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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




quarta-feira, 2 de maio de 2018

4343) A arte do símile (2.5.2018)



(na foto: Jessier Quirino)

O símile, ou comparação, é um recurso literário que fez a fama de muitos autores. 

É diferente da metáfora. Se digo que “o céu nublado parecia o teto de uma caverna” estou fazendo uma comparação ou símile; se digo “o céu nublado era o teto de uma caverna” isto é uma metáfora. 

Um autor célebre pela sutileza e precisão dos seus símiles é Raymond Chandler, em seus romances policiais sobre a Califórnia dos anos 1940. Os símiles de Chandler (sempre através dos olhos de seu personagem-narrador, o detetive Philip Marlowe) são pequenos “flashes” que definem um personagem. 

Quando ele nos fala (em A Dama do Lago) de “um garçom enrugado, com olhos maldosos e um rosto como um osso com marcas de dentes”, não é apenas a imagem visual do rosto que ele nos transmite, mas a impressão da presença de uma voracidade cega, como a de um cão mordendo um osso. 

Em O Sono Eterno, numa cena de tensão e perigo durante um confronto a tiros em volta de uma casa, ele diz: “Lá fora a chuva ainda caía, com um som distante, como se fosse a chuva de outra pessoa”.  Essa comparação inesperada mostra a dissociação emocional do narrador: no interior daquele aposento há indivíduos a ponto de matar e de morrer, mas a chuva cai num mundo onde nada daquilo existe, um mundo onde o destino deles não tem a menor importância.

Toda a cultura oral e a literatura popular estão fervilhantes de símiles, registros da observação minuciosa das pessoas, das coisas e dos ambientes.

O poeta Jessier Quirino, em seus numerosos livros de poemas em linguagem “nordestinense”, utiliza o poder de observação dos poetas matutos para registrar símiles pitorescos como: “ligeiro que só coceira de cachorro” (note-se que para o nordestino “ligeiro” significa “rápido”), “cabelos pedindo afago feito um cachorrinho novo”, “tranquilo que só jumento em sombra de igreja”. Cada comparação destas nos dá não somente a idéia abstrata que o autor quer transmitir, mas também uma pequena polaróide de um ambiente humano e social. 

Guimarães Rosa é outro autor que explora essa tendência regionalista para o símile, produzindo frases que têm origem nessa capacidade comparativa do homem rural. Nos contos de Tutaméia encontramos “sutil como uma colher de chá”, “custoso que nem guardar chuva em cabaça”, “feia feito fritura queimada”, “inquieta como um nariz de coelhinho”. 

Em geral o símile pode ser reconhecido pela presença de um adjetivo, ou de uma locução descritiva qualquer, seguido de termos comparativos que variam de região para região: “como”, “feito”, “que nem”, “que só”, “tal qual”, “talqualmente”, “direitinho”, etc. 

Com ressalvas, claro.  Quando Jessier Quirino, num dos poemas do livro Berro Novo, diz que Fulano “saiu que nem uma vaca acuada de cachorro”, a comparação prescinde de um adjetivo. Ele não qualifica a saída do Fulano (“saiu desajeitado que nem...”, etc.), mas a comparação já basta para evocar a imagem de uma criatura pesadona perseguida por uma mais leve, e que sai bamboleando, meio aos tropeções, sabendo que não vai poder fugir mas fugindo assim mesmo.

O autor que se inspira nos modos populares de dizer não se limita a reproduzir, mas vai além e inventa imagens que dizem mais respeito a sua própria sensibilidade e sua memória afetiva do que à cultura oral. 

É assim que Guimarães Rosa diz de uma mulher pequenina que ela “semelhava a boneca de brincar de um menino enorme”, e Jessier diz de outra que “tinha o cabelo comprido como o vestido de Eva”.

Alguns símiles de Chandler se exprimem através de frases mais longas, que exigem mais da imaginação do leitor, como quando ele diz (em O Sono Eterno): “Os lábios dela moveram-se lentamente, com cuidado, como se fossem lábios artificiais e tivessem que ser manipulados através de molas”. 

É uma comparação complexa e levemente fantástica, mas exprime uma realidade psicológica que o leitor percebe sem dificuldade (a personagem é uma mulher calculista, pouco confiável) no contexto da história e do estilo do autor.

Chandler é capaz de trazer do nada esses elementos comparativos, de um modo que, em vez de desconcertar o leitor, trazem-lhe uma visão mais rica do ambiente descrito.  Ele diz (em A Dama do Lago): “O elevador automático era acarpetado de pelúcia vermelha, e tinha um perfume como o de três viúvas tomando chá”.  As viúvas parecem surgir do nada, mas na verdade surgem do mesmo ambiente californiano (de riqueza, ostentação e de um certo declínio) a que pertence o elevador. 

Quando Jessier Quirino diz de um acontecimento qualquer que era “devagar que só enterro de viúva rica”, ele usa o mesmo mecanismo de sugestão que Chandler. Não importa que sejam duas sociedades e culturas muito diferentes entre si.

O livro The Notebooks of Raymond Chandler mostra que ele anotava esses similes em longas enumerações, para não esquecer, e depois os inseria nas narrativas.

Ray Bradbury, outro mestre do símile, assim descreve um homem chegando em casa numa fase de problemas conjugais com a esposa: “Ele abriu a porta do quarto de dormir. Era como entrar na sala de mármore de um mausoléu depois que a lua se pôs.” (Fahrenheit 451).

Don DeLillo, em The Names, põe na boca de um personagem uma comparação coloquial, cotidiana: “Estou começando a encarar a Europa como um livro de capa dura, enquanto os Estados Unidos são a edição de bolso.”

Imitadores de Chandler costumam exagerar no uso de símiles, assim como imitadores de Michael Jackson fazem passos de moonwalk três vezes por minuto. Isso nem é bom para os imitadores, que nos cansam bem depressa, nem para o original, que acaba nos cansando também, devido ao excesso de uso alheio.

O maior perigo do símile é que ele se transforme, como tantos outros efeitos de estilo, numa simples prestidigitação de palavras destinada a fazer o leitor pensar: “Puxa vida, que escritor hábil, que cara inteligente”. O bom símile é aquele que produz no leitor um pequeno choque de surpresa e de reconhecimento, fazendo-o ver melhor aquele personagem, aquela cena, aquela situação, sem lembrar que está lendo um livro e que aquele livro foi escrito por alguém.




Uma versão ligeiramente diferente deste texto foi publicada na revista Língua Portuguesa, da Editora Segmento (São Paulo), # 51, janeiro de 2010.









terça-feira, 20 de março de 2012

2822) O paredão sonoro (20.3.2012)



O poeta Jessier Quirino desencadeou um movimento, na cidade de Itabaiana, em defesa do carnaval pacífico da população, ameaçado por uma prática tenebrosa do mundo de hoje: a invasão das ruas, das praças e das praias por carros munidos de gigantescas e ensurdecedoras aparelhagens de som. Segundo Jessier, os responsáveis por essa calamidade estacionam os carros, colocam seus “paredões” um ao lado do outro e fazem uma disputa pra ver quem consegue tocar música num volume mais alto. Não é preciso dizer que qualquer bloco ou troça carnavalesca não consegue ser ouvida (ou ouvir a si própria) se estiver no raio de algumas centenas de metros desse apocalipse sonoro. Resultado: ninguém na cidade brinca mais carnaval, somente uma dúzia de donos de “paredões”, que se instalam no centro da cidade, e produzem um tsunami de decibéis de tal ordem que algumas casas de Itabaiana tiveram suas paredes rachadas.

Isso não passa do crescimento de uma tendência que há muitos anos vem incomodando a Paraíba. (Incomoda o Brasil inteiro, mas fiquemos por enquanto no nosso raio de escuta.) Qualquer sujeito que tem dinheiro para comprar um carro e enchê-lo dos altofalantes mais potentes do mercado considera tão importante essa façanha que a cidade inteira precisa tomar conhecimento dela. Em João Pessoa estou cansado de ver, no calçadão da praia, o carro estacionado no meio-fio, todas as portas abertas, a tampa da mala levantada, o som bradando num volume insuportável, e o cara sentado na mureta, tomando cerveja sozinho e olhando pro carro. Não existe imagem mais patética da solidão urbana.

Claro que não são somente os solitários. Tem os folgados que andam de turma. Encostam o carro num bar cheio de pessoas conversando, escancaram as portas do carro, ligam o som em todo volume. Sentam os 4 ou 5 numa mesa, pedem duas águas e um prato de tiragosto. Trazem do carro um isopor cheio de latas de cerveja bem geladas e ficam ali, bebendo e ouvindo Chico Buarque ou Mozart em todo volume. E ai de quem for pedir para que eles abaixem o volume. Na melhor das hipóteses, ouve um “Você sabe de quem eu sou filho?”. Na pior, leva uma camada de pau.

Aliás, não é Chico Buarque nem Mozart que esse pessoal escuta, mas, mesmo que fosse, a grosseria e a estupidez seriam as mesmas. A poluição sonora produzida por esse pessoal (e juntem a eles os insuportáveis carros-de-som de propaganda, que fazem o que querem) é o indício de uma época em que manda quem tem dinheiro e truculência. No século 20 temia-se que as hordas selvagens (os pobres da periferia) destruíssem a sociedade. No século 21, as hordas são de ricos; o mundo será destruído de cima para baixo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

2070) “Berro Novo” (27.10.2009)



O novo livro-CD de poemas de Jessier Quirino (para o qual, como Van Gogh, contribuí com uma orelha) amplia com mais uma robusta ala a Casa Grande poética que o arquiteto de Itabaiana vem construindo para o poeta de Campina morar. Jessier absorveu o que a poesia matuta anterior a ele tinha para oferecer, mas dentro dela foi abrindo novas veredas, criando modelos, impondo um jeito personalizado de ver e de dizer as coisas. Não é um poeta matuto como foi Zé da Luz, assim como João Bosco não é um sambista como foi Cartola.

A contracapa do livro traz um saboroso poema que ilustra bem minha tese: “Deu um vento na Serra do Araripe / que entronxou uma igreja no Japão / e, por falta de padre e de beato, / vei de lá com a molesta feito o cão: / derrubou as muralhas lá da China / levantou um poeirão em Bagdá / se enfiou num esgoto no Catar / foi sair no quintal da longitude / estourou um bueiro em Roliúde / que até hoje tá dando o que falar: / foi uma moça querendo se esquivar / de mostrar a caçola e os possuído: / Marilyn Monroe agarrada com o vestido / e o vestido danado a se enfunar.”

Os temas de um poeta, matuto ou desmatuto, são todas as coisas que fazem parte de sua vida, tudo com que ele entra em contato e que lhe sugerem uma constelação de palavras carregadas de sonoridade e de significados, que é meio-caminho-andado para a produção de um poema. Um crítico purista diria que um poeta matuto não pode escrever sobre Marilyn Monroe porque ela não pertence ao seu mundo, e talvez citasse precedentes de poetas que jamais escreveram sobre estrelas do cinema. Jessier Quirino, impérvio a essas discussões, escreve sobre as coisas que vê e os lugares onde vai, e nisso talvez esteja mais próximo dos cordelistas e dos repentistas, para os quais nenhum assunto é vedado.

Jessier é o rei do símile, ao lado de Raymond Chandler, e cada página nos dá de graça um exemplo de flash concreto transformado em paralelo abstrato: “mais descansado do que caranguejo almoçando”, “tranquilo que só jumento em sombra de igreja”, “devagar que só enterro de viúva rica”. Atenção para o símile não-auto-explicativo, aquele que elimina o adjetivo ou advérbio inicial e recorre apenas à imagem, para que o leitor faça sua própria comparação. É o caso de “saiu que nem uma vaca acuada de cachorro”, que para mim evoca a imagem de uma criatura pesadona perseguida por uma mais leve, e que sai bamboleando, meio aos tropeções, sabendo que não pode fugir mas fugindo.

Lá pela cozinha do livro, a seção “Gaveta de Bugiganga” traz pequenas definições irretocáveis como “Cauby Peixoto é um dos maiores Frank Sinatras do Brasil”, sugestões cívicas (“Retirar as poltronas giratórias do parlamento e trocar por tamboretes. Vá lá que o cabra não faça nada, mas ficar encostado e rodando já é demais!”) e fascinantes sinopses como “História do padre tatuado na virilha que esqueceu o celular no motel e engoliu a lente de contato misturado com um Engov”. Aí a coisa desembesta.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1645) Brasil 0x0 Argentina (20.6.2008)



Para a torcida mineira foi uma noite de festa, com “muito samba, muito choro e rock-and-roll”. O rock ficou por conta das bandas mineiras (Skank, Jota Quest). O samba, das batucadas da torcida. E o choro coube aos torcedores favoráveis a Dunga (porque torciam por uma vitória consagradora, que não veio) e aos que lhe são contrários (porque torciam por uma derrota dessas de rolar cabeça de treinador, a qual também não veio).

Não farei comentários técnicos da partida porque confesso que não a vi por inteiro. Ia lá na Globo de vez em quando, mas passei a maior parte do tempo assistindo Jessier Quirino no programa de Fernando Faro, na TV-Cultura. E a poesia de mestre Jessier me dá inspiração para tentar entender o que sucede com a nossa Seleção. Todo mundo na Paraíba conhece aquele número de Jessier sobre o matuto que vai ao cinema mas, como não sabe ler, não entende as legendas, assim como não entende os diálogos em inglês. Isso de maneira alguma o impede de entender o filme, porque ele vê o bandido gritando: “Não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, seu fila da mãe!” Ora, todo mundo sabe o que foi que o cara disse, não é mesmo? Como diria um acadêmico, em exemplos que tais o nível vérbico prima pela superfluidade.

Eu também sou incapaz de entender o que Dunga tanto grita e tanto conversa com nossos jogadores, mas acho que o Brasil inteiro sabe qual é o “não-sei-que-lá” de Dunga. É o velho vocabulário zagueirístico e volântico do nosso futebol atual: “Fecha! Compacta! Cerca! Mata a jogada!”, e que o nosso saudoso Urai condensou numa fórmula perfeita: “Ataia o home, cumpade!” Tenho que ser justo com o treinador e com o time, que desta vez – pressionado e amparado por um Mineirão repleto – tentou jogar, tentou tocar, tentou marcar gols. Teve uma meia dúzia de chances, e pelo menos umas três bolas que mereciam ter entrado. A Argentina também perdeu seus golzinhos, mas francamente, se tivesse feito um deles o resultado seria injusto. Se alguém tinha de ganhar esse jogo tão truncado, seria o Brasil.

A Seleção Brasileira vem, desde a vitória na Copa de 2002, passando por mais remendos, reformas e agruras do que a lata dágua de Jessier Quirino. Parreira conseguiu levantar o melhor elenco possível de craques, mas enredou-se em politicagem, em delírios congratulatórios (os recordes de Cafu e Ronaldo, a tietagem desbragada da mídia brasileira, a logística principesca da CBF, etc.), e acabou amargando um fiasco histórico. Caiu. Ninguém quis sua vaga. Sobrou para Dunga, que pelo menos teve a coragem de estrear na profissão pegando logo de cara o maior rabo-de-foguete que ela oferece.

Fiquemos calmos; o Brasil não deixará de se classificar, nem que tenhamos de subornar um juiz para ganhar a repescagem contra os times da Oceania. Ninguém é besta de fazer uma Copa do Mundo sem o Brasil. Agora, ganhar? Só em 2014, amigos. “Vou-me embora pro passado”, pegando carona no DKW-Vemag de Jessier.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

1046) “Bandeira Nordestina” (23.7.2006)



Chega às minhas mãos o novo livro+CD de Jessier Quirino, Bandeira Nordestina. Jessier está ampliando o seu raio de ação, que começou nos livros e passou aos recitais (ou terá sido o contrário?) e agora já chega à gravação de CDs e à realização de shows em que música e poesia se misturam. Na tradição de Zé da Luz, Catulo da Paixão Cearense, José Laurentino, Chico Pedrosa, Jessier é o grande poeta regional de sua geração (que é a mesma minha), e tem trazido para este estilo de poesia uma contribuição própria, um modo de escrever próprio, que é o que distingue os grandes poetas. Eles não apenas assimilam tudo que foi feito antes, mas abrem novos caminhos para o que virá depois.

Eu sempre tive um problema com certo tipo de poesia matuta em que o poeta parece interessado apenas em estropiar a língua, em convencer o leitor de que a principal característica dos matutos é serem intelectualmente simplórios, e incapazes de falar e escrever português. Eu acho o contrário. O matuto comete erros, claro. Os diplomados também (ai das revistas e dos jornais brasileiros se não existisse um exército de revisores consertando os nossos solecismos!). O que distingue o matuto (e nisto a poesia de Jessier é exemplar) é sua capacidade fabulatória, de criar historinhas do nada, e alegorias a partir dos menores acontecimentos; sua visão crítica e irônica quanto aos costumes “da cidade”; sua percepção intuitiva das motivações por trás dos atos humanos; sua inesgotável capacidade de se maravilhar diante de coisinhas bobas da Natureza e da vida cotidiana; seu talento para injetar lirismo e filosofia em tudo que expressa o modo de vida rural, seus ofícios e lazeres, suas tradições e valores.

O que aos urbanos menos informados soa como erro-de-português é muitas vezes arcaísmo, ou modo de falar específico de uma comunidade rural, tão legítimo quanto o das comunidades urbanas (futebolistas, músicos, técnicos em informática, etc.). Sem falar nos neologismos, das derivações pessoais produzidas pela imaginação do poeta. É neste detalhe que Jessier se afasta um pouco dos poetas citados acima e se aproxima estilisticamente de poetas como Manuel de Barros ou prosadores como Guimarães Rosa, sempre dispostos a recombinar sufixos e prefixos, derivações por semelhança, conjugação verbal de substantivos, substantivação de adjetivos e assim por diante.

Neste livro mais recente há obras-primas de elegia rural como “A Cumeeira de Aroeira Lá da Casa Grande”, retratos da cultura regional como “Endereço de Matuto”, “O Dizido das Horas do Sertão”, numerosas e ferinas sátiras políticas. E há principalmente poemas românticos e maliciosos, cheios de verve e de finura descritiva: “Maria Pano de Chão”, “Fé Menina”, “A Cor dos Beicinhos Dela”, “Dois Brincos Recém Tirados”. A poesia matuta, como eu a entendo, é tão variada e cheia de sutilezas quanto a poesia urbana. É a mesma orquestra sinfônica, só que com outros instrumentos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

0739) Data vênia, Meritíssimo! (31.7.2005)



Circulam rumores na imprensa em que sou acusado de malversação de fundos, e de transações financeiras com entidades suspeitas. Quero usar este espaço para reafirmar aos meus leitores que meu comportamento sempre se pautou pela mais rígida lisura e austeridade no trato da coisa pública. Sempre pugnei por um ideal de compostura e transparência, norteando-me por princípios democráticos consentâneos com a minha história pessoal. Não posso, portanto, admitir que indivíduos inescrupulosos venham assacar leviandades que atingem diretamente a minha probidade e a minha honra.

Calma, leitores. Não endoideci, nem fui convocado pela CPI. É que a língua portuguesa (ou brasileira, como quiserem) é uma das coisas que mais me interessam. Em se tratando do nosso idioma, sou um grande “prestador de atenção”, como diz o poeta Jessier Quirino. E tenho percebido, ao longo das décadas, um curioso fenômeno. Toda vez que um indivíduo é acusado de desonesto, a temperatura da linguagem dele sobe alguns graus. Quanto mais ele precisa se defender, mais aumenta a febre de falar difícil.

Vejam bem: não faz a menor diferença se o sujeito é honesto ou não, inocente ou culpado. O que me interessa é a reação lingüística; a síndrome vocabular. É um comportamento instintivo de defesa, algo humano, demasiado humano. Algo parecido com o que acontece com as mulheres, que, num momento de nervosismo ou desorientação levam a mão ao cabelo, para ver se está tudo bem, e com os homens, que em situações de angústia levam a mão ao saco, para ver se ele continua no lugar.

Minha impressão é de que quando o cara é acusado de desonesto ele vislumbra fugazmente a possibilidade de ir para a cadeia, e a primeira coisa que lhe ocorre é ligar para o advogado. Antes mesmo de pegar o celular e buscar o advogado propriamente dito, ele recorre ao advogado virtual que todo brasileiro traz dentro de si: um conjunto de palavras latinas (vade mecum, habeas corpus, sursis...) e aquele vocabulário barroco que é o mais típico cacoete dos nobres causídicos, assim como a péssima caligrafia é cacoete dos médicos. Ao se sentir no banco dos réus, o sujeito vira defensor-público de si mesmo.

E tem uma outra coisa. No país dos bacharéis, no país dos beletristas, no país em que alfabetização é privilégio de classe e cultura literária é luxo das elites, o sujeito sabe que basta falar difícil para já ir se inocentando. Essa coisa de ter roubado, de ter sonegado, de ter matado, de ter traficado, é coisa pra quem diz vambora, cumequié, bróde, mermão, tá ligado. Um cidadão capaz de usar com propriedade expressões como objurgatória, exprobrar ou data vênia não pode ser um bandido. Basta dirigir-se ao colendo tribunal ou ao ínclito colega... e tudo fica entre colegas, entre pares, entre iguais. E a pátria continua tranqüila, pelo menos enquanto os habitantes das bocas-de-fumo e os inquilinos de Bangu 1 não quebrarem o código do Aurélio e do Houaiss.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

0583) Jessier Quirino, Fellini e Hitchcock (30.1.2005)




O CD duplo Paisagem de Interior de Jessier Quirino (Edições Bagaço) traz uma interessante lição de cinema que eu considero muito próxima dos ensinamentos de Alfred Hitchcock e Federico Fellini. 

No disco 1, a faixa “Matuto no Cinema” reproduz o relato de um matuto que vai à capital e assiste um filme legendado. Ele conta como o Bandido pegou o Artista, amarrou ele todinho com embira americana, não tinha quem soltasse, aí esfregou o dedo na cara do Artista e disse: “Não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, seu feladaputa!...” Aí tu pensa que o Artista ficou com medo? Ficou nada!... Ele olhou assim pro Bandido e disse: “Não-sei-que-lá não-sei-que-lá não-sei-que-lá, um carái!...”

Isso é só um trechinho; a faixa tem 8 minutos, e como o resto do disco, é uma risada do começo ao fim. Mas isto capta de maneira intuitiva e fiel uma das coisas básicas do cinema: o fato de que o diálogo em geral é irrelevante. O que acontece na tela, a ação dos personagens, seus gestos, suas atitudes, o modo como a câmara os enquadra e circula em torno deles, descreve com muito mais fidelidade o que está acontecendo do que o diálogo propriamente dito. 

A sintaxe do cinema se formou no tempo em que ele era mudo, felizmente. Criamos uma linguagem que não existia antes, e é uma pena quando deixamos de utilizá-la.

Hitchcock dizia que um dos seus prazeres preferidos era filmar uma cena erótica em que meia dúzia de pessoas tomavam chá e conversavam sobre o clima, mas a câmara e os olhares revelavam o tempo inteiro o flerte sutil, a provocação sexual, o duplo-sentido nas frases entre um homem e uma mulher. 

Fellini sempre teve o costume de dirigir cenas inteiras sem saber o que os personagens diriam. Mandava que eles dissessem números ao acaso. Marcello Mastroianni se inclinava sobre Anouk Aimée e dizia: “Doze, quinze, vinte e seis... Ah, trinta e quatro!...” E ela respondia, misteriosamente: “Sessenta e sete... sessenta e oito...” 

Depois, durante a montagem, ele e o roteirista davam tratos à bola para escrever o texto que deveria ser dublado. Vejam, em qualquer filme de Fellini, como o movimento dos lábios raramente coincide com o que ouvimos na trilha sonora.

O “não-sei-que-lá” não deve ser redundante; deve ser um canal a mais de possibilidades criativas. 

Existe o diálogo meramente formal, que é esse não-sei-que-lá descrito por Jessier, onde geralmente se dizem coisas irrelevantes, e a cena diz tudo. E existe o diálogo que é essencial, que precisa ser compreendido, para que a cena ou o filme façam sentido. 

Neste caso, o diálogo é uma espécie de “canal literário”, onde a palavra pode ser usada como uma dimensão a mais: a dimensão da palavra poética. 

Em Hiroshima, meu Amor de Resnais os diálogos (ou monólogos, mais freqüentemente) correm em paralelo às imagens para construir uma narrativa cujo peso é verbal e visual, em partes iguais.