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segunda-feira, 29 de abril de 2019

4461) Cuma?... (28.4.2019)






O que dá riqueza a um linguajar regional, muitas vezes, é algo que vai além da ortografia.

A poesia matuta, regional, etc., desliza com muita facilidade para a mera linguagem comum com grafia precária, mas sem muita ousadia ou criatividade para criar expressões próprias.

Existem palavras que têm um sentido consensual no país inteiro mas em certas regiões cabe ali uma camada nova de significado.  Às vezes por uma pequena quebra de regulamento.

Em Campina Grande usa-se muito o termo “pertubado”, escrito assim, para qualificar certos sujeitos que são mentalmente ou emocionalmente instáveis, aquelas granadas sem pino sempre a ponto de explodir.

O jeito local de falar conhece, sim, o adjetivo padrão “perturbado” (desorientado, inquieto, instabilizado) mas emprega também o substantivo “pertubado”:

– Lá vem aquele pertubado que passa o dia lá na pracinha.

A questão é que um hipotético tradutor estrangeiro poderia confundir os dois usos de formas tão próximas. Poderia até constatar o “erro” numa delas e atribuir a um coloquialismo ou rusticidade. Mas talvez não captasse o uso desse “erro” para individualizar aquele emprego da palavra.

Um termo que pra mim é tipicamente paraibano é o substantivo “muído”, para designar qualquer atividade incessante, repetitiva, que parece nunca acabar e que nunca leva a lugar nenhum. Eu escrevo “moído”:

– Rapaz, bora pagar logo a conta e acabar com esse moído, faz meia hora que vocês discutem com o garçom.

O problema é que escrevendo assim, da maneira aparentemente correta, o leitor é induzido a pronunciar “mOído” ou (pior ainda) “mÔído”, o que distorce totalmente a palavra. Tem que ser um “U” bem tosco e bem sonoro, senão não é a mesma palavra.

– Cheguei atrasado por causa daquele muído de entregar convite e procurar crachá.

“Pertubado” e “muído” são leves corruptelas. As palavras originais fazem parte do repertório nacional da língua brasileira, mas ali naquela região apresentam esse pequeno desvio de sentido, indicado por um pequeno desvio de pronúncia.

Algo parecido, em escala nacional, se dá com a palavra “bêbo” para substituir “bêbado”. Esses acentos diferenciadores já foram podados pelas reformas ortográficas, mas eu insisto em usar, para distinguir do verbo (“eu bebo”).

Muita gente de certa fineza vocabular ergue a sobrancelha diante desse termo, mas eu o considero um dos pilares do idioma. Não vejo sentido em escrever algo como:

– A festa foi ótima, e eu cheguei em casa bêbado.

Nunca!  Tem que ser:

– Eu cheguei em casa bêbo.

Há neste vocábulo uma síncope sutilíssima que reproduz a fala pouco articulada dum bêbo legítimo.

Existe uma pergunta irônica no linguajar nordestino, na verdade uma reação a algo que o interlocutor acabou de dizer. A gente pergunta: “Cuma?...”  O sentido genérico é: “Como? O que foi que você disse?”  Mas se disser “Como?” a fala perde totalmente a função, que é meio irônica, meio provocativa, como que se fingindo propositalmente de analfabeta diante da aparente sapiência do interlocutor.






















segunda-feira, 1 de abril de 2019

4452) A palavra cachéte (1.4.2019)



(ilustração: comprimidos)

Tem alguns termos que eu não acho que sejam necessariamente paraibanos, mas penso neles desse modo porque estão ligados à minha família, meu tempo de garoto, então pra mim são a cara da “Paraíba réa”. Têm uma carga afetiva, e acho que isso tem uma certa consequência filológica, etimológica.

As palavras que têm mais chance de se propagar (e se metamorfosear) etimologicamente ao longo dos anos são aquelas a que as pessoas recorrem com mais frequência, por motivos afetivos, inclusive.

Um exemplo: ninguém hoje em dia deve saber o que é “cachéte”.

(O acento agudo vai aqui para firmar a pronúncia. A gente deve sempre acentuar palavras pouco conhecidas, e que correm o risco de ser pronunciadas erroneamente pelos muitos que nunca as viram. Pelo menos nas primeiras vezes em que as usamos num texto. Danem-se os acordos ortográficos. Ortografia, inclusive de acentos, também pode, e deve, ser vista pragmaticamente.)

Cachéte significa pílula, comprimido, qualquer medicamento nesse formato. Meus pais diziam isso o tempo todo. “Tá com dor de cabeça? Tome esse cachéte.”

Uma vez, quando eu estudava em Belo Horizonte, meu pai teve que ir de Campina Grande pra Brasília com o reitor da FURNe, resolver alguma pendenga burocrática, e combinamos que eu ia passar dois dias lá com ele. Peguei o busão da Cometa e fui conhecer a Novacap. Seu Nilo tinha reuniões durante o dia, e de noite tomava umas e outras. Um dia amanheceu de ressaca, e chamou o bellboy do hotel. Ao abrir a porta, perguntou ao rapaz:

– Vocês têm cachéte pra ressaca?

A cara desacorçoada do rapaz está comigo ainda hoje. Ele disse:

– Ih, senhor... Eu estou por fora de cachéte.

– Cachete, rapaz. Tu sabe o que é. Cachete pra dor de cabeça.

Ele se apegou a essa frágil tábua de salvação e disse:

– Cachete nós não temos, mas eu posso trazer um comprimido pro senhor.

Entra aqui uma questão de ordem filológica. Existe uma diferença (me parece) entre comprimido e cápsula. Uma cápsula é um cilindro miudinho, oco, de extremidades rombudas, dentro do qual há um pozinho medicinal. Sua finalidade é ser engolida e garantir que o pozinho só seja absorvido pelo organismo daí a alguns minutos, depois que a “cápsula” propriamente dita se dissolva. Por quê, não sei, mas minha curiosidade científica só vai até aí, daí por diante é fé mesmo.

Já um comprimido é exatamente isso: um pozinho que foi compactado por alguma pressão enorme até se transformar num circulozinho espesso, duro. A gente engole inteiro e deixa desmanchar.

Voltando à raiz linguística, me ocorre imaginar que o “cachéte” de Seu Nilo vem do francês “cachet” (pronuncia-se “cachê”, como cachê de músico). A palavra vem do verbo “cacher”, que significa “apertar, pressionar, comprimir”, e então vualá! – em português torna-se “comprimido”.

Por algum tempo eu pensei que era o contrário. Pensei que quem deveria com mais justiça se chamar “cachéte” era a “cápsula”. Por que? Porque “cacher” em francês também significa “esconder, recobrir uma coisa com outra para que não fique visível”, etc. E na cápsula o pozinho vem exatamente assim – escondido.


(ilustração: cápsulas)

Vejam o que é o poder etimológico-afetivo de um termo (na composição do idioma a longuíssimo prazo), porque se Seu Nilo e Dona Cleuza não falassem o tempo todo em “cachéte” eu não estaria aqui agora, sessenta anos depois, lembrando desse termo só por tê-lo visto num livro de Raymond Queneau. Não ficaria cavucando um larusse onlaine em busca desse símbolo froidiano.

Quando eu era pequeno, era chato, luxento, exigente. Me recusava a tentar engolir um cachete inteiro, alegando que podia me sufocar. Minha Tia Adiza dava-se então o trabalho de esmagar o cachete com uma colher, reduzi-lo a pó, misturá-lo com uma pitada de açúcar, e me dar na colher, acompanhado de um gole dágua.

Essa infância espoilada teve uma consequência interessante: hoje eu detesto tomar qualquer tipo de remédio, e para mostrar que não sou mais cheio de fricote, sou capaz de aguentar dor por muito tempo. Já aos quinze anos eu cheguei a passar semanas inteiras com um dente doendo e sem dizer a ninguém.

Como é possível? – perguntará a platéia. E eu me lembro daquela piada sobre os dois hippies. Dois hippies estão, alta madrugada, dando uma bola no mato, olhando a lua cheia, junto de uma lagoa infestada de crocodilos. A certa altura da viagem, um deles diz: “Ih, meu irmão... Tou sentindo uma coisa aqui... Um jacaré tá comendo minha perna.” O outro diz, calmo; “É mesmo, rapaz? Qual?”  E o primeiro: “Sei lá, véio... jacaré é tudo parecido...”





sábado, 2 de fevereiro de 2019

4430) João Furiba, XXXX-2019 (2.2.2019)




“Perde-se na noite dos tempos” a data precisa de nascimento do violeiro repentista João Furiba, falecido dias atrás na cidade de Triunfo (PE). Algumas versões atestam que ele tinha completado recentemente 100 anos de idade, outras dizem que não passou dos 89.

Me senti como quando fui escrever neste blog sobre a morte de Chuck Berry e, pesquisando na web, achei quatro datas de nascimento, bem afastadas umas das outras.

Furiba, cujo nome civil era João Batista Bernardo, foi um dos mais simpáticos e imprevisíveis cantadores de sua geração. Seus traços principais eram o humor, a imaginação e a mentira criativa, entendida aqui como o ato onde o sujeito inventa uma história claramente impossível, para deleite da platéia, e não para enganar alguém.

“Mentir, não para prejudicar outra pessoa, mas por amor à arte”, como aconselhava Ariano Suassuna.

Baixinho, magrelo, cheio de dentes de ouro, era um conquistador inveterado. Viajava o Brasil inteiro e diz-se dele que jogava no time de Garrincha – nunca se hospedava num hotel sem acabar fisgando alguma camareira compreensiva.

Conheci Furiba nos Congressos de Violeiros de Campina Grande, a partir de 1975; viajei com ele durante um mês inteiro na famosa Viagem dos Poetas ao Brasil, organizada por Giuseppe Baccaro em 1979, atravessando 13 Estados. 

Vi-o em dezenas de cantorias, em palco de teatro ou em pé-de-parede de botequim em bairro distante, e era sempre o mesmo. Metade dele era um velhinho bem humorado, metade era um garoto traquina.

Num dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, ele cantava em dupla com Diniz Vitorino, quando Diniz se revoltou com uma decisão do júri, irritou-se e declarou que não cantava mais, saindo imediatamente do palco. Furiba ficou dividido entre a solidariedade ao parceiro e o compromisso profissional (sem falar na vontade de ganhar o festival). Fez um discurso que conquistou o público e ganhou a noite:

-- Meus amigos... eu me sinto como o soldado que em pleno campo de batalha fica separado de seu pelotão... Devo erguer minha arma e partir sozinho na direção da morte?

A casa veio abaixo de aplausos. Furiba não foi o campeão do Congresso (como a disputa era em duplas, ela teve que se retirar também) mas durante meses não se falou noutra coisa nos círculos cantadorísticos de Campina.

Em 1991, por iniciativa e esforço dos apologistas Urbano Vilar e Zelito Nunes, do Recife, foi publicado o livro de memórias Furiba – Falando a Verdade (Imprensa Universitária da Universidade Federal Rural de Pernambuco), onde a brincadeira já começa no título.



Segundo algumas más línguas, a mentira já começa na abertura do capítulo 1, pela data de nascimento, que alguns dizem ser falsa porque ele queria posar de “mais novinho”. Mas ele começa o livro assim:

Nasci no dia 4 de julho de 1931, no sítio Bomba d’Água, de Serra de Cachoeira, no município de Taquaritinga do Norte, no Agreste Pernambucano.

Minha mãe lavava roupas à margem do rio quando, num repente, eu vim ao mundo. Muito nova e inexperiente minha mãe correu assustada para casa.

– Mãe! – disse à minha avó. – Acho que abortei na beira dágua!

Minha avó correu para ver e encontrou-me, do tamanho de um preá, ainda envolto na placenta. Pegando-me com cuidado, levou-me para casa julgando que eu estivesse morto.

Quando fiz alguns movimentos, procuraram agasalhar-me melhor. Encubadeira não havia. Com os restos de algodão da roca, embrulharam-me e colocaram-me numa caixa de sapatos. (p. 5)

O livro, no modelo habitual de memórias de cantadores, resgata inúmeros trechos de cantorias em que o companheiro encerra uma estrofe largando uma rima qualquer que serve ao protagonista para improvisar um verso arrasador. Um exemplo:

Na estação do trem, antiga, de Campina (1976), Luiz Bonifácio também perguntou:

– Como vai teu armazém
  está grande o movimento?

Eu, Furiba, o grande, respondi:

– Está fraco o sortimento
  não sei se é má sorte minha;
  gastei duzentos milhões
  acabei tudo que tinha
  lá no armazém pode ter
  cem mil cuias de farinha.  (p. 68)

Gabar-se de riquezas fantásticas e de conquistas amorosas era a linha temática principal dos versos de Furiba, aquela que os admiradores iam sempre na expectativa de escutar. As brincadeiras eram ressaltadas pela vida modesta que levava, sua feiura simpática, seu comportamento modesto, afável.

Basta ver uma coisa: nesse livro que estou citando, ele além de fazer uma antologia dos seus próprios versos inclui uma enormidade de versos de Severino Pinto, o rei dos cantadores, seu grande parceiro. Mesmo na hora de puxar os refletores para sua pessoa, ele dá um jeito de puxar Pinto para perto de si, celebrar os grandes versos do amigo.

Na década de 1980 eu já estava morando no Rio e colaborei em alguns roteiros de shows de Elba Ramalho, que estreavam no Canecão. Num deles, Coração Brasileiro (1983), para falar dos nordestinos que vinham morar no Rio de Janeiro e tinham experiências diferentes, umas boas, outras ruins, fiz Elba recontar esse episódio de uma cantoria entre Furiba e Pinto do Monteiro:

No SESI de Caruaru, numa cantoria organizada pelo major Sinval (1964), eu, chegado há pouco do Rio de Janeiro, fiz esta sextilha:

O que se vê no Nordeste
é caminhão pau-de-arara,
o povo passando fome
que o suor desce na cara,
a diferença é enorme
do povo da Guanabara.

Pinto faz, então, uma das suas mais conhecidas estrofes:

O que vi na Guanabara
foi nego descendo morro
desastre no meio da rua
gente no Pronto Socorro
ladrão batendo carteira
mulher puxando cachorro. (p. 38-39)

Este episódio, que sempre arrancava uma gargalhada geral, servia como introdução para Elba cantar a música Nordeste Independente, parceria minha com Ivanildo Vila Nova.

Num depoimento ao final do livro de Furiba, o apologista Antonio de Catarina, de São José do Egito, faz essa descrição verdadeira e divertida:

Por este motivo, vou falar sobre o João Furiba, de pequena estatura, que tem o costume de cumprimentar os amigos encostando a cabeça no nosso peito. Talvez seja para nos auscultar o coração, e com ele entrar em ressonância. Diz compadre Gregório que é pra sentir o volume da carteira e calcular a “facada”. (p. 81)

Cantando com Pinto, Furiba viu o amigo terminar a sextilha dizendo:

Não sei que tem vaca magra
come tanto e não engorda.

E Furiba respondeu:

É porque feijão de corda
já está custando cem;
farinha por cento e dez
e milho caro também;
se Deus não pisar no freio
não vai escapar ninguém. (p. 10-11)

O livro de Furiba é cheio dessas tiradas, e de episódios que sendo Furiba eu penso logo que é mentira, mas sendo num livro impresso em papel, com capa e tudo, penso que pode ser verdade. Como quando ele lembra o tempo em que foi comissário de bordo da antiga Panair, e quando o general Castelo Branco fechou a empresa ele viu-se ilhado na Itália, vagueou por Milão, Napoles e Roma até encontrar num aeroporto um piloto da Varig que era seu amigo e o contrabandeou de volta para o Brasil.

Furiba assevera que em 1961 sofreu um acidente num voo com um DC-7 da TAP, que vinha de Portugal, fazendo a rota Lisboa-Rio-Lisboa.

Ele caiu na Fazenda Modelo, perto do Recife. Eu estava nele como segundo comissário. Dessa vez vi morrerem 18 pessoas queimadas. Fui pouco atingido mas em 1964 comecei a sentir dores na espinha.

A opção pela viola lhe trouxe amigos, viagens seguras por chão de terra, namoros sem conta, e a modesta fama de quem brilha no céu da poesia improvisada.

Seria possível montar um belo livro sobre os versos e as aventuras de João Furiba, o Bem Amado. Com mentiras e tudo, para ser um livro mais fiel à verdade da vida.

Vi-o pela última vez uns três anos atrás, em São José do Egito, durante a “Festa de Louro”. Eu estava bebendo nas barracas quando vieram dizer que Furiba tinha chegado. Fui até lá. Ele estava numa cadeira de rodas, cercado de fãs. Se já era magro quando no auge, agora depois dos 90 estava parecendo uma espinha de peixe.

Cheguei perto, passei o braço nos seus ombros, ele me olhou com olhos meio desfocados e um sorriso firme. Eu disse:

– Fala, Furiba. Tá me conhecendo? É Braulio, lá de Campina Grande.

Ele sorriu e respondeu:

– Braulio? E cadê o cabelão? – E fez o gesto, descrevendo a cabeleira de dois-palmos que eu usava na época.

Dias atrás, quando circulou a notícia de sua última decolagem, começaram a pipocar no Facebook dezenas de postagens cheias de saudade e homenagens ao grande repentista.

Zelito Nunes postou um texto de despedida, e o mote: “Depois de Pinto, o maior, / Furiba nos deixa agora.”

Deixei lá esta glosa de lembrança, e um abraço ao poeta que se foi:

Magro, pequeno, mirrado,
cheio de dentes de ouro,
tinha no peito um tesouro:
um coração bem amado.
Foi querido e respeitado
por este Brasil afora,
e hoje não mais namora,
nem é mais dono da Ford...
depois de Pinto, o maior,
Furiba nos deixa agora.




(Zelito Nunes e João Furiba)









quinta-feira, 6 de setembro de 2018

4383) Dez grandes jogos do Treze (6.8.2018)




(time do Treze, com Garrincha)


Mário Vinicius Carneiro é hoje o historiador do Treze Futebol Clube, posto que herdou informalmente do inesquecível Severino Marinho Leite. Seu livro Treze Futebol Clube: 80 Anos de História (A União, 2006) é uma obra imensa e preciosa, tornada minúscula apenas diante da gigantesca tarefa a que se propôs: contar a história do clube mais querido e mais heróico da Paraíba.

Ele me pede, para outro trabalho, um breve relato de “dez jogos inesquecíveis” do Galo. Eu poderia enumerar aqui dez vitórias arrasadoras, entre milhares. Mas prefiro destacar jogos que, independente do seu resultado, tenham sido marcantes na minha história pessoal como torcedor.

1)
Durante muitos anos eu, garoto ainda, lamentei não ter podido assistir a partida de 6 de janeiro de 1961 quando o Treze empatou em 1x1 com o Dínamo, de Bucarest. Consta que foi o primeiro jogo internacional realizado em Campina Grande. Não foi o primeiro jogo internacional do Treze: em 16 de dezembro de 1951 o Galo havia perdido de 3x2 para o Vélez Sarsfield (Argentina), num amistoso em João Pessoa. O Dínamo ficou sendo uma espécie de lenda em Campina; o pessoal dizia que no primeiro tempo o sol forte castigou os romenos, mas quando o sol foi esfriando eles botaram pra correr e deram uma prensa no time do Galo.

2)
Outro jogo histórico foi quando o Treze enfrentou a Seleção da Romênia no Estádio Presidente Vargas, em 8 de fevereiro de 1968. O time romeno era mais ou menos o mesmo que dois anos depois seria derrotado pelo Brasil na Copa do Mundo do México. O grande detalhe esse jogo foi a presença de Garrincha jogando pelo Galo. Nessa época, o grande Mané vivia viajando pelo Brasil, jogando partidas por clubes de qualquer lugar, por uns trocados. Gordo e sem muita força para driblar, mas (segundo os que tomaram umas e outras com ele) simpático e bem humorado. Só fez uma jogada certa: pegou a bola quase na lateral do campo e fez um cruzamento longo na cabeça de outro atacante, e o Estádio inteiro ficou de pé ao mesmo tempo.

3)
Não posso deixar de fora o dia histórico em que o Galo se tornou campeão paraibano invicto de 1966, derrotando o Campinense por 1x0, gol de Cocó. O presidente do Galo era Edvaldo do Ó, também reitor da Universidade Regional , que costumava bater de frente com quem se atravessasse. O Treze nesse ano rompeu com a imprensa e editou seu próprio jornal (“A Tarde”); as rádios eram proibidas de transmitir os jogos no Estádio Presidente Vargas. Um ano antes, quando o campeonato de 1965 ainda estava em curso, ele havia anunciado pelo rádio: “Este campeonato já está perdido, mas eu prometo à torcida que no ano que vem o Treze vai ser campeão invicto”.

4)
Tem jogos que nem são tão importantes assim, mas a gente não esquece. Por volta de 1976 Treze e Campinense estavam numa fase de grandes contratações. O Galo tinha contratado desde o ano anterior o meia Soares e o atacante João Paulo. Foi marcado um amistoso no Amigão, uma espécie de caça-níquel de pré-temporada, e o Treze derrotou o Campinense por 2x0, gols de Soares e João Paulo. A imprensa rubronegra estrilou, queixando-se de que os reforços do time Raposa não tinham chegado a tempo para o jogo. E foi marcada uma partida revanche para a semana seguinte, no mesmo local. E dessa vez o Campinense entrou completo, com todas as novas estrelas reluzindo. E o Treze ganhou de 2x0, gols de Soares e João Paulo. Foi o famoso “jogo replay”.

5)
Em 8 de dezembro de 1974, um jogo histórico do Galo no antigo Estádio Leonardo da Silveira, na capital. O Treze precisava de uma vitória sobre o Botafogo para conquistar o quarto e último turno de um campeonato onde o Campinense já ganhara os três primeiros. A BR-230 ficou congestionada nesse dia de tantos ônibus e carros partindo para João Pessoa. A torcida alvinegra invadiu o Estádio e vibrou do começo ao fim com a vitória por 2x1, gols de Fernando Canguru de cabeça e Vandinho. Foi um jogo literalmente “ganho pela torcida”.

6)
Nessa mesma época, o Treze inaugurou os refletores do Estádio Amigão num amistoso com o Flamengo carioca, em 13 de agosto de 1975. Isso foi no auge do meu envolvimento como torcedor. Lembro que passei a noite da véspera nos fundos do Cine Babilônia (cujo gerente, Luiz Teixeira, era trezeano autêntico), dando instruções ao pintor de cartazes (cujo nome não lembro agora) para pintar as faixas que íamos levar no dia seguinte, das quais só lembro os dizeres de uma: “O Treze saúda a imprensa, / testemunha da sua História”. Com a bola rolando, o Treze abriu o placar logo no início com João Paulo, e o Flamengo virou com dois gols de Zico, vencendo por 2x1.

7)
Seria meio ufanista registrar como inesquecíveis apenas as vitórias. As derrotas também são. Vou escolher como exemplo a da decisão do Campeonato Paraibano em 8 de fevereiro de 1965, um jogo noturno no “Plínio Lemos” (o estádio do Campinense). O Campinense ganhou por 2x1, de virada, com um jogador a menos (Zé Preto foi expulso no 1º. tempo), com um gol de cabeça de Zé Luiz. Três anos depois eu estava trabalhando na Reitoria da FURNe com Zé Luiz, e disse a ele que jamais o perdoaria por aquele gol, ao que ele deu uma grande gargalhada (pois agora já estava jogando no Treze.) Naquela “noche triste”, ensopei três travesseiros de choro.

8.
Não foi propriamente um jogo, mas ficou na história. Em 1974 o Treze estava há não sei quantos jogos sem ganhar do Campinense, um “tabu” que já durava mais de um ano. Muita coisa, considerando-se que em um ano os “maiorais” jogam várias vezes entre si. E então veio o “Torneio Início” do Campeonato Paraibano, um costume que não existe mais, onde os todos os times do campeonato disputam partidas de 15 ou 20 minutos em 2 tempos, decididas nos pênaltis em caso de empate. Nesse ano o Treze venceu o Guarabira, o Botafogo-PB e na decisão o Campinense, todos pelo placar de 2x0. Foi esse jogo que revelou o artilheiro Fernando Canguru, que marcou os 2 gols da decisão e virou grande ídolo do Galo.

9.
Tentei me lembrar de alguma grande goleada, porque goleada é sempre uma festa. E me veio à memória um período de uns dois meses, entre julho e agosto de 1973, em que o Treze aplicou uma série de goleadas em times paraibanos: 8x1 no Santos (de João Pessoa), 8x0 no Esporte (de Patos), 8x1 no Guarabira e 10x0 no Santa Cruz (de Santa Rita). Nessa época, eu assistia todos os jogos na arquibancada atrás do gol do portão de entrada, e era uma festa. Quando o Treze pegava a bola e partia em nossa direção, começava um coro frenético: “Lá vem, goleiro! Lá vem!”  E era um bombardeio, porque tínhamos um ataque muito bom, com Assis Paraíba, Vandinho, Zé Pequeno, Haroldo e outros. Quando a “carga da brigada ligeira” partia e a arquibancada ficava toda de pé, era uma beleza, nunca me diverti tanto.


10.
E para não ficarmos apenas nos jogos da antiga, registro um que curiosamente vi na tela do computador, poucas semanas atrás: Caxias 1x3 Treze, em Caxias do Sul, quando o Treze conseguiu a ascensão para a série C do Brasileirão. Uma partida impecável do Galo, que sofreu o gol de abertura, empatou ainda no primeiro tempo, virou no começo do segundo e fechou-a-tampa no finzinho com um gol sensacional de contra-ataque.


Cada jogo do Galo é uma página da História!  Amar um time de futebol é ser casado com o Imprevisível e virar sócio do Acaso. Eu vivo dizendo que larguei o vício, e de repente olha eu aqui.










domingo, 29 de abril de 2018

4342) Dez álbuns: 4 - Jackson do Pandeiro (29.4.2018)




Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.

O desafio inicial era falar de um álbum por vez. Como quem manda sou eu, baixo uma Medida Provisória e afirmo que estas três coletâneas de Jackson do Pandeiro formam um único disco. Se me apontarem um revólver à cabeça para eu dizer em qual dos três fica uma música qualquer, podem apertar o gatilho: não sei. Para mim, constituem uma totalidade inconsútil, um continuum.

E eles guardam a nata, o filé, a flor do coco da obra do mestre Jack, mesmo sabendo que ele tem outros álbuns sensacionais e jóias espalhadas por toda a sua discografia. Mas estes três discos não são álbuns no sentido de “obra inteira”: são coletâneas, empacotamento conjunto de sucessos que em sua época saíram de 2 em 2, na forma de discos de 78 rotações.

Se alguém me pagasse eu escreveria um livro inteiro sobre este repertório, mas como é de graça vou fazer como os vendedores de amendoim-torrado da Cinelândia: deixo uma derramadinha grátis e sigo em frente.

Ouvindo faixa por faixa, uma atrás da outra, a gente percebe a variedade de ritmos e de levadas que Jackson malabarizava em seus discos.

Veja-se por exemplo a cadência implacável das percussões conjuntas de “Casaca de Couro” (Rui de Morais e Silva), sem perder um microssegundo de compasso, ajudada pelo canto staccato do coro (tão preciso e marcante quanto o de “Na base da chinela”), justificando plenamente o grito de “ô serviço!” do cantor. Sem falar nas rasgadas lamentosas do clarinete, assinatura eterna desta faixa.

Não é só marcação pesada, é a sutileza. “Tem mulher, tô lá” é um xotezinho divertido, mas seu carimbo é a suspirada da sanfona depois do “tem mulher...”.

“Peneirou Gavião” tem esse paralelo visual (a famosa fanopéia) entre o movimento do gavião planando (peneirando) no ar e o movimento da peneira com a massa da mandioca. E tem um verso de pé-quebrado (faltando uma sílaba), “Filozinha gritou”, que o cantor encaixa magistralmente no ritmo sem deixar traço.

Acho que já se escreveu muito sobre “Cantiga do Sapo”, com seu “Tião – Ôi...”.

Quem já morou perto das lavanderias do Alto Branco já ouviu de longe esse coro dos sapos à noite, um perguntando, outro respondendo, coro que foi glosado por Manuel Bandeira ao satirizar a cena literária carioca (“Os sapos”, em Carnaval), e que Moacir Laurentino imortalizou numa sextilha:

Acho bonito o sertão
quando o chão está molhado:
um sapo faz “ôi” daqui,
outro “ôi” do outro lado,
parecem dois violeiros
cantando um mourão voltado.

E um “diálogo” também imitado no refrão entre o coro masculino e o feminino, e depois nos floreados do clarinete e da sanfona.

Acho que uma das primeiras músicas de Jackson que vieram catalogadas como “samba” foi “Falsa Patroa”, uma música de malandragem digna de Moreira da Silva:

Doutor delegado, eu não tive culpa,
foi a sua criada que me convidou,
doutor, dizendo que o apartamento era dela
me pegou pelo braço para jantar com ela...
O senhor compreende, viu doutor?
A cabrocha é boa... Eu fiquei iludido
até pensando que ela fosse a patroa.

Olha só a distância psicossocial que existe entre músicas rurais e ingênuas como “Moxotó” e uma música como esta, tipicamente de Copacabana ou Botafogo nos anos 1950, com seu exército invisível de empregadas domésticas descolando um PF para um paraíba amigo, na ausência dos donos da casa. Seu lado B deveria ser o “Xote de Copacabana”, que já cantei mil vezes em mesa de bar: “Eu vou voltar, eu não aguento, o Rio de Janeiro não me sai do pensamento”.

Sem falar que nesta faixa aparece por duas vezes uma marca registrada de Jackson: o tratamento “nego véi”, com que ele se dirigia a todo mundo.

Ainda na coletânea O Rei do Ritmo tem pelo menos três faixas com uma coisa curiosa na música nordestina de então: a canção de briga, que seria um equivalente ao funk proibidão ou gangsta rap de hoje em dia. A música que fala de sururu, briga, quebra-pau entre bêbados ou entre eles e a polícia.

“Forró em Caruaru” (Zedantas): “Matemo dois soldado, quatro cabo e um sargento; compadre Mané Bento, só faltava tu!”

“Cabo Tenório” (Rosil Cavalcanti): “Os caba de lá quiseram lhe bater, e ele gritou: Vixe! Vai ter confusão. Balançou a mão, deu murro e bofete, tomou canivete, peixeira e facão...”

“O crime não compensa” (Genival Macedo / Eleno Clemente): “Antigamente eu só andava bem armado, uma peixeira, um revólver e um punhá, tinha uma foice bem vazada dos dois lados, o maior prazer da minha vida era matar”.

Essas músicas passariam hoje nas censuras? Tanto a censura do policialmente errado quanto a censura do politicamente correto? Cartas para a redação. Sociologicamente, elas são reflexo de um tumulto social permanente entre polícia, gente pobre querendo se divertir e gente perturbada querendo perturbar. Canções são acusadas de “fazer apologia” da violência, mas eu vejo tais canções como crônica, jornalismo, documento, retrato da vida real de quem canta e de quem ouve.

E nem vamos nos espalhar no resto do repertório jacksoniano, com “Forró do Surubim”, “A Lei da Compensação”, “Forró em Limoeiro”, “Pacífico Pacato”  e tantas mais.

Essa é a única realidade do forró? De jeito nenhum. Violência tem no rock, tem no samba. Briga em salão tem nos Clubes que reúnem a fina-flor da nossa sociedade, quando um grupo de playboys resolve tomar as dores do filho de Doutor Fulano cuja noiva foi desacatada por alguém. (Eu já vi muita mesa e muito litro de uísque voando pelo ar, nas tertúlias dos nossos sodalícios.)

Saindo dos forrós urbanos e suburbanos, Jackson lembra também o baião rural, coco rural, sei lá que classificação etnomusicológica se dá a isso.

Como por exemplo a beleza que é “Coco do Norte” (Rosil Cavalcanti):

No coco do Norte tem caracachá,
zabumba, ganzá, poeira do chão,
coqueiro fazendo improvisação,
compadre e comadre seguro na mão;
batendo umbigada com palma de mão...

“Isso assim é coco, nunca foi baião”, diz o próprio estribilho da música. E outro retrato rural que vai fundo é o de “Êta baião” (Marçal Araújo):

Como é bonito ver, no alto sertão,
os violeiros rasqueando a prima com bordão...
Os cabras fazem desafio
rima sem perder o fio
e assim nasce o baião... Êta baião!

São os velhos batuques de cem anos atrás, as festas de fazenda em que se misturavam a dança ao som das percussões e os improvisos ao som da viola, antes que as duas modalidades se separassem para seguir carreiras independentes.

É o universo de Dona Guidinha do Poço de Oliveira Paiva, de Luizinha de Araripe Jr., de tantos livros de época que registraram essa origem comum de nossa criação musical e poética. O tronco de onde brotaram Pinto do Monteiro e Jackson do Pandeiro.










terça-feira, 20 de março de 2018

4327) Nomes de brincadeiras (20.3.2018)



As brincadeiras infantis, ou de meninada em geral (futebol de pelada, p. ex.) sempre produzem um vocabulário muito rico. Aqui vão alguns verbetes comentados, com exemplos.

BALEEIRA
O mesmo que “baladeira, baleadeira, bodoque, estilingue”.  Não tem relação com “navio baleeiro”, dedicado à pesca da baleia.  Também se grafa “balieira”.

Eu, à medida que me punha taludo e me iniciava com as cabras de minha Tia – de um modo que contarei melhor, depois – começava a deixar de lado as caçadas de balieira e badoque, e a me chegar mais, de noite, para a roda das mocinhas e meninas, antes desprezadas como indignas do interesse de um homem.
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, pag. 50)


FRECHEIRO
Mergulho na direção da água; salto com os braços estendidos para a frente.  “Eu gosto é de tomar banho de açude, passar o dia dando frecheiro dentro dágua”.  Também se usa a forma verbal: “Quando ele foi chegando foi logo tirando a roupa e frecheirando dentro do rio”.  Téo Azevedo e Assis Ângelo registram “flexeiro”.

PAPANGU
Mascarados que saem no carnaval; usam macacão folgado, de pano fino, estampado, que cobre o corpo inteiro; usam luvas, e um capuz com buracos para olhos, nariz e boca.  Frequentemente não se consegue distinguir se se trata de um homem ou uma mulher, a não ser que falem – quando, em geral, disfarçam a voz.  Saem na rua, sozinhos ou em bando, tirando brincadeiras com todo mundo.  Assemelham-se aos "clóvis" do Rio de Janeiro, menos no detalhe das bexigas cheias de ar com que os clóvis saem batendo. 
Também se usa o termo como um pejorativo vago, sem referencia específica a esses palhaços: "Tu viu o namorado novo dela?  Muito melhor do que aquele papangu que ela namorava no ano passado."

Contam dele que no carnaval de 1911 brincou tanto de entrudo e bebeu tanto que esquecera de ter terminado o carnaval, e na quarta-feira de cinzas, sem máscara, com voz de papangu, na porta de seu estabelecimento perguntava a quem chegava: "Você me conhece?" 
(Cristino Pimentel, Abrindo o Livro do Passado, vol. 1)

  
ACADEMIA
Ou “cademia” (forma que ouvi com mais frequência, na infância): é a brincadeira de crianças conhecida como “jogo da amarelinha”. 

“Que as pedras, as pedras mesmo, que o senhor ensinou a identificar em mica e cristais de rocha e basalto e etc., sabe o que a gente fazia?  Jogava era na academia, segundo a língua de minha vó; que ela nunca chamou aquilo de simples amarelinha.  Minha vó chama de academia e a gente pulava, atirando a pedra no corpo desenhado a giz no chão, no puro chão, único lugar onde o giz cabia, a gente pulava por um fio, equilibristas, as pernas abertas pra não pisar nas linhas do corpo e ser o otário número 1, de marca maior, tendo apenas o direito a um minuto, no descanso, e então prosseguindo até atingir o céu.”
(Marilene Felinto, O Lago Encantado de Grongonzo),

O nome “amarelinha” tem ligações com outra denominação, “jogo da maré”, nome certamente vindo do francês “marelle”.

Alguns minutos depois, ouviu-se o barulho das meninas jogando maré e cantando:
Três passos no éter
E volte à Terra
Jogue a vértebra
E a negra álgebra
O chocalho passeia
A estupidez humana.
(Stefan Wul, A Cadeia das 7, tradução de David Jardim Júnior)

Ao que parece, o mesmo jogo em Portugal chama-se “macaca”, como se vê na tradução portuguesa do mesmo livro, mesmo trecho:

Alguns minutos depois, ouviram as gémeas jogar à macaca.  Cantavam:
Três passos no Aither
E regresso à Terra
Atira a vértebra
E a negra álgebra
O guiso propala
A estupidez humana.
(Stefan Wul, O Império dos Mutantes, tradução de Amadeu Lopes Sabino)

Em inglês é  “hopscotch” e em espanhol “rayuela” (que serviu como título para o famoso romance de Julio Cortázar).


POR CIMA
No futebol de  pelada, na ausência de traves, é comum que as duas barras, ou gols, sejam feitas com duas pedras, dois montes de roupas, etc.  Dessa forma, um gol só se distingue claramente de uma bola-fora quando o chute é rasteiro. Nas bolas altas ou a meia-altura, é o consenso (e o “bocão”) que define.  A bola “por cima” é a que passa por cima de uma das pedras que marcam a meta -- equivaleria portanto a uma bola na trave.  Quando ao limite superior da barra, é determinado pela altura do goleiro: o chute parte, o goleiro salta e tenta alcançar.  Se pelo menos toca nela, considera-se que a bola não foi “alta”, e vale o gol.  Muitos goleiros acabam pulando menos do que poderiam, para não correr esse risco; mas, como acontece com tudo nos jogos de pelada, onde não há juiz, quem determina se foi gol, se foi “por cima” ou se foi “alta” é o bate-boca que se segue imediatamente após o lance.


ALAÚÇA
Corruptela de "La Ursa". Folguedo de carnaval que consiste num homem fantasiado de urso, com roupa feita de estopas velhas, puxado por uma corrente presa ao pescoço, e que percorre as ruas seguido por um grupo musical com sanfona, zabumba, pandeiro, etc.  Saem com latas na mão, pedindo dinheiro de porta em porta e dançando no terraço de cada casa, seguidos por uma multidão de moleques.  Originalmente devia-se dizer: “Olha, lá vem La Ursa!”, que deve ter mudado para “Lá vem a ‘La Ursa’!”  e finalmente “Lá vem o Alaúça!”. Um corinho frequente gritado por todos diz: “Alaúça quer dinheiro! Quem não der é pirangueiro!”. (Pirangueiro é vagabundo, malandro, etc.)

Vamos embora, segue o itinerário
por ali passamos, por aqui passou
um alaúça de fita amarela
abrindo janelas para o nosso amor.
(Alceu Valença, Marim dos Caetés)


AMORCEGAR
Pegar carona num caminhão ou outro veículo, pendurando-se na parte traseira.  Prática comum entre garotos de bairro.  Também usa-se dizer: "Pegar morcego".  "Quando a mãe de Fulano está em casa ele passa o dia quieto, não sai nem no terraço, mas quando ela vai na rua ele corre pra pista e fica amorcegando os ônibus". 
A origem da expressão é a posição em que o garoto fica, como um morcego pendurado no teto da caverna.  O "pegar morcego" pode ter função prática (ir daqui até ali sem pagar passagem de ônibus) ou ser uma simples brincadeira perigosa e excitante.  Não se aplica quando a pessoa está numa bicicleta e agarra o veículo para poupar esforço.

E o menino amorcegando caminhão
foi apanhado numa rede de cordão
sem entender o triste significado
da palavra educação.
(Ivan Santos, Ilha do Bispo)

Eu, por mim, como lhe disse, tinha chegado atrasado.  Assim, só quase uma hora depois que passou a Cavalhada, foi que o primeiro devoto meteu o pé na Estrada, mas, agora, já está tudo quanto é de gente vindo de Estaca Zero, a pé, por aí, de Estrada afora!  Eu tive a sorte de amorcegar um caminhão, que me deixou no Cosme Pinto!
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino)











quarta-feira, 20 de setembro de 2017

4270) Palavras do dicionário paraibano (20.9.2017)



Quando falamos em linguajar regional, geralmente pensamos em palavras específicas de uma parte do Brasil . “Oxente” é nordestino, “bah” é gaúcho, “porreta” é baiano, “uai” é mineiro e assim por diante.

Outro aspecto, também muito comum, é que uma mesma palavra, de uso geral, seja dita com um significado num lugar, e com outro significado numa região diferente.

VEXAME
Acho que já falei nesta coluna sobre a palavra “vexame”. No Sudeste, ela é usada como sinônimo de “constrangimento, vergonha”: “Passei o maior vexame no restaurante porque meu cartão apareceu como bloqueado”. No Nordeste, usamos com mais frequência como sinônimo de “pressa”: “Deixe de vexame porque ainda falta meia hora para o banco fechar, vai dar tempo”.

MALA
Outro termo que às vezes gera malentendidos: “mala”. No Rio, um sujeito mala é um chato-de-galochas, um cara insuportável, sentido reforçado na fórmula intensificada: “Fulano é um mala sem alça”. Em Campina Grande, pelo menos, “mala” é sinônimo de “malandro, esperto”, e muitas vezes é usado como elogio: “O atacante foi muito mala, bateu a falta depressa e pegou a defesa deles aberta”.

EMBALAGEM
Veja outro termo interessante: “embalagem”. Na Paraíba, pelo menos, não é apenas sinônimo de “papel de embrulho, invólucro”, e sim de “embalo, impulso, momentum (massa x velocidade)”.  “O motorista até tentou frear, mas o caminhão vinha numa embalagem muito grande e acabou virando por cima do muro da casa.”  Também se usa “aproveitar a embalagem” no sentido figurado, equivalente a “aproveitar que está com a mão na massa”:   “Já que você está lavando a cozinha, aproveita a embalagem e lava também o banheiro”. Nesse sentido, quem e de fora deve interpretar a palavra como se fosse “embalo”.

ENGUIÇAR
No Brasil inteiro enguiçar é “dar defeito, pifar” – aplicado a máquinas e motores em geral. No Nordeste, enguiçar é passar andando por sobre o corpo ou as pernas estendidas de alguém que está sentado no chão.  Diz a superstição popular que quando isto acontece a pessoa que foi “enguiçada” não cresce mais. Acredita-se que para anular o efeito basta “desfazer” o ato, passar de trás para diante.  “--Ei!  Que história é essa de vir entrando e enguiçar a gente?  Pode voltar, e desenguiçar!” Também já vi ser atribuído ao ato de “enguiçar” o poder de cura contra mau-olhado.  “Esse menino só vive doente ultimamente!  Tá bom de alguém enguiçar ele, isso deve ser mau-olhado.”

E ali com um punhal
Para Adriano avançou
Mas Adriano ligeiro
Por cima dele saltou
Então quando o enguiçava
Mesmo no vão lhe cravou.
(Expedito Sebastião da Silva, folheto “Adriano e Joaninha”)


ARRUMAR
Diz-se no sentido de “arranjar, conseguir”.  "Me arruma aí um dinheiro, que eu deixei a carteira em casa".  "Vou falar com meu tio para ver se ele me arruma um emprego na Prefeitura."  "Ele foi passar as férias no Rio e acabou arrumando uma noiva."

CAÇAR
Parece ser um arcaísmo no sentido que descrevo aqui, o de “procurar”. É geralmente usado por gente iletrada ou gente bem do interior rural.  “Desde hoje que eu estou caçando meus óculos e não sei onde botei.”   “Fulano está caçando emprego desde o fim do ano passado.”   É linguagem bem característica de “gente do mato”. 

CARREGAR
Não é apenas “dar carga” (“Preciso lembrar de carregar o celular antes de sair”). Usa-se mais como “levar embora”, no mesmo sentido em que se usa dizer “Vá para o diabo que o carregue”: “Quem foi que carregou meu guarda-chuva, que eu deixei aqui junto da porta?”  « Cuidado com esses meninos brincando soltos na rua, um dia aparece um tarado e carrega um! » 

DOIDINHO
É o que chamam de “bobo” no Rio de Janeiro. No futebol, brincadeira em que um grupo de jogadores troca passes entre si, enquanto um deles, escolhido por sorteio, tenta apoderar-se da bola; quando o consegue, o “doidinho” passa a ser o jogador que perdeu a bola para ele.  Também se diz “zorra”.  Usa-se também como termo de comparação: “Eu não sei pra que escalaram Fulano como centroavante: a defesa dos caras passou o jogo todo fazendo doidinho com ele.”

RAZÃO
Usa-se muito no Nordeste como sinônimo exato de "arrogância, prepotência": "Ei, que razão é essa?  Quem é você pra vir me dar ordens?"  "Fulano é muito engraçado: a gente faz o trabalho todo, resolve todos os problemas, aí quando é depois ele chega, com a maior razão do mundo, botando defeito em tudo."  É mais frequente na expressão "cheio de razão": "Estava tudo muito tranquilo, mas de repente chegou um cara todo cheio de razão, dizendo que era amigo do dono do bar e que aquela mesa era dele."  

BONDADE
Assim como “razão” é usado com viés negativo, o mesmo se dá com “bondade” em certos contextos. Quando se quer dizer que um indivíduo é humilde, pacato, não quer ser melhor do que ninguém, diz-se: “Fulano me surpreendeu, é uma pessoa sem bondade, conversa com todo mundo, trata todo mundo como igual”. O sentido subjacente é que o sujeito não pretende ser “mais bom” do que ninguém.