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terça-feira, 21 de junho de 2022

4835) A arte do acróstico (21.6.2022)



 
Bons redatores assinam um livro iludindo olhares; teoricamente, a verdadeira arte revela-se entre segredos.
 
O parágrafo acima é um acróstico. Se você não sabe o que é um acróstico, mexa-se, bote para funcionar as pequeninas células cinzentas.
 
O acróstico é um dos muitos jogos de palavras (“wordgames”, “jeux de mots”) que são praticados há séculos, talvez há milênios, em muitas culturas, e sempre despertam nas pessoas de senso prático uma surpresa contrafeita: “Mas que besteira, que perda de tempo, para que serve isso?”
 
O acróstico, como recurso da escrita poética, por exemplo, não é muito diferente da rima. A rima consiste em repetir, a intervalos regulares, os mesmos sons, palavras que contenham sons iguais ou parecidos.
 
A rima tem o pretexto de produzir um efeito estético, quase melódico. Enquanto nossa mente intelectual decifra o “conteúdo” das palavras, nossa mente sensorial vai registrando essas repetições, uma série de pequenas expectativas sonoras que logo são satisfeitas.
 
Já o acróstico... é quase invisível. Ninguém lê um poema prestando atenção à letra inicial de cada linha, a menos que tenha uma razão prévia para isso.


Eis aqui um exemplo básico, do poeta Leandro Gomes de Barros, assinando seu nome no folheto História do Cachorro dos Mortos:
 
Leitor não levantei falso
Escrevi o que se deu,
Aquele grande sucesso
Na Bahia aconteceu,
Da forma que o velho cão,
Rolou morto sobre o chão
Onde o seu senhor morreu.

No tempo dos reis, os poetas costumavam usar o nome dos soberanos, numa coluna vertical de letras, para compor seus poemas. Poemas religiosos e devocionais eram feitos no mesmo sistema.


C. C. Bombaugh, em seu fascinante “almanaque” de curiosidades (Oddities and Curiosities of Words and Literature, Dover, 1961, ed. Martin Gardner) dá exemplos de três modalidades: o acróstico (onde palavras são formadas com as letras iniciais dos versos, lidas verticalmente), o mesóstico (o mesmo, só que com a letra mais ou menos no meio do verso) e teléstico (com a letra final de cada linha).
 
Ele chega a dar um exemplo latino, onde as três formas são usadas ao mesmo tempo:
 
Inter cuncta mitans   Igniti sidera coelI
Expellit tenebras  E todo Phoebus ut orbE
Sic caecas removet JeSus caliginis umbraS
Vivificansque simul Vero praecordia motV
Solem justitiae Sese probat esse beatiS
 
A palavra “Jesus” é formada três vezes na vertical, usando a tradição latina em que J e I se equivalem, e o mesmo para U e V.
 
Na literatura do cordel, o acróstico começou como uma forma do poeta assinar o folheto disfarçadamente, para se prevenir de plágios e apropriações. Depois que o recurso se revelou aos olhos de todos, os plagiários ficaram alerta, e ele deixou de servir de proteção. Tornou-se uma tradição, um floreio estilístico, como neste exemplo de Antonio Américo:



Assinar disfarçadamente um texto era um desafio e um passatempo para muita gente. Edgar Allan Poe, depois de ficar viúvo, teve um namoro breve com uma dama, Frances Sargent Osgood, e dedicou-lhe um poema, “A Valentine”, com assinatura disfarçada. As letras do nome dela apareciam de uma em uma: a primeira letra da primeira linha, a segunda letra da segunda linha, a terceira da terceira, e assim por diante.
 
Eis as quatro primeiras linhas do poema (que tem 20 linhas, usando as vinte letras do nome):
 
For her this rhyme is penned with luminous eyes,
BRightly expressive as the twins of Laeda,
ShAll find her own sweet name, that nestling lies
UpoN this page, enwrapped from every reader.
(…)
 
...e por aí vai. O poema completo pode ser lido aqui:
 
https://en.wikisource.org/wiki/The_Works_of_the_Late_Edgar_Allan_Poe/Volume_2/A_Valentine
 
Pode-se usar também o acróstico num texto em prosa, onde ele acaba se diluindo e praticamente desaparecendo.
 
Há um episódio literário em que um acróstico serviu de armadilha para enganar um autor. O escritor A. N. Wilson começou a escrever uma biografia de Sir John Betjeman, “Poeta Laureado” da Inglaterra. Esse trabalho provocou uma reação de ciúme de outro biógrafo do poeta, Bevis Hillier. Wilson publicou uma carta atribuída ao Poeta, e depois ficou provado ser ela uma falsificação: as letras iniciais das frases, a partir da segunda, formavam a frase em acróstico “A. N. Wilson is a shit” (“A. N. Wilson é um merda”). Depois, Hillier confessou ser o autor da “pegadinha”.
 
A imagem abaixo, que peguei na Internet, mostra uma experiência curiosa, aparentemente assinada por “Sairam Gudiseva, 3º. Período”. Ao invés de letras, usa palavras inteiras. É um trabalho escolar sobre Física Quântica, mas na vertical o autor ou autora colocou versos de uma canção pop de Rick Astley. 


As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
 
 
 
 





sexta-feira, 22 de julho de 2016

4137) Sherlock e as cifras (22.7.2016)



Na sequência inicial do romance O Vale do Medo (que li como O Vale do Terror, numa tradução atribuída a Álvaro Pinto de Aguiar), Sherlock Holmes exibe a Watson uma mensagem criptografada que recebeu de um trânsfuga da quadrilha do Professor Moriarty. O sujeito chama-se Porlock e está tentando repassar uma mensagem a Holmes antes que o Professor desconfie da traição.

Holmes executa aqueles saltos acrobáticos de raciocínio que arrebatam tanto Watson quanto o leitor, mas que dependem sempre de uma suposição ousada do detetive que, ao ser confirmada, vejam só, era exatamente o que ele precisava para que desse tudo certo. Conan Doyle era engenhoso, mas não tão engenhoso quanto seus sucessores no gênero. Era escritor também de romances de aventuras, e Holmes era teatral e prestidigitador também, porque não dava para ser cerebralmente dedutivo todas as vezes.

Holmes mostra a Watson os números rabiscados numa tira de papel que ele extrai de um envelope. Referem-se a páginas e a palavras, diz ele; e rapidamente chegam a um Almanaque onde basta seguir uma numeração indicando página, palavra, coluna, etc. Copiando palavra por palavra, eles reconstituem o recado. ( O seriado de TV Sherlock, com Benedict Cumberbatch no papel título, usou esse código no episódio The Blind Banker, 2010.)

A certa altura da mensagem aparecem ao invés de números palavras, dois nomes próprios, um deles repetido. “Eram palavras que não seria possível encontrar no almanaque utilizado, e ele precisou escrevê-las” diz Holmes. Talvez esse pequeno deslize criptográfico tenha ajudado a desencadear a violenta história que envolvia o passado nebuloso de um tal Sr. Douglas, o senhor da mansão Birlstone.

Salta para 2016. Cory Doctorow (do saite BoingBoing) comentou, numa entrevista, o fato recente de que quando Edward Snowden foi entrevistado num local secreto pela jornalista Laura Poitras, foi registrada uma imagem de um livro de Doctorow, Homeland, entre o pertences pessoais de Snowden. O escritor disse que o livro foi entregue a Snowden pela própria jornalista. O objetivo dos dois era usar um livro para se comunicar com códigos numéricos desse tipo (livro tal, página tal, linha tal, palavra tal), onde é preciso saber que chave (que livro) está sendo utilizada. E como a conversa iria envolver termos técnicos com certa frequência, precisavam de um livro onde essas palavras pudessem ser encontradas facilmente.

Como organizar um código assim, e ser mais esperto do que Sherlock Holmes em pessoa? Duas cópias idênticas de um mesmo livro garantiriam exatidão absoluta. Dá pra tecer muitas variações dramatúrgicas. É possível ter dois livros que pareçam idênticos mas não o sejam; ou o contrário.  É possível também que sejam muito diferentes um do outro (duas antologias de poemas, p. ex.) mas coincidam num número mediano de páginas que são gêmeas, e é lá que se faz o código. Alguns romances recentes usaram variações disto. O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte, tem uma subtrama de código envolvendo ilustrações de livros raros.

O código mais bem sucedido de Conan Doyle, no entanto, tinha sido alcançado em 1903 com “The dancing men”, o conto com as famosas fileiras de bonequinhos em diferentes posições, rabiscados a giz, formando um código cujo arrazoado de decifração vai na mesma linha de O Escaravelho de Ouro (1843) de Edgar Allan Poe, o mestre que ele reverenciava.  O criptograma de Poe consistia em letras, números e sinais gráficos comuns. O conto de Doyle ganhou uma marca visual muito forte com o uso dos bonequinhos.  E é um dos melhores de todo o cânone.

Não sei até que ponto era familiar a Conan Doyle o conto do seu rival francês Maurice Leblanc, o criador de Arsène Lupin, porque em 1911 Lupin decifrava “O enigma dos raios solares” (Les jeux du soleil), contando quantas vezes, sucessivamente, um reflexo do sol era projetado de uma janela. Depois de anotada a lista de números, havia um pequeno anticlímax quando Arsène Lupin indicava ao narrador que considerasse 1=A, 2=B, 3=C e assim por diante.

As “histórias de códigos e de cifras” são um nicho específico da literatura detetivesca, mas são também uma espécie de gênero transversal, que pode estar presente em diferentes gêneros: espionagem, guerra, policial, aventura, terror. É qualquer história onde haja um código a ser decifrado por algum personagem, às vezes em conjunto com o leitor.

Voltando à The Valley of Fear, um romance de 1915, a lista de números anotada pelo delator Porlock para Holmes até que podia chamar a atenção e a desconfiança de alguém. Códigos mais sutis são disfarçados em ações anódinas. Um especialista nisto é Rand, um agente do serviço secreto que nos contos de Edward D. Hoch consegue ser mais esperto do que os espiões mais escorregadios. A mensagem subjacente a todos os contos envolvendo Rand é que qualquer série ordenada (e fielmente memorizada por pelo menos duas pessoas) pode servir de encriptação para as letras e os números que usamos para comunicar informações.

Robert Heinlein tem um conto onde aparecem dois presos numa cela. Estão sendo vigiados, em som e áudio, dia e noite, mas o preso mais antigo tinha consigo um baralho. O alfabeto inglês tem 26 letras. Um baralho tem 52 cartas. Valendo-se dessa coincidência, os dois atribuem valores, fingem jogar paciência e trocam mensagens de texto um com o outro, mesmo submetidos a um cerrado Big Brother orwelliano 24 horas por dia.

O Rand de E. D. Hoch é um macaco velho do Serviço Secreto, aquele cara que já viu tudo, mas cada história lhe revela uma novidade. Há um conto em que uma moça do escritório, agente dupla, está vazando informações preciosas para o inimigo. Rand manda examinar tudo dela, em casa, no trabalho, nada encontra. Segue-a pela cidade, por todos os bares que a moça frequenta. Ela conversa, bebe, fuma, ri, diverte-se inocentemente e Rand, a três mesas dali, vigia, vigia, e nada percebe. Até que pensa um dia: “Ela fuma o tempo todo.”  A moça soprava fumaça para a esquerda, para o alto, em jatos longos, em pequenas explosões de fumaça... “O outro cara a seguia de longe, mas podia vê-la sempre, e ela ficava mandando sinais de fumaça”, diz Rand, fechando a pasta do caso.

Há um código especial muito explorado por Ellery Queen: a vítima, depois de ser ferida ou alvejada, e depois do criminoso ter ido embora, ainda tem forças para um último gesto para denunciar quem a matou. Precisa ser algo que indique de maneira clara “Fulano”. Mas não pode ser algo como um nome escrito na areia, porque se Fulano voltar vai apagá-lo depressa. Tem que ser um gesto denunciando o criminoso, mas um gesto que o próprio criminoso não entendesse, nem a polícia. Quem acaba entendendo é Ellery Queen, numa série de deduções miraculosas.

Seria interessante uma história de espionagem onde uma mesma mensagem admitisse duas decifrações diferentes, mas possíveis de justificar, como certas provas de teoremas matemáticos. A série de números, lida com a chave X, diria: “dez encouraçados, cinco torpedeiros, um portaviões, latitude tal, longidude tal”, e decifrada de acordo com outro código os mesmos números estariam dizendo: “há dois agentes russos no Parlamento, três no Almirantado, quatro na Câmara dos Comuns”.






terça-feira, 29 de setembro de 2015

3931) O enigma nas letras (29.9.2015)




Em Arsène Lupin, Ladrão de Casaca, a primeira coletânea de contos do gentleman-assaltante-detetive criado por Maurice Leblanc, grande sucesso do romance policial entre 1905-1935, há um conto em que o mistério repousa numa fórmula antiga, preservada através das gerações.

Convidados importantes estão no castelo de Georges Devanne, admirando “as incomparáveis riquezas acumuladas através dos séculos pelos senhores de Thibermesnil.” Numa das torres, Devanne mostra a todos o frontão da estante, onde o nome do castelo está soletrado com sólidas letras de ouro.

Vou omitir a aventura, subsequente, porque me interessa a frase da fórmula antiga. Ela diz, no original francês: “La hache tournoie dans l’air qui frémit, mais l’aile s’ouvre, et l’on va jusqu’à Dieu.”  Mais ou menos: “O machado gira no ar que treme, mas a asa se abre e vai-se até Deus.”  Durante séculos essa indicação do tesouro da família passou de geração em geração, transmitida com fervor por pessoas que já as receberam de quem não as compreendia. Eram as coordenadas do tesouro. Esperava-se que um dia algum descendente da família descobrisse o seu sentido.

Arsène Lupin percebe que os objetos citados na frase estão ali mascarando três letras, porque em francês é muito parecida a pronúncia de “hache” e H, “air” e R, “aile” e L.  Ele descobre que entre as sólidas letras de ouro por cima do frontão da estante monumental, dizendo THIBERMESNIL, existem três que são móveis: o H gira e o R treme e o L se abre. “E vai-se até Deus.”  Executando esses movimentos nas respectivas letras, abre-se a porta ancestral da passagem secreta, e vai-se até a capela do castelo por um subterrâneo. (Que Lupin utiliza para saquear as riquezas do castelo, no primeiro movimento dessa trama.)

O mistério vinha pelo menos desde o reinado de Henri IV (morto em 1610). A pessoa que cifrou a senha de abertura do mecanismo usou premeditadamente letras cujos nomes, ditos em voz alta, evocavam substantivos variados: machado, ar, asa. Era fácil construir uma estrutura memorizável em torno desses três substantivos, sem dar a entender que eles estavam ali apenas para representar três letras.

É um enigma engenhoso, porque se vale da superposição entre linguagem oral e linguagem escrita, usando uma para preservar pistas em outra. Neste conto, Lupin mede forças com Sherlock Holmes (no livro chamado Herlock Sholmes, por querelas autorais). O conto de Leblanc (1906) lembra “O Ritual Musgrave” (1893) de Conan Doyle, também sobre uma fórmula preservada mas não compreendida. Mas Leblanc vai um passo além de Doyle, como bom discípulo, e introduz uma criptografia de natureza mais original.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

2434) O código de Kryptos (23.12.2010)



Já comentei aqui na coluna (“O mistério de Kryptos”, 24.6.2005 - http://tinyurl.com/2924br6) o criptograma esculpido nos jardins do quartel-general da CIA, na Virginia. A Agência encomendou uma obra de arte que “produzisse sentimentos de bem-estar e esperança”, e o vencedor da concorrência foi David Sanborn. A obra contém quatro painéis com textos em código, e desde sua criação, há dez anos, o criptograma virou uma mania entre alguns milhares de malucos no país. Três painéis já foram decifrados e o último, um bloco de 97 caracteres, continua mais impávido do que a Esfinge do Egito.

Um artigo no New York Times (http://tinyurl.com/2bdmx58) comenta este fato, e entrevista Sanborn, o qual começou a dar pequenas dicas para facilitar o esforço de decifração. Ele indicou, por exemplo, que as letras de 64 a 69, que são NYPVTT, significam respectivamente BERLIN. Nada mau para arregaçar as mangas e começar um trabalho! Os três outros textos já decifrados são, respectivamente: 1) um texto dizendo “Entre as sombras sutis e a ausência de luz jazem as nuances da iqlusão” (com este erro de digitação, proposital, para confundir os decifradores; 2) uma brincadeira com a localização geográfica do prédio, dando latitude e longitude; e finalmente 3) um longo trecho do egiptólogo Howard Carter em que ele narra o momento em que abriu a tumba de Tutankhamon.

Os criptogramas têm uma aparência aleatória, mas sabemos com certeza que por trás deles há algo que faz sentido. O primeiro aspecto ecoa nossa perplexidade diante da aleatoriedade do mundo real (desde que estejamos dispostos a vê-lo como ele é). Tudo que existe na Natureza está aqui sem intenção da parte de alguém. O segundo aspecto nos garante a recompensa final de que “isto faz sentido”, e, se não a descoberta desse sentido, pelo menos a convicção de que ele existe.

Nada nos assusta tanto quanto o Acaso em seu estado bruto. Nada nos reconforta tanto quanto a certeza de haver uma resposta. Se alguém me mostra uma sucessão aleatória de letras (JDUEYEEOFUNNDKPAOIGFR) é como se me mostrasse uma foto de Júpiter ou do fundo do mar, ou seja, um lugar que está vedado para mim por toda a eternidade. Mas basta alguém me cochichar: “É uma mensagem cifrada...” e esse pequeno caos se transforma magicamente em algo a um passo de distância. Eu posso. Está ao meu alcance. É só ter as ideias certas e fazer o esforço necessário.

Os cientistas agnósticos se maravilham quando descobrem as regularidades espantosas da Natureza. Na Filosofia da Ciência existe um enorme departamento destinado a mostrar de que maneira a Ordem pode brotar do Caos. Organismos altamente sofisticados podem se desenvolver sem a intervenção de uma Inteligência Superior, apenas com um processo de feedback que incrementa as variações bem sucedidas. É como se jogássemos um bilhão de letras para o alto e ao cair elas formassem sonetos de Camões, romances de Alexandre Dumas, a resposta do Código de Kryptos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

1604) A arte do acróstico (3.5.2008)



(múltiplo acróstico num soneto de Gomes Freire de Andrada)

Um acróstico é um texto, geralmente em verso, em que certas letras em posições especiais devem ser lidas em seqüência, formando uma ou mais palavras. O acróstico é uma variante da técnica a que chamamos “acrônimo”, que utiliza este mesmo processo para a formação de siglas. No caso do acróstico, o uso mais freqüente se dá com as letras iniciais dos versos de um poema. Lidas verticalmente (muitas vezes elas vêm destacadas em itálico ou negrito, para forçar essa leitura), formam um texto qualquer.

Muitas vezes se usa como homenagem explícita ou disfarçada. Edgar Allan Poe, que gostava de criptografias, tem um poema (“Valentine”) dedicado a Fanny Osgood, uma dama a quem fez a corte durante algum tempo. Como seu nome completo era Frances Sargent Osgood, ele compôs um poema de vinte linhas, em que o nome da namorada podia ser lido verticalmente juntando-se a primeira letra da primeira linha, a segunda da segunda linha, a terceira da terceira e assim por diante. Não sei se ele fazia isso para se divertir ou porque a sua musa era casada (apesar de já separada do marido nessa época).

Os acrósticos comuns têm a vantagem de usarem apenas a primeira letra de cada linha, e assim ficam mais fáceis de ser lidos verticalmente. São assim os acrósticos usados na literatura de cordel como assinatura disfarçada. Na última estrofe, o autor insere um acróstico de seu próprio nome como carimbo de autoria. Assim é que O Castelo do Diabo de João José Silva termina com a estrofe: “Juntaram-se em matrimônio / O Gino foi vencedor / Sua existência floriu / Indo ser governador / Levando seu anjo amado / Vendo sorrindo a seu lado / A rosa do seu amor”, o que dá JOSILVA. O Romance do Escravo Grego de João Martins de Athayde finda com a estrofe: “Assim Eli a orgulhosa / Teve de ser abatida / A rainha de Navarra / Insensível, presumida / Deu seu amor a um escravo / E veja o que é a vida”, ou seja, ATAIDE.

O compositor John Cage, outro que gosta de jogos verbais, criou a partir do acróstico o conceito de “mesóstico”: um nome ou uma frase são escritos verticalmente, e o poema se desenrola de modo a incluir aquelas letras. Cada letra do nome-chave determina uma linha do poema, mas em vez de aparecer no começo aparece em qualquer trecho, desde que a palavra possa ser lida verticalmente.

Pode parecer bobagem, mas os exemplos de Poe, dos cordelistas e de Cage mostram que é possível encriptar um texto sem muita dificuldade, e de maneira imperceptível a uma leitura casual, ou mesmo a uma procura atenta. Os acrósticos do cordel deixaram de ser úteis quando todo mundo tomou conhecimento deles – quando alguém pretendia republicar o texto como seu, bastava-lhe alterar ou suprimir o acróstico final. Mas se o acróstico vier sob outra forma de camuflagem (como as sugeridas por Poe ou Cage) dificilmente um plagiador ou pirata saberá onde mexer para eliminar a assinatura que o verdadeiro autor deixou ali encriptada.

sábado, 17 de janeiro de 2009

0760) O teste de Turing do sexo (25.8.2005)



(Alan Turing)

Alan Turing foi um matemático britânico que teve um papel crucial na II Guerra, decifrando códigos alemães. Em qualquer guerra, uma das principais atividades é a de interceptar mensagens inimigas, decodificá-las e usar as informações assim obtidas (posição de tropas, local e data de prováveis ataques, etc.). O grupo de que Turing fazia parte, instalado num local chamado Bletchley Park, fez milagres. Uma parte dessa história está contada num ótimo filme (e livro) inglês chamado “Enigma”. 

Entre muitas contribuições fundamentais à teoria da informática, Turing foi o autor de um experimento teórico para decidir se computadores podem ou não pensar igual a um ser humano (v. “O teste de Turing da arte”, 4.6.2004). Ele propôs que um computador e um homem fossem colocados em salas separadas, e pessoas “de fora” fariam perguntas a ambos, por escrito (num teclado), sendo que o homem se faria passar por um computador. Se as pessoas de fora não soubessem distinguir, lendo as respostas, quem era quem, isto seria uma prova de que um computador pode pensar igual a um ser humano. (O teste é muito mais complexo do que este resumo; quem quiser saber mais, vá aqui: http://cogsci.ucsd.edu/~asaygin/tt/ttest.html). 

Turing teve a idéia baseado num jogo de salão inglês, “The Imitation Game”, em que um homem e uma mulher iam para um quarto, e as pessoas faziam perguntas por escrito para saber se quem estava respondendo era o homem ou a mulher – sendo que ambos deveriam fingir ser a mulher. 

Recentemente, alunos de uma universidade em Massachusetts puseram em prática uma variante do Teste de Turing. Freqüentadores de um saite foram convidados a fazer perguntas a um homem e uma mulher, ambos fingindo ser a mulher. E depois, noutra rodada, quem respondia eram uma mulher e o computador chamado ALICE, uma máquina projetada para conversar e responder perguntas. 

Cada perguntador tinha cinco minutos e podia perguntar o que quisesse: Você usa batom? Você usa saia? De que tamanho é seu cabelo? E assim por diante. Depois de três horas, entre 42 pessoas 23 jamais suspeitaram que ALICE não fosse uma mulher e sim uma máquina. (Eles não sabiam que havia um computador na jogada.) 

Ao que parece, a única pergunta que deixou os homens e ALICE numa “saia justa” (valha o termo!) foi: “Qual o número de meia-calça que você usa?” Todos responderam S (small), M (medium) ou L (large) – nenhum deles sabia que no caso os tamanhos são A, B, C e Q. As respostas erradas a esta pergunta botaram tudo abaixo. 

O teste, inspirado no fingimento de papéis sexuais, tem una ironia amarga pelo fato de Alan Turing ter sido homossexual, o que na Inglaterra da época era considerado uma aberração. Foi parar na cadeia em 1952, depois foi obrigado a fazer um tratamento hormonal “para virar homem”, e suicidou-se em 1954. Foi um dos homens mais inteligentes do século, morreu aos 42 anos e até hoje não há um teste que meça a estupidez de quem o matou.







quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0707) O mistério de Kryptos (24.6.2005)


(Kryptos)

Os especialistas o colocam entre os dez códigos não-decifrados mais misteriosos de nosso tempo, comparável ao “Manuscrito Voynich” (v. artigo em 14.8.2004). Ao contrário deste, contudo, Kryptos tem autor conhecido e vivo: é o escultor americano Jim Sanborn, de Washington, que contou com a ajuda do criptologista Ed Scheidt, na época chefe do Departamento de Criptografia da CIA. “Kryptos” é um conjunto de objetos espalhados pela sede da CIA em Langley (Virginia), dos quais o mais importante é uma escultura em metal com mais de 2 metros de altura, como uma folha de papel dobrada em forma de S, coberta de letras. O conjunto todo contém milhares de caracteres em código com pelo menos quatro partes distintas, e foi instalado no QG da CIA em 1990, ao preço de 250 mil dólares.

A idéia de Sanborn parece ter sido a de plantar, no meio dos maiores especialistas em códigos dos EUA, uma mensagem misteriosa para provocar sua curiosidade e pôr à prova seu talento. O próprio Sanborn confessa ter achado que eles levariam alguns meses para solver o quebra-cabeça; quinze anos se passaram, e apenas três partes foram decifradas (por David Stein, da CIA, em 1998, e depois por Jim Gillogly, em 1999), restando um bloco de 98 caracteres que ninguém sabe o que significam. Eis o trecho não-decifrado de Kryptos: “?OBKR UOXOGHULB SOLIFBBWFLRVQQ PRNGKSSO TWTQSJQSSEKZZ WATJKLUDIA WINFBNYP VTTMZFPKW GDKZXTJCDIG KUHUAUEKCAR”. Eu tenho cá uma vaga noção do que quer dizer, mas não quero estragar o prazer dos colegas.

Criptografia é um negócio meio chato, pra quem não gosta. Pra quem gosta, é mais fascinante do que contar dinheiro. Que o diga Gary Philips, um cara de 27 anos que largou sua companhia de software em Michigan para se dedicar totalmente à decifração do enigma. Diz ele: “Kryptos me trouxe de volta à minha primeira paixão. Senti-me novamente livre para enfrentar um desafio sem ninguém para me dizer faça-assim ou faça-assado”. Pessoas como Sanborn ou Philips são indivíduos que (teoria minha) têm muito desenvolvida a “faculdade letranumérica” do lado esquerdo do cérebro, pessoas que são boas com letras e números, e extraem da manipulação destes signos um prazer quase erótico. Gente como Jorge Luis Borges, Edgar Poe, Raymond Queneau, Guimarães Rosa, Ellery Queen, Julio Verne, Georges Perec e o locutor que vos fala.

Kryptos ganhou enorme publicidade quando foi revelado que Dan Brown, autor do Código da Vinci (livro recheado de criptogramas) reproduziu trechos da escultura na capa da edição americana de seu livro. Quem quiser se aprofundar vá ao saite da criptologista Elonka Dunin, que tem uma fartura de informações e fotos: http://www.elonka.com/kryptos/. E não venham me perguntar para que serve isso. É como o xadrez, as palavras cruzadas, os palíndromos e anagramas, a poesia concreta, os trava-línguas. Serve para fazer cosca num pedaço do cérebro que umas pessoas têm e outras não.

quarta-feira, 19 de março de 2008

0289) A Bíblia e a criptografia (22.2.2004)




Ontem falei sobre Cabala e criptografia, e não tive tempo (ou melhor, espaço) para entrar no assunto do Código da Bíblia. Um livro com este título foi publicado em 1997 pelo jornalista americano Michael Drosnin, e ficou um tempão nas listas de best-sellers, inclusive aqui no Brasil. Drosnin afirma que matemáticos israelenses descobriram, graças a um sistema de permutações, que o texto em hebraico da Bíblia está cheio de alusões a acontecimentos modernos, desde o assassinato de Yitzhak Rabin até a eleição de Bill Clinton e a invenção do avião pelos irmãos Wright.

Como descobriram? Bem, o computador procura quantas letras é preciso saltar a intervalos regulares para achar um nome próprio (a Bíblia tem 304.805 letras). O nome de Rabin, por exemplo, aparece quando se salta de 4.772 em 4.772 letras. O texto completo, então foi disposto em 64 fileiras de 4.772 letras. Disposto desta forma, é possível encontrar na proximidades do nome palavras como “assassino que assassinará” e “Amir” (o nome do fanático que o matou).

Há várias refutações científicas deste processo. O leitor que quiser se aprofundar pode ir à página de Brendan McKay (onde ele mostra que, usando os mesmos artifícios, pode-se encontrar em Moby Dick previsões dos assassinatos de Indira Gandhi, Leon Trotsky e muitos outros), em: http://cs.anu.edu.au/~bdm/dilugim/torah.html. Outra página com dezenas de links para investigações semelhantes é a de Jochen Katz, “Mathematical Miracles in the Qu´ran and the Bible?”, em http://www.answering-islam.org.uk/Religions/Numerics/ .

Tudo isto me veio à mente dias atrás, quando fui parar no saite Cryptographever, que se oferece para encontrar mensagens cifradas em qualquer texto que a gente forneça. Vi uma dica no weblog MetaFilter (http://www.metafilter.com/) e fui lá. Havia um campo para preencher com um texto em inglês. Como pediam um texto longo, achei mais simples digitar algo que sabia de cor, e copiei lá a letra de “She´s leaving home”, uma das minhas músicas preferidas dos Beatles: “Wednesday morning at five o´clock, as the day begins...” Copiei, cliquei no botão, e daí a pouco veio a resposta. No meio das letras entrelaçadas, destacava-se verticalmente a frase: “John dreams”. “John sonha”! O impacto foi tão grande que descartei de cara, por irrelevante, o fato de que a música é de Paul. Fiquei alguns segundos suando frio, e acreditei estar catucando algum segredo do Universo.

Aí voltei lá no Metafilter. O sujeito que administra o blog, Matt Haughey, diz que quando submeteu a esse sistema todas as mensagens daquele dia no saite, encontrou “Buy now share” (“compre ações agora”); examinando as do dia anterior, encontrou, adivinhe o quê? “John dreams!” Foi um balde de água fria na minha epifania. Como diria o próprio John, “vamos ficar jogando nossos jogos mentais para sempre, projetando nossas imagens no espaço e no tempo”.

0288) O Código da Bíblia (21.2.2004)





(Tabela criptográfica de Giovanni Della Porta, séc. XVII)

Creio que o leitor já terá ouvido falar da Cabala. Para ouvir falar nela não é preciso freqüentar o Centro Internacional de Estudos Judaicos, ou folhear a obra de Jorge Luís Borges. Basta assistir os talk-shows da televisão brasileira, onde volta e meia aparece uma atriz de TV e madrinha-de-bateria-de-Escola-de-Samba dizendo que nas horas vagas, para “relaxar da agenda estressante”, está se dedicando ao estudo da Cabala. (Existem também aquelas modelos internacionais que dizem estar estudando Física Quântica, o que me desperta um imediato desejo de passar noites inteiras perscrutando os recessos mais íntimos de um tema tão palpitante).

Por que essas pessoas estudam a Cabala? Bem, porque diz-se que na Cabala estão registrados, em código, todos os mistérios do Universo, as respostas para nossas angústias e aflições nesta Passagem de Milênio, e, quem sabe, o segredo de comer chocolate sem aumentar de peso. Vai daí, as livrarias estão repletas de livros sobre o assunto, o que me lembra aquela famosa frase de um anti-semita involuntário: “A única coisa que me interessa na cultura judaica é a Cabala.”

A Cabala, curiosamente, é uma invenção ibérica. Surgiu naquela misteriosa região transgeográfica onde se misturam o norte da Espanha e o sul da França, um caldeirão de misticismo que deu origem às peregrinações do Caminho de São Tiago, aos movimentos heréticos da região da Provença, como os Cátaros. A Cabala é um sistema de combinações verbais e numéricas das palavras da Bíblia. Ela se aproveita do fato de que na língua hebraica as letras e os números são indicados pelos mesmos sinais, portanto A e 1 são a mesma coisa, B e 2, e assim por diante. Pressupõe-se que, através de mil permutações, chega-se a mensagens ocultas por trás do texto aparente da Bíblia.

Variações deste princípio básico surgem e desaparecem ao longo dos séculos. Do século 19 em diante, a escalada do jogo político e militar entre as grandes potências fêz ressurgir o interesse pela criptografia, a ciência de criar códigos e produzir mensagens secretas. Governos começaram a investir uma grana pesada nesta ciência. Por um lado, queriam proteger seus próprios segredos; pelo outro, queriam ficar sabendo dos segredos de seus adversários (e aliados) políticos. Todo um ramo da matemática floresceu nesse século, pela necessidade de estudar processos de codificação e decodificação de textos. No século 20, durante a II Guerra Mundial, a nascente ciência da Informática foi de grande utilidade para “quebrar” os códigos dos nazistas e obter vantagens estratégicas. O filme Enigma, de Michael Apted, documenta um aspecto interessante desta guerra invisível. Hoje, é possível usar computadores para fazer bilhões de combinações de letras e números em tempo recorde, o que dá aos cabalistas em potencial um enorme adianto em relação aos caras da Idade Média, com suas penas de ganso e seus tinteiros. Falei, falei, e ainda não cheguei no Código da Bíblia! Fica para amanhã.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0090) A Solução Herodes (5.7.2003)

Conta-se que na antiga China, um caso grave foi levado ao Imperador. Num acampamento onde havia seis soldados, um amanheceu morto, e o criminoso só podia ser um dos outros cinco. O que fazer? O monarca cofiou as pontas dos bigodes e disse: “Executem os cinco. Assim teremos certeza de que a justiça foi feita.” Um ministro advertiu: “Mas, Majestade! E os quatro inocentes?” E ele: “A morte deles pesará também sobre o assassino, por não ter confessado. Assim, torturem todos antes de matá-los, para termos certeza de que ele recebeu a punição merecida.”

Não é muito diferente da solução encontrada por Herodes, no Evangelho Segundo Mateus. Não podendo identificar quem seria o rei dos judeus recém-nascido, mandou matar todos os bebês com menos de dois anos. A “Solução Herodes” é um tipo de solução a que muitas vezes recorremos na vida prática, quando, incapazes de identificar a alternativa que soluciona um problema, experimentamos cegamente todas as possibilidades até esbarrar na resposta certa. Na decifração de códigos, por exemplo, isto é conhecido como o método da “força bruta”: usar todas as substituições. O aparente absurdo desta estratégia foi atenuado com a evolução de computadores que executam bilhões de cálculos num curto espaço de tempo.

O filme Enigma (2001) de Michael Apted mostra como os ingleses “quebravam” os códigos nazistas na II Guerra. Cabia a um grupo de gênios matemáticos ter intuições que reduziam o número de combinações a serem testadas, para que os computadores mecânicos da época (numa fascinante reconstituição técnica) usassem a força bruta apenas na área delimitada por eles. Força bruta, sozinha, não resolve, como qualquer jogador de xadrez sabe desde a infância. Seria impossível hoje matar todos os bebês de um país para evitar o nascimento do Messias. Arnold Schwarzenegger, no primeiro filme da série O Exterminador do Futuro, vem a nossa época com a incumbência de matar “Sarah Connor”, a mãe do futuro líder rebelde. Como uma máquina que se preza, a solução que ele encontra é sair matando todas as “Sarahs Connor” que encontra na lista telefônica. São apenas três, mas o roteiro vem em socorro da mulher certa antes que ele a execute.

Na ficção científica, a “Solução Herodes” surge em contos como “Os Nove Bilhões de Nomes de Deus” de Arthur C. Clarke, onde um computador combina todos os nomes possíveis de Deus, e deleta o Universo. Sua inspiração original é a velha frase (que já resultou em muitas histórias): “Se déssemos máquinas de escrever a seis macacos, depois de um milhão de anos teclando ao acaso eles escreveriam todos os livros do Museu Britânico.” Jorge Luís Borges (em “O imortal”) dizia que Homero compôs a Odisséia, mas, postulando um prazo infinito, seria impossível alguém não compor a Odisséia. O Universo em que vivemos pode ser uma tentativa de Deus de dizer alguma coisa que faça sentido, usando o método da força bruta.