 metros, puxava o freio de mão, voltava correndo, pegava o outro carro, passava uns 20 ou 30 metros do primeiro, parava, voltava correndo.... E assim chegaram, sãos e salvos.



(a sede do Gresse)


quinta-feira, 25 de julho de 2019

4487) "Novas Cartas dos Sertões do Seridó" (25.7.2019)



Estou emergindo agora da leitura de Novas Cartas dos Sertões do Seridó, de Paulo Bezerra “Balá” (edição do autor, Natal, 2009), que me foi presenteado por Jessier Quirino, um entusiasta da obra do autor: “Imagine Elomar escrevendo memórias”, disse ele.

Paulo Bezerra era de Acari, na rica região do Seridó, que o Rio Grande do Norte espertamente subtraiu à Paraíba no século 19. Médico e fazendeiro, membro da Academia Norte-Rio-grandense de Letras, ele escreveu ao longo de anos essas cartas publicadas na imprensa de Natal, descrevendo, com olho de memorialista e com precisão de etnógrafo, aquilo que a gente chama “os usos e os costumes” de sua região.

Gosto de ler memórias literárias, não necessariamente aqueles livros onde um sujeito faz sua auto-biografia, mas os livros escritos por quem viveu numa época e num lugar bem específicos, e sente a necessidade de contar o que viu e viveu, porque é importante. A regras de comportamento, os modos de plantio e colheita, as histórias passadas de velho para moço, os pequenos usos da vida diária.

Em 1958 que foi ano de seca malina, um meu irmão abriu o polegar esquerdo com uma cutilada. O sangue corria franco e não havia uma meizinha para estancar a sangria como o pó do café, o esterco do jumento, o leite do pinhão, a rapa da favela ou do carnal do couro curtido. Então um companheiro de trabalho – que ali todos eram iguais – disse assombrado, no vexame: “Seu Gonzaga, só tem um jeito: é cabelo” e o outro foi logo lhe cortando a trunfa com a faca afiada e envolvendo o ferimento. Foi santo remédio. (p. 90)

Paulo Balá descreve com segurança as menores coisas da vida prática, e sempre no estilo severo e preciso do sertanejo. Por exemplo, eu sei o que é um chocalho, toda vida soube. Mas redescobri o objeto na descrição dele:

O chocalho é uma espécie de sino feito com folhas de ferro e depois banhadas com latão e bronze ou bronze e cobre, para ser pendurado no pescoço dos animais, por uma tira de sola curtida, com uma extremidade dobrada – a cabeça – e a outra ponta afiada para correr na fenda da cabeça, dando-se um nó – nó especial de marra -, graduando segundo a grossura do pescoço, invenção que veio de longe, das bandas de lá. Também a marra pode ter uma só largura e ser atacada com fivela. (...) Costuma-se pôr chocalho em reses mansas que apascentam as outras em torno de si. Rês arisca, velhaca e braba bota o rebanho a perder, pois, ao correr, corre tudo. (p. 174)

“Estilo literário” não é floreio, não é enfeite: é o uso da linguagem para construir idéias, evocar imagens, fazer emergir emoções. Paulo Balá escreve com a clareza de quem ergue uma parede de casa de fazenda.

Curiosamente, uma obra que me veio à memória durante a leitura do livro dele foi Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig, onde o autor explica que se você for capaz de cuidar de uma moto deve ser capaz de escrever, e vice-versa.

Essa cultura, esse estilo sertanejo é adquirido talvez a duras penas (ele se queixa da escassez de livros em casa, na sua meninice), mas com critério e determinação.

No livro de Phelippe e Teophilo Guerra – “Seccas Contra a Secca” – tomado por empréstimo por meu pai (1891-1959) e que mandou copiá-lo de forma manuscrita, a bico de pena, tinta de tinteiro e mata-borrão, cópia feita por Noêmia Emília de Lucena e terminada a 7 de janeiro de 1954, cobrindo 792 páginas de caderno pautado, estavam as informações daquele ano.  (p. 29)

Nas memórias de Paulo Balá não se vê, felizmente, aquela nostalgia sentimentalista que tantas vezes acomete os memorialistas nordestinos, sempre prontos a afirmar que tiveram a mais feliz infância, a mais harmoniosa família, a mais rica fazenda...

A emoção corre por baixo do texto, nas entrelinhas. Como nesta carta que ele transcreve, escrita na velhice por Josefa Cunha de Medeiros (1926-1990), contando como foi seu casamento e sua mudança para a Fazenda Pinturas:

Casei no dia 25-02-48. Chegamos nas Pinturas a cavalo, às 5 horas da tarde., acompanhados por José Pipiu, Gilvan de Gil e Clidenor e às 6 horas chegaram 22 vaqueiros. Depois do jantar, e de mulher só havia eu, Zezé leu uma despedida em nome dos vaqueiros e de seu Silvino e Dona Maria. Não conhecendo a casa das Pinturas, fiquei parada com a sua beleza.

Ainda gravados na minha memória os nomes das vacas: Curimã, Atalaia, Ponta Baixa, Bargadinha, Quixaba e Caracol; dos jumentos: Estrela e Mourão; dos burros mulos: Mocinha, Melada, Charuto, Taruga, Moreno e Cutia, que morreu com 38 anos, e dos vaqueiros: Zé de Agostinho, Isaac, Alaor, Edilson e outros tantos que esqueci.  (p. 85)

Por trás de uma recordação tão nítida, tão controlada, pulsa toda uma noveleta de Corpo de Baile.

O autor recorda a chegada gradual da modernidade tecnológica nos sertões:

O rádio – e talvez por aqui tenha sido o primeiro a ser instalado em sítio – foi posto sobre uma banca num dos salões da casa o qual até hoje é chamado de “salão do rádio”, como há o “dos vaqueiros”, onde os vaqueiros dormiam, o “de pedra” por ter o piso de pedras vindo do Sabugi em carro de boi e o “das cadeiras”, lugar de receber eventuais visitas. Da antena, protegida com isoladores de vidro, um de cada lado e esticada entre dois barrotes acima do telhado, descia o pendente. A escuta das estações, todas distantes, dependia da qualidade do tempo, do pipocar das descargas elétricas: os jornais falados com notícias da Segunda Guerra Mundial – batalhas, avanços e recuos – e, em 1939, a transmissão de eventos do Congresso Eucarístico Nacional, realizado no Recife.  (p. 139)

Paulo Balá tem o cuidado de colocar após a menção a cada nome de pessoa seu ano de nascimento e de morte. Cada menção é uma lápide, é a chancela de uma história completa de vida. Gosto desse memorialismo onde o autor não se derrama em minúcias narcisistas a respeito de si próprio – escreve sobre o que o cerca, escreve sobre o que viu, o que testemunhou, e, a depender de como escreva, está ele todinho em cada frase.



(Paulo Bezerra "Balá", 1933-2017)








sábado, 20 de julho de 2019

4486) A Lua foi conquistada afinal (20.7.2019)





A data de 20 de julho marca este ano o cinquentenário da descida do homem na Lua. Neil Armstrong e Buzz Aldrin foram os dois primeiros seres humanos a caminhar naquela poeira de milhões de anos “que cheirava a pólvora queimada”, disseram eles, após muitas tentativas (ainda na espaçonave) de limpar o finíssimo pó cinzento aderido aos seus trajes espaciais.

Eu estava perto de completar 19 anos naquele dia histórico, e por essas ironias do destino não assisti o pouso pela TV. Estava tocando com minha banda de rock no Recife naquele dia.


Conto essa história neste meu artigo para a revista “Kurumata”:



Já leitor inveterado de ficção científica, eu acho que via naquilo tudo uma dimensão que muita gente ao meu redor não via. Para muitos, era apenas uma façanha como descobrir a América ou chegar ao Polo Norte; uma aventura arriscada, movida a tecnologia e uma certa coragem suicida.

E uma aventura movida a política, porque era ainda a época da Guerra Fria, da corrida tecno-militar entre os EUA e a URSS. Seria (se tudo desse certo) uma vitória esmagadora dos norte-americanos, e todos torcíamos por eles.

Até eu – porque embora estivéssemos vivendo um período brutal da ditadura militar, com o AI-5 recentemente imposto à população, nem eu nem meus amigos tínhamos a menor simpatia para com aquela União Soviética igualmente ditatorial, burocrática, truculenta com seus cineastas e escritores.

Melhor torcer pelos norte-americanos, que pelo menos tinham um pouco mais em comum conosco, pensava todo mundo ao meu redor.

Ou (pensava eu) melhor considerar aquilo uma vitória não de um país, mas de toda a Humanidade. Era um planeta que pela primeira vez tocava fisicamente em outro; não era um país. Nós, brasileiros, estávamos pousando ali também.

A transmissão ao vivo, em tempo real, coisa nova naquela época, criava um laço supra-nacional entre todos os bilhões de pessoas que acompanhavam a aventura. A televisão nos unia num momento que, descontadas as oscilações de fuso horário e os inevitáveis delays de transmissão, podia ser considerado um “Agora” universal. Além fronteiras.

E aquele fato transcendental acabaria servindo também como argamassa de destinos individuais, dando à descida na Lua aquele status de fato unificador, que nos leva a perguntar a alguém: “Onde estava você quando aquilo aconteceu?”.

Durante alguns anos tomei notas para um conto que se intitularia justamente “Onde Estava Você?”, e que seria uma reflexão sobre esse eixo de simultaneidade entre vidas individuais, produzido por um fato de amplitude planetária.

Pensei em três casais de gerações sucessivas, numa mesma família. Em 1945, o avô e a avó do narrador escutam a notícia da explosão da Bomba de Hiroshima. Em 1969, o pai e a mãe dele assistem na TV a descida do homem na Lua. E em 2006 ele conta onde está quando uma raça alienígena faz seu primeiro contato explícito com o nosso planeta.


O conto ficou se chamando “Príncipe das Sombras”, está no meu livro A Espinha Dorsal da Memória (1989), e diz a certa altura:

...um dia ele perguntou a ela onde estava quando a Bomba caiu sobre o Japão. Ela respondeu que tinha sabido da notícia através do rádio; tomava banho de chuveiro e o rádio estava ligado na sala, ela ouviu a voz urgente do locutor e captou alguma frase, não percebeu todos os alcances do fato mas sentiu que tinha a ver com o fim da guerra, saiu à sala gotejante, envolta na toalha, mas o rádio já retornava à música e a mãe vinha em defesa do tapete. (...) Quanto a ele, que tinha vinte e quatro anos naquele agosto, estava num restaurante com alguns amigos, quando outro amigo entrou a passos largos, puxou uma cadeira e largou na mesa a notícia, o peito ofegante, os olhos brilhando, e não porque estivesse a pensar no efeito daquilo sobre o moral nipônico, mas porque era possível, era real.


(...) Em 20 de julho de 1969 uma moça de cabelos louros ligou a televisão para ver o que estava passando (dividia um apartamento com duas amigas, ambas tinham saído, era domingo) e viu uma sucessão de imagens que não entendeu bem, entendeu a voz que as acompanhava e era a de Gilberto Gil, que àquela época era seu cantor preferido; a voz entoava versos que ela não conhecia: “Momento histórico... Simples resultado do desenvolvimento da ciência viva... Afirmação do homem, normal, gradativa, sobre o universo natural – sei lá que mais...”  A canção a levou à poltrona, da qual não mais se levantou durante as horas seguintes, até terminar a transmissão da primeira descida do homem na Lua. A moça ainda não era minha mãe; ainda se passariam vários anos até que um rapaz de cabelos escuros e boca maliciosa lhe perguntasse: “onde estava você, quando, etc.?” Após a resposta, ele disse que naquele dia estava também diante da televisão, a sala cheia de gente, a cabeça cheia de fumo, o rosto lavado em lágrimas, vingativamente satisfeito, como se aquilo fosse um triunfo pessoal.

A ficção científica nunca me ensinou a odiar raças alienígenas, mas me ensinou a pensar na humanidade como uma coisa só. Retalhada por distâncias geográficas, históricas e culturais, desunida por competições econômicas e políticas; mas uma coisa só. Quem pisou na Lua naquela tarde de domingo foram os aborígenes australianos, os camponeses do México, os pastores do Cáucaso, os tutsis e hutus de Ruanda, os roqueiros da Escandinávia, os pirangueiros-de-porta-de-bodega do bairro do São José, em Campina Grande, que certamente estavam vendo tudo e fazendo piada.

Gilles Deleuze tem uma definição de Esquerda x Direita que para mim vai muito mais além dessa distinção meramente política. Diz ele que quem é de esquerda se preocupa primeiro com a humanidade, depois com seu próprio país, e só depois com sua cidade e as pessoas que o cercam. E quem é de direita pensa acima de tudo em si mesmo e nos seus, só depois cuida dos interesses do país, e provavelmente não está nem aí para a humanidade. (Estou parafraseando, claro.)

Eu tiraria os termos “esquerda” e “direita” da discussão e diria que essa oposição talvez seja a mais importante de todas no planeta Terra de hoje, quando é o próprio planeta que está ameaçado de entrar em colapso, e com esse colapso acabar com as guerras dos países, a farra das "famílias" e a própria existência da civilização.

Se esta não for a questão mais importante do mundo hoje, neste 20 de julho de 2019, qual será?















sábado, 1 de junho de 2019

4472) A arte do apelido (1.6.2019))



Botar apelido é uma arte que nem todo mundo domina, mas quem melhor domina é o chamado Povo. É o Povo, essa entidade multicéfala, quem produz esses achados brilhantes que batizam, crismam e sacramentam pro resto da vida um simples mortal.

É uma arte perigosa, por suposto. Quando eu entrei para uma redação de jornal e comecei a produzir meus primeiros artigos assinados, meu pai me deu um conselho curioso.

– Se alguém escrever um artigo atacando você, polemizando, tem duas armas infalíveis. A primeira é descobrir um erro de português no texto dele, e passar o resto da vida falando nisso. A segunda é botar um apelido e ficar repetindo até pegar.

Essa prescrição mefistofélica me assustou um pouco, mas vendo as redes sociais de hoje percebo o quanto Seu Nilo já estava impregnado do espírito do tempo. Era um facebookiano avant-la-lettre.

Uma coisa, porém, é o apelido escarninho e depreciativo; outra coisa é o apelido descritivo e pitoresco.

Por exemplo: lembro de um rapaz (chamo de rapaz porque na época era mais velho do que eu) que morava no Alto Branco, entre a bodega de Seu Luís e a de Seu Anísio. Era musculoso (“sarado”, no dialeto de hoje), queimado de sol, mas era meio vermelhusco porque era um galego do cabelo sarará. Juntando tudo isto, o apelido não deu outra: Monstro de Bronze. E assim era conhecido no bairro inteiro.

Tempos da minha adolescência, quando eu convivia, quase menino ainda, com caras mais velhos do que eu, tratados coloquialmente de Zazué, Zé do Bombo, Índio, Arlindo Nova Seita... Alguns deles eram pais de família, senhores respeitáveis, mas até hoje, apesar da intimidade de vizinhos de muitos anos, não sei como eram seus nomes civis.

Campina Grande sempre foi um lugar propício à criação de apelidos, porque o espírito campinense é por natureza motejador, satírico, jocoso, capaz de derrubar um palanque com uma piada e um governo com uma fofoca.

Lembro com carinho figuras públicas como Pinta Cega, o vereador agitado e falastrão, torcedor do Treze até a medula, sempre a postos no Calçadão com sua careca luzidia, seus óculos, seu bigodinho fino. Chamava-se João Nogueira de Arruda, mas creio que com ele aprendi a importância, para o eleitor, do “nome que todo mundo chama”.

Lembro de Léo Studebaker, figura bonachona e piadista, do qual se dizia ter este nome porque era tão feio que ninguém sabia se ele estava vindo de frente ou de costas.

Nem mesmo os políticos poderosos escapam ao apelido. Na histórica campanha pela Prefeitura de Campina, em fins dos anos 1950, enfrentavam-se Newton Rique (banqueiro, rico, sofisticado; depois de cassado veio morar no Rio, fazia parte do “Dragão Negro”, tropa de elite da torcida do Flamengo) e Severino Cabral (populista, espontâneo, paternal, meio ignorante, personagem de mil piadas sobre erros gramaticais).

Foi o que bastou: era a campanha do Mão de Seda contra o Pé de Chumbo.

Os apelidos muitas vezes guardam uma certa maldade com os defeitos físicos de uma pessoa, como no caso daquela moça que tinha uma perna mais curta do que a outra e era chamada de Meio Fio. São apelidos personalizados, que grudam no indivíduo. Não são a mesma coisa dos apelidos temporários, que podem se aplicar indiferentemente a qualquer um e nunca “grudam” de verdade, como o de ver um indivíduo magrelo e chamá-lo de Sibito Baleado. Eu conheço uma dúzia.

Dizem que no Rio Grande do Norte tinha um bandido, um assaltante perigoso, chamado Carga Torta. Quem já viajou de automóvel numa rodovia atrás de um caminhão nessas condições já pode imaginar do que se trata. Mas não: o repórter da rádio, fazendo matéria ao vivo nas celas da cadeia, teve que perguntar:

– Carga Torta, por que é que você tem esse apelido?

E ele:

– É porque eu tenho um cunhão maior do que o outro.

– “Voltamos aos nossos estúdios...”














domingo, 26 de maio de 2019

4470) Eu me Lembro - XV (26.5.2019)




1
Eu me lembro de quando minha Tia Adiza começou a comprar para mim, por volta de 1959, pelo Reembolso Postal, a coleção das Obras Completas de Conan Doyle (Edições Melhoramentos, a coleção vermelha/azul/verde), e me levava no Correio para que eu tivesse o gosto de receber pessoalmente o pacote (vinham 2 livros por mês). E me lembro de ir lá de novo em 1974, para receber livros de Jorge Luis Borges da Ed. Emecé, no mesmo balcão, no mesmo guichê, à esquerda de quem entra.





2
Eu me lembro de quando eu tocava nos Sebomatos (portanto foi em 1969) apareceu em Campina um dinâmico produtor que dizia se chamar John Louis, ou Johnny Lewis, já que nunca vimos o nome dele por escrito; vinha vender um show de Bob Lester, o cantor de rock e sapateador, acho que já sessentão, naquela época. Precisava de uma banda local para acompanhar o ídolo, e tinham indicado a gente. No espaço de 24 horas arranjou-se divulgação, ensaio, o Teatro Municipal, uma venda de ingressos da qual não faço idéia, porque tudo que a gente queria era tocar num palco de verdade, e cantar em microfones (a gente tinha guitarras e amplificadores, mas ensaiava na guela). O sucesso foi absoluto e felliniano.





3
Eu me lembro dos bichos empalhados que tinha na vitrine da loja Palacinho da Criança, onde minha mãe e minha tia levavam a gente para admirar, ali numa transversal da Maciel Pinheiro. A loja era pequena, mas a vitrine tinha os bichos em pose bem real e uma iluminação meio mágica. Vizinho à loja ficava o caldo de cana de Hipólito, onde quinze anos depois ficaria exposta a foto dos Sebomatos, porque o fotógrafo era Telmo.





4
Eu me lembro do dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 62, porque na de 58 eu não era torcedor ainda. Agora já. Me lembro depois do fim dos 3x1 sobre a Tchecoslováquia (era um país que tinha naquele tempo) eu parado no terraço da casa dos meus pais no Alto Branco, olhando à minha frente o perfil completo da cidade enquanto ela pipocava em foguetões, chega parecia uma purpurina rebrilhando. Lembro de uma crônica de alguém que li na época celebrando a vitória, que foi de virada: “...o tímido sorriso de esperança com o gol do empate, de Amarildo; a alegria esfuziante do gol de Zito; e o grito uníssono de vitória com o terceiro gol, de Vavá”.





5
Andei relendo uns livros da saudosa Coleção Futurâmica, das Edições de Ouro. É uma pulp fiction tipo filme B. Vai do pior clichê à coisa mais inesperada e tem pelo menos um livro genial: “A Cadeia das 7” (La Mort Vivante) de Stefan Wul, e os paradoxos temporais de F. Richard-Bessière. Lembro de quando os livros de bolso começavam a ser vendidos em Campina, a partir de 1959. Meu box preferido era um da parte de trás do Abrigo Maringá, lá dentro mas virado para a praça. Surgiu nessa época aquele tipo de display de metal giratório, com escaninhos onde se podiam amontoar vários títulos. Depois, já em meados dos anos 1960, abriu a poucos metros dali, nas primeiras portas da descida da Irineu Joffily, virada para o Capitólio, uma lojinha montada pelas próprias Edições de Ouro. Era um espaço minúsculo e muito bem aproveitado, forrado de escaninhos de alto a baixo.





6
Eu me lembro dos tempos do Cineclube de Campina Grande em que a gente programava filmes que só eram disponíveis nas distribuidoras do Recife. A gente reservava o aluguel por telefone. No dia da exibição (que era à noite) um de nós pegava o ônibus de manhã para o Recife, chegava lá 4 horas depois, ia a pé da antiga Rodoviária para a distribuidora, que ficava perto do Mercado São José. Se identificava, pegava o filme, que era uma caixa de madeira, com alça de couro, amarrada com tiras de couro e fivelas, trazendo no interior 2 ou 3 rolos de película em 16 mm. Voltava para a Rodoviária, pegava o ônibus de volta, chegava em Campina no fim da tarde. O filme era exibido à noite, e no dia seguinte outro de nós refazia o mesmo trajeto, devolvia o filme e pagava o aluguel. E me lembro que um dia um dos gêmeos (Rômulo ou Romero Azevedo) ficou preocupado porque carregando a caixa na rua cheia de gente, bateu com ela e quebrou a lanterna traseira de um carro estacionado. (Só falta agora aparecer o dono do carro e cobrar a indenização.)





7
Eu me lembro que logo no começo do Cineclube de Campina Grande a gente fez um convênio com o Colégio das Damas (que tinha auditório e projetor) para fazer sessões de Cinema de Arte ali. O primeiro filme exibido, depois de acaloradas discussões diante dos panfletos das distribuidoras (que naquele momento só tinham filme fraco) foi Ato de Misericórdia, de Anatole Litvak, um filme de guerra preto-e-branco do qual não lembro rigorosamente nada. O público deu algo em torno de 10 pagantes. Novas discussões acaloradas, em que condenamos o elitismo de nossa escolha. Na semana seguinte, passamos Louras, Morenas e Ruivas, com Elvis Presley, e deu 5 pessoas.









sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

4415) Eu me lembro XIII (20.12.2018)




1
Eu me lembro de quando se aproximava o mês de setembro e a gente interrompia as aulas para ir ensaiar o desfile, na rua. Por um lado era bom porque nesse dia não ia ter mais aula. Quando acabava o ensaio a gente voltava pro colégio, pegava as coisas e ia embora. Mas o ensaio em si implicava às vezes sair marchando por aquelas longas retas, sair do Alfredo Dantas, descer a Irineu Joffily, dar uma volta no Açude Velho, subir pela Vila Nova da Rainha, pegar a Maciel Pinheiro, voltar ao colégio. Mas havia o fascínio de ver a banda marcial de perto, observar como os caras dos taróis controlavam o rufo, entender a função do bombão, do surdo; e sair um pouco no sol, tirar as teias de aranha, de vez em quando trazer “os povo” pras janelas, pálidos de espanto. Me lembro que havia um conundrum filosófico irrespondível: É melhor ser rabeira do pelotão 1, ou testa do pelotão 2? O que hoje talvez se dissesse: É melhor ser o lanterna da Série A ou o campeão da série B?” 

2
Eu me lembro de um Museu de Cera que ficou algumas semanas em exposição em Campina, em frente à Praça da Bandeira (onde hoje tem o camelódromo). Havia estátuas de vultos históricos, cientistas, personagens da literatura, da lenda. Havia Caryl Chessman, o “bandido da luz vermelha”,  na câmara de gás; era um fato ainda recente. Havia Jack o Estripador, etc.  Na porta de entrada, um disco de propaganda, chamando os clientes para entrar, tocava em loop um tango de Carlos Gardel, que diz “teu riso é como a brisa...”  Havia uma outra seção, só para maiores de 18 anos, que exibia de maneira gráfica (modelos de cera) uma infinidade de doenças venéreas, mostrando sua aparência exterior, explicando o que era e acho que sugerindo remédios. Anos depois, um museu de cera diferente, mais didático, menos carnaval-ambulante, ficou em exposição na Faculdade de Administração, na Getúlio Vargas, logo acima da esquina do Correio. Havia um pistoleiro de barba chamado Cruz Diablo, me pareceu um bom nome de personagem.

3
Eu me lembro de que no bairro de José Pinheiro, o popular “Zepa”, havia (será que ainda há?) um cinema pequeno, chamado Cine Art. Era um desses cinemas-poeira de rua, e tinha na entrada uma placa: “Proibido Entrar Descalço”. No auge do Cineclube de Campina Grande, surgiu uma idéia de promover ali uma sessão de cinema de arte, como já havia no Capitólio e no Babilônia. O idealismo de Luís Custódio, presidente do Cineclube, o levou a mil negociações com a gerência do cinema, onde só passavam bangue-bangues e pornochanchadas. Depois de marchas e contramarchas, o Cineclube promoveu ali a exibição do filme O Picolino (“Top Hat”), um musical com Fred Astaire, que nossa ingenuidade acreditou ser um título alegre, descontraído, capaz de agradar a qualquer platéia. Não fui assistir a sessão, o que hoje lamento, porque foi a única.

4
Eu me lembro do sebo de Câmara, um sebo que ficava na rua Maciel Pinheiro, entre aquela galeriazinha onde funcionou a Varig e a descida para o Beco dos Bêbos. Você subia dois ou três degraus da calçada e entrava numa sala ampla, com livros ao longo das paredes, empilhados em balcões ou em esteiras rente à parede. Câmara era um sujeito alto, meio calvo, tinha um gosto muito bom para literatura e poesia. Foi lá que eu comprei meu primeiro livro de Drummond, a Antologia Poética da Sabiá. Foi lá que vi um livro maluco chamado Kaos e guardei na memória esse título. Anos depois reencontrei o título citado no Pasquim, ligado ao nome do músico de Maracatu Atômico e cineasta de O Demiurgo, Jorge Mautner. Campina Grande sempre foi mais uma cidade de livrarias do que de sebos. O atual Catalivros de Ronaldo já é um dos sebos mais duradouros da história da cidade.

5
Eu me lembro de um jogador amador de Campina, chamado Lambretinha, pela velocidade. Ele jogava no Fracalanza, que era o time de funcionários de uma rede comercial, enxertado com jogadores vindos de outros times. Lambretinha era pequenino, não lembro bem da cara dele, mas me lembro de saltar de pé no meio das cadeiras cativas do Presidente Vargas quando a defesa deles rebatia uma bola e alguém esticava o passe longo esperado por todos. O estádio ficava de pé, e ele dava arrancadas que revivi depois quando vi um gol de Jacozinho num jogo comemorativo no Maracanã. O Fracalanza era verde e amarelo, acho, e jogava na preliminar. (Naquele tempo antediluviano, jogo de futebol era um programa duplo: quem chegasse mais cedo via um jogo de dois times amadores, geralmente; e depois o programa principal da noite, o jogo do dono do estádio contra um visitante.) Era o famoso esfria-sol.

6
Eu me lembro de Lampião, apelido de Judite, uma das meninas-da-noite que batiam calçadas nas madrugadas de Campina, fazendo programas com qualquer cara que parasse um carro e botasse elas para dentro. Lampião era a mais velha e uma espécie de líder de um grupo que tinha Olindete, Menininha, Rute... As mais novas tinham uns quinze anos, mas eram todas escoladas, vividas, calejadas na conversa e no comportamento. Eu era da turma que fazia bacurau (conversas aleatórias noite adentro) em frente ao antigo Museu de Arte, na esquina da Maciel Pinheiro com a Floriano Peixoto. As meninas de vez em quando encostavam e a gente ficava tirando onda, puxando conversa com elas. Lampião era corajosa e agia como protetora das outras; me lembro de uma vez ela contando pra gente como uns PMs estavam querendo pegar na marra uma das garotas. Ela disse: “Os caba vieram tirando onda mas eu trevessei meu naife e falei: Quem vier eu furo! Oxente, foram simbora.” Judite faleceu algumas semanas atrás, com mais de 70 anos. Vi sua foto nas redes sociais: negra, envelhecida e valente.










segunda-feira, 19 de novembro de 2018

4406) O menino Guimarães Rosa (19.11.2018)




Hoje se completam 51 anos da morte de João Guimarães Rosa, e acabei folheando um livro que li recentemente: Joãozito – Infância de Guimarães Rosa, de Vicente Guimarães (José Olympio/INL-MEC, 1972).

Vicente Guimarães está meio esquecido agora, mas foi um célebre autor infantil quando eu era menino, principalmente em textos veiculados na revista Sesinho, editada pelo SESI. Ele usava o pseudônimo “Vovô Felício” para assinar seus contos curtos, muito divertidos, e suas obras paradidáticas. Seu personagem mais original era João Bolinha, um boneco cujo corpo e membros eram feitos de bolas articuladas umas às outras.



Lembro com clareza de dois livros infanto-juvenis seus que li e reli quando garoto: Lenda da Palmeira (1944), sobre a fundação de Belo Horizonte, e a biografia de Rui Barbosa, Rui (1949).



Vicente era o irmão mais novo de “Chiquitinha”, D. Francisca Guimarães Rosa, mãe do escritor. Um tio meio “primo”, porque era apenas dois anos mais velho do que o sobrinho, e os dois compartilharam leituras, brincadeiras e aventuras. Uma amizade que durou até a morte de Rosa em 1967.

Joãozito é menos uma biografia do que uma rememoração nostálgica, com a previsível exuberância de afetos e louvores. Um livro simpático, que vale menos pela análise do que pela profusão de pequenos detalhes e episódios esclarecedores de aspectos do escritor e da obra.

Torna-se meio datado e cansativo pelo fato de Vicente tentar emular a linguagem do sobrinho, num jogo meio brincalhão, meio hagiográfico: “E como é gostoso, agradável, escrever assim, laborando as frases, enfeitando-as com palavras vigorosas, lendo-as e relendo-as, riscando, corrigindo, transformando, realizando hipérbatos e sínquises para mais vivazear o texto ou ao lugar-comum fugir”.

Com a repetição de um número limitado de truques, o estilo acaba lembrando mais o Yoda de Star Wars do que Rosa: “Tudo que você fez em literatura, Joãozito, genial foi.



No livro de “Vovô Felício”, contudo, encontram-se fartas informações sobre a cidade de Cordisburgo, seu ambiente social, sua história política; sobre a família Guimarães; sobre os personagens pitorescos do lugar; sobre férias, fazendas, gado, boiadas, brinquedos, leituras.

Vicente esclarece pequenos detalhes da formação cultural do escritor:

Em março de 1917, chegou a Cordisburgo, como coadjutor, o Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano, holandês. (...) [Com ele, Joãozito] além de curiosidar o holandês, aperfeiçoou os estudos de francês. Foi Frei Canísio o seu professor e não o Frei Estêvão, como noticiaram em diversas biografias suas, publicadas em jornais e livros. Houve informação errada. (p. 29-30)

A boa memória de Vicente o faz evocar pequenas lembranças da meninice que depois Rosa iria reproduzir em seus livros.

Como esta cantiga, usada por ele em “A Hora e Vez de Augusto Matraga”:

Eu já vi um gato ler
e um grilo botar escola;
nas asas de uma ema
vi jogar jogo de bola.
Só me falta ver agora
cender vela sem pavio
sungar pra riba a água do rio,
dar louvores e macaco,
o Sol se tremer com frio
e a Lua tomar tabaco. (...)
(p. 78)

E este episódio de brabeza cômica, usado em “Corpo Fechado”. Um valentão está na bodega quando chega outro, olha-o de cima a baixo e diz ao caixeiro: “Você, rapaz, tem aí dessas facas que entram na barriga e murgueiam?” O outro engrossa o cangote e pergunta também ao rapaz: “Ei, moço! Você tem aí dessas balas mauser que batem na testa e chateiam?” (p. 80)

Aqui e acolá pequenas pistas vocabulares, como a existência de um tal Alferes Felão, sujeito de maus bofes lá de Cordisburgo, que acabou virando nome comum na prosa rosiana, no Grande Sertão: “Aquele Hermógenes era matador – o de judiar de criaturas filhas-de-deus – felão de mau”.

Um detalhe que sempre me chama a atenção é o do gosto de Rosa pela literatura policial. Aqui e acolá em suas conversas ele cita o Mistério Magazine de Ellery Queen, uma leitura recorrente, que muito o elevou em meu conceito.

Diz Vicente que um dia, os dois já morando no Rio de Janeiro, Joãozito, que estudava para o exame no Itamaraty, ligou para o tio-amigo. Estava com a cabeça agoniada, estudando há mais de vinte horas seguidas, precisava conversar para não ficar doido. Vicente correu ao Hotel Fluminense, onde Joãozito se hospedava.

Eu morava no Andaraí. O bonde que passava por minha casa ia justo atravessar a Praça da República. Não me demorei.
Ao chegar no quarto do hotel, bati na porta. Escutei: “Entre”.
Encontrei meu sobrinho nu, deitado, coberto por um lençol, comendo ostras e na mão tendo um livro policial.
Admirei-me: “Então você me chama porque está cansado de estudar e eu o encontro lendo romance policial!”.
Explicou: “Só assim consegui desviar meu pensamento. O romance policial me distraiu. Recurso lembrado só depois de meu telefonema a você”.

Esse concurso para o Itamaraty, em que Rosa foi aprovado em segundo lugar, deu-se em 1934. Nada me impede de especular que ele poderia estar lendo algum volume da Coleção Amarela (Editora Globo, Porto Alegre), como Na Pista do Alfinete Novo de Edgar Wallace (um dos preferidos de Ariano Suassuna), que saiu em 1933.

Joãozito é assim, cheio de pistas para os futuros biógrafos, inclusive esta:

Estudioso, culto, competente, possuía memória invejável. No dia de sua posse na Academia Brasileira de Letras, almoçou, com sua mãe, em meu apartamento. Procurando obter minha opinião quanto à tonalidade de voz que devia manter ao microfone, reproduziu de cor, quase perfeita, a parte inicial de seu discurso, que gravamos, para que ele ouvisse e julgasse. Temos a fita. Lembrança preciosa. (p. 98)

“Temos a fita”!

Rosa era supersticiosíssimo, e sabe-se o quanto se cercava de rituais protetores. Temia a idade de 58 anos, porque (segundo Vicente) “de seus sete tios amigos, quatro morreram quando viviam os cinquenta e oito anos.”  Rosa morreu com cinquenta e nove.

Na parte final do livro vêm transcritas as cartas de João, muitas delas fornecendo opinião, crítica e conselho sobre os textos do tio. E ele nunca abre mão de seus princípios estéticos:

Nisso, aliás, como em tudo o mais, o que se passa aqui é mero reflexo do que vai pelos países cultos. A palavra de ordem é: construção, aprofundamento, elaboração cuidada e dolorosa da “matéria-prima” que a inspiração fornece, artesanato. (carta de 1947, p. 132)

É de se lamentar um pouco a diplomacia de Vicente Guimarães, omitindo, em sua transcrição das cartas, os nomes dos escritores contemporâneos que Rosa critica, confidencialmente:

Outros, são universalmente considerados como cretinos. Um exemplo: o nosso conterrâneo [.....], se bem que entendido um pouco de gramática e tendo jeito para folclorista, faz de palhaço, quando se mete a proferir sentenças sobre arte. (...) Exemplo: o meu amigo [.....], se bem que tendo, realmente, o “Fogo sagrado” e muita seiva rica, tomou um bonde errado; construiu sua obra baseando-a no tosco e no instintivo, e agora...  (p. 138-139)

Em outra carta transcrita no livro, para sua prima Lenice, do Curvelo, ele declara em 1966:

Posso dizer sinceramente que, de tudo o que escrevi, gosto mais é da estória do Miguilim (o título é “Campo Geral”), do livro Corpo de Baile. Por que? Porque ele é mais forte que o autor, sempre me emociona; eu choro, cada vez que a releio, mesmo para rever as provas tipográficas. Mas, o porquê, mesmo, a gente não sabe, são mistérios do mundo afetivo. (p. 173)

Joãozito é um livro precioso; puxando com pente-fino as adiposidades, os pastiches de estilo, as repetições, as compreensíveis hipérboles afetivas de quem rememora uma pessoa querida e importante, resta muita, muita coisa sobre o ambiente que formou a cabeça-miguilim do autor de “Campo Geral”.

Para quem quer ter uma idéia do ambiente histórico, social e familiar do autor, é leitura indispensável.











sexta-feira, 5 de outubro de 2018

4391) Eu me lembro XII (5.10.2018)



1
Eu me lembro das “Espirais Sentinela”, aquelas verdinhas, de espantar muriçocas. Elas vinham em envelopes de papel com as instruções do lado de fora, e vinham em forma de duas espirais encaixadas dentro uma da outra. Eram quebradiças como biscoitos; um grande teste de coordenação motora e sintonia fina digital era tirar uma espiral de dentro da outra sem quebrá-las, apertando-as em direções opostas. Depois eram encaixadas num suportezinho de metal cuja ponta entrava no “olho” da serpente, pois o formato da espiral era o de uma serpente cuja ponta do rabo era lá-fora e no centro terminava na “cabeça”, com um pequeno orifício onde entrava a pontinha metálica do suporte. A sentinela queimava lentamente ao longo da noite, soltando um cheiro acre com o qual a gente se acostumava sem muito esforço, como ocorre com cheiro de um móvel velho ou de uma parede úmida; e de manhã a gente acordava e corria para ver os pedacinhos de cinza cor de flicts caídos no chão, reproduzindo toscamente a espiral sólida original.

2
Eu me lembro de uma mendiga que pedia esmolas quando eu tinha dez ou doze anos. Ela ficava parada, ali perto da catedral, ou na calçada da Maciel Pinheiro, olhando para a frente, apenas com a mão estendida, sem se mexer, sem falar nada. Tinha uma deformação que não sei se era doença ou um acidente, que tinha destruído a parte inferior do rosto dela, uma espécie (não sei direito, eu afastava a vista) de cicatrizes de onde brotavam dentes em diferentes direções. Ela usava sempre um chapéu de palha, era uma criatura inofensiva, sofrida, silenciosa, mas vê-la era uma coisa que fazia uma punção na minha manhã de sol.

3
Eu me lembro que quando eu tinha vinte e poucos anos estava numa festa lá no Centenário, o antigo bairro de Casa de Pedra, a cerveja rolou solta, eu enchi a cara, e depois da meia-noite empreendi o retorno a pé de volta para o Alto Branco, o lar paterno, “o meu primeiro e virginal abrigo”, diria o poeta. Lembro que vim por ali, uma noite escura e silenciosa, e ao chegar na esquina da Rua da Independência com a Nilo Peçanha subi por esta, cruzei a Praça Félix Araújo trocando as pernas, a cabeça zunindo de álcool, mas mantendo a moral. O importante é manter a moral. Quando cheguei na Rua João Pessoa a subida da ladeira cobrou seus dividendos e eu sentei no batente de uma loja, na rua escura e silenciosa. Séculos depois alguém bateu no meu ombro e eu abri os olhos para ver um carro da polícia todo piscando, um cara parado junto dele, e outro debruçado sobre mim, dizendo, “Ei véi, tás bom? Tás vivo?”. Eu fiquei de pé, me apoiando na parede, e disse: “Sim, sim, tou, parei só pra descansar.” Ele me olhou a cara, os olhos: “Tu mora aonde?”  Apontei a direção: “No Alto Branco.”  Ele disse: “É bom tu ir pra casa, não fica aqui não.”  Eu dei alguns passos na direção do carro e ele me deu um empurrão, meio de farra: “Oxente, tá pensando que a gente vai lhe levar, é? Vai a pé, rapaz, vai curtir tua cana”. Eu fiz um sinal de tudo-x e cheguei em casa a pé.

4
Eu me lembro de um amigo meu que morava perto da subida para o Alto Branco e que dava umas festas à fantasia. Os pais viajavam algumas vezes por ano, em passeios de casal; e ele e os irmãos ficavam por donos da casa. Todos na faixa dos vinte e cinco anos, o que nunca é bom sinal. Uma vez a avó materna estava passando um tempo lá e o jeito foi levá-la para o quarto de empregada, deixar tudo confortável e trancá-la ali, para que o barulho da festa não a incomodasse, e de fato ela só foi extraída do claustrofóbico aposento dois dias depois, quando os pais voltaram da viagem e perguntaram pela pobre.

5
Eu me lembro de uma madrugada em que saí num fusca com dois amigos, e algum de nós três estava levando no carro uma imensa cabaça decorada de enfeites de decapê, uma volumosa e leve peça de artesanato que estava sendo conduzida para uma exposição, ou sendo devolvida dela, mas nesta noite cismamos de fazer serenatas para as respectivas namoradas, e de repente estávamos debaixo de uma chuvinha irritante, num bairro remoto, todos três caindo de bêbados, eu tocando violão e cantando abrigado embaixo de um telheiro na parede de uma bodega, e eles dois no meio da rua, abraçados ao enorme cabaço, um de cada lado, dançando valsa sob a chuva enquanto eu cantava: “E não há nada pra comparar / para poder lhe explicar / como é grande / o meu amor / por você...”  É uma canção aconselhável para momentos assim: permite elevar a voz e trazê-la pra bem baixinho, conforme necessário; tem acordes simples, só erra quem quiser; e a letra sempre rende dividendos psicológicos. Voltamos ensopados de chuva dos pés à cabeça.

6

Eu me lembro que quando eu era menino meu pai torcia pela candidatura de Newton Rique a prefeito, e minha mãe pela de Severino Cabral. A gente morava na rua Miguel Couto, e oceanos de gente passavam diante das nossas janelas, rumo ao Açude Velho, rumo aos terrenos vazios em volta, onde se armavam comícios que ninguém esquece. Lembro que os partidários de Newton chamavam a turma de Cabral de “pé-de-chumbo”, e os outros retrucavam chamando-os de “mão de seda”. Uma imagética que ainda não se invalidou. E quando a gente ia para os comícios de Newton, no momento culminante da noite, quando ele chegava finalmente ao microfone para falar, ele começava assim: “Campinenses amigos...”  E esse bordão produzia uma explosão de gol, era uns cinco minutos de orquestra em brasa e com Vassourinhas falando no centro.