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quarta-feira, 6 de março de 2019

4442) Como desperdiçar o Poder (6.3.2019)


(general Tom Thumb, 1838-1883)

O Poder é uma coisa engraçada. Quando a gente está por baixo, lascado, sem soluções, sem alternativas, a gente costuma se lamentar: “Ah, se eu ganhasse a Mega-Sena!...”

Não peça isso. Seria a pior coisa que poderia lhe acontecer. Não existe coisa mais perigosa do que o Poder nas mãos de quem não sabe usá-lo.

Uma vez, quando eu era redator de humor, escrevi um quadro com um personagem pobre chegando para um amigo rico e mostrando os volantes da Mega-Sena, em que tinha acabado de apostar. Quando ele se afasta, o amigo comenta: “Não sei pra quê pobre joga tanto na loteria. Se pobre tivesse sorte, nascia rico.”

É cruel, mas é psicologicamente verdadeiro. As pessoas pensam assim.

O Poder (dizem os Poderosos, os Capitanistas Hereditários) é pra quem está pronto para exercê-lo em sua plenitude.  Pra quem é preparado. Pra quem estudou. Pra quem tem “berço”. Pra quem foi criado num ambiente em que os meandros do Poder eram discutidos de modo até casual no café da manhã, no almoço, no jantar.

E de certa forma estão certos, porque o aprendizado do Poder é longo e espinhoso, é sempre feito às custas do pobre estudante. Não é pra quem quer, é pra quem pode.


Que o diga o mago Ged, da Trilogia de Terramar, de Ursula Le Guin, que teve de carregar pelo resto da vida uma cicatriz enorme no rosto, resultado de uma bazófia imprudente na adolescência. Ele quis mostrar que era o poderosão e desencadeou uma magia sinistra que quase o leva embora. (Pagou um preço alto. Não morreu; quem morreu foi o mago, seu professor, que conseguiu salvar-lhe a vida.)

O Poder nas mãos de um despreparado é sempre um desperdício. É exatamente por isso que os Poderosos: 1) tentam manter os despreparados longe do Poder; 2) tentam evitar que alguém se prepare e possa concorrer com eles próprios.

Uma pessoa despreparada não sabe o que fazer com uma bomba atômica, com um milhão de dólares, com uma Ferrari novinha em folha, com uma Miss Universo, com uma mansão de 99 quartos.

Todos sonham com isso, ou afirmam sonhar. No dia que conseguem, botam tudo a perder, porque não conseguem enxergar muito longe do próprio nariz.

É como aquela história do cara que se perde no bosque, descalço. A certa altura ele enterra o calcanhar num espinho e o espinho tora dentro. Ele sai mancando e chorando pelo mato afora. Dias depois, acha a Lâmpada de Aladim jogada por entre as moitas. Esfrega, o Gênio aparece e lhe diz: “Você tem direito a três pedidos.” E ele grita: “Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé!”.

O Poder é patético quando colocado em mãos aflitas, impacientes, despreparadas. É o bêbado ao volante, a criança com um 38 carregado, o craque sub-20 comandando uma mesa de 20 pessoas na boate. Pode até não resultar em desastre, mas quando resulta ninguém se admira.

Por falar em nariz, isso me lembra uma cena de um dos filmes da minha infância, o musical O Pequeno Polegar (“Tom Thumb”, George Pal, 1958, com Russ Tamblyn, Peter Sellers e Terry Thomas).


Um casal de lenhadores encontra na floresta a Rainha das Fadas, que lhes concede três desejos. Eles voltam para casa e começam a discutir. Vamos pedir isso, vamos pedir aquilo; vamos pedir uma casa nova, dinheiro, um castelo...

– Você não sabe o que pedir – diz o marido.

– Você vai estragar tudo – diz a mulher.

– Vamos fazer assim – diz ele. – Eu faço um pedido, você faz outro.

– Comece – diz ela.

– Eu quero uma salsicha DESSE tamanho – diz ele.

Tóinnnnn...  Uma salsicha enorme aparece em cima da mesa, e a esposa se desespera.

– Como você é burro ! Estragou o primeiro pedido! Podia ter pedido uma casa nova, tanta coisa... Ai, eu casei com idiota. Só queria que essa salsicha ficasse pendurada no seu nariz, seu bobão!

Tóinnnnn... A salsicha magicamente substitui o nariz do sujeito. Aí são os dois que se desesperam, se acusam mutuamente, se ofendem... Mas não tem jeito: o terceiro pedido é para que a salsicha desapareça e o nariz dele volte ao normal. E assim os três pedidos são jogados pela janela.


A cena não foi inventada pelo filme, claro. É uma função narrativa Proppiana ou Stith-Thompsoniana, que vem há séculos adquirindo novas formas. Sua estrutura é basicamente essa:

1)      Alguém conquista um poder imenso, mas de uso limitado.
2)      Usa esse poder, num primeiro arranco, para realizar as próprias fantasias, o que resulta numa situação de caos, colocando o próprio indivíduo em risco.
3)      O que resta do poder é consumido para “apagar incêndios”, ao invés de produzir qualquer melhora na situação anterior.

Claro que o Poder é um Fenômeno Complexo, não se resume a esse aspecto específico. Mas depois não digam que eu não avisei.











quarta-feira, 27 de agosto de 2014

3588) A gravidade e o poder (27.8.2014)



(foto: Jacob Sutton)

O Poder político e econômico exerce uma espécie de atração gravitacional sobre as pessoas. Umas parecem mais sensíveis a essa atração do que outras. Onde quer que estejam, aquilo começa a puxá-las irresistivelmente para cima, na direção dos postos de comando. Uma força irracional, inconsciente, que em muitos momentos chega a parecer involuntária. A pessoa parece pedindo socorro, veladamente. Ela não quer o Poder, mas é como se estivesse sendo empurrada para ele (que é na verdade o Abismo) por tudo que a cerca. Percebe-se isto naquele velho discurso com que alguns políticos anunciam uma candidatura: “Eu não queria ser candidato, porque não me sinto à altura de uma missão tão espinhosa, de um compromisso que exige alguém mais preparado do que eu, mas é uma exigência do meu partido, dos meus eleitores, dos meus companheiros de luta, e não possso me furtar a esse chamamento, não posso fugir a esse grande desafio...”  Parece jogador de futebol recitando aquela fala sobre objetivo e resultado.

No romance Os Portais de Anúbis, de Tim Powers, há um feiticeiro magicamente ligado à Lua por uma série de encantamentos e rituais. Isto faz com que ele seja fisicamente atraído para ela, e precise andar amarrado a um peso qualquer.  Se saísse solto ao ar livre, a atração o faria subir pelo ar rumo à estratosfera, e de lá “cair para cima” na direção da Lua.  Tem gente que é assim: parece estar sendo atraída pelo Poder, e sobe rumo a ele, esperneando, pedindo licença, pedindo desculpa, dizendo que não quer, dizendo: “É algo mais forte do que eu.” E é mesmo. Não é uma virtude que essas pessoas têm. É antes uma fraqueza.  O Poder precisa de pessoas como elas, pessoas que não têm forças para resistir a ele, que não têm um peso a que possam se amarrar para escapar à sua atração.

O Poder precisa de pessoas de olhar fixo e vidrado, capazes de sacrificar sua vida pessoal e emocional, seu tempo como pessoa, seu prazer, seu lazer, seu crescimento íntimo, para servir-lhe 24 horas por dia. “O Poder é um sacrifício, é um sacerdócio,” suspiram os poderosos, e é mesmo. Um sacerdócio vampírico que suga algumas almas deixando-as com um vazio central que alguns tentam preencher com fortunas promissórias, outros com drogas e orgias, outros com a paranóia exaltatória de que são mais iguais do que os iguais. Surgem os rituais do poder, as coroas, os tronos, os Versalhes, os jatinhos, as Swats de assessores. Para que serve isso tudo? Para dar àquela pessoa a ilusão de que tem poder. Essa pessoa é como aquele parafuso que acha que é ele quem está girando aquela chave de fenda e que está entrando por vontade própria naquela rosca.




terça-feira, 20 de agosto de 2013

3269) Os ódromos (20.8.2013)



Circula a notícia de que a PM carioca sugere a criação de um Manifestódromo onde venham a se concentrar os novos protestos populares, que estão causando transtorno à cidade. É como se dissessem: “Um milhão de pessoas uma vez por ano, tudo bem, mas 500 gatos pingados todo dia não pode!”.

Há um paradoxo curioso e talvez insolúvel na criação de um espaço delimitado e oficial para protestos públicos. Tudo que os governos e as autoridades querem é controlar esses protestos, dizer o que pode, o que não pode, como vai ser, como não vai. O governo quer ser o coreógrafo do protesto, o carnavalesco da manifestação. Demarcar um lugar, estabelecer um horário (“é permitido protestar aqui das 6 às 8 e meia...”), disciplinar a produção sonora (“bater latas pode, soltar fogos não”), gravar e filmar quem entra e quem sai... Qualquer governo fará o possível para conseguir isso.

Por outro lado, tudo que manifestantes, protestadores, anarquistas, baderneiros, vândalos e rebeldes em geral querem é justamente não se deixarem controlar dessa forma. Para eles, liberdade concedida não é liberdade, protesto consentido não é protesto, revolta autorizada não é revolta. E têm razão, não é mesmo? Talvez o resultado prático traga contratempos para todo mundo, inclusive para mim (que fico preso no engarrafamento) mas filosoficamente não posso contestá-los.

Tudo que termina em “ódromo” fica com um cheiro de coisa fake, coisa falsificada, marca de fantasia. Não sei se foram Brizola e Darcy Ribeiro que batizaram com esse nome o Sambódromo carioca (foi Darcy, com certeza, quem criou a expressão “Praça da Apoteose”). O modelo, claro, foi o Autódromo de Jacarepaguá; durante a construção da Passarela do Samba, o termo “sambódromo” surgiu na imprensa e acabou pegando. Logo depois, veio o Camelódromo da Rua uruguaiana, para onde foram recambiados todos os camelôs e ambulantes que transformavam o centro do Rio num enorme mafuá. Hoje, o Camelódromo funciona que é uma beleza, vive cheio de gente, é um dos lugares mais tupinipunks do Rio de Janeiro, e o centro está virando o mesmo mafuá de antigamente.

Sambistas, camelôs, manifestantes... Esse tipo de gente é incontrolável, tanto pela sua mania de só fazerem o que querem quanto pelo fato de que parecem brotar de um formigueiro inesgotável. Muitas autoridades adorariam montar uma frota de cargueiros e embarcá-los para a Mauritânia ou a Indonésia. Como não podem, recorrem às pranchetas dos técnicos e ao concreto das empreiteiras. Talvez daqui a poucos anos o Rio tenha um “ódromo” a mais, o que não quer dizer que terá manifestantes, baderneiros ou vândalos a menos.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

3227) O Xerife Indefeso (2.7.2013)




(Ed Harris em Appaloosa)

A arte da narrativa é como um isqueiro onde duas pedras se chocam e desse choque sai fagulha. É o choque entre um personagem e uma situação que o influencia. O personagem, “x”, tem um conjunto de características dramáticas. A situação, “y”, tem outras. O segredo é botar o personagem numa situação invulgar, ou complexa, ou violenta, ou inesperada, que de alguma maneira provoque uma perturbação à qual ele vai ter que responder, agindo. Ao agir, ele muda a situação, a qual, por sua vez... Muitas, muitíssimas histórias interessantes se baseiam nessa função de “x e y”, um personagem tal numa situação qual.

O Xerife Indefeso é um desses achados. “Xerife” pode ser visto num sentido amplo – o cara responsável pela ordem ou pelos valores num local. Digo xerife porque na minha memória afetiva essa imagem está mais associada ao filme de faroeste do que à literatura, embora cada leitor possa contribuir seus próprios exemplos. O Xerife Indefeso é o Gary Cooper de Matar ou Morrer, contando os minutos para a chegada dos pistoleiros que vêm matá-lo, e pedindo ajuda, inutilmente, à população, que deixa tudo nas suas mãos e se esconde. É o xerife ético e irritadiço de Marlon Brando, na Caçada Humana de Arthur Penn, querendo impor, mais até que a lei, a voz da sensatez numa cidadezinha endinheirada, bêbada, preconceituosa e violenta.

Esse personagem é interessante porque é o lado solitário do poder. Uma versão simétrica ao Pistoleiro Solitário (Shane, os filmes de Eastwood, etc.), que é marginal e se garante sozinho. O Xerife Indefeso é o representante da lei, da justiça e do governo; e muitas vezes está só, acuado na lei da selva.

Eu ia dar um exemplo noutro gênero e me veio à mente Outland – Comando Titânio, com Sean Connery como o policial de uma estação espacial mineradora. Mas esse filme é conhecido justamente como uma versão tecno-futurista de Matar ou Morrer. Apesar de ter um roteiro com outras tramas paralelas, ele tem essa mesma contagem regressiva para a chegada da espaçonave com os pistoleiros que vêm matar Connery.

O Xerife Indefeso (no sentido de não ter ninguém para defendê-lo além de si mesmo) é a solidão do poder, o combate quixotesco de um ético ou de um sensato num mundo onde o Mal está botando as unhas de fora. É possível ser o “representante da civilização” e ser um inocente como James Stewart em O homem que matou o facínora, um xerife que está ficando cego como Robert Ryan em À Borda da Morte, ou ser o destemperado e idiossincrático Roy Bean de Paul Newman. O Poder também dá oportunidades de grandeza aos grandes individualistas, quando lutam por uma coletividade que os abandona.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

2411) As Instâncias do Poder (26.11.2010)

(Quando viajo este blog vira uma Casa da Mãe Joana. O artigo abaixo, de número 2411, era para ter sido postado aqui no dia 26 de novembro, quando foi publicado no Jornal. Não foi. Vai agora. Vale a numeração. Perdão, leitores.)



Tudo que o Imperador da Ruritânia faz está a cargo dos chefes de setor. O chefe de cada setor (ao qual chamaremos, de agora em diante, de Primeira Instância) está cercado, em seu vasto gabinete de trabalho, por dez sub-chefes, cuja função é providenciar para que suas ordens sejam executadas, e, em caso de dúvida, auxiliá-lo na sua tomada de decisões. Esses dez sub-chefes formam, portanto, a Segunda Instância. Cada um deles, por sua vez, tem cem assessores encarregados de distribuir tarefas, organizar as coisas. Somados, esses mil assessores formam a Terceira Instância, que constitui de certa forma a interface entre poder decisório/organizatório e a mão de obra encarregada de produzir resultados. Observe-se que cada um dos mil assessores tem a seu cargo mil funcionários.

Ora, sucede que um dia o Chefe do Setor de Diapasão amanheceu com enxaqueca, em plena reta final do Levantamento Estatístico de Afinações, a que cabia um recenseamento das afinações predominantes no Império. Todo ano era preciso contar quantas músicas haviam sido gravadas no tom de dó, quantas no tom de dó sustenido, quantas em ré, e assim por diante. Cabeça latejando, o Chefe, inundado de zeros e percentagens, virou-se para os sub-chefes e disse: “Quer saber duma coisa? Essa situação é kafkeana, dadaísta, ionesca. De agora em diante só se pode gravar música num tom. Sol bemol, por exemplo”. Dito isto, desligou o monitor para poupar energia, desceu para a cafeteria, tomou um tylenol e fez um lanche.

À tarde o videofone tocou. Um dos sub-chefes, o Número Oito, atendeu e disse: “Não, não sei, e não tenho tempo a perder com tecnicalidades. Não é fá sustenido, é sol bemol!” E desligou. O Chefe abaixou o jornal (onde estava conferindo a tabela do campeonato e calculando quantos pontos seu time teria que ganhar para fugir do rebaixamento). Ficou pensativo. Onde tinha ouvido, recentemente, a expressão sol bemol?... Engraçado, depois que uma enxaqueca passa o mundo parece meio irreal. Voltou à tabela.

No fim do expediente ele repassava a última planilha Excel com o recorte regional das estatísticas quando deu um pulo horrorizado e chamou o Número Oito. Este lhe garantiu que sim, a ordem fôra repassada e a esta altura já estaria provavelmente na Terceira Instância. O Chefe se desesperou. “Manda voltar! Era um modo de dizer!”. Depois de hora e meia de atividade febril, concluiu-se que seis dos subchefes tinham conseguido, por motivos vários, cancelar a ordem. Mas quatro deles (logo, eles, os mais eficientes! que injusta é a vida!) já tinham providenciado para que sua Terceira Instância desencadeasse o processo. Não demorou muito para que o noticiário das 19 horas informasse que a nova determinação estava sendo posta em prática em todo o Império, e que o Imperador assinara uma lei regulamentando sua execução. “A culpa é das telecomunicações eletrônicas”, disse alguém. “Tudo ficou fácil demais”.

sábado, 29 de maio de 2010

2087) Dois gestos de nobreza (15.11.2009)





(Descartes e a Rainha Cristina)

Dizem os livros de História que o filósofo Diderot, um dos enciclopedistas franceses, vivia perseguido por problemas financeiros. A certa altura da vida, já famoso, precisou levantar dinheiro para o dote de sua filha, que iria se casar. Aperta daqui, aperta dali, em 1765 Diderot tomou a decisão de vender a biblioteca que tinha acumulado durante a vida inteira, e enviou cartas para seus contatos em toda a Europa, explicando sua decisão e aguardando ofertas. Um dia chegou-lhe às mãos uma carta de Catarina II, imperatriz de Rússia. Dizia ela que, sendo uma admiradora do filósofo, dispunha-se a comprar sua biblioteca pelo preço que ele solicitava. Havia apenas um porém: a imperatriz, por uma série de motivos, não podia providenciar a transferência imediata da biblioteca (alguns milhares de volumes) para Moscou. Precisava, portanto, contratar um bibliotecário de sua confiança para cuidar dos livros até que eles pudessem ser transportados para a Rússia. O bibliotecário receberia um salário anual pelos seus serviços. Por acaso Monsieur Diderot estaria interessado em ocupar esse cargo?...

De Diderot passamos para René Descartes, o famoso filósofo do “Penso, logo existo”, o inventor do eixo de coordenadas x e y (para mim a maior invenção humana entre a roda e a Teoria da Relatividade). Descartes era um filósofo meditativo, gostavava de dormir tarde e acordar tarde, o que dá uma medida de seu bom senso. Em 1649, já famoso em toda a Europa, recebeu a pior coisa que um homem sossegado pode receber: uma proposta irrecusável. Cristina , Rainha da Suécia, o queria como professor de Filosofia, e enviou um navio para trazê-lo a Estocolmo. A rainha tinha 19 anos, era culta, atlética, gostava de cavalgar no frio escandinavo. (O filme sobre ela, com Greta Garbo, é bom, mas considerado bastante fantasioso.) Instalou Descartes num palácio próximo ao seu, e determinou que ele lhe daria aulas diárias, começando às 5 da manhã, em pleno inverno sueco. Na corte, poucos nobres suportavam o ritmo da rainha, que dormia apenas cinco horas por noite. Descarte, com mais de 50 anos, não sabia como dizer não. Levantava-se todos os dias num frio mortal, tomava a carruagem que vinha buscá-lo, e dava aulas à rainha num salão gelado. (A descrição de Eric Temple Bell em Men of Mathematics é de cortar o coração.) Não durou muito: em fevereiro de 1650, morreu de pneumonia.

Estes episódios ilustram o que é a convivência entre os intelectuais e a nobreza. O intelectual geralmente é um sujeito de poucos recursos, sempre dependendo dos favores alheios. Os nobres (reis, príncipes, etc.) são como deuses: caprichosos, imprevisíveis, atemorizantes. Um desejo vira uma ordem, e ai de quem não a cumprir. Catarina da Rússia admirou Diderot o bastante para tirá-lo de uma situação financeira aflitiva. Cristina da Suécia talvez julgasse que estava fazendo o mesmo por Descartes.


terça-feira, 6 de abril de 2010

1874) O rosto de baixo (12.3.2009)




(Oscar Wilde)

Diz um velho ditado que se quiser conhecer bem uma pessoa, dê-lhe poder. Dê-lhe um poder muito maior do que ela já conheceu na vida. 

Pode ser poder econômico ou político, para que ela possa influenciar a vida de milhares de pessoas; pode ser poder emocional ou psicológico sobre um grupo restrito ou às vezes sobre uma pessoa só. 

Veja como o “poderoso” agora se comporta, porque é tiro e queda. Ele vai mostrar algo de si que ninguém conhecia antes, e ele menos que todos.

A leitura mais imediata disto é que o sujeito que recebe alguma forma de Poder tende a superestimá-lo, e achar que por causa daquilo está acima dos julgamentos alheios, acima do Bem e do Mal, como se diz. Mas não é só isso. 

É que o Poder na verdade é um Papel que recebemos e que devemos interpretar da melhor maneira possível. Um papel diferente do que tínhamos até então. 

O sujeito é sociólogo, vira Presidente da República, vai ter que trocar de papel. O sujeito é escritor, vira diretor de jornal, vai ter que trocar de papel. O sujeito é ator, vira administrador de um teatro, vai ter que mudar de papel.

Oscar Wilde, que entendia de fingimentos e personagens, disse: 

Um homem é muito pouco ele mesmo quando fala em seu próprio nome. Dêem-lhe uma máscara, e ele lhes dirá a verdade. 

Eu leio esta frase da seguinte forma: o que uma pessoa diz é verdade, mas é uma verdade oficial, já sancionada pelo consciente e pelo superego. 

O Papa só diz aquilo que o Papa pode dizer; Seu Manezim da bodega também só diz coisas que não abalem a reputação de Seu Manezim da bodega. Se ambos forem projetados num contexto em que estão liberados para não serem eles mesmos, é bem possível que digam verdades interessantes.

Essas verdades interessantes são coisas que estão apenas no limiar da consciência de cada um. Fazem parte dele, mas estão, por assim dizer, numa perpétua lista de espera, porque não são convocadas para aparecer – só são convocadas as verdades que fazem parte da tal “versão oficial”, da persona pública, do personagem que Fulano e Sicrano se vêem na obrigação voluntária de representar a partir do instante em que abrem os olhos de manhã.

Para algumas pessoas, na juventude, o teatro proporciona isso – a possibilidade de vestir roupas absurdas, fingir que são alguém, dizer o que não se diz, fazer o que não se faz. 

Exercícios de improvisação trazem à tona não propriamente essas verdades que Wilde sugere, mas um tumulto de vontades, de fantasias, de imaginações reprimidas. A mente consciente é que é a máscara, o texto decorado e bem ensaiado, a “versão oficial” de nós mesmos. 

Se nos dão a máscara de (e com ela a obrigação de ser por alguns instantes) alguém que não somos, o que ocorre? Somos obrigados a improvisar, a tirar atitudes da memória e da imaginação. Isso, na pressão emocional de ter-que-dizer-algo, desencadeia um processo de livre associação, faz emergir o inconsciente, o rosto mais profundo.





sábado, 6 de março de 2010

1751) A maldição do poder (21.10.2008)



Um amigo meu, aqui no Rio, votou em Fernando Gabeira no primeiro turno das eleições municipais. Apurados os votos, ficou definido que disputarão o segundo turno Gabeira e Eduardo Paes do PMDB. Encontrei meu amigo ontem, e perguntei se estava animado com as chances de Gabeira. “Vou votar em Paes”, disse ele. E diante da minha surpresa: “Gabeira é um homem de bem. Não quero vê-lo no Poder. Os homens de bem devem ficar sempre na Oposição, porque o Poder é um veneno para eles”.

Todos nós ficamos perplexos com as guinadas sofridas por alguns políticos depois de eleitos. Parece que o Poder tem um miasma, um agrotóxico invisível, um amianto solerte que se infiltra nos cérebros e nas consciências, trazendo danos irreversíveis. Sugeri essa teoria e meu amigo concordou: “Exatamente. Se eu fosse americano, votaria em McCain, porque esse já está perdido. Mas um rapaz decente como Obama não pode entrar na atmosfera insalubre da Casa Branca. De jeito nenhum! Nem Jimmy Carter escapou”.

Toda vez que um político de oposição chega ao poder ele descobre que na verdade o seu exército não derrotou o exército adversário. Ele ganhou a guerra, e foi nomeado general do exército adversário! Mal chega ao poder ele percebe que a tal da “máquina da corrupção” que ele jurou combater permanece encastelada nas mesmas posições onde se encontra há séculos, e que não é a chegada dele e do seu Partido que vai desenraizar esse feudo.

O que acontece, então? Ele e o seu Partido começam a se adaptar, minoria que são, às leis secretas e aos procedimentos internos dessa poderosa máquina. Não importa quem seja o titular do cargo: o Poder é da máquina, e quando o titular do cargo não se comporta de acordo com ela, a máquina dá um jeito de sabotar-lhe o mandato, comendo pelas beiras todas as suas boas iniciativas, espalhando cascas de banana administrativas e diplomáticas, fazendo-o incorrer em erros e omissões, iludindo-o aqui com promessas de apoio fácil, vergastando-o acolá com denúncias sempre que ele mete os pés pelas mãos. A Máquina são milhares de legisladores, lobistas, funcionários públicos, empreiteiros, publicitários, juízes, promotores... E para cada um desses indivíduos bote algumas dezenas de assessores, familiares, amigos, apaniguados, protegidos em geral. Eis a Máquina.

“Com correligionários assim ninguém precisa de Oposição,” deve ter meditado mais de um governante aqui e em Istambul, na Bósnia-Herzegovina e na Guatemala. Como diz meu irmão Pedro, “triste do Poder que não pode”, e essa é uma descrição patética do poder republicano num país onde a corrução se instalou como uma dinastia de cupins onipresentes. Iludimo-nos imaginando que basta “ser dono da caneta” para fazer o que bem quiser. A caneta assina, mas não se sabe ao certo quem redigiu. Gabeira e Obama que se cuidem. Às vezes a vitória nas urnas é apenas A Porta Para o Abismo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

1601) Hierarquia e Brodagem (30.4.2008)




São dois conceitos importantes, mas que vivem às turras, não sei por que. Ou melhor, sei: porque defendem modos de ser tidos como incompatíveis. É nesse “tidos como” que quero aplicar meu bisturi, porque acho que se examinarmos bem a coisa veremos que não são tão incompatíveis assim.

A hierarquia é vertical, a brodagem é horizontal. 

Nos sistemas hierárquicos, existe uma “escada” de valores baseada em patamares sucessivos, e a autoridade se exerce de cima para baixo. Quem está num degrau manda nos degraus de baixo, e obedece aos degraus de cima. 

O exército, por exemplo: o cabo manda no soldado, o sargento manda nos dois, o tenente manda nos três, o capitão manda nos quatro e assim por diante, até o general que manda em todos. Igrejas, corporações, empresas em geral usam esse sistema de-cima-para-baixo.

Nos sistemas de brodagem, o Poder se exerce horizontalmente. Em tese, todo mundo tem os mesmos direitos, as decisões são tomadas por debate, consenso ou votação. “Brodagem” é a união dos “brothers”, dos irmãos. É o termo da gíria atual, mas os termos clássicos para esse tipo de associação têm a mesma origem: são as Irmandades ou Fraternidades, onde se pressupõe que em princípios todos são iguais. 

Os dois sistemas, no entanto, se combinam. Qualquer Irmandade tem uma diretoria, que é um pequeno sistema hierárquico utilizado para agilizar as decisões e a administração cotidiana, mas cujas decisões podem ser bloqueadas por uma assembléia geral ou algo equivalente.

Um militar me disse uma vez, quando critiquei os sistemas hierárquicos: 

“Na vida diária a gente pode se dar o luxo de passar dias inteiros discutindo uma idéia, questionando uma ordem. Mas o militar é formado para a guerra. Se fosse formado para a paz, seria um civil. Na guerra não há condições de discutir uma ordem. Quando a ordem vem de cima, é para ser cumprida. Sem hierarquia você não pode organizar uma manobra que envolve milhares de homens ao mesmo tempo”. 

E nem precisa ser uma guerra. Na evacuação de um Titanic, por exemplo, decisões graves e medidas drásticas precisam ser tomadas, e ordens obedecidas. O navio está afundando e não há tempo de convocar uma assembléia dos tripulantes para debater a melhor estratégia. Há um plano de evacuação previsto, e cabe às autoridades que estão em cima administrar sua execução – e pagar pelos erros, se não der certo.

Vi num filme de guerra um oficial dizer a outro, que vai ser submetido à Corte Marcial: “No exército, julgamos um oficial pelas suas decisões, e julgamos suas decisões pelos resultados”.  
A responsabilidade é mais concentrada do que em sistemas horizontais democráticos, como as cooperativas, em que tudo é exaustivamente discutido. A verdade é que, se uma distribuição horizontal de poder parece mais democrática, mais igualitária, o exercício vertical do poder é indispensável. Verticalização em excesso elimina a liberdade; horizontalização em excesso é sinônimo de caos.





domingo, 3 de janeiro de 2010

1468) A embriaguez do poder (27.11.2007)


(o Presidente da República, Prof. Dr. Braulio Tavares)

Ninguém se horroriza mais do que eu com as denúncias da imprensa sobre as mordomias do Governo Federal. O Globo tem publicado matérias sobre o inchaço dos gastos dos Poderes da República. São despesas alucinadas em todas as direções. Em alguns casos, gasta-se em excesso (paga-se uma fortuna por algo que é muito mais barato). Em outros, gasta-se mal (compra-se o produto errado, ou contrata-se um serviço desnecessário). Em outros ainda gasta-se de modo absurdo (são as despesas inexplicáveis, que não se explicam pelo perdularismo, pela desonestidade ou pela incompetência).

Me horrorizo agora, porque sou da imprensa. Mas quando eu fôr eleito Presidente da República provavelmente farei a mesma coisa. Minha primeira medida será mudar os horários de todas as repartições federais, cujas 8 horas regulamentares de trabalho passarão a ocorrer das 14 às 18:00 (primeiro expediente) e das 19 às 23:00 (segundo expediente). Vão ter que trabalhar na hora em que eu trabalho (e olhe que eu também trabalho de madrugada; estou sendo até bonzinho).

Sou um sujeito ascético e não esperem de mim essas mordomias tradicionais dos políticos: champanha, caviar, etc. Minhas mordomias serão culturais. Criarei, com orçamento equivalente ao atual Ministério da Cultura, o Ministério da Cantoria de Viola. (Não revelo agora quem será meu Ministro para não despertar ciúmes entre os amigos) Criarei o Ministério da Ficção Científica, ao qual ficará vinculada a Secretaria de Assuntos Estratégicos. Darei atenção especial à valorização do nosso Patrimônio Histórico, e ordenarei o tombamento do Treze Futebol Clube como patrimônio imaterial do povo brasileiro. (Em contrapartida, exigirei minha nomeação para o Departamento de Futebol do dito cujo, com poderes para mexer na contratação de reforços e na escalação do time.)

Enfim – o que quero sugerir, com esta modesta “reductio ad absurdum”, é que as mordomias em que Nossos Guias incorrem não são adotadas com o objetivo explícito do achincalhe, do deboche, da provocação. Na maioria dos casos o governante acredita, com certa sinceridade, estar fazendo algo necessário, algo importante. Tenta promover aquelas área que historicamente lhe são próximas, e sobre as quais acredita ter algum tipo de conhecimento e de controle. O problema é que sua avaliação está comprometida pela embriaguez do cargo. Escrevi uma vez: “Dizem que o poder corrompe, mas digo eu que o poder cega, o poder embaça todo o resto além do eu”. O ex-presidente FHC disse certa vez que a coisa que mais estranhou depois de deixar a Presidência foi pegar em maçanetas: “Passei oito anos sem abrir sequer uma porta de carro, alguém sempre ia à frente e abria para mim”. O poder é uma espécie de Big Brother maquiavélico a que o Sistema expõe um esquerdista, um sociólogo, um operário – para fazê-lo pagar esse mico histórico diante da Nação, mostrar o quanto qualquer um de nós é humano, constrangedoramente humano.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

1427) Uma proposta irrecusável (10.10.2007)



Um amigo me disse certa vez, comentando fofocas políticas que circulavam nos bares da época: “Não existem propostas irrecusáveis. O que existe são indivíduos que vivem com o aceitador aberto.” O conceito de proposta irrecusável lembra um pouco aquela questão científico-escolástica: “O que acontece se derramarmos um solvente perfeito num recipiente invulnerável?” ou “O que acontece quando uma força irresistível se choca com uma barreira impenetrável?” Questões desse tipo são falácias, porque envolvem conceitos que se excluem. Se no universo existe uma força irresistível, então não pode haver uma barreira impenetrável. E vice-versa.

O que acontece quando um indivíduo absolutamente honesto recebe uma proposta (desonesta) irrecusável? A questão aqui é mais sutil. Não estamos lidando com a nitidez dos conceitos científicos, e sim como o universo turvo da mente humana, refletido no espelho embaçado das palavras. Não existe proposta irrecusável. Sempre vai haver um desmancha-prazeres para quem as vantagens da proposta (dinheiro, fama, poder, o que fôr) nada importam, ou importam menos que seus próprios valores. E nem precisam ser valores grandiosos, como nobreza de caráter ou retidão de princípios. Basta ser o Ego. Tem sujeito que recusa uma proposta irrecusável só para humilhar o proponente, só para dizer: “Dane-se. Sou melhor do que você”.

Uma maneira diplomática de recusar uma proposta é cobrar um preço absurdo. O sujeito me oferece um emprego com salário de 2 mil reais. Como eu não quero recusar assim, “na lata”, digo que só iria por 10 mil. No outro dia ele me telefona, diz que consultou o Conselho Diretor ou coisa parecida, e que tudo bem, dez mil. E agora? Existe uma saída meio cara-de-pau, que é dizer: “Olha, Anacleto, se você aumentou de dois para dez com essa facilidade, então pode muito bem me pagar vinte. Só vou por vinte”. O que não resolve o problema, porque talvez ele volte a concordar.

Propostas irrecusáveis sempre envolvem dinheiro. Esse conceito foi criado por pessoas que têm muito dinheiro para tentar convencer a nós, que o temos quase nenhum, de que o dinheiro tudo pode. Digamos que um conhecido meu, esborrotando de rico, me chama para ir tocar violão na festa de aniversário dele. Eu digo, “Ora, Fulano, vai te catar, sou um homem ocupado”. Ele diz: “Cem mil reais, ‘cash’, à vista”. E agora? O cara pode gastar isso sem nem piscar o olho, e está falando sério. Vou ou não vou? Talvez não fosse, só pra desmoralizar o Capitalismo.

A vida empresarial e política está cheia de propostas irrecusáveis. Não o são porque envolvam fortunas fabulosas, mas porque são propostas feitas no momento certo ao indivíduo que está com a aceitação engatilhada. O proponente hábil sabe que em certas portas não adianta bater. A proposta irrecusável é aquela que ele já sabe ter sido aceita antes de ser formulada, e o valor financeiro é uma mera cortina de fumaça para desviar as atenções.

domingo, 1 de março de 2009

0856) A sabedoria das massas (14.12.2005)



Vemos o tempo todo propagandas dizendo: “Dez milhões de pessoas já viram este filme... dez milhões de pessoas não podem estar erradas!” Dezenas de milhões de pessoas aceitam plenamente este argumento, e vêem nele a expressão da verdade. Se dez milhões de pessoas compram uma coisa, essa coisa é necessariamente boa. As multidões não erram. A voz do povo é a voz de Deus.

A falácia da pseudo-sabedoria das multidões é proporcional à falácia oposta, a da pseudo-sabedoria das elites. “Isto aqui não é pra todo mundo – é pra quem sabe”, é uma forma igualmente eficaz de engambelar um besta. “Tenha acesso ao universo exclusivo dos usuários do MerreCard”. “Isto foi feito para pessoas especiais como você”. E assim por diante. Parte-se do princípio de que só quem sabe o que é bom é um grupinho seleto de indivíduos privilegiados.

Millôr Fernandes definiu Esquerda e Direita desta maneira: quem acredita na sabedoria do Povo é de esquerda, e quem acredita na sabedoria das Elites é de direita. Posições políticas, intrigas de governo e oposição, troca-troca de partidos, discussão teórica de manuais, tudo isto, se fervido e filtrado, se resume a essas duas crenças opostas e fundamentais.

Diz-se por aí que Democracia é “o governo do povo”. Na verdade, democracia é o governo que tenta fazer uma síntese precária entre as tendências da Direita e da Esquerda. No regime democrático, a Multidão elege uma Elite para governar em seu nome. Teoricamente, teríamos aí as duas “sabedorias” reunidas: a massa anônima escolhe algumas centenas de representantes (teoricamente, como sempre, aqueles mais capazes, mais brilhantes, mais carismáticos, etc.) e estes se tornarão a elite governante.

O que acho mais interessante nisso tudo é perceber como é reconfortante, para algumas pessoas, pensar que estão fazendo algo certo pelo simples fato de estarem indo na mesma direção que vai a boiada. Eu entendo esse sentimento. Ele nos dá uma sensação de paz, nos envolve numa aconchegante nuvem de oblívio e de abdicação, anestesia aquele pedaço do cérebro que tanto nos incomoda – o que é responsável pela tomada de decisões, pela aceitação de responsabilidades. Juntar-se à massa é transferir para ela o poder de decidir por nós. A gente vira uma rolha de cortiça, pula dentro do rio e deixa-se levar em suas águas. É a sedução da unanimidade, que nos dispensa de justificar esta ou aquela escolha.

O elitismo, por mais que conduza a distorções (desde a auto-suficiência dos eruditos até a prepotência das ditaduras) pelo menos envolve a vontade de tomar decisões, mobiliza a vontade, exprime uma intenção clara de fazer isto e não aquilo. As elites sabem o que querem, e arregaçam as mangas para consegui-lo. E o perfil de nossa época, formatada por esta patética “democracia” para a qual não temos um substituto melhor, é este: massas eletronicamente doutrinadas delegando o Poder às elites que as manipulam.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

0741) A natureza humana (3.8.2005)


(Mikhail Bakunin)

Leio no blog do jornalista Ricardo Noblat uma citação do anarquista russo Mikhail Bakunin, um trecho que parece ao dono do blog (e a mim também) imbuído de um ominoso sentido profético. Diz Bakunin: "Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."


Pensou o mesmo que eu pensei, caro leitor? Então, passemos adiante. Tudo bem: é a natureza humana. Mas a natureza humana será só isto? Marx, um sujeito furiosamente otimista, dizia que não. Que os nossos valores éticos são condicionados pelo ambiente moralmente poluído do capitalismo, onde a lei é “cada um por si e Deus contra”, onde para ganhar dinheiro o sujeito é capaz de vender a mãe e dar a sogra de brinde. Nesse clima de competitividade feroz, e de fácil enriquecimento uma vez que se chegue a determinada altura da “escada social”, todo mundo é corrompível, todo mundo tem um preço. Mas (prosseguia o barbudo redator da “Gazeta Renana”) com o advento do socialismo tudo seria diferente. O socialismo e sua conseqüência final, o comunismo, iriam instituir um novo clima moral, uma nova super-estrutura de valores, idéias e princípios.

Bem, isso para mim é tão válido quanto dizer que no ano 2500 teremos colonizado Marte e que lá o cinema vai ser de graça e o futebol não vai ter impedimento. Ou seja: a previsão é tão a-longo-prazo que de certo modo se auto-invalida, porque daqui até lá, como naquela história popular, “ou morro eu, ou morre o rei, ou morre o burro”. Nunca saberemos como será a “natureza humana” daqui a cem ou duzentos anos, e só podemos lidar com o que temos à mão agora. A frase de Bakunin aplica-se a operários que chegam ao Poder, mas poderia aplicar-se também a sociólogos de esquerda que chegam ao Poder, ou a católicos apostólicos romanos que chegam ao Poder. Não importa sua origem ou suas idéias anteriores: o Poder é uma espécie de kryptonita que anula suas qualidades e nivela a todos diante de uma máquina surda, cega e muda, uma máquina secular de auto-enriquecimento.

Dinheiro é a mais perigosa das drogas. Vicie um cara em dinheiro, e ele fará de tudo para conseguir mais. A maior parte de nós não vive sem uma dosezinha no fim do mês, não é mesmo? Dinheiro é perigosíssimo, inclusive porque dá aos viciados aquela ilusão de onipotência tão característica de algumas drogas. Não existe “natureza humana”: existem as “culturas humanas”, e quando viciadas em dinheiro elas ficam entregues aos traficantes de sempre.

sábado, 18 de outubro de 2008

0607) Uma lenda oriental (27.2.2005)



Diz uma antiga lenda oriental que na época da dinastia T’sin, havia um rei despótico que gastava de modo perdulário, prendia e torturava os críticos do seu regime, e roubava o Tesouro público. O rei subira ao trono cercado de expectativas, pois fora um príncipe inteligente, amado pelo povo. Depois que passou a governar de modo desastroso, um grupo de nobres reuniu-se, conspirou, e juntou exércitos para enfrentar o tirano. Houve uma guerra sangrenta. O tirano foi morto, e os nobres elegeram, para substituí-lo, o nobre Li H’sien. Este era um homem íntegro, mas, assim que subiu ao trono, começou a se comportar de modo muito parecido com o antecessor. Perseguiu os antigos aliados, construiu palácios para seus parentes, cercou-se de bajuladores, e botava na cadeia quem falava mal dele.

Os nobres agüentaram isso durante alguns anos, aí juntaram-se novamente, desencadearam outra revolução, executaram Li H’sien e colocaram no trono o general Hsui-Pen, um homem valoroso, simples, de julgamentos serenos e caráter firme. Poucos anos depois, o general tinha transformado a corte num verdadeiro bordel com orgias intermináveis, além de promover a execução de dissidentes, e a invasão militar das províncias vizinhas. Os nobres, já desesperados, sem saber o que fazer, foram queixar-se ao Budista Tibetano. O Budista Tibetano deu uma baforada do seu narguilê, pensou, pensou, aí disse: “Olha, eu, se fosse vocês, tocava fogo era naquele trono. Todo mundo que se senta lá fica assim.”

Gostou da lenda oriental, caro leitor? Se gostou, obrigado, porque acabei de inventá-la. Não, não me elogie. A imaginação e a criatividade pouco contribuíram para a sua execução. O que mais me valeu foi a memória, o hábito de ler jornais, e algumas décadas de vida debruçado na janela por onde o mundo vive passando e só Carolina não vê. Para os que se debruçam nessa janela, o mundo traz surpresas cíclicas. Se são cíclicas, talvez não devessem ser surpresas, porque a repetição nos deixa prevenidos. Mas é que o mundo não se repete em círculos, como supunha Nietzsche, mas em espirais: cada vez que uma coisa acontece, acontece num ponto diferente da vez anterior.

O filme Viva Zapata, de Elia Kazan, mostra Marlon Brando no papel de um camponês mexicano que se revolta. Um dia eles vão protestar algo junto ao tirano local e este, enraivecendo-se , pergunta: “Você! Como é seu nome?!” Ele responde, intimidado: “Zapata. Emiliano Zapata.” Os anos se passam, Zapata entra na luta armada revolucionária, vira líder e herói, mas descobre que é mais fácil deflagrar Revoluções do que mantê-las. Depois que vira presidente do México, um dia uns camponeses vão ao palácio reclamar de alguma coisa. Ele se irrita com um dos queixosos, e diz: “Você! Como é o seu nome?!” Aí na mesma hora o episódio antigo lhe vem à memória, e ele se cala, confuso, percebendo a inversão dos papéis. Pois é. O problema é o trono, presidente.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

0479) Elites versus Povão (1.10.2004)



(Obama em Berlim, julho 2008)

Elitista é um sujeito que acha que uma nota de dez vale mais do que duas de cinco; populista é o sujeito que acha que é o contrário. Millôr Fernandes disse certa vez que toda a discussão ideológica entre esquerda e direita poderia ser reduzida a uma disputa básica: a Esquerda acha que quem deve governar é a maioria da população, e a Direita acha que quem deve governar é uma minoria. As palavras de Millôr não eram estas, estou parafraseando, mas acho que a idéia era por aí. O pior nesta discussão é que ambas as posições parecem estar certas.

Vejamos a Direita. “O Povo não sabe o que quer. O Povo é uma massa bestializada, uma horda de gente embrutecida, gente reduzida ao egoísmo-de-sobrevivência daqueles a quem sempre foi negado tudo, e que quando têm qualquer vislumbre de possibilidade são capazes de pisar no pescoço da mãe para agarrar-se a essa migalha. O destino das massas poderia ter sido outro, se lhes tivessem sido dadas as devidas chances, mas não foi isto que ocorreu. A população é analfabeta, animalizada, incapaz de entender o mundo em que vive; e só porque é maioria vamos entregar-lhes as rédeas da Cultura e da Civilização? Na-na-ni-na-não!”, dizem os Elitistas. “Quem manda aqui sou eu, que me preparei a vida inteira para isto, e não essa sub-raça.” Como negar que existe lógica por trás deste argumento?

Já a Esquerda pensa o contrário. “Massas animalizadas? Que papo é esse, cara-pálida? O que eu vejo são massas organizadas, conscientes, trabalhadoras. Entrem no lar humilde de um operário e vocês vão ver façanhas espantosas de honestidade e caráter. De previdência, prudência e realismo na administração de bens escassos. De planejamento a longo-prazo, de valorização de conquistas alcançadas como muito suor e muita persistência. Tudo bem, também existe um lumpen-proletariado sem a menor desqualificação: os mendigos, os marginais, os desajustados. O Povo, contudo, é outra conversa. O Povo conhece nosso país muito melhor do que os tecnocratas e os políticos que estão encastelados em suas torres-de-marfim. Qualquer dona-de-casa entende mais de economia do que o Ministro da Fazenda.” Soa familiar?

Os dois discursos nos soam familiares, porque, apesar de não terem a mínima relação com a realidade, são ouvidos o tempo inteiro. São mera retórica de editorial e de palanque. Não são um exame verdadeiro do que são as Elites e o Povo, e do que determina suas ações. “Elite” e “Povo” são noções abstratas que devem ser usadas com muita economia. Botar nelas uma inicial maiúscula e passar a usá-las como nome próprio, tratá-las como se fossem uma pessoa, é um perigo. Nenhum desses conceitos se refere a uma entidade única e de comportamento uniforme. Personalizá-los (“a Elite é egoísta...”, “o Povo é alienado...”) é cobrir com camadas de papo-furado uma imagem que já não é das mais fáceis de enxergar. É pouco científico. Toda vez que eu fizer isto, puxem-me as orelhas.

sábado, 15 de março de 2008

0256) Aragorn e Riobaldo (15.1.2004)




(Viggo Mortensen, como Aragorn)

Já me referi nesta coluna aos pontos em comum entre a obra de Tolkien e o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. 

Em ambos se descreve uma batalha épica do Bem contra o Mal, onde as tropas do Bem são conduzidas por um herói problemático, cheio de dúvidas e hesitações. 

O herói do Grande Sertão é Riobaldo, um jagunço a quem cabe liderar o bando na jornada de vingança ao seu líder, Joca Ramiro, assassinado à traição por um dos seus sub-chefes, Hermógenes. 

Joca Ramiro tem a estatura épica e o caráter íntegro de um rei medieval (Riobaldo o chama de “par-de-França”). Com sua morte, os jagunços ficam divididos em bandos menores, cada qual comandado por um sub-chefe: Medeiro Vaz, João Goanhá, Titão Passos, Sô Candelário, etc.

Riobaldo é o melhor atirador do grupo, o jagunço mais frio no gatilho, o de melhor pontaria, talento que o torna respeitado e lhe vale apelidos honrosos: “Tatarana”, “Urutu-Branco”. Ele junta-se por fim ao grupo de Medeiro Vaz que, à morte, oferece-lhe a chefia. Ele recusa. 

É um típico herói-em-dúvida, herói moderno, diferente dos heróis mitológicos que em nenhum momento questionam a própria coragem, as próprias motivações. Riobaldo pergunta-se: “Por que estou fazendo isto tudo? Por que fazer isto? E por que logo eu?” 

Crivado de dúvidas, ele recorre ao pacto com o Diabo, na encruzilhada das Veredas Mortas, para a qual vai descrente, e de onde retorna sem ter certeza se encontrou mesmo o Diabo ou não. 

Mas a partir desse episódio ele parece mudado, imbuído de uma autoridade que não parecera ter até então. Sob seu comando os bandos dispersos de jagunços são unificados, e encurralam os “hermógenes” ou os “judas”, como chamam aos inimigos, até derrotá-los na batalha final do Paredão.

Em O Senhor dos Anéis, Aragorn é o legítimo herdeiro do trono, por ser filho de Isildur, o rei que decepou a mão de Sauron, o Senhor das Trevas, tomando dele o Anel do Poder. 

Aragorn, órfão, é criado pelos elfos, que somente na idade adulta vêm a saber de sua linhagem. Ele torna-se um “Ranger”, patrulha as fronteiras da Terra Média, e adquire não só experiência de batalhas e de privações como passa a conhecer profundamente o território e o povo. Ele poderia repetir a frase de Riobaldo: “Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido.” 

Sabe que é destinado a ser rei, e que para isso terá que unificar os diferentes reinos que se opõem a Sauron (Gondor, Rohan, etc.). Mas sabe também que seu pai, Isildur, cedeu à tentação do Anel e em vez de destruí-lo ficou com ele. 

Como Riobaldo, ele não questiona a própria bravura ou sua competência como guerreiro, mas, até ser arrastado pelos acontecimentos, hesita diante da missão que lhe cabe. Ambos pertencem a uma estirpe de heróis (como o Paul Atreides de Duna) que enfrentam a Morte sem medo, mas que hesitam diante do Poder, por saberem que nenhum Poder é conquistado com mãos limpas, por melhores que sejam as intenções do Herói.